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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Dores alheias, dores do mundo


Era um final de tarde e eu estava no supermercado apenas para comprar umas broas. Quitanda na mão, já me dirigia para a fila do caixa quando um menino de uns dez anos me abordou. Perguntou-me se eu poderia inteirar seu dinheiro para ele comprar um frango para levar para casa.

Meio sem ação diante do menino, ele mostrou-me uma moeda de cinquenta centavos e outras que carregava no bolso. Devia estar ali no estabelecimento já tinha algum tempo tentando juntar a quantia suficiente junto aos clientes para comprar o frango.

Fomos até o açougue do supermercado e aguardamos na fila. Por incrível que pareça, como um teste de paciência, a fila não andava. Foram mais de vinte minutos aguardando a nossa vez. Enquanto isso fui conversando com o garoto. Ele tem onze anos, estuda, tem mais três irmãos menores, a mãe é diarista e todos moram com a avó.

Sua missão naquele dia era conseguir levar um frango para casa. E enquanto a gente conversava olhando nos olhos o único pensamento que batia forte era: "a maior dor no mundo é a dor da fome". Nem sei de onde saiu isso mas de certa forma acabei lembrando de alguns comentários até do Papa Francisco no que se refere à fome no mundo.

Enquanto a gente conversava na fila dois fiscais ficaram de olho no menino. Aquilo já era pessoal uma vez que o garoto em nenhum momento causou qualquer tipo de perturbação. Desde sua aproximação de forma educada ele deixou claro seu desejo. Conseguir apenas um frango...

Enfim, após longa espera na fila, fomos atendidos. Partimos então para a fila do caixa sob o olhar preconceituoso dos fiscais. Juro que aguardava ansioso qualquer tipo de intervenção, mas por sorte e para o bem de todos tudo ocorreu normal.

A intenção aqui não é expor nenhum tipo de caridade como troféu, até porque fazer esse tipo de exposição além de hipocrisia e vaidade para o ego perde todo o sentido, mas entender a dor alheia que muitas vezes torna-se uma mera imagem rotineira ao cotidiano de nossos olhos.

Dores alheias, dores do mundo, será que incomodam? Incomodam pelo fato de vez ou outra nos deparar com alguém pedindo ao nosso redor ou por nos colocar no lugar do outro e tentar entender a gravidade e o desespero daquele ato de pedir? Talvez, maior que a dor da fome, seja a dor da indiferença e pra esta não há remédio para quem sente...

Acredito que se existe o inferno para lá devam ir aqueles que se fizeram indiferentes perante a dor alheia num momento que poderiam fazer a diferença. E, se nada mais me comove, se nada mais me incomoda, se ainda me calo diante de tanta injustiça, então com certeza morreu aqui dentro o humano que um dia me habitou.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Meo Deos"


"Porque o meeeo Deos é um Deos de prosperidade! Porque o meeeo Deos é um Deos de fartura! Porque o meeeo Deos... é o Deos."

Bom, primeiramente, se existisse um deos para cada pregador, seja este um carismático católico, evangélico tradicional, pentecostal ou neopentecostal, que teima em exaltar o seo deos como se somente ele tivesse acesso direto a esse deos, nesse exato momento haveria uma superlotação de deoses no Céu ou no Olimpo. Engraçado é que esses discursantes se gabam e se colocam num pedestal diante da plateia hipnotizada, esta que compra a ideia de milagres imediatos providenciados com o deos do falastrão. Consideram eles, bem confortáveis de seu diferenciado patamar, que são canais únicos e que possuem um contato restrito com o seo deos, o que a maioria dos mortais não alcançam. Diga-me, ó sábio guru, de onde vem esse ópio que você utiliza?

O discursante, o discurso e o discursado, três partes de um contexto real e atual que compõem uma espécie de trama religiosa alá novela mexicana, que não muda em nada de uma para outra, uma vez que os adjetivos são sempre os mesmos, em suma pura água de batata. Hipocrisia, exagero falacioso e ignorância ou inocência, esses são os adjetivos encontrados em cada uma das partes simultaneamente.

A questão é simples, os discursantes (palestrantes, pregadores ou melhor ainda, discurseiros sem graça), por não terem mais o que inventar em seus falatórios exagerados ao seu público fiel, estão fazendo um caminho regresso à idade média, prometendo absurdos futuros e cobrando um preço caro e imediato. Discursos regados de entonações desafinadas, gritarias, línguas estranhas formam o esboço de um espetáculo da fé, e que através da mídia, é capaz de arrastar e alienar os desajuizados. Os discursantes, a grande massa, o alvo predileto das bandeiras religiosas, pois é essa maioria, ora inocente, ora ignorante ou ainda, se faz de cega-surda-muda, que sustenta os detentores da grande moral, diga-se de passagem, cristã.

Não há que se poupar nenhuma bandeira religiosa. Todas carregam não apenas o rastro de seu passado mas uma série de eventos atuais que contribuem para a o retrocesso do ser humano. O ser humano, em si, ainda não se sente à vontade para questionar os pilares institucionais da fé. O medo de blasfemar contra o um pseudo-sagrado e ser condenado ao inferno ainda assombra suas mentes.

Enquanto isso, cada um vai criando o deos que lhe convém...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Inquietações do mundo, desconstruções em mim


Em alguns instantes de puro devaneio várias questões me tiraram a leveza do descomprometimento universal. Sim, universal, pois esforcei-me para passar despercebido ao mesmo tempo em que nada quis enxergar. Tolo engano. Não tenho essa frieza viral dos donos do jogo sistêmico. Eles detêm as regras além do controle do tempo de jogo, bem como as cartas, os jogadores, a torcida, os juízes e tudo o mais que possam comprar ou usurpar. Esse tanto faz não me pertence.

Meus velhos fantasmas guerreiros ressurgiram e se rebelaram na fronteira do vácuo de meus pensamentos. Teimam eles em me interrogar sobre o sentido de estar aqui e agora. De modo massivo, questionam-me sobre o tipo de legado que estaríamos deixando, serão valores ou apenas instinto de sobrevivência que repassamos aos nossos? Dúvidas, incertezas, questionamentos, inquietudes...

Onde o ser humano existe irradia-se ambição, ganância, poder e destruição. Fato. E, à proporção com que isso se alastra, é descomunal e desproporcional ao se comparar com os poucos insurgentes que combatem o sistema armados apenas de esperança. Religiões de moral desvirtuadas e instituídas à base do sacrifício e da miséria humana formaram um verdadeiro império financeiro à custa da fé alheia. O resultado pode ser visto de algumas formas: para a massa, que tem sua fé manipulada e construída sem embasamento, custará o livre arbítrio e sua desobediência acarretará o castigo eterno (inferno); para os vendilhões e show-man's, que orquestram em seus palcos, altares ou púlpitos como instigadores do radicalismo institucional e do moralismo religioso, o resultado divide-se em poder, status, dinheiro e só.

E se elas (as religiões) continuam assim, o que se esperar de outros seguimentos como a política, por exemplo? Sim, as religiões não apenas "estão assim", elas "continuam assim" pois, desde os primórdios, sempre fizeram parte de algum golpe, alguma tragédia histórica, aconchavada com a política e com a elite interessada em poder, status e progresso, mesmo que tais ambições custem a vida e o sangue alheio.


Poucos são os que se revoltam com o que está imposto. Raros são os que ainda acreditam. Desapegar das instituições é um caminho não apenas de desconstrução que requer coragem, bom senso e, no mínimo, um pouco de esperança, mas não recear a solidão da estrada por onde andam todos os que se indispõem a conformar-se e a calar-se.

Acredito que, sendo devaneio, não tem começo nem fim. Não precisa ter uma resposta precisa diante de uma pergunta que nem sei qual é. Pouco me importa se a ala católica vai me excomungar por pensamentos que criticam o fanatismo doente da RCC, CN e outros afins, ou se ainda me indisponho e contrario os excessos moralistas incutidos nas entrelinhas dos documentos medievais... pouco me importa. Na verdade, foda-se! Aproveitando o gatilho, foda-se também os empresários da fé, de alas pentecostais, neopentecostais (primos mais velhos dos carismáticos católicos)...

Mais alguém? Vai um "foda-se" aí???

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Medievalismo Religioso Contemporâneo


"O problema não está nas religiões, está nos ditos religiosos que ainda 
creem que a verdade é deles. Um desses, aprendiz de acólito, 
ressurgiu das cinzas medievais e baixou o santo por aqui. 
Haja armadura contra a hipocrisia! 
Valei-me santo, santo, sant..."


Tudo muda! Inclusive o número de idiotas que teimam em invocar Deus para castigar os opositores e questionadores da instituição alicerçada à base de uma fé medieval. Esse número aumenta constantemente. 

Li um texto, aliás, já li vários e em versões diferentes mas mantendo o mesmo sentido, em que o autor fala que Jesus foi subversivo, político, amigo dos ladrões e das putas. Alguma inverdade nisso? Tenho certeza que não! Mas tem um bocado de tapado que teima em manter Jesus num trono de ouro. 

Então, um certo aprendiz, que está na seleta lista dos que detêm a verdade para si, disse que o texto era uma ofensa à instituição religiosa e, por conta de tais desrespeitos, "o Sagrado Coração de Jesus sangra". 

Cri-cri-cri-cri-cri... (som de grilo, ok?!)

Pessoas com fome sangram, pessoas excluídas sangram, desrespeitar os diferentes faz sangrar... Creio que Jesus está nessas pessoas e não atrás de um monte de regras eclesiais.

Em outro momento, num grupo de "gentes" estudadas, dessas que estão sempre à frente de trabalhos comunitários-paroquianos-diocesanos, uma outra persona me questionou sobre o fato de eu ser contra um tal manifesto que tentava vetar a entrada de Judith Butler ao Brasil. Quem quiser conhecê-la e também as suas obras é só pesquisar no Google. Tirem suas conclusões! Os medievais falharam em sua insana missão. Ela veio ao Brasil, palestrou e não foi nada do que os gurus católicos previram. Chupa!!!

Os idiotas querem impor as trevas da idade média. São exímios oradores das regras institucionais e provam desconhecer profundamente o evangelho que liberta. São incapazes de fazer a leitura do tempo atual e congregar de forma a entender os diferentes. Ao contrário, sua imposição é antes de mais nada, uma sentença de morte para quem não segue as mesmas regras ou discorda delas. Para esses donos de sua verdade, ou você aceita e crê nessa sentença divina ou sofre as consequências: ex-comunhão; castigo imediato; castigo eterno; Xeol;Hades; Inferno. Modéstia parte, de Inferno a gente entende. 

Percebi que a maioria dos que sentenciam a vida de quem escolheu ser livre de amarras e dogmas, no fundo, são verdadeiros frustrados que queriam ter a coragem de viver feliz a sua liberdade. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Meus inimigos, meus fantasmas


E por fim, o fim se achega de mansinho
Devagarinho ou de solado mal intencionado
Pelo cunho de meus inimigos
Ou pela insistência de meus fantasmas

O inferno que se materializa nos flancos
Não é o que se pinta nas telas
Tampouco o que se prega nos púlpitos sagrados
Talvez, seja uma guerra entre meus eu's: demônios e deuses

A morte que fora santa, tornou-se prostituta, mocinha e bandida
E não mais assusta que as trevas escondidas pelos dias
Os homens ditos santos, de seus antros profetizam
Mas ela é insensata e desobedece a hipocrisia

Das entrelinhas subscritas em noites tortuosas
O silêncio destemido guarda versos proibidos
Meus passos eternizados entre as lutas do destino
Afugentam meus fantasmas e dispersam os inimigos

Sem preguiça e sem cobiça, sempre avante e sem pressa
Dou razão à emoção quando me perco na travessia
Escrevo torto o meu sentimento e disfarço sob o tempo
Faço porque quero, a razão desobedeço, dando voz e poesia

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O capeta anda mal falado no bairro

Meu bairro é o bicho pegando. Tem de tudo e para todos os gostos. Gente boa, bonita, rezadeira, trabalhadeira e que pega no batente antes mesmo da lua se esconder. Mas tem também a galera da muvuca, das noitadas, das quebradas, da vadiagem, da fuleiragem, os que gostam da marvada pinga, os fãs do cigarrinho do barato doido e os que incorporam o demonho. E o episódio de hoje é sobre um desses possuídos.

As igrejas neo-pentecostais, aquelas da teologia da prosperidade, bem como algumas alas católicas, têm investido alto na implantação da cultura do medo. Capetizando a torto e a direito, vão massificando os fieis sob a tutela de suas exageradas leis e consequentemente propagando a condenação ao inferno quando os mesmos não caem em suas pregações alienantes. A expansão dos templos, com denominações criativamente diversas, é simplesmente fenomenal e a busca por um lugar que contemple os anseios pessoais de cada fiel se caracteriza na constante migração de uma igreja para outra. Na verdade é um cliente que de fiel não tem nada.

A partir desse ponto e com tanta informação sobre o capiroto (demonização, capetização, possuimento), os fieis são portadores de um conhecimento típico dos pregadores despreparados que usurpam a boa fé das pessoas de bem. 

Chegando no bairro, novamente me deparo com umas trinta pessoas na esquina ao redor de um rapaz que, no exato momento, estava seguro por um outro homem. Perguntei para um telespectador o que havia acontecido: "Tá possuído! Tá com o demônio no corpo! Mas aqui não tem ninguém com o Espírito Santo, capaz de fazer ele ficar bom!"

O conhecimento popular não me permitiu hesitar nem por um minuto e já perguntei na lata: "Ele usa drogas?" E foi quando a senhora respondeu: "Tinha parado..." Bom, não sub-julgando e nem condenando (...), mas outro dia uma mulher estava endemoniada na avenida principal aqui do bairro. Enquanto o pastor tentava curá-la eu liguei pros Bombeiros. Ela tomou uma injeção ungida de glicose que a fez reencontrar sua paz. Cessaram os gritos, os coices, as vozes esquisitas, os choros, os risos, os palavrões e ficou somente uma espécie de amnésia necessária, típica de quem bebeu todas e tem vergonha de se lembrar dos episódios passados.

Tomei o rumo de casa e passei devagar próximo às pessoas que assistiam o rapaz, que segundo os especialistas populares de plantão, estava possuído e não havia nenhum ungido ali capaz de fazer uma descapetização. Nesse caso, nada melhor do que uma glicose benta para tirar qualquer encosto e livrar o capeta dos falatórios exagerados. 

"Toca", terrinha boa! Sempre tem um bom causo...

Acredito que em Piraju essas coisas não aconteçam.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Debandada das massas

Primeiramente, há de se pensar na escravidão que assolou o passado histórico da humanidade. Será que realmente o ato de libertação dos escravos fez por onde? Libertou ou mascarou as atrocidades? A libertação foi apenas um marco ou de fato foi um pontapé para que as minorias se tornassem livres e independentes da tirania de seus senhores? 

Além dessas duas questões que abrem as fronteiras da dúvida sobre o que de fato aconteceu na história e acontece mascaradamente na atualidade, numa terceira visão, percebo que os senhores de escravo apenas mudaram de nomenclatura e a escravatura mudou de cara. Alguns, inclusive, usam o nome de Deus para implantar a sua ideologia de vida ou o seu sistema teológico de arrecadação, que depende dos ganhos gerados pela mão de obra escrava, alienada e massificada.

O tempo é sempre o melhor remédio, dizem-nos os mais antigos. E a maior novidade é que "nenhuma novidade se eterniza em primeiro lugar no seleto podium", pois num determinado momento será destronada por outra que será mais completa, mais abrangente. Em suma, o ciclo é rotativo. E essa rotatividade também acontece bem no centro do campo das religiões.

Há algo explodindo neste meio, o das massas. Muitas pessoas já se libertaram da culpa que as religiões mais antigas incutiam-lhes, quando procuravam sustentação espiritual e conforto em outras denominações que não fossem a sua de origem. Os líderes, não poucas vezes, condenavam e condenam os infiéis desgarrados que encontram seu caminho em outros templos. Esse medo gerado no âmbito das religiões já não afeta tanto. As pessoas evoluíram e passaram a compreender mais sobre Deus.

Nosso momento está voltado, principalmente, para o pluralismo religioso. E é justamente nesse ponto que evangélicos e carismáticos perdem força. Por um lado, as pessoas sentem a necessidade de se complementarem-se espiritualmente e nem sempre encontram e recarregam sua fé somente numa determinada religião. Por isso, cresce a busca constante por novidades que superem suas expectativas. 

Em segundo lugar, os eventos neo-pentecostais evangélicos, seguido pelo evento carismático católico, elevaram e resumiram a relação busca-encontro-fé-graça (ou milagre) a um momento de pura emoção. Não que não existam resultados potenciais. A questão é que esse "boom" atingiu uma escala altíssima e, de tão alta, não há mais novidade no que se pode esperar. Em suma, as coisas simples ficaram de lado. Sempre se espera um portentoso encontro ou evento ou culto ou missa em que, ao se derramarem em lágrimas, estará certo de que obtiveram o milagre solicitado. Este encanto tem se quebrado gradativamente.

Há também uma terceira questão em evidência, líderes religiosos que não atingem o seu objetivo e fiéis que buscam sempre mais shows do que a essência das palavras são pontos que também podem levar a evasão da massa das igrejas. 

E, em se tratando de debandada, as pessoas vão adquirindo experiência. Já não é uma palavra gritada pela boca de um líder religioso que tocará seu coração. De uma forma ou de outra, percebo que nesse pula-pula de denominação, elas também agregam conhecimento e, por vezes, desistem de seguir as leis dos templos tecendo o seu próprio caminho de diálogo com Deus.

Seja por qualquer um desses motivos, ou de outros não citados aqui, acredito que esses são passos importantes para a libertação das pessoas frente aos sistemas que tendem a massificá-las. Encerro então com outra velha e conhecida frase: "A Casa Grande pira quando a senzala se liberta!"

"Exija de Deus a sua parte"


Sim! É realmente com essa fala - "Exija de Deus a sua parte" - que o empresário-fundador-pastor da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) ministra suas pregações no altar de seu portentoso Templo de Salomão. Claro que há uma continuidade nessa fala que justificam-se os meios, os seus próprios meios: "...se você, enquanto cristão, fizer a sua." Basta um click no google e você terá um arsenal repleto de falas, mensagens, vídeos solicitando uma ajudinha dos fieis para as obras de seu Reino.

Exigir de Deus a sua parte enquanto o cristão fizer a sua, isenta a instituição e sua teologia de qualquer coisa que não dê certo na vida da pessoa, faz o indivíduo sair debaixo da saia do pastor. É uma jogada de mestre, não podemos negar, mas há controvérsias. A internet está repleta de pessoas que moveram ações judiciais contra a Universal por terem seguido a risca, doado tudo, e ficado na miséria. Por outro lado as falas dos designados bispos estão, além de inovadoras, cada vez mais abusadas. Pede-se cartões com senha, carros, casas, doações com valores altíssimos, dentre outras bagatelas.

Fazer a sua parte, essa é a máxima que os seguidores da IURD devem obedecer, ou seja, parte essa que não significa simplesmente atos de bondade e caridade e amor ao próximo. O objeto dessa fala está diretamente ligado às ações que as pessoas devem ter em relação à sua instituição, cumprindo todos os requisitos espírito-financeiros. Estão eles errados? Digo que não. Alienados, talvez. O que move aquelas pessoas é a fé, além do receio de não obterem a salvação por descumprir os desígnios do bispo Macedo e, ao contrário, ganharem a condenação eterna ao inferno. Mas sendo a fé um elo que liga a Deus, espero que Ele liberte os cativos e oprimidos das garras dos poderosos.

Edir é um cara inteligente, desenvolto, tem feeling para os negócios, visão-audição-lábia-olfato-tato devidamente aguçados. Construiu o seu próprio império, fruto do suor alheio arrancado em suas pregações alicerçadas na teologia da prosperidade. Dono, também, de um crescente e expansivo canal de TV. Sabe muito bem como entrar na mente do seu público fiel e colocá-lo em check com Deus.

Tem outros impérios em evidência por aí. Tomei a liberdade de falar apenas da IURD porque é uma das mais antigas e ainda em atividade crescente. Assembleia de Deus (Silas Malafaia), Igreja Mundial (Valdomiro Santiago), Igreja Internacional da Graça de Deus (RR Soares) são algumas das opções no mercado evangélico. Do lado Católico, temos algumas comunidades e movimentos, cito a CN (Canção Nova, fundada pelo Monsenhor Jonas Abib) e a RCC (Renovação Carismática Católica), ambas xerocópia do movimento neo-pentecostal.

Enfim, para finalizar essa cena, uma vez que as cortinas do show ainda não encerraram-se, devemos ter sempre em mente o livre-arbítrio, seja ele alicerçado pela nossa fé, pela nossa experiência de indivíduo em sociedade ou em ambas as situações. Sempre haverá um mentor para cabular a mente das pessoas porque nem todas estão preparadas para filtrar o conteúdo das mensagens enfadadas e deturpadas. A messe é grande, os operários são poucos, a matilha cresce deliberadamente e no momento existe um crescente número de lobos cercando ovelhas e conduzindo-as para um determinado pasto.