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domingo, 20 de abril de 2025

Resenha Crítica - "Cilada"



Essa potente história baseada na obra de Harlan Coben carrega diversos temas sensíveis, pesados e que podem despertar gatilhos. Tendo em vista a intensidade com que cada assunto é tratado e desenvolvido, ficção e realidade se misturam e confundem o olhar e o coração do telespectador. 

Mistério, drama, psicológico e investigativo, a trama aborda desafios online, auto mutilação, adolescência, bebidas, drogas, sexo, acidentes, homicídios e luto. Nesse cenário algo intrigante chama a atenção, uma falsa acusação que resultou na caçada de um homem inocente. Uma jornalista, que baseou-se numa pseudo evidência para encontrar um suposto abusador, colocou os holofotes do julgamento midiático sobre a inocência e a reputação desse homem que tem um fim trágico.

Antes de ter sua reputação destruída esse homem fora traído de forma ardilosa quando seu melhor amigo arquiteta um plano para conseguir sua propriedade, que além de extensa tem nela um centro de acolhimento para menores. Acusado, sentenciado, com a vida manchada e como principal suspeito no epicentro dessa conspiração, o proprietário da terra e diretor do abrigo torna-se foragido e é caçado feito animal. A única forma que o falso amigo teria para conseguir a propriedade era fazer com que o proprietário da terra e diretor do abrigo fosse acusado de algo grave e assim aconteceu.

Cada cena nos leva a uma reflexão profunda sobre as temáticas pontuais que nos cercam. Entre tais questões de extrema urgência o contraposto que assola a existência humana se dá na ganância, na ambição sem fim que coloca em check toda e qualquer relação. Isso é histórico, cultural, político, familiar, religioso, humanamente demoníaco, mas ta aí, sendo repetida cotidianamente em todo e qualquer ambiente. A arte nos faz lembrar do que podemos ser e do que somos de fato. Uma incógnita.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Resenha Crítica: "1883"



1883, série da Netflix, retrata a saga de uma família em busca de um pedaço de terra para construir sua morada. Nessa travessia ela se junta a imigrantes liderados por dois oficiais que irão guiá-los nessa jornada. 

O cenário, repleto de lindas paisagens, montanhas verdejantes, planícies abertas e rios de água cristalina, se dá no tempo do velho oeste norte americano, tempo esse em que as divergências se resolviam na bala e na flecha. 

Batalhas realistas que trazem à tona tanto a justiça quanto a crueldade humana marcam momentos de tensão nesse drama. 

Amores improváveis entre pessoas de raças diferentes consolidam a audácia e a coragem do amor resultando num clima romântico.

Além dos diálogos intensos sobre a esperança e a dor, o futuro e a incerteza, a coragem e o medo, a vida, a morte e o luto, a narrativa da jovem personagem que desbrava não apenas as terras ao lado de seu pai e sua família, mas toda a liberdade a que tem direito, contribui para uma reflexão ainda mais profunda.

Ainda sobre a vida, os capítulos finais retratam o morrer e o luto antecipatório de forma marcante e intensa, o que nos leva a uma viagem interior em busca de sentidos próprios para a verdadeira essência de nossa existência.

Sábias filosofias épicas, que discorre em pensamentos e diálogos, mergulham no mais íntimo do ser humano. Brutos se amansam, medrosos se levantam, ambos regados da coragem em transpor suas próprias muralhas. 

Um grande e verdadeiro espetáculo em forma de drama que traz a pureza, a sabedoria, a dificuldade e a honra no velho oeste americano. 

quarta-feira, 12 de março de 2025

Resenha Crítica: Os enviados



O enredo, de forma geral, traz uma mistura de tramas que perpassam a fé, a ciência e uma discussão que ora converge, ora diverge entre ambas. Nas busca pela verdade entre o que se supõe ser milagre, fantasia, fraude ou realidade, dois padres com especialidades são enviados pelo Vaticano para investigar os casos e suas repercussões numa cidade mexicana. "O que a ciência não pode provar é milagre", e foi essa a frase que enfatizou grande parte das discussões entre os enviados. 

Não bastasse, a série também traz à tona a influência do poder nas estruturas religiosas do catolicismo, desde os altos escalões às bases mais remotas das periferias e cidades pequenas e esquecidas, social e politicamente. Demonstra-se aí que para que a "verdade do poder" seja mantida, qualquer coisa é feita e a qualquer preço. 

Nesse sistema estruturalmente político de religião e poder, a corrupção se escancara de forma ardilosa. Até que se esclareçam os fatos, a verdade é imposta a qualquer custo. Valem-se das regras a bem de sua reputação institucional, mesmo que pessoas precisem ser silenciadas. E o poder, se infiltra de forma meticulosa influenciando psicologicamente em todo canto da cidade. 

A linha tênue entre o que pode ser algo espiritual e o que pode ser uma doença da alma é a espinha dorsal da história. Os padres, um advogado e outro médico, confrontam o tempo todo o que é real e o que é fictício. Doenças psicológicas e possessões são temas que aguçam e nos prende a atenção do começo ao fim. A medicina e a religião, que traz o exorcismo como ponto forte, são extremos que aos poucos se aproximam e se afastam de uma resposta mais assertiva. Vale a pena!

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Resenha: Pedras, plantas e outros caminhos - por Lucimara Costa



O filme "Pedras, Plantas e Outros Caminhos" proporciona uma experiência profundamente impactante, instigando uma série de reflexões sobre a complexidade da condição humana e os desafios enfrentados por aqueles em situação de vulnerabilidade social. 

Uma das reflexões centrais que emerge do filme é a realidade de pessoas como Ney, que enfrentam adversidades sem terem escolhido estar nessa posição. Contrariando a visão simplista de que a pobreza é uma escolha, o filme nos leva a compreender que somos moldados pelo ambiente ao nosso redor. A falta de estrutura familiar, apoio psicológico e recursos financeiros adequados perpetua essa realidade desoladora, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais eficazes e uma sociedade mais solidária. 

O caráter humanitário de Ney se destaca, mesmo em meio às circunstâncias mais adversas. Sua preocupação com a natureza e sua dedicação às plantas e pedras demonstram uma sensibilidade e bondade intrínsecas, desafiando estereótipos e preconceitos. Isso ressalta a importância de reconhecer a dignidade e o valor de cada ser humano, independentemente de sua condição social. 

A importância da família na formação do indivíduo é outro ponto relevante destacado pelo filme. A ausência de apoio familiar expõe a fragilidade das relações sociais e destaca a necessidade de uma sociedade mais inclusiva e solidária. 

A relação entre Ney e sua acompanhante terapêutica, Thaís, também merece destaque. Thaís não apenas desempenha um papel profissional em ajudar Ney, mas também demonstra uma conexão genuína e compassiva com ele. Essa relação exemplifica a importância do apoio interpessoal na superação de desafios e na promoção do bem-estar emocional. 

A atuação dos profissionais de saúde, especialmente dos psicólogos, é fundamental na promoção do bem-estar e na reconstrução da dignidade humana. O filme alerta para a necessidade de uma abordagem mais empática e acolhedora por parte desses profissionais, destacando a importância de estabelecer vínculos de confiança e compreensão com os pacientes. A prática da psicologia vai além das paredes acadêmicas, exigindo sensibilidade e adaptação à realidade de cada indivíduo. 

Além disso, o filme levanta questões sobre a relação entre saúde mental e ambiente urbano, convidando-nos a refletir sobre o impacto do ambiente físico e social na saúde mental das pessoas.

Embora o formato de atendimento apresentado no filme possa gerar preocupações quanto à segurança dos profissionais, os benefícios e aprendizados resultantes desse tipo de abordagem superam os desafios. A troca de experiências, a redução de danos e o enriquecimento pessoal e profissional são aspectos que merecem ser considerados ao avaliar os riscos envolvidos. 

Por fim, "Pedras, Plantas e Outros Caminhos" nos desafia a repensar nosso papel como membros de uma sociedade que deveria ser mais empática e solidária. Ao confrontar questões profundas sobre a condição humana, o filme nos instiga a agir em prol de um mundo onde todos possam viver com dignidade e respeito.

Reflexão Crítica sobre o filme Pedras, plantas e outros caminhos apresentado na disciplina de PSICOPATOLOGIA II, Profª Clara Moriá, 7º p. Psicologia, UNITRI, por Lucimara Costa.

Resenha: Pedras, plantas e outros caminhos



"Por-se a caminho." Acredito que essa seja a frase que representa o que de fato possibilitou todo o desvendar de uma relação construída pela acompanhante terapêutica (AT) Taís e o paciente Ney. Foi mergulhando no mundo desse rapaz que ela permitiu o seu protagonismo em todas as formas, fases e faces apresentadas. Ora frio, ora embrutecido, ora passivo, ora ciente do mundo ao seu redor e capaz de dialogar e expor seus sentimentos. 

Segundo relato da psicóloga do CAPES, existem dois Ney's, antes e depois de conhecer a Taís. Não houve nada de exorbitantemente diferente no trabalho realizado. Na verdade, não foi trabalho, pois o que ali se construiu foi além dos manuais. A proximidade, o sentar-se junto, o contato físico, o permitir seu protagonismo em cada momento, diante de cada sentimento e humor, possibilitou a confiança do rapaz para com a AT.

Existe ali um carinho, que pode se chamar de especial. Impossível não criar esse vínculo em tais condições. Mais impossível não se misturar com o que é considerado loucura aos olhos da sociedade. É preciso ter essa loucura para romper barreiras, essa louca coragem de lutar por mudança. Taís assumiu seu papel, tornou-se coadjuvante, elevando seu paciente ao grau máximo do reconhecimento. Permitiu-o ser quem ele era, em cada momento, são ou não. Ela estava lá. Em sintonia. Com confiança.

Ali, em tais condições e situação, mesmo ele sendo usuário do Sistema de Saúde, sua recusa ao tratamento era respeitado, pois já havia sofrido intervenções que o traumatizaram a ponto de desconfiar de tudo. Descer ou elevar-se ao mesmo nível de sua realidade foi uma verdadeira construção sinfônica de tijolos e notas, com muita ousadia, tato, sensibilidade, empatia, respeito e coragem. E assim sendo, ali se trabalha a desconstrução e a reconstrução, visando sempre a redução de danos.

Taís foi maestra, mas o palco e os holofotes foram para o Ney. Talvez, sem se dar conta de seu papel, não imagina o que de fato transformou na vida dos que o acompanharam durante essa produção. Talvez, esse seja o significado real de toda existência, "por-se a caminho". Respeitando a condução das conversas, bem como aproximação que sempre se dá conforme a vontade do paciente, ela permite que ele atue de acordo com sua real necessidade. E, sem perceber-se, ele sempre se aproxima, de uma forma ou de outra, pois sente que é observado, sente que existe ali alguém por ele. 

O misturar-se é algo que possibilita um crescimento sem se perder, porém, nunca saindo da mesma forma que entrou. Ambos foram tocados e transformados, inclusive quem acompanhou. Existe então um enriquecimento imensurável de humanidade, que nos é devolvido através dos passos que o outro dá a partir daquilo que nos dispomos a doar. 

Há momentos de delírio em que notavelmente ele está transtornado por uso de bebidas ou outras coisas. Ainda assim a AT permanece ao seu lado. Não interfere, não o interrompe, mas assiste firme sem muita interpelação. A vida solitária de Ney muitas vezes o mostra como sensível às pequenas formas de vida e os cuidados com a natureza. Cuida da árvore como se fosse exclusivamente sua, impulsivamente delegando-se como protetor dela. Não admite pedras ao redor da árvore e as retira com brutalidade. Questiona o zelador da praça. Ney não quer que sufoquem sua árvore com pedras. Ela precisa de espaço, precisa respirar, precisa de sua solidão, assim como ele.

Apesar de ter sua avó, família, ainda assim prefere a praça como moradia. Como disse a Taís, "a praça é um lugar de passagem". Ali as pessoas passam e raramente param. Se param é por pouco tempo. Ney se tornou parte da praça. Praça e Ney são passagem e miragem, respectivamente, aos olhos dos transeuntes, que tão logo passam, já o perdem de vista, o esquecem. 

Em dias de sobriedade sua voz canta com a alma. Explode em sentimentos de realidade e normalidade social. Taís o admira, instiga a cantar mais. Ela o acompanha. Mais do que fazer seu papel de AT ela se coloca em pé de igualdade, ora na plateia, ora coadjuvando no palco, no pequeno banco de praça que faz parte de todo o seu cenário cotidiano. Ela lê os sinais, ora para se aproximar, ora para se distanciar. Esse é o respeito que permitiu o elo de confiança.

Seu mundo é restrito, restrito por ser um recorte pequeno nesse reduto de praça, restrito pelas próprias restrições que a vida impôs desde seu nascimento. Seu mundo é a praça, e nesse mundo, poucas flores, raras pessoas, somente pedras e plantas compõem seu jardim, sua passagem, suas miragens. Muitos olhares em que poucos enxergam. Dentre esses, raro é quem se pôs a caminho. 


Reflexão Crítica sobre o filme Pedras, plantas e outros caminhos apresentado na disciplina de PSICOPATOLOGIA II, Profª Clara Moriá, 7º p. Psicologia, UNITRI, por Ailton Domingues de Oliveira.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Crítica: Dexter - "o retorno"



Recentemente essa série retornou à plataforma Netflix. Havia sido retirada, foi parar em outra mas acabou retornando. Dexter é um mix de psicopata, com requintes de crueldade, e justiceiro bonzinho, pois canaliza toda a sua força e aptidão para um único propósito, o de sentenciar e executar todos os assassinos que conseguiram se safar da luz da Lei. Ele faz parte da polícia científica em Miami, um especialista em sangue e através disso, consegue atuar no submundo sem ser descoberto.

No início da série conseguimos ter repulsa em cada ato do psicopata justiceiro, mesmo que suas vítimas mereçam aquele fim. Mas, é incrível, pois, no decorrer dos episódios de cada temporada, acabamos normalizando tais atos e então, o justiceiro psicopata, se torna um mal necessário para limpar a sociedade da escória que sai impune pela porta da frente da justiça. 

Dexter narra seus conflitos desde sua infância, período em que foi recebido em um lar adotivo, com pai, mãe e irmã. Cresceu e foi educado mas não conseguia fugir daquilo que era. Seus traços antissociais foram detectados por seu pai adotivo que, para protegê-lo de si, da sociedade e vice versa, foi criando um código de sobrevivência para o menino. Assim, quando o pai não estivesse mais presente nesse mundo, Dexter teria um manual para saber em que momento deveria usar seus instintos para satisfazer os desejos do "passageiro sombrio". 

Passageiro sombrio, é o nome utilizado por Dexter para falar sobre suas vontades, desejos, instintos, aquilo que de fato aguça sua necessidade de matar. E suas mortes exigem um ritual, um cenário, e uma metodologia que foi sendo aperfeiçoada em cada caso, em cada ato, em cada vítima criminosa.

Dexter é um personagem, bandido e herói, que, a partir de sua narrativa em primeira pessoa, possibilita ao telespectador ver e analisar a mente de um psicopata, supostamente com seus instintos controlados, ou melhor, canalizados numa direção que julga ser coerentemente necessária. Suas falas são filosoficamente poéticas, repletas de solidão, vazio, sem sentido existencial. Ele, vive um disfarce, pois ninguém o conhece de fato como é. O único que sabia de sua personalidade já morreu, seu pai. Mesmo assim, as lembranças de seu pai adotivo estão sempre presentes, confrontando seus passos. Nessas lembranças, ele escuta a voz, um diário vivo que ressoa em seus pensamentos.

Familiarizados com a evolução dos episódios, a torcida da plateia é sempre para que o Justiceiro faça o que faz de melhor: limpar a sociedade de todo o lixo que se livra da lei e da justiça. Sim, validamos, pois como acontece na vida real, as cenas e o cenário, que, antes eram incomuns, se tornam comuns em nosso cotidiano. Fico pensando, caso fosse real, e fosse brasileiro, com certeza muitos famosos bandidos que venceram, ou melhor, corromperam o sistema e saíram ilesos, devido à sua fortuna e status, já estariam literalmente cancelados. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Resenha: Léo e Croods 2

Vejo a correlação entre assuntos, ou entre abordagens, ou entre ciências como uma verdadeira arte, seja para que se validem diante de suas convergências ou discorram nos contrapostos em suas divergências. Tudo pode se tonar um lixo ou um luxo, um descarte ou uma arte. E isso vai depender única e exclusivamente do olhar despojado de estereótipos mas enriquecido de sensibilidade. É coisa de alma que movimenta a carne.

Sem mergulhar nos detalhes das cenas de ambos os desenhos, deixo isso para quem ainda não assistiu de maneira intensa e que o faça sem ressalvas de ser feliz, tal qual a expectativa de uma criança, me proponho a focar apenas nas mensagens que tocaram de forma simples e profunda. Rubem Alves sempre traz a importância de enxergar o mundo pelo olhar inocente das crianças, que criam seus próprios mundos imaginários, de fantasias e são livres e felizes para realizarem seus maiores sonhos ali em suas brincadeiras. Que assim seja para todas e todos que se permitirem a percorrer esses desenhos.

Croods 2 é extremamente divertido e ressalta sempre, na maioria das cenas, a importância da união, da reciprocidade, do cuidado com os que amamos, e em especial sobre o estar não apenas sempre juntos mas unidos sempre. Para além dessa mensagem, algumas situações de relações entre pessoas e povos diferentes, preconceitos e até discriminação perpassam pela trama animada. Quando a ganância prejudica a natureza, tudo entra em desequilíbrio, o que só é restaurado diante da ajuda mútua, da cumplicidade, do respeito, da amizade e do amor. 

Leo é um lagarto quase octogenário que vive numa espécie de aquário sem água, ao lado de seu amigo tartaruga que também se encontra na terceira idade. Eles são parte integral de uma escola infantil e atualmente estão na sala da turma do quinto ano. Outros pequenos animais ficam em outras salas. Na necessidade da atual professora ser substituída, devido à sua gravidez avançada, uma outra professora, autoritária, com pedagogia arcaica e pouca paciência, assume a turma. Em dado momento, a professora substituta faz com que cada aluno leve um dos animais para sua casa no final de semana. Até então a relação criança e bichos era simplesmente natural. O lagarto foi o primeiro a ser escolhido e levado e é aí que começa toda a trama de fato. A interação do bichinho com as crianças se dá de forma didática, educativa e ele acaba sendo uma espécie de psicólogo para com cada um, inclusive com a própria professora substituta. 

A arte da correlação vem agora, no sentido de me permitir enxergar o quanto é importante e saudável cultivar boas relações que nos permite crescer, evoluir e voar, se preciso. Bons alicerces nos dão segurança para voos cada vez maiores, mais altos. Tudo o que não serve para nos libertar, corre o risco de nos oprimir. E é com essa leveza do olhar da criança que devemos sempre questionar os passos que deveremos dar, bem como nossas escolhas. Nada melhor do que a pureza e a sinceridade infantil para nos ajudar a nortear nosso caminho e nossa existência, para que não seja em vão. Permita-se viver! Permita-se à alegria de viver! Permita-se...

domingo, 24 de setembro de 2023

Crítica: Sex Education


A série, que mistura comédia, drama e realidade no mundo adolescente-jovem, tem em seu enredo um mix de assuntos próprios da idade: descobertas; conflitos pessoais, de relação e familiares; escola e bulling; mudanças hormonais; dúvidas sobre o futuro; responsabilidade precoce; sexo e sexualidade; inclusão e discriminação; religião e aceitação; LGBTs; etc.

A linguagem, ora descolada, ora exagerada, intercalando cenas sensíveis, sexo explícito e diálogos emocionantes, da realidade ao fantasioso, são elementos que já vimos e ouvimos falar. O diferencial que o cinema traz é algo que podemos assistir sem as cobranças moral e religiosa, mas com senso-crítico, refletindo e extraindo o melhor para a construção de novos pensamentos e deixando de lado aquilo que não nos agrega.

Relações de classes sociais, conflitos entre pais e filhos, disputas das mais diversas possíveis dentro desse universo adolescente-juvenil, temperados com sentimentos de medo, ousadia, angústia, solidão, rejeição, descobertas, traição, vão deixando o sabor cada vez mais envolvente e viciante para quem gosta de uma boa trama. 

Vale ressaltar que um dos pontos fortemente de destaque na trama é a busca por orientações sexuais e de sexualidade. Tudo parte da premissa da descoberta, seja solo ou numa relação. Há também um devido cuidado para deixar uma mensagem positiva em evidência, pois algumas coisas que correm soltas na série podem e ou devem ser evitadas enquanto que outras devem ser contempladas e trazidas para o contexto real.

É possível distinguir o exagero do socialmente aceitável, bem como perceber que a ficção é uma pintura da realidade mas, cada um pode adaptar o seu olhar crítico para o cotidiano a que pertence. Vale a pena assistir! 

Crítica: Dexter


Dexter, a melhor série que já assisti, conta a história de um
serial killer que era agente policial (perito), que diante de sua sede conseguia unir o desejo quase incontrolável de matar ao que ele considerava fazer justiça com as próprias mãos. Em suma, matava assassinos, psicopatas, serial killers, etc. Guardava uma gota de sangue de cada uma numa lâmina de vidro de suas vítimas,  como um troféu. Era inteligente, sedutor e definia o seu instinto assassino, a sua necessidade de matar, e a justiça com as próprias mãos como características do ser que o habitava: passageiro sombrio, nome que seu pai adotivo deu a essa personalidade de Dexter, depois de perceber que o filho se tornaria um psicopata, um seriado killer sedento por justiça. Foi o pai adotivo que ajudou Dexter a canalizar seu desejo. Essa série foi uma das primeiras que assisti. A construção do enredo, a trama toda em si faz você se apaixonar pelo politicamente incorreto, ou seja, o policial bonzinho, inteligente e cativante que, no seu contraturno age como um justiceiro que tem suas regras e rituais para livrar a sociedade da escória que a justiça não deu conta de fazer. A série é composta de 8 temporadas e recentemente lançaram a 9ª para dar um final descente ao personagem e à trama. Confiram! 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Das Veredas do Grande Sertão para a vida



Enfim, a travessia pelas Veredas do Grande Sertão, de João Guimarães Rosa, chegou ao final. Uma travessia que pude encarar sob várias óticas: teologias do sertão, filosofias do sertão, psicologia do sertão, poesia do sertão... Como o próprio poeta dos sertões resumiu em vários trechos de sua obra, e que é também o slogan desse blog: "O sertão é o sozinho. O sertão é dentro da gente. O sertão está em todo lugar."

O sertão, trazido sob a sensibilidade de Guimarães Rosa, tornou-se um cenário de sonho, fé e luta a céu aberto. Através de suas personagens, sertanejos, jagunços e donzelas, carregados de intensos sentimentos e regionalismo pude perceber a preciosidade geográfica da natureza, ora seca, ora verdejante, bem como os requintes culinários relatados aos detalhes. 

Um verdadeiro clássico, às vezes de compreensão não tão fácil, devido ao dialeto próprio que enreda os habitantes deste Grande Sertão sob o olhar apaixonado de Rosa. Chegar ao final desse romance tão sentimental, quanto sofrido e bruto, foi como romper paradigmas que cercam a imaginação distante de quem não conhece o coração do sertanejo das Gerais. 

Impossível não extrair pensamentos teológicos e filosóficos dessa literatura. Impossível não ver poesia em tanta bruteza de suas personagens. Impossível não cair na tentação de analisar, psicologicamente, a personalidade das personagens e principalmente a inteligência preciosíssima do autor que se debruçou de corpo e alma, tendo como bagagem, meses à fio sob o sol do sertão para extrair o máximo de suas estórias. 

Confesso, tenho essa obra desde os anos de 2001 e tentei começar a leitura por diversas vezes. Em meados de 2016 recomecei de forma mais intensa mas, ainda assim, fui interrompendo propositalmente. As últimas 200 páginas consegui concluir nos últimos 8 dias. Considerei que era o momento de finalizar essa obra, encontrar de fato o seu final e abraçar o fim. Tudo na vida tem um fim... Somos seres findáveis. Mas, o sentimento é eterno, intenso, bem como a memória dos lugares por onde passei durante essa travessia dos "Grandes Sertões". 

"Tu não achas que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor?"

Não dá pra descrever apenas um pensamento. A obra toda é repleta de aforismos que nos cravam a memória feito espinho e lateja a alma de sentimentos corajosos, reverberando em suspiros e sensações a alegria desmedida pelos rompantes certeiros de cada poesia sertaneja lançada desde os amanheceres até a cortina escura da noite abrilhantada pelas estrelas, ora sem nada, ora com a lua. 

"Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: - Meu amor!..."

Nesse romance, quase que proibido, o amor não era o pecado, mas a falta de coragem de se entregar ao desconhecido do sentimento, com certeza foi a ruína de suas personagens. A angústia exacerbada pela voz de seu protagonista, o ex-jagunço, agora chefe de bando, Riobaldo Tatarana, o urutu-branco, ficou nítida nas lágrimas derramadas em sua trágica despedida. Inocente e culpado. Coragem para as batalhas de arma e sangue mas, e no amor, na afeição ardente, desencorajado pelo desconhecido de seu interior. 

"Ela tinha amor em mim. 
E aquela era a hora do mais tarde. O céu bem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. 
Aqui a estória se acabou. 
Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba."

Acredito eu que as reverberações desse romance não se findaram em mim com o término da travessia literária. Todo fim requer um começo. Novos rompantes de pensamentos reverberados em notas poéticas, psico-filo-teológicas podem emergir destes sertões. Mas, por hora, desfecho com essa pérola narrada feito coice na cara do sentimento que teima se calar frente aos desatinos da travessia:

"(...) Ah, o senhor pensa que morte é choro e sofisma - terra funda e ossos quietos... O senhor havia de conceber alguém aurorear de todo amor e morrer como só para um."

"(...) E já parava meio longe aquele pesar, que me quebrantava. Lembro de todos, do dia, da hora. A primeira coisa que eu queria ver, e que me deu prazer, foi a marca dos tempos, numa folhinha de parede. Sosseguei de meu ser. Era feito eu me esperasse debaixo de uma árvore tão fresca. Só que uma coisa, a alguma coisa, faltava em mim. Eu estava um saco cheio de pedras."

"(...) Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum? O existir da alma é a reza... Quando estou rezando, estou fora de sujidade, à parte de toda loucura. Ou o acordar da alma é que é?"

"(...) O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." - Fim.

* Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa - Ed. Nova Fronteira - 36ª ed. RJ - 1986.


"Não vivo pra sempre... minha travessia é intensa, porém, curta. A gente sempre caminha pro fim. " (A.D.O.)

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Crítica: "Dahmer"



"Dahmer"... Respirar fundo é preciso...

Uma pausa para analisar a história recontada nessa série. É macabro, surreal, triste, carregado de angústia, dor, crueldade e ao mesmo tempo, com ausência de empatia, de sentimentos, de humanidade... Se é angustiante assistir, tento imaginar como deve ter sido a sobrevivência dos familiares das vítimas. Tento imaginar como cada uma delas passou suas últimas horas nas mãos de Jeffrey Dahmer. Porém, me abstenho de comentar o que já está bem explicitado em cada um dos 10 episódios da série da Netflix.

Em termos de estudo, para o aprendizado através das ciências que investigam comportamentos como o de Dahmer, vale a pena se atentar. Não dá para olhar com olhos clínicos somente sem se comover pelo lado humano. É um mix de sentimentos que envolvem ao telespectador. 

Da história em si guardo apenas o memorial de fotos das vítimas exposto no final do último episódio. 17 vidas ceifadas, carregadas de sonhos, desejos... Jovens que foram ludibriados por uma mente perturbada e ou maligna e a seguiram para um triste fim.

Atentei-me para um fato que foi contado nessa história e que, não sei se foi perceptível por outros olhares mas, o quanto algumas pessoas se sentiram envolvidas e atraídas por Dahmer após ele ter sido preso. A quantidade de cartas de pessoas que se declaravam como fãs e seguidores era enorme. A maldade também atrai adeptos, mesmo que seja uma maldade que esconde diversos transtornos. 

Transfiro agora para a atual realidade em que vivemos uma acirrada "briga" política. Pretendo ser objetivo em minhas colocações. O bem inspira o bem tanto quanto o mal conquista seguidores. Levando em consideração o tipo de discurso que ouvimos dos candidatos e seus seguidores é nítido entender quem prega paz e quem prega guerra, quem distribui valores e quem escancara manifestações de ódio. 

A exemplo de seus líderes, os seguidores tendem a extremizar aquilo que fica explícito nos discursos e nas ações. Até mesmo a forma de se referir ao adversário, de forma pejorativa e negativa, pode estimular de crianças a idosos. Como combater o bulling nas escolas se temos candidato que trata o outro com falta de respeito? Como combater a violência se o mesmo incita seus seguidores a "metralhar" os do adversário? Como lutar pelas minorias, pelas mulheres, se o mesmo faz piadas, desrespeita e passa um péssimo exemplo à sociedade?

Dahmer ficou conhecido como um serial killer que dopava suas vítimas, praticava alguns procedimentos considerados bárbaros e depois delas mortas praticava o canibalismo. Ainda assim, diante de tantas histórias de perversidade pelas quais suas vítimas passaram, encontrou fãs e seguidores que o idolatravam. 

Hoje, diante do que vemos e ouvimos através de uma análise de conjuntura na política nacional, bem como somos vistos por entidades internacionais de renome e até por líderes de outros países, podemos comparar que o mal, em suas mais diversas formas, atrai seguidores fiéis que estão dispostos a matar em nome de sua nefasta ideologia. 

Nessa era de explícita tecnologia, a desinformação é o carro chefe de quem joga sujo. A polarização chega ao ponto extremo de inventar mentiras para confundir quem não entende e ao mesmo ponto serve para escancarar o mal que habita no lado sombrio do humano mas que agora encontrou um porta-voz que dá liberdade e proteção para seus asseclas cometerem as mais diversas atrocidades. 

A diferença entre Dahmer e um certo candidato brasileiro é que o serial killer matou 17 pessoas enquanto que o "tal" pratica crimes de todas as formas possíveis, seja por ação, omissão, incentivo ao ódio que resulta em ataques contra opositores, acobertamento de seus comparsas, e uma ditadura velada, sem contar as ameaças às mais diversas instituições de poder. O crápula deixou um rastro de mortos, simplesmente por necessidade particular de boicotar as vacinas...


domingo, 4 de setembro de 2022

Crítica: "A desordem que ficou"



Professora: "Morrer é uma arte. Como tudo, eu faço isso excepcionalmente bem. Tão bem que parece o inferno. Tão bem que parece real. Suponho que poderia chamar de vocação." - Sylvia Plath.
- O que ela pretende com esses versos? Seria um grito de socorro? Está anunciando a sua morte?

O trecho acima refere-se à série "A desordem que ficou". As falas incitam curiosidade e pesquisa. A morte  em si causa espanto, curiosidade sobre o que vem depois e, óbvio, insegurança, medo. Até os mais céticos se rendem ao tema morte. As religiões explicam às suas maneiras e o que move as pessoas é a fé, a crença. 

Dentre tudo o que se expressa e afirmam por aí sobre a morte acredito que a arte é a maneira mais leve, pura e não deixa de ser uma verdade carregada de esperança para elucidar esse rito, esse mito, essa passagem. A poesia por exemplo é capaz de ir além do que a religião afirma e do que a ciência propõe. Ela pode caminhar sem peso nem culpa lado a lado com ambas e ainda assim tecer o seu próprio meio para explanar sua verdade.

Particularmente acredito que a morte não possa ser o fim de todas as coisas. Acredito também que a nossa memória persiste como um legado no coração daqueles que amamos. Tornamo-nos histórias recontadas entre risos e lágrimas que, com o tempo, vai se apagando lentamente neste plano. Em algum lugar, ainda nos encontraremos...

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Diálogos sobre a vida



Após analisar a experiência sentida através da série "After Life", resolvi compartilhar os pensamentos com uma grande amiga de longa data. Eis que suas palavras refletem além dos meus próprios pensamentos e aprofundam para além do que se vê a olho nu. São dádivas, pérolas de uma grande pessoa. 

A - (...) Daqui, sigo na mesma, sem novidades... Cansado de tudo... Vontade descer na primeira estação, antes do fim...

M.A. - Eu estou bem, sobrevivendo como todo mundo. Realmente o mundo e principalmente as pessoas estão muito chatas. Vontade de ir embora. Não pense que é só você, a maioria das pessoas estão assim. Só notícia triste, só desgraça. Parece que as pessoas estão mostrando o pior de si. Mas fique tranquilo e se mantenha firme, porque tudo isso estava no script. Estamos (o planeta) passando por um processo de depuração, portanto é só uma fase, logo passa. Lembre-se que por mais maluco que tudo pareça, DEUS ESTÁ NO CONTROLE DE TUDO! O seu sentido não é solitário, muita gente sentindo isso. Só os alienados é que ainda acham que a vida é um grande barato.

A - Foda, viu! Vou te mandar a minha percepção sobre essa série, e que ,e fez refletir ainda mais. A série é ótima. Já gostei desde o primeiro capítulo. Um viúvo que perdeu o sentido da vida desde que sua esposa faleceu por conta do câncer. Ele faz auto-questionamentos e não se importa mais em falar o que pensa. Drama e comédia que se misturam. Vale a pena! Do riso às lágrimas e vice versa. Acho que me vi muito nessa série. Penso que vamos nos lapidando com, as experiências ao mesmo tempo que podemos nos embrutecer com as perdas pelo caminho... Amando isso!!! Acho que eu encontro sentido na minha vida quando consigo expressar meu sentimento, cuidados... Porque não existe outra razão pra viver que não seja a de se doar por quem a gente ama... Primeiro a gente brinca e cresce. Estuda, sonha e cresce. Trabalha, faz planos e cresce. E quando se dá conta de que não precisa de nada, é porque toda experiência só serve para te fazer melhor, mais sensível, mais humano... E assim, te possibilitar a cuidar dos seus, daqueles que você ama... Mesmo que seja a distância...

M.A. - Poderia sentar e conversar sobre tudo isso com você por horas e horas. Verdadeiras descobertas sobre não que somos, mas o que vamos nos tornando ao longo do caminho, porque a gente não para, vive, aprende, evolui e cresce. O mundo tá chato, as pessoas nem se fala, tem horas que dá vontade de sumir da "civilização", ir pra onde não tenha gente. Tá difícil. Ando muito em casa, comigo mesma, e isso tem me feito muito bem. Aprendi nos últimos anos que sou a pessoa mais importante da minha vida. Sempre me doei demais nas minhas relações de amizade, família e relacionamentos e acabava esquecendo de mim. Então hoje estou cuidando de mim, me nutrindo, fazendo o que e quando me agrada. Sempre achei que era egoísmo pensar em si primeiro, mas hoje percebo que trata-se de amor próprio. Também estou me desvendando, muita coisa ruiu de 2020 e acabou me trazendo muitas verdades sobre amizades principalmente e sobre mim mesma. Fico triste pelo tempo e energia que desperdicei, amizades longas, de anos, só decepção, mas descobri que nada, mas absolutamente nada do que você doa é em vão, porque de um jeito ou de outro, por meio de uma pessoa ou de outra, você recebe TUDO aquilo de doou. Sabe aquela frase que você vê em obras, "Desculpe o transtorno estamos em reforma", é bem isso, estou em reforma e em constante construção.

Mª Amélia é uma amiga de longa data a qual admiro, respeito e tenho enorme carinho. Faz muitos anos que não nos vemos, pelo menos uns 10 anos, mas nem tempo e nem distância nos impossibilitam de cultivar nossa amizade. Com sua autorização resolvi publicar nosso diálogo. Senti que sempre há uma entrega de verdades e pensamentos quando conseguimos ter um tempinho para trocar experiências. Suas palavras, Amélia, reverberam de forma profunda trazendo a essência da vida para o acalento da alma. Obrigado por sua partilha!

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Crítica: "O último xamã"

O filme "O último xamã" (Netflix) é simplesmente excelente! Na verdade é um documentário muito bem produzido. O protagonista é um jovem, filho de médicos americanos que, em determinado ponto da vida entra numa fase de forte depressão. Em busca de sentido para sua vida, de ressignificação de valores, de luta por sobrevivência contra seus demônios interiores, ele segue em busca de diversas alternativas para prosseguir com sua jornada. Ele mesmo estipula uma norma para si num tempo determinado para que consiga sair desse buraco, desse poço que o consome cada vez mais. Se em 10 meses não houver melhora, ele estaria decidido a tirar sua própria vida. Os relatos são preciosos e verdadeiros. Em vários momentos fiz uma comparação com fatos da minha própria vida. Muitas vezes passamos por verdadeiros desertos (tempo de silêncio e solidão), tempos de travessias (caminhos certos, incertos, obstáculos...), ou em busca de um sentido maior para nossa existência (já leram "Em busca de sentido", de Viktor Franklin?), busca de respostas para muitos fatos e acontecimentos que nos perturbam o pensamento, a memória, coisas entre filhos e pais, talvez. E, é justamente isso que na maior parte dos relatos fica nitidamente explícito. A última parada desse jovem rapaz é uma aldeia onde ele experimenta a "ayhuasca". Ele deixa claro que esse chá em si não faz mágica. Eu considero que o tempo que ele se retirou em seu próprio deserto de silêncio e solidão, em busca de respostas e libertação, em busca de seu eu (ouçam a música "Caçador de mim" de Milton Nascimento), foi o ato mais importante. Vale muito a pena assistir e refletir.

O que te faz sentido? Riqueza, status, dinheiro, poder? Qual o critério para ser feliz? O que é ser inteligente? Qual o padrão da inteligência? Sabedoria ou inteligência? Não ter complexo de inferioridade. Não precisar provar que você é inteligente. Reprogramar-se. Não tenho que me provar nada, não tenho essa ambição de provar que eu sou inteligente ou provar que eu sou bem sucedido.

“O xamã Pepe é alguém que olha o mundo e não vê matéria desprovida de espírito. Ele vê vida em tudo. Ele vê uma inteligência tecer o seu caminho pelo nosso corpo através das pedras, árvores, universo, cosmo inteiro. Uma inteligência que vai muito além de qualquer coisa que o homem seja capaz de entender ou compartilhar. 

Preciso 'voltar para casa' e organizar tudo o que aprendi aqui, para fazer as pazes com os lugares de onde eu vim. Eu não estou aqui para dominar o mundo. Eu não estou aqui para ser alguém grande. Eu estou aqui para ser uma pequena parte de algo muito maior que eu e isso é libertador. Eu encontrei um lugar de paz dentro de mim. Acho que desde que eu aprenda a viver neste centro de paz, eu acredito que todo o resto vai voltar. 

Tive que passar de reagir ao plano dela, de suas mentes. O seu plano para fazer isso não tava funcionando. Mas o que me fazia continuar era o coração deles. 

A ayhuaska não deve ser idolatrada. Não acho que a ayhuaska dê coisa alguma que já não exista dentro de você. E essa foi uma mensagem dada a mim pelos espíritos das plantas. Que a chave está dentro de mim para fazer qualquer coisa que for preciso para ficar bem. Apesar de não ter sido curado sinto que eu tinha voltado com vontade de viver. 

Um dia de cada vez. (James)”

sábado, 9 de abril de 2022

Crítica: "Um sonho de liberdade"

O filme é um drama que conta a história do bancário Andy Dufresne acusado e condenado a duas prisões perpétuas pelo assassinato de sua esposa e do amante dela em 1946. Na Penitenciária Estadual de Shawshank, aonde cumpre pena, torna-se amigo do detento Red, que é conhecido por conseguir quase tudo que os presos precisam. 
 
A amizade entre Andy e Red e a esperança são fatores importantes para sua sobrevivência durante os 19 anos que passou na prisão. Nesse tempo de reclusão ele sofre brutalidades e abusos, se adapta, ajuda outros detentos, os carcereiros, os guardas e até mesmo Norton, o diretor do presídio. Por conta de sua inteligência, a experiência como banqueiro, Andy se torna importante para os planos do diretor em lavar dinheiro adquirido de forma ilícita, usando o pseudônimo de Randall Stephens. Em troca, o diretor concedia-lhe alguns benefícios e o poupava do trabalho na lavanderia.
 
Brooks, que tomava conta da biblioteca, era o preso mais velho. Em 1954, após cumprir 50 anos de sua pena ele é libertado, porém não consegue se adaptar à vida fora de Shawshank e comete suicídio. 
 
Em 1965 chega à penitenciária Tommy Williams, preso por roubo. Andy e Red tornam-se amigos dele. Numa conversa Tommy conta a Andy que esteve detido em outra prisão com um cara que se gabava por ter matado um jogador de golfe famoso e sua amante, sendo que quem foi condenado foi o marido da mulher. Andy leva a informação ao diretor que se recusa a ajuda-lo. Furioso, Dufresne o interpela mas o diretor é irredutível e o manda para a solitária por 2 meses. Nesse tempo Norton arma uma cilada e mata o jovem Tommy. A partir desse evento, Andy se prepara para mudar o rumo de sua vida.
 
Alguns dias depois de cumprir 2 meses de estadia na solitária, durante a contagem dos presos pela manhã os guardas notaram que a cela de Andy estava vazia. Norton questiona os carcereiros, os guardas e Red mas ninguém sabia explicar o desaparecimento de Dufresne. Irritado, o diretor arremessa uma pedra num pôster pendurado na parede da cela e então percebe um túnel escavado com o martelo de geólogo conseguido por Red logo nos primeiros meses de Andy na Penitenciária.

Enquanto os guardas realizam sua busca, Andy se faz passar por Randall Stephens e visita vários bancos para retirar o dinheiro lavado, em seguida envia o livro de contas para um jornal local como prova da corrupção em Shawshank. A polícia chega na penitenciária e prende Hadley, o guarda chefe, enquanto Norton comete suicídio antes de ser pego.


Red é libertado depois de ficar quarenta anos preso. Ele luta para se adaptar à vida de homem livre e teme que nunca conseguirá totalmente. Ele lembra de sua promessa feita a Andy e visita Buxton, encontrando uma pequena caixa com dinheiro e uma carta pedindo para que vá até Zihuatanejo. Red viola sua condicional e viaja até Fort Hancock, Texas, para cruzar a fronteira com o México, admitindo que finalmente sente esperança. Nas praias de Zihuatanejo, Andy e Red se reencontram.

O filme é um clássico dos cinemas. Vale a pena assistir mais de uma vez. Como não poderia faltar, anotei algumas frases célebres, reflexivas, poeticamente carregadas de esperança e verdades. 

"Esses muros são estranhos. 
No começo você odeia, 
depois se acostuma. 
E, depois de muito tempo 
você fica dependente. 
Isso é que é institucionalização." 
(Red)

"Lá fora eu era um homem honesto. 
Tive que vir para a prisão 
para virar um bandido." 
(Andy)

"Todo homem tem seu limite." 
(Red)

"Alguns pássaros 
não são feitos para gaiola." 
(Andy)

"Há uma dura realidade 
a ser encarada: 
não há como sobreviver 
do lado de fora." 
(Red)

"A esperança 
é uma coisa boa, 
talvez a melhor de todas. 
E nada que é bom 
pode morrer." 
(Carta para Red)

"Estou tão emocionado que mal consigo ficar sentado e ter um pensamento fixo na mente. Acho que é a emoção que só um homem livre poder sentir. Um homem livre no início de uma longa viagem cuja conclusão é incerta. Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero rever meu amigo e apertar sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto nos meus sonhos. Espero... Tenho esperança." (Red)

"Ocupar-se de viver ou ocupar-se de morrer?" (Red)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Crítica: "Um crime de mestre"



"(...)

Você se atreve a sair?

Você se atreve a entrar?

Quanto pode perder?

Quanto pode ganhar?

Se você entrar vai pra esquerda ou direita?

Vai até a metade ou nem isso tenta?

Você ficou tão confuso que começa devagar

Pistas longas e com curvas e você tem que acelerar

E andar muitos quilômetros em todo tipo de lugar fútil

Até que chega com temor a um local ainda mais inútil

O lugar de espera...

A gente apenas esperar...

Por um trem que vai partir

Ou um ônibus que vai chegar

Ou o avião decolar

Uma correspondência chegar

Ou a chuva passar

Ou o telefone tocar

Ou a neve tocar o chão

Ou esperar por um sim ou um não

Ou um colar de pérolas

Ou um olhar de relance

Ou uma peruca com cachos

Ou outra chance..."

 

O filme "Um crime de mestre", da Netflix, retrata uma verdadeira batalha psicológica e de evidências entre o acusado de matar sua esposa e um jovem promotor que de início estava cegado pela vaidade, mas depois de aprender com os erros encara seu adversário de forma inteligente. É uma produção digna de análise e não deixa aquém da expectativa. A trama como um todo é instigante. Não há muito o que dizer, apenas assistir e se atentar para os detalhes. 

 

Já o poema transcrito acima faz parte de uma cena emocionante quando o promotor o lê para a mulher do acusado de homicídio, que se encontra num leito de UTI entre a vida e a morte. Em se tratando de poema, não importa o gênero do filme ou da série, pois a arte como um todo tem suas derivações e conexões. Um verdadeiro complemento que eleva a qualidade da história trazendo reflexões à parte sem desfocar do assunto principal.

 

Particularmente, toda arte é uma espécie de poesia, seja falada, cantada, pintada ou interpretada. Vai mais dos olhos e ouvidos de quem enxerga e se atenta do que do conteúdo propriamente exposto. Mais um filme que vale a pena conferir

 .

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Crítica: "Sintonia"



“Sintonia” é uma excelente série brasileira da Netflix que retrata com perfeição o cotidiano das pessoas que habitam a periferia de São Paulo, também conhecida como favela para quem vê apenas por fora e de comunidade para quem enxerga por dentro. 

Os protagonistas são três jovens amigos que cresceram juntos, cada um com seu grande sonho de realização e sucesso. Apesar de caminhos diferentes a amizade é algo forte, sólido e sempre presente. Talvez por isso o título da série: "Sintonia". Existe um respeito mútuo, cuidado, amor e dentro do possível se encontram para prestigiar as conquistas do outro. 

Eles conseguem se realizar naquilo que tanto sonharam, mas nada foi fácil e não continua sendo. Entre acertos, riscos, consequências e muita superação o trio caminha por suas escolhas sem perder o contato e as raízes, algo muito típico do espírito de comunidade que habita nos moradores da periferia. Quem expande para o sucesso não esquece suas origens.  

Um conseguiu evoluir na carreira artística como MC. Outro se reencontrou dentro da religião. O terceiro conseguiu seu tão almejado posto dentro do tráfico. A realidade na periferia é tal como descrito na série, tanto no quesito de comunidade, em que todos se ajudam e se respeitam, como na questão do crime, da ordem imposta para uma boa convivência entre os membros da comunidade e a "lei do crime" que age quando alguém trai a confiança da "irmandade", quando alguém tenta explorar trabalhadores honestos.

As drogas são o carro chefe. Por isso evita-se todo tipo de violência para não chamar atenção da polícia. Há policiais corruptos, bem como bandidos que exercem um papel conciliador e protetor da comunidade. Uma inversão não apenas de valores, mas de papéis. A polícia acaba sendo conivente com o tráfico e ganha por isso. Policiais são comprados. Traidores do tráfico são punidos e silenciados com a morte. Retaliações acontecem quando matam policiais, quando morrem bandidos e quando matam inocentes. 

Há um tripé essencial entranhado não apenas no enredo da trama mas na realidade que assola as grandes comunidades periféricas brasileiras: fama, religião e crime. A fé que salva e aliena, o sucesso que dá e tira, o tráfico que mata mas as vezes é a única forma de sobrevivência. Contextos reais, vidas paralelas intimamente ligadas. A verdade tal como é sua realidade. Caminhos de fama e sucesso, dinheiro e prosperidade, fé e religião, crime e ilusão, vida e morte. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Crítica: "Missa da meia noite"



Transcrevo aqui a parte de um diálogo ocorrido a partir dos quinze minutos finais do 7º episódio da 1ª temporada da série "Missa da meia noite", da Netflix. Mas antes de dar seguimento no mesmo e de continuar minha percepção e crítica à reflexão que se tece pela fala da personagem sobre a morte e consequentemente a vida, a travessia ou o ciclo, me atenho a dar alguns adjetivos em todo o enredo, porém com o devido cuidado para não dar spoilers

O cenário da trama é uma pequena cidade construída numa ilha afastada do continente. A religião predominante é a católica, com alguns personagens muçulmanos e ateus. Existem outros diálogos profundamente interessantes com teor filosófico e reflexivo, tanto quanto questionamentos sobre a fé e a verdade que muitos buscam e outros mais tentam deter para si. 

Há também a parte fantasiosa sobre o mal disfarçado numa figura bíblica em que podemos tanto interpretar biblicamente como de forma analogicamente figurada para a nossa realidade. Tem romance, têm exageros, têm verdades, tem maldade e bondade tal qual vemos no dia a dia e, principalmente, uma grande pitada de fanatismo religioso que se manifesta pela detenção de uma verdade deturpada por quem quer poder para controlar os demais. 

Uma das coisas que chama muito a atenção nesse diálogo, além do teor profundamente reflexivo, é a interpretação do casal. A concentração e a troca de olhares durante a fala, que é feita com perfeição de entonação e sintonia, consegue nos possibilitar a conexão com cada palavra dita, que de certa forma estabelece uma ponte entre o fictício e o real, a nossa realidade. Vale muito a pena conferir.

***** 

- O que acontece?

- O que?

- Quando a gente morre, o que acontece?

- O que que acontece?

- O que acha que acontece quando a gente morre?

- Falando só de mim?

- Falando por você.

- De mim... Só de mim. Esse é o problema. Esse é o grande problema da questão. Esse conceito "eu", isso não existe. Não tá certo. Não é... Não existe. Como eu esqueci isso? Quando eu esqueci isso? O corpo para uma célula de cada vez mas o cérebro continua disparando os neurônios, como mini raios, como fogos ali dentro. Eu pensei que fosse desesperar, sentir medo, mas eu não senti nada disso. Nada. Porque eu tô ocupada demais. Ocupada demais no momento, lembrando. Claro, eu lembro que cada átomo do meu corpo foi forjado numa estrela. Essa matéria, esse corpo é praticamente só espaço vazio no fim das contas e matéria sólida? É só energia vibrando lentamente. E não existe eu. Nunca existiu. Os elétrons do meu corpo interagem e dançam com os elétrons do chão embaixo de mim e do ar que eu não respiro mais. E eu lembro, não existe sentido onde tudo aquilo acaba e eu começo. Eu lembro que eu sou energia. Não memória. Não "eu". O meu nome, a minha personalidade as minhas escolhas, tudo vem depois de mim. E eu era antes deles e eu vou ser depois. E todo o resto são imagens que eu juntei no caminho. Breves sonhos passageiros impressos no tecido do meu cérebro morrendo. E eu sou raio saltando ali, eu sou a energia disparando os neurônios e... Eu tô voltando... Só de lembrar, eu tô voltando pra casa. É como uma gota d'água caindo de volta no oceano. De onde ela sempre fez parte. Todas as coisas fazem parte. Todos nós somos partes, você, eu, a minha filhinha, minha mãe e meu pai. Todos que já existiram, toda planta, animal, todo átomo, toda estrela, toda galáxia, tudo. Tem mais galáxias no universo que grãos de areia na praia e é disso que nós estamos falando quando falamos Deus. O Deus. O cosmos e seus infinitos sonhos. Nós somos o cosmos sonhando consigo mesmo. É só um sonho que eu penso que é a minha vida, toda vez. Mas eu vou esquecer isso. Eu sempre esqueço. Eu sempre esqueço os meus sonhos. Mas agora nesse milésimo de segundo, no momento que eu lembro, no instante que eu lembro, eu compreendo tudo de uma vez. Não existe tempo. Não existe morte. A vida é um sonho, é um desejo, que fazemos de novo, de novo, de novo, de novo e de novo. E é assim por toda eternidade. Eu sou tudo isso. Eu sou tudo. Eu sou todos. Eu sou o que sou. 

***** 

Esse diálogo penetrou em meus pensamentos de forma poética, livre de preceitos religiosos e outros mais. Por isso se tornou belo, distinto, mágico, independente, uma verdadeira arte final à parte diante de um contexto que teve seus altos e baixos, ficções verdadeiras e pseudo-realidades. Me levou a um nível de reflexão além do fictício e do imaginário. Talvez pelo momento pandêmico que vivemos em comum, que nos traz consequências várias e tudo isso juntado aos problemas particulares de cada um. Outro ângulo para pensar é que que nem tudo o que parece é. As coisas são vendidas de forma bonita, com um marketing pesado por trás. Assim também são as pessoas que se vendem, ou melhor, se apresentam pela aparência. Elas demonstram ser aquilo que têm, que possuem. Estamos carentes de essência... de coisas reais... de pessoas de verdade...