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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Companheiro de brincadeiras


As vezes me pergunto se algum dia vou crescer, mas em seguida volto à realidade e penso: "crescer pra quê? A quinta série deve ser eterna."

A seriedade das labutas diárias, das rotinas várias, compromissos, burocracias e coisas do mundo entediante dos adultos camuflam a essência do ser que somente enquanto criança é capaz de viver com plenitude. 

Segundo Rubem Alves, em "As contas de vidro e o fio de nylon" (1996), somente as crianças e os avôs são capazes de encontrar a essência da alegria. Os adultos são engessados e só se preocupam com as coisas sérias e chatas. No Psicodrama, de Jacob Levy Moreno (1889 - 1974), chamamos esse enrijecimento de "conserva cultural".

Brincar é um ato sério. O pensamento atribuído a Charles Chaplin (1889 - 1977) descreve bem e enfatiza a seriedade por trás da brincadeira: "Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria." 

Tenho medo do crescer. Não o medo da vida adulta, até porque já estou nela. Não o medo das responsabilidades, mas o medo de perder a mão da leveza que só as crianças têm. A forma mágica com que encaram os desafios é simplesmente encantadora. Tenho comigo que preciso sempre cuidar da criança interior, levá-la aos recantos do faz de conta, das brincadeiras, aos parques da memória, enchê-la das guloseimas da vida, encorajá-la a ser heroína de suas histórias e a alimentar seus sonhos de aquarela. 

Brincar não é falta de seriedade muito menos falta de comprometimento. Brincar é libertador. Brincar é a reconexão com o natural, com o simples, é trazer a criança interior ao protagonismo da cena, ao cenário infinito da imaginação, tirá-la da plateia e realocá-la no centro do palco da vida. O adulto que não sabe brincar não sabe viver.

A criança enxerga o mundo colorido e com alegria, tem solução simples para as equações robustas. O adulto que se permite brincar consegue não se sobrecarregar de bagagens desnecessárias. Anda mais leve e alimenta conexões profundas. 

Levar a vida com uma pitada da essência da criança interior é compartilhar o brilho colorido e a alegria que só os pequenos possuem. E muitas vezes, isso é tudo o que as pessoas precisam. A administração, a teologia, a psicologia, as artes, tudo me contribui para esse lugar, o da alegria. Se "viver é um negócio perigoso", como afirmou Guimarães Rosa em "Grande Sertão, Veredas" (1956), quero viver intensamente, sem perder a criticidade, sem esquecer das responsabilidades, sem ocultar a seriedade, sem perder o equilíbrio das brincadeiras sérias.  

Sigo nessa travessia, nesse legado de viver com alegria em cada canto desse sertão da vida, sendo companheiro fiel de minha história e minhas raízes, honrando o legado da existência e a memória da criança que em mim habita. Como companheiro de brincadeiras, convido para a ciranda viva da vida a todas as almas que buscam a essência da existência. 

 A criança que habita em mim saúda a criança que habita em você!

 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Recortes e Fotografias: arte e vida



"Hoje em dia é praticamente proibido não ser ambicioso" (Criminal - Reino Unido). Esse é um fato que observo já tem algum tempo. O comportamento das pessoas, da sociedade, grandes empresas, do mundo em si, é assim. Ambição por ganhos e lucros a qualquer custo. O crescimento só é válido se o retorno for de cunho material. Até mesmo as igrejas, em sua maioria, pregam isso através do que chamam de Teologia da Prosperidade. E muita gente cai nessa santa pegadinha. A ambição excessiva e ou obsessiva por alcançar os objetivos pode se tornar um fardo pesado na caminhada quando não há limites nem bom senso. Interessante aquela frase "a arte imita a vida e a vida imita a arte". Nesse caso, a arte imitou a vida. Uma série me trouxe à reflexão.

Dias atrás, assistindo outra série, "Quando chama o coração", com minha mãe, escutei uma frase de uma das personagens, a qual me chamou atenção para uma reflexão posterior. Anotei: "Eu não quero vencer na vida, quero viver". Parece uma simples frase de efeito, e é, porém não tão simples quanto parece. Entendo claramente que se olharmos friamente para a frase parece algo que soa como hipocrisia, pois não existe quem não queira vencer na vida. A diferença é que quem consegue aprofundar nesse pensamento, já se entende como vitorioso e feliz diante de suas conquistas e de sua vida. Claro que os bens materiais são importantes e necessários mas não estão em primeiro lugar. Nesse contexto, a personagem se dava por satisfeita vivendo sua vida em paz com a família numa cidade pacata de interior, enquanto outros a questionavam e tentavam persuadi-la a encarar novos desafios numa cidade grande. Ela já se considerava vencedora de suas escolhas e trajetória e vivendo com sua família era o ápice do sucesso.

Noutra semana me atentei para uma das músicas do Oswaldo Montenegro a qual ele enfatiza com  muita energia principalmente no refrão, que por sinal é o título da música: "Eu quero ser feliz agora". Novamente, arte e vida, vida e arte. A explosão intensa desse refrão funciona mais que um chamado, uma ordem para se viver bem, para ser feliz. Uma ordem para si e um convite para todos. Se atentarmos aos detalhes, se olharmos com clareza à nossa volta, procurando perceber além da engrenagem mecanizada que a sociedade vive, se conseguirmos nos despir das roupagens, máscaras e maquiagens que utilizamos constantemente, acredito que teremos oportunidade de rever a travessia e viver o que nos permite ser vivido. 

Viver e ser feliz, duas das maiores respostas que temos para os nossos próprios questionamentos internos. Ou que tal, melhor ainda: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!" (Gonzaguinha). E é com essa frase, que se tornou um verdadeiro grito de guerra da alegria, que deixo o recado: Nada é tão simples mas o sonho ainda não nos pode ser roubado! Diante disso, uma coisa é certa: Tenho urgência pra viver!