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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Um dedo de prosa, um cheiro de rosa



Um dedo de prosa
Uma dose de café
Companhia para um silêncio sem destino
Uma gota de água da chuva que cai
Na inocente pétala, no deserto, da rosa 
Que não esconde seus espinhos no pé
Ora indecente, atrai com seu cheiro traquino
A companhia de um olhar que ao seu encontro vai

Rosas e prosas, espinhos ou carinhos
Nem melhor, nem pior
Nem futuro, nem passado
Nem de longe, nem ausente
Na solidão, um abraço pelo caminho
Pra reconectar o que há de melhor
E deixar os excessivos fardos de lado
E agarrar a alma de quem se faz presente

Sem luto pelo que morreu sem ter vivido
Do que plantou ausência não resta nem pó
Eu luto, a batalha, no aqui e no agora
Vivo a esperança no olhar que cativa
Não me importa mais o elo perdido
Nem quantas léguas eu andei só
Não me importa quantas guerras eu vivi lá fora
O que importa é quem está comigo na trincheira da vida

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Os demônios do pós-guerra


Um momento de pós-guerra. Essa é a sensação que mistura esperança e medo. Esperança de que tudo possa melhorar e medo de que as variações pandêmicas possam ressurgir e causar nova devassidão. Pois sim, fomos devastados, dizimados e derrotados em certo momento. Já estivemos no caos. As ruínas que ficaram não são herança de explosões causadas pela pólvora e tecnologias de guerra. São sentimentos de impotência frente a tantas vidas ceifadas. Tempos trancafiados em nosso próprio reduto, convivendo com todos os nossos demônios interiores, sem ter como fugir do ambiente para ao menos respirar um ar fresco, causou danos e trouxe à tona fragilidades e novos demônios. Não bastasse, em muitos ambientes o espaço era divido com outras pessoas, as quais também expunham seus próprios conflitos. Muitos não se abalaram, não sofreram, mantiveram seu status e nem sequer se compadeceram pelas vidas alheias. Retrato de um momento proporcionado por desumanos desalmados que detêm o poder para si. Políticos, religiosos, líderes sem empatia, que em seu cargo e posição a que foram destinados, utilizam tal poder em benefício próprio. Impossível permanecer igual. Impossível sair desse campo de batalha do jeito ao qual entramos. O pós-guerra deixa consequências, além de feridas incuráveis e cicatrizes eternas. Você até pode deixar o campo de batalha e a guerra em si, mas eles jamais sairão de você. É preciso reaprender a conviver com o caos, as perdas, as dores, as ruínas e a morte. É preciso reaprender a viver e isso é urgente. Pois, uma vez que isso não acontecer, estará fadado a continuar uma guerra solo dentro de você. A solidão a dois, a quatro ou mais pessoas, vivenciada no pico da guerra pandêmica foi uma experiência necessária pela sobrevivência e contenção de danos. Uma prisão com portas e janelas trancadas por dentro. Todos têm acesso mas ninguém pode sair. Não se deve sair. Fobias, transtornos e doenças várias que surgiram e ou cresceram junto com o medo e a incerteza. Abraçar nunca foi tão necessário e urgente. Máscaras externas para se proteger de um inimigo letal se contrapunham com as máscaras maquiadas de hipocrisia que os poderosos, oportunistas e medíocres deixaram cair propositalmente. Os demônios do pós-guerra ainda vivem, mesmo que silenciados em algum canto do nosso campo caótico. E, muitas vezes, para continuar a jornada será necessário retornar às ruínas da batalha e refazer o percurso. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Entre desertos e trincheiras

 

Entre um deserto e uma trincheira a vida se tece
Durante meus desertos carreguei o peso do meu próprio mundo
Com minhas livres decisões e também com aquilo que me foi imposto
Em minhas trincheiras reencontrei quem já partiu
E aqueles que merecem toda confiança e amizade
Lágrimas e suor limparam qualquer vestígio de dor
Aquilo que chamam de derrota eu trato como lição e aprendizado
Tombo e lona não são vergonhosos
Vergonha e desonra é para quem foi desleal
Estes, sempre serão lembrados por seus atos covardes...

Entre um deserto e uma trincheira, o pensamento e a luta
Minhas manhãs de deserto, sem brilho e sem sol
Solidão a sós, em nós, nas lutas desarmadas, desalmadas
Trincheiras da vida, da lida, da labuta
Poeira nos olhos, calor, dor, presença
Há quem nunca ouse acreditar
Há quem nunca queira sonhar
Mas há quem só quer lhe roubar
A esperança, o sonho e a vida
Sua própria travessia... 

Entre meus desertos e minhas trincheiras...
Ah, quanto medo derrotado, quanta dor perdoada
Entre meus mundos, eternas lições
Entre meus devaneios, anjos e demônios
Entre o sonho e a realidade, fantasmas e esperanças
É assim, é a lida, é a vida... meu saber, meu querer, meus sonhos
Ninguém rouba, ninguém tira, ninguém mira
Só quem tem a chave e conhece o desejo, o segredo
É capaz de decifrar, sentir, pulsar,
Tanta ternura, loucura, amor... 

Entre vitórias e derrotas, a vida e a morte
Há quem sabe um tanto de suor e um dedo de sorte
Mas poucos conhecem a dureza das batalhas
Foco na intensidade das pegadas, e me afasto das migalhas
Maquiagens não me distraem, imagens não me atraem
Em meu rumo e meu foco só cabem essência
Lado a lado, de mãos dadas, pés descalços
Descarto a frieza da mórbida aparência
Enterro vivo os corpos desalmados
E assim cicatrizo meus próprios machucados...

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O futuro num passado presente



"O ano é 2020.

O caos tornou-se uma realidade. A ditadura já havia ganhado a cabeça das pessoas. As eleições nem mesmo tinham acabado e a onda de violência já era noticiada. O presidente eleito até tentou conter os ânimos durante o primeiro mês. Só que a situação saiu de controle. Os apoiadores da ditadura sentiam-se não apenas no direito mas no dever de caçar e punir qualquer opositor que se manifestasse. Esse ainda era o ano de 2019.

Medo e insegurança nos olhares das pessoas. Sair de casa era um risco de não voltar mais. Grupos radicais faziam rondas por todas as ruas e bairros de cada cidade. Isso quando a própria polícia era quem reprimia descontroladamente a qualquer suspeito. Subversão e oposição ao sistema já era um crime.

Num dia de domingo fui abordado por policiais e automaticamente acusado de subversão. Minha família foi liberada para voltar pra casa, sem nada dizer, sem ter a quem recorrer. Nesse momento, o Estado era o dono da minha vida. O castigo era inevitável. Queriam, a todo custo, e por todos os meios, que eu assumisse uma culpa que não era devida. O meu silêncio custou caro, muita dor, muito sofrimento... e um fim iminente.

A pena de morte foi instituída nos primeiros meses do novo governo. Não precisava mais de um crime para ser penalizado e mandado para o abate. Bastava apenas pensar diferente... Esse foi o meu caso. Não deixei de escrever os pensamentos que iam de encontro ao sistema opressor. Não apenas eu, mas uma leva de companheiros e companheiras, tivemos o mesmo destino...

2019 foi considerado como o ano da caça as bruxas. Uma inquisição moderna que tinha alguns tentáculos religiosos unindo forças ao Estado. A minha sentença já era certa. Seria em praça pública, porém não mais numa fogueira, como na era medieval. Um tiro, por um soldado, ou por um lunático seguidor do governo que se habilitasse. Acredito que, no meu caso, haviam muitos interessados em apertar o gatilho, inclusive amigos e parentes.

Eu tinha direito a um último telefonema e desejei falar com o meu pai. Preferi que ninguém da minha família estivesse presente, mas fiz questão de me despedir e dizer que ele também foi iludido. Não tinha mágoa e por tanto não precisava perdoá-lo de nada, mas a dor que ele carregaria seria apenas dele... 'Adeus, Pai'. E meu corpo tombou numa praça em frente a uma capela."

PS.: Foi apenas um pesadelo, mas não estamos longe disso acontecer com pessoas que amamos.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Entre o caminho e o fim


Sentado na poltrona numa sala de espera com ar condicionado e tendo ainda ao dispor água, café e pão de queijo, aguardava o atendente me liberar. Minutos antes eu havia chegado nessa loja especializada em pneus automotivos e serviços em geral com um veículo para devidos reparos num dos pneus. De tiracolo carreguei um dos diversos livros em processo de leitura. Hoje foi a vez de "Origem" do famoso autor Dan Brown. 

Entre uma página e outra, servia-me das regalias disponíveis, poltrona confortável, ambiente fresquinho, uma boa leitura, cafezinho e pão de queijo. Como a impaciência me acompanha quando é necessário uma determinada espera, várias vezes levantei-me e fui até o saguão onde o veículo se encontrava. O jeito era avançar com a leitura uma vez que ainda não estava pronto.

Água e café eu já sabia que eram disponíveis aos clientes, mas o pão de queijo só me dei conta quando vi uma moça comendo satisfatoriamente. Realmente estava gostoso. 

Passaram-se mais alguns minutos do tempo e umas folhas da "Origem" quando notei dois meninos que aparentavam 10 e 14 anos no máximo adentrarem aquela sala. O mais velho ofereceu verduras que estaria vendendo. Eu apenas agradeci e talvez tenha sido o único a responder. Foram direto para o bebedouro e novamente o mais velho pediu permissão para tomar um pouco daquela água. Não ouvi resposta da atendente, mas acredito que ela tenha consentido apenas com um gesto. O mais novo aproveitou e se serviu de um cafezinho. 

O que mais me chamou a atenção foi quando percebi que ambos estavam com fome. Não demoraram muito ali mas o suficiente para comer o máximo de pão de queijo possível. O mais novo, sem pestanejar colocou alguns no bolso de sua calça. Quando ele se virou para sair fingi que nada vi para não constrangê-lo. 

São vários pontos para se pensar. Ninguém está nem aí para o que o outro está passando. Somos uma sociedade hipócrita. Pelo jeito os meninos são frequentadores dessa loja, ou melhor, do que ela oferece aos seus clientes. A desculpa da água sempre cola e talvez os funcionários e a gerente façam vistas grossas como uma forma de ajudá-los a saciar sua sede e fome. Crianças que trabalham no tempo em que deveriam estar na escola. Muitos julgam que quem não se esforça não consegue vencer na vida. Como vencer a fome e a miséria do dia a dia? 

Não vi tristeza em seus olhares. Entraram conversando e assim saíram, sem algazarra. Pareciam irmãos, tamanha sua intimidade e cumplicidade nos tratos um com o outro. Cenas assim me fazem repensar não apenas na importância de viver bem e com intensidade mas, principalmente, em não desperdiçar o tempo com coisas medíocres. Não acredito que estejamos aqui de passagem, existe um objetivo maior, mas nunca entenderemos o sentido da vida se não nos lançarmos nessa travessia. A felicidade não é um fim, ela é o próprio caminho.

terça-feira, 27 de março de 2018

Apocalipse: caos sem calmaria


A desordem necessária que se instaura na escuridão da consciência maldita

Que produz efeitos contraditórios em pomposos discursos falaciosos

O caos imposto pela tirania egoísta e gananciosa do corrupto poder

Que viciosamente desfavorece as mazelas milenares dessa era

Informações manipuladas de inverdades e propagadas sob os holofotes do púlpito

O altar que já celebrara a morte e a vida agora vislumbra um palco de egos

Castelos de fé que se erguem às custas da miséria humana

Leis que sentenciam o maldito e miserável e absolvem os donos do poder

Falsos sacerdotes que discordam da paz que lhes tira a vaidade

Mundo sem caos que se afunda em sangue sem glória

Calmaria maldita que percorre em veias sistêmicas da cegueira sem razão

Ei Deus, cadê os dinossauros?


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guerra dos Mundos IX: cortaram as luzes


"O braço que detém o poder não é apenas
 forte mas é rápido, impiedoso e age
 em benefício dos que o manipulam. 
Sempre foi e sempre será assim..."

Um fato obscuro chamou minha atenção. Na rodovia de acesso ao bairro em que moro, recentemente palco de grandes queimadas arquitetadas pelos responsáveis da manutenção, cortaram as luzes de alguns postes. Num raio de aproximadamente 200 metros até a entrada principal não há iluminação pública, diga-se de passagem, aquela que pagamos mensalmente.

O motivo? Não há nenhum indício de uma pane em apenas 10 ou 12 postes, justamente naquela área que, por coincidência, é um trecho onde ocorrem alguns incêndios premeditados. Parece até teoria da conspiração mas não é. Dá para se ter uma conclusão melhor sobre o episódio.

Existe ali na entrada do bairro, num terreno grande, umas dez famílias assentadas. Creio que, entre eles mesmos, já simularam uma demarcação e cada uma ocupou sua parte. Aparenta que o terreno pode ser do Governo, mas se fosse não haveria o porquê de uma significativa empreitada contra os posseiros.

O mais provável é que existe um dono daquele espaço, que antes era apenas um terreno baldio e que já serviu de lixão. Se não há como bater de frente com os atuais ocupantes da área, o que restou foi articular para que eles não tivessem uma boa estadia em seus pseudos terrenos. Sendo assim, o passo mais favorável foi cortar a energia.

Antes do repentino apagão das luzes dos postes da rodovia, que ficam próximos a entrada do bairro, os barracos tinham iluminação. Agora, sem energia, vão ter que improvisar e resistir aos próximos contratempos do destino. Quem engenhou tais eventos, com toda certeza, se não for dono do terreno, está incomodado com a paisagem formada de barracos e seus habitantes.

Bairro Tocantins - Uberlândia - MG

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Guerra dos Mundos - Parte VIII - O autêntico vs O maquiavélico


Dois homens. Um mundo. O primeiro detinha o poder do mando. O segundo, o talento na alma. Ambos, ocupavam o espaço da arte de ensinar. O que os distinguiam, além do talento e do sentimento pelo o que faziam, era a verdade que expunham.

Tão tarde observei que aquele que tinha também o ofício de ser chefe naquele reduto, possuidor de um sorriso sempre aberto em sua expressão facial, gentio, atencioso, cativante, era também o falso.

O segundo, além de todo o conhecimento que possuía somado com o talento no que fazia, era antes de qualquer coisa, sincero. De poucas palavras porém, dava-se apenas ao trabalho de cumprir com honras a missão a qual fora designado.

O talento autêntico não durou muito. Sua missão foi curta mas a cumpriu com inigualável destreza, deixando sementes vivas na alma de quem acolheu. A partida imediata deu-se por motivos torpes. Sentimento vivo e totalmente enraizado em seu mundo, não conseguiu a diplomacia necessária para ser tolerante com os críticos sem conhecimento.

Esta talentosa persona era um risco iminente ao legado do maquiavélico que não desperdiçou a oportunidade para livrar-se de seu colega algoz. Foi-se um mestre mas suas palavras ainda perduram. E na contrapartida desse joguete o giro do mundo encarregou-se de mover as peças contra o falsete. Sua dispensa não demorou a chegar. Permaneceu mais tempo que o necessário, uma vez que seu conteúdo era pequeno, desconexo e medíocre. Profissionalismo, diga-se de passagem, nunca houve. As portas fecharam-se ao falastrão que mantinha sempre a falsa política moral como seu cartão de visita. 

Na Guerra do Mundos há no mínimo dois lados, duas vertentes, e muitas condutas. Nem sempre a melhor aparência é a que mais tem a oferecer. Desta vez, aquele que politizava a seu favor não teve significado suficiente para garantir sua continuidade institucional... No giro do mundo, ele também rodou.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Escrever-se


Existem três tópicos neste blog que perpetuarão nas minhas escritas. Sei que surgiram a partir de uma determinada situação vivenciada, presenciada e pensada. Cada texto de cada um dos tópicos tem sua particularidade e se torna parte independente dentro do bloco que os adjetiva. Máscaras Maquiadas e Guerra dos Mundos são constituídos de histórias que não se relacionam entre si e Cartas (do calabouço e para o calabouço) é uma troca de correspondências que cabe ao leitor posicionar-se de um lado, de outro ou ainda como expectador somente.

Não é meu feitio explicar o que cada escrito me representa e nem o que eu quis dizer com determinada citação. Óbvio que a escrita tem muito de seu criador, assim como acontece na pintura, na música e em outras artes. E quem entra em contato com a obra, por vezes, consegue uma terceira visão que mesmo quem pensou não conseguiu enxergar. Esse é um elo que coloca autor e leitor em sintonia. Essa é a magia que dispensa explicações. Basta ter sentimentos.

Máscaras Maquiadas surgiu a partir de um cartaz que anunciava um estrondoso evento para o público adolescente e jovem. Um palhaço com ar satânico dava a dimensão do que poderia acontecer no recinto durante os três dias de pura adrenalina e prazer. Era uma festa rave. Pra quem não conhece, sugiro uma rápida busca no google. Já escrevi cinco textos que entram nessa linhagem onde os principais ingredientes que inspiraram a criação foram falsidade, heresia, hipocrisia e ironia.

Guerra dos Mundos surgiu a partir de um contexto pessoal. As perguntas e respostas que só cabem a nós mesmos fazer e responder foram o combustível inicial. Ao total somam-se sete textos que colocam em confronto mundos opostos, seja no campo social, espiritual, material ou metafísico. São histórias que surgem a partir de um contexto de luta, inquietude e esperança.

Por último surgiram as Cartas - do calabouço e para o calabouço, que entre as trocas de confidências foram oito momentos. Essas porém são subjetivas e não cabe explicação mais detalhada. Posso adiantar que é um diálogo rico em experiências e novamente caberá aos olhos de quem ousar sentir.

Esses três blocos estão sempre presentes no cotidiano. Passamos por situações parecidas com o que está descrito mas não pensamos nisso. O que me propus foi apenas escrever de acordo com o sentido que me fez atentar para o fato. E quem escreve, escreve-se, liberta-se, aventura-se e irrompe de si mesmo. Portanto, como já dito acima, em cada linha, em cada verso, o sentimento corre solto.

Na coluna da direita deste blog encontram-se os três tópicos na Classificação. Arrisque-se!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Guerra dos Mundos - Parte VII - "Eiros & Ismos"


No reino da terra de um dia 
Onde me pus a viver a minha utopia
E pude sentir o gosto do sonho na realizada profecia
Vi de quase um tudo o que não se mais via
Religuei-me ao Sagrado
Refutei o meu passado
E me despi a caminhar
Sobre o chão deste lugar
Era um povo que elevava seu mago
Mais que Aquele que já fora condenado
Ele era um líder de cortejos
Que gostava de belas túnicas
E andava por sob as pompas
Mas um dia suas belas alegorias
Chamaram a atenção de uma moça
E assim sua fala sempre regralista
Sucumbira diante dos olhares que o trairia
As regras burlou e com ela se deitou
Protagonizando o obscuro desejo
Por sob o véu da assembleia
Que assim preferia, fazer de conta que não via
E mantinham a tradição acima de qualquer cristão

O tempo passou no reino da terra de um dia
E um líder carismático então assumiria
O posto pelo ex-dirigente deixado
Este, era de tal forma empenhado
Doutor conhecido e estudado
Que a assembleia, ouvir sua fala adorava
Ainda mais porque do lado estava
Dos devoteiros que a tudo veneravam
Dias de santos e santos, pra tudo só rezavam
Mas um dia o tal mago 
Já solitário e já cansado
Haveria de esculhambar com as regras
E pra curar a tentação do sertão
Já que não poderia se deitar por aí
Pra que não houvesse maior desgraça
Se embrenhou nos rumos da cachaça
E assim, este também partiu
E a assembleia sem eira nem beira
Preferiu manter a tradição acima de qualquer cristão

E o tempo nem passou direito na terra de um dia
E o co-assessor do mago cachaceiro
Na tramoia das noitadas de sair haveria
Já estava avisado que seu castelo cairia
Este então, mais tranquilo e modernão
Não se importava com muita coisa
Mas era de tal carteirinha um bom raparigueiro
E o povo tão tapado de hipocrisia
Vendavam os olhos para tantas façanhices
E cultuavam cada dia mais os santos
Que da escola do santo doutor
Esqueceram que o santo também é pecador
E o povo se sucumbia na fé
Já que nem mãos nem pés
Firmavam naquela terra de tantos "eiros"
Onde os "ismo" maquiavam os passageiros

Chegou então um homem sensato
E bem logo de imediato já se avisou
Eu sou chato e gosto das coisas às claras
Nada de papos atravessados e descompensados
Conversa tem de ser nos olhos, cara a cara
Mas o povo não digeriu
A santa hipocrisia que a tudo e santo se rezava
De ser chamada a atenção não gostava
Quando em seus exageros o devocionismo imperava
Seus santos doutores
Que os assembleeiros idolatravam
Podiam andar no errado em seus santos pecados
Mas desde que não atrapalhassem a cultuação
De todo santo de plantão
Que as lideranças traziam à mão
Este homem tão simples e centrado
Que não gostava de condenação
Teve um grande amparo em seu legado
Quando lá da cúpula um homem deixou seu reinado
E um grande e simples centrado
Abriu as janelas da alma
E limpou a poeira da hipócrita inquisição

No reino da terra de um dia
Já vi doutorzinho metido em estrepolia
Vi bebunzinho renovado em cachaçaria
E raparigueiro desdenhado em putaria

Mas,
Vi também um homem de bem 
Fazendo o melhor não importasse a quem
Sem se importar com as regras
Nem com os fiscais da santa inquisição
Que perduram no ócio de plantão
E no raiar de cada dia
Faz do seu legado uma fé viva 
Requentada de tantas flores e poesia
Com canções que nos arremetem a utopia
E ao abrir as janelas dos pilares
Permitiu ali adentrar
Um novo ar pra renovar
Os corações de quem os olhos abriu
Este mestre se vai um dia eu sei
Mas nem rio nem homem
Jamais serão os mesmos...



domingo, 26 de outubro de 2014

Guerra dos Mundos - Parte VI - A lei e a justiça



Um mundo de poderes surreais. Seres em realidades distintas. Privilégios para privilegiados que nascem nos berços da realeza. Surdez, mudez e cegueira forçadamente impostas para quem faz parte da estatística do lado onde berço e chão se misturam.

Um fora da lei a serviço da justiça nasce nas trincheiras de uma guerra entre o poder elitizado e a luta pela sobrevivência. Fruto do amor entre uma burguesa e um operário, num reino onde as classes são verdadeiras arqui-inimigas, o filho renegado da elite cresce protegido e às escondidas da corte. Mesmo tendo sangue nobre nas veias ainda assim é repudiado pelos seus. Sua mãe renuncia a todo o tipo de riqueza e poder para viver o que considera digno: o amor, a família.

Como uma profecia o pensamento filosófico de um exímio atento às realidades socialmente distintas refletia que "a maior luta de toda humanidade era a luta entre classes sociais". Não importa a época, não importa o tempo, essa guerra obscura sempre existiu e está fadada à continuidade das futuras gerações. A luta pela igualdade nasce como um sonho regado de esperança e vontade de justiça. Com o tempo transforma-se em utopia e posteriormente acomoda-se, adormece e é enterrada num espaço pequeno do pensamento e da alma. O sistema, quando não corrompe o ideal, sufoca e por vezes vence o sangue dos justos. 

Há quem nasça e simplesmente morra mas há quem viva e viva intensamente. O fora da lei, como um predestinado à libertação dos desfavorecidos, é um desses vitoriosos que não se intimidou com a força opressora do sistema. Não recuou e não se corrompeu. Motivo suficiente que, com certeza, causou a ira dos deuses da corte que por fim o sentenciaram ao banimento da comunidade e o decretaram inimigo do reino.

Seu livre pensamento e sua forma de encarar a liberdade alvoroçava as pessoas pelas regiões aonde passava. Isso com certeza era detestado pelos comandantes do palácio que o tornavam dia após dia o inimigo número um e alvo de uma caçada sem precedentes. Seu refúgio era a floresta, junto de seus pais, irmãos e amigos, mas seu destino era o mundo. Talvez, por isso, do início ao fim de sua existência viveu e morreu a liberdade.

O que o consagrou nessa vida foi quando aos seus doze anos de idade, habitando no campo com seus pais, acompanhou-os à feira livre da cidade. Era um lugar aberto com barracas que negociavam barganhas. Ali seria o único lugar possível que as classes se misturavam livremente, ou melhor, os abastados de títulos permitiam que os desentitulados comparecessem pois era-lhes conveniente as coisas trazidas do campo.

Numa dessas idas à feira foram humilhados por pessoas da corte e escorraçados pelos guardas. O fato simples para o desfecho desse episódio era a roupa que trajavam. Vindos direto do trabalho do campo, para que não perdessem o momento ímpar das barganhas, trajavam roupas sujas do árduo labor na terra. A revolta e a sede por justiça entranhou de vez nas veias do menino.

O sistema imposto pela burguesia tinha um único objetivo: coibir qualquer possibilidade de informação que agregasse conhecimento ao povo que trabalhava nas terras. A intenção era podar sonhos, aniquilar a esperança de vez e enterrá-los vivos como escravos da realeza e sem qualquer opção de melhorias. Os poderosos eram verdadeiros ladrões de sonhos.

Mas, nem tudo são pedras. Com um estilo totalmente revolucionário o menino cresceu com força e sabedoria adquiridas nos redutos dos campos e posteriormente no esconderijo da floresta. Aos dezesseis anos, tornara-se um grande arqueiro e um exímio lutador com maestria em inúmeros tipos de armas. E foi justamente nessa idade que descobrira que o maior tesouro não mais seriam as joias do palácio mas sim o livre-pensamento. Uniu sua sede de justiça com a necessidade de libertar o povo das garras opressoras do sistema.

Nesse tempo de sobrevivência e experiência sentiu que a lei não servia aos que não possuíam títulos. Viu inúmeros amigos morrerem sem o merecido cuidado. E mesmo sendo contribuintes do reino, com o cargo dos impostos que lhes cabiam, ainda assim não eram assistidos quando necessitavam de algo. Então entre a lei dos poderosos para os poderosos e a justiça em prol dos menores, escolhera o caminho da liberdade pela liberdade de seu povo. Tornou-se um herói para os sem nomes e um inconveniente mal feitor para toda a realeza e seus nobres. 

Chegou um dia em que este reino fora invadido por outro rei. Na falta de uma guarda preparada e com mais da metade do povo vivendo concentrado e escondido na floresta a realeza sucumbiu ao então iminente inimigo que agora vinha de fora. O povo humilde e simples fora poupado porém a corte abastada, os poucos que sobreviveram, a começar pelos nobres, foram feitos de mulas durante dias e liberados depois de todo o mantimento e joias carregados em carroças.

Não foi simplesmente um massacre humano, foi um golpe na alma e no orgulho da ala dominante. A burguesia inatingível de olhar imponente e prepotente declinou à humilhação. A justiça viera por mãos alheias e todo o sangue derramado foi o preço pago mediante tamanha injustiça praticada até então.

O povo da floresta fora chamado pelos poucos concidadãos do reino, os poupados do massacre. Conclamaram o então "fora da lei" como novo líder. Os nobres tiveram suas terras redivididas para com todo o povo. Entre a lei dos poderosos e a justiça do povo, prevaleceu a verdade. Era o início de uma nova era, uma nova vida.


O mundo é conforme a óptica de cada um.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Guerra dos Mundos - Parte V - Aparência X Essência




O salão de festas da corte estava lotado. Pessoas de todos os cantos da região, parentes e amigos do casal, presenciaram a cerimônia matrimonial e já se encontravam no desfrute dos comes e bebes. Não demorou muito para que algo inusitado e fatídico tirasse o foco de alguns convidados.

Com um semblante atípico para um momento de alegria, de comemorações e celebrações, três pessoas se dirigiram para o rol de entrada rumo à escadaria da saída. O que se houve dali em diante ficou na maior discrição possível e mesmo com os ânimos à flor da pele destes que foram indevidamente penalizados pela situação, a questão fora descente e legalmente decidida conforme os trâmites da sociedade civilizada.

Uma dessas pessoas fora injustamente acusada de ter pego um objeto de valor. A acusadora estava no toalete com mais outras pessoas e tirou um de seus pertences das mãos e colocou-o sobre a bancada de pedra da pia. Não vendo seu valioso prontamente perguntou à única desconhecida na ocasião se ela havia pego. Totalmente sem graça, a moça respondeu que não e logo voltou para sua mesa junto aos seus.

Insatisfeita com a resposta e cega por sua arrogância, Julieta, a inquisidora, seguiu até a mesa aonde a moça estava e mais uma vez interrogou-a sobre seu pertence desaparecido. Novamente esta disse que não e no momento que ambas estavam no toalete haviam outras pessoas. As palavras seguidas não foram simplesmente questionamentos sobre a possibilidade dela ter visto mas intencionalmente proferidas em tom de acusação pela prepotência de quem julga pela aparência.

Numa mesa rodeada de familiares a moça se viu acuada e começou a chorar diante de tamanha e vergonhosa situação a que se encontrava. Não bastasse a senhora do valioso fora atrás de outras pessoas que pudessem também intervir no caso. Desta vez quem mediou e defendeu-a da falta de escrúpulos da enricada a aparentosa senhora foi a irmã da moça. Partiram assim para o rol de entrada e realizaram os trâmites legais.

A senhora maquiada, mascarada de sua arrogância e colorida por sua prepotência, ao se dar conta do peso de suas acusações, sem provas contundentes, e que agora resultaram na chegada dos oficiais, perdeu-se no andar de seus saltos e dramatizou lágrimas que até mesmo atores em início de carreira fariam melhor. No entanto, pediu que o caso se encerrasse ali. Não adiantava mais nada. Tudo já estava consumado. Ela, a inquisidora, estragara a festa daqueles que pelos noivos tinham muito carinho e agora, estes, queriam simplesmente o justo desfecho: a verdade.

Enquanto a festa acontecia, horas foram perdidas pela moça e mais duas pessoas que a acompanharam até o término do registro da queixa. Voltando para o salão, apenas pegaram seus pertences e foram embora. Julieta, com seu poderoso olhar de algoz, fuzilava-os.

Para quem apenas presenciou ficou claramente entendido o porquê do peso da acusação nos ombros da moça. A senhora, pseudo-burguesa, ostentava um poder que, em sua concepção, ninguém mais ali possuía e via na escolhida para sua insana inquisição a vítima perfeita. Principalmente porque a sua presa tinha tonalidade de pele diferente da sua.

O desfecho dessa trama ficou na dor de quem, em sua humilde e verdadeira essência, foi vítima do olhar preconceituoso e da falsa acusação de quem ostenta aparência. Os sepulcros caiados ainda subsistem ao tempo e estão entre nós. A guerra dos mundos ainda se faz na calada, mas calado os inocentes não se farão. A burguesia fede!





domingo, 23 de março de 2014

Guerra dos Mundos - Parte IV - Prisioneiro de Guerra


Estar onde não queria estar...
Numa das celas, trancafiado com outros prisioneiros, todos capturados em tempos de guerra, estava um homem incomum. 1012 era a forma como o chamavam durante a contagem que acontecia rotineiramente em todas as manhãs, finais de tarde e para as determinações das tarefas. Um codinome que expressava apenas mais um dentre milhares, ou melhor, uma peça com carimbo de pertença a alguém, a um estado, a um sistema. Objeto descartável que poderia ser dispensado a qualquer momento por qualquer motivo torpe. 
Vez ou outra uma chamada extra acontecia de surpresa. Qualquer atraso a se apresentar era passível de penalidades que poderiam ser desde a proibição de refeições diárias como escala tripla de trabalho ininterrupto que duraria até três dias e três noites. 
1012 era um homem reservado e de semblante sereno que conseguia transmitir um olhar de tranquilidade mesmo nas condições de maior tensão e medo. Não demorou muito desde sua chegada na prisão para que os companheiros de cela o notassem como alguém diferenciado. 
Sem poder ler nem escrever, proibidos do diálogo, vivendo uma vida literalmente regrada a ínfimas rações e um trabalho penoso, restava apenas o mundo do pensamento para se libertar das escravidões impostas ao corpo.

Todo começo é difícil para quem é jogado numa cela. A sensação de impotência, refém não só do sistema mas do tempo que não se controla nem se quer se segue são sintomas para conviver dia e noite. Esperar por um milagre ou uma reviravolta no tabuleiro da guerra são raios que cruzam o pensamento como fiapos de esperança. Um dia, tudo poderia acontecer, inclusive o prêmio da liberdade devolvido a cada dono legítimo de sua própria vida. Para isso, porém, era preciso sobreviver. Viver um mundo fora do espaço onde seu corpo estava. Alma e corpo, nesse momento, deveriam andar por ruas e ruelas distintas, paralelas talvez. O corpo poderia até sofrer mas a alma deveria estar sã e salva para o dia da vitória. Muitos sucumbiram, entregaram-se ou arrancaram de si a própria vida à viver sobre a mira da tortura e da incerteza.
Antes do fatídico dia em que fora preso, 1012 vivia uma vida modesta ao pé da montanha cercado pela exuberância da natureza que lhe proporcionava com sobras tudo o que era necessário para sua sobrevivência. Experiente da cidade, resolvera abdicar-se da vida urbana para reencontrar-se consigo e com Deus em busca do sentido de sua vida após viver um amor platônico. Dedicara-se então às artes naturais, leituras e escritas poéticas. Vez ou outra recebia visita de alguns familiares. Seus três filhos não perdiam a chance de estar ao lado do poeta errante nos finais de semana e sempre que um feriado quebrava a rotina dos dias. 
O poeta da montanha, como sua filha, a caçula, o chamava carinhosamente, já se preparava para uma possível prisão desde que a guerra estourara por aqueles lados. Ele sabia, diante de tantas obras que lera nos últimos oito anos que esteve ali entregue e se entregando ao pensamento, às poesias e à natureza sagrada, que caso fosse encontrado e levado para algum campo de concentração e jogado numa cela, somente seu pensamento não só o libertaria da escravidão mas principalmente o manteria vivo e intacto para um possível retorno. 
Os inimigos romperam as fronteiras e chegaram até sua casa ao pé da montanha onde um riacho rasgava seu quintal. Ele estava, no exato momento, deitado numa rede na varanda ouvindo cantos de pássaros que se aninhavam no pequeno pomar quando o estampido dos tiros causou um sobrevoar desordenado e assustado das aves. Não se moveu. Permaneceu inerte deitado em sua rede. 
Menos de dez minutos se passaram desde o primeiro tiro até a chegada dos homens que o levariam de seu reduto até o confinamento para além das fronteiras. Num dialeto pouco entendido o primeiro soldado que despontou em sua vista gritava para que ele se levantasse da rede e deitasse com o rosto voltado ao solo. Sem pestanejar obedeceu. Fez o sinal da cruz e deitou-se. Rezou, orou, sentiu medo, engoliu o choro fruto do receio de não poder voltar a sua terra e rever os seus... 
Revistado e já em marcha, escoltado por cinco soldados armados, só podia desviar seu olhar sem virar a cabeça. Olhou para o céu, para o alto da montanha, para o riacho; inspirou o ar profundamente, ainda ouvindo o canto distante dos pássaros e firmou seu pensamento dizendo para si que seria apenas mais uma viagem. Não seria o fim mas o libertar de uma amarra, o romper de um silêncio imposto, uma nova luta pela liberdade, pela vida, a sua própria vida...
Passaram-se exatos oitenta dias e ainda não se ouvira nenhum murmúrio sobre o fim da guerra. Era uma manhã fria, típica de um domingo de inverno. 1012 lembrava que neste dia as comunidades rurais se reuniam para a celebração na igreja de Nossa Senhora Aparecida no alto da montanha. A sirene tocava ainda mais cedo, propositalmente como um castigo a todos os prisioneiros. Castigo que não merecia nenhum motivo para acontecer. Levantou rapidamente ao primeiro sinal. Numa cama de três andares ele repousava sobre as tábuas do meio. Seu companheiro de baixo tinha o sono mais pesado e já sofrera altas punições. Sabendo disso, tratava de acordá-lo.
Todos em pé ao lado de suas camas. Ao apito puseram-se a caminhar para o pátio e seguidamente a correr ao redor dos pavimentos. Os soldados já sabiam que dentro em pouco tudo poderia mudar. Uma força tarefa poderia aparecer e libertar todos os reféns, mas a ordem do diretor que administrava aquela unidade de concentração, um dos mais carrascos, era jamais abrandar ou facilitar a estadia dos entulhos, forma que tratava os prisioneiros.
1012 sentia que algo estava acontecendo. Percebia as conversas que alguns soldados faziam sem mais se importar com quem estava perto. Não passaram muitas horas para ouvir aviões com bandeiras dos aliados sobrevoar aquele campo. Bombas estourando cada vez mais perto. O medo agora passava de lado.
Uma sirene intermitente soou. Era hora de se recolher no galpão. O desespero tomava conta dos enumerados prisioneiros pois sabiam que aquela sirene era sinal que alguém seria executado por algum motivo. Todos já recolhidos e o diretor apareceu com um sorriso diabólico e ao mesmo tempo sarcástico. Para espanto, o homem severo avisa que a guerra chega ao fim mas como alguns internos estavam em débito, esses deveriam pagar com suas vidas.
Os sentenciados sentavam em ordem numérica para facilitar a contagem. Os lugares vazios significavam que aqueles já haviam quitado suas dívidas tendo a vida arrancada de si. Haviam fileiras com mais de dez espaços vagos. Alguns números eram convocados a se dirigirem para um palanque onde a sentença era executada. Dessa vez não haviam centenas de soldados, apenas o diretor e seus três capatazes, que juntos eram conhecidos como o quarteto do inferno.

1012 sentia as mais diversas sensações, o gosto da liberdade se aproximando e trazendo para perto tudo o que havia deixado em seu recanto ao pé da montanha, bem como as recordações, os filhos e sua história, mas também o medo por sentir tão próxima a remota e não improvável possibilidade do diretor escolhê-lo para um sacrifício em seu derradeiro show de horror e sangue. Alegria e medo, suor e batidas descompassadas, desde que chegara aqui essa era a primeira vez que não conseguira controlar suas emoções.
Fechou os olhos e tentou ouvir o som da voz que sempre lhe acompanhara, o de sua avó, aquela que o educara e lhe dedicara amor. Sobreviveu até ali e não poderia morrer sem ver novamente o brilho da liberdade que o sol trazia além dos muros do isolamento. Elevou seu pensamento ao céu, rogou a Deus por sua vida e logo ouviu uma gritaria seguida por uma grande correria. Apenas um prisioneiro fora executado. Quando este número caiu por terra, uma massa de gente correu em direção ao diretor e seus comparsas e ali findaram com os carrascos do horror. 
Abriu os olhos e seguiu a grande massa que corria para a liberdade. Não haviam mais soldados. Estes já haviam fugido. Os portões foram abertos e cada um seguiu seu caminho. Nesse momento a força tarefa de libertação já cercava aquele campo. Os mocinhos enfim chegaram.
1012 poderia enfim regressar de sua última jornada. Um comboio de veículos escoltados percorria os mais distantes vilarejos e cidades, deixando os filhos de sua pátria sãos e salvos. Em cada lugar um festejo sem limites regado a lágrimas de saudade e de dor pelos que não conseguiram regressar. Muitos chegaram em macas, outros paralisados ou faltando parte de algum membro do corpo, porém vivos, ou melhor, sobrevividos.
O homem que soubera sobreviver ao inferno inimigo, refém de uma guerra que não havia comprado, fora deixado na porteira da entrada de sua casa. Um soldado acompanhava sua caminhada com os olhos. Seus filhos o esperavam na varanda. Foi um encontro de final de tarde onde o sol alaranjado se punha por detrás da montanha e a lua despontava cheia em seu contraposto. Uma verdadeira poesia da natureza iluminando o palco, a cena e o protagonista regressante que reencontrava os seus.
O pequeno caminhar, da porteira à varanda, foi um breve momento de solidão que penetrou a alma. Desde que fora preso e então regressara ao seu recanto, nunca havia ficado um único minuto a só, no silêncio. No campo de concentração tudo o que havia de fazer sempre era em grupo de no mínimo cinco pessoas. Ao escurecer, todos se aninhavam nos barracões de chão de terra. 
Um filme passou por sua mente. Tantos números que tiveram seu sangue derramado naquele lugar, histórias que foram interrompidas, pessoas que voltaram mutiladas não só no corpo mas principalmente na alma... Precisava extirpar de si o máximo de recordações que aquela estadia lhe havia imposto. Era preciso sobreviver e por mais que conseguira impor ao pensamento o máximo de cuidado e o levado para além daquele reduto, ainda assim a experiência fora traumática.
Olhou para a montanha, enxergou a capela ao longe. O barulho das águas do riacho com o canto dos pássaros também foram ouvidos e sentidos. Não segurou a emoção e as lágrimas rolaram por sua face. Seus filhos correram ao seu encontro. Ajoelhou e estendeu suas mãos por terra como que numa tentativa de agarrar-se ali mesmo e entregar-se à natureza para que ela se incumbisse de romper as amarras que ainda o prendiam. Eles o abraçaram longamente. O soldado então retornava para o veículo que o aguardava para seguirem seu destino. 
Lágrimas e terra, saudade e reencontro, dor e lembranças, história e esperança, reza e labuta, oração e reflexão, sol e lua, poesia viva que ardia em seu peito. Uma explosão de sentimentos, os quais fora obrigado a conter para assim sobreviver.
Seus dias não foram mais o mesmo. Nunca mais seriam... Noites transcorreram que seu sono fora interrompido por pesadelos, fruto das cenas de horror que presenciara e das torturas psicológicas que tentavam impor-lhe naquele inferno humano.
Homem de fé, amante da vida, considerava-se eterno aprendiz dessa mesma vida que tanto lhe abençoara. Seus filhos eram o seu tesouro, como ele mesmo fazia questão de dizer em cada reencontro.
A vida seguiu seu leito como o riacho que levava as águas para alguma determinada direção, para outro rio, para o mar... O tempo em que teve sua liberdade roubada servira para alguma coisa; queria viver o tempo que ainda lhe restara, o amor acima de qualquer coisa. Sobrevida, era assim que chamava o tempo que voltara a viver em liberdade. Então, era preciso despojar-se e realmente entregar-se aos sonhos. 
Muitos libertos daquele campo sucumbiram em sua própria liberdade. Alguns com menos tempo de prisão que o 1012 cometeram suicídio após adquirirem sua liberdade de volta. A prisão foi tão marcante que já não sabiam viver a liberdade. A pior guerra havia começado dentro de si, a guerra na alma e no pensamento. 
Sobreviver a um tempo que lhe é de espera, aceitado ou imposto, é uma artimanha que somente o pensamento, a determinação e a fé podem lhe confiar. Viver uma vida fora de seu corpo foi a arma usada pelo prisioneiro 1012. Havia um motivo, havia um objetivo, havia um sonho, e o mais importante, ele queria vencer esse tempo. Saber esperar, sobrevivendo entre arames e pressões, com pessoas que não lhe davam importância, foi mais que uma vitória, foi um recomeçar, um reaprender a viver...
Prisioneiro de guerra todos somos em determinadas situações. Somente alguns conseguem alcançar o milagre da espera no tempo e viver o sonho que o coração sempre sonhou...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Guerra dos Mundos - Parte III - Hierarquia: poder sem verdade




"A realeza inalcançável, a nobre corte inatingível, os vassalos, o povo e a Verdade."

Vivia a realeza inalcançável no seu castelo adornado de ouro, protegido por guardas e cercado de fieis sanguessugas, a nobre corte inatingível que apenas comandava de suas sub-salas secretas as decisões a serem tomadas mundo afora por além dos muros da fortaleza.

Os vassalos, espalhados pelo mundo, tratavam de difundir as regras impostas de cima para baixo. Os que ousavam questionar atos e atitudes ou gerar pensamentos que contestassem condutas impróprias e o próprio acúmulo de riquezas por parte da realeza e sua corte eram considerados desertores, subversivos e, por vezes, caçados, castigados e condenados às mais diversas formas de fogueira. 

O povo, sempre a caminhar por caminhos difíceis, entre alienadores, massificadores, exterminadores e poucos libertadores que, em sua maioria, sempre foram perseguidos pelo alto escalão do poder. Ele, sempre ficou à mercê das mais diversas formas de verdades deturpadas pelos, então, homens da fé. Poucos se libertaram, muitos se perderam, muito mais foram condenados por conta de discordarem. 

Os auto-elegidos e ditos detentores da verdade sempre mantiveram-se como única forma de verdade herdada diretamente do céu para a repassarem à terra e gozaram dessa reputação histórica para então extrapolar os limites do homem, manter o status de caminho seguro, manter inabalável a instituição hierárquica e pior, manter sob sua custódia a mente e a alma de cada ser vivente, massificados pelas palavras proferidas e oriundas do poder. A verdade, nesse patamar hierárquico, era muito mais vaidade e poder que palavra libertadora.

...E a verdade vos libertará! Longe da verdade mundana se igualar à verdadeira Palavra Libertadora do Homem de Nazaré. Longe desses doutores em leis, inquisidores auto-santificados em poder e ouro serem porta-voz da verdadeira Verdade! A vaidade assola, antes de qualquer coisa, ao coração de cada poderoso chefão. 

Um dia, essa realeza, sensata, descobriu o poder paralelo existente nos redutos do castelo. Poder este que brigava por mais poder e escondia a podridão dos homens que se diziam de boa fé. Então, ela renunciou... e deixou ao sucessor o dever da faxina geral... 


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Guerra dos mundos - parte II - : O Palácio


A notícia se espalhou. Os espiões se manifestaram e conseguiram adeptos entre as pessoas do reino e estas se rebelaram. As rinchas internas aumentaram. Boicote ao rei era a proposta dos inimigos. Eles estavam em toda parte. O palácio, antes totalmente preservado, agora tinha ares frios, sombrios. Medo e suspense no ar.
Na altura das circunstâncias, em quem confiar? Era uma guerra fria, estratégica, calada, pensada. O ataque ao inimigo deveria ser perfeito.
Cansado de se aventurar o rei segurou o seu cetro deixado por seus ancestrais. Com a mão esquerda colocou sua coroa sobre a cabeça, sentou-se novamente no trono e pôs-se a pensar sobre o poder incomensurável que havia em tais objetos.
Desligado dos valores materiais, o rei não se importava com a preciosidade das jóias, mas sim pela representatividade em sua vida, deixada por quem lhe amou e lhe educou.
Num gesto brusco tirou novamente a coroa e pôs junto ao cetro em sua frente. Viu ali, em pensamento, as diversas gerações que os usaram e empunharam, Levantou-se rapidamente do trono e recolocou a coroa, sentiu seus olhos marejados de lágrimas, sua consciência inovada. Correu em direção à sala onde se encontrava o sábio, que, no momento lia o livro das regras do reino.
O sábio, sentindo a ansiedade do rei, apenas mostrou o livro. Ele leu e nada disse. Calados, apenas se entreolharam. Chamou para perto de si os conselheiros e todos os que exerciam funções no reino e principalmente os representantes do povo. Reuniu-os numa grande sala.
Sem entender o motivo daquela reunião, a primeira do rei, e talvez a primeira naquele reinado. Nunca, antes, acontecera algo do tipo. O silêncio pairava no ar.
Ansiosos, aflitos, repletos de dúvidas, os olhares se cruzavam naquela sala, até que o rei se levantou e disse:
- Esta coroa sobre minha cabeça, foi-me confiada, bem como este cetro e, de geração em geração, todos os que a puseram e o empunharam governaram este reino com muita garra. Notei que nenhum de meus antecessores se prontificou em saber as reais necessidades do reino, do povo. Nossa muralha, também, nunca fora ultrapassada, muito menos sucumbida. Estamos agora numa encruzilhada, uma crise generalizada ou uma solução vitoriosa, mas essa escolha não depende somente de mim, depende de nós. A crise que nos ameaça vem de fora e simultaneamente nos abala aqui dentro. Fui omisso, irresponsável, imaturo e com isso permiti que nosso reino fosse abalado.
O rei andava por entre as pessoas, falando e encarando-as nos olhos.
- Ausentei-me, lá fora, vislumbrando pelas coisas que vi, conheci e vivi. Hoje, estou ciente disso, reconheço meu erro, minha culpa e quero que cada um aqui multiplique essa idéia, cada um aqui se sinta co-responsável por fazer a nossa história, a história do nosso povo, diferente. Se unirmos, deixarmos as coisas pequenas e irrelevantes de lado e trabalharmos unidos, poderemos fazer deste reinado um palácio a céu aberto, um palácio para todos e não somente para o rei. Quero estar unido à vocês e não mais distante da realidade. Quero partilhar tudo o que há de bom em nosso reino, plantar e colher. Para isso, precisamos primeiramente lutar por um só ideal, o ideal da comunhão, da paz e do amor; precisamos fortalecer nossas muralhas, pois lá fora os inimigos são muitos, são fortes e se aproximam. Sabemos que existem alguns no meio do povo, dispostos a gerar desunião e discórdia. O espaço deles não mais existirá quando tomarmos a consciência da importância do nosso papel aqui dentro.
            Neste instante, todos se levantaram, gritaram, aplaudiram e aclamaram ao rei. Até mesmo os críticos comoveram-se pela sinceridade e humildade do rei. Todos, sem exceção, se dispuseram a trabalhar na reconstrução do reino.
            O amor venceu o ódio. A paz reinou. A união foi ponto decisivo no alicerce do reino. Sobretudo, a humildade do rei fez a diferença. O auto-reconhecimento como homem e falho, fez dele um ser que merecia ouvidos, méritos.
            O palácio, que outrora só servia para o rei, foi desfeito e todos os materiais re-utilizados no re-fortalecimento das muralhas. O rei refez sua morada de forma modesta, sem exagero e nada arquitetônico.
            Ele foi aclamado por seu povo, odiado por seus inimigos, plagiado em outros reinos e lembrado por seus feitos, principalmente por ter mudado a história do seu mundo, a história de seu povo, a história de sua vida.

Ailton Domingues de Oliveira
15/08/10