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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Sobrecargas que não me pertencem mais

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Das dores que ficaram pelo caminho 
Da saudade do que não se viveu
Existe um corte temporal que delimita meu papel 
Diante do que era meu herói, amigo e protetor. 
A distância machuca, mas cicatriza 
E a dor vira companhia costumeira 
Até o dia que o analgésico das lágrimas de saudades se torna dispensável.
É bom não precisar recorrer à caixinha dos paliativos. 
Evolução, independência, amadurecimento...
Passado encaixotado num álbum de fotos imaginário
Que só reprisa em minha mente o que poderia ter sido
O que se poderia ter vivido, sentido...
Carrego culpa?
Não mais!
Já busquei meus erros diante de uma relação que não tive relevância.
Já chorei dores de saudade, da falta de uma presença importante.
Mas, olhando essa trajetória
Fica as lacunas na travessia dessa história
Onde a figura jaz perpetuada na memória
De uma infância até muito tranquila 
E dali, só ficaram resquícios
Interstícios de estações
Lacunas de inverno a verões
Versos desconexos sem melodia
Sem outonos, sem a inocente fantasia
O tempo não apenas passou, mas me abraçou
E fui me descarregando das tralhas durante a viagem
Não conseguiria sobreviver com tantos fardos
De uma presença que nunca se fez presente.
O que ficou disso tudo, entre esperas e primaveras
É a visão de que não se paga uma ausência
Recriando versões de uma vida não vivida
Com aqueles em que você se permitiu.
Não fez questão de uma história subtraída
Sem o seu papel.
Importou-se porém em aplacar sua consciência
Recriando versões de uma vida, conosco, não vivida.
E por tal, sem sua benção matinal
Sem sua companhia fundamental
Velejo no mar dos meus dias e da vida 
Entre brisas, tempestades
Horizontes e calmarias
Com sua figura numa longínqua paisagem
Num sonho, num plano em que você não faz parte.
Você divide seu ego num espaço que não me pertence.
Justifica seus erros comigo e conosco
Em gestos paternais com sua então família.
Já não dói
Já não sinto
Já não espero
O milagre da sua presença.
Só não me cobre jamais pela minha despretensiosa ausência.
Essa herança, foi você que testamentou.
Não carrego mais, jamais, a sobrecarga de suas escolhas
Lamento, mas o tempo, ah! o tempo...
Foi meu bandido, mas também meu herói.
Ciclos se encerram, se fecham
Se findam...
O tempo passa
O tempo leva
O tempo lava...

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos IV - inquietudes



Você está em dois mundos
Do sonho, do romântico
E o da realidade, frustração


Desejos não mudam o cenário. Atitudes sim.


O tempo dedicado a quem se considera 
é um presente que não se mede em valor material. 
Mesmo que não haja reciprocidade, 
a experiência é válida para quem se dispôs em ação.  15/12/22


Somos objetos de nossas próprias vaidades. 
Somos reféns de nosso próprio egoísmo. 
Somos passageiros sombrios 
perdidos na vitrine das aparências. 20/12/22


Da janela da minha alma
Ecoam prantos de dores
Escorrem melodias de sonhos
No lapso de cada tom
Um suspirar de esperança
Entre a saudade do que não se viveu
E o amor que transborda teimosia,
Inquietudes, e duras lutas de silêncio e solidão. 24/12/22


E o vento?
Vento não faz barulho. 
O barulho é das trombadas que ele dá 
no que tem pela frente.






Rascunhos incompletos II - eternidades


Todos são eternos mas somente um te acompanhará pela eternidade.


A melhor parte de saber as regras é encontrar a forma certa de quebrá-las (Anne)


Não é o corpo... É o combustível que me impulsionou a agir... 
Suor, lágrimas e sangue
Batimentos que arrebentam o peito


Para além da eternidade
é o sentimento que alimenta a esperança
de te reencontrar



Ponto cego, em que perdi o rumo e encontrei você...


Companheiros de almas perdidas, 
tantas histórias
tantas partidas
outras vidas





sexta-feira, 10 de março de 2023

A visita


A instituição em si, no quesito estrutura física, lembra muito os relatos de um sistema institucionalizado. Foucalt descreve isso em Vigiar e Punir. Muros e grades ao redor, portões trancados, segurança para proteger os internos e as chaves sob custódia de um responsável para abrir os portões externos. Escolas, manicômios, internatos, presídios seguem a mesma linha de infraestrutura e organização, porém cada instituição com seus objetivos e finalidades.

Quando adentrei na primeira sala juntamente com meus colegas, já me deparei com algumas pessoas em cadeiras de rodas. A sensação é de comoção, de dó, pena mesmo... Imagino sempre como é perder algo tão vital quanto a liberdade, estar impossibilitado de fazer as coisas que gosta e que tem vontade e, em contrapartida estar dependente de terceiros. É a dor alheia me absorvendo, doendo em mim, e me fazendo refletir além do que vejo. Penso quantas histórias essa pessoa já viveu, o que a levou até este lugar, e o que ainda espera diante do que lhe resta. Esperança, talvez?! Ou apenas, aguarda por sua hora última, em silêncio, solidão, dores, saudades e, talvez, um tanto de consciência sobre esse tempo?

Algumas pessoas tem capacidade de locomoção, mas a maioria requer ajuda. Já na segunda sala, com cadeiras, sofás e cadeiras de roda, estava a maioria das pessoas. Em cada passo meu sinto um descompasso interior. É a minha minha fragilidade se acentuando e minha mente questionando o que posso fazer, o que posso deixar ali... quero muito e não posso nada, essa é a sensação. Um mix de impotência e inquietude que aguçam o querer ir além... Não sei o que eu pude deixar lá além de uns minutos dedicados com olhos, ouvidos, conversas e risos, mas sei muito bem o que eu trouxe aqui dentro. Sei e sinto, que num lugar assim, se não houver incômodo no que se vê, e gana por lutar por quem precisa, então, de nada valeu...

No portão de entrada havia uma senhora de semblante triste e que não media palavras para demonstrar sua contrariedade por estar ali. O que parecia, quando a escutei conversando com uma colega, era que sentia-se só, abandonada. Qualquer pessoa que chegasse até ela e puxasse algum assunto, a reclamação era a mesma. 

Impossível não se comover, impossível não se abalar, impossível calar-me... A experiência não foi nem nunca será um mero cumprimento de dever acadêmico, tampouco uma caridade regada à hipocrisia para satisfazer o ego da vaidade religiosa. Ouvir histórias e entrar na brincadeira, doar-se com o que temos de melhor para o momento, olhos e ouvidos... isso é essencial. Eles sabem, sentem, compreendem quando a atenção é fria ou encenada. 

Cada um com sua particularidade, vi ali uma colcha de retalhos de histórias recontadas. Não pude ouvir todas, mas a partilha com meus amigos e amigas deu-me uma dimensão maior desse dia, com essas pessoas. Há muito o que se fazer por este mundo, e em cada canto, que eu consiga levar além do que aprendi nas experiências acadêmicas, que eu possa ter a sabedoria necessária diante das adversidades, o profissionalismo humano e a empatia, amor e respeito para com cada um que cruzar por essa travessia através da Psicologia. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Das Veredas do Grande Sertão para a vida



Enfim, a travessia pelas Veredas do Grande Sertão, de João Guimarães Rosa, chegou ao final. Uma travessia que pude encarar sob várias óticas: teologias do sertão, filosofias do sertão, psicologia do sertão, poesia do sertão... Como o próprio poeta dos sertões resumiu em vários trechos de sua obra, e que é também o slogan desse blog: "O sertão é o sozinho. O sertão é dentro da gente. O sertão está em todo lugar."

O sertão, trazido sob a sensibilidade de Guimarães Rosa, tornou-se um cenário de sonho, fé e luta a céu aberto. Através de suas personagens, sertanejos, jagunços e donzelas, carregados de intensos sentimentos e regionalismo pude perceber a preciosidade geográfica da natureza, ora seca, ora verdejante, bem como os requintes culinários relatados aos detalhes. 

Um verdadeiro clássico, às vezes de compreensão não tão fácil, devido ao dialeto próprio que enreda os habitantes deste Grande Sertão sob o olhar apaixonado de Rosa. Chegar ao final desse romance tão sentimental, quanto sofrido e bruto, foi como romper paradigmas que cercam a imaginação distante de quem não conhece o coração do sertanejo das Gerais. 

Impossível não extrair pensamentos teológicos e filosóficos dessa literatura. Impossível não ver poesia em tanta bruteza de suas personagens. Impossível não cair na tentação de analisar, psicologicamente, a personalidade das personagens e principalmente a inteligência preciosíssima do autor que se debruçou de corpo e alma, tendo como bagagem, meses à fio sob o sol do sertão para extrair o máximo de suas estórias. 

Confesso, tenho essa obra desde os anos de 2001 e tentei começar a leitura por diversas vezes. Em meados de 2016 recomecei de forma mais intensa mas, ainda assim, fui interrompendo propositalmente. As últimas 200 páginas consegui concluir nos últimos 8 dias. Considerei que era o momento de finalizar essa obra, encontrar de fato o seu final e abraçar o fim. Tudo na vida tem um fim... Somos seres findáveis. Mas, o sentimento é eterno, intenso, bem como a memória dos lugares por onde passei durante essa travessia dos "Grandes Sertões". 

"Tu não achas que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor?"

Não dá pra descrever apenas um pensamento. A obra toda é repleta de aforismos que nos cravam a memória feito espinho e lateja a alma de sentimentos corajosos, reverberando em suspiros e sensações a alegria desmedida pelos rompantes certeiros de cada poesia sertaneja lançada desde os amanheceres até a cortina escura da noite abrilhantada pelas estrelas, ora sem nada, ora com a lua. 

"Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: - Meu amor!..."

Nesse romance, quase que proibido, o amor não era o pecado, mas a falta de coragem de se entregar ao desconhecido do sentimento, com certeza foi a ruína de suas personagens. A angústia exacerbada pela voz de seu protagonista, o ex-jagunço, agora chefe de bando, Riobaldo Tatarana, o urutu-branco, ficou nítida nas lágrimas derramadas em sua trágica despedida. Inocente e culpado. Coragem para as batalhas de arma e sangue mas, e no amor, na afeição ardente, desencorajado pelo desconhecido de seu interior. 

"Ela tinha amor em mim. 
E aquela era a hora do mais tarde. O céu bem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. 
Aqui a estória se acabou. 
Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba."

Acredito eu que as reverberações desse romance não se findaram em mim com o término da travessia literária. Todo fim requer um começo. Novos rompantes de pensamentos reverberados em notas poéticas, psico-filo-teológicas podem emergir destes sertões. Mas, por hora, desfecho com essa pérola narrada feito coice na cara do sentimento que teima se calar frente aos desatinos da travessia:

"(...) Ah, o senhor pensa que morte é choro e sofisma - terra funda e ossos quietos... O senhor havia de conceber alguém aurorear de todo amor e morrer como só para um."

"(...) E já parava meio longe aquele pesar, que me quebrantava. Lembro de todos, do dia, da hora. A primeira coisa que eu queria ver, e que me deu prazer, foi a marca dos tempos, numa folhinha de parede. Sosseguei de meu ser. Era feito eu me esperasse debaixo de uma árvore tão fresca. Só que uma coisa, a alguma coisa, faltava em mim. Eu estava um saco cheio de pedras."

"(...) Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum? O existir da alma é a reza... Quando estou rezando, estou fora de sujidade, à parte de toda loucura. Ou o acordar da alma é que é?"

"(...) O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia." - Fim.

* Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa - Ed. Nova Fronteira - 36ª ed. RJ - 1986.


"Não vivo pra sempre... minha travessia é intensa, porém, curta. A gente sempre caminha pro fim. " (A.D.O.)

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Por medos


Por medo de te perder
Por medo de não te ter
Me sucumbi
Me libertei
Das algemas que eu criei
Quando me coloquei aos teus pés
Quando fui atingido pelo teu olhar

Entre meus medos 
Não podia ser o medo de te perder
Porque eu nunca te tive
Da forma que eu gostaria de ter
Por medo de te perder
Eu nunca te tive mas sempre quis
Mas sempre tive medo
Medo de não te não ter mais
Medo de nunca te ter
Medo de perder o que eu nunca tive

E o medo faz a gente fazer coisas
Coisas que a gente não gostaria de fazer
Para não magoar aquela pessoa
Que você gostaria de ter
O medo e a coragem são irmãos gêmeos
Necessários para toda e qualquer sobrevivência
Agimos com coragem ou a coragem pelo medo
A coragem transformada pelo medo

Pelo medo de perder
Pelo medo de sofrer
Pelo medo de viver refém
Daquilo que eu nunca pude ter
E do mesmo jeito eu só tive dentro do meu ser
No meu pensamento entre meu tempo e meus tormentos
Esse medo chega como vento,
Varre, estraga, leva, tudo aquilo que não tem alicerce
Meu medo, meu segredo, minha coragem

Por todos os meus medos
Eu não quis ficar refém
Desse segredo de amar em segredo
Por todos os meus medos 
Eu não te esperei
Eu adiantei o sofrimento que um dia poderia me deter
Por todos os meus medos eu corri
Pra você, por você, de você
Eu corri!
E eu sei que te perdi
Mas perdi aquilo que eu nunca pude ter

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Ela é tão rara


a vida é um espaço entre dois marcos, 
o nascimento e a morte, a chegada e a partida
quem espera alcançar a felicidade no final 
pode não ter mais tempo para desfrutá-la
a felicidade se dá na travessia, 
entre idas e vindas, subidas e descidas, 
montanhas e rios, desertos e oceanos
quem não se atenta para os detalhes, 
dentre os passos ao longo do caminho, 
poderá passar uma vida sem flores, 
sem céus, sem cores, sem amores
um dia, um momento, um piscar
pode conter todas as paisagens possíveis, 
bem como uma mistura de sentimentos
basta fechar os olhos e abrir as janelas
afinal, quem apenas espera 
corre o risco de passar morrer sem ter vivido
a vida é tão rara

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pode ser IV - "Sempre poderá ser"

Pode ser...
Sempre poderá ser!
Desde que faça suas escolhas
Diante da certeza que tu tens

Intensifique o amor
Exale gratidão à vida
Corra, nade, voe, viaje, pare...
Você, e somente você,
Saberá o momento certo para cada passo

Namore, ame, chore,
Alegre-se com as coisas bobas
Sorria para a vida
Ria de si mesmo
Encare as boas loucuras

Não se envergonhe se cair
Tenha coragem e fé
Levante, tente novamente,
Vergonha é só pra quem desiste
Resista e volte mais forte, melhor

Lute, encontre o caminho,
Reúna suas forças
Não deixe que impeçam seus sonhos
Rompa quando houver necessidade
E reative os laços quando sentir saudade

Seja sempre você
Verdadeiro consigo mesmo
Para então o ser com os outros
Assuma seus erros
Desculpe-se
Aprenda
Vá atrás

Ao mesmo tempo, não se deixe enganar
Atente-se para quem é verdadeiro contigo
E quem só o procura por interesses

Antes de fazer aos outros felizes
Esteja e seja feliz

Filho,
Seja o que você quiser
Desde que seja você mesmo!


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dama da noite

O que nos causa boas recordações? O que nos faz viajar pelo tempo e permitir suspirar a fragrância da saudade? O que nos conecta com as lembranças do passado onde a vida tinha uma significância mais simples mas que saciava a alma?

Não há resposta exata. Cada um que se ousar a refletir, percorrerá pelas entranhas de seu próprio pensamento em busca de uma essência de valor. O resultado se dará por sentimentos... Hoje eu fiz esse trajeto enquanto enamorava uma dama da noite. É um cheiro que dava as boas vindas na frente da casa de meus avós Joaquim e Iolanda. Ambos amavam todo o tipo de planta e flores e por isso tinham o seu próprio jardim e sua pequena horta no quintal, esta que foi o grande palco de minha infância.

O rústico, o improvisado, o artesanal, o inventado, a natureza, os bichos, enfim, o simples, são coisas que saciam uma parte do meu coração pois fazem parte da vida que tive junto deles. Os ensinamentos muitas vezes não se davam com palavras ou sermões, mas no olhar atento que eu tinha quando assistia meu avô trabalhando no quintal. Seu amor pela natureza me ensinou mais que as cadeiras acadêmicas.

O fascínio pelas flores, em especial, é algo natural. Elas me encantam e me prendem o olhar. Sou capaz de permanecer estático em plena contemplação e vislumbre, no silêncio absoluto, sem me importar com o tempo. E nessa conexão eu sinto meus avós vivos em meu coração, na lembrança. Eu simplesmente resgato um amor puro.

A dama da noite foi plantada na calçada. Com o tempo, por conta das folhas que forravam o chão, minha avó pediu para meu avô cortar. Mas nunca ficou sem um verde para ornamentar e sombrear a frente da casa.  Meu quarto tinha a janela voltada para a rua. O cheiro penetrava em seu interior. Admirar as plantas é cultivar o respeito que meus avós tinham para com a natureza. Isso é amor, é lembrança, é saudade, é ensinamento, é legado... 

Dama da noite e sua fragrância seduzente, hoje me conectaram com a essência da minha vida...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A pequenez sob o céu


Observando o mundo através da lente de uma câmera encontrei cores e vida que até então não percebia. Se via, não dava atenção. Coisas pequenas, comuns, acabam não tendo significância em nosso espaço e tempo.

Plantas que brotam em todo canto de terra, entre pedras, entre muros, no asfalto, em qualquer espaço, em qualquer tempo. Espécies desprezadas, ora pragas, ora matos, selvagens, indefesas, insistentes... coloridas, bonitas...

Da derivação dos verdes às miniaturas das flores descobri o universo da pequenez, uma contramão do mundo que exige de nós o esforço pelas coisas grandes, de renome, de retorno, de status... 

Nenhuma pequenez é insignificante. Todo detalhe tem sua importância. Depende apenas do olhar que descobre e registra o tempo. 

"Sob este céu, toda vida tem sua significância...
Sob este céu, somos todos pequenos, 
Somos obra do Criador..."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Simples e belo


08/12/16 - Festa em louvor a Imaculada Conceição - 
Paróquia São Gaspar Bertoni - Uberlândia-MG


A Folia de Reis adentrou a igreja e os acordes das violas, violões e cavaquinhos, unidos aos batuques e pandeiros, davam as notas e o tempo para as diversas vozes. A simplicidade das pessoas juntada ao alcance de suas canções extraem sentimentos inexplicáveis... Me leva para um tempo de saudades. As primeiras lembranças são de meus avós. A vó Cida, mãe de meu pai, sempre me contava que o meu avô Benedito participava das Folias de Reis. Eu mesmo nunca o vi mas, ainda assim, cada vez que eu vejo e ouço, é como se eu o visse também...

Encantar-se com a formosura que é o resultado da música, é indescritível. Cada som, de cada instrumento e cada voz que entra em seu determinado tempo é ímpar. Não há ego. Tudo tão simples, e tão mais belo. Contive minha emoção ao máximo ao mesmo tempo que pensava o porquê daquele sentimento. Não tem explicação. A beleza, a simplicidade, a arte, a música, a louvação não está para quem quer e sim para quem se entrega... E esse sentimento, essa sensibilidade me foram dados com amor e carinho avós...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

900 - Descortinando

Começa aqui um longo descortinar
De sair de cena, eis o momento
No silêncio das palavras repousar
Reencontrar-me com o tempo
Abraçar
Sentir...

Pendurar os escritos
Eternizar a poesia
Restaurar o coração
Velejar com ousadia

Já fui de flores
De dores, amores
Temores, ardores

Sem palavra já fiz proeza
Sem vergonha trepei na mesa
Sem cartas venci com destreza

Dos fatos escrevi histórias
Dos sentimentos fiz memória
Das palavras fiz estrepolia
Mas é da alma que sangrou poesia

Salvaguardei-me das instituições
Resguardei-me das religiões
Desprezei a politicaria dos ladrões
E contrapus os charlatões

Aos idiotas compus recados
E palavrões não foram poupados
Mas pros hipócritas que veem tudo errado
Vai pra (...longe...) deixar de ser tapado

Brinquei com a dor e chorei com a alegria
Fiz orações de amor e cantei moda e utopia
Pelos pseudo-doutores da moral já fui condenado
Pelos mestres da lei em fogueira santa fui queimado

Mas sobrevivi aos babacas da hipocrisia  
Destilando sentimento nas entrelinhas da poesia
E os que fazem do poder uma tremenda putaria
Jazem na cova de suas próprias heresias

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Dança comigo

Na última das danças
Sob o êxtase da paixão
Mergulha-se na profundeza 
Da clausura das estrelas
À libertar a lua do firmamento
Ao som profundo do tempo
A noite desacortinada
Libertada da criação
Reserva com exclusividade
Sua cama, sua terra
Aos corações em extinção
Dança comigo!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Asas podadas renascem

Quis o destino lutar contra o tempo
Rasgou o limite do céu e secou o mar
Invadiu à espreita o sagrado do meu sertão
Fechou a cortina da janela de minh'alma
Cortou-me as asas e roubou-me o sonho
Sequestrou de mim, sem cautela, o vento
Para que o meu amor eu não pudesse alcançar
Enterrou minhas próprias lágrimas no ar
E na terra sangrou minha alma
Asfixiou os meus planos
E carregou minhas asas para longe
As asas do meu anjo por quem lateja o coração
Mas para onde quer que elas voem
Voltarão um dia para me buscar
Afinal, anjos não voam só
E o destino já fadado em seu próprio inferno
Não sobreviverá o suficiente para intervir no tempo
Asas podadas renascem e se abraçam para o voo eterno

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Andanças que já fiz história


Nas andanças que já fiz história, muitas ainda teimo em apagar, outras enveredo esforços para que permaneçam na memória. Tanto tempo passou desde aquela partida. Dolorosa partida que se fez entre lágrimas e esperança: o que se deixava e o que se esperava. Era um sonho. A realidade de um sonho tomando forma rumo ao desconhecido. Partimos.

Noite fria e de céu estrelado. Não me recordo a lua. Mas sei que estava lá. Carregamos as mudanças no caminhão. Deitamos sobre os colchões, que dividiam o espaço da carroceria com caixas e móveis de cada um, e ali nos enrolamos em cobertores. Três jovens aventureiros do interior rumo à maturidade exigida pela cidade grande. Um outro amigo nos acompanhou e foi bom. Sua companhia deu-nos ânimo e coragem. Essa travessia foi uma mudança repentina que marcou nossas vidas para sempre.

Entre os dias iniciais que desbravamos naquele inferno de pedras e motores até a saga dos primeiros passos e conquistas, o medo do incerto e a dúvida do que nos aguardava foram sombras que custaram a se dissipar em dias de sol. Nada saíra conforme o planejado mas o tempo cerceou as dúvidas e nos obrigou a continuar. Nossas lágrimas silenciosas explodiam na penumbra de nossas almas. Não desistimos. Superamos.

Conquistamos o mundo, o nosso mundo. Cada qual conseguiu trilhar seu caminho e fez, desfez e refez sua trajetória. O amadurecimento fez-nos adultos, ora sob as fivelas da dor, ora sobre suspiros de amor. Não houve arrependimento, eu sei. Faríamos o mesmo caminho quantas vezes fosse necessário. Sobrevivemos.

Do dia dessa partida ao tempo de agora muita coisa mudou. Muita gente querida e amada partiu. Lembranças eternizadas em nossos corações. E toda vez que me aventuro a retornar até o berço do meu interior, não tem como não lembrar toda a travessia e reviver nostalgicamente e feliz cada suor, cada lágrima e cada passo.

Nem tudo está como deixamos. A casa em que cresci e vivi os melhores anos de minha vida já não existe mais. Um grande galpão foi construído lá. Aquela rua Delfino, palco de muitas peladas, pedaladas, pega-pega, esconde-esconde, mãe-da-rua, polícia e ladrão sempre será como a deixei no antigamente... na minha infância. Por mais que a matéria tenha sido desfeita, basta fechar os olhos e me colocar sentado naquele muro do terraço... Foram muitas primaveras.

Recentemente resolvi doar objetos que carregava como um pedaço vivo de quem já embarcou para os Céus. Desfazer de tais presentes causa uma dor que dilacera a consciência. É como enterrar novamente um pouco mais de quem se eternizou... Inexplicável. Tomei a devida coragem e o fiz. Mantenho apenas o que me é útil. Meu primeiro violão e um triciclo de ferro estão na lista dos que partirão rumo à utilidade de quem precisa mais. Quebrei minhas próprias normas, ou correntes, ou protocolos quando senti a necessidade do desfazer. Acredito que longe do canto em que acumulava poeira na minha casa terá mais brilho e mais alegria.

Aquela casa de número 72 permanece intacta no meu coração. Não se desfaz. Não se perde nem se deteriora com o tempo. Tudo o que tenho de mais precioso está guardado com muito carinho, respeito e saudade. São lembranças que estão além de qualquer objeto. E assim, nesse ciclo que a vida se tece, continuo revirando o baú da minha infância e sempre partindo rumo ao real do sonho. A maturidade que se exige em cada empreitada, hoje se faz na consciência, e a voz dos meus queridos ecoa sempre viva no pé do ouvido.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Do simples, do rústico e do improviso

No improviso das calejadas mãos
Teciam-se remendos, arranjos 
Enfeites e ferramentas 
Nada se perdia, nada se desperdiçava
Tudo se transformava, tudo se aproveitava
Não existiam problemas, tudo se ajeitava
Pobres segundo os conceitos da cultura social 
Mas com uma riqueza que não se encontra por aí
Nos altos escalões da nobreza moderna
No quintal havia variedade de frutas, folhas e legumes 
Pelo dom de suas mãos...

Tão rústico quanto bruto 
Sangue quente nas veias e de poucas palavras 
Tão caipira quanto amoroso 
Pavio curto e dedicado
Crescido na roça, sofrido na vida
Não esmorecia pelo penoso passado
Importava com seu recanto
Sua casa, suas obras
Sua companheira, sua família
E comigo, seu neto...

Do simples
Tão simples quanto a prosa
Que de tão prosa se fez verso em meus ouvidos
Lateja no peito e na alma as lembranças
Tão simples quanto a vida poderia ser
No antigamente daquele tempo
Em que existia também uma prosa que se tecia a dois 
E continha nela aquele amor de respeito
Naquela casa que se fazia reza e novena
O almoço de domingo depois da missa
Ali, tão perto do coração
Lá, tão longe das minhas mãos
Para o que não se tinha, tinha o improviso
Para o contraposto do pronto, havia o rústico
E para me fazer contemplar a vida, apenas o simples...

Ao som de uma moda de viola
Meu coração percorre longe
Passando pelo jardim das rosas
Das primaveras
Entrando pela porta da sala
Atravessando a pequena cozinha
Em direção ao quintal
Meu pé de ameixa
Que fora o avião das minhas brincadeiras
O gramado que fora o mar
A terra em que construí castelos
Então, volto sujo do quintal pro bom banho
Dali pra janta tão mais simples e saborosa
Um pouco de sala, causos e mais prosa
Até partir pra cama em quase tarde da noite
Enfeitada com a colcha de retalhos pelas mãos dela
As mesmas mãos que se me espera a tua benção...