Enquanto aguardava minha mãe na recepção da clínica odontológica, degustava dos presença de Rubem Alves através de seus pensamentos pintados em texto. O escolhido para me acompanhar nesse dia foi "As cores do crepúsculo, a estética do envelhecer". Como em todas as suas obras de arte, esse também não deixou a desejar. A sutileza profunda e simples com que ele narra colorido as cenas vividas, bem como o presente e os sonhos, me trazem leveza, paz, desejo pela vida, sentimentos vários e por vezes ofuscados frente a correria desenfreada que nos atolamos sem perceber. Sempre que me sinto acelerado diante das coisas mais cotidianas percebo que é momento de pausar, repensar e refazer algumas rotas. Então eu recorro a esse mestre da vida e das palavras temperadas com cores, sabores, cheiros e amores. É um momento ímpar de reconexão comigo mesmo, com a vida, com as coisas de valor, com o belo, com a arte, com o simples, com quem merece tempo e dedicação.
Como de costume, vou lendo marcando algumas linhas e frases no decorrer do livro, aquelas que mais me chamam a atenção. Por vontade e convicção, pintaria colorido cada trecho de uma cor diferente, porque simplesmente o todo é fascinante. Rubem Alves escreve como se estivesse sentado ao seu lado te contando sutilmente os causos preservados na memória e as divinas histórias que cruzaram com a sua. Um maestro da arte.
Voltando ao ponto em que estou sentado e aguardando minha mãe. Nesse tempo de espera observei um casal à minha frente. Beiravam uns sessenta e poucos anos. Cada um com o seu celular e vendo as coisas de seu íntimo interesse. Pareciam desconhecidos. Um guarda chuva entre seus bancos dava a impressão que ali havia um muro. Só tive ciência de que era um casal quando o marido foi chamado para o atendimento e na volta falou com a esposa, que prontamente se levantou. Se levantou tão calada quanto no momento em que esteve se entretendo com o celular. Ele foi à frente e sua senhora atrás. Ali, por mais uma vez, talvez a milésima primeira, percebi nitidamente o quanto as pessoas ao nosso lado estão distantes. O muro das redes sociais tem se erguido e distanciado as pessoas de suas relações, de sua vida, dos próximos e de si mesmo.
Na contramão da cena do casal à minha frente, na fileira de cadeiras atrás de onde eu estava sentado, um outro casal. Havia muita conversa entre eles. E isso também me chamou a atenção. Talvez porque essa cena é que deveria ser o normal de se ver. Só que não! O normal moderno é cada um no seu mundo digital e se algo me chama a atenção compartilho com as pessoas afins, seja a pessoa que está na sala ou literalmente sentada ao meu lado.
Voltemos à cena de uma relação de casal normal e que está se tornando exceção. O casal bom de prosa me fez quebrar o pescoço de curiosidade. Queria vê-los e, talvez, até parabenizá-los, mas me contive. Por três vezes eu olhei disfarçadamente. Óbvio que tinha intenções de memorizar a imagem, observar caraterísticas e modos que serviriam para esse texto.
Notei que o homem carregava uma pochete de mão e lá estava seu celular, guardado. Ele também segurava um pequeno guarda chuva, porém o mesmo não estava servindo de fronteira divisória entre o espaço de sua cadeira e o de sua esposa. Bem diferente do casal da frente. A mulher segurava uma bolsa em seu colo, que também poderia guardar o seu celular. Descrito a cena que pude observar rapidamente, atenho-me ao som das prosas que esse casal desenvolveu suavemente. Mantinham um tom tranquilo, ao relembrar causos antigos. Falaram do tempo e de pessoas de seu convívio. Riram de episódios engraçados pelos quais vivenciaram. A melhor parte foi quando eu ouvi o marido contando nos dedos "mindinho, seu vizinho, pai de tudo, fura bolo, mata piolho". Ah, como isso foi inédito aos meus ouvidos. Olhei para o livro e pensei "Rubão, güenta aí meu irmão! Nóis têm muito tempo pra prosear, mas esse casal aqui tá um trem bão de se vê e ouvi". Tenho certeza de que Rubão entendeu. Foi inédito para um tempo como esse, de pressa e de silêncio obsequioso imposto pelas redes sociais, mas o fato é que isso remeteu a saudade. Saudades dos meus avós.
Eu estive entre dois mundos, dois casais, duas relações, duas atmosferas completamente diferentes. Ambas me chamaram a atenção, mas só uma me trouxe um acalento, um gostinho diferente e um pensar para os meus dias. Já vinha sentindo o efeito acelerado do mundo digital. Você abre o celular para fazer apenas uma coisa e de repente está rolando de notícia em notícia a perder de vista e sem perceber o tempo passar. Esteve preso por algoritmos que selecionaram as notícias conforme os seus cliques e likes. É isso, através de um monitoramento já perceptível por parte das cadeias de comando das redes sociais, as quais possuem profissionais gabaritados para nos entreter, ficamos refém. Ser refém também pode se tornar um vício. O efeito da abstinência é sentido quando se toma uma atitude contrária, quando se busca sair desse efeito cativamente viciante.
No início de junho vim me preparando para um tempo das redes sociais. Fiquei somente com o whatssapp e telefone como meios de comunicação. Como as pessoas já não fazem mais chamada de telefone, as que aparecem geralmente são de IA de empresas que querem vender algo ou, às vezes, cobrar. Só clicar em rejeitar chamada, para ambas, óbvio. Fechado temporariamente minhas redes sociais parti para um propósito que foi o ponto de apoio para essa decisão: retomar minhas leituras com mais afinco e prazer. Concluí a travessia dessa obra de Rubem Alves e iniciei outras duas simultaneamente: O despertar do tigre - curando o trauma (Peter A. Levine) e A sublime arte de envelhecer (Anselm Grün). Em menos de duas semanas consegui avançar pouco mais de 500 páginas lidas entre essas 3 obras.
A moral da história é que não tem moral nenhuma. É uma experiência única, particular e que me fez sentido. Redescobri propósitos, me senti no controle e isso fez um bem danado. Sim, porque por diversas vezes escuto pessoas reclamando a falta de tempo, que as redes sociais a consomem, que não conseguem ficar longe delas, entre outras coisas e tudo isso porque não conseguem retomar esse controle. Já fiz isso em outros momentos da minha vida, desde que as tais redes sociais foram adentrando em nossas mentes. Eu senti que esse era o meu momento e por isso resolvi me afastar. Em alguma outra oportunidade, com certeza, voltarei. Pode ser ao final desse texto, daqui alguns dias, semanas ou meses, tanto faz. Nesse tempo quero apenas curtir outras coisas, como presenças vivas, livros, artes, pessoas e a minha própria companhia de travessia. Um fato interessante que pude perceber é que isso me trouxe paz. Paz, tranquilidade e sem ansiedade digital.

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