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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Resenha - O Martelo das Feiticeiras


Essa obra retrata, logo em suas primeiras cinquenta páginas, o quanto a mulher tinha um maior papel de destaque e importância em outras épocas, e aborda sobre como o patriarcalismo foi tirando-a de seu protagonismo, deixando-a em segundo plano, e colocando o homem como centro de tudo, seja na sociedade, na família, na política e em especial nas questões de fé e nas religiões. Vale muito a pena essa leitura, sem contar que esse livro retrata como e porque muitas mulheres foram consideradas bruxas e, por tal, condenadas e sentenciadas às mais diversas penas de morte, como a fogueira, forca e outros mais atuais como o apedrejamento. Sendo tudo isso de responsabilidade da famosa "Santa Inquisição", ministério da igreja católica na idade antiga e média, e atualmente extinta. Em sua segunda parte, esse livro traz o manual da inquisição:  como reconhecer as consideradas bruxas, sentenciá-las e aplicar-lhes a pena devida.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Não há cura para o que não é doença"



A frase, que é título desse artigo, "Não há cura para o que não é doença!", faz parte do texto do Núcleo de Diversidade de Gênero da Comissão de Direitos Humanos¹, que também fez parte da pauta da campanha criada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) em 2017, ressaltando a importância de colocar a Psicologia a serviço dos Direitos Humanos e contra o conservadorismo

A campanha também se pauta na Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia², assinado por ninguém menos que Ana Maria Bahia Bock, presidente-conselheira na época. Tal Resolução "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual".

Ainda, após grandes conquistas pela e para a Comunidade LGBTQIAP+, erguem-se grandes barreiras e obstáculos discriminatórios e preconceituosos, oriundos da falta de conhecimento científico bem como um estridente negacionismo para se conservar padrões sociais ultrapassados e que deixam à margem todas as pessoas que não se encaixam nas formas de relações consideradas normais.

Tanto no âmbito político quanto, e principalmente, no religioso, existem prós e contras. Não é uma luta em prol da vida e da dignidade humana diante do que a pessoa realmente é e da forma que escolhe viver mas, sim uma luta por poder, como descreveu Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975) e Microfísica do Poder (1978): o poder de mandar e desmandar sobre os atos alheios. Não é uma luta de defesa mas  sim uma guerra de imposições. Imposições que vêm regada de ameaças de punições religiosas e sanções sociais com avais políticos. 

São várias formas de prosseguir esse texto, provando biblicamente, teologicamente, filosoficamente, psicologicamente, poeticamente, que simples e puramente "toda vida importa". Assim como o maior princípio deixado como guia para todxs os que seguem sua religião e ou filosofia de vida é o "amor ao próximo", o segundo maior mandamento bíblico, o grande erro que nos leva a um desrespeito por esse próximo é simplesmente o "não amor". E, esse "não amor", que restringe a empatia e o respeito ao próximo, por conta de suas orientações, escolhas, fé, etc, podemos chamar de "pecado" também. Sendo assim, "Pecado é não amar" (Cá de dentro - 2015).

E onde pode chegar a falta de uma orientação responsável seja de cunho religioso, político, social e principalmente profissional, para quem de fato esteja vivendo na corda bamba da vida, entre lapsos de sobrevivência neste mundo e a busca pela libertação de suas dores ocultas através da morte? Em que pese, como já dito acima, tudo pode beneficiar a vida humana ou ser um gatilho para que o pior aconteça. 

Um caso recente que me chamou a atenção foi o suicídio da influenciadora Karol Eller, 36 anos, que, suicidou-se no dia 12/10/23. Apoiadora política da extrema direita, acabou polemizando quando manifestou-se contrária às causas defendidas pela comunidade LGBTQIAP+. Segundo a imprensa, Eller, que era lésbica, "anunciou que tinha passado por "cura gay" no último mês. Ela estava participando de retiros religiosos e disse havia renunciado à sexualidade."³

Conheci uma pessoa no interior de SP, vítima das drogas, fez um retiro espiritual de três dias consecutivos e no final considerava-se liberto e convertido literalmente no caminho do cristianismo. Comentava que sua meta era ser um pregador da boa nova de Jesus Cristo. Até aqui tudo certo e bonito de se contemplar e apoiar. A questão é que, era urgente um acompanhamento de profissionais que lhe dessem o suporte e a direção adequadas para sua sustentação na luta pela libertação do vício. Não o fez, não teve, não buscou e, talvez, não soubesse... Mas o resultado foi que, em menos de dois meses ele estava de volta às drogas e dessa vez, muito pior. 

Karol Eller passou pela experiência religiosa de sentir-se, não curada, mas disposta e apta a renunciar aquilo que é considerado errado para os padrões normais da sociedade e pecado para o cerne de algumas religiões de cunho fundamentalista e ultra conservador. Mexer com questões dessa dimensão implicam muitas coisas, entre elas a responsabilidade por parte de quem lidera tais encontros e cultos. Isso começa com a liderança e vai para altos escalões da hierarquia religiosa. Todxs são responsáveis diretos e indiretos. 

É preciso entender a dor, o trauma, a angústia e os anseios do ser humano antes de prescrever alternativas para uma cura, uma pseudo cura, uma renúncia de si, antes de traçar caminhos únicos, regras propriamente ditas, com o intuito de manter a pessoa enclausurada em si, com dores inimagináveis diante de seus flagelos de renúncias. Cada ser em si é único e merece o devido respeito em sua jornada. Não há uma fórmula comum para padronizar a todxs. Entender que um encontro, ou um retiro espiritual de vários dias, em que todxs os presentes se fortalecem diante do objetivo, se sustentam mutuamente é uma coisa, mas quando encerra-se a euforia dos dias de cantos e orações, aí começa a realidade. Não é uma crítica às religiões, nem à forma de seus cultos mas sim uma crítica direta do conteúdo que é colocado de forma as vezes covarde na tentativa de fazer a pessoa caber dentro de padrões aceitáveis de uma ala da sociedade. 

Espiritualidades, religiões e religiosidades, são caminhos, signos, travessias, opções, possibilidades, de reconexão entre o humano e o sagrado, com propósito de bem maior que envolve a dignidade de si e o respeito ao próximo. Cuidar da vida, é premissa de qualquer instituição. Respeitar é obrigação de todxs. Aceitar só cabe a quem de fato é, ou seja, muitos já travam sua guerra de auto-aceitação e não precisam de mais ninguém para fazer peso contra. Mais uma vez, a todxs, só cabe o respeito. 

E assim sendo, ressalto novamente a importância da Psicologia para acolher e ajudar a pessoa a se aceitar, tomar consciência de si e de toda sua potência, redescobrindo-se enquanto ser único e de opções múltiplas nesse universo de infinitas travessias, protagonizando empoderadamente sua vida sem medo do que as sociedades impõem. A bem da verdade, toda vida importa, o amor salva, a paz de si liberta e a Psicologia está aí para dar voz, vez, luz para essa jornada chamada vida. 


¹ https://crppr.org.br/nao-ha-cura-para-o-que-nao-e-doenca/
² https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf
³ https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/10/13/morre-a-influenciadora-karol-eller-aos-36-anos.htm


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
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domingo, 1 de outubro de 2023

De setembro a setembro: refletindo o amarelo em todos os dias do ano

Setembro Amarelo é uma campanha que ocorre uma vez ao ano. O restante dos meses ingressamos em outros movimentos de relevante importância e comprometimento social, de saúde e conscientização. Enquanto estudantes de psicologia poderíamos fazer um pouquinho a mais, esticando esse movimento para uma campanha de prevenção ao suicídio *DE SETEMBRO A SETEMBRO*. Algo a se pensar.

Porém, antes, vale uma pergunta de autorreflexão: *A DOR ALHEIA ME IMPORTA?* Obviamente não sabemos se uma pessoa próxima está passando por alguma dificuldade. Também não conseguimos mensurar o tamanho da dor de alguém, que no momento esteja atravessando problemas de várias ordens. 

O que podemos fazer, primeiramente, seria mudar o nosso jeito, ativar o nosso *ser humano* e nos atentar para detalhes que antes não prestávamos tanta atenção. *COMO?* Quando começamos a fazer parte de algum ambiente, lugar, movimento, grupo (trabalho, faculdade, comunidade, bairro, igreja, família, etc), obviamente passamos a perceber as pessoas ao nosso redor. Cumprimentos básicos de "bom dia, boa tarde, boa noite" podem não apenas quebrar o gelo mas abrir possibilidades de aproximação. Perguntar se "está tudo bem" pode não ser nada, não representar nada para nós e simplesmente recebermos como resposta "sim, tudo e você?" Mas, pode ser, que esse cumprimento, seguido dessa pergunta, seja a única coisa positiva que impediu uma pessoa de atentar contra sua própria vida. 

Acredito que muitos de nós conhecemos pessoas que tiraram sua própria vida. Talvez não conhecemos de perto mas, já ouvimos falar de conhecidos distantes, pessoas que um dia fizeram parte de nossa vida e acabamos perdendo o contato. As redes sociais nos mantém atualizados, principalmente quando o assunto é tragédia. 

*TERÍAMOS NÓS ALGUMA RESPONSABILIDADE SOBRE A VIDA DE OUTRA PESSOA?* Sim e Não. Sim ou não. Cada um sabe de si. E em diálogo com uma amiga, falando sobre suicídio, logo após participarmos de um evento no dia 15/09/23, justamente sobre esse tema, o qual refletimos sobre o filme *ORAÇÕES PARA BOBBY*, chegamos à nossa conclusão de que temos sim responsabilidade e que podemos fazer nossa parte. Novamente: *COMO?* Acolhida, empatia, respeito, etc. Podemos, enquanto seres humanos, fazer um pouquinho a mais nesse sentido. Independentemente de crenças, fé e religiões, a qual acreditamos que todas pregam *AMOR À VIDA E AO PRÓXIMO*, podemos e queremos ressignificar o nosso papel aqui neste plano, no aqui e agora, de forma a contribuir COM A SAÚDE, COM A PSICOLOGIA, COM A VIDA. 


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Marx, Freire e o Marco Temporal

Protesto contra marco temporal em Brasília 
Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O que me motivou a escrever esse artigo, ou manifesto, ou simplesmente um desabafo, foram alguns comentários que ouvi acerca do "Marco Temporal". Antes gostaria de falar o que seria esse marco e porque ele está em evidência no cenário social, político e obviamente no religioso.

"Marco temporal é uma tese jurídica segundo a qual os povos indígenas têm direito de ocupar apenas as terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição" (Fonte: Agência Câmara de Notícias). Aqui no site da Agência Câmara de Notícias podemos saber melhor sobre essa questão: https://www.camara.leg.br/noticias/966618-o-que-e-marco-temporal-e-quais-os-argumentos-favoraveis-e-contrarios/

Bom, a ideia sobre a questão do "Marco Temporal" é usar como linha de corte o dia, mês e ano em que a Constituição Federal Brasileira foi promulgada, 05/10/1988. E isso implica que as terras consideradas indígenas, só serão de fato dos povos originários, as que constam até essa data da CF. Após essa data, todas as questões de terra seriam revistas e, inclusive, haveria de mexer no que já estaria acentuadamente acordado e resolvido. 

Agora, imaginem que algumas questões de terra já tenham sido resolvidas no ano subsequente à promulgação da CF, no caso em 1989. Povos originários assentados em suas terras e, de repente, com a aprovação do Marco Temporal, eles poderiam (e com certeza seriam) retirados de seu habitat novamente. Uma guerra iminente seria provável. Há quem seja favorável ao marco mas há muito mais que lutam contra. Há quem se beneficie com a aprovação desse marco, e com certeza "peixe grande" mas, há quem seja contrário por simples razões. Não tem como se beneficiar com nada sendo contrário ao Marco Temporal. E, a partir disso, claro que estou do lado contrário ao tal "marco". 

Aprovar isso seria jogar o destino e a vida dos povos indígenas ao léu. Já existe uma invasão sem limites acontecendo, totalmente descontrolada, que ganhou força no governo anterior (que não faço questão de mensurar o nome, uma vez que só intensificou o ódio, criou o caos e gerou mortes a partir do ódio e do caos...) e isso, independe de fiscalização e policiamento. Invadir terras indígenas, a maioria regada de riquezas naturais, é algo não apenas fácil mas lucrativo. E quem sempre ganha são os que continuam ganhando, os que estão lá no cume do topo da pirâmide: latifundiários por exemplo. 

"A história da humanidade é a história da luta de classes." Sim, Karl Marx tinha razão, porque a força propulsora da história se baseia na história da luta de classes. Quantos e quantas que, emergiram da pobreza, tiveram suas dificuldades durante a jornada em ascensão e ao atingir um novo patamar social, tornaram-se algozes de quem ficou num patamar inferior? Não são poucos, aliás, são incontáveis os casos em que o "sonho do oprimido de se tornar opressor", e nisso Paulo Freire também tinha total razão, se justifica na história passada, recente e presente. 

Durante o curso de Teologia, fiz um trabalho sobre a situação dos Guaranis-Kaiowás que, expulsos de suas terras por fazendeiros, eram obrigados e sobreviver acampados às margens de rodovias. Muitos jovens dessas tribos, diante da dureza da vida longe de seu habitat, do sofrimento e da falta de recursos, sem voz e sem vez, e frente à tristeza de ver os seus perecendo cruelmente, acabavam tirando sua própria vida como forma de aplacar a dor; um verdadeiro protesto, à base do seu sangue e da sua vida, para que as autoridades tomassem as devidas providências.

Caberá à Justiça resolver a questão e os casos diferenciados. Concordo que pessoas que tem o seu pedaço de terra para subsistência e, que em sua maioria adquiriram as posses de forma não regulamentada, muitas vezes compradas de usurpadores, deverão ter um olhar atento para sua situação. Bem como, os que adquiriram suas terras para projetos de lazer em áreas de preservação ambiental e território indígena, que cientes das circunstâncias e riscos iminentes, devido à irregularidade da aquisição, poderão perder o investimento. Há aqui um grande contraponto entres os dois exemplos que mencionei. Os que foram enganados e lesados mas que dependem da terra e os que não foram enganados, assumiram o risco e investiram seu dinheiro mas, porém, podem ser desapropriados e assim, lesados. E quanto a esses que entraram conscientes, não há inocentes. 

E, nesse momento, a luta é contra o "Marco Temporal". Seria desumano e injusto mexer numa demarcação que já está corrigida e resolvida. Voltar ao ano de 1988 para refazer as demarcações seria uma violência contra os povos originários. Se, em nome da ganância e do poder, os defensores do moralismo seletivo justificarem seus atos de ódio contra as minorias, conforme aconteceu nos últimos 4 anos, para continuarem invadindo, matando e expulsando os verdadeiros donos das terras, invocamos aqui a questão religiosa como uma força de origem centrada capaz de manipular ou libertar o indivíduo. Nem social, nem política e nem religiosamente, não há viés plausível para a aprovação do marco temporal. O que justifica essa ganância de poder pode ser visto sob a história da luta de classes e sobre as lutas entre oprimido e opressor. 

sábado, 16 de setembro de 2023

De setembro a setembro


Um olhar humanamente teológico sobre as pessoas que perderam o encanto pela vida, o sentido da existência e a esperança no mundo. Setembro Amarelo deveria ser uma luta de todos os dias e não somente quando as mídias jogam os holofotes para o assunto. É positivo entrar nessa campanha de mobilização e prevenção ao suicídio. Porém, mais belo do que estampar os perfis de amarelo e cobrir com frases de efeito é necessário se atentar para o nosso papel social enquanto indivíduos de um sistema que oprime, desqualifica, exclui, negligencia e ignora os verdadeiros motivos que têm levado algumas pessoas a pensarem na possibilidade de atentar contra a própria vida e outras, de fato, na esperança de se curarem das dores da alma, infelizmente, executam seu plano. 

Se a dor de quem fica é grande, imagina a dor de quem preferiu não viver mais. Não existe covardia nem heroísmo nesse ato, ou, dependendo da óptica, também pode ser ambos. Pecado? Talvez. Olhando pela bíblia cristã, o quinto mandamento diz "não matarás". Sendo assim, tirar a própria vida, segundo a bíblia cristã é um pecado. Porém, ainda segundo a mesma bíblia cristã, não é algo digno de condenação eterna e sem direito a perdão. Esse é um pensamento popular que ganhou força nos redutos das igrejas mas que não tem fundamento bíblico. Segundo o livro sagrado cristão, o único pecado que é causa de condenação eterna ao inferno é o de "blasfemar contra o Espírito Santo". 

Se considerarmos as pessoas que dão sua vida em prol de uma causa religiosa, conforme algumas religiões ultra radicais, que as instigam a se tornarem verdadeiros homens ou mulheres bombas, as mesmas são consideradas mártires com promessas e garantias de uma vida eterna e digna no Paraíso, no Céu, etc. Durante as guerras surgiram os camicases que, não tendo mais o que fazer, lançavam-se com seus aviões no território inimigo na tentativa de abater o maior número de adversário possível. 

O que difere cada ato de tirar sua própria vida: uma causa, uma esperança, uma promessa, um sentido? Ou, talvez, a falta de cada uma dessas possibilidades ou, todas e mais um pouco? A esperança que um homem bomba tem ao se permitir explodir em prol de uma causa político-religiosa não seria a mesma esperança que uma pessoa, que perdeu seu sentido de viver, tem para amenizar sua dor da alma? Essa última perdeu o sentido da vida, mas está sobrecarregada de dor. Tirar a vida não significa covardia mas, livrar-se da dor que ninguém sabe que existe nela, e por mais que saiba não consegue entender.  Como não teremos jamais a resposta sobre o motivo de tal ato, sempre dialogaremos a partir dos relatos deixados de sua caminhada. A cadeira vazia será apenas um cenário de dor e luto por parte de quem ficou sem respostas. 

E qual seria o nosso papel social, religioso, político ou simplesmente humano (o mais importante) para contribuir com essa luta de prevenção ao suicídio? Estamos numa era em que as informações que nos chegam são como uma tempestade em nossos pensamentos. Creio que não percebemos mas, muita gente se encontra esgotada mentalmente pelo excesso de informações que são oferecidas aos milhões, minuto a minuto. Esse excesso também pode contribuir para o desequilíbrio emocional, o que afeta diretamente as relações diretas e indiretas de cada pessoa. 

A sociedade egoísta que ignora; as religiões com suas regras morais que exaltam as leis em detrimento do ser humano e da vida; as políticas, sejam as públicas que são falhas por conta do dinheiro que se desvia e não chega aonde precisa, sejam os representantes escolhidos pelo voto nos Estados e municípios, que se esquecem do seu compromisso com o povo e legislam em causa própria. Junte-se a isso a falta de recursos para coisas básicas. Muitos "próximos" sucumbem à tentação de deixar de existir num mundo onde não apenas se sentem invisíveis mas são tratados como escória. 

Numa pesquisa de trabalho realizado durante o curso de Teologia, nos deparamos com índios da tribo Guarani-Kaiowás que preferiam tirar sua própria vida a viverem fora de suas terras, que naquele momento foram tomadas por latifundiários. A dor de viver fora do seu habitat, da sua casa, e sobreviver nas beiras das estradas, era um dos motivos de desordem emocional e desonra para si. 

A dor alheia é algo que não conseguimos mensurar. Seja uma dor física ou, pior ainda, uma dor da alma, aquela que não se vê mas que mexe com todos os sentidos. Para a dor física existem remédios de resolução imediata. Para a dor da alma, existe uma demora para se chegar num ponto satisfatório de entendimento para então, de forma lenta e gradativa organizar as coisas que estão fora do lugar em seu pensamento, em seu íntimo, em sua história e na falta de expectativa. 

Enquanto seres humanos, não nos custa levar um pouquinho de alegria, ou no mínimo ouvidos para as pessoas ao nosso redor. Não temos condições para salvar o mundo, mas podemos contribuir dando um mínimo de atenção para aquela pessoa que antes sorria atrás de um balcão e hoje se quer solta um "bom dia". Familiares que passam a reclamar da vida mesmo não faltando nada. Solitários ao nosso redor, regados de silêncio, timidez, e dificuldades de interação, dentre outros tantos, não custa acolher. Acolher no sentido de deixa-la sentir-se vista, notada, ouvida. Não precisa de muito. Um simples "tá tudo bem?" pode ser o essencial para salvar o dia e os pensamentos de alguma pessoa próxima que vive seus dias de tribulação.

Não importa a orientação sexual. Pecado é não amar! E, não há cura para o que não é doença! Antes da piada, antes da crítica, pense que uma palavra pode ser a melhor ou pior coisa que a pessoa com ideação suicida pode ouvir naquele momento e você nem sabe. Não sabemos quantas guerras habitam na pessoa com quem cruzamos todos os dias de nossa jornada. Por isso, empatia e respeito, é a melhor acolhida que podemos dar. 

Para quem sempre cita a bíblia, em especial as rígidas leis do Antigo Testamento, eis que me deparo com um pensamento, o qual desconheço seu autor, mas que simplifica e alivia quando me deparo com pregações grotescas e de ódio: "Jesus não voltou durante a escravidão. Não voltou durante o holocausto e nem durante as cruzadas. Mas, vai voltar agora por causa do gênero de alguém."

Uma igreja que não acolhe as minorias e suas diversidades já perdeu seu papel aqui na Terra. Uma política que não cumpre com sua função de bem comum só serve para alimentar os lobos no poder. Uma sociedade que não percebe a dor alheia, já deixou de ser humana com seus semelhantes. E por que esse discurso em meio à campanha Setembro Amarelo? Porque tudo isso pode ser causa, mínima ou máxima para alguém que está desacreditado de si, sobrecarregado de dores, cometer suicídio. 

Há inúmeros fatores que levam as pessoas a buscar o suicídio: a inundação da dimensão de sombra, transtornos psicológicos, doenças incapacitantes, profundas decepções e prolongadas depressões. Mas mais que tudo, a perda do sentido da vida que suscita nas pessoas vulneráveis o impulso de desaparecer. Não raro, tirar a própria vida é uma forma de buscar um sentido que lhe é negado nesta vida (franciscanos.org.br). E "Não é a maneira como uma pessoa morre que determina se ela é salva ou condenada" (https://teologiabrasileira.com.br/o-suicidio-da-razao/).

Somos corresponsáveis direta ou indiretamente pelas vidas ao nosso redor. A omissão é algo que poderemos somar na cartilha da consciência como culpa, frente ao que poderíamos ter contribuído mas não o fizemos. 

A imagem desse texto foi utilizada como convite para o evento do dia 15/09/23, na Casa das Cenas, em Uberlândia-MG, para um encontro realizado com pessoas de diversos segmentos da sociedade. Um público misto em todos os sentidos. Através do Psicodrama e Cinema, trazendo uma ótica da Psicologia pela minha colega Ana Elisa, enquanto eu, da Teologia, discutimos o suicídio dentro do contexto do filme "Orações para Bobby". É um filme que está disponível no youtube, portanto de fácil acesso. Ali, sentimos o peso da falta de apoio familiar diante da homoafetividade por um dos membros dessa família, o peso do conservadorismo religioso que passa a manifestar um moralismo seletivo, a sociedade que exclui, os familiares que se afastam, as auto condenações por conta do que se considera pecado conforme os ditames de sua religião, até a ideação suicida. Deixo aqui, como forma de continuidade nessa reflexão, um convite para que assistam ao filme. 

https://www.youtube.com/watch?v=IIYNfCoGgUQ



sexta-feira, 14 de julho de 2023

Adão & Eva: o peso da culpa recaído sobre a mulher e outras teorias.

 


O texto de hoje na verdade é um diálogo que se iniciou quando o jovem Mateus (*), estudante de psicologia na mesma instituição em que também estudo, procurou-me com alguns questionamentos que aguçaram e muito o meu pensamento. A partir daí, a conversa foi se desenrolando. Fiz questão de colocar tudo da forma como se deu para não perder nenhum detalhe. E, como eu disse ao próprio Mateus, "esse bate-papo merece destaque".


Mateus: Bom dia Ailton, estava procurando o seu contato pra falar a respeito de uma teoria que pensei enquanto estava com insônia.

Ailton: Bom dia. Tudo bem?

Mateus: Tudo jóia. Enquanto eu estava com insônia, estava pensando a respeito de Adão e Eva e minha teoria tem a ver com isso e, por você ser Teólogo, vai saber me falar se faz sentido ou não.

Ailton: Claro, vamos decifrar seu pensamento... rs. Bora. Se preferir mandar áudio, fique à vontade.

Mateus: A minha teoria é a seguinte ... O "fruto proibido" nunca foi um fruto e a "cobra" era Lúcifer. E na minha teoria o fruto proibido seria o sexo. Eva transou com Lúcifer porque foi tentada pela "cobra" kkkkkkk. Com isso ela fez o mesmo com o Adão. Tiveram o primeiro filho que seria o Caim. Que é filho de Lúcifer e Eva. E pela essência do pai dele, ele acabou cometendo o primeiro assassinato no mundo contra o meio irmão. Botou o pé na estrada. E fez filhos.

Ailton: Certo. Vamos por partes...

Mateus: Como diria o Jack Estripador ... Vamos por partes.

Ailton: Em primeiro lugar é necessário compreender que Adão e Eva na verdade não passa de um conto. Não chega nem a ser uma lenda porque nunca existiram de fato. São personagens fictícios criados para contar a história do nascimento humano, do universo e da vida em si, a partir de uma teoria religiosa construída desde há muitos milênios atrás, muito antes de Cristo.

Ailton: Desculpa se estou sendo muito detalhista, mas vou tentar descrever de uma forma que, seria o jeito que explicaria para qualquer pessoa, independente do seu grau de conhecimento, fé, crença ou coisa do tipo. Então, desculpa se eu disser coisa que talvez, vc já saiba...

Mateus: Tranquilo.

Ailton: Sua teoria é interessante mas não tem embasamento nas histórias descritas no único livro que a conta, que no caso é a Bíblia (seja ela de qualquer religião cristã). Talvez, numa outra religião ou seita, sua teoria já até tenha sido mencionada e estudada. Quanto a isso não posso dizer, porque desconheço.

Ailton: A cobra no caso, tem muitos pensadores e teólogos que trazem diferentes interpretações. Eu, ainda penso, que ela (a cobra) seja apenas o nosso pensamento. E, como tal, o pensamento está incutido em nós, faz parte do nosso ser. Temos no caso a possibilidade de pensar coisas positivas ou negativas, e consequentemente bota-las em prática. Ou, podemos dizer que temos o anjo bom e o anjo mau, ou ainda, o lobo bom e o lobo mau. Basta saber qual devemos controlar e qual devemos acessar.

Ailton: Sua teoria seria perfeita para uma continuidade da série Lúcifer. Pois, seria algo a ser explorado a fundo por pesquisadores que se desdobram para construir uma ficção em cima de algo que, há muito tempo, faz parte da crença, da fé e da religiosidade de grande parte da população mundial.

Mateus: Nunca assisti essa série. Por preguiça kkkkkkk.

Ailton: A cobra representa o mal, entre Adão e Eva no paraíso. Seu papel é o de instigar o casal a fazer aquilo que não deveria ser feito. Por outro lado, pense, se o sexo já existia desde sempre para a procriação, por que ele seria algo considerado como fruto proibido? Ou seja, o sexo, como parte da criação também deveria ser algo abençoado por Deus. E é, sem sombra de dúvidas. Então vamos além...

Ailton: O que de fato estava impedido de acontecer, que era considerado o pecado dos pecados seria o "prazer". O prazer conseguido através do sexo. E por que a mulher em si, no caso EVA, que foi a que ousou comer desse fruto proibido? Porque na verdade, desde sempre a mulher era proibida de ter o seu prazer; ela, sequer, tinha direito a qualquer tipo de expressão na sociedade de sua época. Se ainda hoje temos essas diferenças, imagina a 2000 ou 5000 anos atrás !?

Ailton: É interessante, sátiro, a forma que a série recoloca o Lúcifer no papel da sociedade. Te indico pra assistir com olhos abertos e pensamento livre, encarando como um gênero de humor e com questionamentos que até o momento nenhuma religião foi capaz de fazer.

Ailton: Naquele momento somente o homem sentia prazer. E percebemos que isso ainda acontece nos dias de hoje. A história bíblica conta que a mulher saiu da costela de Adão. Mais uma história de submissão e pertencimento. A mulher pertence ao homem. A história foi escrita por homens e não por mulheres. Até mesmo algumas histórias bíblicas, em que a mulher é protagonista, foram escritas por homens. Ainda existem países e religiões em que a mulher não tem vez, nem voz, e tampouco pode sentir prazer. Alguns lugares ainda mutilam as mulheres para que não sintam prazer, cortando seus clitóris.

Ailton: A bíblia, demonstra o tempo todo que a mulher devia exercer apenas um papel de submissão. Nem nos templos ela podia entrar. Colocaram essa conta nas costas da mulher, que o pecado entrou no mundo quando Eva deu ouvidos à cobra e cedeu a tentação. Consideravelmente um pensamento machista.

Ailton: Eu acho inviável que essa teoria (a sua) seja uma possibilidade dentro do contexto bíblico em que o texto foi descrito, levando em conta principalmente a insignificância do papel da mulher na sociedade da época. 

Ailton: Por outro lado, acho uma teoria muito interessante, porque se de fato ela transou com a cobra, essa cobra teria se materializado feito homem, então não havia apenas Adão e Eva, mas muitos Adãos e muitas Evas, ou seja, era uma sociedade. Então Eva, impossibilitada de ter prazer com seu parceiro, encontrou prazer nos braços de outro homem, o que a fez descobrir-se enquanto mulher e, dessa forma pode conhecer o prazer. Foi descoberta e de certa forma amaldiçoada. E, pode ser, nesse caso, dentro das perspectivas de sua teoria, que esse primeiro filho tenha sido fruto de um adultério, ao mesmo tempo, fruto de um amor extraconjugal no qual ela descobriu-se enquanto mulher.

Ailton: Irmão, o baguio é loko! rsrs. 

Ailton: Já viu um vídeo do pastor Marco Feliciano dizendo que a África era amaldiçoada? Vou te mandar. Cara, olha a que ponto chegam os idiotas! Isso porque são líderes religiosos...

Ailton: https://www.youtube.com/watch?v=e9QGVliE-p8

Ailton: Bom, não sei se pude contribuir com seu pensamento, com sua teoria, mas de qualquer forma te agradeço pela confiança em partilhar. Questionamentos assim fazem a gente parar e refletir. Sua teoria me auxiliou a rever alguns conceitos. Obrigado. Qualquer coisa me chama aqui. E quero saber o que você achou de tudo isso acima

Mateus: Caraca ... Explodiu minha mente kkkkkk.

Ailton: Espero que junte tudo de volta e de forma turbinada rs.

Mateus: Perfeito ! É exatamente por isso que eu vim atrás de você ! Acho você uma pessoa muito mente aberta e muito inteligente e acabou abrindo a minha mente pra novas teorias também kkkkkkkk.

Mateus: Me senti recebendo uma aula! E que aula ... Assim que eu entrar no horário de almoço eu dou uma olhada, mas eu acredito que eu já vi esse vídeo e fiquei em choque com o que foi dito quando vi pela primeira vez

Ailton: Que isso irmão! Somos todos aprendizes. O simples fato de você me questionar, me aguçou a pensar. E pode ter certeza, o papo de agora é único, pois nunca o tive com ninguém. A aprendizagem é sempre uma via de mão dupla. Seu questionamento me fez ter percepções que até a pouco estavam apagadas ou nem as tinha de forma elaborada na minha mente. Pode ter certeza que eu aprendi muito mais...

Mateus: Um bom mestre é um eterno aluno

Ailton: Obrigado Mateus, por me propiciar esse momento de aprendizado mútuo. O mundo, a sociedade em geral, precisa de pessoas com senso-crítico, que pensem e questionem antes de aceitarem toda história contada como verdade única. Parabéns, jovem!


* Mateus de Souza Barbosa
21 anos
Estudante do 4º período de Psicologia Ψ - Unitri 
Insta: @mateussouzabarbosa


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos


quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos I



A última ceia

A última ceia é a referência da vivência do amor e da caridade: "nisso todos reconhecerão".

O que faz com que uma pessoa potencialize uma demanda se a demanda é da ordem do inatingível?



2) "(...) aquele que foi mais autêntico: Tomé"



3) Nada é por acaso.
Nada acontece sem a vontade de Deus.
Deus seria o acaso?
Ou o acaso é a vontade de Deus??
Livre arbítrio
Ou
Conspiração divina?


4) A luta da mulher
Gênesis 2 - Fica claro que desde os tempos em que a história do Gênesis foi contada, escrita e repassada pela tradição de geração em geração, alguém, de certa forma já se preocupava com a posição da mulher. O texto evidencia que ambos deveriam ter direitos e espaço em mesmo pé de igualdade. A luta pela inclusão da mulher e o seu devido e merecido respeito é mais antiga que este escrito....


sexta-feira, 10 de março de 2023

A visita


A instituição em si, no quesito estrutura física, lembra muito os relatos de um sistema institucionalizado. Foucalt descreve isso em Vigiar e Punir. Muros e grades ao redor, portões trancados, segurança para proteger os internos e as chaves sob custódia de um responsável para abrir os portões externos. Escolas, manicômios, internatos, presídios seguem a mesma linha de infraestrutura e organização, porém cada instituição com seus objetivos e finalidades.

Quando adentrei na primeira sala juntamente com meus colegas, já me deparei com algumas pessoas em cadeiras de rodas. A sensação é de comoção, de dó, pena mesmo... Imagino sempre como é perder algo tão vital quanto a liberdade, estar impossibilitado de fazer as coisas que gosta e que tem vontade e, em contrapartida estar dependente de terceiros. É a dor alheia me absorvendo, doendo em mim, e me fazendo refletir além do que vejo. Penso quantas histórias essa pessoa já viveu, o que a levou até este lugar, e o que ainda espera diante do que lhe resta. Esperança, talvez?! Ou apenas, aguarda por sua hora última, em silêncio, solidão, dores, saudades e, talvez, um tanto de consciência sobre esse tempo?

Algumas pessoas tem capacidade de locomoção, mas a maioria requer ajuda. Já na segunda sala, com cadeiras, sofás e cadeiras de roda, estava a maioria das pessoas. Em cada passo meu sinto um descompasso interior. É a minha minha fragilidade se acentuando e minha mente questionando o que posso fazer, o que posso deixar ali... quero muito e não posso nada, essa é a sensação. Um mix de impotência e inquietude que aguçam o querer ir além... Não sei o que eu pude deixar lá além de uns minutos dedicados com olhos, ouvidos, conversas e risos, mas sei muito bem o que eu trouxe aqui dentro. Sei e sinto, que num lugar assim, se não houver incômodo no que se vê, e gana por lutar por quem precisa, então, de nada valeu...

No portão de entrada havia uma senhora de semblante triste e que não media palavras para demonstrar sua contrariedade por estar ali. O que parecia, quando a escutei conversando com uma colega, era que sentia-se só, abandonada. Qualquer pessoa que chegasse até ela e puxasse algum assunto, a reclamação era a mesma. 

Impossível não se comover, impossível não se abalar, impossível calar-me... A experiência não foi nem nunca será um mero cumprimento de dever acadêmico, tampouco uma caridade regada à hipocrisia para satisfazer o ego da vaidade religiosa. Ouvir histórias e entrar na brincadeira, doar-se com o que temos de melhor para o momento, olhos e ouvidos... isso é essencial. Eles sabem, sentem, compreendem quando a atenção é fria ou encenada. 

Cada um com sua particularidade, vi ali uma colcha de retalhos de histórias recontadas. Não pude ouvir todas, mas a partilha com meus amigos e amigas deu-me uma dimensão maior desse dia, com essas pessoas. Há muito o que se fazer por este mundo, e em cada canto, que eu consiga levar além do que aprendi nas experiências acadêmicas, que eu possa ter a sabedoria necessária diante das adversidades, o profissionalismo humano e a empatia, amor e respeito para com cada um que cruzar por essa travessia através da Psicologia. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Caridade sem holofotes

[¹]

Começo com a seguinte pergunta: "Quantos tipos de caridade existem?" Uma pausa para refletirmos (...).

Não falamos aqui, de caridade ao arrecadar alimentos e donativos para auxiliar a quem precisa. Caridade está além desse gesto. Muitas vezes as pessoas doam dinheiro nos semáforos simplesmente para aplacar seu ego de "pessoa caridosa", ou para se mostrar benfeitora e digna de aplausos, ou ainda para se ver livre da presença "inconveniente" de quem pede. Pois, quem se dá ao trabalho da humilhação de pedir, sempre está com roupas sujas, e sem as necessidades básicas de higiene supridas. 

O Papa Francisco tem afirmado que a caridade é o maior antídoto contra as tendências de nosso tempo, que “a caridade é sempre a via mestra do caminho de fé. Mas a caridade não é simples filantropia, mas, por um lado, é olhar o outro com os mesmos olhos de Jesus e, por outro lado, é ver Cristo no rosto dos necessitados” (23 de mar. de 2022) ².

Segundo São Vicente de Paula, “a caridade é um amor elevado acima dos sentidos e da razão, pelo qual nos amamos uns aos outros pelo mesmo fim, pelo qual Jesus Cristo amou os homens para fazê-los santos neste mundo e bem-aventurados no outro” ³.

De acordo com o site SSVP Brasil, o Beato Antônio Frederico Ozanam diz que "segundo as leis que regem o mundo espiritual, para elevar uma alma é necessária outra alma, esta atração é o Amor, que também se chama amizade na linguagem da filosofia e a caridade na linguagem do cristianismo” (23 de abr. de 2021) ₄.

A palavra que interliga o pensamento desses três nomes, esteja ela explícita ou não, é simplesmente o amor. Não foi à toa que o atual Papa escolheu o nome de Francisco para o seu papado. Francisco de Assis, considerado um santo pela igreja católica, despojou-se de si, dos seus bens e se entregou ao serviço dos mais necessitados, humildes e excluídos da sociedade de seu tempo. Amor-entrega, amor-doação, amor-caridade, ou simplesmente amor. Francisco de Roma tem lutado com veemência contra o sistema político-social opressor para dar voz e espaço aos que precisam de todo tipo de ajuda e em especial, de inclusão. 

Vicente de Paula mostra que o amor é o caminho. E caminhar é, antes de uma ação concreta, uma opção aguçada pela necessidade de fazê-la. Essa percepção vem através do olhar que nos permite a compaixão com a dor alheia. Se a dor alheia não me comove, não me dói, então o amor já deixou de existir e, assim sendo, a caridade fraterna deixa de acontecer, dando espaço para a frieza desumana habitar o coração. A partir dessa premissa, o que poderá ocorrer é apenas um assistencialismo medíocre e hipócrita que necessita de holofotes, tal como os mestres da lei do tempo de Jesus faziam.

Ozanam segue uma linha que se assemelha ao pensamento da doutrina espírita. Ele fala que as almas são co-dependentes no sentido de se necessitarem mutuamente para seu devido crescimento (ou elevação). Amor que se traduz em amizade e caridade. Junto a esse pensamento do beato, trago uma lição que um dia ouvi através da voz da simplicidade e sabedoria e que ecoa eternamente em meus ouvidos: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Essa frase, eu ouvi de um senhor, pedreiro e carpinteiro, que veio socorrer-me com um cano estourado num final de tarde de sábado. Feito o serviço perguntei o preço e ele não quis cobrar. Por insistência minha, coloquei um dinheiro no bolso de sua camisa. Então o senhor me solta essa lição de vida com muita propriedade e amor e que vale a pena repetir sempre: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Então, qual seria o sentido da vida se não houvessem outros e outras de nós? A vida é mais que uma partilha com os que amamos. A vida é entrega diária, doação, afeição, empatia, caridade e amor. Nem sempre temos as condições para ajudar de forma material a quem precisa, mas temos a oportunidade de dar o melhor de nós levando o calor humano, com o coração aberto para acolher, dar ouvidos, um olhar de atenção e de empatia. Isso é caridade, isso é amor. E amor dispensa holofotes.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

[¹] https://portaljfonte.com.br/fora-da-caridade-nao-ha-salvacao/
[²] https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2022-03/pilar-caridade-papa-francisco-padre-gerson-schmidt.html#:~:text=O%20Papa%20tem%20afirmado%20que,Cristo%20no%20rosto%20dos%20necessitados%E2%80%9D.
] https://catequisar.com.br/texto/colunas/julinei/04.htm#:~:text=%E2%80%9CA%20caridade%20%C3%A9%20um%20amor,bem%2Daventurados%20no%20outro%E2%80%9D.
[₄] https://ssvpbrasil.org.br/palavras-de-frederico-ozanam/#:~:text=%E2%80%9CSegundo%20as%20leis%20que%20regem,caridade%20na%20linguagem%20do%20cristianismo%E2%80%9D.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

De almas e de rios, encontros



E quando me recobro da realidade
Sentindo-me deslocado da sociedade
Que padroniza religiosamente seus seguidores
Que crucifixa descaradamente seus opositores 
Escondendo suas fraquezas em recalques e tabus
Mantendo firmes suas regras, suas guerras 
Exalando preconceitos em nome de pseudorreligiões 
Condenando a pecados de dor, sem amor
Tudo o que não se enquadra em seus hipócritas padrões

E quando me reencontro dessa dura realidade
Sem padrão que me enquadre
Sem religião que me prenda
Sem senso que me cale
Sem preconceito que me oprima
Sem sombra que me pese
Sem dogmas que me ceguem
Sinto apenas o saldo das labutas
Sangue, suor e lágrimas de tantas lutas

E me vejo um forasteiro privilegiado
De tantas amarras libertado
E o que sobrou é tudo o que carrego
Aquilo que sou na minha mais íntima essência
Recortes de alegria, de sorrisos, de amigos
Amor, amores, cheiros e sabores
Porque o sentido desse mundo é sermos
Especialmente, uns pelos outros
O que seria dessa travessia sem a devida empatia?

Do mais, não quero ter aquilo que possa me definir
Nem status nem poder, nem matéria nem miséria
Principalmente aquela que mata de fome a alma
Quero continuar sendo o que sempre fui
"Nem melhor nem pior, apenas diferente"
Ser voz onde falta vez
Dar vez onde falta olhar
Ser olhos onde as palavras cegam
Verbalizar onde tentam calar a voz

Sou partida e sou chegada, mas antes de mais nada
Sou travessia e estripulia, intensidade e movimento
Sou deserto, sou paisagem, sou montanha, sou passagem
Sou verbo, de ação e ligação
Sou razão mas, emoção e coração
Encontro constante, de rios e de almas 
E de tudo o que já fui, só quero continuar sendo
Eterna construção do melhor que eu possa ser
Sou poeta e menino protagonizando meu próprio tempo

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Vôlei: acolhida, empatia e respeito



A palavra é "acolhida". Quem chega numa terra estranha, num lugar diferente, num grupo desconhecido, sempre se vê perdido em meio a tantos rostos novos. O clima, o ambiente, as pessoas, tudo é novo. Geralmente cabe a um líder, ou alguém de mais empatia e sensibilidade quebrar o gelo e dar as boas vindas. 

Empatia, é dar o respeito merecido ao ser humano que chega ou que parte. Um mínimo de olhar para com quem se achega ao ambiente, ao grupo. É isso que geralmente falta em muitas denominações religiosas. 

A partir da teologia, posso dizer que já estive em diversos meios cristãos: linhas de frente, bastidores, grupos de massa (aqueles que querem te converter pela emoção forçada e forjada), e os grupos de base (os quais sempre centraram minha travessia e ajudaram a alicerçar o meu senso-crítico). 

Através da psicologia, venho me atentando, interiormente, esforçando para ter um olhar de acolhida, respeito, empatia, aceitando o diferente que me ajuda desconstruir e reconstruir-me cada vez mais humano.

Enquanto pessoa, luto para ser voz diante de tantas vozes sem vez, fazendo a minha parte num mundo hipócrita que cobra justiça e torce pela guerra. A luta é contra as máscaras-maquiadas que se matam pelo poder, sejam elas religiosas ou políticas. 

Através da poesia, eu me permito sonhar, ter fé, e coragem de lutar. Ela me conecta com as ciências, me  permite a transcendência entre os universos do sonho e da realidade. A poesia me faz ver a justiça em pé de igualdade, é arma de amor contra o ódio estipulado pelas religiões de poder. Ela anuncia, denuncia, ama, abraça, e acolhe as minorias. É a conexão entre ciência, fé, sonho, realidade, amor, coragem, luta e perseverança. 

Trago comigo um álbum de recortes de sorrisos, olhares de empatia, palavras de acolhida, alegria, determinação, em meio a gritos de vitória em cada passe que permite um bom ataque. 

Poesia e esporte, mais uma base que alicerça minha caminhada. Não foi fácil chegar até aqui. Em vários momentos eu me vi parando em qualquer estação da vida, e me encostando sob uma sombra qualquer à espera do tempo e do fim... Mas, não era pra ser assim. E não foi! 

Entre lágrimas de desespero, e abraços de coragem, cá estou. Um sobrevivente de lutas invisíveis, de sofrimentos palpáveis como a de qualquer outra pessoa. Vi muita gente abdicar de sua existência por não se enquadrar em nenhum modelo ou padrão social. Porque pra você existir, ser reconhecido, precisa fazer parte de regras arcaicas as quais os hipócritas julgam ser morais e de bons costumes. Querem nos enquadrar naquilo que os donos do poder consideram como normal e são. 

Não quero ser normal pra me enquadrar. Prefiro a insanidade de quem pensa por si só. Um maluco beleza e pronto. Só quero ter a liberdade de escolher o meu próprio padrão. Não quero seguir modas. Quero só o tempo para viver ao lado das pessoas que me fazem bem, que eu gosto, que eu amo, e juntos praticarmos seja a teologia, seja a psicologia, seja a poesia, seja o esporte, seja um mix temperado com muita alegria, respeito e amor. 

É isso. Voltar ao vôlei me trouxe vida, sobrevida de um tempo difícil. Encontrar pessoas alegres, que deixam suas armaduras de lado quando entram em quadra me fez olhar ainda mais a fundo o ser humano. É possível fazer a diferença com poucas coisas, em pequenos gestos. É sobre isso: acolhida, empatia, respeito. E são essas as palavras que me trouxeram até aqui para agradecer a cada um e cada uma que pisa nessa quadra. 

By 
Vôlei Roosevelt
Vôlei Corujinha

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Sonhos em auto análise: a cobra de cada dia



O sonho se desenvolve num lugar já conhecido de minha saudosa infância. Era a escola Moreira Porto, especificamente na entrada, a qual tinha uma rampa de acesso que passava por três árvore, dava de frente com a biblioteca e logo já estava no pátio onde tudo acontecia. 

Nessa rampa, uma cobra jiboia me dava o bote e pegava no dedão esquerdo da mão. O dedo estava inchando rapidamente e a impressão era a de que iria explodir, enquanto o veneno poderia invadir meu corpo, caso a cobra não soltasse.

Com a outra mão eu segurava o dedo ao qual a cobra ainda estava pressionando. A ideia era simular um torniquete e impedir que o veneno se espalhasse pelo. A dor era demais.

Algumas opções me passaram pela cabeça como pedir ajuda para alguém próximo e de confiança. Puxar a mão e correr o risco de perder o dedo. Cortar a cabeça da cobra, fazendo com que meu dedo fosse recuperado e assim o veneno ficaria sem efeito. 

A cobra pode ser um problema, alguém que está tentando dar o último bote, a última tentativa. Posso deixar o veneno tomar conta, como se não houvesse solução, como se minha única alternativa seria suportar a dor e as consequências desse efeito; com riscos da cobra sempre abocanhar cada vez mais, me consumir mais até que em determinado momento já não saberia a minha identidade. A cobra teria assumido o controle sobre mim.

Cortar a cabeça seria cortar os problemas, vínculos desnecessários, cortar na carne e cortar da vida pessoas e relações tóxicas. Todo corte causa incômodo, dores, reações próprias que nunca tivemos antes, mas depois vem a sensação de alívio. O tempo tem essa função de aliviar tudo. Desintoxicar.

Em muitos momentos, pedir ajuda de quem confiamos não é desmérito. Muitas vezes não temos força nem coragem de fazer algo só e, por medo ou vergonha, nos deixamos consumir pelos problemas e a toxidade que não nos pertence. Pedir ajuda é honroso para quem ajuda e para quem pede.

Uma outra opção e talvez a mais sensata, seria a de que a cobra faça parte dos meus próprios pensamentos, especificamente daqueles que me fazem voltar para lugares de toxidade. Lugares que já deveriam estar enterrados, uma vez que o luto da dor já acabou. A cobra faz parte de mim, ela é o pensamento ruim, o negativo, aquele que me instiga a permanecer no erro. Então, a cobra também sou eu. Anjos e demônios coabitam no ser e assim, estamos todos lutando internamente. 

Carrego meu bem e meu mal. A toxidade que meu ser - corpo, alma e mente - foram testados e forjados, demora para ser eliminada. Por mais que o grau de toxidade não seja mais tão alto, haverá dias em que corpo, alma e mente sucumbirão de desejo de possuir aquela droga, aquele problema, entre outros exemplos. É uma luta constante manter-se livre e liberto de tudo o que nos impede de viver, ser feliz e crescer. Sim, só depende de mim. Depende de querer mudar, depende de não aceitar pessoas e relações tóxicas, depende de compreender que preciso de ajuda.

A cobra mordendo meu dedo pode ser meu subconsciente alertando. É necessário deixar o sistema de defesa em estado de alerta. A cobra do sonho foi eliminada. Sua cabeça foi cortada. No mundo real as lutas são reais, mais intensas e reque cuidados, estratégias, convicção e ação. 

Eu sou o meu maior incentivador, mas posso muito bem ser o meu maior adversário também. Isso só depende do protagonismo que eu assumir: anjo ou demônio. Não vou deixar que o veneno nem a cobra façam parte da minha vida. Esses pensamentos do meu "eu adversário" serão sabiamente eliminados, dia por dia. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Minha sexta-feira 13 especial


Era para ser apenas mais uma sexta-feira normal, não fosse hoje o dia 13 que, por coincidência, também é o dia do meu aniversário. Não tenho superstições e portanto não me preocupo com tais coincidências. Um dia literalmente como outro qualquer, apenas com a possibilidade de celebrar mais um ano de vida neste mundo.

Através das câmeras de segurança consigo identificar uma pessoa deitada na calçada. Fui lá fora e perguntei ao senhor se estava tudo bem. Ele demorou a acordar e a se colocar sentado. Perguntei-lhe se estava com fome. Primeiramente respondeu que já havia comido, mas quando conseguiu se recobrar de si, disse que não havia comido nada e estava com muita fome. Então, ofereci-lhe um prato de comida quentinha e ele aceitou. 

Voltei para dentro e fui preparar o prato. Na verdade era o almoço que eu havia trazido de casa. Juntei ao prato alguns salgadinhos, um pedaço de bolo e um gatorade. Precisei acordá-lo novamente e quando me viu disse: "Não achei que você fosse voltar". Essa foi a primeira frase que me fez pensar (...), quantas pessoas que passam por este senhor e por tantas outras pessoas e, não apenas não os enxergam, mas os ignoram e até os humilham. Mas eu voltei, respondi a ele.

Dei-lhe a vasilha com a comida e os salgados. Ele ficou maravilhado. Praticamente foi devorando tudo rapidamente, tamanha a sua fome. Mostrei-lhe o bolo e o gatorade. "Nossa, esse aí levanta qualquer defunto", comentou o senhor já de forma mais descontraída. E quando ele notou o celular em minha mão pediu para tirar uma foto dele e mostrar para todos os que eu conhecia: "pode mostrar porque eu não devo nada pra ninguém". Tirei não apenas a foto dele, mas tirei outra ao lado dele. 

Entre um bocado e outro, ele me contava sobre sua vida, o quanto já tinha sido bem sucedido mas que de alguma forma, que hoje não saberia explicar, perdeu tudo na vida, inclusive sua própria identidade. Várias pessoas passaram por nós neste momento. Algumas até o cumprimentaram, outras atravessaram a rua e outras fingiram não ver o que acontecia ali. 

Em nenhum momento eu me imaginei fazendo caridade para saciar o ego. Na verdade, de forma religiosa ou teológica, só consigo entender a caridade como um ato de respeito ao próximo, principalmente se esse próximo for alguém que inspire ajuda e cuidados. Caridades institucionais que visam lucro só entendo como um golpe na fé alheia. E mais, por uma visão cristã, Jesus foi o cara que lutou contra o sistema opressor, que em sua época eram o Estado e a religião, principalmente esta segunda e em contrapartida acolhia a todos os que viviam à margem, rejeitados pelo Estado, pela religião e pela sociedade. 

Ainda nesse sentido teológico, tentei responder a mim mesmo a questões sobre uma possível manifestação de Deus na vida das pessoas. E, concluo que, só entendo e não sinto de outra forma, ele não estaria entre os homens da Lei nem entre os profetas midiaticamente famosos que pedem dinheiro escancaradamente para obras de cunho pessoal. Ele estaria sim na sarjeta, andarilhando pelas ruas e avenidas e possivelmente seria torturado. Talvez, não numa cruz, mas espancado por uma leva de pessoas que se julgam cidadãs de bem. 

Enquanto o senhor degustava a comida e bebia o isotônico, também me perguntou se eu "era espírita". Respondi-lhe que não, era Católico, mas respeitava todas as "religiões" (somente as sérias, não as que roubam seus fiéis). Entendi que ele tenha recebido muita ajuda de pessoas espíritas. Enquanto muitos fiéis que batem no peito e ostentam seu cristianismo nas primeiras fileiras dos templos, muitos espíritas realizam um trabalho ímpar de forma discreta e com respeito ao próximo.

Quando perguntei seu nome ele negou-se a dizer, porém me deu outra resposta e mais uma vez me tirou o chão: "você não precisa saber meu nome, você já é meu amigo". Prendi a respiração e ajoelhei-me novamente e então: "porque você me ajudou?". Confesso que não soube nem o que dizer, só sabia que precisava fazer algo. 

Quando eu estava quase voltando para dentro ele mostrou-me um chapéu estilo afro-reggae, colorido e com tranças, e contou-me uma outra história de quando ele fazia parte de uma escola de samba. Mostrou que o chapéu estava limpo e pediu para eu colocá-lo e tirar uma foto. Não hesitei e coloquei o chapéu e tirei uma foto, mas ele não gostou. Disse que não estava colocado direito e prontamente levantou-se para ajustar. E assim tiramos outra foto, dessa vez com ele ao meu lado. Sua satisfação já não era pela comida, mas pela conversa, e apenas por eu estar ali... 

Ele sentou-se novamente e disse que tinha pancreatite e estava sentindo muita dor. Ofereci-me para ligar para os bombeiros mas ele não quis. "Por que você me ajudou? Por que não me deixou morrer em paz? Pode voltar pro seu trabalho, você já fez sua parte", palavras que me deixavam sem respostas. "Não vai apagar essas fotos não, por favor!" E quando eu realmente estava adentrando pelo portão ele me chamou, colocou a mão em seu coração e entre lágrimas disse: "não esquece de mim não". Com o mesmo gesto, coloquei a mão em meu coração e disse-lhe: sua foto estará aqui pra sempre, você já é um grande amigo! 

E, como eu havia comentado ao longo do texto, não vejo outra forma de uma possível manifestação de Deus que não seja como essa, através de pessoas que precisam muito mais de respeito do que de caridade. Não entendo também nenhuma outro meio de expressar a fé, seja através do cristianismo, do budismo, do espiritismo, ou qualquer outra religião ou crença, que não seja a de dar ao próximo o que ele mais necessita: amor em forma de atenção e respeito. Não quis fazer de tudo isso um pedestal para "bons atos" e esperar aplausos no final. Apenas registrei este momento especial, num dia todo especial e partilhei com pessoas que com certeza entenderão.