quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"Senta-te aqui comigo"


"O real não está na saída nem na chegada: ele
se dispõe para a gente é no meio da travessia."
João Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas

Ruptura, desapego, inquietude, dentre outras tantas ousadias de um menino apaixonado pela vida e amante eterno de sua vocação. Estes são elementos que requerem destemor e coragem para usá-los com sensatez e domínio nas linhas e entrelinhas dos pensamentos que nesta obra se tecem. 
Adentrá-la apenas com os olhos da simples razão ou da exacerbada emoção incorreria o risco de enrijecer e limitar a liberdade que o autor tanto propõe. É preciso mais: seguir arriscando por entre as linhas de cada pensamento sem a pressa e sem a obrigação de concluí-lo, pois aqui o poeta nos remete às múltiplas possibilidades de transcender o casual e as estruturas institucionalmente impostas. É preciso também desnudar-se das roupagens que até então carregamos e nos lançarmos nas águas, improvavelmente quietas ou agitadas, e deixarmo-nos contagiar pela beleza que se nos apresenta.
E essa maestria toda é fantasticamente orquestrada pelas mãos desse artista que consegue tanto pintar os pensamentos do lugar onde se encontra como distanciar-se do foco, contornando e discernindo as embrutecidas estruturas que sustentam as correntes que norteiam a sociedade, encontrando possibilidades e novas paisagens.
Eis o hospitaleiro convite, que surge em meio a essa magnífica alquimia, em que o autor se aproxima para um dedo de prosa, nos traz para perto de seu sagrado solo e nos chama de irmão: "Senta-te aqui comigo! Abramos bem a janela! Abramos bem o coração" e, tomo a liberdade de continuar, nos permitamos dialogar por onde a água nos quiser levar, natureza adentro ou afora.
Gelson, amigo e professor dedicado à arte de ensinar, um verdadeiro capitão que honra com seus alunos marinheiros e a esses propicia o navegar por dentre as inéditas águas do conhecimento que margeiam este mundão, ora seguindo a correnteza, ora rompendo com o fluxo e desbravando novos horizontes do pensamento. Um educador, de tão eloquente e apaixonado pela vida, se faz menino e aluno frente aos seus educandos. 

"Irmão, senta-te aqui comigo!"

Ailton Domingues de Oliveira


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