O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
quinta-feira, 19 de junho de 2025
O sentimento que precede o final
domingo, 12 de janeiro de 2025
Nas gavetas da memória
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
Meu chão de vermelhão
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
Reflexões sobre a vida, suas histórias, suas memórias e a morte
Já não vejo a morte com medo, nem como inimiga que um dia terei de enfrentar. Quanto mais o tempo de vida passa, mais tenho convicção de que estou cada vez mais perto dela. Não é melancolia, nem poesia mas uma certeza tranquilizadora que só a maturidade estabelecida pelo tempo me permite olhar para este horizonte sem medo e refletir sobre toda e qualquer possibilidade.
A morte é um fato a se enfrentar, mas também a vivenciar. Não dá para parar a vida em função do medo que ela pode causar. Deixar de viver é morrer em vida. Pior do que a morte do corpo é passar pela vida sem ter vivido, sem ter experimentado sentimentos que só quem ama é capaz de entender. Família, filhos, amizades, o amor, todo tipo de amor. Amor é doação, é cuidado, é destemido, e capaz de enfrentar qualquer possível algoz, até a morte.
A morte que faz sim parte da vida, como um ato último antes da travessia final, antes do fechar das cortinas. Imagino a solidão do artista quando a cortina se fecha e o plateia se esvazia. O coro de palmas vai ficando cada vez menor, menos intenso até que as luzes se apagam e então é só você, o protagonista e suas memórias. Nada mais. Há quem vá levar adiante suas falas, seus pensamentos, seus gestos e não vai deixar morrer aquele riso. E é isso que te deixará eterno no coração daqueles que você ama em reciprocidade.
E a última morada para o corpo, hoje eu entendo, o cemitério como um recanto de sonhos adormecidos na eternidade. E, como todo sonho, carrega e guarda seus anseios, seus desejos, suas frustrações, seus medos não resolvidos, e romances muitas vezes não realizados bem como histórias de amor platônico, de amizades verdadeiras e de famílias imperfeitas mas alicerçadas de amor. As vezes, me pego a olhar para cada lápide e tento imaginar o que essa pessoa viveu, no tempo que ela permaneceu aqui neste plano, o que ela sonhou, quais foram suas lutas, por quais motivos sorriu e chorou...
Eu sei que o tempo de esperas um dia vai ser de reencontros. Reencontro com quem já se foi, reencontro com as histórias, memórias, com o amor que em vida não se viveu, com as diversas personagens que o meu eu protagonista vivenciou e assim, explicar-me sobre cada ato que até então fugia do texto e do contexto, mas que no final de cada capítulo e de cada ciclo aparecia alguma resposta e uma compreensão.
O tempo caminha para um horizonte infinito de possibilidades. A travessia não se acaba com a morte, hoje sei disso. Quanto mais esse caminho é trilhado, mais próximo eu me sinto dos abraços e afagos de quem precedeu a partida. Se é verdade que quem vai leva um pouquinho de você, tenho certeza de que sentirei-me em casa quando esse reencontro acontecer.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2021
Sabedoria do amor: reinvenção e saudade
Hoje lembrei-me da minha avó
Iolanda. Ela fazia um pão frito ao ovo que era uma delícia. Tentei recriar o
sabor da infância, reinventando sua prática. Incrementei com queijo fresco e
temperos. Reinventar, recriar, reconstruir a partir de pontos que julgamos por
vezes não conseguir mais, é algo que só o amor e a saudade permitem. E essa é a
nossa vida, feita de encontros, reencontros e possibilidades que só o amor e a
saudade podem entender...
domingo, 14 de março de 2021
Nossas raízes, histórias e memórias
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Retratos do meu interior
com quintal e uma janela só pra ver o sol nascer"
Eu vim de lá do interior, duma casa simples de chão com vermelhão, terraço adornado com primaveras e um jardim repleto de variedades: roseiras, samambaias, copo de leite. E uma horta bem diversificada, com couve, quiabo, alface, limão, laranja, acerola, cebolinha, abóbora, alecrim, hortelã... Era o meu reduto, meu mundo, meu recanto sagrado... o meu interior.. a casa de meus avos.
Este quadro tem uma conotação diversificada. A elaboração, a visualização gerada na mente até a construção de cada detalhe, tudo feito com materiais naturais. O simples, o rústico, a leveza de um retrato interiorano que traz memórias de um passado vivo, saudoso e repleto de amor.
Numa outra óptica, a paisagem retrata um sonho, o sonho da paz e do amor vivido com profundidade na infância, adolescência e juventude, na casinha simples com terraço, jardim e quintal. As lições de sabedoria deixadas por meus avos. A capela, símbolo de fé, que remete ao sagrado, das lições de vida às cobranças sobre conduta e religiosidade que minha avó mantinha firme e acesa. O poço, a água, a natureza, que me remete à luta, às grandes lutas da vida travadas diariamente. A água, que contorna seus obstáculos, que vence sua batalhas e modifica a paisagem ao seu redor.
Histórias e lições que trago vivas no coração. Lembranças de um tempo que não volta mais. A imagem do quadro é diferente do retrato da casa de meus avós, ainda bem fresco na memória. Há uma mística nisso tudo que ainda levo tempo e silêncio pra compreender e decifrar. Serve para lembrar do passado, do alicerce, da saudade, do amor, e muito mais para alertar que um dia, um dia tudo se tornará pó ou memória.
A cada tempo, em cada estação, em cada travessia após uma longa jornada, me pego de volta nesse interior. Por hora, é o meu refúgio, guardado num lugar especial e exclusivo, onde o acesso se dá de tempos em tempos ou quando se faz necessário. Já fiz esse caminho diversas vezes, ora feliz e vencedor, ora derrotado e destruído. E quando me pegava a desanimar era ali, aí nesse reduto de interior que encontrava o meu descanso, o meu alento. Aonde minhas lágrimas eram secadas, meu suor enxugado e minhas feridas curadas no tempo e na saudade.
Eu vim de lá do interior...
terça-feira, 12 de maio de 2020
O valor de todas as coisas
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Casa de vó: causo, comida e amor
Falar da infância é recordar meus dias na casa das avós. Ouvir causos, brincar no quintal, deitar no sofá para assistir TV, comida simples e maravilhosa a toda hora e, o principal, uma atenção repleta de cuidado e amor. Voltar no tempo não me custa, basta olhar para o simples da vida, respirar fundo, sorrir e aventurar no pensamento pelo caminho da saudade...
Tanto a vó Cida quanto a vó Landa eram grandes contadoras de causos. Enquanto criança eu adorava ouvir as fabulosas estórias que ao final traziam uma grande lição de vida. Os causos eram sempre os mesmos e talvez nos dias de hoje nem façam tanto sentido se a gente recontar, mas a forma com que elas se expressavam olhando nos olhos, dando toda a atenção e ensinando sobre a vida, ah, com certeza é algo que me marcou muito.
Cada avó tinha sua particularidade quanto ao jeito de cozinhar e cada uma também tinha a sua especialidade. Casa de vó, comida de vó, amor de vó... avós deviam ser imortais...
Na casa da vó Cida um dos pratos que eu mais gostava era arroz, feijão, carne moída e batata frita, tudo junto e misturado, ou simplesmente um viradinho de feijão que até hoje ninguém conseguiu fazer igual. Quantas vezes, eu e meu primo dividimos o mesmo prato?! Esse era um dos lados bom de ser criança. Comer no mesmo prato era tão gostoso quanto saborear a comida. O "estar junto" dava um tempero todo especial. Acredito que aos olhos da vó era algo que não tinha preço.
Já na casa da vó Landa, além da macarronada e batata frita também, um dos pratos que me marcou muito é o famoso arroz com ovo. Não foram poucas as vezes, em época de férias escolar que eu aproveitava para brincar com um amigo no quintal, chegava a hora do almoço e ela fazia esse mexidão de arroz com ovo e colocava numa bacia pra gente comer. Coisa tão boa quanto inocente, sentados no "terreiro", como ela falava, a gente comia, conversava e já planejava a próxima brincadeira. Em muitas noites também dividi o mesmo prato com meu avô Joaquim, ele sentado à mesa e eu ao seu lado...
Esse simples que vivi na casa das avós considero como um privilégio e motivo de muito orgulho. E é através desse olhar no tempo que também sempre me inspiro pra dar o meu melhor aos meus filhos. Ciente do avanço da modernidade e da tecnologia e, entendendo isso até como uma necessidade para os dias atuais, mesmo assim, procuro não deixar de mostrar que amor está muito mais nos gestos e nas pequenas coisas da vida do que no tamanho do embrulho e do presente em si.
quinta-feira, 11 de abril de 2019
Rosas e muros
Andando por algumas ruas da cidade ainda é possível encontrar casas com grades às quais nos permitem olhar para sua frente. Dessas casas uma minoria ainda possui um canteiro com flores que ornamentam a vista. Dentre as flores, destaque para as roseiras. As flores em si sempre me trazem boas recordações, mas as rosas remexem no baú da saudade. Meus avós Joaquim e Iolanda tinham dois canteiros na frente de sua casa e ali cabia uma variedade incrível de plantas e flores. Obviamente não faltavam rosas das mais variadas cores. Vez ou outra, alguém pedia uma rosa e minha avó ia lá cortar com cuidado. Não havia grades, apenas um muro que de tão pequeno servia de banco nos finais de tarde em que meu avô e alguns vizinhos sentavam-se para prosear. Era um tempo sem tantas preocupações.
O passar dos anos fez com que meu avô colocasse grades altas em cima dos muros. Perdemos o banco no intuito de ganhar um pouco de segurança. Hoje, a fachada da maioria das residências tem muros altos, com cercas elétricas ou serpentinas. Quem está dentro não consegue ver o movimento da rua e quem está fora não consegue apreciar os canteiros que podem existir atrás dos muros. Ficamos todos presos por dentro e por fora, reféns do medo, da insegurança e da própria sociedade adoentada. Caminhamos para um isolamento social e as antigas e boas relações seguem para sua extinção. Nossos filhos e netos talvez nunca possam desfrutar das brincadeiras que um dia tivemos, na rua, ao ar livre, na chuva e curtindo o anoitecer com o céu repleto de estrelas.
Numa outra realidade lembro-me de quando entrei para o mundo virtual, especificamente no facebook. A possibilidade de reatar laços e manter o contato com pessoas distantes era o máximo. Amigos de infância tinham a possibilidade de trocar experiências, formar grupos, comunidades com interesses afins e desenvolver bons diálogos. A possibilidade de fazer criar novas amizades também era positiva. Tudo concorria para uma boa evolução.
Porém, com o tempo e a evolução das redes sociais, o cenário que até então era místico, belo e com perspectivas positivas acabou se tornando um campo minado, permitindo que as pessoas se manifestassem sem suas devidas máscaras e o resultado é que esses espaços se tornaram palcos de guerrilhas com atenuantes para a violência e para o ódio, sem mencionar diretamente o preconceito e o deboche com a dor alheia que o ambiente propicia. O belo, o lúdico, a poesia, a arte, a vida em si, perderam espaço.
Em suma, o ser humano é a sua própria desgraça. Tem olhos mas não enxerga o que seus atos e pensamentos podem causar. Espero que a evolução seja realmente cíclica e que num futuro não distante possamos sentir o cheiro das flores ao passear tranquilamente pelas calçadas do seu bairro, que possamos também sentir o cheiro das cartas perfumadas que traziam notícias de alguém tão querido, e que a tranquilidade nos permita andar de bicicleta à luz do luar. Ou então, caminharemos para o abismo da apatia solitária, sem amigos reais, presos em nossa própria solidão e cercados por muros.
sábado, 16 de junho de 2018
Palavra & Honra
E a palavra de ordem do dia é: "Palavra tem que ser no fio do bigode", já dizia o meu avô Joaquim. Pra quem o conheceu, sabe bem o estilo daquele mineiro baixinho, entroncado, de poucas palavras, analfabeto porém muito sábio, justo, íntegro e que acima de qualquer coisa, deixava bem claro que sua palavra valia mais que um contrato. Afinal, palavra e nome, como ele também fazia questão de afirmar, andavam sempre juntos: "Tenha palavra e terá um nome. Nunca desonre esse nome porque você desonrará não só a você."
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Sobre os dias, sobre o tempo
Retornei mais maduro e convicto do destino ora escolhido
Fé e coragem me impulsionam a continuar
sábado, 27 de maio de 2017
O fim das coisas
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim"
"Naquela mesa", música de Nelson Gonçalves
De frente para uma mesa com quatro cadeiras, que foi presente de casamento dos meus avós maternos Joaquim e Iolanda e hoje repousa aqui na cozinha de casa, fiquei observando as marcas do tempo. Desgastes naturais e pelo uso. Algumas partes descascadas e sem o brilho do verniz. Marcas que podem facilmente desaparecer se forem restauradas. Não será o caso.
Os objetos que foram de pessoas importantes sempre fiz questão de guardar e zelar. Olhar para eles é como abrir um álbum de fotografias na memória. A mesa e as cadeiras tem esse efeito. Lembro-me de meu avô sentado em uma ponta e eu de frente para ele. Minha avó em uma das laterais. Almoço de domingo era sempre assim...
Quantas conversas, quantas lições, quantas histórias eu ouvi sentado bem ali, juntinho deles... Coisas que o tempo não desgasta, não apaga. Dispensam restaurações. Momentos selados na história e na memória, eternizados no coração.
Eu mesmo poderia restaurar esse conjunto tão rústico e simples, mas senti a necessidade de permitir que tais objetos possam retornar também ao pó. É a lei da vida, o ciclo natural de todas as coisas. Nada é para sempre. Apenas o que vivemos, o fruto de nossas escolhas, ou o que deixamos de viver, isso sim será eterno.
Tudo merece o seu devido e respeitoso fim no tempo... As pessoas que produziram tal relíquia, bem como as que presentearam os meus avós, e eles próprios, já encontraram o seu descanso eterno. Ficaram as lembranças e a saudade...
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Dama da noite
Não há resposta exata. Cada um que se ousar a refletir, percorrerá pelas entranhas de seu próprio pensamento em busca de uma essência de valor. O resultado se dará por sentimentos... Hoje eu fiz esse trajeto enquanto enamorava uma dama da noite. É um cheiro que dava as boas vindas na frente da casa de meus avós Joaquim e Iolanda. Ambos amavam todo o tipo de planta e flores e por isso tinham o seu próprio jardim e sua pequena horta no quintal, esta que foi o grande palco de minha infância.
O rústico, o improvisado, o artesanal, o inventado, a natureza, os bichos, enfim, o simples, são coisas que saciam uma parte do meu coração pois fazem parte da vida que tive junto deles. Os ensinamentos muitas vezes não se davam com palavras ou sermões, mas no olhar atento que eu tinha quando assistia meu avô trabalhando no quintal. Seu amor pela natureza me ensinou mais que as cadeiras acadêmicas.
O fascínio pelas flores, em especial, é algo natural. Elas me encantam e me prendem o olhar. Sou capaz de permanecer estático em plena contemplação e vislumbre, no silêncio absoluto, sem me importar com o tempo. E nessa conexão eu sinto meus avós vivos em meu coração, na lembrança. Eu simplesmente resgato um amor puro.
A dama da noite foi plantada na calçada. Com o tempo, por conta das folhas que forravam o chão, minha avó pediu para meu avô cortar. Mas nunca ficou sem um verde para ornamentar e sombrear a frente da casa. Meu quarto tinha a janela voltada para a rua. O cheiro penetrava em seu interior. Admirar as plantas é cultivar o respeito que meus avós tinham para com a natureza. Isso é amor, é lembrança, é saudade, é ensinamento, é legado...
Dama da noite e sua fragrância seduzente, hoje me conectaram com a essência da minha vida...
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Simples e belo
A Folia de Reis adentrou a igreja e os acordes das violas, violões e cavaquinhos, unidos aos batuques e pandeiros, davam as notas e o tempo para as diversas vozes. A simplicidade das pessoas juntada ao alcance de suas canções extraem sentimentos inexplicáveis... Me leva para um tempo de saudades. As primeiras lembranças são de meus avós. A vó Cida, mãe de meu pai, sempre me contava que o meu avô Benedito participava das Folias de Reis. Eu mesmo nunca o vi mas, ainda assim, cada vez que eu vejo e ouço, é como se eu o visse também...
Encantar-se com a formosura que é o resultado da música, é indescritível. Cada som, de cada instrumento e cada voz que entra em seu determinado tempo é ímpar. Não há ego. Tudo tão simples, e tão mais belo. Contive minha emoção ao máximo ao mesmo tempo que pensava o porquê daquele sentimento. Não tem explicação. A beleza, a simplicidade, a arte, a música, a louvação não está para quem quer e sim para quem se entrega... E esse sentimento, essa sensibilidade me foram dados com amor e carinho avós...
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
O jardim da saudade
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Andanças que já fiz história
Nas andanças que já fiz história, muitas ainda teimo em apagar, outras enveredo esforços para que permaneçam na memória. Tanto tempo passou desde aquela partida. Dolorosa partida que se fez entre lágrimas e esperança: o que se deixava e o que se esperava. Era um sonho. A realidade de um sonho tomando forma rumo ao desconhecido. Partimos.
Noite fria e de céu estrelado. Não me recordo a lua. Mas sei que estava lá. Carregamos as mudanças no caminhão. Deitamos sobre os colchões, que dividiam o espaço da carroceria com caixas e móveis de cada um, e ali nos enrolamos em cobertores. Três jovens aventureiros do interior rumo à maturidade exigida pela cidade grande. Um outro amigo nos acompanhou e foi bom. Sua companhia deu-nos ânimo e coragem. Essa travessia foi uma mudança repentina que marcou nossas vidas para sempre.
Entre os dias iniciais que desbravamos naquele inferno de pedras e motores até a saga dos primeiros passos e conquistas, o medo do incerto e a dúvida do que nos aguardava foram sombras que custaram a se dissipar em dias de sol. Nada saíra conforme o planejado mas o tempo cerceou as dúvidas e nos obrigou a continuar. Nossas lágrimas silenciosas explodiam na penumbra de nossas almas. Não desistimos. Superamos.
Conquistamos o mundo, o nosso mundo. Cada qual conseguiu trilhar seu caminho e fez, desfez e refez sua trajetória. O amadurecimento fez-nos adultos, ora sob as fivelas da dor, ora sobre suspiros de amor. Não houve arrependimento, eu sei. Faríamos o mesmo caminho quantas vezes fosse necessário. Sobrevivemos.
Do dia dessa partida ao tempo de agora muita coisa mudou. Muita gente querida e amada partiu. Lembranças eternizadas em nossos corações. E toda vez que me aventuro a retornar até o berço do meu interior, não tem como não lembrar toda a travessia e reviver nostalgicamente e feliz cada suor, cada lágrima e cada passo.
Nem tudo está como deixamos. A casa em que cresci e vivi os melhores anos de minha vida já não existe mais. Um grande galpão foi construído lá. Aquela rua Delfino, palco de muitas peladas, pedaladas, pega-pega, esconde-esconde, mãe-da-rua, polícia e ladrão sempre será como a deixei no antigamente... na minha infância. Por mais que a matéria tenha sido desfeita, basta fechar os olhos e me colocar sentado naquele muro do terraço... Foram muitas primaveras.
Recentemente resolvi doar objetos que carregava como um pedaço vivo de quem já embarcou para os Céus. Desfazer de tais presentes causa uma dor que dilacera a consciência. É como enterrar novamente um pouco mais de quem se eternizou... Inexplicável. Tomei a devida coragem e o fiz. Mantenho apenas o que me é útil. Meu primeiro violão e um triciclo de ferro estão na lista dos que partirão rumo à utilidade de quem precisa mais. Quebrei minhas próprias normas, ou correntes, ou protocolos quando senti a necessidade do desfazer. Acredito que longe do canto em que acumulava poeira na minha casa terá mais brilho e mais alegria.
Aquela casa de número 72 permanece intacta no meu coração. Não se desfaz. Não se perde nem se deteriora com o tempo. Tudo o que tenho de mais precioso está guardado com muito carinho, respeito e saudade. São lembranças que estão além de qualquer objeto. E assim, nesse ciclo que a vida se tece, continuo revirando o baú da minha infância e sempre partindo rumo ao real do sonho. A maturidade que se exige em cada empreitada, hoje se faz na consciência, e a voz dos meus queridos ecoa sempre viva no pé do ouvido.
terça-feira, 26 de julho de 2016
Do simples, do rústico e do improviso
Um pouco de sala, causos e mais prosa
Até partir pra cama em quase tarde da noite
Enfeitada com a colcha de retalhos pelas mãos dela
As mesmas mãos que se me espera a tua benção...


































