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sábado, 21 de março de 2026

O processo



Outro dia ouvi a frase "só chega no topo quem vive o processo". Soa uma competição. Sim, isso mesmo uma competição em que só os mais fortes sobreviverão. O interessante é que a frase foi retirada de um vídeo exposto num grupo de trabalhos voluntários, com uma equipe de comando previamente formada para a boa condução do mesmo. Penso que destoa do objetivo ao qual fora criado.

Pergunto-me: é uma caminhada coletiva, de parcerias, em grupo ou é uma corrida para ver quem chega primeiro, ou ainda para disputar quem alcança esse topo? E que topo seria esse aos olhos de quem postou? Que processo é esse?

Em se tratando de grupo, eu fico com a certeza da travessia. Ah, a travessia é ritmada pela vida, pelos prazeres que a vida dispõe. Sim, pelas lutas também, porém existe aí um saborear por cada passo de uma caminhada, ou de uma escalada. O topo, o ápice, o pódio é apenas uma consequência de se ter vivido bem e aproveitado toda a natureza e atmosfera ao redor durante a travessia. Isso não significa caminhar a esmo. Quem se propõe a tecer o caminho já sabe bem onde quer estar.

Processo lembra empresa, que lembra hierarquia, que lembra poder... Travessia remete a parceria, coletividade, amizade, ideais em comum e horizontalidade entre os seus. Os cargos e funções numa empresa permitem a imposição de ideias da cadeia de comando de forma vertical. Já para a coletividade de um grupo de ideais afins, cargos e funções não agem pelo poder, mas pelo bem maior, pelo grupo.

Há quem se esconda nesse processo para garantir seus desejos pessoais acima do coletivo. Há quem simplesmente queira ser o coletivo, de forma transparente e democrática. Há quem se cegue pelos vieses ora idealizados de um sonho particular acima de qualquer objetivo comum do grupo. Há quem não se importe com o cargo, tampouco pelo poder que este pode lhe atribuir. 

E quem se apega ao poder para se impor, calar vozes de forma autoritária, punir a quem se expressa contrário, não tem desejo de coletividade, não pensa em caminhada grupal. Isso prova que há particularidades não declaradas que afloram diante daquilo que consideram afronta e ameaça ao seu legado. 

O que é vencer na vida? Tem uma moral capitalista nisso... Que tal parar de tentar só vencer, e passar a viver? Processo e topo são tópicos extremamente comentados no positivismo tóxico e também entre alguns coaching's. Prefiro a leveza sertaneja de Guimarães Rosa ao transformar processo em travessia e assim apreciar e degustar as paisagens de horizontes como uma possibilidade de alcançar o seu prazer no fim que lhe sustenta o sonho. 

As pessoas não estão prontas nem para o contraposto, nem para o contraditório, principalmente quando o resultado atinge o ego. 

Quem precisa se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

O sentimento que precede o final


Dia 17 de junho de 2025 foi a defesa do meu TCC com o tema "Solidão na Velhice". Foi um trabalho em grupo com 6 pessoas. E nos dias que antecederam a apresentação fiquei imaginando sobre o que esse tema significa para mim, como ele atravessa e, em especial, por toda a minha vida ao lado dos meus avôs e avós. Não apenas isso. Toda a minha infância, adolescência e juventude estive cercado de pais, tios, avôs dos amigos do coral. 

Falar sobre essa fase da vida traz mais que um gostinho de saudade que aperta o peito, traz lembranças de um tempo bem vivido, com tudo o que se tinha direito na época, em especial as amizades intensas e todos os familiares de cada um que compunha o nosso coral.

Lembro também dos cadernos com muitas perguntas que as meninas faziam e repassavam para todos os amigos e amigas responderem. Uma dessas perguntas era "O que você quer ser quando crescer?" Ao ler alguns livros de romance acabei me interessando pela psicologia. Parece que seria o caminho para entender e decifrar a complexidade da mente humana. Lembro também de muitos diálogos com a Jane e com a Riete sobre a psicologia.

Enfim, no pós pandemia, especificamente no início de janeiro de 2022 o Fábio me incentivou a começar a Psicanálise. Comprei alguns livros, fiz cursos, pesquisei e de repente conversei com a coordenadora do curso da psicologia da universidade em que estou. Minha irmã Cinthia foi outra incentivadora. Consegui uma bolsa parcial e encarei. Fato é que a formatura já é no final desse ano. 

Hoje, ao me reencontrar nessa travessia de sonhos, fé e lutas, consigo compreender um pouquinho mais do que sou, do que somos. Nós, somos a nossa história, somos o que pensamos, somos o que vivemos, somos o que construímos e o mais importante talvez, somos o que de fato levamos em nossa essência, o legado daqueles que nos precederam: pais, avos...

Queria dividir esse momento em especial com o grupo do Coral. Muitos amigos, pais, avos já não estão mais entre nós nesse mundo, mas seguem em nossos corações. Parte do que sou, vem desse tempo e por isso aqui estou dividindo um pouquinho desse momento com vocês. 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Só não fui amor pra mim




Eu não fui amado
Fui amor
As migalhas do tempo 
Deixadas do caminho
Sobrevivi entre a seca e a fome
Na devassidão da espera
De um tempo que nunca chega

Eu não fui amado
Fui amor
Sobre o tempo, sob o céu
Sobre a terra, entre as flores
Com muitos espinhos
Na seca do deserto, no frio gelado
No outono apagado

Eu não fui amado
Eu fui amor
Amor de espera, de esperança
Amor doce, suave feito criança
Sobrevivi ao caos
Das noites sem luz
Na expectativa de um olhar que seduz

Não fui amado
Fui amor
Amor sustentação, 
Amor pilar
Amor travessia, amor alegria
Amor sem fim
Só não fui amor pra mim

sexta-feira, 22 de março de 2024

O homem da praça



Ele caminha. Perambula numa solidão que mais parece estar fugindo de algo ou de alguém. Talvez, de um passado que o assombra no presente. Talvez, por isso um chapéu ou um boné puxado abaixo da linha dos olhos que não permite que ninguém o encare. Um olhar desconfiado, muitas vezes intimidador. Cara fechada, literalmente amarrada. Uma mochila nas costas, botas brancas de borracha nos pés, camiseta e bermuda surradas. Cabelo e barbas compridos, por fazer, mas cuidados. Aparentemente apenas um suor incrustrado na pele e na medida do seu possível, uma demonstração de auto cuidado ao lavar-se numa torneira da praça ou do posto de combustível mais próximo. Seu espaço, sua morada, é a praça. Mesmo ali, diante de outros que dividem o mesmo espaço-tempo percebe-se que não há proximidade com ninguém, nem mesmo um cão o segue. Um sujeito isolado em seu mundo. Nada se sabe. Curioso a falta de interatividade com outros ao seu redor. Ninguém se aproxima. Algumas vezes puxava um carrinho de recicláveis pelas ruas. Noutras carregava seus materiais em sacos pretos. Não foram poucos os dias que o presenciei correndo pelo gramado da praça. Novamente, só e solitário, demonstra não se importar com nada ou ninguém à sua volta, exceto sua continuidade entediante e necessária pela sobrevivência. Age feito um ex-combatente que deixou a guerra mas a guerra não o deixou. As marcas de sua corrida fixaram-se na grama formando um caminho circular, um loop eterno no horizonte da terra que se considera sua. Ali, preso em seu mundo é livre de tudo e todos. Liberto, talvez. Liberto em sua liberdade mas, por hora, quem sabe, preso em seus pensamentos, em suas batalhas já vividas. Um sobrevivente das guerras da vida e do mundo. Um foragido? Resiliente do tempo? Um prisioneiro a céu aberto, no campo de concentração de seus pensamentos. Os mesmos pensamentos que o permitem sobreviver ao caos das ruas, das praças. Se porte físico é consideravelmente forte e grande. Ele sabe como sobreviver bem, pois não aparenta desnutrição. E este é um sinal de que apesar da vida que leva, da forma como a leva, sua mente o mantém seguro, alerta. E toda vez que o vejo lembro-me de Viktor Frankl, pai da logoterapia, que em sua obra, "Em busca de sentido", descreveu como sobreviveu aos campos de concentração nazista. Manteve, de certa forma, sua mente blindada e sã. Quantas pessoas conhecemos que são capazes de viver sem deixar que o externo abale suas estruturas internas? Há algo a se aprender com elas. Por hora, sigo no imaginário, em cada vez que vejo o "homem da praça" em sua rotina, tentando perceber o que o torna são e forte numa sociedade egocêntrica que visa status, poder e fama. Há muito mais a aprender com o que não é dito do que com pronunciamentos carregados de alegorias e encrustados de hipocrisia. 

quinta-feira, 14 de março de 2024

Devaneios solo


O mundo me cansa
Estou cansado
Fadado a acumular dores alheias
E poeiras de outras tempestades
Meus desertos, minhas cartas, minhas travessias
Vivem um dessentido imediato
Meus ventos refrescam a face
E a dor que nas costas se acumula
De fardos que teimei não descarregar
E sobrepesam meu caminhar
Que já vagueia entre nuvens de razão
Mordaças de emoção
Entre esperanças sem sentido e miragens do coração
Lá fora o barulho dos motores
Como o estrondo da explosão de outras guerras
Me invocam para as inquietações
Vivo meu calabouço de silêncio
Sentenciando-me à solidão do tédio
Ou, da espera, que me aflige
Esperas, talvez, sem porquês
A corrida agora é de um tempo
Que se perdura no limiar da passagem
Dia e noite, noite e dia
Sombras e ventanias
Que perseguem, ora varrem
As miragens, os sonhos, as dores, os amores
E ficam marcas do que nem vi acontecer
Porque, talvez, deixei de viver...
Mas, quando olho para elas,
Tenho ciência de que estive em algumas lutas,
Batalhas, becos, estradas
Perigosas, tortuosas, ardilosas,
Trincheiras e abismos
Montanhas e desertos
Ferido ou matado
Entre luas e pensamentos
Sonhos e tormentos
Apostando contra o tempo
De que em algum momento
A dor será vencida
A vida será vivida
E o amor será amado

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Pobreza de espírito x Delírio de grandeza


Nem parece que recentemente estávamos enclausurados por um vírus que dissipou vidas em todos os cantos do mundo. Mesmo e ainda com a necessidade de doses extras de vacina, para a devida prevenção contra as mutações do coronavírus, a grande maioria das pessoas esqueceu-se da COVID-19. A palavra pandemia já não causa aquele impacto de medo e sensação de impotência quanto causou nas primeiras semanas, em meados do primeiro semestre de 2020. 

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) a pandemia foi decretada em 01 de março de 2020. Apesar de termos retomado às atividades normais de trabalho, lazer, sociais, etc, ainda existem surtos em vários países e regiões do mundo. Foi um tempo sem luz, e até sem perspectivas de superação diante dessa crise de ordem mundial. Mesmo depois de tantos avanços tecnológicos, de tantas potências da ciência empenhadas no desenvolvimento de um antídoto que nos imunizasse, isso não amenizou nossos sofrimentos, medos e angústias. Centenas de pessoas morreram diariamente. 

Além de tudo, ainda precisamos enfrentar obstáculos de ordem política que pareciam se opor à ciência, contra a vacina, contra a cura, contra as vidas humanas... Uma verdadeira inversão de valores em que os eleitos pelo povo para cuidar e proteger o povo, na verdade eram os ceifadores, uma verdadeira máquina de morte contra o povo. Parecia que esse sistema de política excludente estava a favor do vírus e das mortes. Contra fatos não há argumentos. 

Mas, não é esse o objetivo desse texto, apesar de sempre precisarmos refrescar a memória de quem ainda continua cegado por suas ideologias partidárias. Mergulhemos um pouco mais fundo no cerne da reflexão. Considerei importante buscar fatos relevantes de nossa recente história para então aprofundar nas questões da essência.

Voltamos às correrias da vida. Retomamos o controle das situações cotidianas. Vivemos na intensidade das aparências como se não houvessem amanhãs. Enfim, rotinas viciantes em busca do mais, do ter, do conquistar, do adquirir, do consumo sem precedentes. "Vida para consumo", "Modernidade Líquida", "Tempos Líquidos", "Amor Líquido", todas obras de Zygmunt Bauman, descrevem atentamente sobre o consumismo exacerbado que potencializa a sensação de poder em detrimento do ser. E quem precisa do "ser", numa sociedade de memória curta que ostenta as aparências do "ter"? Máscaras?! Só as de maquiagem, ou da hipocrisia, ou da ignorância, ou da inocência ou da conivência. 

Li e ouvi muitas frases conscientes que "sairíamos melhores, evoluídos, com os princípios renovados", após essa pandemia. Isso até pode ter acontecido com uma minoria. A grande massa retomou sua rotina com sede de fazer em dobro tudo aquilo que deixou durante as quarentenas da pandemia. 

Não. Infelizmente, a geração que sobreviveu à pandemia não conseguiu superar a si mesma. O poder de consumo está ainda mais entranhado na sociedade, e nós, os famosos seres pensantes e dito evoluídos, de tão consumistas parecemos vampiros sedentos por sangue. Literalmente sangue humano. O "ter" consegue classificar e definir uma diferenciação entre os humanos. Trabalhamos para ter, e quando temos, precisamos ter ainda mais. Um looping frenético e eterno. Um ciclo inquebrável nas cadeias sociais. Essa espécie precisa reaprender a ser humana. 

A pobreza de espírito se resume naquilo que de fato falta em essência no ser de cada um. O delírio de grandeza é aquilo que sobra exageradamente do resultado das cegas ações em busca de ganho, poder e consumo. O ganho, o poder e o consumo tornou-se premissa religiosamente sagrada para quem precisa de alguma forma romper e vencer. Romper o que? Vencer a quem? Buscamos um algoz, um adversário, um inimigo para justificar nossas lutas, labutas, disputas e condutas. Líderes religiosos, gurus, e a nova onda do coching-ismo (que mistura de tudo um pouco) é o que alavanca o mercado dos milagres imediatos, em especial nas redes sociais. E quando as pessoas tentam aplicar essa idealização coaching-ista, a frustração é também imediata.

Bom, foi uma obra literária, "Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Marquez, que clareou a inspiração para o título desse escrito. Por sinal, obra maravilhosa. Márcia Tiburi, em 2019, nos apresenta uma de suas obras, "Delírio do Poder", que muito tem a ver com o exposto aqui. Uma correlação de duas obras a ser explorada noutra oportunidade.

O que de fato me conduziu para esse assunto foi a observação das pessoas ao redor e perceber o quanto suas rotinas malucas consomem seu tempo e as deixam ansiosas, estressadas e até doentes. Isso, aparentemente, sempre acontece ao final de um período, ou de um ciclo, ou ainda de um dia de intensa correria. Quando chegam em seus lares é como se todo aquele status midiático fosse apagado e ficasse impregnado em suas entranhas apenas o efeito colateral, o cansaço, o esgotamento e visivelmente o mau humor, ora demonstrado sem ressalvas aos que convivem no mesmo espaço. A busca constante e desenfreada sempre deixa uma sensação de vazio, por mais que as metas sejam alcançadas. O sistema, o mercado, a sociedade, o mundo respira e vive isso. Raras são as exceções, que não se limitam a essas regras.

Aqui estão apenas algumas constatações. Se aprofundarmos em pesquisas e diálogos, perceberemos que o iceberg é imenso. De tudo, a finitude da matéria corporal e da vida em si não interessa e não preocupa a ninguém. Estamos, enquanto seres ditos humanos, preocupados com o imediatismo. A pressa não é por uma vida profundamente vivida. A urgência é para estar na crista da onda, no ápice do mercado, no topo do status midiático, ser influencer na vida de um desconhecido seguidor virtual, e ponto. Aparências. Aparências visuais. Aparências em palavras. Aparências em maquiagens. Verdadeiras máscaras maquiadas que os gurus do mercado contemporâneo ensinam como ser diferente num mundo de desigualdades. 

Eles, os gurus, só não mostram sua rotina imperfeita, sua vida de fato. Isso não atrairia os fieis consumistas de seus produtos. É necessário se portar como se tudo fosse uma perfeição de aparências. O mercado exige isso. Quem não consegue acompanhar, não é apto nem digno para tal corrida. E nesse mercado, só é notado quem está em evidência de aparência. Há muito tempo, o conteúdo, a essência, o ser em si deixou de ser notado. Esse status, que também é de poder, segrega em todas as camadas sociais. 

Sem mais delongas para as máscaras maquiadas, ou biblicamente falando, os sepulcros caiados, as aparências portentosas do universo ao qual fazemos parte... Todos necessitamos consumir, ter, produzir, ganhar, sim. Hipocrisia dizer o contrário. A questão é quando isso se torna uma espécie de religião e o que há de mais sagrado acaba ficando à margem da única travessia que não há retorno, nem atalho, nem pausa: a vida. Que o que nos resta dessa travessia, possa ser experimentada de uma forma ainda não vivida nem encontrada em nós mesmos. 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Brevitudes e Brevidades: um novo tempo

 


Sobre a brevitude do tempo, sobre a brevidade da vida, sobre , em especial o que não deu certo. Porque é a partir da experiência do que não deu certo, que construímos nossa base, solidificamos nossas estruturas e nos fortalecemos para a vida. As experiências positivas são sempre colocadas num quadro e mostradas, muitas vezes feito troféu. Já, o que não deu certo, e que precisou ser ressignificado fica no calabouço do nosso íntimo e, vez ou outra, abrimos a porta desse quartinho secreto e revisitamos o passado como quem vê um álbum de fotografias, passando por algumas fotos de maneira rápida e noutras se deleitando, nostalgiando, sentindo a emoção, a dor, a saudade, e o que de fato causou sofrimento. Afinal é um quarto de despejo do nosso íntimo e que vez ou outra requer uma visita, uma limpeza e um esvaziamento. Alguns fardos precisam ser jogados para fora.

Último dia do ano, e lógico que paramos para repensar em alguns passos dados, outros que poderiam ser evitados. Fazemos isso sempre, mas parece que nessa data, final de ano, esse processo é mais intenso e a reflexão alcança um passado mais distante. Somos seres que carrega marcas, histórias, cicatrizes, etc.

Fato é que, fazendo nossa auto análise, sempre nos cobramos mais e mais. Poxa! Poderia ter feito assim ou assado, poderia ter virado à esquerda ao invés da direita, poderia ter parado, respirado e retornado até o ponto inicial e quem sabe recomeçar de forma mais tranquila. Muitas vezes focamos tanto na chegada ao topo da montanha que esquecemos de apreciar a paisagem ao seu redor, em cada volta. Como disse Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, "A vida se dá é no meio da travessia".  Entre começos, recomeços, partidas e chegadas, é que tudo acontece. De que vale focar tanto no futuro se o presente está passando despercebido, sem vida e sem a devida atenção?

De fato qual o sentido de tudo isso? Qual o sentido em acordar, seguir as rotinas, dia após dia, nos relacionar, objetivar ganhos, lucros e conquistas, se tudo acaba sendo tão passageiro? Voltemos à frase de Guimarães Rosa: a vida se dá... E aproveito para uma frase que ouvi de um grande sábio da vida: "nessa vida, nesse mundo, somos uns pelos outros." Pode até soar como demagogia, e pode ser se assim você sentir. Mas, ao contrário, para mim tem um valor grandioso, pois quem me disse não foi nenhum filósofo renomado, nenhum doutor certificado, foi um simples carpinteiro que me socorreu quando um cano de água estourou. Sendo vizinho, ele não quis me cobrar pelo serviço, fora de hora e em dia de domingo. Mesmo forçando colocar um valor no bolso de sua camisa ele apenas me disse essa frase que, com muito carinho, levo para a vida. Esse é o sentido de tudo.

E é a partir das relações que criamos ao longo dos dias, dos anos e do tempo que aprendemos o valor das coisas simples, como o de uma boa amizade regada de grandes risadas, ou mesmo uma companhia para os momentos de silêncio e solidão. Aprendi muito esse ano, descobri novas aptidões, fiz novas amizades, desfiz algumas que considerei desnecessárias, uma vez a relação é como um barco de dois remos, é impossível navegar pelo mar da vida remando sozinho. Você gira em torno de si mesmo.

Faculdade e academia estão no topo da minha lista de grandes realizações. Considero como essenciais para o meu dia a dia. Estar no ambiente acadêmico é tão prazeroso quanto estar na academia malhando. Conhecemos pessoas, construímos relações, nos identificamos com os gostos alheios, nos afastamos quando não há empatia e, está tudo certo. Existem convergências e divergências e, novamente, está tudo certo. Gostos são gostos, e cada um tem o seu, bem como preferências de pensamentos, de comida, de time, etc. E ainda bem que existem as diferenças na forma de pensar e de ser, pois imagina um mundo inteiro apenas na cor cinza! Que caótico seria! Para além das divergências necessárias, o respeito é tudo. Respeitar o gosto alheio, o espaço e as opções é o que nos move para uma travessia mais completa, serena e em paz.

Se for olhar para o saldo, o meu em particular, penso que foi mais baixo do que alto, mas considerando as relações construídas durante a travessia de 2023, sinto que fui grandemente abençoado. E nesse último dia do ano, deixo aqui os meus sinceros votos de felicidades, paz, sabedoria e amor. Obrigado pelos momentos vividos, pelas palavras deixadas ao longo dos dias, pela presença, pela companhia, pela empatia ou simplesmente pelo "bom dia".

Obrigado amigxs da Performance!
Obrigado amigxs da Psicologia!
Obrigado amigxs das Tardes Leves!
Obrigado amigxs da Vida!
Obrigado meus filhos, sobrinhos, família!

Que venha 2024!

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Resenha: Léo e Croods 2

Vejo a correlação entre assuntos, ou entre abordagens, ou entre ciências como uma verdadeira arte, seja para que se validem diante de suas convergências ou discorram nos contrapostos em suas divergências. Tudo pode se tonar um lixo ou um luxo, um descarte ou uma arte. E isso vai depender única e exclusivamente do olhar despojado de estereótipos mas enriquecido de sensibilidade. É coisa de alma que movimenta a carne.

Sem mergulhar nos detalhes das cenas de ambos os desenhos, deixo isso para quem ainda não assistiu de maneira intensa e que o faça sem ressalvas de ser feliz, tal qual a expectativa de uma criança, me proponho a focar apenas nas mensagens que tocaram de forma simples e profunda. Rubem Alves sempre traz a importância de enxergar o mundo pelo olhar inocente das crianças, que criam seus próprios mundos imaginários, de fantasias e são livres e felizes para realizarem seus maiores sonhos ali em suas brincadeiras. Que assim seja para todas e todos que se permitirem a percorrer esses desenhos.

Croods 2 é extremamente divertido e ressalta sempre, na maioria das cenas, a importância da união, da reciprocidade, do cuidado com os que amamos, e em especial sobre o estar não apenas sempre juntos mas unidos sempre. Para além dessa mensagem, algumas situações de relações entre pessoas e povos diferentes, preconceitos e até discriminação perpassam pela trama animada. Quando a ganância prejudica a natureza, tudo entra em desequilíbrio, o que só é restaurado diante da ajuda mútua, da cumplicidade, do respeito, da amizade e do amor. 

Leo é um lagarto quase octogenário que vive numa espécie de aquário sem água, ao lado de seu amigo tartaruga que também se encontra na terceira idade. Eles são parte integral de uma escola infantil e atualmente estão na sala da turma do quinto ano. Outros pequenos animais ficam em outras salas. Na necessidade da atual professora ser substituída, devido à sua gravidez avançada, uma outra professora, autoritária, com pedagogia arcaica e pouca paciência, assume a turma. Em dado momento, a professora substituta faz com que cada aluno leve um dos animais para sua casa no final de semana. Até então a relação criança e bichos era simplesmente natural. O lagarto foi o primeiro a ser escolhido e levado e é aí que começa toda a trama de fato. A interação do bichinho com as crianças se dá de forma didática, educativa e ele acaba sendo uma espécie de psicólogo para com cada um, inclusive com a própria professora substituta. 

A arte da correlação vem agora, no sentido de me permitir enxergar o quanto é importante e saudável cultivar boas relações que nos permite crescer, evoluir e voar, se preciso. Bons alicerces nos dão segurança para voos cada vez maiores, mais altos. Tudo o que não serve para nos libertar, corre o risco de nos oprimir. E é com essa leveza do olhar da criança que devemos sempre questionar os passos que deveremos dar, bem como nossas escolhas. Nada melhor do que a pureza e a sinceridade infantil para nos ajudar a nortear nosso caminho e nossa existência, para que não seja em vão. Permita-se viver! Permita-se à alegria de viver! Permita-se...

Um dedo de prosa, um cheiro de rosa



Um dedo de prosa
Uma dose de café
Companhia para um silêncio sem destino
Uma gota de água da chuva que cai
Na inocente pétala, no deserto, da rosa 
Que não esconde seus espinhos no pé
Ora indecente, atrai com seu cheiro traquino
A companhia de um olhar que ao seu encontro vai

Rosas e prosas, espinhos ou carinhos
Nem melhor, nem pior
Nem futuro, nem passado
Nem de longe, nem ausente
Na solidão, um abraço pelo caminho
Pra reconectar o que há de melhor
E deixar os excessivos fardos de lado
E agarrar a alma de quem se faz presente

Sem luto pelo que morreu sem ter vivido
Do que plantou ausência não resta nem pó
Eu luto, a batalha, no aqui e no agora
Vivo a esperança no olhar que cativa
Não me importa mais o elo perdido
Nem quantas léguas eu andei só
Não me importa quantas guerras eu vivi lá fora
O que importa é quem está comigo na trincheira da vida

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Costuras, tempo e psicologias

Fonte: https://patchworkdasideias.blogspot.com/2011/08/patchwork-de-ideias.html

Chegamos aqui no acaso de uma travessia
Destinos de vidas forjadas na dor, na alegria
Protagonistas das lutas de nossas histórias
Presenças, ausências e sonhos em nossas memórias

Nascemos, crescemos, vivemos mas, nunca a sós
As dores do mundo não poupam a nenhum de nós
Recortes do tempo vivido se tornam retratos
Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Costuras são laços que a vida nos deu de presente 
Sentimentos de cores, tamanhos, formas diferentes
Lá fora perdura o que aqui se viveu de verdade
Assim escrevemos as linhas da nossa amizade

A vida tem ciclos, janelas, portas e passagens
Sentidos, perdidos, vividos com luta e coragem
Daqui ficarão as lembranças, nossas alegrias
Teatros, provas, relações: psicologias 

Aqui nesse mundo que só cultiva aparências
Mais caro e mais raro é quem mostra sua essência
Estamos aqui porque existe um sentido de fato
Somos uns pelos outros, cuidando e sendo cuidado

Enfim, não importa dinheiro, nem crença e origem
Mais certo que o certo é a morte, não escolhe roupagem
A terra é a mesma pra todos que a deitarão
Vivamos a vida, e que a morte não seja em vão

Direitos humanos pra humanos repletos de dor
Com pouco se faz quando a alma carrega o amor
Na luta dos que não tem voz somos resistência,
Esperança e mudança, uma chama de sobrevivência

Nascemos, crescemos, vivemos mas, nunca a sós
As dores do mundo não poupam a nenhum de nós
Recortes do tempo vivido se tornam retratos
Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos





quinta-feira, 13 de abril de 2023

Sobre Leituras & Escritos



Somos o ser que mais demora para crescer e se adaptar à vida. Demoramos para ter autonomia e destreza de movimentos enquanto que a maioria dos seres vivos já nascem com um instinto de sobrevivência quase que totalmente pronto. Animais desenvolvidos podem adquirir hábitos diferenciados mas ainda assim não conseguem superar a inteligência humana. 

Nós, humanos, somos seres em construção. Podemos atingir um grau de maturidade, independência, conquistar títulos, alcançar objetivos, produzir, superar metas, etc, mas tem algo que sempre nos motiva a um próximo passo, uma próxima caminhada, mais uma travessia, e em cada passo, a cada nova etapa ou meta, sempre aprendemos mais. E como disse Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas: "A vida se dá é no meio da travessia". 

Travessia... E o que isso significa para nós hoje? Digo por mim em especial que, aprendi no decorrer da vida, o objetivo ou a meta maior não é simplesmente conquistar o primeiro lugar do pódium, ou simplesmente chegar no topo da montanha, vai muito além de conquistas e recompensas. Parece clichê se você olhar superficialmente e não sentir nem vivenciar isso ou não se permitir fazer essa experiência. Depois de um pódium, já visualizamos novas metas. 

No meio da travessia é que está a experiência, a possibilidade das descobertas e o crescimento individual e único. O caminho, que tem um início e um fim, tem algo a mais que quase ninguém percebe: a travessia. No meio da travessia encontramos paisagens, obstáculos, fazemos descobertas, aprendemos a nos virar frente aos imprevistos. Pensemos numa festa. Tem toda uma preparação. Se focarmos apenas na festa, o evento em si, perderemos a possibilidade de contemplar os detalhes. E grande parte da riqueza se encontra nos detalhes. São os detalhes de uma pessoa que nos causa encantamento e abre espaço para a paixão. São os detalhes de um texto que nos chamam a atenção. São detalhes da vida que nos motivam, nos marcam e se eternizam em nossos corações.

Nós, seres humanos temos o diferencial de sonhar! Sonhos nos motivam. Sonhos nos possibilitam ir além. E após cada meta batida, obstáculo superado, sempre "sonhamos" com um próximo passo. Como já mencionei, somos seres em construção. Sonhar faz parte desse processo e/ou projeto.

Leitura faz parte do nosso processo de amadurecimento, crescimento. Quando gostamos da leitura é sinal que o autor conseguiu nos conectar em sua história. Sua mensagem nos atingiu de modo que, por vezes, fazemos questão de partilhar nossa experiência com outras pessoas. Muitas vezes nos perguntamos: "Como pode essa pessoa desenvolver um livro tão bom assim?"

Ler é libertação, é possibilidade de novos horizontes, conhecimentos. E todo conhecimento, muitas vezes é romper-se de certas amarras, sejam elas sociais, religiosas, políticas e até mesmo familiares. Melanie Klein pensou e partilhou algo magnífico: "Quem come do fruto do conhecimento sempre é expulso de algum paraíso." 

Existem inúmeros filmes que retratam histórias verídicas de pessoas que buscavam ler escondidas, uma vez que o sistema (religioso e político principalmente) as proibia. Mulheres eram as mais afetadas. Em alguns países da atualidade isso ainda ocorre.

Ler e escrever. 

Cartas da prisão - solilóquios

Cartas da guerra
(20/08/22)

Rascunhos incompletos II - eternidades


Todos são eternos mas somente um te acompanhará pela eternidade.


A melhor parte de saber as regras é encontrar a forma certa de quebrá-las (Anne)


Não é o corpo... É o combustível que me impulsionou a agir... 
Suor, lágrimas e sangue
Batimentos que arrebentam o peito


Para além da eternidade
é o sentimento que alimenta a esperança
de te reencontrar



Ponto cego, em que perdi o rumo e encontrei você...


Companheiros de almas perdidas, 
tantas histórias
tantas partidas
outras vidas





sexta-feira, 24 de março de 2023

Travessia PJ



Entrei no que a gente chamava de comunidade, primeiramente no grupo de canto da Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Comunidade da Vila Cantizani, em Piraju, São Paulo. Eu tinha uns 9 anos de idade e esse grupo de canto era formado por adultos, jovens, adolescentes e crianças. Nesse período comecei a tocar violão nas missas. Os grupos de jovens ainda eram constituídos por muitas pessoas, chegando a somar mais de 100. Lembro da transição feita de grupão para grupos menores, os grupos de base. Quando acabou o Crisma, fui para o grupo de adolescentes. Os roteiros de reuniões ainda eram diversificados, em sua maioria nada dinâmicos. De forma inocentemente engessada, as reuniões eram basicamente estudos em que só o coordenador lia algo, comentava e depois abria para discussões, o que quase nem sempre havia participação. Eu tinha 14 anos. 

A partir de 1996/97, com 20 anos respectivamente, conheci de fato a Pastoral da Juventude, sua estrutura, espiritualidade e modos de ação. Sua história de lutas me encantou. Foi uma história de amor e libertação que se perpetua nos meus dias de travessia. Dentro do ambiente católico também conheci outras linhas de ação de movimentos de massa mas, foi a PJ, sua caminhada de sonho-fé-luta que constituiu toda a minha base de pessoa, cristão, ser humano, de forma especial.

Antes mesmo de conhecer a PJ eu já buscava por algo diferente do convencional, não queria mais do mesmo. E sem saber eu já ansiava por esse "novo" que tivesse uma práxis libertadora. Na época, ainda adolescente e instigado por inquietudes inexplicáveis e questionamentos que me gritavam internamente sobre a estrutura engessada de todo tipo de sistema, eu já era PJoteiro. Era uma questão de tempo para que esse encontro acontecesse. 

1998 foi o ano em que o mergulho nas águas da PJ foi realmente profundo, transformador, libertador e gratificante. O meu marco referencial foi o Curso de Inverno na cidade de Araçatuba (SP), desse mesmo ano. 1998 a 2000 foi um triênio de uma travessia ímpar. Após me afastar literalmente dos trabalhos pastorais da Comunidade devido a questões familiares, em meados de 95 até 1996, meu retorno se deu com um convite para trabalhar com grupo de adolescentes. Fiquei pensativo por alguns dias antes de dar a resposta oficial mas, em meu coração, já havia um SIM. Eu só precisava mentalizar e fortalecer como que trabalharia e me dedicaria nesse projeto com os adolescentes.

Foi uma entrega maravilhosa, com muito amor e dedicação. O resultado foi o crescimento de um grupo de adolescentes repleto de sonhos, alegria contagiante, inquietos, questionadores e com um senso-crítico para lá de aguçado. Era o grupo ABC. Em um ano, esse grupo se tornou uma espécie de referência e havia muita procura de adolescentes de outras comunidades para fazer parte do ABC. Reabrimos o grupo mas foi necessário dividir. Vieram mais de 30 novos integrantes e formamos um "grupão", o que inviabilizava os trabalhos e a dinâmica de um grupo de base. Formamos então o segundo grupo, que ficou conhecido como grupo Águia.

De coordenador de 2 grupos de adolescentes, fui convidado a coordenar a PJ da minha comunidade que contava com 3 grupos de adolescentes e 3 grupos de jovens. Era o ano de 1999. No mesmo ano, assumi provisoriamente a coordenação da PJ Paroquial de Piraju e representava a Paróquia nas Coordenação Diocesana de Ourinhos (SP). Sendo a Diocese de Ourinhos ainda nova, e Piraju nomeada como uma das cidades "região", fiz o trabalho de conectar com as outras cidades que faziam parte da região Piraju. Através de cartas, telefonemas e visitas de carro (com dinheiro do próprio bolso), conseguimos contatar os representantes de cada cidade. 

Na Coordenação Diocesana fiquei como representante da Diocese para as assembleias do Sub-regional. Infelizmente não pude dar continuidade nessa caminhada, não da forma como gostaria. Com minha mudança para a capital paulista no ano de 2000, por conta de uma oportunidade profissional, precisei interromper esse projeto.

Em São Paulo, consegui contato com o querido amigo Pe. Raymundo Aristides, e participei de alguns encontros da Escola Bíblica que ele liderava na época. Foi uma experiência maravilhosa. 

Hoje, sou pai de dois meninos, Felipe e Joaquim, que são a minha razão de viver. Moro em Uberlândia (MG) desde 2009. Já participei do grupo de canto da comunidade Imaculada Conceição e até iniciei o projeto de um grupo de jovens no formato da PJ. Fiquei como coordenador durante 6 meses e depois passei a coordenação. Formado em Administração (1998), Teologia (2018) e atualmente cursando o 5º período de Psicologia, sinto cada vez mais que a educação, o estudo em si, é um dos meios mais potentes para contribuir para si e para o mundo no sentido de construir pontes, quebrar paradigmas, e libertar para a vida plena que cada ser humano tem direito e merece. Afinal, "estamos nesse mundo uns pelos outros", esse é o verdadeiro sentido dessa nossa travessia. E a PJ, até hoje reverbera aqui dentro questionamentos que me fazem parar, refletir e agir, com senso crítico, justiça e amor. 

PJ não foi um mero caminho. Muito menos ficou perdida no passado. Ela é, continua sendo, caminho, caminhada e travessia. Eternamente travessia.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Papo de irmãos: "despojar-se de si"



Véspera de Natal de 2022. E como de costume, tradição, eu e meu compadre Fábio, falávamos ao telefone. Nossa comunicação é constante e é como aquele livro gostoso de se ler ou aquela série que nos prende, não importa se paramos alguns dias de ler ou assistir, quando nos conectamos não existe hiato temporal em nossa amizade. Vale ressaltar que somos compadres por duas vezes, fui seu padrinho de casamento e ele padrinho do meu primogênito Felipe. Entre brincadeiras, zoeiras, palavrões vulgarmente carinhosos de amigos e felicitações, caímos em mais um papo sagrado, mas dessa vez sobre O Sagrado. Como parceiros, amigos, companheiros e irmãos pela vida, outras vidas, noutras épocas pelo tempo dessa estrada, nos reservamos o direito de falar aquilo que percebemos faltando ou sobrando no outro. Sempre achamos o meio certo de expor a nossa percepção, esta que se insurge em nosso íntimo em forma de um cuidado especial. Sempre descobrimos um sentido diferenciado que as vezes só percebemos ao longo dos dias. 

E como irmãos, presente da vida para a vida, o ato de preocupar com o outro nos dá as condições necessárias de chamar a atenção quando necessário pois, elogiar quem a gente gosta é fácil mas, ter coragem de puxar a responsabilidade de cuidar do outro é para poucos. Cuidar implica também ser contra, questionar, chacoalhar no sentido de alertar os prós e contras da inércia em que nos encontramos, seja um engessamento no lugar, seja um movimento desenfreado, ambos com riscos iminentes. 

Entre papos e frases aleatórias que trocávamos, eis que surge um questionamento do meu amigo sobre a minha espiritualidade, o contato direto com o Sagrado sem adentrar o quesito religião, ou seja, religiosidade sem denominação religiosa. A abordagem direta de sua parte foi sobre minha crença em Deus e a possibilidade de dar-me o direito de ausentar-me do mundo e conectar-me com o Sagrado, sem envolvimento com trabalhos, apenas eu e o Divino. 

Suas dúvidas em relação ao meu pensamento sobre tal assunto eram palpáveis, explodiam em seu olhar e se manifestavam em palavras ditas com muito cuidado, carinho e sentimento. Adentrar num terreno desses, um terreno amigo porém alheio, em que se mexe no íntimo do outro, não é pra qualquer um. Mas, nossa amizade tem uma potência que ultrapassa barreiras e isso não abala as estruturas. Ele tinha a necessidade de saber como estava minha vida longe do contato com o Sagrado, que a seu ver, necessita de uma intimidade maior e a sós com o Divino, longe do mundo. Expliquei-lhe que tenho uma conexão com o Sagrado mas de outra forma, na figura de cada próximo que cruza meu caminho e isso está longe das paredes de qualquer instituição religiosa. 

Mas, com toda sensibilidade e respeito, ele me contou de sua experiência e isso foi concreto para mim, Trouxe-me um alento de esperança para uma reconexão com a Vida, o Divino, o Sagrado, Deus. Ele ainda falou algo que, com certeza, poucos entenderão: "precisamos nos reconectar com aquele Deus da Cantizani". Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, na vila Cantizani, Piraju-SP, foi o local onde demos nossos primeiros passos dentro da igreja Católica. Missas, catequese, grupo de canto, grupo de adolescentes, grupo de jovens, retiros, encontros, coordenações, teatros, vigílias, serenatas, trabalhos diversos, enfim, muita experiência que é a nossa base para os dias atuais. Entendi então o convite através de sua experiência: resgatar o "eu", ainda certamente inocente para a vida, mas com ânsia de viver, que não se afastava do Sagrado, das raízes, do alicerce... Não podemos esquecer os passos dados dentro da travessia de nossa história.

O que ele me contava era mais que uma história ou experiência, mas um convite a viver algo íntimo, de reconexão com o Sagrado, em que possamos ser apenas o "EU e DEUS", sem pretensões extras em qualquer tipo de envolvimento dentro da comunidade religiosa. E claro que, dentro de nosso momento de pura transcendência num simples diálogo de amigos, percorremos por várias direções do pensamento mas a linha mestra que norteou esse tempo que nos demos um ao outro, foi no intuito mais puro desse meu irmão dividir algo que ele já sabia, poderia ser grandioso para mim também tanto quanto tem sido pra ele. 

O caminho que ele fez para chegar no lugar de onde fala precisou sim se desconectar do mundo, dos afazeres, das atribuições e cargos que ocupa para ser simplesmente ele, aquele menino crescido na Cantizani, com uma fé enraizada na simplicidade e, assim, se reconstruir a partir de experiências da base, do alicerce e do presente. A palavra que, por unanimidade, marcou esse bate papo foi "despojo". Despojar-se de si para adentrar o solo sagrado da pura intimidade e privacidade com Deus. "Ali eu sou apenas o Fábio, da Cantizani, sem pretensões a não ser o de agradecer, rezar, pedir junto a Deus e Nossa Senhora Aparecida", disse meu amigo. 

Apesar de estar sempre me conectando com o Sagrado, Deus, através da intimidade com o próximo que cruza meu caminho, que ao meu ver é um ato concreto de manifestação do Divino, senti na experiência retratada no olhar e no tom de sua voz, do meu querido compadre, algo mais que especial que iam além das palavras. E foi esse sentimento, o do "despojar-se de si", que me fez refletir sobre o meu momento atual e, a partir daí, dessa nossa conversa, senti a necessidade de me permitir experimentar, sem amarras e sem ambições, uma nova forma de viver a experiência do despojo de si para encontrar o Sagrado que habita em mim. 

Papo de irmãos: pra sempre. 








segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Carta para minha irmã - Parte 1 do infinito



Eu não sei o que dizer
Porque nunca aprendi a dizer adeus
Cultivar a proximidade é o que eu aprendi a fazer
Não significa não saber cortar o cordão
Está além disso
Eu não seria eu se não te apoiasse
Mas também não seria eu pra deixar de te dizer "não vá"
Meu coração bate assim, pulsando pra que você não vá
Para que vocês não vão
Porque metade da minha vida aqui é vocês
Meus sobrinhos... 
Ainda não assimilei
Ver vocês crescendo e conquistando as coisas aqui
É motivo de muita satisfação e orgulho
Sabe que isso é de coração
Porque eu sempre te quis o melhor
E sou orgulhoso de você e por vocês
O meu lugar de fala sempre se manterá assim
No cuidar de perto
E cuidar, na maioria das vezes, é só estar perto
Mesmo sem precisar falar, nem ouvir, nem ver
Apenas saber que está ali
Penso que nunca quis sair do lugar, do meu lugar
Não queria sair de Piraju, mas me vi obrigado
Foi necessário
Tive meus arrependimentos
Mas tenho também meus motivos pra sorrir diante da escolha
Hoje é só o começo de uma longa jornada até a partida
Ou melhor, até a despedida...
"A vida se dá é no meio da travessia"
Nunca se esqueça disso
O melhor da vida não é apenas a festa, a conquista, o topo...
Toda a vivência e experiência adquirida nessa travessia
Faz parte, e temos que aproveitar ao máximo
Eu sempre estarei aqui
Eu apenas não sei o que dizer...
Minha eterna "Companheira"

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

ALUVIVARES



"O caminho se faz" (Hilário Dick). 
"A vida se dá é no meio da travessia" (Guimarães Rosa). 
"No meio do caminho havia uma pedra" (Carlos Drummond de Andrade).

Pensando e atentando para os acontecimentos aqui no grupo cheguei à conclusão de que o fracasso foi meu, e também foi nosso. Desde ontem a noite fiquei refletindo sobre a situação. Depois de uma auto-culpa (coletiva também), fiquei feliz com os desfechos. Algumas coisas que acontecem servem como alerta. Diante da nossa escolha pela "psicologia", ou também (e por quê não?), da psicologia por nós, pois acredito que há um chamado, uma conexão, algo maior que nos motivou para esse caminho, o simples fato de uma divergência entre as opiniões alheias não nos revela imaturidade. Mas a forma com que vamos lidar com isso vai dizer muito sobre cada um e sobre o nosso amadurecimento em grupo.

Eu, Ailton, desde os primeiros dias de aula, ainda online, fui me atentando para as pessoas que se destacavam nas participações de forma ímpar e não por mero "aparecimento". Diante dos trabalhos foi-se afunilando a empatia por quem se posicionava de forma comprometida. Tive a oportunidade de estar em outro grupo, mas quis já estar com vocês aqui não apenas para os próximos trabalhos mas também para os períodos seguintes, justamente pelas características do comprometimento, responsabilidade, seriedade e claro empatia e amizade. Afinal, estamos engatinhando enquanto estudantes e chegaremos ao final do curso bem amadurecidos e com uma amizade fortalecida. Eu espero e acredito nisso!

Que bom que somos diferentes! Que bom que as divergências aparecem! E que ótimo que conseguimos nos sensibilizar com o outro e refletir sobre nós mesmos! Novamente, esse é o grupo que gostaria de caminhar para além do último período. Considero aqui nossa primeira experiência de psicologia "clínica". Sinto que aqui, nem sempre a minha opinião será a melhor opção para o grupo, outras melhores surgirão, e eu vou ter que aceitar. Perder alguém do grupo, traz o sentimento de um fracasso "meu". Claro, já tivemos desistência do grupo justamente por falta de "comprometimento", mas não é o caso da situação atual. 

Bom, é aqui, na travessia, que a gente vai aprendendo, fortalecendo, amadurecendo e nos tornando pessoas melhores. Afinal, psicologia exige muito mais do que mero profissionalismo, é necessário respeito, amor-cuidado, empatia, silêncio e voz diante das adversidades, etc... Só sei que estamos juntos e unidos também.

Para meus queridxs psico-amigxs ALUVIVARES®:
Karol
Lu
Renata
Samara
Vanessa
Victor

09/05/22



sábado, 9 de abril de 2022

Antessalas

O medo cresce enquanto a hora marcada se aproxima. Imagino que essa seria a nossa sensação se soubéssemos o dia exato de nossa travessia final. O ambiente de espera aparenta não deixar o ponteiro do relógio girar. Não estou só. Ao meu lado está minha irmã. No meu coração, meus filhos, sentimentos, saudades, esperança. E, por mais que seja um simples procedimento, segundo a própria medicina, o medo de não voltar para as pessoas que amo é grande. A vida é boa, apesar dos obstáculos e contratempos. Meu nome é chamado por um senhor, o maqueiro. Sou conduzido para um quarto para me preparar. Banho, roupão de hospital e maca. Um atraso de mais de hora possibilitou-me um cochilo e isso de certa forma me tranquilizou. Minha irmã sempre junto. Novamente sou chamado. Dessa vez era chegada a minha vez. Deitado na maca sou conduzido por corredores até chegar numa antessala. Nesse momento me despeço da minha irmã. Um aperto por estar só. O pensamento sempre conectado pelo amor e pela saudade. O maqueiro abre uma fresta de uma porta de vidro à minha frente e fecha outra porta atrás de mim. Acima dessa porta tem um crucifixo. Sinal de fé, esperança, proteção, algo que não se explica, apenas se sente. Imagino quantas pessoas passaram por essa porta. Quantas puderam retornar para suas vidas. Quantas partiram (...). Ambiente frio e silencioso. Fixo meus olhos no crucifixo. O momento me permite uma reconexão: amor e saudade, vontade de viver, de lutar, reencontrar. Peço, diante desse silêncio, para que tudo ocorra bem. Penso fortemente em meus filhos, no amor (...). Enfermeiras passam por mim. Cruzam de uma porta à outra e me cumprimentam. Todas atenciosas. O local necessita disso, de atenção, de cuidado, de empatia, de força, necessita mais do que excelentes profissionais, mas de pessoas extremamente humanas. Enfim chega a pessoa que vai me conduzir até o centro cirúrgico. A enfermeira pega uma prancheta que está aos meus pés na maca, pergunta meu nome e verifica meus dados. Tudo certo. Ela abre a porta de vidro e enfim sou conduzido para o meu destino, o centro cirúrgico. Luzes fortes, extrema claridade, muitos aparelhos e acessórios, cinco enfermeiras, anestesista, cirurgião e assistente. Cenário perfeito de um filme. A anestesista fala comigo. Novamente verifica meus dados. Ela recebe um aviso de que em breve a minha cirurgia começará. Então, me prepara para a anestesia, a geral. Muita movimentação. O cirurgião brinca para relaxar. Tudo se volta e se resume nesse tempo: fragmentos intensos da vida e da memória. A saudade aperta. O medo de uma partida iminente incomoda. Medo de partir sem despedir (...). Um esforço interno para encontrar um pouco de tranquilidade por fora. Penso em meus avós (...). Não me sinto só. O clima está muito frio e eu recebo um cobertor. "Braços ao longo", foi essa a expressão usada pela enfermeira, conforme o pedido do médico. A anestesista termina o preparo de uma dose que será injetada em minha veia. Uma enfermeira coloca agulha na veia da mão. O líquido injetado dói. A anestesista coloca uma máscara em meu rosto e pede pra eu respirar profundamente. O cheiro é forte, remete a um éter. Começo a ficar sonolento. Reclamo da dor em minha mão. Minha voz fica fraca, minhas pernas adormecem. Um adormecimento estranho vai tomando conta do meu corpo. Sou orientado a focar na respiração e a fechar os olhos. Meu esforço ainda consciente para manter-me acordado é em vão. Não resisto... Não consigo... Não dá... Tudo escurece enquanto perco meus sentidos. Segundo o tempo do relógio, foram quase três horas apagado, sem noção da realidade, da vida, nada. Um sono profundo e silencioso. Acordo com uma voz me chamando. Estou de volta. A vida continua e a luta também. 


quinta-feira, 31 de março de 2022

Saudades e Esperas no Tempo



Meu corpo se prepara todo

A espera, em qualquer momento

Que o desejo sai do sonho

E se torna realidade quando meus olhos se abrem

O tempo incerto se aproxima

A qualquer momento desse tempo de espera

O ponteiro se segura ao meu olhar

E minhas mãos gelam

Meu corpo treme entre aquecimentos, arrepios, frios

Meu estômago parece sofrer de brisas geladas

Meu organismo biológico se descompassa

E treme, e geme... gemidos

Que entoam tonalidades de cores e melodia de sabores

O descompasso se acerta numa dança de abraço

Que acalora meu ser

Acelera e desacelera até encontrar o ponto ideal

Um superaquecimento que se esvai

Num toque, num cheiro, num beijo

A porteira fechada é o sinal de que o mundo é nosso,

Só nosso

Eu e você, numa batalha de calor e amor

Uma luta agarrada de olhares penetrantes

Uma dança de almas entrelaçadas

Melodias desvairadas ao som da nossa voz

Entre a terra e o céu, eu e você

Entre o ar e o mar, você e eu

Uma travessia perfeita

Que não deveria se findar no tempo do aqui e agora

Caminhos de sentimentos num curto espaço de tempo

Que se eterniza na vida e se entranha nos corpos

Estabelecendo a conexão perfeita 

E a certeza de que esse encontro era escrito

Desde toda a existência

Entre a dança do olhar, 

Num calor sobre-humano de peles que se misturam,

As variações do prazer

Que alcançam sua mais pura plenitude

Ressignificando nosso compromisso único

O de amar incondicionalmente

É tudo o que precisamos 

Para superar o tempo de espera de um próximo momento

O tempo da realidade se finda

Enquanto o tempo do amor se concretiza, 

Se multiplica em saudades e esperas