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domingo, 11 de junho de 2023

Sacrifício ou misericórdia - um olhar teológico



A igreja, o templo é um lugar de acolhida. Pelo menos deveria ser. E, quem a ela busca, precisa encontrar as portas abertas e não fiscais da fé, como disse o Papa Francisco. Isso vale para toda e qualquer religião. Quem busca é porque precisa. A igreja é para esses que tem esse sentimento, essa certeza e essa fé de que necessitam melhorar enquanto pessoas. Todo aquele que julga é porque está convencido de que é superior, puro, não comete erros, deixou de ser pecador. E, para sua decepção, a igreja não é para estes. 

O sacrifício que os "santos da verdade" fazem para se manterem no direito de julgar e sentenciar é vão, porque justamente a hipocrisia é vã. O "céu" deve estar cheio de pecadores enquanto o "inferno" com certeza está repleto de puritanos com véus. A igreja é lugar de gente que busca, que está a caminho, porque não existe uma conversão da noite para o dia. Toda conversão é diária. Toda mudança é uma construção. E essa construção é eterna. Passamos uma vida em construção e ainda assim não temos certeza do nosso último destino. 

O que não dá pra aceitar é que uma leva de seres que se acham como os mestres da lei da bíblia, só porque conhecem tais leis, só porque se sentam nos primeiros bancos, façam julgamentos sobre a vida alheia. Deus é amor. O Antigo Testamento foi renovado pelo Novo Testamento. Jesus veio para provar que a vida humana é mais importante que as regras sociais dos homens. 

Todo aquele que se acha superior já sentenciou a si mesmo. Adão e Eva foram expulsos daquele paraíso justamente pela vaidade e necessidade de se sentirem superiores. Quiseram o poder e encontram a ruína. Deus não odeia ninguém. Não odeia nem os empresários da fé que colocam palavras em Sua boca. Não odeia nem aqueles que enriquecem ilicitamente usurpando dinheiro e bens dos menos favorecidos e esclarecidos. Se algum líder religiosos ou instituição usar esse termo, "Deus odeia isso ou aquilo", duvide desse ser, de sua palavra. Tenha certeza que ali o único deus que existe é o do poder e do dinheiro. Até o Deus castigador do Antigo Testamento era um meio para manter os fiéis sob o poder da instituição. Ainda hoje existem deturpadores da fé.

Deus é amor, Jesus é misericórdia. E é isso, apenas isso, esse olhar que temos que ter para com o próximo. Em especial aquele próximo que vive marginalizado por regras sociais. Misericórdia, empatia, amor, caridade é isso que enquanto pessoas de fé, ou simplesmente seres humanos, nós precisamos ter para com o outro. Mesmo que não acreditemos em Deus, ou não tenha fé em nada, ainda assim, a regra maior é a do respeito, da misericórdia. Muito cuidado! Toda religião deve ser fonte de libertação para o ser humano. O que não te liberta, te aliena e te aprisiona. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor - parte II



Há de se lembrar do texto anterior, em que questionamentos e autocríticas nos fizeram refletir sobre as verdades instauradas pelos "fiscais da fé" através de suas bandeiras religiosas. Em contrapartida, entendemos que o amor é a ponte, o caminho, a travessia que nos conduz a um bem maior, o de praticar a caridade sem ressalvas. 

"Fiscais da fé" é um termo que foi utilizado pelo Papa Francisco, quando mencionou que quem procura a igreja precisa encontrar as portas abertas e não fiscais da fé. Jesus chamou os mesmos, os tais mestres e doutores da lei, de hipócritas. Não o sejamos e não hajamos como tais! 

Ainda sobre o texto anterior, foi deixado propositalmente uma pergunta com uma afirmação um tanto quanto duvidosa. Como disse, foi proposital. Eis o trecho: "Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?!"

Ressalva para uma questão em particular: "Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco?" Então, o que percebemos aqui? Espero que todos tenham percebido o erro provocado. Sim, é um erro agir com a pretensão de nos favorecer enquanto cristãos, tanto quanto é errado o sentenciamento alheio para com quem não o é.  É pretencioso a forma de imaginar que "nós", ditos cristãos, já estamos designados à vida eterna só porque o somos e, em contrapartida, supor, julgar e até mesmo sentenciar indiretamente a não participar conosco desse prêmio porque não está nesse mundo sob os holofotes do cristianismo.

E onde está a caridade nisso tudo, meus amigos? A caridade não é simplesmente o ato de ajudar a quem precisa de algo material e ou espiritual. A caridade está em servir. Servir com amor. Servir e não cobrar. Servir a quem precisa mas sem a necessidade de vincular essa atitude a uma resposta imediata por parte de quem é servido. Servir sem forçar nem obrigar que a pessoa segure nossas mãos e nos acompanhe até a igreja mais próxima. Isso é barganha. Se queremos mostrar que o caminho que trilhamos é bom, basta levar apenas o alimento pro corpo e pra alma de peito aberto, sem placas, sem propagandas.

Ninguém neste mundo é detentor da verdade. Existe uma música que diz "Tudo o que move é sagrado" (Amor de índio - Beto Guedes e Djavan). E isso é verdade! Onde existe vida existe o sagrado. Não é uma música sacra, mas diz uma verdade que muitos que se dizem religiosos não respeitam. Encerro aqui com a reflexão de outra música que foi cantada na Campanha da Fraternidade de 2002. Nos atentemos para alguns símbolos dessa letra: a mesa, terra-mãe, altar, rio, mata, natureza. A cidade é abençoada com todos esses símbolos, porém, será que podemos imaginar apenas "uma só mesa" para comungarmos com todos e todas ao seu redor? Onde está a nossa caridade? 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

Ouçam: https://www.youtube.com/watch?v=oLgWCOyiAbQ

"Uma só será a mesa" - Oferendas 2002 (CNBB)

1. Quando os pés o chão tocarem
Para a dança começar
Quando as mãos se entrelaçarem
Vida nova há de brotar

2. Toma, ó Pai, o amor perfeito
Pelo rio, a mata, a flor
Que o índio traz no peito
É louvor ao Criador!

Uma só será a mesa
Terra-mãe será o altar
O sustento, a natureza
Em milagres, vai nos dar!

3. Eis aqui, Senhor, as dores
Deste Cristo-Povo-Irmão
Sejam hinos seus clamores
Na defesa de seu chão

4. Nova Terra nós sonhamos
Onde todos têm lugar
Os direitos nós buscamos
Vida, pão, respeito, lar

5. Povos todos, terra inteira
Te pertencem, ó Senhor!
Que os males e as fronteiras
Deem lugar ao Pleno Amor

domingo, 19 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor


"Olhe para uma instituição e veja 
o que ela tanto quer curar, 
que você perceberá do que ela é doente." 
(Autor desconhecido).

Qual seria a "verdade" que podemos tratar como única? Os cristãos dirão que é a que vem de Jesus Cristo. E nessa dimensão os evangélicos dirão que, enquanto cristãos, a única verdade é a deles. Como sabemos que no meio evangélico existem várias denominações, cada uma afirmará que detém o poder da verdade em seu meio. Os neopentecostais farão do mesmo jeito. Sim, os católicos também. Apesar da igreja católica não ter vertentes, existe uma divisão interna entre as correntes de pensamentos, entre pastorais e movimentos e, logicamente, também faz a sua guerra santa em prol da detenção da exclusividade da verdade. 

Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?! 

Será que, enquanto cristão, eu levo a sério os ensinamentos da minha religião? Será que eu boto em prática tudo o que me é oferecido e devido enquanto cristão que eu afirmo ser? Será que estou apto para ser merecedor da vida eterna, segundo o que rege a minha religião? E Jesus, sendo praticante do judaísmo, o que mais lutou foi contra os mestres e doutores da lei de seu tempo. Chamou-os de hipócritas por saberem as leis de cor e salteado, mas não colocavam em prática nada que favorecesse o ser humano. 

A princípio e a bem da verdade: ninguém é detentor da verdade; nenhuma pessoa é; nenhuma instituição é; muito menos alguma forma de poder o seja! Primeiramente não precisamos ter uma bandeira religiosa exposta no peito para sermos praticantes da caridade. Existem milhões de pessoas sem religião que têm muito mais atitudes de empatia e amor para com todas as formas de vida do que muitos que se denominam cristãos. Quem está inserido no meio religioso, em alguma denominação é porque se sente acolhido, encontrou apoio, suporte pessoal-emocional-espiritual e elementos que fortalecem sua fé na caminhada diária. Esse é o sentido da comunidade: comunhão, partilha, caridade e amor. 

São muitas questões e devemos nos ater em uma palavra que nos motive a caminhar. Essa palavra não é a palavra "verdade". A verdade está onde se pratica o amor, onde se pratica o respeito, onde existe solidariedade, partilha e comunhão. Ela está principalmente, onde a hipocrisia não habita. Existe uma passagem em que Jesus caminhava com os seus discípulos e estes notaram que outras pessoas também pregavam em nome de Jesus. Preocupados com o fato de que outras pessoas falavam do "amor", ou da "verdade", ou do próprio "Jesus", os discípulos levantaram essa questão e esperavam que Jesus tomasse uma atitude drástica, talvez ordenando que as outras pessoas não pregassem em seu nome. Jesus então disse: "os que não estão contra nós, estão conosco". Ali, naquele exato momento, não se permitiu que os discípulos tomassem exclusivamente para si todo o ensinamento e bem-aventuranças que Jesus pregava. 

E nós? Como está o nosso caminhar frente a tantas questões que nos fazem distinguir quem é santo de quem é pecador? Que critério usamos para sentenciar ou libertar as pessoas da nossa análise "cristã"? Espero que não o façamos dessa forma. "Quem quiser ser grande, que se faça pequeno entre os seus." A vida está para todos da mesma forma que a morte aguarda a todos. O que vem depois não podemos prever mas, podemos fazer o nosso melhor enquanto pessoas, seja para melhorar o ambiente ao nosso redor, seja para ajudar a quem precisa de uma palavra ou de um alimento. A caridade não é exclusividade de nenhuma religião. Ela tem que brotar no mais puro íntimo de nosso coração, de nossa alma. Mas, só quem é capaz de amar, pode se doar para o próximo, a serviço de quem precisa. 

Quando se faz com amor, o resultado obtido é melhor que o esperado. Toda atitude de amor, por si só, é capaz de mudar-melhorar-contagiar para quem é realizada, por quem realizou, por quem presenciou ou por quem simplesmente ouviu o resultado da boa ação praticada. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Caridade sem holofotes

[¹]

Começo com a seguinte pergunta: "Quantos tipos de caridade existem?" Uma pausa para refletirmos (...).

Não falamos aqui, de caridade ao arrecadar alimentos e donativos para auxiliar a quem precisa. Caridade está além desse gesto. Muitas vezes as pessoas doam dinheiro nos semáforos simplesmente para aplacar seu ego de "pessoa caridosa", ou para se mostrar benfeitora e digna de aplausos, ou ainda para se ver livre da presença "inconveniente" de quem pede. Pois, quem se dá ao trabalho da humilhação de pedir, sempre está com roupas sujas, e sem as necessidades básicas de higiene supridas. 

O Papa Francisco tem afirmado que a caridade é o maior antídoto contra as tendências de nosso tempo, que “a caridade é sempre a via mestra do caminho de fé. Mas a caridade não é simples filantropia, mas, por um lado, é olhar o outro com os mesmos olhos de Jesus e, por outro lado, é ver Cristo no rosto dos necessitados” (23 de mar. de 2022) ².

Segundo São Vicente de Paula, “a caridade é um amor elevado acima dos sentidos e da razão, pelo qual nos amamos uns aos outros pelo mesmo fim, pelo qual Jesus Cristo amou os homens para fazê-los santos neste mundo e bem-aventurados no outro” ³.

De acordo com o site SSVP Brasil, o Beato Antônio Frederico Ozanam diz que "segundo as leis que regem o mundo espiritual, para elevar uma alma é necessária outra alma, esta atração é o Amor, que também se chama amizade na linguagem da filosofia e a caridade na linguagem do cristianismo” (23 de abr. de 2021) ₄.

A palavra que interliga o pensamento desses três nomes, esteja ela explícita ou não, é simplesmente o amor. Não foi à toa que o atual Papa escolheu o nome de Francisco para o seu papado. Francisco de Assis, considerado um santo pela igreja católica, despojou-se de si, dos seus bens e se entregou ao serviço dos mais necessitados, humildes e excluídos da sociedade de seu tempo. Amor-entrega, amor-doação, amor-caridade, ou simplesmente amor. Francisco de Roma tem lutado com veemência contra o sistema político-social opressor para dar voz e espaço aos que precisam de todo tipo de ajuda e em especial, de inclusão. 

Vicente de Paula mostra que o amor é o caminho. E caminhar é, antes de uma ação concreta, uma opção aguçada pela necessidade de fazê-la. Essa percepção vem através do olhar que nos permite a compaixão com a dor alheia. Se a dor alheia não me comove, não me dói, então o amor já deixou de existir e, assim sendo, a caridade fraterna deixa de acontecer, dando espaço para a frieza desumana habitar o coração. A partir dessa premissa, o que poderá ocorrer é apenas um assistencialismo medíocre e hipócrita que necessita de holofotes, tal como os mestres da lei do tempo de Jesus faziam.

Ozanam segue uma linha que se assemelha ao pensamento da doutrina espírita. Ele fala que as almas são co-dependentes no sentido de se necessitarem mutuamente para seu devido crescimento (ou elevação). Amor que se traduz em amizade e caridade. Junto a esse pensamento do beato, trago uma lição que um dia ouvi através da voz da simplicidade e sabedoria e que ecoa eternamente em meus ouvidos: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Essa frase, eu ouvi de um senhor, pedreiro e carpinteiro, que veio socorrer-me com um cano estourado num final de tarde de sábado. Feito o serviço perguntei o preço e ele não quis cobrar. Por insistência minha, coloquei um dinheiro no bolso de sua camisa. Então o senhor me solta essa lição de vida com muita propriedade e amor e que vale a pena repetir sempre: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Então, qual seria o sentido da vida se não houvessem outros e outras de nós? A vida é mais que uma partilha com os que amamos. A vida é entrega diária, doação, afeição, empatia, caridade e amor. Nem sempre temos as condições para ajudar de forma material a quem precisa, mas temos a oportunidade de dar o melhor de nós levando o calor humano, com o coração aberto para acolher, dar ouvidos, um olhar de atenção e de empatia. Isso é caridade, isso é amor. E amor dispensa holofotes.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

[¹] https://portaljfonte.com.br/fora-da-caridade-nao-ha-salvacao/
[²] https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2022-03/pilar-caridade-papa-francisco-padre-gerson-schmidt.html#:~:text=O%20Papa%20tem%20afirmado%20que,Cristo%20no%20rosto%20dos%20necessitados%E2%80%9D.
] https://catequisar.com.br/texto/colunas/julinei/04.htm#:~:text=%E2%80%9CA%20caridade%20%C3%A9%20um%20amor,bem%2Daventurados%20no%20outro%E2%80%9D.
[₄] https://ssvpbrasil.org.br/palavras-de-frederico-ozanam/#:~:text=%E2%80%9CSegundo%20as%20leis%20que%20regem,caridade%20na%20linguagem%20do%20cristianismo%E2%80%9D.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Como posso me calar?

"Como posso me calar? Como posso me calar?
Como posso me calar? Como posso me calar?
Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos
Cansados com medo de amar
Meu grito, calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar"
(Música: Como posso me calar - Roberto Merli)

Quando um cenário como esse não faz mais diferença aos olhos de quem passa perto, com certeza a frieza do mundo já consumiu grande parte do humano que habita o corpo. Não faço aqui um chamado para caridades paliativas, do tipo esmola em forma de trocados que sobram na carteira, mas para o que a raça humana tem se tornado em nome do lucro, do status e do poder, tentáculos estes daquilo que chamamos de capitalismo. É certo e verdadeiro que pessoas que habitam em condições subumanas como essa, à margem da sociedade, precisam sim de apoio material, financeiro, bem como de cuidados com a saúde do corpo e da mente.

Algumas parcelas da sociedade, principalmente políticas e religiosas, necessitam de situações como essa para esbanjar seu marketing. Parar e resolver a situação é uma questão que raramente se vê e tampouco se sabe. Algumas pseudorreligiões consideram que tais pessoas são vítimas de sua própria falta de fé em Deus, ou seja, vivem à margem como um castigo divino. Utilizar deste subterfúgio é algo digno dos falsos profetas que utilizam do mercado da fé para enriquecerem seus cofres. 

Na política, segundo uma nova onda de pensamento ultra radical e conservador, que tem colocado em pauta que tudo é uma questão de meritocracia, as vítimas da pobreza e da miséria não se esforçaram o suficiente para romperem as barreiras sociais e o prêmio seria continuar vivendo no submundo e anonimato sociais, sendo tratados como lixo, escória, sem méritos e não abençoados...

A mentalidade humana está mudando, enrijecendo de tanta frieza e falta de empatia com o próximo. Nem digo falta de amor, porque isso já deixou de ter faz tempo. Respeito então, é algo que existe no dicionário de raríssimas pessoas. Não demora muito e os habitantes dessa morada, das fotos aqui apresentadas, serão expulsos daquele lugar. Bem ali, onde eles sobrevivem, seria a entrada de veículos de uma empresa já fechada. Sim, eles serão expulsos porque simplesmente estão poluindo uma pequena parte do cenário urbano e incomodando aqueles "cidadãos de bem" que passam por ali, de carro, na ida ou na volta de seus trabalhos ou passeios.

Ao ver e rever essas imagens o único pensamento foi de indignação e também de questionamento. Por isso, um trecho da música "Como posso me calar?" acompanha a primeira imagem e também é o título desse texto. Infelizmente essa é a única forma disponível no momento para que, primeiramente, eu jamais deixe de perceber e enxergar não apenas o cenário mas os protagonistas que ali sobrevivem e assim não me torne mais uma alma fria a vagar pelo mundo do ter. E por último, que outras pessoas também se deem conta que nem a política e nem a religião será capaz de mudar o mundo se seu coração não for capaz de ter pequenas atitudes como simplesmente enxergar e respeitar.




*Fotos: Escritos em Tempos - A.D.O.
Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu bom ateu


Andarilha pelos becos à procura
Das indigências expelidas pela realeza,
A besta sociedade que se endeusa de poder,
E toma para si as graças terrenas da sorte
Como os nobres romanos divinizados pelos seus feitos
Aclamados e glorificados feito deuses

Andarilha pelos becos à procura
De toda gente sem sorte
De quem sobrevive à margem real
E cura com lágrimas e sangue
O câncer de cada faminto andante
No abraço desmedido e sem barreira

Andarilha pelos becos à procura
Do Deus da nobreza que salva a realeza
E pune a massa escalpelada e empobrecida
Vira as costas pra miserável fome
Esquarteja e maltrata a quem não o teme
Desqualifica o maldito por ser pobre e sem vez

Andarilha pelos becos à procura
Um ser sem regras, sem quimeras
Destorpecido das fadadas leis morais
Protegido contra o Senhor vingador
Que a sociedade deturpou e matou
Eis um homem sem o vitimizado Criador
És um santo descrente e sem deus
Andarilha por aí o meu bom ateu

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sob condicional


"Se?" Sim. Se, caso, contanto que, salvo se, a não ser que, desde que, a menos que, sem que, etc são conjunções subordinativas adverbiais condicionais, ou seja, aquelas que ligam duas orações, sendo uma delas dependente da outra. A oração dependente, introduzida pelas conjunções subordinativas, recebe o nome de oração subordinada. As conjunções condicionais no caso introduzem uma oração que indica a hipótese ou a condição para ocorrência da principal. Nossa! Uma palavrinha pequena - "se" - expressa tanta coisa!

Mas para que tudo isso? Simples. Apenas para falar das questões condicionais de ordem religiosa que, através das leis que regem os bons modos e os costumes da fé propriamente dita, implicam diretamente na conduta "condicionada" de cada indivíduo promovendo-lhe a salvação ou a condenação. Ou, em outras palavras, a alienação e a libertação, respectivamente.

A visão que a estrutura religiosa mantém é que as pessoas só terão a salvação "SE" agirem conforme a instituição dita. Agindo sob a tutela da santa e pecadora igreja estaremos libertos e salvos. O contrário disso seria a condenação, ou seja, o sentenciamento ao fogo do inferno.

Mas, podemos também pensar de forma diferente. Levando em conta a diversidade de dons, carismas, o livre arbítrio, a espiritualidade e a própria fé, as condicionais que a instituição nos dá nem sempre valem como fonte de libertação e possível salvação. Salvação esta que configura ter direito ao Reino dos Céus. Penso até que a frase de Agostinho de Hipona (Fora da igreja não há salvação!) ao longo do tempo foi muito mais usada para exercer uma pressão psicológica e medo sobre os fieis, do que para mostrar um caminho de salvação através do amor e da caridade. Não só foi como ainda continua sendo usada dessa forma deturpada e bem longe da essência ao qual foi pensada e sentida.

"SE" a estrutura condiciona para salvaguardar o direito à salvação, "SE" ela impõe critérios vários para garantir aos fieis a sua entrada ao Reino dos Céus, automaticamente e na contramão, está criando mecanismos que impossibilitam a liberdade individual e, assim sendo, alienando os fieis. Muitas vezes a mensagem salvífica é transmitida de forma deturpada e o que era pra ser fonte de libertação torna-se um aprisionamento através da cultura do medo. E pessoas com medo de questionar a estrutura tornam-se escravas.

E, novamente utilizando a própria "condicional" sempre manifestada pelos cristãos de carteirinha, onde afirmam que só serão salvos aqueles que cumprirem o que a igreja diz, "SE" a instituição trabalha a salvação através da cultura do medo, ela está promovendo a alienação. Então, implica-me profundamente que, agindo e atuando descarregado de certas regras institucionalmente religiosas, conforme o livre arbítrio que me fora legado, consciente da minha fé e da mensagem cristã que é o amor-caridade estarei promovendo a minha libertação e também galgando o caminho da minha salvação. Condenado está aquele que se permitir ser acorrentado pela doutrinação desmedida.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Se não há libertação não há salvação


Existe um ápice em que cada pessoa almeja um dia atingi-lo. É uma meta individual. E depois deste, outros virão. Novas dúvidas, novos questionamentos, novas metas, novos horizontes. Porque a vida é feita de conquistas. A maioria das pessoas pensa assim, almejam apenas as materiais. Alguns, que velejam na contramão, optam por conquistas nem tão terrenas assim, reservando-se ao glamour libertário de novos pensamentos apenas.

E o que a liberdade do pensar traz nem sempre está de acordo com as regras sociais, políticas e principalmente religiosas. Ousar pensar por si só, sem a tutela das santas hierarquias religiosas, é um risco grave que atenta contra as dezenas de regras institucionalizadas, estas que visam manter a ordem (ou as pessoas em seu devido cabresto), com enormes possibilidades de excomunhão e passagem direta para o inferno eterno.

Não que as igrejas e religiões são extremamente fontes alienantes, mas longe de serem o único caminho de salvação. Céu e inferno, salvação e condenação, eis as dúvidas que mais afligem os fieis. Toda a promessa e garantia de vida eterna é arquitetada em cima de pensamentos de grandes pensadores e doutores de nossa história. A mensagem deixada por Jesus pode ser resumida numa única palavra: amor. O resto é invenção humana.

E por falar em invenção humana todas as regras religiosas o são, principalmente quando deturpam o legado de "amor" deixado por Jesus e experienciado por grandes nomes da história mundial que lutaram pela dignidade humana com caridade e evidenciaram esforços para uma vida em igualdade. Para quem não segue as ordens à risca, já se auto-condenou. Não seria então, tais regras, apenas um mecanismo para manter os fieis sobre sua custódia religiosa e jurisdição espiritual, uma vez que, sendo a igreja detentora da salvação, fora dela a condenação estaria automaticamente imputada?

Se não há libertação não há salvação, eis um grande princípio que não se discute, tampouco se pratica. E o que as instituições e seitas religiosas fazem, em sua maioria, são manipular as mensagens e incutir um medo desmedido sobre os seus fieis. O medo gera o respeito e dá crédito à instituição. Enquanto houver quem tenha voz capaz de alienar as pessoas em nome de uma denominação, a verdadeira mensagem de salvação estará deturpada. E tenha consciência: isso não é pratica de "amor".

Roupagens e rupturas

"Fora da igreja não há salvação!" Segundo consta essa antiga frase foi pronunciada por Agostinho de Hipona, considerado santo e doutor pela igreja católica, e repetida ao longo dos séculos por outros nomes como por exemplo o papa Bonifácio VIII, no ano de 1312. O passar dos tempos manteve esse pensamento solidificado nas estruturas institucionais e deu base e força para muitos líderes agirem contra os que discordavam dessa santa verdade. Matar em nome de Deus nunca foi pecado na história, pelo contrário, sempre foi muito bem justificado.

A igreja em si não é a salvação. Ela pode ser um caminho escolhido para ser seguido, dentre tantos outros, até a tão desejada salvação. E todo o caminhar deve ser livre e proporcionar o rompimento das amarras que impossibilitam o crescimento de cada ser. Uma igreja que não promove a libertação está sendo alienante.

Se fosse apenas através da igreja que alcançássemos a salvação, o que aconteceria com tantas outras pessoas de seitas, filosofias, religiões distintas ou ateias? Afinal, sabemos, que fora da igreja existem pessoas "boas" e dentro delas existem pessoas "falsas". Portanto, o caminho de salvação é e deve continuar sendo individual. Não há regras celestiais para uma salvação garantida.

Tudo o que os homens tentaram justificar até hoje, no que tange a salvação eterna, foi a partir de uma experiência individual. Experiências individuais não refletem uma verdade absoluta para o coletivo. Cada pessoa terá um sentimento e um olhar diferenciado, sempre. Assim sendo, o caminho percorrido por um indivíduo não poderá ser o mesmo que garantirá a "salvação" de terceiros.

Somos livres. Isso é bíblico. É preciso respeitar a individualidade, a opção, a escolha de cada ser. Nascemos numa sociedade engessada por estruturas sociais, políticas e principalmente religiosas. Somos praticamente obrigados a aceitar e seguir sem questionar. Indagações são mal vistas. Opor-se ao sistema imposto é mal interpretado e quem o faz está sujeito a condenações várias, inclusive o fogo eterno.

O que se sabe até hoje, é que ninguém, até então, é detentor de uma verdade absoluta. Prefiro uma alteração no conteúdo do pensamento de Agostinho, pensada por um religioso espírita: "Fora da caridade, ou seja, fora do amor não há salvação". Será que vou poder continuar na minha religião após essa adesão de pensamento? Ou estarei fadado à condenação eterna por heresia?

E, das roupagens impostas, confesso, andarei nu, pois a ruptura se faz necessária. E mais, não é a igreja que salva mas as atitudes de cada um...

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dorme com Deus, anjo...

Imagem: Márcio Sotelo Felipe
"Nana  nenê 
que a cuca vem pegá
Papai foi na roça
Mamãe no cafezá..."


Ouço essa cantiga popular desde que me conheço por gente. Meus pais, meus avós principalmente, fizeram-na conhecida. Cantei para o meu filho e hoje ainda canto para minhas sobrinhas. Funciona como uma espécie de mantra. Tem a magia de sintonizar a criança para a leveza do sono.

A imagem acima trouxe-me de imediato a lembrança de infância. A primeira impressão é de que a criança está dormindo, exausta, após um dia de muitas brincadeiras. Alguém a tomou nos braços e entoou a canção em seus ouvidos. O cansaço fora tanto que não deu tempo de tirar seus sapatinhos. 

Mero e triste engano! 
O pequeno não está dormindo 
Não foi um dia de longas brincadeiras 
Não está em seu quarto
Não é sobre sua cama que repousa
Não repousa 
Sequer respira!
Sequer acordará entre os seus...
Estirado nas areias de uma praia
Seu corpo foi trazido pelas ondas
A vítima mais pura deste mundo
Inocência maltratada
Tardiamente tornara símbolo 
Das insanas e necessárias migrações
Das fugas das mazelas rumo a um futuro incerto
Que no sonho, pelo menos, hão de serem livres
No final, se nada der certo
Pelo menos não deixaram de arriscar
Essa tentativa, porém, custou caro
Não só o sonho, mas o sonhador em si
Não só a esperança, mas a única flor do jardim
Dorme com Deus, anjo...






Fotos: Reuters

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O ministério carismático, o pastor, a quenga, o travesti e o pai-de-santo.


O relógio da catedral badalava as vinte e uma horas. A praça de frente a igreja estava deserta. Alguns moradores de rua ziguezagueavam pelos canteiros. Seus cachorros corriam e pulavam no lago para se refrescar do calor. As lojas ao redor, todas fechadas antes das dezenove horas para se evitar qualquer tipo assalto, deixavam aquele lugar mais deserto do que realmente era.

Faltavam alguns minutos para as vinte e duas horas quando um grupo de aproximadamente oito rapazes de moto pararam no estacionamento da praça e começaram a correr atrás dos moradores com pedaços de madeira e corrente. Na correria, dois que eram mais de idade caíram e não conseguiram escapar do linchamento. Um verdadeiro massacre. Covardia sem precedentes por motivo nenhum. 

Realizada a sessão de tortura saíram às gargalhadas em suas motos. Outros três mendigos retornaram e encontram seus colegas desmaiados e repletos de sangue. Ligaram para a polícia que nem sequer apareceu no local. 

Aflitos, foram até a catedral, aonde, no salão de reuniões, estava um grupo de pessoas que fazia parte de um ministério de música e oração. Os moradores da praça chamaram mas nenhuma das pessoas se ateve a atendê-los. Estavam ocupados demais com seus preparativos que seria impossível parar para ver o que estava acontecendo. E se tratando de desocupados que vivem de cachaça não haveria de dar tanta importância.

Enquanto isso, do outro lado da praça, um pastor despedia-se de alguns fieis na porta de seu templo. O culto de cura e libertação havia terminado. Iniciaria a sessão de descarrego em prol da prosperidade financeira. Outros dois moradores de rua foram até lá e pediram socorro mas o pastor com veemência repreendeu-os dizendo que ali era um lugar sagrado e de respeito e por eles estarem cheirando a cachaça Deus haveria de castigá-los.

Voltaram para junto dos dois feridos e com  garrafas pet's transportavam água para limpar os ferimentos. Neste momento, uma garota de programa que passava pela praça para chegar ao seu ponto notou algo estranho entre os moradores de rua e se aproximou. Ciente da gravidade do problema foi até uma farmácia 24 horas e comprou diversos remédios para fazer curativos. 

Passava de carro por ali um travesti, amigo da garota de programa, que fez questão de parar e dar um apoio. Ainda sem recobrar a consciência, os feridos eram cuidados sobre a grama da praça. 

Já se passava da meia-noite quando três pessoas de branco cruzavam aquele que havia sido palco da brutal covardia. Era um pai-de-santo com mais dois amigos. Diante de toda aquela cena de guerra também foram solidários. Concluíram então, o travesti, a quenga e o pai-de-santo, que o melhor a se fazer era levar os feridos para uma UAI. E assim o fizeram. Acompanharam todo o procedimento e depois de liberados, por volta das 4 horas da manhã, foram todos para a casa do pai-de-santo.

Nessa noite, a rotina dessas pessoas foi quebrada. Dois deixaram de trabalhar e o terceiro deixou de passear com seus amigos. Porém, todos foram solidários e praticaram a verdadeira caridade com amor ao próximo. 

Talvez, essa história não esteja nos moldes bíblicos mas se lerem e relerem a passagem do "bom samaritano" compreenderão que foi apenas reescrita em nossa contemporaneidade. Tirem suas conclusões. 



Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando: Psicanálise, Coaching, Docência do Ensino Superior

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Por que é que Você me aparece assim...?

 Domingo, 02 de setembro de 2.012. Igreja Santa Terezinha, Praça Tubal Vilela, Uberlândia-MG. 13:45 horas.

Estaciono a moto de frente a igreja Santa Terezinha e escuto alguém gritando "onde está os cinco reais que te emprestei? cadê?". Avisto três homens na praça, dois estavam sentados e o que gritava, em pé. Um deles, sentado, ouvia os gritos daquele que estava repleto de ira, e como resposta apenas balançava a cabeça dizendo que não tinha mais o dinheiro nem havia conseguido outro.

Percebia-se que todos estavam alcoolizados. O que estava sendo cobrado, por sinal, era o que estava em pior situação. Mal conseguia se levantar. Não bastassem os gritos, o cobrador partiu para a agressão. Primeiro, com uma das mãos segurou no pescoço do devedor, apertou forte e o jogou para trás. Este, virando com as pernas para cima, caiu de cabeça e costas no chão e ali ficou.

Não convencido daquela atitude, o homem inflamado de raiva por não encontrar os cinco reais com o bêbado que antes era parceiro de álcool, começou a chutá-lo na altura do peito e da cabeça. O terceiro homem, que também estava sentado, sentado ficou sem nada fazer.

De pé ao lado da moto, só deixei o capacete que por sinal num primeiro momento minha vontade era bater com ele naquele endiabrado que gritava, cobrava, humilhava e agredia... No atravessar a rua, minha ansiedade e raiva já estavam tal qual deste homem. Tentei ligar para a polícia, que por sinal há um posto naquela praça mas por ironia do destino, no momento não havia ninguém.

Antes mesmo de chegar do outro lado da rua o agressor já havia apanhado algumas pedras em cada mão e batido com elas na cara do homem prostrado no chão. Tempo era uma coisa que realmente não havia. Ninguém ao redor da praça. Pessoas passando e apenas assistindo. Confesso que sou fã de uma boa briga desde que seja justa, por um bom motivo e de preferência num ringue. Não era o caso.

Diante da cena a apenas alguns metros gritei "o que é que tá acontecendo aí meu irmão?". Minhas mãos suavam. Aquela raiva, ao presenciar de longe as primeiras agressões, e que empurravam para que minhas mãos arrebentassem aquele atrevido e covarde de repente viraram coragem para não deixar a situação pior do que já estava. Tem horas que precisamos de coragem para nos conter, envidar esforços para não tomar atitude alguma. Na hora nada consegui pensar. Fiz, acredito, no momento, o que era mais sensato...

O cara então me respondeu "este aqui tá me devendo cinco reais e agora não tem para me pagar". Ganhando tempo pra entender perguntei o porquê do empréstimo. A resposta foi grotesca mas... "pra ele comprar pinga." Cinco reais seria o suficiente para alguém ali perder a vida em segundos. Motivo: álcool!

Falei pro cobrador que então já estava no papel de agressor "cê vai matar o cara!" Por algum motivo ele parou. Como forma de demonstrar superioridade e manter talvez a fama de violento, não cessava de falar alto. Pedi pra ele deixar o cara em paz. Com os únicos cinco reais que tinha no bolso quitei aquela... dívida. Antônio é o nome do agressor e Anderson o que devia. Dívida quitada, Antônio seguiu sua caminhada e o terceiro homem que antes estava de parceiro de Anderson seguiu com aquele que mais se impunha entre eles. Talvez o medo falou mais alto. Preferiu seguir com quem tinha mais... força. Questão de sobrevivência, pode ser...

Anderson é de Araguari e para lá não pretende e não quer voltar. Diante da igreja dei algumas ideias pra ele de alguma forma sair daquilo... Questão de minutos e ele havia desaparecido. Tudo bem. Naquela tarde, de alguma forma ele sentiu que poderia ter sido seu fim.

Ao montar na moto fui acometido por uma comoção que resultou em lágrimas. Diante de todo este episódio, que não durou mais que cinco minutos, ao entregar o dinheiro nas mãos de Antônio que logo partiu dali, olhei para Anderson que já havia se levantado do chão e agora de cabeça baixa, com sangue escorrendo do ferimento causado pela pedra batida com força contra sua cabeça, apenas me disse, com aquele olhar de quem curte sim uma ressaca e que está prestes a arrematar outra garrafa para curar a anterior, mas também com um olhar que só se enxerga quem está de alguma forma buscando um sentido para sua vida: "brigado".

Claro que a única palavra que ele podia me dizer era essa. Não esperava nada mais, muito menos esse "brigado". Na verdade nem achei que ele conseguia falar de tão bêbado que estava. Diante das agressões sofridas nem pedia por socorro, nem gritava, muito menos esboçava reação ou clemência. Nada, naquele momento, talvez, pudesse fazer diferença. Nem polícia, pois não haveria tempo de chegar e salvá-lo antes de ser esfolado vivo e apedrejado...

Esta imagem com este olhar que atinge dentro dos olhos, ao som desta única palavra "brigado", foi a experiência maior deste dia. Já na moto, como citei acima, as lágrimas me incomodavam. Era uma comoção não só de pena por quem apanhou violentamente, mas de algo que enxerguei além daquela imagem e daquela cena toda. Vi um rosto transfigurado naquele homem. Um rosto excluído de um excluído que faz parte de um cenário cotidiano para muitos que perambulam por aquele recinto. Um olhar que tocou fundo. Para muitos tenho certeza de que entenderão apenas como um conto qualquer. Não importa. Eu sei o que vi. Mais que isso, eu sei o que vivi como testemunha do fato.

A única coisa que ficou na minha mente e, que por sinal, já me dei a resposta neste contexto explicado no texto, foi: "Por que é que Você, Jesus, me aparece assim...?"

Sem mais.