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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Felicidade não se possui - parte II



"Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura"

(Milton Nascimento - "Caçador de Mim")

Quanta mística, quanta espiritualidade, quanta sensibilidade, quanta luz... essa obra de arte carrega. E a arte tem em si, de forma tão potente, única, mágica, o poder de transcender para além de qualquer fronteira, seja em nós, seja física, seja emocional... 

E assim, retomo para a continuação de "Felicidade não se possui - parte II", caçando cada vez mais por aquilo que me possibilitará estar feliz, que seja por um momento, um tempo, um dia, uns minutos ou uma fração de segundos. Se o milagre acontece quando a gente vai à luta, que essa luta seja incansavelmente gostosa, saborosa e que cada esforço valha a pena. Se a vida se dá é no meio da travessia, como escreveu Guimarães Rosa, e eu não canso de repetir, que façamos isso intensamente. 

Bom, mergulhando de volta na questão da felicidade, penso e acredito que 
a gente nunca, nunca e nunca, seja no individual, na parceria, no coletivo, a gente nunca vai ser feliz. Sabe por quê? A felicidade não é um negócio que você vai ter e nunca mais vai te faltar. Vamos ter possibilidades de estarmos felizes em diversas situações. Podemos estar felizes fazendo o que gostamos, ao lado de quem a gente ama, e mesmo assim, estando ao lado de quem a gente ama e fazendo aquilo que gostamos, nem todo dia, nem todo momento, nem toda hora e segundo, estaremos felizes. Tristezas e decepções permeiam os momentos de felicidade. Estar ciente disso, é estar maduro o suficiente para superar todas as nuances enquanto a felicidade está ausente. A felicidade será cada vez mais constante cada vez que conseguirmos superar situações adversas.

Não existe fórmula, não existe o princípio da felicidade, não existe uma receita para a felicidade e nunca vai existir. E quem vende isso, quem coloca dessa forma, como os gurus da mística, da espiritualidade e da mídia, sejam eles, coaching's, líderes religiosos ou influencer's, que descobriram uma forma de encantar a quem, principalmente, esteja passando por um momento de fragilidade e assim vendem seus produtos em forma de receita pronta, e que tudo resolverá se você seguir o passo a passo ali descrito. Mas, e quem faz tudo o que está nesse manual e mesmo assim não consegue romper os obstáculos e tampouco alcançar ou conquistar a tão desejada felicidade? Essa pessoa estaria condenada à infelicidade eterna, fruto de suas escolhas, ou de sua falta de fé, ou de sua falta de sorte, ou abandonada pelo seu Deus ou deuses? Há uma responsabilidade muito grande quando se quer atingir públicos em massa, porque ao jogar a ideia, a fórmula pronta para todos sem saber da história de cada um é criar um mecanismo de pura concorrência, não levando em conta a individualidade de cada um. Quem conseguir encontrar a felicidade através da fórmula é merecedor e quem não conseguir, por questões das mais diversas imagináveis, pode se considerar um fracassado, um derrotado e isso impactará de tal forma negativa na vida dessa pessoa que contribuirá apenas e somente para deixa-la pior. Por isso que existe a terapia individual, que é realizada pelo profissional competente. Existe terapia de grupo, que também segue um formato devidamente ético e responsável. 

A questão é que a felicidade nunca funcionará dessa forma como os midiáticos vendem. Se não tivermos consciência de que a felicidade são momentos, estaremos fadados a nos sentir fracassados, segundo o padrão colocado pelos gurus. Fujamos dos padrões impostos, sejamos autênticos em nossa busca e em nossas escolhas. As pessoas amamos são as que mais nos deixam felizes, mas também são as que mais nos decepcionam. Uma pessoa aleatória, a qual não faz parte do nosso círculo de vida, no máximo conseguirá extrair de nós um momento de desprazer, de raiva, que poderá gerar um desentendimento. Passada a situação, seguiremos nossa vida normal sem lembrar da existência da mesma. 

Precisamos nos reeducar na forma de pensar, entender e aceitar o que de fato está na questão da felicidade. Nada vem pronto. Nada será tão fácil como padronizado nos bonitos e sensíveis discursos de quem diz ter vencido na vida após longas batalhas de superação. A busca não pode se resumir numa desenfreada luta para "ser feliz". Quero ser feliz, porque aquele "guru" é feliz e tem a receita da felicidade. Isso é balela pra vender produtos de auto ajuda, o que de fato não seria ruim, se houvesse uma responsabilidade em dizer a realidade e não a idealização inescrupulosa em palavras bonitas. Se considerarmos a felicidade como algo a ser buscado como meta, acredito que também não funciona. Felicidade não é uma linha de chegada, um topo da montanha a ser alcançada. Longe disso. A felicidade está em vários momentos da corrida, em vários pontos da subida, quando você para e contempla toda a paisagem e a natureza ao redor, por diversos ângulos e isso te sacia a alma de forma que não existem palavras capazes de descrever tamanha emoção. A felicidade está diretamente ligada ao verbo "estar". A felicidade é ação, movimento, requer atitude, requer renúncias também. 

Que sejamos capazes de ampliar nosso horizonte para captar as inúmeras paisagens, que possamos ter ciência da nossa capacidade de movimentar nossa vida e sensíveis para os momentos que de fato estamos felizes fazendo aquilo que gostamos, ou ao lado de quem amamos, ou apenas cultivando flores, narrando fatos, fazendo poemas, cantando paras os animais. Que tenhamos senso crítico e respeito por nós mesmos para que consigamos nos libertar dos padrões impostos e ter clareza que cada um é o seu próprio padrão, o seu próprio universo a ser explorado, assim como diz a música "Caçador de Mim".

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Felicidade não se possui - parte I


O ano era 1998. Exatamente 20 de agosto de 1998. Próximo de completar meus 22 anos de idade, ainda na cidade de Piraju, interior de São Paulo, recém formado em Administração de Empresas e com  exatamente 8 anos na farmácia da minha querida amiga e grande irmã da vida, Heloise, a qual compartilhamos muitas experiências, situações adversas entre alegrias, frustrações, superações, apoio incondicional e parceria de alma. Nossa amizade está para além de lindas palavras. 

Nesse tempo, participava ativamente em várias instâncias da Pastoral da Juventude, como coordenador de grupo de base, representante paroquial junto à Diocese de Ourinhos e membro da Comissão Diocesana da PJ. No ano de 2000 me mudaria para a capital paulista. Uma viagem inesquecível, numa noite fria, em cima de um caminhão lotado de mudança e olhando para o céu estrelado. Mas essa é outra história. 

A data mencionada, 20/08/98, é para trazer à memória um poema que foi musicado. Talvez, mais interessante que o próprio teor da mensagem da música, é lembrar que a inspiração se deu a partir de um bate papo entre amigos. Ah, a importância das amizades em nossa vida é algo indescritível. Sendo assim, faço questão de trazer a letra e a menção inicial sobre a criação da mesma. No final, estará o link aqui no blog, desse poema musicado.

"Felicidade, onde estás?"

Desde que ouvi falar
Dessa tal felicidade
Sai em sua busca
Com toda liberdade

Voei no mais alto dos céus
Percorri vários caminhos
Cruzei mares e oceanos
Mas sempre voltei sozinho

Cantei, rezei e até chorei
Pedi pra Deus manda-la enfim
Mas somente não a encontrei
Porque jamais olhei pra mim


“...Numa conversa entre amigos, sobre a ‘felicidade’, como a conquistar, o que ela seria e representava, a conclusão foi de que nunca damos conta do que habita em nós, sempre buscamos o que não temos e não valorizamos o que temos...” - Ailton Domingues de Oliveira - 20/08/98


Fiz questão de trazer esse escrito para compor alguns pensamentos atuais. A questão é a felicidade, sobre a felicidade, a busca, as fórmulas prontas, o caminho, a idealização e a realidade. A busca pelo "ser feliz" é algo que está além das receitas místicas, triviais, colossais, internéticas, midiáticas, espiritualísticas, mediúnicas, das ciências divinas ocultas do sarapatel milagroso do capim santo e profano... Amém! 

Brincadeiras sérias à parte, faço questão de mencionar uma música que pode muito nos ajudar a refletir sobre a questão da busca pela felicidade. Busca essa que pode muito bem estar sendo mal direcionada. Milton Nascimento, com muita luz, trouxe na canção "Caçador de mim", algo que pode consolidar nosso pensamento acerca da travessia, das lutas, da busca pela felicidade, que muito bem pode ser entendida como a busca pelo próprio eu.

Encerro aqui a primeira parte desse escrito com o link da música "Caçador de Mim" de Milton Nascimento. E na segunda parte, a continuidade pela busca da felicidade numa perspectiva mais crítica e olhares para as ciências e em especial para a essência. 



domingo, 2 de agosto de 1998

Felicidade, onde estás?

“Desde que ouvi falar
Dessa tal felicidade
Sai em sua busca
Com toda liberdade

Voei no mais alto dos céus
Percorri vários caminhos
Cruzei mares e oceanos
Mas sempre voltei sozinho

Cantei, rezei e até chorei
Pedi pra Deus manda-la enfim
Mas somente não a encontrei
Porque jamais olhei pra mim”


“...Numa conversa entre amigos, sobre a ‘felicidade’, como a conquistar, o que ela seria e representava. A conclusão foi de que nunca damos conta do que habita em nós, sempre buscamos o que não temos e não valorizamos o que temos...”

Ailton Domingues de Oliveira

20/08/98