terça-feira, 18 de agosto de 2026

Carta para a Pessoa que eu fui - por A.S.C.P.



Carta para a Pessoa que eu fui

Querido "eu do passado",

Eu sei que talvez você não saiba por onde começar a ouvir tudo isso. Foram anos. Anos em que você amou, sonhou, acreditou, construiu, abriu mão, insistiu, se machucou, perdoou e tentou, muitas vezes, mais do que deveria.

Mas antes de qualquer coisa, eu quero que você saiba: eu tenho orgulho de você.

Tenho orgulho do homem que você foi naquela relação.

Você amou de verdade. Se entregou. Esteve presente. Tentou fazer dar certo. Você fez planos, dividiu sonhos, criou expectativas e acreditou que aquele amor seria para a vida toda. E não há vergonha nenhuma nisso.

Você não foi fraco por ter amado tanto.

Você não foi bobo por ter acreditado.

Você não perdeu por ter tentado.

Você simplesmente foi alguém que amou com aquilo que tinha naquele momento.

E eu sei que, olhando para trás, existem coisas que você gostaria de ter feito diferente.

Talvez você tenha se calado quando deveria ter falado.

Talvez tenha aceitado coisas que não deveria.

Talvez tenha colocado a felicidade de outra pessoa à frente da sua própria.

Talvez tenha insistido em momentos em que já estava cansado.

Talvez tenha tido medo de perder e, por esse medo, tenha se perdido um pouco de si mesmo.

Eu quero te perdoar por tudo isso.

Perdoar você pelas escolhas que fez quando ainda não sabia o que sabe hoje.

Perdoar você por ter permanecido quando achava que precisava permanecer.

Perdoar você por ter acreditado que precisava fazer mais, dar mais, compreender mais, suportar mais para ser amado.

Perdoar você pelas vezes em que se culpou pelo que não estava sob seu controle.

E, principalmente, perdoar você por ter esquecido, em alguns momentos, o quanto também merecia ser cuidado.

Você fez o que conseguiu fazer com a consciência, a maturidade e as ferramentas que tinha naquela época.

Você não precisa continuar se punindo por uma história que já terminou.

Aquela relação fez parte da sua vida. Não foi toda a sua vida.

Ela teve momentos lindos. Teve carinho, companheirismo, aprendizados, sonhos e memórias que jamais precisam ser apagadas para que você siga em frente.

Mas também teve momentos em que você se sentiu sozinho mesmo estando acompanhado.

Momentos em que suas necessidades ficaram em segundo plano.

Momentos em que você precisou questionar o seu próprio valor.

E eu quero que você saiba que não precisa mais voltar para esses lugares.

Você pode guardar o que foi bonito sem desejar voltar.

Pode reconhecer o que aprendeu sem romantizar o que te machucou.

Pode agradecer pelo que viveu sem carregar para sempre aquilo que não te pertence mais.

"Meu querido eu", você sobreviveu a dias que achou que não conseguiria suportar.

Você levantou quando não queria levantar.

Continuou trabalhando, continuou vivendo, continuou tentando entender tudo enquanto por dentro estava tentando juntar os pedaços.

E talvez você ainda não perceba, mas existe uma força enorme nisso.

Você saiu dessa história diferente.

Mas diferente não significa quebrado.

Significa transformado.

Hoje você sabe mais sobre o que quer.

Sabe mais sobre o que não aceita.

Sabe mais sobre os seus limites.

Sabe que amor não deveria exigir que você desapareça para que o outro permaneça.

Sabe que reciprocidade importa.

Sabe que paz também é uma forma de amor.

E sabe que estar sozinho não significa estar perdido.

Então, "meu eu" do passado, eu não quero te abandonar.

Quero te convidar para caminhar comigo.

Eu, o que existe agora.

Vem comigo.

Deixa para trás aquilo que já não podemos mudar.

Não precisamos carregar cada lembrança como uma dívida.

Não precisamos continuar procurando respostas para todas as perguntas.

Algumas coisas simplesmente terminaram.

E tudo bem.

Agora temos novos caminhos para conhecer.

Temos sonhos para realizar.

Temos objetivos para alcançar.

Temos uma vida inteira que ainda não conhecemos.

Quero que você venha comigo para construir a nossa melhor versão.

Quero que a gente volte a sonhar sem medo.

Quero que a gente faça planos que sejam nossos.

Quero que a gente se permita conhecer lugares, pessoas, experiências e versões de nós mesmos que ainda não existem.

Quero que a gente cuide mais da nossa vida, da nossa carreira, dos nossos sonhos e das pessoas que realmente caminham ao nosso lado.

Quero que a gente volte a sentir orgulho de quem somos.

E, quando o medo aparecer, eu quero lembrar você de uma coisa:

Nós já atravessamos o pior.

Não precisamos ter pressa para esquecer.

Precisamos apenas continuar.

Um dia de cada vez.

E se algum dia você sentir saudade, tudo bem.

Se algum dia lembrar e doer, tudo bem.

Se algum dia se perguntar se poderia ter feito diferente, tudo bem.

Mas não volte para trás para tentar mudar uma história que já cumpriu o papel dela.

Olhe para frente.

Porque existe um "eu" que ainda vai realizar coisas que aquele menino de anos atrás nem imaginava.

Existe uma vida esperando para ser vivida.

Existem sonhos esperando coragem.

Existem lugares esperando nossos passos.

Existem pessoas que ainda vamos conhecer.

E existe, principalmente, um homem que ainda vamos nos tornar.

Obrigado, "meu querido eu".

Obrigado por ter amado.

Obrigado por ter tentado.

Obrigado por ter suportado.

Obrigado por ter acreditado.

Obrigado por ter chegado até aqui.

Eu não tenho mais raiva de você.

Não tenho vergonha de você.

Não quero apagar você.

Quero apenas pegar sua mão.

Porque você fez parte de mim.

E agora nós vamos juntos.

Você fica com as memórias.

Eu fico com os aprendizados.

E nós dois seguimos em direção ao futuro.

Com mais amor próprio. Mais coragem. Mais sonhos. Mais verdade. Mais vida.

A nossa história não terminou naquele relacionamento.

Na verdade, talvez seja justamente agora que a nossa história esteja começando de verdade.

Vamos, meu querido "eu do passado".

Tem muita vida pela frente.

Com carinho,

"Eu do presente".


O autor dessa obra optou pelo anonimato.
A.S.C.P. - 11/08/26

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Entre o aqui e o que há de vir



Quando eu perder a lucidez
Não estarei mais só 
Em meio a tantos ausentes

Nos braços da saudade 
Estarei me reconfortando
Em algum lugar da minha mente

Meu corpo já não mais se importa
Em qualquer beco, em qualquer sol
Eu me refaço em pensamentos

Entre a montanha e o deserto
Os horizontes se misturam à eternidade
Feito rio e mar, sonho e coragem

E é lá que eu quero estar
No silêncio do que ainda será
Certo do que um dia já foi

Mas as águas vão lavar
E o tempo vai levar
Até as lágrimas secar

E quando tudo for desnecessário
O que não foi, não precisa mais ser
E o que há de vir pouco importará

Pois nem todos os novos começos são planejados 
Alguns nascem da necessidade 
E até da consequência

Quando eu perder a sã loucura
E os passos não forem mais meus
Só me resta o deleite da travessia

Um recanto pra repousar
Um sonho pra sonhar
Uma viagem pra seguir

Quando meu corpo não mais me pertencer
Pouco importará onde será o entardecer
Seguirei firme até o meu escurecer

Meu coração pela janela se jogou
Minha alma pelos mundos vagueou
E o meu foi o que me salvou

Quando eu não estiver mais pronto
Pronto estarei para ser o que for preciso
Lá fora eu morro, mas aqui dentro eu vivo

É aqui que eu quero estar
Durante a viagem e depois da passagem
Minhas raízes e também as ramagens

Quando eu não puder mais ser
Que eu seja apenas lembrança
Lembrado em minha eterna criança

Sou nada mais do que já fui
Amor e coragem, prosa e poesia
Perseverança e luta, eterna travessia


sábado, 25 de julho de 2026

Uma questão de escolha e saúde




De onde se ajuntam os de gosto semelhantes, objetivados por afinidades no horizonte
Eis que se formam uma aliança promovendo o discurso de um bem comum
Tão logo o vislumbre aguçou os sentidos, e os olhos almejaram a coroa do poder
O posto auto ocupado no topo se torna objeto de alienação, segregação e perseguição

Os que não se curvaram à verticalidade exploratória de poder e status logo se evadiram 
Acredito que quem desertou conscientemente e quem ainda segue sob a sombra da dúvida
Apegou-se às possibilidades daquilo que o espaço coletivo poderia ou possa vir a ser 
E fazer acontecer de forma plural e individual, quem sabe

É uma questão de escolha, levantaram-se as vozes que se opuseram à maquiavélica manipulação
Escolhemos o lado de nossas batalhas de acordo com as convergências 
Ora divergências de nossos valores, com o que se aplica no espaço coletivo 
Fui até onde deu, pois o desgaste nunca se beneficiou de possibilidades esperançosas de melhorias

O básico requeria excesso de formalidade, as mínimas coisas sempre expuseram a chancela do status ao final
Como uma necessidade vital de mostrar quem manda, a necessidade de auto afirmação constante
Invocando a hierarquia como uma exigência à continência, foram mais que meros detalhes 
Que, no fundo, esfriaram relações, cortaram conexões exaltando uma total falta de empatia
 

Baseado numa vasta lista de apontamentos que fui somando ao longo de um curto percurso
O melhor dessa batalha foi entender que ela não me pertence
Como o silêncio diante dos fatos atípicos não me apetece
O melhormente saudável e em prol do meu nome, foi desembarcar o quanto antes dessa loucamotiva egocêntrica e narcísica

Tenho comigo que todo coletivo precisa de regras para se organizar e trabalhar
Só que o mesmo, o grupo, também tem vida própria dentro do aspecto democrático
Ele é soberano e deveria ter autonomia para decidir o que é melhor, o que é viável
Uma liderança ímpar jamais se atreveria a ser protagonista além de sua equipe

Eu escolho não me calar, não ser conivente, nem refém 
Tampouco testemunha silenciada de um sistema engessado, manipulador 
Que visa única e exclusivamente perpetuar-se no poder e deleitar-se no status
Eu escolho não fazer parte, escolho a liberdade

quinta-feira, 18 de junho de 2026

No protagonismo dos meus dias



Enquanto aguardava minha mãe na recepção da clínica odontológica, degustava da presença de Rubem Alves através de seus pensamentos pintados em texto. O escolhido para me acompanhar nesse dia foi "As cores do crepúsculo, a estética do envelhecer". Como em todas as suas obras de arte, esse também não deixou a desejar. A sutileza profunda e simples com que ele narra colorido as cenas vividas, bem como o presente e os sonhos, me trazem leveza, paz, desejo pela vida, sentimentos vários e por vezes ofuscados frente a correria desenfreada que nos atolamos sem perceber. Sempre que me sinto acelerado diante das coisas mais cotidianas percebo que é momento de pausar, repensar e refazer algumas rotas. Então eu recorro a esse mestre da vida e das palavras temperadas com cores, sabores, cheiros e amores. É um momento ímpar de reconexão comigo mesmo, com a vida, com as coisas de valor, com o belo, com a arte, com o simples, com quem merece tempo e dedicação. 

Como de costume, vou lendo marcando algumas linhas e frases no decorrer do livro, aquelas que mais me chamam a atenção. Por vontade e convicção, pintaria colorido cada trecho de uma cor diferente, porque simplesmente o todo é fascinante. Rubem Alves escreve como se estivesse sentado ao seu lado te contando sutilmente os causos preservados na memória e as divinas histórias que cruzaram com a sua. Um maestro da arte. 

Voltando ao ponto em que estou sentado e aguardando minha mãe. Nesse tempo de espera observei um casal à minha frente. Beiravam uns sessenta e poucos anos. Cada um com o seu celular e vendo as coisas de seu íntimo interesse. Pareciam desconhecidos. Um guarda chuva entre seus bancos dava a impressão que ali havia um muro. Só tive ciência de que era um casal quando o marido foi chamado para o atendimento e na volta falou com a esposa, que prontamente se levantou. Se levantou tão calada quanto no momento em que esteve se entretendo com o celular. Ele foi à frente e sua senhora atrás. Ali, por mais uma vez, talvez a milésima primeira, percebi nitidamente o quanto as pessoas ao nosso lado estão distantes. O muro das redes sociais tem se erguido e distanciado as pessoas de suas relações, de sua vida, dos próximos e de si mesmo.

Na contramão da cena do casal à minha frente, na fileira de cadeiras atrás de onde eu estava sentado, um outro casal. Havia muita conversa entre eles. E isso também me chamou a atenção. Talvez porque essa cena é que deveria ser o normal de se ver. Só que não! O normal moderno é cada um no seu mundo digital e se algo me chama a atenção compartilho com as pessoas afins, seja a pessoa que está na sala ou literalmente sentada ao meu lado. 

Voltemos à cena de uma relação de casal normal e que está se tornando exceção. O casal bom de prosa me fez quebrar o pescoço de curiosidade. Queria vê-los e, talvez, até parabenizá-los, mas me contive. Por três vezes eu olhei disfarçadamente. Óbvio que tinha intenções de memorizar a imagem, observar caraterísticas e modos que serviriam para esse texto. 

Notei que o homem carregava uma pochete de mão e lá estava seu celular, guardado. Ele também segurava um pequeno guarda chuva, porém o mesmo não estava servindo de fronteira divisória entre o espaço de sua cadeira e o de sua esposa. Bem diferente do casal da frente. A mulher segurava uma bolsa em seu colo, que também poderia guardar o seu celular. Descrito a cena que pude observar rapidamente, atenho-me ao som das prosas que esse casal desenvolveu suavemente. Mantinham um tom tranquilo, ao relembrar causos antigos. Falaram do tempo e de pessoas de seu convívio. Riram de episódios engraçados pelos quais vivenciaram. A melhor parte foi quando eu ouvi o marido contando nos dedos "mindinho, seu vizinho, pai de tudo, fura bolo, mata piolho". Ah, como isso foi inédito aos meus ouvidos. Olhei para o livro e pensei "Rubão, güenta aí meu irmão! Nóis têm muito tempo pra prosear, mas esse casal aqui tá um trem bão de se vê e ouvi". Tenho certeza de que Rubão entendeu. Foi inédito para um tempo como esse, de pressa e de silêncio obsequioso imposto pelas redes sociais, mas o fato é que isso remeteu a saudade. Saudades dos meus avós.

Eu estive entre dois mundos, dois casais, duas relações, duas atmosferas completamente diferentes. Ambas me chamaram a atenção, mas só uma me trouxe um acalento, um gostinho diferente e um pensar para os meus dias. Já vinha sentindo o efeito acelerado do mundo digital. Você abre o celular para fazer apenas uma coisa e de repente está rolando de notícia em notícia a perder de vista e sem perceber o tempo passar. Esteve preso por algoritmos que selecionaram as notícias conforme os seus cliques e likes. É isso, através de um monitoramento já perceptível por parte das cadeias de comando das redes sociais, as quais possuem profissionais gabaritados para nos entreter, ficamos refém. Ser refém também pode se tornar um vício. O efeito da abstinência é sentido quando se toma uma atitude contrária, quando se busca sair desse efeito cativamente viciante. 

No início de junho vim me preparando para um tempo das redes sociais. Fiquei somente com o whatssapp e telefone como meios de comunicação. Como as pessoas já não fazem mais chamada de telefone, as que aparecem geralmente são de IA de empresas que querem vender algo ou, às vezes, cobrar. Só clicar em rejeitar chamada, para ambas, óbvio. Fechado temporariamente minhas redes sociais parti para um propósito que foi o ponto de apoio para essa decisão: retomar minhas leituras com mais afinco e prazer. Concluí a travessia dessa obra de Rubem Alves e iniciei outras duas simultaneamente: O despertar do tigre - curando o trauma (Peter A. Levine) e A sublime arte de envelhecer (Anselm Grün). Em menos de duas semanas consegui avançar pouco mais de 500 páginas lidas entre essas 3 obras. 

A moral da história é que não tem moral nenhuma. É uma experiência única, particular e que me fez sentido. Redescobri propósitos, me senti no controle e isso fez um bem danado. Sim, porque por diversas vezes escuto pessoas reclamando a falta de tempo, que as redes sociais a consomem, que não conseguem ficar longe delas, entre outras coisas e tudo isso porque não conseguem retomar esse controle. Já fiz isso em outros momentos da minha vida, desde que as tais redes sociais foram adentrando em nossas mentes. Eu senti que esse era o meu momento e por isso resolvi me afastar. Em alguma outra oportunidade, com certeza, voltarei. Pode ser ao final desse texto, daqui alguns dias, semanas ou meses, tanto faz. Nesse tempo quero apenas curtir outras coisas, como presenças vivas, livros, artes, pessoas e a minha própria companhia de travessia. Um fato interessante que pude perceber é que isso me trouxe paz. Paz, tranquilidade e sem ansiedade digital. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O psicodrama e o meu lugar de fala


 

Diante de algumas situações que necessitam uma análise crítica e apurada, sempre me recordo de uma fala do professor de direito e também ex-reitor da UNB, José Geraldo de Souza Júnior, na Câmara dos Deputados, em 14/06/23: "(...) Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver não o que existe, mas o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por um processo cognitivo de historicização. Então eu não posso discutir um tema que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo. Eu vejo outra coisa. (...) São referenciais que significam que o real não é aquilo que existe, mas é a representação que a gente faz, de como a gente vê. Paciência né! Por isso que há pluralidade de concepções de mundo."

Essa é uma fala que se tornou viral no universo pensante. Sempre me questiono se a minha visão de mundo ou especificamente sobre determinado assunto em pauta é ampla e contempla o máximo da parte de um todo ou é apenas um recorte daquilo que eu tenho como experiência e ciência, ou ainda como diz o professor José Geraldo, será que tenho recorte cognitivo para tal? O auto questionamento me faz refletir e, no mínimo, buscar conhecimento sobre o que de fato ainda não conheço com vastidão. Recuso-me a repetir falas sobre determinados assuntos mesmo que essas falas tenham sido proferidas em universo acadêmico por quem algum dia ocupou o papel de levar conhecimento e informação. Não julgo a ciência que não conheço, mas me recuso a aceitar calado quando alguém se atreve a falar de forma enviesada sobre alguma realidade recortada por um processo cognitivo, que em suma, demonstra apenas não ter conhecimento de causa, tampouco norral. Portanto, se torna mera falácia.

O cerne do meu incômodo hoje vai além de uma necessidade de defender um dos meus lugares de fala e olha que nem é sobre o Corinthians ou sobre a política que traz em suas pautas a luta justa e democrática pelas minorias e a igualdade de direito para todos. Falo hoje do prisma da psicologia enquanto ciência. Durante mais de 12 anos em cadeiras acadêmicas, sendo os últimos 4,5 anos na ciência que estuda a mente, sempre presenciei e participei de debates que incluíam pontos de divergência entre correntes de pensamentos diferentes, como estratégia, método, eficácia, exatidão e verdade. Entendi, desde o primeiro dia de aula, que tudo o que nos foi apresentado enquanto abordagens eram de fato respaldadas cientificamente. Ponto.

Muito mais do que o método e a técnica em si, existe algo que está além. E, de tão além, também está para poucos. Yung disse “ao tocar uma alma humana seja apenas uma alma humana.” Isso me basta. Posso dizer que literalmente me fascinei por cada uma das disciplinas que me foram apresentadas, porque via no brilho dos olhos de quem dirigia a cena, a convicção expressada em tom de satisfação e também de amor ao que se faz. Profissionais de abordagens diferentes trazendo o melhor daquilo que escolheram para trilhar. Claro, no meio do caminho também encontrei quem só cumpria tabela... Faz parte.

Minhas melhores lembranças são nomes. As piores também. Mas eu valido aquilo que considero positivo para a minha construção profissional. Nomes que transcenderam seus papeis acadêmicos e trouxeram sentimentos verdadeiros, exemplos e coragem. Ainda no universo acadêmico da psicologia encantei-me pela abordagem humanista e fenomenológica existencial. “Nesse mundo estamos uns pelos outros”, é mais que uma frase, é uma atitude, uma ação que dispensa palavras. E isso me fez enveredar por esse caminho, dentro e fora da universidade.

Na academia, cada um defendia o seu lugar sem a necessidade de diminuir o lugar do outro. Fora do universo acadêmico impera a lei da selva: não tem lei. E isso empobrece o movimento como um todo. A ética sobre o espaço do outro inexiste em grande parte dos profissionais. E, novamente, quem necessita diminuir a escolha do outro, ou a abordagem que o outro escolheu, fala mais de si e sua vida profissional-social do que daquilo que desconhece.

Bom, há exatamente dois anos da conclusão do curso minha vida se cruzou com o Psicodrama. Foi um encontro de dois. Um encontro de lugares. Um sentimento de retorno pra casa... e por incrível que pareça esse lugar se chama Casa das Cenas – Clínica e Escola de Psicodrama. Cheguei por um motivo e permaneci por infinitas razões. Participei de eventos como convidado e logo me inscrevi na pós em Psicodrama. O que me cativou? O humano. Wesley Miranda me atendeu a primeira vez como psicólogo. O acolhimento em si foi além, me fez sentir-se à vontade, conectado e com o desejo de querer conhecer melhor esse lugar. A gente se apaixona, muitas vezes não pela “matéria em si”, mas pela forma com que o outro expõe sobre.

Fui ficando, entendendo, sentindo e querendo conhecer mais e mais. Outros nomes foram se tornando familiares: Cacilda e Jacqueline, por exemplo. Já pensava, reconhecia e sentia o psicodrama enquanto movimento vivo. Como abordagem humanista ele me deu muito mais que possibilidades, apresentou lugares, aguçou a espontaneidade, acirrou a criatividade e me instigou à travessia. Passei a compreender na prática que ele vai além de uma abordagem em si, é também um suporte enquanto ferramenta para outras abordagens e outras ciências e um modo de viver.

Hoje, após dois anos de pós graduação, estágio na clínica social da Casa das Cenas e com atendimentos clínicos me abstenho de explicar para quem enxerga o psicodrama de forma enviesada, ou como diria novamente o professor José Geraldo “eu não tenho como discutir com você porque a sua visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que você já tem escrito na sua cognição.”

O que de fato posso relatar é a partir da minha experiência e do retorno dado por quem esteve comigo no setting terapêutico. O resultado de um trabalho construído com dedicação, responsabilidade, ética, respeito e amor ecoa feito música. Há Profissionais e profissionais em todas as abordagens e cada um é responsável por seus atos e colhe os frutos do seu empenho e dedicação. Estranha-me muito quando vejo e ouço profissionais buscando o mercado atacando e invalidando outras abordagens. Entendo que na ausência de capacidade de conquistar espaço a única forma é falando do espaço do outro.

A luta pela detenção da verdade, pelo podium do saber, pela abordagem mais eficaz é tão antiga quanto a história da humanidade. “Afinal, quem é o detentor da verdade?” ou ainda “qual abordagem é a melhor?” É uma luta que está longe de um fim amistoso. Isso não me amedronta, mas incomoda. Fato é que estou aqui, unindo forças para não deixar que pessoas sem “visão de mundo”, ou melhor, “com uma visão recortada e enviesada” deturpem o espaço que não conhecem. A multiplicidade de correntes de pensamentos e ações é o que faz o universo repleto de opções. E as pessoas, enquanto profissionais, atuam dentro da perspectiva que faz sentido em sua vida pessoal, social e profissional, e suas ações promovem resultados significativos na vida de outras pessoas. Por outro lado, enquanto clientes, elas permanecem no lugar em que se sentem acolhidas, reconhecidas e respeitadas, e isso diz respeito à conexão humana pautada na ética profissional.

Eu venho compreendendo o meu papel que se desdobra em outros vários. Reconheço-me como um ser político, social, familiar e profissional que atua de forma específica e integrada diante dos papeis assumidos. Não tem como dissociar a atuação clínica das lutas sociais. Aquietar-se frente as injustiças não vejo como algo condizente com o papel de psicólogo e psicodramatista. Isso não é optar por bandeiras, mas lutar por democracia e justiça.

O psicodrama é uma abordagem que abrange o ser humano como um todo. Suas relações importam, tanto quanto seus sentimentos, traumas e as demandas que ora dificultam o seu ser, ora o retira de cena e lhe rouba o protagonismo.

Ainda sobre a minha trajetória na clínica, em que o psicodrama tem forte presença, subscrevo o seguinte pensamento: “Quem precisa se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.” (Renato Freitas)