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quinta-feira, 21 de março de 2024

Das lutas nas tempestades às tempestades sem lutas



13/04/2016 e 08/01/2023 foi um tempo atípico em muitas concepções. Momentos grotescos na história da democracia brasileira. Ideologias em alta. A ebulição do ódio já fumegava pelas têmporas e vísceras de demônios despertados pela cobiça do poder pelo poder. Um golpe político partidário desestabilizou a ordem. Motivos forjados que levaram o parlamento a sentenciar uma pessoa inocente, não chegaram nem perto de crimes cometidos por um desgoverno nefasto, promíscuo, criminoso, prostituído de ideologias corrompidas em prol de mero enriquecimento ilícito e uma necessidade quase sexual de se ostentar no trono do poder. Talvez, nada disso tivesse acontecido se, quando um boçal exaltou um torturador, tivesse saído algemado e preso do parlamento. Faltou a ordem para impedir o desprogresso que se viria nos anos seguintes. Com um golpe teatral, uma cena grotesca que não derramou uma gota de sangue diante de uma "fakeada", que posteriormente se tornaria evidente a armação para a realização de uma cirurgia, ele fez fortalecer sua campanha. E conseguiu chegar lá. Nesse entremeio uma pandemia assolou o mundo. O sangue que não saiu de seu corpo escorreu por suas mãos e nas de seus asseclas quando sua estupidez maléfica não apenas permitiu mas colaborou com a morte de milhões de inocentes. Disso tudo ficou a lição de que não é a igreja o caminho para um bem maior, tampouco para o céu. Não é o pastor, o padre ou qualquer líder religioso que te dará a luz necessária para o caminho da salvação. É necessário filtrar e podar toda e qualquer ideologia política estruturada em esquemas religiosos de negócios. Já diziam alguns visionários do passado que era necessário todo o cuidado com algumas seitas que brotavam no mercado milionário da fé, pois uma vez adestrando e alienando seu público nas estruturas da igreja, seria necessário se infiltrar e dominar o mundo da política. As tempestades que caíram sem luta propiciou uma devastação sem tamanho. As lutas que se seguiram pelas tempestades tombaram muitos guerreiros e guerreiras. De tudo fica a lição de que não se pode vacilar, nem se calar, tampouco se acomodar. Omissão nunca pode ser uma opção. (27/09/23)

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Um dedo de prosa, um cheiro de rosa



Um dedo de prosa
Uma dose de café
Companhia para um silêncio sem destino
Uma gota de água da chuva que cai
Na inocente pétala, no deserto, da rosa 
Que não esconde seus espinhos no pé
Ora indecente, atrai com seu cheiro traquino
A companhia de um olhar que ao seu encontro vai

Rosas e prosas, espinhos ou carinhos
Nem melhor, nem pior
Nem futuro, nem passado
Nem de longe, nem ausente
Na solidão, um abraço pelo caminho
Pra reconectar o que há de melhor
E deixar os excessivos fardos de lado
E agarrar a alma de quem se faz presente

Sem luto pelo que morreu sem ter vivido
Do que plantou ausência não resta nem pó
Eu luto, a batalha, no aqui e no agora
Vivo a esperança no olhar que cativa
Não me importa mais o elo perdido
Nem quantas léguas eu andei só
Não me importa quantas guerras eu vivi lá fora
O que importa é quem está comigo na trincheira da vida

sábado, 10 de junho de 2023

Carta aberta: orgulho x hipocrisia



O assunto é delicado e pode levar a inúmeras interpretações equivocadas. Por isso é sempre necessário invocar o bom senso, ter empatia, saber acolher e se posicionar em prol da dignidade humana. Para início de conversa trago a seguinte questão: Quantos tipos de orgulho existem, ou melhor, como podemos interpretar a palavra "orgulho"? Particularmente, penso de duas formas: existe o orgulho, em seu significado negativo, que impede o ser humano de se redimir de algum ato cometido, o qual o resultado tenha sido prejudicial a si, a outros ou a uma situação; e, existe o orgulho, em seu aspecto positivo, aquele que nos enche de prazer e, que se dá no momento em que elogiamos alguém, "você me enche de orgulho". Como pai, não me canso de repetir aos meus filhos, o quanto eles me enchem de orgulho. 

Estamos nos aproximando de uma data em que já é um marco nacional e mundial: a PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+. E esse termo é repleto de significado positivo, porém, incomoda os padrões de uma certa ala da sociedade. A PARADA não é apenas um ato de representatividade, é um momento de juntar forças e poder expressar, entre protagonistas, simpatizantes e apoiadores, o ORGULHO por ter tido a coragem de assumir perante ao mundo, aquelx que realmente é: simplesmente VOCÊ! Não é um movimento provocativo, nem impositivo mas um ato simbólico e de protagonismo que se expande para além do momento. Ao mesmo tempo há uma provocação sim mas, para que, enquanto telespectadores, saiamos do nosso anonimato e lutemos por igualdade para todxs, bem como a única imposição que existe é a de si mesmo, ao se aceitar como é de fato, sem precisar se encaixar nos padrões impostos. 

No tempo que antecede esse encontro, mercadores da fé usam de seu púlpito pseudorreligioso, ora transformado em palco de exibicionismo, ora em palanque de moralismo seletivo e, ora ainda, em tribuna religiosa para sentenciar àqueles que não se encaixam nos padrões sociais ditados por sua instituição. Segundo essa corrente seletiva de fé deturpada, tais desviados dos padrões são sempre merecedores de um certo inferno. E inferno sempre foi usado para usurpar e manter os fiéis submissos e alienados. De forma teológica, que meu ínfimo conhecimento acadêmico nessa área me permite, gosto sempre de lembrar e ressaltar quem foram os escolhidos citados nas passagens da bíblia cristã, o qual tinha como protagonista o nazareno, este que foi condenado por instituições religiosas, tido como blasfemador; literalmente um preso político de seu tempo. Ele dava voz e vez aos excluídos da sociedade: prostitutas, ladrões, cobradores de impostos, etc. E na contramão das regras sociais condenava a hipocrisia exacerbada dos mestres da lei e donos dos templos. Vale ressaltar que as instituições religiosas daquela época tinham poder igual ou maior ao do Estado. 

Nesse mesmo tempo em que uma instituição, que prega fé cristã, através de seu líder que usa das mídias, inclusive de seu canal de TV para segregar, dizendo que Deus odeia o orgulho, referindo-se ao ORGULHO LGBTQIA+, isso literalmente é tido como uma incitação nada velada de ódio e que pode acarretar formas violentas de expressão contra os protagonistas desse movimento, a PARADA. Na mesma semana em que esse líder religioso se manifesta, o pastor de uma de suas filiais foi preso, suspeito de estuprar adolescentes.  Talvez, se o dono desse templo institucional se preocupasse menos com a sexualidade alheia e tomasse conta dos gestores de suas filiais, dito religiosas, crimes assim não aconteceriam. Isso vale para toda pessoa e para todo tipo de instituição que se acha detentora exclusiva da verdade e no direito de classificar quem é ou não digno de sua aprovação arcaica. Veio à tona também, nas redes sociais que, sua instituição foi uma das que mais lucrou no Governo passado. Nesse caso, o silêncio tornou-se ensurdecedor. Os tempos mudaram mas os excluídos ainda existem e resistem contra o sistema discriminatório. Infelizmente os hipócritas também estão por aí e à solto. 

Nascido em berço Católico, conheço a fundo as diversas ideologias religiosas existentes nos bastidores da igreja. Devida à sua extensão, existem inúmeros braços e formas de se trabalhar mas, infelizmente , também está regada de moralismo seletivo, hipocrisia, deturpadores da fé e bandidos disfarçados de cidadão de bem. Minha formação e atuação sempre se deu através da Pastoral da Juventude, que tem uma representatividade muito forte nas questões sociais, políticas e lutas de inclusão. Sempre me mantive alheio aos exibicionismos de fé e shows milagreiros e midiáticos. A maior forma de se viver uma espiritualidade e praticar a fé é respeitando o outro, o próximo. O que não se pode tolerar são as formas de segregação que culminam em discriminação e preconceito. Falo aqui da vertente cristã (católica, evangélica, protestante, pentecostal, neo-pentecostal, etc...) porque é a que tem mais adeptos. Demais religiosidades, como budismo, espírita e as de matrizes africanas têm uma prática mais inclusiva e social.

Penso que, se a religião não te liberta e te faz perseguir e atacar minorias, tome cuidado. Você está sendo enganado, usado e manipulado. O intuito é te manter cego, surdo e mudo, enquanto você sustenta os vícios e regalias dos magnatas da fé.

Como pai de dois filhos, já trouxe em outros momentos que tenho um filho assumidamente dono de si: liberto de amarras, livre de mordaças. Considero um ser de muita luz, inteligência e amor, ao qual me ORGULHO dia e noite. Por ele, por eles, estou contra qualquer tipo de sistema opressor, seja religioso, seja político, seja de algum hipócrita sem noção que se punha no caminho. Para além de política e principalmente de qualquer crença religiosa, nossa missão é sempre combater a favor da inclusão, da igualdade, da justiça. Uma palavra resumiria tudo: amor. Amor cuidado, amor empatia, amor ao que se faz. Para além das instituições que regem a sociedade, nós, acadêmicos, que escolhemos o curso de psicologia como um meio para o futuro profissional, que tem como uma de suas missões, auxiliar o ser humano a encontrar respostas e ressignificar sua vida, precisamos nos ater e nos posicionar de forma sensata, humana e científica. 

A PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+ está chegando, e de coração, estou me preparando para ir pela primeira vez, assistir de perto. Isso não partiu do meu filho, ao contrário, eu o convidei. E é pelo AMOR e por esse ORGULHO que tenho por ele, e pelas tantas lutas que pude presenciar e participar ao lado de amigxs tão queridxs dessa jornada, amigxs da Pastoral da Juventude, amigxs da teologia, amigxs do vôlei, amigxs das academias, familiares, afilhadxs, amigxs-irmãos de alma, amigxs da poesia, amigxs da psicologia, enfim, amigxs que a vida e o universo divinamente me presentearam, que não poderia me calar diante de tanta discriminação, preconceito disparados com ódio através daqueles que se julgam detentores da verdade. Pobres de espírito e podres no pensamento. Hipócritas. 

Essa luta não pode se findar nas palavras. PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+ aí vamos nós!!! 


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Recortes & Rascunhos II - Lágrimas



Chuvas e lágrimas

Chuva cai lá fora

Minhas lágrimas aqui dentro

Ambos escorrem

Lavam

Levam dores

Regam lembranças

 

Tempo e desconstrução

Eu, por um momento 

Volto no tempo

Desconstruindo maldades

Com sólidas verdades

Preenchendo o vazio

Com amor

 

Mágoas e lutas

Mágoas geram dores

Que geram sofrimentos

Que criam raízes

Que corrói e destrói

Que enlouquece

Mas o morto ainda vive

E luta

 

Fria e seca

Não nasci pra esse mundo

De covardes e mentirosos

A ****@ fria e seca

Jogou o jogo da mentira

Manipulação e morte

Porque nunca teve amor

Nem de berço

Nem o meu

 


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ano 45


Queria talvez parar o tempo, voltar, controlar enfim. Mas só posso trazer de volta lembranças em forma de sonhos ou pesadelos. Reviver o que se passou é um processo de libertação de processos dolorosos, de reencontro com as vozes da sabedoria, de confronto consigo mesmo, de lágrimas de saudade, arrependimentos tardios, guerras internas e batalhas reais.
O tempo escoa feito areia pelas mãos. E as ações reverberam tempo afora. Ficam memórias, histórias, tristezas, certezas, saudades, possibilidades e sonhos. Tons, sobre-tons, sons e todas as suas derivações maiores e menores que a aquarela da vida pode entoar, cantar, pintar, poetizar...

Entre uma primavera e outra, as estações me abrigam em momentos de sonhos, fé e luta, ou me obrigam a rever os passos em cada ciclo, cada obstáculo, cada espinho, cada batalha travada, com cheiro de lona ou de vitória.

Meus poemas nascem na fonte, e a boca que a toca é única. Entre o sentimento épico sem liberdade e a muralha medieval de oposições, vivo no limiar de todas as batalhas, sem saber se haverá uma próxima vez. Pela pureza da água que corre entre os leitos e os lábios, driblando cada pedra, assim é a esperança que não dorme. Em cada manhã a porteira se abre esperando a chegada da luz que se irradia no reflexo do olhar. E como os leitos esperam a água em ciclos, o lábios esperam o beijo eterno.

Cá de dentro, já sou feliz e grato pela vida que vivi, vivo, e que ainda tenho a escrever pelas linhas deste tempo. Meu maior legado pulsa fora do meu corpo, meus meninos, meus orgulhos, o melhor de mim. E entre as estruturas familiar e de amizade toda a maldade foi sendo vencida. Meu mundo simples de poemas, leituras, artes e busca por conhecimento, cabe ainda sentimentos que se misturam entre sonhos e raízes, suor e flores.  

Sob a luz do senso-crítico tornei-me incansável combatente à hipocrisia que se disfarça na sociedade, mascarada de pseudos religiosos e corrompidos políticos. A falsidade incutida em quem se vende pelo poder não fica escondida por muito tempo. Assim, a máscara maquiada se dissolve na mesma linha de tempo que consome os dias. Há quem será lembrado de maneira honrosa por suas lutas, mesmo que o resultado seja derrota. Mas pior será para quem se vendeu e venceu sorrateiramente, este ficará à margem da história, sem honra nem glória.

O tempo de agora requer mais que reflexão, inspira cuidado para com o amor, esperança para quem não enxerga e coragem para quem se levanta. Neste ano 45, agradeço pelo que sou, pelo que me tornei, aonde cheguei. De nada valeria cada passo dado se não fosse o legado que me importa honrar, se não fosse os amigos que vivenciaram cada batalha ao meu lado, se não fosse o sentimento que me fez acreditar que tudo, tudo vale a pena. 

45 e muitos sonhos, muito desejo de viver, muita vontade de lutar. Que não me falte a coragem para viver e honrar ao sangue que corre nas veias, nas minhas e dos meus. 

"Porque metade de mim é amor
E a outra também"


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Esperas ou esperança?



Na busca diante das incertezas se vive a sentenciada espera... Espera pela vitória, espera pelo alívio, espera pelo alcance de uma meta. Pouco se fala do tempo de espera que também é de tentativas, frustrações, derrotas, lona, dores, suor e lágrimas. Esse é o tempo do aprendizado, que em sua maioria é cercado de medo, dúvidas, sentimentos de desistência, escuridão e tempestades. Há um fio que permeia ambas as margens, que podemos considerar como sendo a esperança ou a falta dela. 

É preciso se apegar para não ser um náufrago em terra firme. Afundar no medo e na incerteza é não crer em si mesmo, é podar a esperança de que um dia a vitória será certa. Mas antes da esperança, o sonho se tece. E em cada pedacinho costurado nesse sonho, vamos alicerçando sua realização. Espera sem luta é vã. Desistir sem tentar é não se acreditar. 

"Todo ser humano pode. Se tem algo que o ser humano pode é poder." Há algo que está implícito nessa frase de efeito e empoderamento de gênero que é a capacidade humana além do poder, o pós poder. Há quem não saiba o que fazer com o poder alcançado e mete os pés pelas mãos. Todo ser humano pode sim, mas nem todo ser humano é capaz de lidar com a vida depois. 

"Todo ser humano morre, mas nem todo vive." Essa sim é uma frase épica, pois o que mais se vê são defuntos vivos, gente que habita um corpo mas não vive a vida. Deposita todas as fichas na conquista dos materiais diversos enquanto a balança da essência flutua sem peso. Se tem algo que o ser humano, independente do gênero, devia se dedicar era para a vida, a vivência.

Longe de embarcar nessa vibe de coaching que vagueia entre frases de efeito e insigths de auto-ajuda, terapia, psicologia e não conclui muita coisa além do que já conhecemos. Daqui deste reduto só poetizo a problemática que retumba à minha volta. 

O tocante desse contexto abordado em um emaranhado de pensamentos livres e devaneios necessários surge num momento ímpar, momento em que liberdade e libertação se alinham, dialogam e se confrontam. São apenas os ecos das vozes que coabitam entre corpo, alma e coração e buscam deliberadamente o canto em que o encanto permanece pairado no nosso recanto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Malabares da vida

 


"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades
Teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando
Eu falei muitas vezes como palhaço
Mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria"
Clarles Chaplin

O semáforo avermelha para os motores
Enquanto que na contramão das cores
Alguém se exibe com seriedade e atenção
Como se fosse sua última apresentação

Num piscar de olhos bolas giram pelo ar
A sincronia perfeita dos objetos coloridos a desenhar
Traços elípticos que se formam pelas mãos da artista
Para alguns artista, para outros pessoa não quista

Na calçada um carrinho de bebê espera parado
O filho repousa enquanto a mãe faz seu trabalho
Vidros que se fecham, mãos que se estendem
Entre um passo e outro o sorriso sincero que não mente

Quase uma súplica por uns trocados
E quando os motores partem acelerados
A mulher retorna seu olhar e atenção
Para onde bate forte seu coração

Penso que entre seus sorrisos e suores
Há muitas lágrimas camufladas de dores
Sem serem notadas pelos olhares motorizados
O equilíbrio maior é se manter firme e focado

Pessoas que vivem se equilibrando entre os dias
Na linha tênue impostamente margeada pela hipocrisia
São vítimas de uma invisível guerra
Do poder que contaminou esta terra

Quem condenou com o olhar da intolerância
Demonstrou que abundante é o veneno da ignorância
Extirpou o pouco de humano que ali existia
Enrijeceu seu coração e tornou sua alma fria

Entre os malabares da vida
A maior luta não é por comida
É não se abalar pelo olhar indiferente 
E ser tratado com respeito, como gente

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Retratos do meu interior

"Ter uma casinha branca de varanda
com quintal e uma janela só pra ver o sol nascer"


Eu vim de lá do interior, duma casa simples de chão com vermelhão, terraço adornado com primaveras e um jardim repleto de variedades: roseiras, samambaias, copo de leite. E uma horta bem diversificada, com couve, quiabo, alface, limão, laranja, acerola, cebolinha, abóbora, alecrim, hortelã... Era o meu reduto, meu mundo, meu recanto sagrado... o meu interior.. a casa de meus avos. 

Este quadro tem uma conotação diversificada. A elaboração, a visualização gerada na mente até a construção de cada detalhe, tudo feito com materiais naturais. O simples, o rústico, a leveza de um retrato interiorano que traz memórias de um passado vivo, saudoso e repleto de amor. 

Numa outra óptica, a paisagem retrata um sonho, o sonho da paz e do amor vivido com profundidade na infância, adolescência e juventude, na casinha simples com terraço, jardim e quintal. As lições de sabedoria deixadas por meus avos. A capela, símbolo de fé, que remete ao sagrado, das lições de vida às cobranças sobre conduta e religiosidade que minha avó mantinha firme e acesa. O poço, a água, a natureza, que me remete à luta, às grandes lutas da vida travadas diariamente. A água, que contorna seus obstáculos, que vence sua batalhas e modifica a paisagem ao seu redor. 

Histórias e lições que trago vivas no coração. Lembranças de um tempo que não volta mais. A imagem do quadro é diferente do retrato da casa de meus avós, ainda bem fresco na memória. Há uma mística nisso tudo que ainda levo tempo e silêncio pra compreender e decifrar. Serve para lembrar do passado, do alicerce, da saudade, do amor, e muito mais para alertar que um dia, um dia tudo se tornará pó ou memória.

A cada tempo, em cada estação, em cada travessia após uma longa jornada, me pego de volta nesse interior. Por hora, é o meu refúgio, guardado num lugar especial e exclusivo, onde o acesso se dá de tempos em tempos ou quando se faz necessário. Já fiz esse caminho diversas vezes, ora feliz e vencedor, ora derrotado e destruído. E quando me pegava a desanimar era ali, aí nesse reduto de interior que encontrava o meu descanso, o meu alento. Aonde minhas lágrimas eram secadas, meu suor enxugado e minhas feridas curadas no tempo e na saudade.  

Eu vim de lá do interior...




quarta-feira, 18 de julho de 2018

Cenas do cotidiano


Cena 1: Adentrei ao supermercado como sempre para comprar aqueles pãezinhos feitos na hora. Fila pequena, apenas um senhor na minha frente. Num espaço pequeno em que duas pessoas por vez podem escolher seus pães, ele iniciou um assunto que aos poucos me fez atentar. "Um dia meu pai tirou um dente meu no tapa. Ele me chamou e ao invés de responder 'sim senhor' apenas falei 'oi papai'. Eu tinha 5 anos de idade e quando cheguei perto dele levei um tapa na boca que meu dente voou longe. Tudo porque não respondi 'sim senhor'. Nunca me esqueci dessa lição..." disse o senhor. Peguei meu pacote de pães, passei pela fila do caixa e fui para casa, pensando...

Cena 2: Parei de moto aguardando o semáforo liberar para eu prosseguir rumo ao meu destino e enquanto isso observei, no canteiro central da avenida que atravessaria, um rapaz que faz malabarismos em troca de alguns trocados brincando com um filhotinho de cachorro sobre a grama. Cachorrinho bem cuidado, de coleira, pacote de ração do lado e muita atenção de seu dono. Uma verdadeira distração aos motoristas que param para aguardar sua vez de prosseguir. Abriu o sinal, minha vez de acelerar e seguir adiante, pensando...

Cena 3: Fui até um posto de combustível para calibrar os pneus da moto. Enquanto o fazia vi ao fundo um funcionário sentado ao chão do local onde realizam troca de óleo, almoçando de marmita na mão. Concentrado em sua refeição que não arredava os olhos para lugar algum. Parecia pensativo sobre a vida durante o tempo que saciava sua fome. Mais uma vez parti, pensando...

Cena 4: Homens da prefeitura recolhendo pertences de pessoas que dorme sobre papelões nos canteiros das avenidas. Homens em bando, de crachás e luvas nas mãos, óculos escuros e pouca conversa, cumpriam ordens e obrigações. Sua tarefa? Retirar tudo aquilo que polui o ambiente visual da cidade. Eu? Sigo juntando as peças de cada cena, pensando... 

Pensando sobre tempos severos de pessoas que sobreviveram à rigidez e brutalidade da educação de antigamente. Pensando sobre o amor daqueles que nada tem podem dar a outros seres muitas vezes abandonados por seus antigos donos. Pensando no sacrifício daquele que se sujeita a muita coisa para dar o melhor aos seus. Pensando que somos escravos e senhores, vítimas e culpados, cegos, inocentes e coniventes com todo tipo de sistema opressor que paira sobre nossas vidas... Apenas, pensando...

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pode ser IV - "Sempre poderá ser"

Pode ser...
Sempre poderá ser!
Desde que faça suas escolhas
Diante da certeza que tu tens

Intensifique o amor
Exale gratidão à vida
Corra, nade, voe, viaje, pare...
Você, e somente você,
Saberá o momento certo para cada passo

Namore, ame, chore,
Alegre-se com as coisas bobas
Sorria para a vida
Ria de si mesmo
Encare as boas loucuras

Não se envergonhe se cair
Tenha coragem e fé
Levante, tente novamente,
Vergonha é só pra quem desiste
Resista e volte mais forte, melhor

Lute, encontre o caminho,
Reúna suas forças
Não deixe que impeçam seus sonhos
Rompa quando houver necessidade
E reative os laços quando sentir saudade

Seja sempre você
Verdadeiro consigo mesmo
Para então o ser com os outros
Assuma seus erros
Desculpe-se
Aprenda
Vá atrás

Ao mesmo tempo, não se deixe enganar
Atente-se para quem é verdadeiro contigo
E quem só o procura por interesses

Antes de fazer aos outros felizes
Esteja e seja feliz

Filho,
Seja o que você quiser
Desde que seja você mesmo!


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sobrevivência e vaidade

Na descrença em que o mundo se planta, ser e estar é uma questão de sobrevivência e vaidade. Limiares que jamais cruzam suas fronteiras. A quem é destinado a lutar pra viver cabe um dedo de sonho e crença. Utopia. Além da cerca a vaidade está para poucos e para tais viver é esbanjar-se até repugnar. Mas se tudo é vaidade, até pra quem não é permitido a encontra em alguma soleira. Há quem ame pela vaidade, há quem não ame também pelo mesmo motivo. Deus mesmo se fez vaidade em sua obra de criação, ou seria o mundo uma vaidade Sua? Ele, em seu trono majestoso, a ouvir a canção da lua que se deleita em estrelas e depois chove lágrimas ao mar, diante do resultado de sua obra, deve lamentar-se pelo deszelo que seu fruto têm neste lugar. Mas, se prometeu liberdade, não há que interferir, é o que regozijam os doutores da vaidade. Se bem que pode vir e lutar e que esteja armado e disposto a sangrar. E, se assiste a tudo porque se emudece? Quer que haja resistência pela sobrevivência mas permite o fruto de suas obras se gladiarem até o vermelho manchar a terra. Mostra-Te aos seus e equilibre essa labuta, essa luta, essa guerra a que tanto assistes...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu bom ateu


Andarilha pelos becos à procura
Das indigências expelidas pela realeza,
A besta sociedade que se endeusa de poder,
E toma para si as graças terrenas da sorte
Como os nobres romanos divinizados pelos seus feitos
Aclamados e glorificados feito deuses

Andarilha pelos becos à procura
De toda gente sem sorte
De quem sobrevive à margem real
E cura com lágrimas e sangue
O câncer de cada faminto andante
No abraço desmedido e sem barreira

Andarilha pelos becos à procura
Do Deus da nobreza que salva a realeza
E pune a massa escalpelada e empobrecida
Vira as costas pra miserável fome
Esquarteja e maltrata a quem não o teme
Desqualifica o maldito por ser pobre e sem vez

Andarilha pelos becos à procura
Um ser sem regras, sem quimeras
Destorpecido das fadadas leis morais
Protegido contra o Senhor vingador
Que a sociedade deturpou e matou
Eis um homem sem o vitimizado Criador
És um santo descrente e sem deus
Andarilha por aí o meu bom ateu

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Das lutas nas tempestades

"Liberdade, liberdade, 
Abre as asas sobre nós
Das lutas nas tempestades
Da que ouçamos tua voz"



"E o que há de vir não é o broto. O que almejam no que há de vir é praga. Um velho conhecido inimigo de tantas guerras. Desconhecedores da história e alfabetizados ignorantes aclamam pela derrocada insana na possível chegada do aniquilador sem escrúpulos. Este que se mascara de salvador. O covil anda em orgia sob o manto da falsa moral e por vezes religiosa. Libertaram antigos monstros. O opressor fareja sangue. Na terra vermelha de tantas labutas o espírito da liberdade ecoa gritos ao céu da pátria. A batalha se afunila mas a lona não é o limite nem o fim. Com ópio ou com dor, eis o que nos legaram: silêncio inquisidor. O poder?! É por ele que meus heróis se corromperam. Foi por ele que meus inimigos renasceram. É o fim de uma era e o infeliz começo incerto de um caos iminente."

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Águas profundas

 

Ousar.
É um risco.
Fincar os pés na areia e não partir também é.
Manter-se firme no reduto conhecido, por medo das ondas, é uma opção.

As águas são perigosas mas, também, são apaixonantes, viciantes.
Somente através delas se pode conhecer outras terras, outros céus, outros saberes.
Porém se, por medo dos riscos, não se ousar, a sentença é morrer intacto.
Intacto na inexperiência, no saber restrito, no sonho não contemplado.

Há quem consiga apenas molhar os pés nas águas, mas quando a onda vem mais forte, afasta-se.
Há quem tente ir mais além e ao se dar conta da distância da terra firme, o desespero o sucumbe a voltar.

Há então os que se lançam em águas mais profundas, superam as ondas, conhecem outros mares, outros ares, outros saberes, novos recantos.
Estes não se cansam das águas, nem do tempo e das dificuldades, uma vez que o que se adquire quando se lançam são, no mínimo, uma experiência e um conhecimento novos.

A dificuldade encontrada por quem não se permite experimentar novos saberes, nem ao menos se quer conhecê-los, se dá pela diretriz incorporada de que não existe nenhuma outra verdade que aquela que adotou para si.

Lançar-se em outras águas não significa negar sua origem ou abominar o que lhe incutiram.
Ao contrário, é dar-se a oportunidade de agregar outros conhecimentos e experimentar outras fontes.
Fundamentar-se em seu reduto consagrando-o como único viés plausível e capaz e desprezar o que não se conhece, é prática fadada ao ócio por medo.

Ninguém se constrói sozinho.
Arriscar é preciso.
Ousar, mais ainda.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os imigrantes e o menino poeta


Duas histórias distintas através de um único olhar sobre a vida dos que carregam em si a esperança. Histórias que nunca se cruzaram. Vidas que não se conheceram. Enredo que se tece apenas nos detalhes do coração e que somente a nudez do olhar é capaz de absorver.

Nos arredores da minha rua existem pessoas que vieram de outros lugares. Com certeza são de outro país. Continente, talvez. Imigrantes, é isso! Ressoam uma conversa que não se entende por quem passa perto. Ninguém se aproxima deles. São estranhos. São diferentes. Falam meio gritado. Vivem entre si e isolados do resto do mundo. Creio, são obrigados a se firmarem nessa terra que escolheram para desbravar. São felizes, eu vejo. São tristes, eu percebo. Sinto. Conversam apenas entre os seus. Tenho vontade de ir lá. Meu receio não permite. Então eu escrevo de forma orante. Uma escrita simples e que só cabe a mim e Deus entender.

Tento imaginar o que os fez chegarem nessas terras. Guerras em seu país natal? Massacres, fome, miséria? Como saíram? Como chegaram? Do que vieram? Passaram fome, tiveram medo, foram explorados nessa travessia? A quem deixaram? O que buscam? Queria saber de suas vidas, sua fé, familiares deixados em outro canto do mundo. Queria saber o que esperam daqui. Eu sei que esperam. Carregam em si uma única força que os motiva: a esperança. Tive vontade de aproximar. Mas até o momento essa vontade ficou na inércia da não-ação. 

E dessa força que nos motiva a prosseguir, alimentada pela fé e pelo sonho, eu encontro a esperança. Morrer é um dilema para quem está vivo mas nem todo homem ou mulher vivos conseguem viver. Esses que trazem a insignia da esperança em seus olhares, já são gente libertada e que vive a vida a cada dia. 

Outro dia deparei-me com um menino, adolescente de uns quinze anos de idade, que pensa grande com coisas pequenas. Ele já trabalha duro. Tem traços de homem responsável e sonhador. Tem a arte em seu olhar. Sonha o sonho do poeta com sensibilidade. É diferenciado na prosa. Gosta dos versos e das boas músicas. Pasmei durante a conversa que tivemos ao enxergar tamanha coragem num garoto de pouca idade. É quase um achado para os padrões atuais. 

Primeiramente o adolescente interessou-se pela conversa que eu tinha com outra pessoa, sobre livro de poesia. Começou a perguntar educadamente sobre os meus escritos. Depois abriu-se e disse que também gostava de escrever e de ler. Sua preferência: literatura barroca. O espanto foi grande! Contou-me também, nos minutos que teve ali, sobre sua paixão pela música e os instrumentos que toca. É um garoto diferenciado, sem dúvida alguma, e carregado de esperança. Da minha parte apenas disse que não deve desperdiçar os pensamentos e ao contrário, organizá-los num caderno. Foi assim que eu comecei até chegar ao blog.

Daqui do meu lugar, ou do não-lugar, encontrei em comum no olhar de cada um dos personagens dessa história a certeza da esperança. A gana pelo desbravar de outros mundos, por vezes tão próximos e sem fronteiras, por outras tão guerreados pelas estradas desconhecidas em que se põem a caminhar, essa, é força contida e gritada por gente que ainda tem um pouco de humanidade em seu ser e seu olhar. A esperança assim, não é mérito de poucos abastados. Ela é fruto nascido no coração de poucos e que se expande de tal forma a quem ainda consegue enxergar. Sou imigrante, sou menino poeta, tenho esperança e teimo em viver.

Morando no mundo


Resolvi morar no mundo. O mundo é meu, é nosso. Ninguém manda nessa bagaça. Ninguém é dono de nada. Tu não manda em terra alguma, sinsinhô! As invenções são sempre a partir deste lugar que era vazio. Se do vazio tudo se criou, quem criou o tudo é dono do vazio. Logo, o tudo deste mundo já tinha dono, que não sou eu, nem tu, nem vós: imigrantes, poetas, trambiqueiros e biscates. Vou morar no mundo, se não for nas terras deste lugar, que seja no intransponível horizonte do pensar, o meu não-lugar.