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terça-feira, 24 de março de 2026

Ecos: Necessários e Possíveis


E quando o comunicar se torna cansativo? 

Há nisso uma necessidade urgente de repousar sob o solo do silêncio e à sombra do pensamento?

Seria um grito de desespero frente à corrida desenfreada para um topo imaginário?

Faltaria aí a essência vívida e vivida no expresso horizonte dos sonhos?

Vítima da pressa e da urgência, somos todos...

E para quê? 

Para quem? 

Por quê? 

Para tentar controlar e vencer?

O que é vencer na vida? 

Tem uma moral capitalista nisso...

Que tal parar de tentar só vencer e passar a viver?

O resgate de si, o reencontro com o eu mais profundo da existência

Entender o tempo, o seu tempo, permitir-se

Isso também é viver

Decidir é angustiante

Permitir-se à angústia também é

Por outro lado, como sustentar a angústia sem temer uma decisão?

Equalizar "necessários e possíveis" é um meio para encontrar um caminho autêntico para si

Toda a busca humana, no fim, é um eterno e autêntico retorno à essência do seu eu

A condição de ser-no-mundo é um mundo de possibilidades inquietantes

No final das contas, o destino final é certo, pontual e sem preferências

E não deixa de ser uma linha de chegada, um pódio, um topo, um fim em si mesmo

A forma como se vive, sem a necessidade do controle e do poder, faz a vida mais autêntica

E sobre as demandas de cada ser, há que se entender

Uns viverão a travessia, em que o caminho se faz caminhando

Enquanto outros se perderão nos planos da soberba ignóbil 

Necessitando de plateia e escadas para suas propostas pessoais

Nas várias formas de se chegar 

A melhor é a que nos faz sentir o sabor vibrante da vida

Seja no silêncio, no pensamento

Na individualidade solitária e solicita

Ou na coletividade sonhadora e lutadora

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entre mares e amares



Entre a luz que oprime e a escuridão que redime
O pensamento perdido que foge querendo se encontrar ao longe
Feito animal que busca abrigo no olhar que lhe protege do perigo
Assim sigo em meus olhares
Entre mares e amares

A paz que a guerra interdita, que lança mão, lança bomba, maldita
Entre meus céus, meus desertos, o medo do abandono incerto
Reencontro-me à luz do olhar, que me afronta, me desmonta, amor-amar
Assim sigo em meus caminhares
Entre mares e amares

No caminhar pela trincheira que se estende por uma vida inteira
O sonho que precede o solo, em acordes que cantam e encantam sem dolo
Há muita dor na jornada dessa busca, muito amor, lágrimas, suor e luta
Assim sigo em meus guerreares
Entre mares e amares

A noite que encortina o profano, desnuda o sagrado e provoca o insano
Dentro do peito coabitam sem planos, frio e calor, dor e amor, o santo e o mundano
Deleites de um sonho sem guerra, utopia da paz no coração da minha terra
Assim sigo em meus pensares
Entre mares e amares

Entre os meus mares naveguei, destino certo ou a deriva, lugares explorei
Paisagens e horizontes se pintaram em dádivas, miragens e frontes se impuseram em lágrimas
Amares de paz, de brilhos, melodias, ou que se desfaz, maltrapilho, sem alegria
A busca de um lugar confiável, em que sei, quero ou não estar: inalcançável ?
Assim sigo, perdido, 
Entre mares e amares

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Companheiro de brincadeiras


As vezes me pergunto se algum dia vou crescer, mas em seguida volto à realidade e penso: "crescer pra quê? A quinta série deve ser eterna."

A seriedade das labutas diárias, das rotinas várias, compromissos, burocracias e coisas do mundo entediante dos adultos camuflam a essência do ser que somente enquanto criança é capaz de viver com plenitude. 

Segundo Rubem Alves, em "As contas de vidro e o fio de nylon" (1996), somente as crianças e os avôs são capazes de encontrar a essência da alegria. Os adultos são engessados e só se preocupam com as coisas sérias e chatas. No Psicodrama, de Jacob Levy Moreno (1889 - 1974), chamamos esse enrijecimento de "conserva cultural".

Brincar é um ato sério. O pensamento atribuído a Charles Chaplin (1889 - 1977) descreve bem e enfatiza a seriedade por trás da brincadeira: "Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria." 

Tenho medo do crescer. Não o medo da vida adulta, até porque já estou nela. Não o medo das responsabilidades, mas o medo de perder a mão da leveza que só as crianças têm. A forma mágica com que encaram os desafios é simplesmente encantadora. Tenho comigo que preciso sempre cuidar da criança interior, levá-la aos recantos do faz de conta, das brincadeiras, aos parques da memória, enchê-la das guloseimas da vida, encorajá-la a ser heroína de suas histórias e a alimentar seus sonhos de aquarela. 

Brincar não é falta de seriedade muito menos falta de comprometimento. Brincar é libertador. Brincar é a reconexão com o natural, com o simples, é trazer a criança interior ao protagonismo da cena, ao cenário infinito da imaginação, tirá-la da plateia e realocá-la no centro do palco da vida. O adulto que não sabe brincar não sabe viver.

A criança enxerga o mundo colorido e com alegria, tem solução simples para as equações robustas. O adulto que se permite brincar consegue não se sobrecarregar de bagagens desnecessárias. Anda mais leve e alimenta conexões profundas. 

Levar a vida com uma pitada da essência da criança interior é compartilhar o brilho colorido e a alegria que só os pequenos possuem. E muitas vezes, isso é tudo o que as pessoas precisam. A administração, a teologia, a psicologia, as artes, tudo me contribui para esse lugar, o da alegria. Se "viver é um negócio perigoso", como afirmou Guimarães Rosa em "Grande Sertão, Veredas" (1956), quero viver intensamente, sem perder a criticidade, sem esquecer das responsabilidades, sem ocultar a seriedade, sem perder o equilíbrio das brincadeiras sérias.  

Sigo nessa travessia, nesse legado de viver com alegria em cada canto desse sertão da vida, sendo companheiro fiel de minha história e minhas raízes, honrando o legado da existência e a memória da criança que em mim habita. Como companheiro de brincadeiras, convido para a ciranda viva da vida a todas as almas que buscam a essência da existência. 

 A criança que habita em mim saúda a criança que habita em você!

 

quarta-feira, 19 de junho de 2024

O jardim



Meus Jardins
Eu planto na terra
Para que floresça no céu
Gramado novo, flores...
Tudo para que a chegada seja familiar
A estadia seja confortável
E a lembrança seja eterna

Sol, brisa gelada, um tempo bom
Pássaros nas árvores
Borboletas nas flores
O sol me acalenta
Me traz a leveza da vida, a esperança
A noite vem triste, escuro e solidão
Dor e saudade

Este não pode ser o fim
Eu preciso ver você correr pelo jardim
Sua morada, eterna morada,
Está além da fachada
Derradeira que preparei sob lágrimas
Na esperança de que você 
Em algum momento, entre pela porta

Você foi mas deixou seu legado
Viveu o que precisava ser vivido
No seu tempo 
Antes de ter partido
Nada justifica, nada apazigua
Só a dúvida infinita
A de que você logo correrá de volta pra casa

Meu coração, sua morada, meu jardim
Quem foi antes te espera
E juntos hão de olhar para a terra
E daqui, desta imensidão de véu azul
Continuarei elevando meu coração
Ao limiar da sua face
Meu jardim é o céu

Seu jardim é o meu coração
E aqui as flores nunca secam
Você está cuidado e protegido pelo meu amor
O meu jardim é o céu
Basta elevar meus pensamentos
E meus olhos te encontram
E eu sigo a te cuidar daqui...

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Minhas 3 idades e outras loucuras necessárias



Elas se misturam, se conflitam, se desentendem e por vezes misturam seus lugares. Apresentam-se em horas impróprias mas, há um Q que justifica essas lambanças etárias: sobrevivência. Não dá pra dizer o que é mais loucura num mundo tão disforme, tão distópico, tão sem razão que justifique as emoções e vice-versa. Sendo assim, é necessário sempre ter na manga da alma, a roupagem etária diante das situações cotidianas. 

Penso, e acredito nisso, que tenho (ou "temos", para quem quiser seguir esse raciocínio) pelo menos três idades em meu ser. E, são tão necessários quanto certos protocolos que precisamos seguir para determinados ambientes que frequentamos.

A idade biológica, que é a nossa idade de fato, a contar do dia do nosso nascimento, que é devidamente registrado em cartório. É a idade que nos apresentamos, que seguimos os protocolos e sendo assim, havemos de nos comportar conforme a etiqueta exige.

A idade social, que por muitas vezes justificamos nossas opções de estar ou não em determinados lugares, evitando aglomerações, confusões, bagunças, e damos preferência a um canto silencioso, uma poltrona, boas companhias, ou mesmo a solidão. Preferimos assim ficar em casa do que caçar uma balada qualquer. Independente da idade biológica, todos tem um pouquinho da social. Uns mais, outros menos. Quem não teve, fique calmo. Ainda chega lá!

A idade mental, que se caracteriza pela eterna criança e adolescente que habita o meu ser. A espontaneidade, a criatividade, o sonho, a vontade e a gana por mais, por mais além do que se vê e do que se pede. A alegria contagiante em meio a dificuldades. O encarar, mesmo com medo e receio, as barreiras e as fronteiras. Porém, nunca sem a devida responsabilidade. 

E assim, vou costurando meu tempo com as linhas mestras das idades que tenho. Não como justificativa para a travessia, mas como necessidade básica de sobreviver frente as adversidades e viver com ênfase e êxtase as oportunidades que a vida me dá. Se necessário, levar sua criança para um encontro ou reunião, por que não? Quebrar o protocolo, desviar o padrão, por vezes é necessário, pois cada ser é único, bem como suas vontades, desejos, sonhos, e vida. Permear entre suas capacidades, vontades, necessidades e potências é algo que somente eu, somente você, pode fazer por si. Resgate a criança, permita o descanso, abuse com moderação. 

Somos todas as estações numa só, todos os dias de nossa vida. 

Um novo canto no recanto do céu


"Eu era pequeno (...)" 

Mas me lembro bem:

Doce voz

Doce Vó

Sua voz suave, melodiosa, afinada 

Era, sem dúvidas, um acalento aos nossos ouvidos

Seu talento ia além da voz ressoada nos cantos

Sua vocação, por amor, era arrebanhar pessoas,

Em especial crianças, adolescentes...

E, talvez, essa tenha sido sua grande missão

Que você, querida Vó, realizou com louvor. 

Foi assim com cada um que passou pelo crivo do seu carinho

Pelo doce olhar da sua ternura

Pelos cuidados de sua pessoa

Você foi sempre além do seu tempo

Para nós, que fizemos parte de uma geração saudosa,

Você não foi apenas nossa coordenadora, educadora, mãe e vó

Você foi amiga, confidente, amorosa 

E com uma psicologia nata e única

A de amar, a de cuidar, 

De entender cada um de seus meninos e meninas, 

Que por sinal, nos considerava como netos e netas

Você era alegria

Não me lembro de ouvi-la reclamar durante os momentos de ensaios ou missas

Era nossa protetora, super Vó protetora

Talvez, não tenha dado tempo de dizer essas e outras tantas coisas

Que não apenas refrescam as lembranças, 

Que não apenas nos deixam saudades,

Mas, acima de tudo, compõem a base de nossa formação

Em suas mãos, aos seus cuidados, 

Nós fomos crianças, adolescentes, jovens

E você continuará cantando eternamente em nossos corações

Hoje você leva um canto novo aos recantos do céu

Vai lá e cante, "cante ao Senhor os seus louvores"

Agradeço, agradecemos a Deus por nos ter dado a honra

De conviver e aprender tanto com você.

Obrigado Vó Ivone!

Doce Voz

Doce Vó...


Em nome dos meninos e meninas da Ivone
Grupo de Canto da Vila Cantizani
Piraju-SP


segunda-feira, 1 de abril de 2024

1º de abril



Você
pode abrir mão de conceitos,
pode abrir mão de princípios,
pode abrir mão de leis,
pode abrir mão da forma como pensa,
mas, jamais, jamais,
jamais abra mão de si mesmo por conta de algo ou alguém.
Abrir mão de si 
é percorrer um caminho cheio de emaranhados,
é entrar num labirinto 
correndo o risco de nunca mais encontrar a saída.
Abrir mão de si 
é um sério risco de perder sua própria identidade.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Ainda me lembro bem


Ainda me lembro bem das brincadeiras no quintal de terra na casa dos meus avós, Joaquim e Iolanda. Não tinha hora para acabar. Histórias inventadas, sonhadas, entre carrinhos, soldados e índios...

Ainda me lembro bem do medo de ficar na escola, de não ter ninguém a me esperar do lado de fora, das lutinhas com meu pai, das tarefas ao lado da minha mãe, do tempo que não volta mais...

Ainda me lembro bem dos almoços de domingo na casa da vó Cida. Vô Dito organizando o quintal, tratando das galinhas ou sentado na varanda olhando o movimento da rua.

Ainda me lembro bem ...

Em muitas datas especiais eu me dividia entre a tristeza pela ausência de pessoas queridas que já partiram ou de pessoas distantes separadas pela geografia, e a alegria pela presença viva dos que ali celebravam comigo. É uma batalha tão intensa quanto estranha, viver o presente sem se abater pela saudade...

Natais, Páscoas, aniversários, sempre há uma mistura de emoções e sentimentos que nos transbordam. São datas em que ajuntamo-nos com os nossos. Família, amigos, 

Sempre tem uma data chegando, uma saudade batendo, uma lágrima escorrendo, e uma esperança nascendo.

(12/01/21)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Relatos literários - "Sorria, você está sendo lido"


Essa semana um senhor entrou aqui no meu trabalho. É a segunda vez. Um homem de boa conversa, simples no vestir mas com assuntos que dariam horas e horas de prosa. Rico em sabedoria de vida, experiente na travessia, belo em conhecimento. O tipo de pessoa que a gente não percebe o tempo passar quando estamos juntos dela. Fala com o corpo e olha nos olhos. Apesar dos trajes simples e sujo, é um construtor que dispensa ostentação. Ele sabe que é travessia e que nesse mundo somos uns pelos outros. Ao se despedir, pegou esse pequeno livrinho nas mãos, abriu, leu, fechou e colocou de volta no lugar. Olhou-me e disse: "Esse livro faz toda uma diferença aqui na empresa. Livros fazem a diferença. Quem chegar, se não estiver de bom humor, já vai se monitorar ao ver isso aqui. Pode espantar energias ruins. Parabéns!"

Relatos Literários - "Nunca é tarde para aprender"




Relatos literários.

Há tempos venho brigando (no bom sentido) para que minha mãe lesse alguma coisa. E agora ela está empenhada na leitura do livro Persuasão, de Anselm Grün. Abordagem tranquila, linguagem simples, conteúdo profundo. E faço questão de perguntar sobre as partes que ela mais gostou. O fato dela se esforçar para transmitir com suas palavras aquilo que de fato ficou entendido é um exercício importante. 

Numa outra pegada, a 630 km de Uberlândia, meu pai (68 anos) começou a aprender a tocar viola. Quando me contou, de forma bem tímida, notei que estava com vergonha ou com receio do que eu poderia responder. Talvez, tenha imaginado que eu pudesse jogar água fria naquele pequena brasa de vontade e sonho. Simplesmente me emocionei e disse pra ele que gostaria que ele gravasse um vídeo em cada aula que fizesse e fosse me mandando. E isso tem acontecido. Ele me manda vídeos, tocando viola numa nota só, sem perder o ritmo, e cantando. Isso não deixa de ser uma leitura musical.

Algumas pessoas aqui eu conheço de longa data. Outras, um pouco mais recente. Mas, independente do tempo, aqui estão pessoas que admiro, respeito e carrego sentimentos vários. Um orgulho estar aqui com vocês. Poderia até falar um pouquinho sobre o que cada um me transmite e sem precisar dizer em palavras, mas não agora.

Que possamos continuar sendo Travessias para quem quer que cruze o nosso caminho. Nada mais apaixonante, terapêutico, libertador, regozijante e que nos enche de orgulho do que ver as pessoas que amamos buscando conhecimentos. É lindo ver crianças aprendendo a ler e escrever. É maravilhoso perceber que elas estão tomando gosto pela leitura, pois só assim terão senso-crítico, bom senso e discernimento. E é preciso, muito mesmo, convidar e motivar as pessoas de mais idade a mergulhar nesse universo literário. 

Que a leitura nos seja um alimento diário por onde quer que nossa travessia nos leve.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Felicidade não se possui - parte II



"Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura"

(Milton Nascimento - "Caçador de Mim")

Quanta mística, quanta espiritualidade, quanta sensibilidade, quanta luz... essa obra de arte carrega. E a arte tem em si, de forma tão potente, única, mágica, o poder de transcender para além de qualquer fronteira, seja em nós, seja física, seja emocional... 

E assim, retomo para a continuação de "Felicidade não se possui - parte II", caçando cada vez mais por aquilo que me possibilitará estar feliz, que seja por um momento, um tempo, um dia, uns minutos ou uma fração de segundos. Se o milagre acontece quando a gente vai à luta, que essa luta seja incansavelmente gostosa, saborosa e que cada esforço valha a pena. Se a vida se dá é no meio da travessia, como escreveu Guimarães Rosa, e eu não canso de repetir, que façamos isso intensamente. 

Bom, mergulhando de volta na questão da felicidade, penso e acredito que 
a gente nunca, nunca e nunca, seja no individual, na parceria, no coletivo, a gente nunca vai ser feliz. Sabe por quê? A felicidade não é um negócio que você vai ter e nunca mais vai te faltar. Vamos ter possibilidades de estarmos felizes em diversas situações. Podemos estar felizes fazendo o que gostamos, ao lado de quem a gente ama, e mesmo assim, estando ao lado de quem a gente ama e fazendo aquilo que gostamos, nem todo dia, nem todo momento, nem toda hora e segundo, estaremos felizes. Tristezas e decepções permeiam os momentos de felicidade. Estar ciente disso, é estar maduro o suficiente para superar todas as nuances enquanto a felicidade está ausente. A felicidade será cada vez mais constante cada vez que conseguirmos superar situações adversas.

Não existe fórmula, não existe o princípio da felicidade, não existe uma receita para a felicidade e nunca vai existir. E quem vende isso, quem coloca dessa forma, como os gurus da mística, da espiritualidade e da mídia, sejam eles, coaching's, líderes religiosos ou influencer's, que descobriram uma forma de encantar a quem, principalmente, esteja passando por um momento de fragilidade e assim vendem seus produtos em forma de receita pronta, e que tudo resolverá se você seguir o passo a passo ali descrito. Mas, e quem faz tudo o que está nesse manual e mesmo assim não consegue romper os obstáculos e tampouco alcançar ou conquistar a tão desejada felicidade? Essa pessoa estaria condenada à infelicidade eterna, fruto de suas escolhas, ou de sua falta de fé, ou de sua falta de sorte, ou abandonada pelo seu Deus ou deuses? Há uma responsabilidade muito grande quando se quer atingir públicos em massa, porque ao jogar a ideia, a fórmula pronta para todos sem saber da história de cada um é criar um mecanismo de pura concorrência, não levando em conta a individualidade de cada um. Quem conseguir encontrar a felicidade através da fórmula é merecedor e quem não conseguir, por questões das mais diversas imagináveis, pode se considerar um fracassado, um derrotado e isso impactará de tal forma negativa na vida dessa pessoa que contribuirá apenas e somente para deixa-la pior. Por isso que existe a terapia individual, que é realizada pelo profissional competente. Existe terapia de grupo, que também segue um formato devidamente ético e responsável. 

A questão é que a felicidade nunca funcionará dessa forma como os midiáticos vendem. Se não tivermos consciência de que a felicidade são momentos, estaremos fadados a nos sentir fracassados, segundo o padrão colocado pelos gurus. Fujamos dos padrões impostos, sejamos autênticos em nossa busca e em nossas escolhas. As pessoas amamos são as que mais nos deixam felizes, mas também são as que mais nos decepcionam. Uma pessoa aleatória, a qual não faz parte do nosso círculo de vida, no máximo conseguirá extrair de nós um momento de desprazer, de raiva, que poderá gerar um desentendimento. Passada a situação, seguiremos nossa vida normal sem lembrar da existência da mesma. 

Precisamos nos reeducar na forma de pensar, entender e aceitar o que de fato está na questão da felicidade. Nada vem pronto. Nada será tão fácil como padronizado nos bonitos e sensíveis discursos de quem diz ter vencido na vida após longas batalhas de superação. A busca não pode se resumir numa desenfreada luta para "ser feliz". Quero ser feliz, porque aquele "guru" é feliz e tem a receita da felicidade. Isso é balela pra vender produtos de auto ajuda, o que de fato não seria ruim, se houvesse uma responsabilidade em dizer a realidade e não a idealização inescrupulosa em palavras bonitas. Se considerarmos a felicidade como algo a ser buscado como meta, acredito que também não funciona. Felicidade não é uma linha de chegada, um topo da montanha a ser alcançada. Longe disso. A felicidade está em vários momentos da corrida, em vários pontos da subida, quando você para e contempla toda a paisagem e a natureza ao redor, por diversos ângulos e isso te sacia a alma de forma que não existem palavras capazes de descrever tamanha emoção. A felicidade está diretamente ligada ao verbo "estar". A felicidade é ação, movimento, requer atitude, requer renúncias também. 

Que sejamos capazes de ampliar nosso horizonte para captar as inúmeras paisagens, que possamos ter ciência da nossa capacidade de movimentar nossa vida e sensíveis para os momentos que de fato estamos felizes fazendo aquilo que gostamos, ou ao lado de quem amamos, ou apenas cultivando flores, narrando fatos, fazendo poemas, cantando paras os animais. Que tenhamos senso crítico e respeito por nós mesmos para que consigamos nos libertar dos padrões impostos e ter clareza que cada um é o seu próprio padrão, o seu próprio universo a ser explorado, assim como diz a música "Caçador de Mim".

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Felicidade não se possui - parte I


O ano era 1998. Exatamente 20 de agosto de 1998. Próximo de completar meus 22 anos de idade, ainda na cidade de Piraju, interior de São Paulo, recém formado em Administração de Empresas e com  exatamente 8 anos na farmácia da minha querida amiga e grande irmã da vida, Heloise, a qual compartilhamos muitas experiências, situações adversas entre alegrias, frustrações, superações, apoio incondicional e parceria de alma. Nossa amizade está para além de lindas palavras. 

Nesse tempo, participava ativamente em várias instâncias da Pastoral da Juventude, como coordenador de grupo de base, representante paroquial junto à Diocese de Ourinhos e membro da Comissão Diocesana da PJ. No ano de 2000 me mudaria para a capital paulista. Uma viagem inesquecível, numa noite fria, em cima de um caminhão lotado de mudança e olhando para o céu estrelado. Mas essa é outra história. 

A data mencionada, 20/08/98, é para trazer à memória um poema que foi musicado. Talvez, mais interessante que o próprio teor da mensagem da música, é lembrar que a inspiração se deu a partir de um bate papo entre amigos. Ah, a importância das amizades em nossa vida é algo indescritível. Sendo assim, faço questão de trazer a letra e a menção inicial sobre a criação da mesma. No final, estará o link aqui no blog, desse poema musicado.

"Felicidade, onde estás?"

Desde que ouvi falar
Dessa tal felicidade
Sai em sua busca
Com toda liberdade

Voei no mais alto dos céus
Percorri vários caminhos
Cruzei mares e oceanos
Mas sempre voltei sozinho

Cantei, rezei e até chorei
Pedi pra Deus manda-la enfim
Mas somente não a encontrei
Porque jamais olhei pra mim


“...Numa conversa entre amigos, sobre a ‘felicidade’, como a conquistar, o que ela seria e representava, a conclusão foi de que nunca damos conta do que habita em nós, sempre buscamos o que não temos e não valorizamos o que temos...” - Ailton Domingues de Oliveira - 20/08/98


Fiz questão de trazer esse escrito para compor alguns pensamentos atuais. A questão é a felicidade, sobre a felicidade, a busca, as fórmulas prontas, o caminho, a idealização e a realidade. A busca pelo "ser feliz" é algo que está além das receitas místicas, triviais, colossais, internéticas, midiáticas, espiritualísticas, mediúnicas, das ciências divinas ocultas do sarapatel milagroso do capim santo e profano... Amém! 

Brincadeiras sérias à parte, faço questão de mencionar uma música que pode muito nos ajudar a refletir sobre a questão da busca pela felicidade. Busca essa que pode muito bem estar sendo mal direcionada. Milton Nascimento, com muita luz, trouxe na canção "Caçador de mim", algo que pode consolidar nosso pensamento acerca da travessia, das lutas, da busca pela felicidade, que muito bem pode ser entendida como a busca pelo próprio eu.

Encerro aqui a primeira parte desse escrito com o link da música "Caçador de Mim" de Milton Nascimento. E na segunda parte, a continuidade pela busca da felicidade numa perspectiva mais crítica e olhares para as ciências e em especial para a essência. 



sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Alguém no céu


Não. Esse não pode ser o fim.

E não é! Nem nunca será.

O amor é o único antídoto para preservar a história, a memória.

Só ele é capaz, mesmo diante de tanta dor, de nos ressignificar no tempo e as travessias.

Essa história não se encerra com a passagem final.

Ela é o recomeço, um sinal de luz que passou e deixou seus raios.

Cabe agora, cuidar para que esses raios sejam a luz guia de todos os que um dia a viram brilhar.

Este sinal não pode jamais ser uma cicatriz. Cicatriz remete a feridas, a dor e não foi isso que essa história nos deixou.

Sua curta travessia, nos ensinou e ainda tem muito a nos fazer refletir sobre a vida, suas nuances, o porquê e para quê estamos aqui. Esse é o legado deixado. Essa luz não pode ser esquecida jamais. E não será!

Seus olhos exalavam vida.

Sua coragem, sua luta se tornaram inspiração para qualquer um que um dia teve contato direta ou indiretamente com ela.

Mais marcante que essa data, a qual sua passagem se confirmou, não há.

Um dia, que representa esperança, união, reunião de pessoas queridas... um verdadeiro marco para a família. Ela é luz, e escolheu uma noite de luzes, de festa, alegria para então brilhar ainda mais, no alto, no céu...

Que sua força seja a motivação necessária para quem a conheceu de perto ou de longe.

Que a luz de seus olhos sejam o guia para os dias mais difíceis dos seus.

Que sua trajetória seja vista, sentida, lida e ressignificada, como um legado, um compromisso de existir e fazer ressoar sua voz e seu amor por toda a eternidade.

Querida, seja luz para nós aí do céu.

Nós, daqui, te levaremos em nosso coração, em cada passo, por todos os dias de nossa existência.


Isabelly Onaka
* 23/06/2014
+ 31/12/2023

Papai: Othávio
Mamãe: Natália

"Essa é a nossa homenagem à essa estrelinha que agora brilha no Céu da vida de todos os que a amaram e a conheceram de perto ou de longe e a acompanharam com muita oração."