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quinta-feira, 19 de junho de 2025

O sentimento que precede o final


Dia 17 de junho de 2025 foi a defesa do meu TCC com o tema "Solidão na Velhice". Foi um trabalho em grupo com 6 pessoas. E nos dias que antecederam a apresentação fiquei imaginando sobre o que esse tema significa para mim, como ele atravessa e, em especial, por toda a minha vida ao lado dos meus avôs e avós. Não apenas isso. Toda a minha infância, adolescência e juventude estive cercado de pais, tios, avôs dos amigos do coral. 

Falar sobre essa fase da vida traz mais que um gostinho de saudade que aperta o peito, traz lembranças de um tempo bem vivido, com tudo o que se tinha direito na época, em especial as amizades intensas e todos os familiares de cada um que compunha o nosso coral.

Lembro também dos cadernos com muitas perguntas que as meninas faziam e repassavam para todos os amigos e amigas responderem. Uma dessas perguntas era "O que você quer ser quando crescer?" Ao ler alguns livros de romance acabei me interessando pela psicologia. Parece que seria o caminho para entender e decifrar a complexidade da mente humana. Lembro também de muitos diálogos com a Jane e com a Riete sobre a psicologia.

Enfim, no pós pandemia, especificamente no início de janeiro de 2022 o Fábio me incentivou a começar a Psicanálise. Comprei alguns livros, fiz cursos, pesquisei e de repente conversei com a coordenadora do curso da psicologia da universidade em que estou. Minha irmã Cinthia foi outra incentivadora. Consegui uma bolsa parcial e encarei. Fato é que a formatura já é no final desse ano. 

Hoje, ao me reencontrar nessa travessia de sonhos, fé e lutas, consigo compreender um pouquinho mais do que sou, do que somos. Nós, somos a nossa história, somos o que pensamos, somos o que vivemos, somos o que construímos e o mais importante talvez, somos o que de fato levamos em nossa essência, o legado daqueles que nos precederam: pais, avos...

Queria dividir esse momento em especial com o grupo do Coral. Muitos amigos, pais, avos já não estão mais entre nós nesse mundo, mas seguem em nossos corações. Parte do que sou, vem desse tempo e por isso aqui estou dividindo um pouquinho desse momento com vocês. 

domingo, 12 de janeiro de 2025

Nas gavetas da memória


Numa roda conversa, que mistura boa prosa, belos versos, altos papos e causos antigos, com alguns entendidos no assunto como Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade, Eduardo Galeano e José Lins do Rego, através de suas obras "Sobre o tempo e a eternidade"(1995/1997), "Cadeira de balanço" (1966/2009), "O livro dos abraços" (1991/2022) e "Menino de Engenho" (1957/2001), respectivamente, algo mexeu profundamente em minhas gavetas de memórias e trouxe à luz algumas histórias que ouvi de minha avó paterna Maria Aparecida de Oliveira, a Vó Cida. 

Não dá pra descrever a sensação ao remexer essas gavetas e sentir aflorar tantas memórias. O cenário em que eram contadas, o clima, o suspense, o mistério, o pedido de silêncio e de atenção, a seriedade da dona Cida e o desfecho final que tinha uma mensagem direta e objetiva, uma verdadeira lição de respeito, educação e obediência que me causava um medo sem precedentes. Recordando esses momentos, percebo que na simplicidade de suas falas, típicas de uma pessoa da roça que não sabia ler nem escrever, e da devoção eloquente que fazia de seus causos um verdadeiro retrato, a ponto de me fazer acreditar que ela mesma havia sido testemunha ocular de cada história. Na narrativa de cada causo acontecia um ritual sagrado que acompanhavam as histórias e cabia somente a nós, eu, minha irmã e meus primos ainda crianças, validar com o nossos olhares de pura devoção e medo.

Para adentrar sua casa haviam duas formas, pelo bar que meu pai Derci e meu avô Benedito tocavam, e pela garagem, que acabava sendo uma espécie de antessala com cadeiras para quem ali chegasse prosear. Ali, nessa garagem, fechada com portões de ferro, Vó Cida passava horas espreitando pelos vãos das grades o movimento das pessoas e dos carros pela Avenida Humberto Martignoni. 

E foi justamente nos bancos dessa garagem que me tornei testemunha assídua de cadeira cativa das histórias jamais contadas em qualquer banco de escola. Por mais que fossem sempre as mesmas, não me cansava de ouvi-las. 

Havia um homem muito ruim que vivia a praticar o mal a toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Nem mesmo seu próprio pai, enfermo e acamado, ficou impune de suas maldades. No leito de sua morte, o velho pai lhe pediu água, que num ímpeto de pura crueldade urinou numa garrafa e deu ao pobre homem. Não tardou, seu pai faleceu. O castigo para tanto mal feito não tardaria. Esse homem começava a se transformar fisicamente. Pelos por todo o corpo cresciam e um rabo comprido nascia. O mal homem exilou-se para o desconhecido de um cemitério e nunca mais foi visto. Tornou-se uma lenda.

Como lenda, essa história era contada e repassada com muito mistério e dúvida. Os anos se passaram e eis que um rapaz dizia a todos que não acreditava e chegava a zombar de quem tinha medo. Muitas vezes se dizia corajoso o suficiente para ir até esse cemitério à noite, com um rabo de tatu em mãos, procurando por esse homem-bicho de pelos e rabo e, quando o encontrasse, lhe daria uma surra bem dada. 

Disse tanto que chegou a apostar com seus conhecidos que iria até esse cemitério para provar que não existia nada, mas se existisse daria um jeito. Certa noite se aprontou e foi. Lanterna numa mão e rabo de tatu na outra. Aproximou-se do cemitério e nada viu. Perambulou e nada. Confiante de que nada havia e que tudo aquilo não passava de uma lenda, virou em retirada. Foi nesse momento que deparou-se com um bicho peludo, alto e de rabo comprido. "Não era tu que me daria uma surra com rabo de tatu? Pois bem, isso é pra você aprender a não duvidar de cruza-ruim." O bicho tomou-lhe o rabo de tatu e deu uma surra no rapaz, que voltou para sua casa desorientado e enlouquecido.

Finalizado o causo, vinha a grande lição, que devemos sempre ter o respeito pelos mais velhos, pelos pais e rezar pedindo a Deus para que nada de ruim nos aconteça. Dona Cida gostava de santinhos. Tinha sobre a penteadeira o seu próprio altar com imagens compradas e ganhadas de parentes e conhecidos. Ali, fazia suas rezas diárias com o terço na mão. Uma fé enraizada na simplicidade, que lhe fora transmitida por sua mãe e adquirida ao longo de sua vida. 

Histórias assim me fazem crer nessa profecia poética de que a vida é sempre um caminhar de volta pra casa, um reencontro com a memória, com a saudade e consigo mesmo. Talvez, eu já tenha ultrapassado a fronteira que ainda permitia manter-me isento de tais pensamentos. Talvez, esteja eu consciente desse tempo, desse retorno eterno que é essa travessia. Hoje entendo minha avó, que no recontar de tantos causos, trilhava um caminho de retorno deixando por ali, simplicidade, carinho, dedicação, amor em prosa e sabor. O tempo que passa nos conecta com as memórias, e nos permite recostar a cabeça no travesseiro, com a leveza de uma criança que descansa seu corpo no colo de seus avós. O tempo e a eternidade, um caminho eterno.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Meu chão de vermelhão


Foi naquele chão de vermelhão 
Que tanto brinquei, engatinhei, andei
A felicidade dispensava o ter
A magia da criação num quintal de terra 
E possibilidades me fizeram crescer 
Frente ao amor que me viu nascer
Meu berço eterno
Tesouro sem igual
Que dispensava riquezas 
Mas que ao redor da mesa 
Se fartura na simplicidade

Carrego memórias de uma vida feliz
Sou parte viva dessa história
De orgulho e raiz
Minha herança?
A sabedoria aprendida 
Ora com o olhar
Ora como silêncio dos meus avós
Quantas lembranças
Quanta saudade
Quanta sabedoria 
Que nenhum diploma poderia me conceber
Quanto orgulho

Suas vozes ressoam pelo tempo
Reverberam em minha vida
Meu sangue carrega o seu legado
E a cada dia me espelho nas lembranças
Para melhorar
E transbordar 
O que de melhor me deram
Naquele chão de vermelhão
Vermelhão de tanto amor


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Reflexões sobre a vida, suas histórias, suas memórias e a morte



Já não vejo a morte com medo, nem como inimiga que um dia terei de enfrentar. Quanto mais o tempo de vida passa, mais tenho convicção de que estou cada vez mais perto dela. Não é melancolia, nem poesia mas uma certeza tranquilizadora que só a maturidade estabelecida pelo tempo me permite olhar para este horizonte sem medo e refletir sobre toda e qualquer possibilidade. 

A morte é um fato a se enfrentar, mas também a vivenciar. Não dá para parar a vida em função do medo que ela pode causar. Deixar de viver é morrer em vida. Pior do que a morte do corpo é passar pela vida sem ter vivido, sem ter experimentado sentimentos que só quem ama é capaz de entender. Família, filhos, amizades, o amor, todo tipo de amor. Amor é doação, é cuidado, é destemido, e capaz de enfrentar qualquer possível algoz, até a morte. 

A morte que faz sim parte da vida, como um ato último antes da travessia final, antes do fechar das cortinas. Imagino a solidão do artista quando a cortina se fecha e o plateia se esvazia. O coro de palmas vai ficando cada vez menor, menos intenso até que as luzes se apagam e então é só você, o protagonista e suas memórias. Nada mais. Há quem vá levar adiante suas falas, seus pensamentos, seus gestos e não vai deixar morrer aquele riso. E é isso que te deixará eterno no coração daqueles que você ama em reciprocidade. 

E a última morada para o corpo, hoje eu entendo, o cemitério como um recanto de sonhos adormecidos na eternidade. E, como todo sonho, carrega e guarda seus anseios, seus desejos, suas frustrações, seus medos não resolvidos, e romances muitas vezes não realizados bem como histórias de amor platônico, de amizades verdadeiras e de famílias imperfeitas mas alicerçadas de amor. As vezes, me pego a olhar para cada lápide e tento imaginar o que essa pessoa viveu, no tempo que ela permaneceu aqui neste plano, o que ela sonhou, quais foram suas lutas, por quais motivos sorriu e chorou... 

Eu sei que o tempo de esperas um dia vai ser de reencontros. Reencontro com quem já se foi, reencontro com as histórias, memórias, com o amor que em vida não se viveu, com as diversas personagens que o meu eu protagonista vivenciou e assim, explicar-me sobre cada ato que até então fugia do texto e do contexto, mas que no final de cada capítulo e de cada ciclo aparecia alguma resposta e uma compreensão. 

O tempo caminha para um horizonte infinito de possibilidades. A travessia não se acaba com a morte, hoje sei disso. Quanto mais esse caminho é trilhado, mais próximo eu me sinto dos abraços e afagos de quem precedeu a partida. Se é verdade que quem vai leva um pouquinho de você, tenho certeza de que sentirei-me em casa quando esse reencontro acontecer. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Sabedoria do amor: reinvenção e saudade


Hoje lembrei-me da minha avó Iolanda. Ela fazia um pão frito ao ovo que era uma delícia. Tentei recriar o sabor da infância, reinventando sua prática. Incrementei com queijo fresco e temperos. Reinventar, recriar, reconstruir a partir de pontos que julgamos por vezes não conseguir mais, é algo que só o amor e a saudade permitem. E essa é a nossa vida, feita de encontros, reencontros e possibilidades que só o amor e a saudade podem entender...


domingo, 14 de março de 2021

Nossas raízes, histórias e memórias



Hoje fui surpreendido com algumas fotos enviadas pela esposa do meu primo Carmelino, a Otília. O pai dele, tio Carmo, falecido ano passado, é irmão do meu avô materno Joaquim, também já falecido em 1997. 

Essas fotos, por mais que eu não conheça o lugar, trouxeram-me lembranças e uma saudade da infância e dos meus avós. De forma inexplicável sinto-me parte desse lugar. Uma conexão que não cabe em palavras. 

A simplicidade, a casinha ainda em pé, que remete à infância do meu avô e seus irmãos, em Piranguçu, Minas Gerais. Tudo transcende o olhar. Tudo é de uma beleza ímpar, carregada de humildade, sabedoria, respeito, honra, orgulho e amor.

Nessa casinha habitaram meus bisavôs Sebastião Rosa e Anna Rita Vitalina. As poucas informações que tinha a respeito deles era o que minha avó Iolanda contava. Meu avô Joaquim, um homem muito reservado, quase não falava do tempo que morou ali. 

Em cada foto fico recriando imagens em meu pensamento, de rodas de conversa ao redor de uma mesa simples, brincadeiras num terreiro de terra cercada de muito verde. Tento ultrapassar os mundos, a distância, e observar de longe tudo o que de certa forma faz parte do meu universo.

Não há como descrever a sensação de felicidade ao ver paisagens tão lindas e tão puras. Ouvindo o relato desses meus primos, Carmelino e Otília, a emoção toma conta... É como se eu tivesse visitado ali também, esse lugar que para nós tornou-se um local sagrado da família Rosa.

Não almejo muita coisa mas ainda quero conhecer de perto essa casa, além da famosa roseira, com mais de cem anos, que foi plantada pelos meus bisavôs Sebastião e Anna, dentre outras plantas que resistiram ao tempo e estão lá fazendo parte da nossa história e da nossa memória. 

Isso pode não ter muita importância aos olhos de muitos, mas aqui dentro tem um sentido especial, um significado essencial: família, raízes, memórias, sabedoria, saudades...


 









 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Retratos do meu interior

"Ter uma casinha branca de varanda
com quintal e uma janela só pra ver o sol nascer"


Eu vim de lá do interior, duma casa simples de chão com vermelhão, terraço adornado com primaveras e um jardim repleto de variedades: roseiras, samambaias, copo de leite. E uma horta bem diversificada, com couve, quiabo, alface, limão, laranja, acerola, cebolinha, abóbora, alecrim, hortelã... Era o meu reduto, meu mundo, meu recanto sagrado... o meu interior.. a casa de meus avos. 

Este quadro tem uma conotação diversificada. A elaboração, a visualização gerada na mente até a construção de cada detalhe, tudo feito com materiais naturais. O simples, o rústico, a leveza de um retrato interiorano que traz memórias de um passado vivo, saudoso e repleto de amor. 

Numa outra óptica, a paisagem retrata um sonho, o sonho da paz e do amor vivido com profundidade na infância, adolescência e juventude, na casinha simples com terraço, jardim e quintal. As lições de sabedoria deixadas por meus avos. A capela, símbolo de fé, que remete ao sagrado, das lições de vida às cobranças sobre conduta e religiosidade que minha avó mantinha firme e acesa. O poço, a água, a natureza, que me remete à luta, às grandes lutas da vida travadas diariamente. A água, que contorna seus obstáculos, que vence sua batalhas e modifica a paisagem ao seu redor. 

Histórias e lições que trago vivas no coração. Lembranças de um tempo que não volta mais. A imagem do quadro é diferente do retrato da casa de meus avós, ainda bem fresco na memória. Há uma mística nisso tudo que ainda levo tempo e silêncio pra compreender e decifrar. Serve para lembrar do passado, do alicerce, da saudade, do amor, e muito mais para alertar que um dia, um dia tudo se tornará pó ou memória.

A cada tempo, em cada estação, em cada travessia após uma longa jornada, me pego de volta nesse interior. Por hora, é o meu refúgio, guardado num lugar especial e exclusivo, onde o acesso se dá de tempos em tempos ou quando se faz necessário. Já fiz esse caminho diversas vezes, ora feliz e vencedor, ora derrotado e destruído. E quando me pegava a desanimar era ali, aí nesse reduto de interior que encontrava o meu descanso, o meu alento. Aonde minhas lágrimas eram secadas, meu suor enxugado e minhas feridas curadas no tempo e na saudade.  

Eu vim de lá do interior...




terça-feira, 12 de maio de 2020

O valor de todas as coisas

Foto: Por do sol - A.D.O. - 2015

Tenho uma certa mania de olhar para coisas descartadas à margem das ruas, nas calçadas, em qualquer lugar e logo imagino no que aquilo pode se transformar. Acostumado desde sempre a guardar objetos sem valor e até sem serventia, tenho acumulado ao longo dos anos um verdadeiro arsenal de futilidades ora deixadas pela natureza ora descartadas pelo ser humano. É certo que qualquer coisa deixada pela natureza acaba se transformando em parte da própria natureza. Em outras palavras "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", afirmou Lavoisier (1743-1794)

Trago comigo algumas lições que aprendi com meus avôs e faço questão de sempre lembrar aos meus filhos e amigos. Meu avô materno, Joaquim, num certo episódio quando eu tinha uns 16 anos, ao me ver com dificuldades para atravessar uma corda por dentro da fita de uma rede de vôlei, arrumou um galho de árvore, afinou a ponta e fez ali uma espécie de guia. Em menos de 5 minutos a corda estava passada de ponta a ponta. E pensar que antes dessa mãozinha genial do meu avô, eu levei mais de 40 minutos para passar apenas uns 2 metros de corda... 

Já com meu avô paterno, Benedito, por diversas vezes cheguei de surpresa em sua casa e presenciei ele consertando trincas na parede, colocando amarrações de ferro, arrumando encanamento. Verdadeiros homens não letrados mas de uma sabedoria ímpar. Ensinaram-me, muitas vezes sem dizer uma palavra, apenas com o olhar atento e repleto de afeto, saberes que nenhuma escola me proporcionou. Essa é a escola da vida, da minha vida!

Talvez, diante de tanta lição de vida que me foi deixada no silêncio do olhar e na saudade, é que faço questão de cultivar o simples, o improviso, olhando para as coisas deixadas e descartadas e vendo ali uma possibilidade de mudança, de transformação. Posso dizer que não vejo coisas, eu vejo arte!

E por isso, quando posso, dispenso a facilidade de comprar o pronto. Me nego a aceitar que só exista a opção do já pronto, até porque a maioria é descartável. As coisas não são duráveis. Entendo que a lei do mercado seja essa "vender algo que não dure". Objetos como a mesa e as cadeiras que meus avós maternos ganharam de presente de casamento e hoje estão comigo, perfeitos, intactos, não destruídos pelo tempo, dificilmente são comercializados. Quando se encontra algo assim, de qualidade duradoura, o preço é praticamente inacessível.

Novamente, prefiro a opção imaginada e criada, da construção que se torna única para cada objeto. O caixote que virou mesa, o pneu que virou assento, a casca do coqueito que se transformou em abajur, a tábua de passar que virou carrinho de rolemã, e por aí vai. Sem contar os inúmeros improvisos para consertar coisas, usando apenas objetos desse arsenal de futilidades descartáveis. 

Transformar, construir, lapidar, são ações que provocam mudanças não apenas no objeto em si, mas no cenário, no olhar de quem se presta a enxergar a arte no simples e principalmente no pensamento. Precisamos de tão pouco para essa vida mas acabamos lutando ou brigando por conquistas materiais, que por vezes servem apenas para satisfazer o nosso ego de ter. 

Encontrar valor nas pequenas coisas, transformá-las e dar vida, é mais que arte, é poesia. Sou um verdadeiro amante do simples, da vida... Sou apenas um sonhador do tempo... Nas palavras do grande cantor Vander Lee, na música "Alma Nua"

"A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta"




segunda-feira, 1 de julho de 2019

Casa de vó: causo, comida e amor

* Casa da vó Landa - Piraju/SP - 2000

Falar da infância é recordar meus dias na casa das avós. Ouvir causos, brincar no quintal, deitar no sofá para assistir TV, comida simples e maravilhosa a toda hora e, o principal, uma atenção repleta de cuidado e amor. Voltar no tempo não me custa, basta olhar para o simples da vida, respirar fundo, sorrir e aventurar no pensamento pelo caminho da saudade...

Tanto a vó Cida quanto a vó Landa eram grandes contadoras de causos. Enquanto criança eu adorava ouvir as fabulosas estórias que ao final traziam uma grande lição de vida. Os causos eram sempre os mesmos e talvez nos dias de hoje nem façam tanto sentido se a gente recontar, mas a forma com que elas se expressavam olhando nos olhos, dando toda a atenção e ensinando sobre a vida, ah, com certeza é algo que me marcou muito.

Cada avó tinha sua particularidade quanto ao jeito de cozinhar e cada uma também tinha a sua especialidade. Casa de vó, comida de vó, amor de vó... avós deviam ser imortais...

Na casa da vó Cida um dos pratos que eu mais gostava era arroz, feijão, carne moída e batata frita, tudo junto e misturado, ou simplesmente um viradinho de feijão que até hoje ninguém conseguiu fazer igual. Quantas vezes, eu e meu primo dividimos o mesmo prato?! Esse era um dos lados bom de ser criança. Comer no mesmo prato era tão gostoso quanto saborear a comida. O "estar junto" dava um tempero todo especial. Acredito que aos olhos da vó era algo que não tinha preço.

Já na casa da vó Landa, além da macarronada e batata frita também, um dos pratos que me marcou muito é o famoso arroz com ovo. Não foram poucas as vezes, em época de férias escolar que eu aproveitava para brincar com um amigo no quintal, chegava a hora do almoço e ela fazia esse mexidão de arroz com ovo e colocava numa bacia pra gente comer. Coisa tão boa quanto inocente, sentados no "terreiro", como ela falava, a gente comia, conversava e já planejava a próxima brincadeira. Em muitas noites também dividi o mesmo prato com meu avô Joaquim, ele sentado à mesa e eu ao seu lado...

Esse simples que vivi na casa das avós considero como um privilégio e motivo de muito orgulho. E é através desse olhar no tempo que também sempre me inspiro pra dar o meu melhor aos meus filhos. Ciente do avanço da modernidade e da tecnologia e, entendendo isso até como uma necessidade para os dias atuais, mesmo assim, procuro não deixar de mostrar que amor está muito mais nos gestos e nas pequenas coisas da vida do que no tamanho do embrulho e do presente em si.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Rosas e muros



Andando por algumas ruas da cidade ainda é possível encontrar casas com grades às quais nos permitem olhar para sua frente. Dessas casas uma minoria ainda possui um canteiro com flores que ornamentam a vista. Dentre as flores, destaque para as roseiras. As flores em si sempre me trazem boas recordações, mas as rosas remexem no baú da saudade. Meus avós Joaquim e Iolanda tinham dois canteiros na frente de sua casa e ali cabia uma variedade incrível de plantas e flores. Obviamente não faltavam rosas das mais variadas cores. Vez ou outra, alguém pedia uma rosa e minha avó ia lá cortar com cuidado. Não havia grades, apenas um muro que de tão pequeno servia de banco nos finais de tarde em que meu avô e alguns vizinhos sentavam-se para prosear. Era um tempo sem tantas preocupações.

O passar dos anos fez com que meu avô colocasse grades altas em cima dos muros. Perdemos o banco no intuito de ganhar um pouco de segurança. Hoje, a fachada da maioria das residências tem muros altos, com cercas elétricas ou serpentinas. Quem está dentro não consegue ver o movimento da rua e quem está fora não consegue apreciar os canteiros que podem existir atrás dos muros. Ficamos todos presos por dentro e por fora, reféns do medo, da insegurança e da própria sociedade adoentada. Caminhamos para um isolamento social e as antigas e boas relações seguem para sua extinção. Nossos filhos e netos talvez nunca possam desfrutar das brincadeiras que um dia tivemos, na rua, ao ar livre, na chuva e curtindo o anoitecer com o céu repleto de estrelas. 

Numa outra realidade lembro-me de quando entrei para o mundo virtual, especificamente no facebook. A possibilidade de reatar laços e manter o contato com pessoas distantes era o máximo. Amigos de infância tinham a possibilidade de trocar experiências, formar grupos, comunidades com interesses afins e desenvolver bons diálogos. A possibilidade de fazer criar novas amizades também era positiva. Tudo concorria para uma boa evolução.

Porém, com o tempo e a evolução das redes sociais, o cenário que até então era místico, belo e com perspectivas positivas acabou se tornando um campo minado, permitindo que as pessoas se manifestassem sem suas devidas máscaras e o resultado é que esses espaços se tornaram palcos de guerrilhas com atenuantes para a violência e para o ódio, sem mencionar diretamente o preconceito e o deboche com a dor alheia que o ambiente propicia. O belo, o lúdico, a poesia, a arte, a vida em si, perderam espaço.

Em suma, o ser humano é a sua própria desgraça. Tem olhos mas não enxerga o que seus atos e pensamentos podem causar. Espero que a evolução seja realmente cíclica e que num futuro não distante possamos sentir o cheiro das flores ao passear tranquilamente pelas calçadas do seu bairro, que possamos também sentir o cheiro das cartas perfumadas que traziam notícias de alguém tão querido, e que a tranquilidade nos permita andar de bicicleta à luz do luar. Ou então, caminharemos para o abismo da apatia solitária, sem amigos reais, presos em nossa própria solidão e cercados por muros.

sábado, 16 de junho de 2018

Palavra & Honra


E a palavra de ordem do dia é: "Palavra tem que ser no fio do bigode", já dizia o meu avô Joaquim. Pra quem o conheceu, sabe bem o estilo daquele mineiro baixinho, entroncado, de poucas palavras, analfabeto porém muito sábio, justo, íntegro e que acima de qualquer coisa, deixava bem claro que sua palavra valia mais que um contrato. Afinal, palavra e nome, como ele também fazia questão de afirmar, andavam sempre juntos: "Tenha palavra e terá um nome. Nunca desonre esse nome porque você desonrará não só a você."




sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sobre os dias, sobre o tempo

Sobre os meus dias já idos
Recai sempre o pensamento do que não foi
Por vezes esqueço-me dos passos dados
Das tentativas frustradas, tombos e cicatrizes deixadas
A cobrar-me do que poderia ter sido melhor
Essa viagem entre passado e presente
Equilibra-me o ser na humanês em que fui gerado
E chego à conclusão de que quando não ganhei,
No mínimo, eu aprendi a lição e refiz o caminho
Retornei mais maduro e convicto do destino ora escolhido

Sobre a linha do meu tempo
Esmiuçando as lembranças da memória
Inquieta-me a alma essa dor de saudade
Quando a ausência meu peito invade
E me leva aos bons tempos da história
Me faz assim velejar pelas nuvens do silêncio
Ouvindo ao fundo o ressoar das vozes dos meus mestres
E aos poucos aterrizo-me no presente 
Seguindo meus sonhos, meu legado
E compreendo então que a vida bem vivida já é uma vitória alcançada

Sobre o tempo que escoou
Eterna é a saudade que ficou
Imensa é a vontade de prosseguir
Forte é a necessidade em persistir
E por mais que haja dificuldade no caminhar
Fé e coragem me impulsionam a continuar

sábado, 27 de maio de 2017

O fim das coisas

*Eu e minha irmã Cinthia na mesa de nossos avós, 
Joaquim e Iolanda
"Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim"
"Naquela mesa", música de Nelson Gonçalves


Tudo tem um fim, principalmente as coisas materiais...

De frente para uma mesa com quatro cadeiras, que foi presente de casamento dos meus avós maternos Joaquim e Iolanda e hoje repousa aqui na cozinha de casa, fiquei observando as marcas do tempo. Desgastes naturais e pelo uso. Algumas partes descascadas e sem o brilho do verniz. Marcas que podem facilmente desaparecer se forem restauradas. Não será o caso.

Os objetos que foram de pessoas importantes sempre fiz questão de guardar e zelar. Olhar para eles é como abrir um álbum de fotografias na memória. A mesa e as cadeiras tem esse efeito. Lembro-me de meu avô sentado em uma ponta e eu de frente para ele. Minha avó em uma das laterais. Almoço de domingo era sempre assim...

Quantas conversas, quantas lições, quantas histórias eu ouvi sentado bem ali, juntinho deles... Coisas que o tempo não desgasta, não apaga. Dispensam restaurações. Momentos selados na história e na memória, eternizados no coração.

Eu mesmo poderia restaurar esse conjunto tão rústico e simples, mas senti a necessidade de permitir que tais objetos possam retornar também ao pó. É a lei da vida, o ciclo natural de todas as coisas. Nada é para sempre. Apenas o que vivemos, o fruto de nossas escolhas, ou o que deixamos de viver, isso sim será eterno.

Tudo merece o seu devido e respeitoso fim no tempo... As pessoas que produziram tal relíquia, bem como as que presentearam os meus avós, e eles próprios, já encontraram o seu descanso eterno. Ficaram as lembranças e a saudade...


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dama da noite

O que nos causa boas recordações? O que nos faz viajar pelo tempo e permitir suspirar a fragrância da saudade? O que nos conecta com as lembranças do passado onde a vida tinha uma significância mais simples mas que saciava a alma?

Não há resposta exata. Cada um que se ousar a refletir, percorrerá pelas entranhas de seu próprio pensamento em busca de uma essência de valor. O resultado se dará por sentimentos... Hoje eu fiz esse trajeto enquanto enamorava uma dama da noite. É um cheiro que dava as boas vindas na frente da casa de meus avós Joaquim e Iolanda. Ambos amavam todo o tipo de planta e flores e por isso tinham o seu próprio jardim e sua pequena horta no quintal, esta que foi o grande palco de minha infância.

O rústico, o improvisado, o artesanal, o inventado, a natureza, os bichos, enfim, o simples, são coisas que saciam uma parte do meu coração pois fazem parte da vida que tive junto deles. Os ensinamentos muitas vezes não se davam com palavras ou sermões, mas no olhar atento que eu tinha quando assistia meu avô trabalhando no quintal. Seu amor pela natureza me ensinou mais que as cadeiras acadêmicas.

O fascínio pelas flores, em especial, é algo natural. Elas me encantam e me prendem o olhar. Sou capaz de permanecer estático em plena contemplação e vislumbre, no silêncio absoluto, sem me importar com o tempo. E nessa conexão eu sinto meus avós vivos em meu coração, na lembrança. Eu simplesmente resgato um amor puro.

A dama da noite foi plantada na calçada. Com o tempo, por conta das folhas que forravam o chão, minha avó pediu para meu avô cortar. Mas nunca ficou sem um verde para ornamentar e sombrear a frente da casa.  Meu quarto tinha a janela voltada para a rua. O cheiro penetrava em seu interior. Admirar as plantas é cultivar o respeito que meus avós tinham para com a natureza. Isso é amor, é lembrança, é saudade, é ensinamento, é legado... 

Dama da noite e sua fragrância seduzente, hoje me conectaram com a essência da minha vida...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Simples e belo


08/12/16 - Festa em louvor a Imaculada Conceição - 
Paróquia São Gaspar Bertoni - Uberlândia-MG


A Folia de Reis adentrou a igreja e os acordes das violas, violões e cavaquinhos, unidos aos batuques e pandeiros, davam as notas e o tempo para as diversas vozes. A simplicidade das pessoas juntada ao alcance de suas canções extraem sentimentos inexplicáveis... Me leva para um tempo de saudades. As primeiras lembranças são de meus avós. A vó Cida, mãe de meu pai, sempre me contava que o meu avô Benedito participava das Folias de Reis. Eu mesmo nunca o vi mas, ainda assim, cada vez que eu vejo e ouço, é como se eu o visse também...

Encantar-se com a formosura que é o resultado da música, é indescritível. Cada som, de cada instrumento e cada voz que entra em seu determinado tempo é ímpar. Não há ego. Tudo tão simples, e tão mais belo. Contive minha emoção ao máximo ao mesmo tempo que pensava o porquê daquele sentimento. Não tem explicação. A beleza, a simplicidade, a arte, a música, a louvação não está para quem quer e sim para quem se entrega... E esse sentimento, essa sensibilidade me foram dados com amor e carinho avós...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O jardim da saudade

 
Sobre a mureta do terraço debruçada
Medindo com o tempo as primaveras 
Arqueadas sobre a pequena entrada
Enquanto dançam as rosas em ritmo de velas

O vento carrega pra terra seu pranto
Como se sua alma escapasse de si
E buscasse um elo escondido em cada canto 
Ao som do silêncio que reconhece a dor do fim

Teu olhar vagueia por entre as flores
Buscando conforto na esperança dos dias
Superando os espinhos, tristezas e dores
Remediando a ausência com reza e poesia

Velha senhora que me trouxe o amor
Por suas mãos a direção e o caminho, 
No silêncio do olhar a resposta em flor
Em teu colo o aconchego e o carinho

Reencontro seu sorriso em cada recanto
Onde há flor que brota sem vaidade
Conforto minh'alma com versos e cantos
Quando ouço sua voz no jardim da saudade

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Andanças que já fiz história


Nas andanças que já fiz história, muitas ainda teimo em apagar, outras enveredo esforços para que permaneçam na memória. Tanto tempo passou desde aquela partida. Dolorosa partida que se fez entre lágrimas e esperança: o que se deixava e o que se esperava. Era um sonho. A realidade de um sonho tomando forma rumo ao desconhecido. Partimos.

Noite fria e de céu estrelado. Não me recordo a lua. Mas sei que estava lá. Carregamos as mudanças no caminhão. Deitamos sobre os colchões, que dividiam o espaço da carroceria com caixas e móveis de cada um, e ali nos enrolamos em cobertores. Três jovens aventureiros do interior rumo à maturidade exigida pela cidade grande. Um outro amigo nos acompanhou e foi bom. Sua companhia deu-nos ânimo e coragem. Essa travessia foi uma mudança repentina que marcou nossas vidas para sempre.

Entre os dias iniciais que desbravamos naquele inferno de pedras e motores até a saga dos primeiros passos e conquistas, o medo do incerto e a dúvida do que nos aguardava foram sombras que custaram a se dissipar em dias de sol. Nada saíra conforme o planejado mas o tempo cerceou as dúvidas e nos obrigou a continuar. Nossas lágrimas silenciosas explodiam na penumbra de nossas almas. Não desistimos. Superamos.

Conquistamos o mundo, o nosso mundo. Cada qual conseguiu trilhar seu caminho e fez, desfez e refez sua trajetória. O amadurecimento fez-nos adultos, ora sob as fivelas da dor, ora sobre suspiros de amor. Não houve arrependimento, eu sei. Faríamos o mesmo caminho quantas vezes fosse necessário. Sobrevivemos.

Do dia dessa partida ao tempo de agora muita coisa mudou. Muita gente querida e amada partiu. Lembranças eternizadas em nossos corações. E toda vez que me aventuro a retornar até o berço do meu interior, não tem como não lembrar toda a travessia e reviver nostalgicamente e feliz cada suor, cada lágrima e cada passo.

Nem tudo está como deixamos. A casa em que cresci e vivi os melhores anos de minha vida já não existe mais. Um grande galpão foi construído lá. Aquela rua Delfino, palco de muitas peladas, pedaladas, pega-pega, esconde-esconde, mãe-da-rua, polícia e ladrão sempre será como a deixei no antigamente... na minha infância. Por mais que a matéria tenha sido desfeita, basta fechar os olhos e me colocar sentado naquele muro do terraço... Foram muitas primaveras.

Recentemente resolvi doar objetos que carregava como um pedaço vivo de quem já embarcou para os Céus. Desfazer de tais presentes causa uma dor que dilacera a consciência. É como enterrar novamente um pouco mais de quem se eternizou... Inexplicável. Tomei a devida coragem e o fiz. Mantenho apenas o que me é útil. Meu primeiro violão e um triciclo de ferro estão na lista dos que partirão rumo à utilidade de quem precisa mais. Quebrei minhas próprias normas, ou correntes, ou protocolos quando senti a necessidade do desfazer. Acredito que longe do canto em que acumulava poeira na minha casa terá mais brilho e mais alegria.

Aquela casa de número 72 permanece intacta no meu coração. Não se desfaz. Não se perde nem se deteriora com o tempo. Tudo o que tenho de mais precioso está guardado com muito carinho, respeito e saudade. São lembranças que estão além de qualquer objeto. E assim, nesse ciclo que a vida se tece, continuo revirando o baú da minha infância e sempre partindo rumo ao real do sonho. A maturidade que se exige em cada empreitada, hoje se faz na consciência, e a voz dos meus queridos ecoa sempre viva no pé do ouvido.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Do simples, do rústico e do improviso

No improviso das calejadas mãos
Teciam-se remendos, arranjos 
Enfeites e ferramentas 
Nada se perdia, nada se desperdiçava
Tudo se transformava, tudo se aproveitava
Não existiam problemas, tudo se ajeitava
Pobres segundo os conceitos da cultura social 
Mas com uma riqueza que não se encontra por aí
Nos altos escalões da nobreza moderna
No quintal havia variedade de frutas, folhas e legumes 
Pelo dom de suas mãos...

Tão rústico quanto bruto 
Sangue quente nas veias e de poucas palavras 
Tão caipira quanto amoroso 
Pavio curto e dedicado
Crescido na roça, sofrido na vida
Não esmorecia pelo penoso passado
Importava com seu recanto
Sua casa, suas obras
Sua companheira, sua família
E comigo, seu neto...

Do simples
Tão simples quanto a prosa
Que de tão prosa se fez verso em meus ouvidos
Lateja no peito e na alma as lembranças
Tão simples quanto a vida poderia ser
No antigamente daquele tempo
Em que existia também uma prosa que se tecia a dois 
E continha nela aquele amor de respeito
Naquela casa que se fazia reza e novena
O almoço de domingo depois da missa
Ali, tão perto do coração
Lá, tão longe das minhas mãos
Para o que não se tinha, tinha o improviso
Para o contraposto do pronto, havia o rústico
E para me fazer contemplar a vida, apenas o simples...

Ao som de uma moda de viola
Meu coração percorre longe
Passando pelo jardim das rosas
Das primaveras
Entrando pela porta da sala
Atravessando a pequena cozinha
Em direção ao quintal
Meu pé de ameixa
Que fora o avião das minhas brincadeiras
O gramado que fora o mar
A terra em que construí castelos
Então, volto sujo do quintal pro bom banho
Dali pra janta tão mais simples e saborosa
Um pouco de sala, causos e mais prosa
Até partir pra cama em quase tarde da noite
Enfeitada com a colcha de retalhos pelas mãos dela
As mesmas mãos que se me espera a tua benção...