E os passos não forem mais meus
Escritos em Tempos
O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Entre o aqui e o que há de vir
E os passos não forem mais meus
sábado, 25 de julho de 2026
Uma questão de escolha e saúde
Escolhemos o lado de nossas batalhas de acordo com as convergências
Fui até onde deu, pois o desgaste nunca se beneficiou de possibilidades esperançosas de melhorias
Baseado numa vasta lista de apontamentos que fui somando ao longo de um curto percurso
Tenho comigo que todo coletivo precisa de regras para se organizar e trabalhar
quinta-feira, 18 de junho de 2026
No protagonismo dos meus dias
Enquanto aguardava minha mãe na recepção da clínica odontológica, degustava da presença de Rubem Alves através de seus pensamentos pintados em texto. O escolhido para me acompanhar nesse dia foi "As cores do crepúsculo, a estética do envelhecer". Como em todas as suas obras de arte, esse também não deixou a desejar. A sutileza profunda e simples com que ele narra colorido as cenas vividas, bem como o presente e os sonhos, me trazem leveza, paz, desejo pela vida, sentimentos vários e por vezes ofuscados frente a correria desenfreada que nos atolamos sem perceber. Sempre que me sinto acelerado diante das coisas mais cotidianas percebo que é momento de pausar, repensar e refazer algumas rotas. Então eu recorro a esse mestre da vida e das palavras temperadas com cores, sabores, cheiros e amores. É um momento ímpar de reconexão comigo mesmo, com a vida, com as coisas de valor, com o belo, com a arte, com o simples, com quem merece tempo e dedicação.
Como de costume, vou lendo marcando algumas linhas e frases no decorrer do livro, aquelas que mais me chamam a atenção. Por vontade e convicção, pintaria colorido cada trecho de uma cor diferente, porque simplesmente o todo é fascinante. Rubem Alves escreve como se estivesse sentado ao seu lado te contando sutilmente os causos preservados na memória e as divinas histórias que cruzaram com a sua. Um maestro da arte.
Voltando ao ponto em que estou sentado e aguardando minha mãe. Nesse tempo de espera observei um casal à minha frente. Beiravam uns sessenta e poucos anos. Cada um com o seu celular e vendo as coisas de seu íntimo interesse. Pareciam desconhecidos. Um guarda chuva entre seus bancos dava a impressão que ali havia um muro. Só tive ciência de que era um casal quando o marido foi chamado para o atendimento e na volta falou com a esposa, que prontamente se levantou. Se levantou tão calada quanto no momento em que esteve se entretendo com o celular. Ele foi à frente e sua senhora atrás. Ali, por mais uma vez, talvez a milésima primeira, percebi nitidamente o quanto as pessoas ao nosso lado estão distantes. O muro das redes sociais tem se erguido e distanciado as pessoas de suas relações, de sua vida, dos próximos e de si mesmo.
Na contramão da cena do casal à minha frente, na fileira de cadeiras atrás de onde eu estava sentado, um outro casal. Havia muita conversa entre eles. E isso também me chamou a atenção. Talvez porque essa cena é que deveria ser o normal de se ver. Só que não! O normal moderno é cada um no seu mundo digital e se algo me chama a atenção compartilho com as pessoas afins, seja a pessoa que está na sala ou literalmente sentada ao meu lado.
Voltemos à cena de uma relação de casal normal e que está se tornando exceção. O casal bom de prosa me fez quebrar o pescoço de curiosidade. Queria vê-los e, talvez, até parabenizá-los, mas me contive. Por três vezes eu olhei disfarçadamente. Óbvio que tinha intenções de memorizar a imagem, observar caraterísticas e modos que serviriam para esse texto.
Notei que o homem carregava uma pochete de mão e lá estava seu celular, guardado. Ele também segurava um pequeno guarda chuva, porém o mesmo não estava servindo de fronteira divisória entre o espaço de sua cadeira e o de sua esposa. Bem diferente do casal da frente. A mulher segurava uma bolsa em seu colo, que também poderia guardar o seu celular. Descrito a cena que pude observar rapidamente, atenho-me ao som das prosas que esse casal desenvolveu suavemente. Mantinham um tom tranquilo, ao relembrar causos antigos. Falaram do tempo e de pessoas de seu convívio. Riram de episódios engraçados pelos quais vivenciaram. A melhor parte foi quando eu ouvi o marido contando nos dedos "mindinho, seu vizinho, pai de tudo, fura bolo, mata piolho". Ah, como isso foi inédito aos meus ouvidos. Olhei para o livro e pensei "Rubão, güenta aí meu irmão! Nóis têm muito tempo pra prosear, mas esse casal aqui tá um trem bão de se vê e ouvi". Tenho certeza de que Rubão entendeu. Foi inédito para um tempo como esse, de pressa e de silêncio obsequioso imposto pelas redes sociais, mas o fato é que isso remeteu a saudade. Saudades dos meus avós.
Eu estive entre dois mundos, dois casais, duas relações, duas atmosferas completamente diferentes. Ambas me chamaram a atenção, mas só uma me trouxe um acalento, um gostinho diferente e um pensar para os meus dias. Já vinha sentindo o efeito acelerado do mundo digital. Você abre o celular para fazer apenas uma coisa e de repente está rolando de notícia em notícia a perder de vista e sem perceber o tempo passar. Esteve preso por algoritmos que selecionaram as notícias conforme os seus cliques e likes. É isso, através de um monitoramento já perceptível por parte das cadeias de comando das redes sociais, as quais possuem profissionais gabaritados para nos entreter, ficamos refém. Ser refém também pode se tornar um vício. O efeito da abstinência é sentido quando se toma uma atitude contrária, quando se busca sair desse efeito cativamente viciante.
No início de junho vim me preparando para um tempo das redes sociais. Fiquei somente com o whatssapp e telefone como meios de comunicação. Como as pessoas já não fazem mais chamada de telefone, as que aparecem geralmente são de IA de empresas que querem vender algo ou, às vezes, cobrar. Só clicar em rejeitar chamada, para ambas, óbvio. Fechado temporariamente minhas redes sociais parti para um propósito que foi o ponto de apoio para essa decisão: retomar minhas leituras com mais afinco e prazer. Concluí a travessia dessa obra de Rubem Alves e iniciei outras duas simultaneamente: O despertar do tigre - curando o trauma (Peter A. Levine) e A sublime arte de envelhecer (Anselm Grün). Em menos de duas semanas consegui avançar pouco mais de 500 páginas lidas entre essas 3 obras.
A moral da história é que não tem moral nenhuma. É uma experiência única, particular e que me fez sentido. Redescobri propósitos, me senti no controle e isso fez um bem danado. Sim, porque por diversas vezes escuto pessoas reclamando a falta de tempo, que as redes sociais a consomem, que não conseguem ficar longe delas, entre outras coisas e tudo isso porque não conseguem retomar esse controle. Já fiz isso em outros momentos da minha vida, desde que as tais redes sociais foram adentrando em nossas mentes. Eu senti que esse era o meu momento e por isso resolvi me afastar. Em alguma outra oportunidade, com certeza, voltarei. Pode ser ao final desse texto, daqui alguns dias, semanas ou meses, tanto faz. Nesse tempo quero apenas curtir outras coisas, como presenças vivas, livros, artes, pessoas e a minha própria companhia de travessia. Um fato interessante que pude perceber é que isso me trouxe paz. Paz, tranquilidade e sem ansiedade digital.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
O psicodrama e o meu lugar de fala
Diante de algumas situações que necessitam uma análise
crítica e apurada, sempre me recordo de uma fala do professor de direito e
também ex-reitor da UNB, José Geraldo de Souza Júnior, na Câmara dos Deputados,
em 14/06/23: "(...) Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua
visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que
a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver não o que
existe, mas o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por
um processo cognitivo de historicização. Então eu não posso discutir um tema
que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo. Eu vejo outra coisa. (...)
São referenciais que significam que o real não é aquilo que existe, mas é a
representação que a gente faz, de como a gente vê. Paciência né! Por isso que
há pluralidade de concepções de mundo."
Essa é uma fala que se tornou viral no universo pensante.
Sempre me questiono se a minha visão de mundo ou especificamente sobre
determinado assunto em pauta é ampla e contempla o máximo da parte de um todo
ou é apenas um recorte daquilo que eu tenho como experiência e ciência, ou
ainda como diz o professor José Geraldo, será que tenho recorte cognitivo para
tal? O auto questionamento me faz refletir e, no mínimo, buscar conhecimento
sobre o que de fato ainda não conheço com vastidão. Recuso-me a repetir falas
sobre determinados assuntos mesmo que essas falas tenham sido proferidas em
universo acadêmico por quem algum dia ocupou o papel de levar conhecimento e
informação. Não julgo a ciência que não conheço, mas me recuso a aceitar calado
quando alguém se atreve a falar de forma enviesada sobre alguma realidade
recortada por um processo cognitivo, que em suma, demonstra apenas não ter
conhecimento de causa, tampouco norral. Portanto, se torna mera falácia.
O cerne do meu incômodo hoje vai além de uma necessidade de
defender um dos meus lugares de fala e olha que nem é sobre o Corinthians ou sobre
a política que traz em suas pautas a luta justa e democrática pelas minorias e
a igualdade de direito para todos. Falo hoje do prisma da psicologia enquanto
ciência. Durante mais de 12 anos em cadeiras acadêmicas, sendo os últimos 4,5
anos na ciência que estuda a mente, sempre presenciei e participei de debates
que incluíam pontos de divergência entre correntes de pensamentos diferentes, como
estratégia, método, eficácia, exatidão e verdade. Entendi, desde o primeiro dia
de aula, que tudo o que nos foi apresentado enquanto abordagens eram de fato
respaldadas cientificamente. Ponto.
Muito mais do que o método e a técnica em si, existe algo que está além. E, de
tão além, também está para poucos. Yung disse “ao tocar uma alma humana seja
apenas uma alma humana.” Isso me basta. Posso dizer que literalmente me
fascinei por cada uma das disciplinas que me foram apresentadas, porque via no
brilho dos olhos de quem dirigia a cena, a convicção expressada em tom de
satisfação e também de amor ao que se faz. Profissionais de abordagens
diferentes trazendo o melhor daquilo que escolheram para trilhar. Claro, no
meio do caminho também encontrei quem só cumpria tabela... Faz parte.
Minhas melhores lembranças são nomes. As piores também. Mas
eu valido aquilo que considero positivo para a minha construção profissional.
Nomes que transcenderam seus papeis acadêmicos e trouxeram sentimentos
verdadeiros, exemplos e coragem. Ainda no universo acadêmico da psicologia
encantei-me pela abordagem humanista e fenomenológica existencial. “Nesse mundo
estamos uns pelos outros”, é mais que uma frase, é uma atitude, uma ação que
dispensa palavras. E isso me fez enveredar por esse caminho, dentro e fora da
universidade.
Na academia, cada um defendia o seu lugar sem a necessidade
de diminuir o lugar do outro. Fora do universo acadêmico impera a lei da selva:
não tem lei. E isso empobrece o movimento como um todo. A ética sobre o espaço
do outro inexiste em grande parte dos profissionais. E, novamente, quem necessita
diminuir a escolha do outro, ou a abordagem que o outro escolheu, fala mais de
si e sua vida profissional-social do que daquilo que desconhece.
Bom, há exatamente dois anos da conclusão do curso minha
vida se cruzou com o Psicodrama. Foi um encontro de dois. Um encontro de
lugares. Um sentimento de retorno pra casa... e por incrível que pareça esse
lugar se chama Casa das Cenas – Clínica e Escola de Psicodrama. Cheguei por um
motivo e permaneci por infinitas razões. Participei de eventos como convidado e
logo me inscrevi na pós em Psicodrama. O que me cativou? O humano. Wesley
Miranda me atendeu a primeira vez como psicólogo. O acolhimento em si foi além,
me fez sentir-se à vontade, conectado e com o desejo de querer conhecer melhor
esse lugar. A gente se apaixona, muitas vezes não pela “matéria em si”, mas
pela forma com que o outro expõe sobre.
Fui ficando, entendendo, sentindo e querendo conhecer mais e
mais. Outros nomes foram se tornando familiares: Cacilda e Jacqueline, por
exemplo. Já pensava, reconhecia e sentia o psicodrama enquanto movimento vivo. Como
abordagem humanista ele me deu muito mais que possibilidades, apresentou
lugares, aguçou a espontaneidade, acirrou a criatividade e me instigou à
travessia. Passei a compreender na prática que ele vai além de uma abordagem em
si, é também um suporte enquanto ferramenta para outras abordagens e outras
ciências e um modo de viver.
Hoje, após dois anos de pós graduação, estágio na clínica
social da Casa das Cenas e com atendimentos clínicos me abstenho de explicar
para quem enxerga o psicodrama de forma enviesada, ou como diria novamente o
professor José Geraldo “eu não tenho como discutir com você porque a sua
visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que
você já tem escrito na sua cognição.”
O que de fato posso relatar é a partir da minha experiência
e do retorno dado por quem esteve comigo no setting terapêutico. O resultado de
um trabalho construído com dedicação, responsabilidade, ética, respeito e amor
ecoa feito música. Há Profissionais e profissionais em todas as abordagens e
cada um é responsável por seus atos e colhe os frutos do seu empenho e
dedicação. Estranha-me muito quando vejo e ouço profissionais buscando o
mercado atacando e invalidando outras abordagens. Entendo que na ausência de
capacidade de conquistar espaço a única forma é falando do espaço do outro.
A luta pela detenção da verdade, pelo podium do saber, pela
abordagem mais eficaz é tão antiga quanto a história da humanidade. “Afinal,
quem é o detentor da verdade?” ou ainda “qual abordagem é a melhor?” É uma luta
que está longe de um fim amistoso. Isso não me amedronta, mas incomoda. Fato é
que estou aqui, unindo forças para não deixar que pessoas sem “visão de
mundo”, ou melhor, “com uma visão recortada e enviesada” deturpem o
espaço que não conhecem. A multiplicidade de correntes de pensamentos e ações é
o que faz o universo repleto de opções. E as pessoas, enquanto profissionais, atuam
dentro da perspectiva que faz sentido em sua vida pessoal, social e
profissional, e suas ações promovem resultados significativos na vida de outras
pessoas. Por outro lado, enquanto clientes, elas permanecem no lugar em que se sentem
acolhidas, reconhecidas e respeitadas, e isso diz respeito à conexão humana
pautada na ética profissional.
Eu venho compreendendo o meu papel que se desdobra em outros
vários. Reconheço-me como um ser político, social, familiar e profissional que
atua de forma específica e integrada diante dos papeis assumidos. Não tem como
dissociar a atuação clínica das lutas sociais. Aquietar-se frente as injustiças
não vejo como algo condizente com o papel de psicólogo e psicodramatista. Isso
não é optar por bandeiras, mas lutar por democracia e justiça.
O psicodrama é uma abordagem que abrange o ser humano como
um todo. Suas relações importam, tanto quanto seus sentimentos, traumas e as
demandas que ora dificultam o seu ser, ora o retira de cena e lhe rouba o
protagonismo.
Ainda sobre a minha trajetória na clínica, em que o
psicodrama tem forte presença, subscrevo o seguinte pensamento: “Quem precisa
se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.” (Renato
Freitas)
terça-feira, 24 de março de 2026
Ecos: Necessários e Possíveis
E quando o comunicar se torna cansativo?
Há nisso uma necessidade urgente de repousar sob o solo do silêncio e à sombra do pensamento?
Seria um grito de desespero frente à corrida desenfreada para um topo imaginário?
Faltaria aí a essência vívida e vivida no expresso horizonte dos sonhos?




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