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sábado, 21 de março de 2026

O processo



Outro dia ouvi a frase "só chega no topo quem vive o processo". Soa uma competição. Sim, isso mesmo uma competição em que só os mais fortes sobreviverão. O interessante é que a frase foi retirada de um vídeo exposto num grupo de trabalhos voluntários, com uma equipe de comando previamente formada para a boa condução do mesmo. Penso que destoa do objetivo ao qual fora criado.

Pergunto-me: é uma caminhada coletiva, de parcerias, em grupo ou é uma corrida para ver quem chega primeiro, ou ainda para disputar quem alcança esse topo? E que topo seria esse aos olhos de quem postou? Que processo é esse?

Em se tratando de grupo, eu fico com a certeza da travessia. Ah, a travessia é ritmada pela vida, pelos prazeres que a vida dispõe. Sim, pelas lutas também, porém existe aí um saborear por cada passo de uma caminhada, ou de uma escalada. O topo, o ápice, o pódio é apenas uma consequência de se ter vivido bem e aproveitado toda a natureza e atmosfera ao redor durante a travessia. Isso não significa caminhar a esmo. Quem se propõe a tecer o caminho já sabe bem onde quer estar.

Processo lembra empresa, que lembra hierarquia, que lembra poder... Travessia remete a parceria, coletividade, amizade, ideais em comum e horizontalidade entre os seus. Os cargos e funções numa empresa permitem a imposição de ideias da cadeia de comando de forma vertical. Já para a coletividade de um grupo de ideais afins, cargos e funções não agem pelo poder, mas pelo bem maior, pelo grupo.

Há quem se esconda nesse processo para garantir seus desejos pessoais acima do coletivo. Há quem simplesmente queira ser o coletivo, de forma transparente e democrática. Há quem se cegue pelos vieses ora idealizados de um sonho particular acima de qualquer objetivo comum do grupo. Há quem não se importe com o cargo, tampouco pelo poder que este pode lhe atribuir. 

E quem se apega ao poder para se impor, calar vozes de forma autoritária, punir a quem se expressa contrário, não tem desejo de coletividade, não pensa em caminhada grupal. Isso prova que há particularidades não declaradas que afloram diante daquilo que consideram afronta e ameaça ao seu legado. 

O que é vencer na vida? Tem uma moral capitalista nisso... Que tal parar de tentar só vencer, e passar a viver? Processo e topo são tópicos extremamente comentados no positivismo tóxico e também entre alguns coaching's. Prefiro a leveza sertaneja de Guimarães Rosa ao transformar processo em travessia e assim apreciar e degustar as paisagens de horizontes como uma possibilidade de alcançar o seu prazer no fim que lhe sustenta o sonho. 

As pessoas não estão prontas nem para o contraposto, nem para o contraditório, principalmente quando o resultado atinge o ego. 

Quem precisa se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O caos na calmaria do sistema



Doce caos nesse mundo sem calmaria
O que me falta?
Não mais que alegria
Não menos que ousadia
O que eu tento é todo dia
Uma nova alquimia
Nessa sobrevivência
Sem latência
Muita querência
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Preza, presa, preso
Nessa cela
Com esse selo
Ileso
Cela de carne, de ossos, de sangue
Selo da marcação
Da contramão
Na irritação
"Dos patrão"
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Já dizia o grande 
Freriano, Freire, Freirão
O sonho do oprimido
Hum
É se tornar opressão
Feito um patrão
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Mundo estranho mundo
Tão sujo, 
Tão profundo,
Tão imundo...
E quem se tornou patrão
Subiu na chefia, 
Na diretoria
Hum
Por cima
Pra cima
Sem rima
E opressão

Até mesmo a tal qualidade
Hum
Extorquida
De qualquer jeito
De qualquer vida
Para estar
No patamar
Do vislumbre
De seu altar

Fazem até uma pesquisa de satisfação
Mas não é pra melhorar essa qualidade
Jamais!
É só pra causar perseguição 
De quem está descontente 
Com esse sistema
Podre, imundo, e pago
De opressão
E mesmo pagando
Você não tem mais o direito de exigir
Clareza
Competência,
Qualidade
Ouse, tente, abuse!
Pra você ver aonde seu nome estará jogado
Haja medina!
E não lhes faltam de propina
Porque o sistema é uma jogatina
Interesseiros
Pelo dinheiro!
Mas eu, ah!
Margeado pelos pensamentos inquietantes
Eu mais que sobrevivo
Eu sonho, eu acredito, eu luto.
Luto enquanto vivo
Para que a vida não se torne luto.

domingo, 25 de agosto de 2024

Sob as cinzas da ganância



Dia 23 de fevereiro de 2015, voltando de uma viagem de carro com meu filho Felipe, depois de visitarmos minha irmã e sua família em Brasilândia de Minas, passei a observar a expansão dos desmatamentos e queimadas ao longo de um percurso de quase 460 km. Pai e filho, companheiros de viagem, conversamos muito sobre as consequências da ganância do ser humano por posse e poder. Desse diário de viagem ficou um registro em forma de poesia, que foi publicado no meu livro Cá de Dentro, com o título Progresso da Ganância


Há muito tempo venho prestando atenção nas queimadas. Tempo esse anterior ao do escrito acima. E, para mim, existe uma lógica muito simples de entender a motivação desse ato inconsequente e destruidor. A responsabilidade pelo cuidado e manutenção dos acostamentos e canteiros das rodovias estaduais e federais, por exemplo, é de grandes empresas que ganharam mega licitações. Se pararmos para analisar, a mão de obra e maquinários para esse serviço requer muitos homens e grandes recursos. 

Não foram poucas as vezes que me deparei com uma única pessoa, em traje civil, ateando fogo em áreas, cuja responsabilidade por manter sem matos seria de alguma dessas empresas. O custo para isso é apenas o de uma pessoa, talvez das horas extras que parou pra realizar o serviço, ou melhor, o atentado, o crime. Uma pessoa e um palito de fósforo, é o que basta. 

Olhando pela lógica, o custo para a manutenção de canteiros e acostamentos de pistas e rodovias estaduais e federais, é alto. Isso, se feito da maneira correta, a qual foi contratada para fazer. Mas, fato é, que em nome do faturamento sem custo, as empresas arriscam pelo lado mais barato e criminoso, as queimadas. As consequências todos já conhecem e, hoje, o país está sob fumaça.

Os contratos são milionários mas se ao invés de disponibilizar pessoas e equipamentos uma única pessoa realizar o serviço? O lucro será ainda maior. Pode até parecer uma teoria conspiratória mas não é. Só se atentar nas queimadas recentes nas rodovias ao redor das cidades. Por que sempre nos mesmos lugares, nos mesmos canteiros, nos mesmos acostamentos? Tais empresas podem recrutar qualquer pessoa que não seja funcionário e aí não tem como provar. 

Enfim, o que se sabe é o que sempre acontece, nas mesmas épocas. Poder, posses, lucros, são algumas das motivações. Ganância é o que concluímos. E a vida... cada um que se cuide porque nessa história, os culpados nunca aparecem, devem estar dentro de seus luxuosos bankers assistindo de camarote e sem sofrer com as consequências imediatas. Enquanto isso, sob as cinzas nacionais, todos pagamos o preço dessa inconsequência criminosa e premeditada. 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Distopias de uma cegueira social




Inocência, Ignorância e Conivência são elementos extremamente importantes que alguns líderes procuram diante da fragilidade alheia. E quando farejam, feito lobos em busca de ovelhas, partem em verdadeiras cruzadas praticando o terror psicológico até aliciarem seu rebanho que os seguem ao matadouro sem questionar.

Como administrador eu entendo as igrejas como instituições sem fins lucrativos. Assim deveria ser, somo via de regra. Mas, o que a realidade mostra são empresas isentas de impostos que hoje estão inseridas em outros setores influenciando o andamento do país. Perdeu totalmente a identidade de sua atividade fim. Uma empresa é um negócio. O mercado da fé está em alta.

Como teólogo entendo que as múltiplas denominações religiosas multiplicaram exponencialmente. A questão da fé ficou em segundo plano. Há um certo modo operante típico de um medievalismo que aplica o medo como meio de dominação da pessoa, esta que, muitas vezes cegada pela inocência, sucumbe aos caprichos de seus líderes. A função das religiões (religare) se perdeu diante do fanatismo, do ultra conservadorismo radical, das aberrações proferidas por diversos líderes bilionários, e se tornou uma verdadeira máquina de alienação. Quanto mais cegos alienados maior a continuidade e a rentabilidade.

Como estudante de psicologia, ainda me faltam argumentos científicos para expor minha óptica mas arrisco dizer que os líderes religiosos, em sua maioria, trazem o mesmo discurso, o que impõe regras, causa medo, e pune com sentenças do além a todos os que pisam fora da margem estipulada pela instituição. Tais líderes são capazes de causar histeria coletiva, cegueira intelectual e alienação exacerbada.

A religião que vive a pregar contra minorias sociais e outras religiões tem em seu cerne não os fundamentos cristãos de edificação de si e da comunidade, o amor em si, mas a estratégia escancarada para disseminação de ódio e guerra, reforçando uma rivalidade sanguinária contra quem exerce sua fé de maneira diferente. O que mais presenciamos hoje nos cultos e celebrações ditas religiosas são pregações contra a fé alheia e não mensagens edificantes de amor e paz, perdão e alegria. Acusa-se de obras demoníacas tudo aquilo que está fora dos redutos daquela denominação. Não veem as pessoas de outras denominações e fé como irmãos de uma mesma e única pátria, mas como concorrentes,  adversários e até inimigos. A luta dessas atuais pseudorreligiões é a busca incessante pela dominação global, o controle absoluto de poder, status e dinheiro. 

sexta-feira, 22 de março de 2024

O homem da praça



Ele caminha. Perambula numa solidão que mais parece estar fugindo de algo ou de alguém. Talvez, de um passado que o assombra no presente. Talvez, por isso um chapéu ou um boné puxado abaixo da linha dos olhos que não permite que ninguém o encare. Um olhar desconfiado, muitas vezes intimidador. Cara fechada, literalmente amarrada. Uma mochila nas costas, botas brancas de borracha nos pés, camiseta e bermuda surradas. Cabelo e barbas compridos, por fazer, mas cuidados. Aparentemente apenas um suor incrustrado na pele e na medida do seu possível, uma demonstração de auto cuidado ao lavar-se numa torneira da praça ou do posto de combustível mais próximo. Seu espaço, sua morada, é a praça. Mesmo ali, diante de outros que dividem o mesmo espaço-tempo percebe-se que não há proximidade com ninguém, nem mesmo um cão o segue. Um sujeito isolado em seu mundo. Nada se sabe. Curioso a falta de interatividade com outros ao seu redor. Ninguém se aproxima. Algumas vezes puxava um carrinho de recicláveis pelas ruas. Noutras carregava seus materiais em sacos pretos. Não foram poucos os dias que o presenciei correndo pelo gramado da praça. Novamente, só e solitário, demonstra não se importar com nada ou ninguém à sua volta, exceto sua continuidade entediante e necessária pela sobrevivência. Age feito um ex-combatente que deixou a guerra mas a guerra não o deixou. As marcas de sua corrida fixaram-se na grama formando um caminho circular, um loop eterno no horizonte da terra que se considera sua. Ali, preso em seu mundo é livre de tudo e todos. Liberto, talvez. Liberto em sua liberdade mas, por hora, quem sabe, preso em seus pensamentos, em suas batalhas já vividas. Um sobrevivente das guerras da vida e do mundo. Um foragido? Resiliente do tempo? Um prisioneiro a céu aberto, no campo de concentração de seus pensamentos. Os mesmos pensamentos que o permitem sobreviver ao caos das ruas, das praças. Se porte físico é consideravelmente forte e grande. Ele sabe como sobreviver bem, pois não aparenta desnutrição. E este é um sinal de que apesar da vida que leva, da forma como a leva, sua mente o mantém seguro, alerta. E toda vez que o vejo lembro-me de Viktor Frankl, pai da logoterapia, que em sua obra, "Em busca de sentido", descreveu como sobreviveu aos campos de concentração nazista. Manteve, de certa forma, sua mente blindada e sã. Quantas pessoas conhecemos que são capazes de viver sem deixar que o externo abale suas estruturas internas? Há algo a se aprender com elas. Por hora, sigo no imaginário, em cada vez que vejo o "homem da praça" em sua rotina, tentando perceber o que o torna são e forte numa sociedade egocêntrica que visa status, poder e fama. Há muito mais a aprender com o que não é dito do que com pronunciamentos carregados de alegorias e encrustados de hipocrisia. 

quinta-feira, 21 de março de 2024

Das lutas nas tempestades às tempestades sem lutas



13/04/2016 e 08/01/2023 foi um tempo atípico em muitas concepções. Momentos grotescos na história da democracia brasileira. Ideologias em alta. A ebulição do ódio já fumegava pelas têmporas e vísceras de demônios despertados pela cobiça do poder pelo poder. Um golpe político partidário desestabilizou a ordem. Motivos forjados que levaram o parlamento a sentenciar uma pessoa inocente, não chegaram nem perto de crimes cometidos por um desgoverno nefasto, promíscuo, criminoso, prostituído de ideologias corrompidas em prol de mero enriquecimento ilícito e uma necessidade quase sexual de se ostentar no trono do poder. Talvez, nada disso tivesse acontecido se, quando um boçal exaltou um torturador, tivesse saído algemado e preso do parlamento. Faltou a ordem para impedir o desprogresso que se viria nos anos seguintes. Com um golpe teatral, uma cena grotesca que não derramou uma gota de sangue diante de uma "fakeada", que posteriormente se tornaria evidente a armação para a realização de uma cirurgia, ele fez fortalecer sua campanha. E conseguiu chegar lá. Nesse entremeio uma pandemia assolou o mundo. O sangue que não saiu de seu corpo escorreu por suas mãos e nas de seus asseclas quando sua estupidez maléfica não apenas permitiu mas colaborou com a morte de milhões de inocentes. Disso tudo ficou a lição de que não é a igreja o caminho para um bem maior, tampouco para o céu. Não é o pastor, o padre ou qualquer líder religioso que te dará a luz necessária para o caminho da salvação. É necessário filtrar e podar toda e qualquer ideologia política estruturada em esquemas religiosos de negócios. Já diziam alguns visionários do passado que era necessário todo o cuidado com algumas seitas que brotavam no mercado milionário da fé, pois uma vez adestrando e alienando seu público nas estruturas da igreja, seria necessário se infiltrar e dominar o mundo da política. As tempestades que caíram sem luta propiciou uma devastação sem tamanho. As lutas que se seguiram pelas tempestades tombaram muitos guerreiros e guerreiras. De tudo fica a lição de que não se pode vacilar, nem se calar, tampouco se acomodar. Omissão nunca pode ser uma opção. (27/09/23)

quinta-feira, 14 de março de 2024

A hipocrisia escancarada na tal "corrente do bem"


Recentemente ouvi um termo da boca de uma pessoa conhecida. Uma tal de "corrente do bem". Não sei se isso é um movimento, um grupo, uma corrente de pensamento, mas enfim, a conotação não soa bem aos ouvidos. A primeira impressão é a de que somente está inserido neste grupelho aquele que pratica o bem. Isso foi criado por um politicozinho eleito por aquele movimento midiático (CN). Aí fica aquele mix de política e religião. E com tantos pseudo cristãos no poder e arredores, isso realmente não me soa bem. CN é um movimento elitista, uma organização rica que atua como um braço forte e radical da ICAR. Sim, os frequentadores são de todas as classes, pois são esses que sustentam as luxúrias dos artistas. Conservadorismo-coronelismo ímpar, digno de medievalismo. O deputadim cantô, ou cantô deputadim, defende interesses da classe. Óbvio. Um vendido! Um falso moralista, ou melhor, um moralista seletivo. Corrente do bem porra nenhuma! Gente hipócrita que se vende, se corrompe pela sobra de quem busca a fama. Bater no peito e dizer que faz parte da "corrente do bem" é o mesmo que dizer em alto e bom tom, que só você que faz parte é digna e só você é do bem. Hipocrisia! Se fazer parte desse grupo é ter essas posturas de falso moralismo e pseudo cristianismo, então eu to literalmente do outro lado. Minha gastrite não suporta hipocrisia. Esse povo alienado e que gosta de alienar são um perigo para a sociedade. Me oponho veemente a esse tipo de coisa. Vejo a CN como empresa do mesmo jeito que vejo a IURD. Abram os olhos porque quem fica se vangloriando por isso está alienado e quer levar seus seguidores para o mesmo caminho. Vendilhões do templo!

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

E quem disse que deu certo?



E quem disse que deu certo? 
Temos a grande mania de julgar, se uma relação se inicia da noite para o dia e parte para um envolvimento mais sério, nós julgamos. Se uma relação demora muito tempo para se efetivar, e partir para algo mais sério, como noivado e casamento, nós também julgamos. Qual é o tempo certo? Qual é a nossa média padrão, e baseada em que? Se for aquela média baseada nos nossos familiares mais antigos, pais, tios e avós, que tiveram relações duradouras e, talvez, a única relação em suas vidas, 30, 40, 50 ou mais anos de convivência, de matrimônio, isso significa que deu certo? Sim. Mas, pode não ter dado certo também.  

Quem disse que ser duradoura significa que deu certo? 
Sabemos o quanto as relações foram sufocadas pelas regras sociais e familiares impostas, em épocas em que o conservadorismo falava muito mais que o próprio sentimento; épocas em que era muito mais valorizada a moral, os bons costumes sociais e familiar, na qual as relações eram obrigadas a se manterem em pé, disfarçadas, porém não vivas, mesmo que fosse ao custo do sacrifício e da infelicidade, principalmente, da mulher. 

E quem disse que deu certo? 
Isso não é um convite tampouco uma instigação às relações curtas e sem compromisso, ao contrário, é uma convocação à reflexão de que tudo o que não gera felicidade, não gera paz, e acaba se tornando uma prisão, está longe de ser uma relação. Portanto, partindo da reflexão, partindo da escolha pela liberdade de viver sentimentos libertadores e com reciprocidade, envolve muitas vezes, mudanças radicais, cortes com regras sociais para então ressignificar sua vida, sua existência, e se permitir viver o seu propósito, criando o seu próprio padrão de existir. 

Apesar da febre ultraconservadora, as lutas em diversas áreas e seguimentos, tem proporcionado mais voz a quem antes não tinha sequer o direito de voto. Isso não é apenas romper padrões. Isso é romper com o silêncio sentenciador imposto pela sociedade patriarcal, com base forte na religião e na política. Hoje já conseguimos saber de relacionamentos com 30 ou mais anos que romperam. Gerações mais novas estão mais fortes para essa tomada de decisão, quando necessário. 

E quando essa atitude é considerado necessária? 
Quando o respeito é deixado de lado, principalmente. Quando o desrespeito impera, o sentimento já era. Se não houver algo que interrompa esse ciclo constante e impeça a reincidência, para o bem da relação, a tendência é uma espiral descendente para um fim único, de agravos e até possíveis tragédias. 

A cultura atual, tem ajudado as mulheres e outras minorias a conseguirem visibilidade, voz e vez. Com tanta exposição de casos fatídicos de relações com fins trágicos e, outros casos em que se conseguiu quebrar as correntes da prisão tóxica e se libertar para a ressignificação da vida, têm contribuído para que as pessoas, em especial as mulheres, não se permitam mais viver sob a custódia de um pseudo-conservadorismo que facilita a vida do homem, mantém o estigma do patriarcado que, por sinal, é retirado aleatória e ignorantemente de contextos religiosos (bíblicos) e validado por uma política machista ultrarradical que deturpa o real significado do que é relação e família, enquanto a mulher ainda é mantida no cárcere da submissão, da insignificância sob a tutela de um discurso falido, medíocre e hipócrita.

Por outro lado, deu certo sim. Deu certo enquanto houve reciprocidade, enquanto durou e até o momento em que não houve danos colaterais.


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Marx, Freire e o Marco Temporal

Protesto contra marco temporal em Brasília 
Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O que me motivou a escrever esse artigo, ou manifesto, ou simplesmente um desabafo, foram alguns comentários que ouvi acerca do "Marco Temporal". Antes gostaria de falar o que seria esse marco e porque ele está em evidência no cenário social, político e obviamente no religioso.

"Marco temporal é uma tese jurídica segundo a qual os povos indígenas têm direito de ocupar apenas as terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição" (Fonte: Agência Câmara de Notícias). Aqui no site da Agência Câmara de Notícias podemos saber melhor sobre essa questão: https://www.camara.leg.br/noticias/966618-o-que-e-marco-temporal-e-quais-os-argumentos-favoraveis-e-contrarios/

Bom, a ideia sobre a questão do "Marco Temporal" é usar como linha de corte o dia, mês e ano em que a Constituição Federal Brasileira foi promulgada, 05/10/1988. E isso implica que as terras consideradas indígenas, só serão de fato dos povos originários, as que constam até essa data da CF. Após essa data, todas as questões de terra seriam revistas e, inclusive, haveria de mexer no que já estaria acentuadamente acordado e resolvido. 

Agora, imaginem que algumas questões de terra já tenham sido resolvidas no ano subsequente à promulgação da CF, no caso em 1989. Povos originários assentados em suas terras e, de repente, com a aprovação do Marco Temporal, eles poderiam (e com certeza seriam) retirados de seu habitat novamente. Uma guerra iminente seria provável. Há quem seja favorável ao marco mas há muito mais que lutam contra. Há quem se beneficie com a aprovação desse marco, e com certeza "peixe grande" mas, há quem seja contrário por simples razões. Não tem como se beneficiar com nada sendo contrário ao Marco Temporal. E, a partir disso, claro que estou do lado contrário ao tal "marco". 

Aprovar isso seria jogar o destino e a vida dos povos indígenas ao léu. Já existe uma invasão sem limites acontecendo, totalmente descontrolada, que ganhou força no governo anterior (que não faço questão de mensurar o nome, uma vez que só intensificou o ódio, criou o caos e gerou mortes a partir do ódio e do caos...) e isso, independe de fiscalização e policiamento. Invadir terras indígenas, a maioria regada de riquezas naturais, é algo não apenas fácil mas lucrativo. E quem sempre ganha são os que continuam ganhando, os que estão lá no cume do topo da pirâmide: latifundiários por exemplo. 

"A história da humanidade é a história da luta de classes." Sim, Karl Marx tinha razão, porque a força propulsora da história se baseia na história da luta de classes. Quantos e quantas que, emergiram da pobreza, tiveram suas dificuldades durante a jornada em ascensão e ao atingir um novo patamar social, tornaram-se algozes de quem ficou num patamar inferior? Não são poucos, aliás, são incontáveis os casos em que o "sonho do oprimido de se tornar opressor", e nisso Paulo Freire também tinha total razão, se justifica na história passada, recente e presente. 

Durante o curso de Teologia, fiz um trabalho sobre a situação dos Guaranis-Kaiowás que, expulsos de suas terras por fazendeiros, eram obrigados e sobreviver acampados às margens de rodovias. Muitos jovens dessas tribos, diante da dureza da vida longe de seu habitat, do sofrimento e da falta de recursos, sem voz e sem vez, e frente à tristeza de ver os seus perecendo cruelmente, acabavam tirando sua própria vida como forma de aplacar a dor; um verdadeiro protesto, à base do seu sangue e da sua vida, para que as autoridades tomassem as devidas providências.

Caberá à Justiça resolver a questão e os casos diferenciados. Concordo que pessoas que tem o seu pedaço de terra para subsistência e, que em sua maioria adquiriram as posses de forma não regulamentada, muitas vezes compradas de usurpadores, deverão ter um olhar atento para sua situação. Bem como, os que adquiriram suas terras para projetos de lazer em áreas de preservação ambiental e território indígena, que cientes das circunstâncias e riscos iminentes, devido à irregularidade da aquisição, poderão perder o investimento. Há aqui um grande contraponto entres os dois exemplos que mencionei. Os que foram enganados e lesados mas que dependem da terra e os que não foram enganados, assumiram o risco e investiram seu dinheiro mas, porém, podem ser desapropriados e assim, lesados. E quanto a esses que entraram conscientes, não há inocentes. 

E, nesse momento, a luta é contra o "Marco Temporal". Seria desumano e injusto mexer numa demarcação que já está corrigida e resolvida. Voltar ao ano de 1988 para refazer as demarcações seria uma violência contra os povos originários. Se, em nome da ganância e do poder, os defensores do moralismo seletivo justificarem seus atos de ódio contra as minorias, conforme aconteceu nos últimos 4 anos, para continuarem invadindo, matando e expulsando os verdadeiros donos das terras, invocamos aqui a questão religiosa como uma força de origem centrada capaz de manipular ou libertar o indivíduo. Nem social, nem política e nem religiosamente, não há viés plausível para a aprovação do marco temporal. O que justifica essa ganância de poder pode ser visto sob a história da luta de classes e sobre as lutas entre oprimido e opressor. 

sábado, 16 de setembro de 2023

De setembro a setembro


Um olhar humanamente teológico sobre as pessoas que perderam o encanto pela vida, o sentido da existência e a esperança no mundo. Setembro Amarelo deveria ser uma luta de todos os dias e não somente quando as mídias jogam os holofotes para o assunto. É positivo entrar nessa campanha de mobilização e prevenção ao suicídio. Porém, mais belo do que estampar os perfis de amarelo e cobrir com frases de efeito é necessário se atentar para o nosso papel social enquanto indivíduos de um sistema que oprime, desqualifica, exclui, negligencia e ignora os verdadeiros motivos que têm levado algumas pessoas a pensarem na possibilidade de atentar contra a própria vida e outras, de fato, na esperança de se curarem das dores da alma, infelizmente, executam seu plano. 

Se a dor de quem fica é grande, imagina a dor de quem preferiu não viver mais. Não existe covardia nem heroísmo nesse ato, ou, dependendo da óptica, também pode ser ambos. Pecado? Talvez. Olhando pela bíblia cristã, o quinto mandamento diz "não matarás". Sendo assim, tirar a própria vida, segundo a bíblia cristã é um pecado. Porém, ainda segundo a mesma bíblia cristã, não é algo digno de condenação eterna e sem direito a perdão. Esse é um pensamento popular que ganhou força nos redutos das igrejas mas que não tem fundamento bíblico. Segundo o livro sagrado cristão, o único pecado que é causa de condenação eterna ao inferno é o de "blasfemar contra o Espírito Santo". 

Se considerarmos as pessoas que dão sua vida em prol de uma causa religiosa, conforme algumas religiões ultra radicais, que as instigam a se tornarem verdadeiros homens ou mulheres bombas, as mesmas são consideradas mártires com promessas e garantias de uma vida eterna e digna no Paraíso, no Céu, etc. Durante as guerras surgiram os camicases que, não tendo mais o que fazer, lançavam-se com seus aviões no território inimigo na tentativa de abater o maior número de adversário possível. 

O que difere cada ato de tirar sua própria vida: uma causa, uma esperança, uma promessa, um sentido? Ou, talvez, a falta de cada uma dessas possibilidades ou, todas e mais um pouco? A esperança que um homem bomba tem ao se permitir explodir em prol de uma causa político-religiosa não seria a mesma esperança que uma pessoa, que perdeu seu sentido de viver, tem para amenizar sua dor da alma? Essa última perdeu o sentido da vida, mas está sobrecarregada de dor. Tirar a vida não significa covardia mas, livrar-se da dor que ninguém sabe que existe nela, e por mais que saiba não consegue entender.  Como não teremos jamais a resposta sobre o motivo de tal ato, sempre dialogaremos a partir dos relatos deixados de sua caminhada. A cadeira vazia será apenas um cenário de dor e luto por parte de quem ficou sem respostas. 

E qual seria o nosso papel social, religioso, político ou simplesmente humano (o mais importante) para contribuir com essa luta de prevenção ao suicídio? Estamos numa era em que as informações que nos chegam são como uma tempestade em nossos pensamentos. Creio que não percebemos mas, muita gente se encontra esgotada mentalmente pelo excesso de informações que são oferecidas aos milhões, minuto a minuto. Esse excesso também pode contribuir para o desequilíbrio emocional, o que afeta diretamente as relações diretas e indiretas de cada pessoa. 

A sociedade egoísta que ignora; as religiões com suas regras morais que exaltam as leis em detrimento do ser humano e da vida; as políticas, sejam as públicas que são falhas por conta do dinheiro que se desvia e não chega aonde precisa, sejam os representantes escolhidos pelo voto nos Estados e municípios, que se esquecem do seu compromisso com o povo e legislam em causa própria. Junte-se a isso a falta de recursos para coisas básicas. Muitos "próximos" sucumbem à tentação de deixar de existir num mundo onde não apenas se sentem invisíveis mas são tratados como escória. 

Numa pesquisa de trabalho realizado durante o curso de Teologia, nos deparamos com índios da tribo Guarani-Kaiowás que preferiam tirar sua própria vida a viverem fora de suas terras, que naquele momento foram tomadas por latifundiários. A dor de viver fora do seu habitat, da sua casa, e sobreviver nas beiras das estradas, era um dos motivos de desordem emocional e desonra para si. 

A dor alheia é algo que não conseguimos mensurar. Seja uma dor física ou, pior ainda, uma dor da alma, aquela que não se vê mas que mexe com todos os sentidos. Para a dor física existem remédios de resolução imediata. Para a dor da alma, existe uma demora para se chegar num ponto satisfatório de entendimento para então, de forma lenta e gradativa organizar as coisas que estão fora do lugar em seu pensamento, em seu íntimo, em sua história e na falta de expectativa. 

Enquanto seres humanos, não nos custa levar um pouquinho de alegria, ou no mínimo ouvidos para as pessoas ao nosso redor. Não temos condições para salvar o mundo, mas podemos contribuir dando um mínimo de atenção para aquela pessoa que antes sorria atrás de um balcão e hoje se quer solta um "bom dia". Familiares que passam a reclamar da vida mesmo não faltando nada. Solitários ao nosso redor, regados de silêncio, timidez, e dificuldades de interação, dentre outros tantos, não custa acolher. Acolher no sentido de deixa-la sentir-se vista, notada, ouvida. Não precisa de muito. Um simples "tá tudo bem?" pode ser o essencial para salvar o dia e os pensamentos de alguma pessoa próxima que vive seus dias de tribulação.

Não importa a orientação sexual. Pecado é não amar! E, não há cura para o que não é doença! Antes da piada, antes da crítica, pense que uma palavra pode ser a melhor ou pior coisa que a pessoa com ideação suicida pode ouvir naquele momento e você nem sabe. Não sabemos quantas guerras habitam na pessoa com quem cruzamos todos os dias de nossa jornada. Por isso, empatia e respeito, é a melhor acolhida que podemos dar. 

Para quem sempre cita a bíblia, em especial as rígidas leis do Antigo Testamento, eis que me deparo com um pensamento, o qual desconheço seu autor, mas que simplifica e alivia quando me deparo com pregações grotescas e de ódio: "Jesus não voltou durante a escravidão. Não voltou durante o holocausto e nem durante as cruzadas. Mas, vai voltar agora por causa do gênero de alguém."

Uma igreja que não acolhe as minorias e suas diversidades já perdeu seu papel aqui na Terra. Uma política que não cumpre com sua função de bem comum só serve para alimentar os lobos no poder. Uma sociedade que não percebe a dor alheia, já deixou de ser humana com seus semelhantes. E por que esse discurso em meio à campanha Setembro Amarelo? Porque tudo isso pode ser causa, mínima ou máxima para alguém que está desacreditado de si, sobrecarregado de dores, cometer suicídio. 

Há inúmeros fatores que levam as pessoas a buscar o suicídio: a inundação da dimensão de sombra, transtornos psicológicos, doenças incapacitantes, profundas decepções e prolongadas depressões. Mas mais que tudo, a perda do sentido da vida que suscita nas pessoas vulneráveis o impulso de desaparecer. Não raro, tirar a própria vida é uma forma de buscar um sentido que lhe é negado nesta vida (franciscanos.org.br). E "Não é a maneira como uma pessoa morre que determina se ela é salva ou condenada" (https://teologiabrasileira.com.br/o-suicidio-da-razao/).

Somos corresponsáveis direta ou indiretamente pelas vidas ao nosso redor. A omissão é algo que poderemos somar na cartilha da consciência como culpa, frente ao que poderíamos ter contribuído mas não o fizemos. 

A imagem desse texto foi utilizada como convite para o evento do dia 15/09/23, na Casa das Cenas, em Uberlândia-MG, para um encontro realizado com pessoas de diversos segmentos da sociedade. Um público misto em todos os sentidos. Através do Psicodrama e Cinema, trazendo uma ótica da Psicologia pela minha colega Ana Elisa, enquanto eu, da Teologia, discutimos o suicídio dentro do contexto do filme "Orações para Bobby". É um filme que está disponível no youtube, portanto de fácil acesso. Ali, sentimos o peso da falta de apoio familiar diante da homoafetividade por um dos membros dessa família, o peso do conservadorismo religioso que passa a manifestar um moralismo seletivo, a sociedade que exclui, os familiares que se afastam, as auto condenações por conta do que se considera pecado conforme os ditames de sua religião, até a ideação suicida. Deixo aqui, como forma de continuidade nessa reflexão, um convite para que assistam ao filme. 

https://www.youtube.com/watch?v=IIYNfCoGgUQ



quarta-feira, 5 de julho de 2023

Rebatando a paquita do capeta - parte II

Imagem via: @BlogdoMiro / Twiter

A religião deve ter como premissa libertar e instituir o amor. Deus não castiga. Jesus Cristo é amor, acolhida, perdão, libertação e paz. 

Todas essas qualidades não fizeram com que ele se calasse frente aos magnatas e hipócritas do poder político e religioso, ou seja, lutar pela paz não significa tolerar o intolerável que prega ódio, discriminação e morte.

Se Jesus fosse um cara passivo e se fizesse de cego frente às exclusões e injustiças sociais, não teria expulsado os vendilhões do templo à chicotadas.

Enfim, se sua religião não é fonte de acolhida, amor e libertação, ao contrário, prega discriminação, preconceito, ódio e morte, existe algo errado. 

Pode ser a instituição que se faz de religiosa para alienar os fiéis, ou pode ser os líderes que a usam de seu palco particular para obter benefícios (R$).

Assim como grandes empresas de TI desenvolvem o vírus para vender o antivírus, laboratórios que criaram doenças para vender remédios e antídotos, assim também são essas seitas, que não merecem sequer serem chamadas de religião, elas criam seu demônios para vender suas curas. 


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

Rebatando a paquita do capeta - parte I

Imagem via: @BlogdoMiro / Twiter


Não há motivos para usar o Deus vingativo do Antigo Testamento, tampouco as leis retratadas nos livros que o compõe.

O Novo Testamento veio para trazer fé, esperança, libertação e vida. E Jesus Cristo é o protagonista e porta voz desse amor incondicional e libertador. Ele veio para renovar o que era velho. Veio para trazer o Novo. Ele é o próprio Novo, o que agrega, acolhe, liberta.

Algumas dissidências ditas cristãs, da atualidade, falam em nome apenas desse Deus carrasco, que pune mas, não falam de Jesus e de suas obras. Não fazem questão de, sequer mencionar que Jesus amaldiçoava os hipócritas, em especial aqueles que usavam das leias antigas para benefício próprio.

Hipocrisia é usar desse moralismo pseudorreligioso e político, ambos seletivos, quando convém. Não é sem motivos que muitas pessoas estão acordando, se libertando das garras dos empresários da fé e se soltando das amarras institucionais dos homens para, de fato, seguir a um propósito de amor, libertação, liberdade e paz. 



Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Convenção nos autos da praça V: hipocrisia social



A praça versus a hipocrisia social. É lógico, é óbvio, que se houvesse um real interesse de todas as partes, o salário dos políticos e a riqueza das igrejas ou a arrecadação do dízimo de um mês estancaria a fome. Mas as classes altas precisam da pobreza porque senão não conseguem se manter no topo. Isso é o óbvio da questão. É a pobreza que sustenta o topo da pirâmide. E a base da pirâmide tem que ser forte e pra ser forte tem que ter muitas cabeças pra sustentar. A base é uma sociedade à parte, independente e forte. Na verdade pra sobreviver ela não precisa da cúpula. A base da pirâmide é auto sustentável e não se dá conta da força que tem. Pra se dar conta dispenderia de muita organização e aí que a classe alta volta a ser influência dominante. Cedendo migalhas pra mínima sobrevivência sem dignidade da classe baixa. Só são mostradas as drogas que vêm de baixo, mas o que a classe alta dominante usufrui, compra, manipula, orquestra e vende e trafica não é mostrado. Usam as mazelas pra dizer que só la existe a corrupção e pobreza, mas jamais mostram a podridão que vem de cima. Hoje mesmo um carro parou e uma pessoa desceu para comprar droga com os habitantes da praça... O carro era de alto nível... (05/01/22)

domingo, 6 de novembro de 2022

Marginal social ou sociedade marginal



A hipocrisia acompanha a evolução da espécie desde os primórdios da existência
A briga, tanto quanto as guerras, sempre foi por poder 
A luta desarmada em prol do bem comum
Sempre perdeu espaço para as guerras desalmadas
O sacrifício oferecido em tempos sombrios
Sempre foi o dos inocentes e sem voz
Para se manter o poder é necessário abalar as bases da estrutura
Uma sociedade que não visa igualdade
Terá sua política voltada para manter suas classes bem separadas
Destruindo a educação, sentencia-se o futuro
Quem está no topo do poder sempre terá seus privilégios inabalados de geração em geração
Enquanto isso, na base, quando não se foca na educação
Ou quando se destrói o sistema educacional
As possibilidades de um futuro vão se anulando


A criança presa por fora
como marginal social
acusada e sentenciada por suas precárias condições
abandonada em si
refém por herança
busca sobrevivência
e encontra saída nas mazelas
no crime, nas drogas
porque são os únicos lugares que acolhem
e novamente se tornam reféns
o sistema, que recebe para cuidar
pouco se importa do lugar em que a criança está

Cuidar das crianças
Para que quando adultas
Possam passar valores e cuidar dos seus
Educação é base, é caminho e caminhada,
É a própria vida, é a própria jornada

Poema escrito para o trabalho da disciplina de Psicologia Social e Comunitária - 4º período de Psicologia - Unitri


"As crianças saudáveis não terão receio da vida se os seus idosos tiverem integridade suficiente para não recear a morte." - Erik Erikson 

"Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos" - Pitágoras

"Por meio da educação transformamos realidades, diminuímos diferenças sociais e criamos oportunidades para as nossas crianças!" - Marianna Moreno

"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." - John Dewey

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Alienação, hipocrisia, desrespeito: CHEGA!



Hoje, após compartilhar uma mensagem em diversos grupos que faço parte, falando sobre pessoas de opiniões políticas diferentes e que nem por isso sua índole e caráter são duvidosos, alguém postou em seguida, num determinado grupo, a imagem de uma "enxada" com os dizeres "Varinha mágica pra trazer cerveja e picanha". 

Refleti muito sobre a minha postagem antes de responder, se havia algo provocativo da minha parte, mas não. Foi uma mensagem encaminhada e de autor desconhecido. Segue: 
- "Aprendi que existem pessoas maravilhosas que votam no Bolsonaro e existem pessoas maravilhosas que votam no Lula. Há extremistas dos dois lados. A escolha por um desses candidatos não define o caráter de alguém. Ela é baseada nos conhecimentos e experiências de vida e sobretudo como cada indivíduo significou tudo isso. Isso não faz das pessoas melhores ou piores, são apenas pontos de vista e expectativas diferentes. No entanto, a forma grosseira de lidar, julgar e acusar o outro porque ele pensa diferente, supor que você é mais inteligente, vivido, esclarecido... enquanto o outro é alienado, ignorante, manipulado, isso sim diz MUITO sobre você! Cuidado com as projeções pessoais, elas tem mais a ver com a gente do que com o outro" (autor desconhecido).

Me senti não apenas no direito mas na obrigação de responder de forma clara, simples e sem perder a noção e limite do meu espaço. Minha resposta: 
- "Isso é lindooooo!!! Vejo com bons olhos e orgulhoso da minha origem. Meus pais e avós são da roça, da terra. Mas, teologicamente falando, sendo o crucificado alguém que veio das mazelas da pobreza, e teve ao seu lado todo o tipo de excluídos e pobres (ladrões, prostitutas) me sinto duas vezes abençoado."

Tentei refletir sobre essa imagem a partir de várias ópticas mas, em nenhuma eu consegui ver algo que não fosse pejorativo; foi apenas no sentido de debochar. E, debochar de quem é simples e usa de trabalho braçal e pesado para sobreviver, tal como pessoas que trabalham no campo, na lavoura, na roça soa estranho demais para quem se julga "do bem", "cristão" e "patriota". Me questiono se o que se passa em certas cabeças seria que "uma pessoa da classe dos trabalhadores braçais não poderia então tomar sua cerveja e comer uma carne melhor"? 

Sem muitos questionamentos, me apego em três pontos: a minha origem e ou minhas raízes; os trabalhadores braçais, em especial os que utilizam da enxada, defendendo a premissa de que todo trabalho é abençoado e digno; o olhar teológico que, numa simples passada de olho pelos diversos livros sagrados, em especial a Bíblia cristã, todos falam sobre amor ao próximo, falam em especial sobre os excluídos, as minorias rejeitadas pelo sistema, pelos doutores da lei, pelos homens do poder, pelos abastados que se encontram no topo da pirâmide. 

Sem trabalhar ninguém se mantém, ninguém sobrevive. A injustiça está em todo canto, em todo campo. Trabalho escravo ainda existe em pleno século 21. Meus avós não tinham boa escolaridade mas eram sábios em seus ensinamentos, lições e exemplos. A classe trabalhadora, operária, braçal, não pode ser resumida a isso. Enxada, foice, martelo são ferramentas e símbolos de quem trabalha de forma pesada, de sol a sol, em sua maioria com um salário de fome; têm suas mãos calejadas, rachadas, cheias de bolhas de sangue; suas peles são queimadas pelo sol e muitas pessoas aparentam mais idade que de fato tem. 

O dito "cidadão de bem" faz o bem para quem? O "patriota" usa seu patriotismo para defender qual tipo de valor? O "cristão" usa o "seu deus" pra acolher ou pra julgar e sentenciar? Usa sua religião pra libertar ou pra alienar? Usa sua oratória pra trazer amor e paz ou pra esbanjar ódio, intolerância, discriminação, guerra e morte? 

Seguindo os valores do evangelho cristão, prefiro estar com os loucos do que com os falsos; falsos esses que na expressão de Jesus eram os hipócritas do templo e da sociedade que batiam no peito mas era verdadeiros sepulcros caiados. Prefiro estar com os excluídos, os pobres, as putas, as LGBTQIA+ do que com a cristeirada hipócrita de armas na mão. A diferença entre os lados é que os bandidos da elite se vestem bem e são protegidos pelo sistema. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O sequestro de Deus


As ciências que discorrem sobre a fé. A fé que atesta a ciência. Assim deveria ser, mas não é. Há mais que uma disputa de devotos e torcidas entre os opostos e divergentes. A briga é por uma verdade que ninguém detém. Verdade empurrada, à força, que soa mais como necessidade de impor e mostrar poder. Ganância pelo próprio poder. O poder que proporciona status. E para se impor, com poder, é necessário causar medo. E o medo aliena. E quando se aliena, qualquer mazela dita como "verdade", mesmo que não o seja, acaba sendo única, seja ela religiosa ou científica. Uma verdadeira deturpação de valores. 

Quando a necessidade de mostrar poder e força estão acima do bem comum, há no contexto um grande sinal de desvio de finalidade e, nos porta-vozes da alienação, um medo maior de perder o controle, o poder, e todas as regalias que o mesmo proporciona. 


Falamos aqui não apenas do sequestro de Deus através da religião, da fé ou mesmo da teologia que tem "Deus" como objeto de estudo mas, de todo os deuses pré-fabricados por quem deveria usar o "poder" para libertar e não alienar. As ciências, as políticas e todo tipo de radicalização que produz cegueira coletiva, alienação, polarização, extremismos inconsequentes, fanatismo, os quais geram vítimas. O Deus das religiões, o deus das ciências e por mais que a política seja uma ciência ou, em sua mais resoluta e simples tradução como sendo a "arte do bem comum", também produz o seu deus e este talvez seja o mais perigoso de todos, pois consegue manipular tanto as mentes "religiosas" quanto "científicas.


A religião deveria ser aquela que liberta a mente, que cura a alma. A ciência deveria ser aquela que liberta o corpo, que cura a matéria. A política deveria ser aquela que cuida de todos, sem distinção. Mas cada força desse tripé é controlado por pessoas que deturpam o objetivo real, e promovem "verdades" conforme sua própria intenção, necessidade, proteção de seus asseclas e no fim, o que deveria ser para todos torna-se uma megaprodução para poucos e uma retaliação para os que divergirem. 


Deus foi sequestrado em nome do deus do poder. A ciência foi prejudicada em nome do deus do poder. A política há muito deixou de ser a arte do bem comum para ser fonte de autoritarismo de quem está no poder que, como tal, usa o mesmo poder para proteger os comparsas à sua volta. Uma guerra de interesses onde a tirania assume um papel de mocinho e salvador, aliciando para si os deuses do poder.


Deus mesmo, continua sendo esquecido, encarcerado, morrendo nas esquinas, nas favelas, marginalizado. Deus, sendo amor, está deturpado até mesmo nos altares dos vendilhões e "mestres da lei". Vendem por aí os milagres da fé tanto quanto os da ciência, mas o milagre do amor ao próximo, muito mais real e necessário, já não existe nem nas tábuas dos mandamentos desses senhorios. 



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Crítica: "Dahmer"



"Dahmer"... Respirar fundo é preciso...

Uma pausa para analisar a história recontada nessa série. É macabro, surreal, triste, carregado de angústia, dor, crueldade e ao mesmo tempo, com ausência de empatia, de sentimentos, de humanidade... Se é angustiante assistir, tento imaginar como deve ter sido a sobrevivência dos familiares das vítimas. Tento imaginar como cada uma delas passou suas últimas horas nas mãos de Jeffrey Dahmer. Porém, me abstenho de comentar o que já está bem explicitado em cada um dos 10 episódios da série da Netflix.

Em termos de estudo, para o aprendizado através das ciências que investigam comportamentos como o de Dahmer, vale a pena se atentar. Não dá para olhar com olhos clínicos somente sem se comover pelo lado humano. É um mix de sentimentos que envolvem ao telespectador. 

Da história em si guardo apenas o memorial de fotos das vítimas exposto no final do último episódio. 17 vidas ceifadas, carregadas de sonhos, desejos... Jovens que foram ludibriados por uma mente perturbada e ou maligna e a seguiram para um triste fim.

Atentei-me para um fato que foi contado nessa história e que, não sei se foi perceptível por outros olhares mas, o quanto algumas pessoas se sentiram envolvidas e atraídas por Dahmer após ele ter sido preso. A quantidade de cartas de pessoas que se declaravam como fãs e seguidores era enorme. A maldade também atrai adeptos, mesmo que seja uma maldade que esconde diversos transtornos. 

Transfiro agora para a atual realidade em que vivemos uma acirrada "briga" política. Pretendo ser objetivo em minhas colocações. O bem inspira o bem tanto quanto o mal conquista seguidores. Levando em consideração o tipo de discurso que ouvimos dos candidatos e seus seguidores é nítido entender quem prega paz e quem prega guerra, quem distribui valores e quem escancara manifestações de ódio. 

A exemplo de seus líderes, os seguidores tendem a extremizar aquilo que fica explícito nos discursos e nas ações. Até mesmo a forma de se referir ao adversário, de forma pejorativa e negativa, pode estimular de crianças a idosos. Como combater o bulling nas escolas se temos candidato que trata o outro com falta de respeito? Como combater a violência se o mesmo incita seus seguidores a "metralhar" os do adversário? Como lutar pelas minorias, pelas mulheres, se o mesmo faz piadas, desrespeita e passa um péssimo exemplo à sociedade?

Dahmer ficou conhecido como um serial killer que dopava suas vítimas, praticava alguns procedimentos considerados bárbaros e depois delas mortas praticava o canibalismo. Ainda assim, diante de tantas histórias de perversidade pelas quais suas vítimas passaram, encontrou fãs e seguidores que o idolatravam. 

Hoje, diante do que vemos e ouvimos através de uma análise de conjuntura na política nacional, bem como somos vistos por entidades internacionais de renome e até por líderes de outros países, podemos comparar que o mal, em suas mais diversas formas, atrai seguidores fiéis que estão dispostos a matar em nome de sua nefasta ideologia. 

Nessa era de explícita tecnologia, a desinformação é o carro chefe de quem joga sujo. A polarização chega ao ponto extremo de inventar mentiras para confundir quem não entende e ao mesmo ponto serve para escancarar o mal que habita no lado sombrio do humano mas que agora encontrou um porta-voz que dá liberdade e proteção para seus asseclas cometerem as mais diversas atrocidades. 

A diferença entre Dahmer e um certo candidato brasileiro é que o serial killer matou 17 pessoas enquanto que o "tal" pratica crimes de todas as formas possíveis, seja por ação, omissão, incentivo ao ódio que resulta em ataques contra opositores, acobertamento de seus comparsas, e uma ditadura velada, sem contar as ameaças às mais diversas instituições de poder. O crápula deixou um rastro de mortos, simplesmente por necessidade particular de boicotar as vacinas...


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Isolamento mental


O que já estava ruim ficou pior. Momento crítico que a humanidade vive. Não bastasse todo tipo de atrocidade natural já existente, ainda somos obrigados a aturar aquelas geradas no útero humano, ou em certos casos, no intestino que ocupou o lugar do cérebro. 

Exato! Tem muita gente que só diz e só faz merda! E continuam fazendo porque encontram público fiel que, não apenas é conivente com a situação, ficando em silêncio, mas apoia literalmente ações que vão contra a razão e a natureza humanas. 

Não tem como torcer para isso crescer e dar certo! Merda não cresce e não dá certo, apenas fede! 

Ainda me deparo, no dia a dia, com pessoas que criticam o passado político do país para justificar o apoio a este retardado eleito. Injustificável! 

E, em meio a essa pandemia, enquanto nos protegemos com procedimentos e cuidados, máscaras, álcool gel e isolamento social, percebo com maior clareza que muitos rostos sempre utilizaram máscaras para realizar aquele discurso com requintes de falsa moral na tentativa de justificar seus atos. Falsa moral que está enraizada em canteiros religiosos. 

Hoje, entendo que o maior isolamento que precisamos realizar é o mental. E isso se dá de forma curta, direta e, se necessária, grossa, principalmente. 

Blindar a nossa mente e colaborar com as pessoas que amamos, que estão à nossa volta, para que não entrem no transe dos retardados que dizem amém e acham graça diante das desgraças do idiota no poder e seus asseclas, é um grande passo. 

Não dá pra pra bancar o inocente e fingir que o problema não é meu. Não dá pra se fazer de ignorante e dizer que a culpa não é sua. Não dá, principalmente, pra tolerar quem é conivente. Conivente com retardado, retardado é! E ponto! 

Se você gostou, ótimo! Se não gostou, foda-se!!!

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Como posso me calar?

"Como posso me calar? Como posso me calar?
Como posso me calar? Como posso me calar?
Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos
Cansados com medo de amar
Meu grito, calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar"
(Música: Como posso me calar - Roberto Merli)

Quando um cenário como esse não faz mais diferença aos olhos de quem passa perto, com certeza a frieza do mundo já consumiu grande parte do humano que habita o corpo. Não faço aqui um chamado para caridades paliativas, do tipo esmola em forma de trocados que sobram na carteira, mas para o que a raça humana tem se tornado em nome do lucro, do status e do poder, tentáculos estes daquilo que chamamos de capitalismo. É certo e verdadeiro que pessoas que habitam em condições subumanas como essa, à margem da sociedade, precisam sim de apoio material, financeiro, bem como de cuidados com a saúde do corpo e da mente.

Algumas parcelas da sociedade, principalmente políticas e religiosas, necessitam de situações como essa para esbanjar seu marketing. Parar e resolver a situação é uma questão que raramente se vê e tampouco se sabe. Algumas pseudorreligiões consideram que tais pessoas são vítimas de sua própria falta de fé em Deus, ou seja, vivem à margem como um castigo divino. Utilizar deste subterfúgio é algo digno dos falsos profetas que utilizam do mercado da fé para enriquecerem seus cofres. 

Na política, segundo uma nova onda de pensamento ultra radical e conservador, que tem colocado em pauta que tudo é uma questão de meritocracia, as vítimas da pobreza e da miséria não se esforçaram o suficiente para romperem as barreiras sociais e o prêmio seria continuar vivendo no submundo e anonimato sociais, sendo tratados como lixo, escória, sem méritos e não abençoados...

A mentalidade humana está mudando, enrijecendo de tanta frieza e falta de empatia com o próximo. Nem digo falta de amor, porque isso já deixou de ter faz tempo. Respeito então, é algo que existe no dicionário de raríssimas pessoas. Não demora muito e os habitantes dessa morada, das fotos aqui apresentadas, serão expulsos daquele lugar. Bem ali, onde eles sobrevivem, seria a entrada de veículos de uma empresa já fechada. Sim, eles serão expulsos porque simplesmente estão poluindo uma pequena parte do cenário urbano e incomodando aqueles "cidadãos de bem" que passam por ali, de carro, na ida ou na volta de seus trabalhos ou passeios.

Ao ver e rever essas imagens o único pensamento foi de indignação e também de questionamento. Por isso, um trecho da música "Como posso me calar?" acompanha a primeira imagem e também é o título desse texto. Infelizmente essa é a única forma disponível no momento para que, primeiramente, eu jamais deixe de perceber e enxergar não apenas o cenário mas os protagonistas que ali sobrevivem e assim não me torne mais uma alma fria a vagar pelo mundo do ter. E por último, que outras pessoas também se deem conta que nem a política e nem a religião será capaz de mudar o mundo se seu coração não for capaz de ter pequenas atitudes como simplesmente enxergar e respeitar.




*Fotos: Escritos em Tempos - A.D.O.
Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta