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terça-feira, 30 de setembro de 2025

A busca - por Lu Costa

Com imenso prazer apresento essa obra que dispensa comentários. 
Lu Costa, amiga querida, graduando em Psicologia, mãe atípica,
esposa, irmã e filha, uma mulher potente em suas convicções,
em sua trajetória e principalmente naquilo que se dispõe a fazer.
Dessa arte desenhada em palavras, surgem perguntas e na
maioria delas a resposta está nas entrelinhas de seu
pensamento aqui expressado. Não cabe a mim tecer
qualquer explicação. A escrita é uma obra a ser lida,
sentida com os olhos da alma. Nesse percurso de dúvidas
e sentimentos, Lu pintou um quadro com lágrimas de dor
e de esperança com palavras que exalam vida. Sem mais delongas,
eis que um recorte me inspira a imortalizar essa obra:
"E talvez, apenas talvez, a própria busca já seja a resposta."


Uma busca incessante incendeia meu coração. Olho para os lados como quem espera que a resposta venha de algum lugar. Olho para o céu azul e vejo apenas nuvens e pássaros. Pergunto-me: o que buscas? O que te falta?

E o silêncio dentro de mim se mantém. Não sei dizer. Seria dinheiro, um carro novo, um bom emprego, status? Não tenho a resposta certa, mas sinto que essa busca vai muito além das coisas efêmeras deste mundo. Seria tempo de qualidade, uma ligação, um abraço de quem se ama? O que você busca?

A pergunta se repete dentro da minha alma. Talvez eu até tenha a resposta. E, como uma mãe que protege o filho de algo que possa feri-lo, minha psique, essa mãe protetora, me guarda dessa verdade. Mas por quê? O que essa resposta poderia trazer?

Seria a decepção de perceber que passamos nossas vidas presos a coisas materiais, a futilidades, perdendo tempo sem saber ao certo o sentido da vida? Ou seria porque a realidade é simples demais para aceitá-la? Simples demais para reconhecer que a resposta está no sol que aquece todas as manhãs, no brilho dos olhos daqueles que amamos, esse brilho que quase nunca paramos para admirar. Está no silêncio daqueles que se calam, na flor que desabrocha, no alimento que sustenta o corpo e na oração que sustenta a alma.

O que você busca? Ainda não tenho essa resposta. Mas a angústia e o anseio do porvir fazem meu coração bater mais forte, correr como quem tem uma viagem marcada e quer aproveitar ao máximo os dias neste lugar tão misterioso. E talvez, apenas talvez, a própria busca já seja a resposta. Talvez seja esse caminho incerto, cheio de perguntas, que nos ensina a ver o que sempre esteve diante de nós.



Lu Costa
@lu.costa_pereira

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Descortinando para a vida



Eu sei,
Um dia, quando
Te vi, de uma forma não descrita, apenas sentida
E você, ainda presa em si mesma
Apesar, do silêncio e ausências de brilho e sorriso, sentia que havia mais
Mais do que eu e você esperávamos
Entre desertos, trincheiras e repostas
Inquietudes trazidas à tona, na pele, na alma
Pairando sobre o pensamento e a vontade de viver
Rompendo laços de aparências
Internalizando apenas o essencial para viver uma nova vida
Mas, também eu estive ali, estou aqui, pois
Eu, amei primeiro
Inteiro
Rasguei minhas roupagens e sigo esperando
O descortinar da verdadeira mulher que te habita

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos IV - inquietudes



Você está em dois mundos
Do sonho, do romântico
E o da realidade, frustração


Desejos não mudam o cenário. Atitudes sim.


O tempo dedicado a quem se considera 
é um presente que não se mede em valor material. 
Mesmo que não haja reciprocidade, 
a experiência é válida para quem se dispôs em ação.  15/12/22


Somos objetos de nossas próprias vaidades. 
Somos reféns de nosso próprio egoísmo. 
Somos passageiros sombrios 
perdidos na vitrine das aparências. 20/12/22


Da janela da minha alma
Ecoam prantos de dores
Escorrem melodias de sonhos
No lapso de cada tom
Um suspirar de esperança
Entre a saudade do que não se viveu
E o amor que transborda teimosia,
Inquietudes, e duras lutas de silêncio e solidão. 24/12/22


E o vento?
Vento não faz barulho. 
O barulho é das trombadas que ele dá 
no que tem pela frente.






segunda-feira, 28 de junho de 2021

Noite e lua: dança, esperança e saudade

Na sofrida ausência do contato

Dia e sol me embriagam de saudade

Noite e lua repintam seu retrato

Dor e alento equilibram a vontade

 

Na noite que orquestra o silêncio em melodias

Me repouso sob o escuro manto da noite estrelada

Sonhando em meu peito com sua companhia

Meu querer te faz real por toda essa estrada

 

Na noite que encanta a vida com a lua 

O seu perfume ultrapassa fronteiras

São lembranças, saudades de uma dança nua

Dos corpos que se entrelaçam num ritmo faceiro

 

Na noite, cenário perfeito para a dança

Seguimos um ritmo sem pautas, apaixonados

O amor para os amantes é uma oração de esperança

Que alivia os corações de saudade apertados

 

A lua dança solitária em seu recanto adentro

E a noite imortaliza esse intenso romance

O sol traz a esperança de um novo tempo

E a promessa que o amor sempre vence


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Pra recomeçar


Na sobrevivência de outras lutas, outras vidas

Tornei-me combatente fiel de meus propósitos

Deixei pelo caminho dores, flores, amores

E carreguei na mesma proporção 

Cá em mim um pouquinho do que me foi dado

Aprendi a ver a vida com a luz daquele olhar

E me perdi na escuridão quando não mais o vi

Talvez o tempo não nos dê tanto tempo assim

Talvez o tempo tenha te afastado de mim

Por vezes, não sei mais quem eu sou

E o que sei são pelos olhos de quem me amou

Dos que me conhecem de forma absoluta

Sorrio pelo sorriso espelhado das lembranças 

De uma história de contos, real, inacabada

Que em outro tempo, noutra era foi começada

Diante de tantos combates, cicatrizes me acompanham

O relógio se descompassa no tempo

O violão teima em desconsiderar meus acordes

E os bilhetes coloridos se desbotaram em lágrimas

Ficaram marcas, lembranças e saudades

E sonhos, muitos sonhos

Pra recomeçar...

Do que fui já não me lembro mais

Inquietudes que vibram meu corpo 

Agarro-me na imensidão de um vazio persistente

Entre lampejos de esperanças 

E gotas de alegria quando o sorriso me alcança

Já não me esforço por me explicar

A opinião indifere ao meu pensar

O meu brilho se apagou naquele dia

Que me roubaram o direito da alegria

Desde então, vagueio no deserto

No concreto, na vida, na lida

E me reencontro em devaneios passageiros

Quando aos poucos consigo ainda sonhar

Ficaram marcas, lembranças e saudades

E sonhos, muitos sonhos

Pra recomeçar...

 


domingo, 14 de março de 2021

No palco da vida, ensaios reais


No palco da vida, 

abrindo e fechando 

as cortinas diariamente

sigo encenando o dia da vitória

que será seguido 

de aplausos e lágrimas

estas que lavarão a honra, 

levarão a tristeza

e elevarão a alma

revigorando a vida,

curando as dores

revitalizando o amor...

 

No palco da vida

entre rios e montanhas

sigo na travessia

vivenciando cada passo

ora me sentindo sem forças

ora encontrando conforto

nos olhos alheios 

que refletem o amor

rumo à outra margem

rumo ao cume

apreciando as paisagens

suportando os quedas, 

as dores, as fraquezas

as feridas...

 

No palco da vida

por vezes o cansaço

se equipara à vontade de vencer

e noutras vezes me despeço

como se não fosse retornar

para a batalha que será última

entre o corpo e a alma

entre o medo e a coragem

a esperança é o que se sobrepõe

no entardecer de cada espetáculo

e quando a voz perde o tom

quando o único eco 

é ressoado no silêncio da dor

nesse momento olho ao redor

e me deparo com um mar de amigos

que num canto em coro

fazem o coração novamente

bater em compasso

 

No palco da vida

que não permite ensaios

cada ato é real

mesmo diante da surrealidade dos fatos

nada é imaginário

nem a dor

muito menos o amor

não há o que superar

a não ser o tempo e suas angústias

suas esperas e suas mortes

morrer deveria ser apenas

única e verdadeira vez

porque morrer todo dia um pouco

é desumano, é injusto

mas até o último suspiro

até a última gota de sangue

que correndo pelas veias

ou escorrendo para fora do corpo

enquanto houver vida

haverá luta, suor e lágrimas

porque o amor,

ah! o amor vale a pena


sexta-feira, 12 de março de 2021

Preso por dentro e por fora



Preso nesse loop quase interminável
Ora girando por dentro, ora por fora
Sigo sangrando em silêncio
Em minha morada última
Que talvez possa ser
Andando e construindo sonhos
Voando e reconstruindo meu alicerce
Navegando e refazendo a eterna travessia
Num horizonte em que meus olhos contemplam
O tempo que condena os dias

Meu quarto, meu calabouço
Meu silêncio, esperança inquietante,
Santo inquisidor que fere minha alma
Sobrevivo pela necessidade 
De um novo e vitorioso amanhã
Em que o peso do ar seja leve
E então as páginas tristes sejam descartadas
Nesse mesmo tempo que agora jaz no passado
O momento é uma espessa corrente a ser quebrada
E a estrada se abrirá em flores e amor

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Esperas ou esperança?



Na busca diante das incertezas se vive a sentenciada espera... Espera pela vitória, espera pelo alívio, espera pelo alcance de uma meta. Pouco se fala do tempo de espera que também é de tentativas, frustrações, derrotas, lona, dores, suor e lágrimas. Esse é o tempo do aprendizado, que em sua maioria é cercado de medo, dúvidas, sentimentos de desistência, escuridão e tempestades. Há um fio que permeia ambas as margens, que podemos considerar como sendo a esperança ou a falta dela. 

É preciso se apegar para não ser um náufrago em terra firme. Afundar no medo e na incerteza é não crer em si mesmo, é podar a esperança de que um dia a vitória será certa. Mas antes da esperança, o sonho se tece. E em cada pedacinho costurado nesse sonho, vamos alicerçando sua realização. Espera sem luta é vã. Desistir sem tentar é não se acreditar. 

"Todo ser humano pode. Se tem algo que o ser humano pode é poder." Há algo que está implícito nessa frase de efeito e empoderamento de gênero que é a capacidade humana além do poder, o pós poder. Há quem não saiba o que fazer com o poder alcançado e mete os pés pelas mãos. Todo ser humano pode sim, mas nem todo ser humano é capaz de lidar com a vida depois. 

"Todo ser humano morre, mas nem todo vive." Essa sim é uma frase épica, pois o que mais se vê são defuntos vivos, gente que habita um corpo mas não vive a vida. Deposita todas as fichas na conquista dos materiais diversos enquanto a balança da essência flutua sem peso. Se tem algo que o ser humano, independente do gênero, devia se dedicar era para a vida, a vivência.

Longe de embarcar nessa vibe de coaching que vagueia entre frases de efeito e insigths de auto-ajuda, terapia, psicologia e não conclui muita coisa além do que já conhecemos. Daqui deste reduto só poetizo a problemática que retumba à minha volta. 

O tocante desse contexto abordado em um emaranhado de pensamentos livres e devaneios necessários surge num momento ímpar, momento em que liberdade e libertação se alinham, dialogam e se confrontam. São apenas os ecos das vozes que coabitam entre corpo, alma e coração e buscam deliberadamente o canto em que o encanto permanece pairado no nosso recanto.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Entre desertos e trincheiras

 

Entre um deserto e uma trincheira a vida se tece
Durante meus desertos carreguei o peso do meu próprio mundo
Com minhas livres decisões e também com aquilo que me foi imposto
Em minhas trincheiras reencontrei quem já partiu
E aqueles que merecem toda confiança e amizade
Lágrimas e suor limparam qualquer vestígio de dor
Aquilo que chamam de derrota eu trato como lição e aprendizado
Tombo e lona não são vergonhosos
Vergonha e desonra é para quem foi desleal
Estes, sempre serão lembrados por seus atos covardes...

Entre um deserto e uma trincheira, o pensamento e a luta
Minhas manhãs de deserto, sem brilho e sem sol
Solidão a sós, em nós, nas lutas desarmadas, desalmadas
Trincheiras da vida, da lida, da labuta
Poeira nos olhos, calor, dor, presença
Há quem nunca ouse acreditar
Há quem nunca queira sonhar
Mas há quem só quer lhe roubar
A esperança, o sonho e a vida
Sua própria travessia... 

Entre meus desertos e minhas trincheiras...
Ah, quanto medo derrotado, quanta dor perdoada
Entre meus mundos, eternas lições
Entre meus devaneios, anjos e demônios
Entre o sonho e a realidade, fantasmas e esperanças
É assim, é a lida, é a vida... meu saber, meu querer, meus sonhos
Ninguém rouba, ninguém tira, ninguém mira
Só quem tem a chave e conhece o desejo, o segredo
É capaz de decifrar, sentir, pulsar,
Tanta ternura, loucura, amor... 

Entre vitórias e derrotas, a vida e a morte
Há quem sabe um tanto de suor e um dedo de sorte
Mas poucos conhecem a dureza das batalhas
Foco na intensidade das pegadas, e me afasto das migalhas
Maquiagens não me distraem, imagens não me atraem
Em meu rumo e meu foco só cabem essência
Lado a lado, de mãos dadas, pés descalços
Descarto a frieza da mórbida aparência
Enterro vivo os corpos desalmados
E assim cicatrizo meus próprios machucados...

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Como posso me calar?

"Como posso me calar? Como posso me calar?
Como posso me calar? Como posso me calar?
Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos
Cansados com medo de amar
Meu grito, calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar"
(Música: Como posso me calar - Roberto Merli)

Quando um cenário como esse não faz mais diferença aos olhos de quem passa perto, com certeza a frieza do mundo já consumiu grande parte do humano que habita o corpo. Não faço aqui um chamado para caridades paliativas, do tipo esmola em forma de trocados que sobram na carteira, mas para o que a raça humana tem se tornado em nome do lucro, do status e do poder, tentáculos estes daquilo que chamamos de capitalismo. É certo e verdadeiro que pessoas que habitam em condições subumanas como essa, à margem da sociedade, precisam sim de apoio material, financeiro, bem como de cuidados com a saúde do corpo e da mente.

Algumas parcelas da sociedade, principalmente políticas e religiosas, necessitam de situações como essa para esbanjar seu marketing. Parar e resolver a situação é uma questão que raramente se vê e tampouco se sabe. Algumas pseudorreligiões consideram que tais pessoas são vítimas de sua própria falta de fé em Deus, ou seja, vivem à margem como um castigo divino. Utilizar deste subterfúgio é algo digno dos falsos profetas que utilizam do mercado da fé para enriquecerem seus cofres. 

Na política, segundo uma nova onda de pensamento ultra radical e conservador, que tem colocado em pauta que tudo é uma questão de meritocracia, as vítimas da pobreza e da miséria não se esforçaram o suficiente para romperem as barreiras sociais e o prêmio seria continuar vivendo no submundo e anonimato sociais, sendo tratados como lixo, escória, sem méritos e não abençoados...

A mentalidade humana está mudando, enrijecendo de tanta frieza e falta de empatia com o próximo. Nem digo falta de amor, porque isso já deixou de ter faz tempo. Respeito então, é algo que existe no dicionário de raríssimas pessoas. Não demora muito e os habitantes dessa morada, das fotos aqui apresentadas, serão expulsos daquele lugar. Bem ali, onde eles sobrevivem, seria a entrada de veículos de uma empresa já fechada. Sim, eles serão expulsos porque simplesmente estão poluindo uma pequena parte do cenário urbano e incomodando aqueles "cidadãos de bem" que passam por ali, de carro, na ida ou na volta de seus trabalhos ou passeios.

Ao ver e rever essas imagens o único pensamento foi de indignação e também de questionamento. Por isso, um trecho da música "Como posso me calar?" acompanha a primeira imagem e também é o título desse texto. Infelizmente essa é a única forma disponível no momento para que, primeiramente, eu jamais deixe de perceber e enxergar não apenas o cenário mas os protagonistas que ali sobrevivem e assim não me torne mais uma alma fria a vagar pelo mundo do ter. E por último, que outras pessoas também se deem conta que nem a política e nem a religião será capaz de mudar o mundo se seu coração não for capaz de ter pequenas atitudes como simplesmente enxergar e respeitar.




*Fotos: Escritos em Tempos - A.D.O.
Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Dores alheias, dores do mundo


Era um final de tarde e eu estava no supermercado apenas para comprar umas broas. Quitanda na mão, já me dirigia para a fila do caixa quando um menino de uns dez anos me abordou. Perguntou-me se eu poderia inteirar seu dinheiro para ele comprar um frango para levar para casa.

Meio sem ação diante do menino, ele mostrou-me uma moeda de cinquenta centavos e outras que carregava no bolso. Devia estar ali no estabelecimento já tinha algum tempo tentando juntar a quantia suficiente junto aos clientes para comprar o frango.

Fomos até o açougue do supermercado e aguardamos na fila. Por incrível que pareça, como um teste de paciência, a fila não andava. Foram mais de vinte minutos aguardando a nossa vez. Enquanto isso fui conversando com o garoto. Ele tem onze anos, estuda, tem mais três irmãos menores, a mãe é diarista e todos moram com a avó.

Sua missão naquele dia era conseguir levar um frango para casa. E enquanto a gente conversava olhando nos olhos o único pensamento que batia forte era: "a maior dor no mundo é a dor da fome". Nem sei de onde saiu isso mas de certa forma acabei lembrando de alguns comentários até do Papa Francisco no que se refere à fome no mundo.

Enquanto a gente conversava na fila dois fiscais ficaram de olho no menino. Aquilo já era pessoal uma vez que o garoto em nenhum momento causou qualquer tipo de perturbação. Desde sua aproximação de forma educada ele deixou claro seu desejo. Conseguir apenas um frango...

Enfim, após longa espera na fila, fomos atendidos. Partimos então para a fila do caixa sob o olhar preconceituoso dos fiscais. Juro que aguardava ansioso qualquer tipo de intervenção, mas por sorte e para o bem de todos tudo ocorreu normal.

A intenção aqui não é expor nenhum tipo de caridade como troféu, até porque fazer esse tipo de exposição além de hipocrisia e vaidade para o ego perde todo o sentido, mas entender a dor alheia que muitas vezes torna-se uma mera imagem rotineira ao cotidiano de nossos olhos.

Dores alheias, dores do mundo, será que incomodam? Incomodam pelo fato de vez ou outra nos deparar com alguém pedindo ao nosso redor ou por nos colocar no lugar do outro e tentar entender a gravidade e o desespero daquele ato de pedir? Talvez, maior que a dor da fome, seja a dor da indiferença e pra esta não há remédio para quem sente...

Acredito que se existe o inferno para lá devam ir aqueles que se fizeram indiferentes perante a dor alheia num momento que poderiam fazer a diferença. E, se nada mais me comove, se nada mais me incomoda, se ainda me calo diante de tanta injustiça, então com certeza morreu aqui dentro o humano que um dia me habitou.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

segunda-feira, 1 de julho de 2019

1000 x foda-se



Enfim chegamos à marca dos 1000 escritos, ou 1000 postagens. E sabe o que isso significa? P***a nenhuma! 

Dentre as várias ideias de como prosseguir com este blog pensei em deixa-lo morrer aos poucos, sem postagens futuras, na certeza de que já cumpriu o seu papel e agora é chegada a hora do repouso eterno dos justos. 

Escritos em Tempos é um verdadeiro diário de bordo,  pois guarda desde os primeiros poemas do antigo colegial (1993) até os escritos em meados de 1999 e depois entrou num sono profundo de dez anos, ressurgindo em 2009. 

É certo que antigamente todas as anotações eram feitas em agendas e cadernos ou, no máximo, numa pastinha no computador, e demorou muito tempo para transpor cada texto aqui para o blog. Fiz questão de manter até mesmo os erros ortográficos da época. O primeiro título desse blog foi "Escritos: Cantos & Encantos da Vida" (2009). Passado algum tempo foi rebatizado de Escritos em Tempos.

Outra possibilidade seria criar um novo blog, outro espaço, porém, dando uma refinada no layout, nos temas e principalmente nas postagens. 

Tudo certo mas nada resolvido! 

O fato é que escrever é bom, muito bom. Terapêutico, por sinal. Um vício bom, um passa tempo, momento de extravasar, espaço de confidências, entrelinhas que são percorridas com lágrimas, suor e sangue, dores que refletem na alma, gritos e silêncios, fé e desesperança, amor e ódio... Tudo cabe, tudo pode, mesmo o mais gostoso dos pecados (seja qual for o seu) é permitido. As linhas não mentem nem escondem os sentimentos, tudo depende da óptica que se lê e de onde se enxerga. Não basta ver apenas... 

As posições aqui são claras. Encontrar os que se agradam com a mensagem é bom. Ouvir que as pessoas se identificam é ótimo. Mas, também não me impressiona, nem me deixa desanimado encontrar os que não comungam de algumas ideias e ideais. Que bom que existem posições contrárias, que não somos iguais em tudo. Imagino que seria chato se todos gostassem das mesmas coisas. 

A única coisa é que não abro mão de pensamentos para agradar a terceiros. Uma outra coisa é fato: transparência! Exceto, em casos que me dei conta de ter feito comentários que não acrescentaram em nada, e ao contrário, causaram certa incompreensão entre alguns espaços em que convivo. Teve um caso que, passado alguns anos de uma postagem a qual teci críticas aleatórias e sem embasamento, fiz questão de escrever um pedido de "desculpas" formal. Mantenho ambas as postagens, a da crítica e o pedido de desculpas. É bom estar em paz e de consciência tranquila.

Por outro lado, têm coisas que não me tiram a tranquilidade: tecer críticas de viés religioso, os exageros de maneira geral, principalmente sobre a minha religião, e também sobre política. Apenas penso que, de maneira laica e sem envolvimento político, se o assunto em questão traz benefício para todos então merece elogios, do contrário, não poupo críticas, tampouco o uso de qualquer palavra, por mais pesada que seja. Foda-se!

Ah, quantos "foda-se" estão aqui, soltos pelas águas desses 1000 escritos!... Mas, quantos momentos de descontração, de emoção, de perdão e principalmente de libertação que essas águas me trouxeram, não foram poucas. Já fiz monólogo, diálogo entre meus "eus", pedi explicação pra Deus, enxerguei a covardia de alguns humanos enquanto culpavam o pobre diabo para se isentarem de suas merdas... E viva la hipocrisia! Essa, com certeza é uma das piores características do tal humano. 

Bom, diante de todas as incertezas quanto a este espaço, penso que ele ainda será eterno por mais que o tempo entre uma postagem e outra seja grande, repleto de desertos, montanhas e rios... Uma hora a gente se esbarra, se reencontra, têm um dedo de prosa e coloca os assuntos em dia. 



quinta-feira, 9 de maio de 2019

Vale das ausências


Não são poucas as vezes que nos deparamos com o vale das ausências e nela quase nos afogamos em meio as tentativas de encontrar não somente mas principalmente respostas, ou talvez, pessoas.

Há quem nunca tenha experimentado tal sentimento mas existem os que sobreviveram a uma dolorosa travessia por esse vale. E desses sobreviventes cada um encontrou o meio que melhor lhe serviu: religiões, orações, bebidas, drogas, psicotrópicos, terapias ou simplesmente tempo, silêncio e solidão. 

É algo que não cabe julgamento no que tange o declínio ou superação quanto ao que se viveu e sentiu, mas é fato que isso é algo que não merece ser repassado principalmente às pessoas próximas. Na verdade o fato de ter vivenciado ausências não me permite colocar as pessoas que amo a experimentar esse mesmo vale. É uma questão de escolha.

E escolhendo não repetir situações ou erros, que outros utilizaram como desculpas para suas ausências, eu também me permito superar e encerrar questões sem respostas ou mal resolvidas. 

Das opções acima descartei praticamente todas as possibilidades para atravessar esse vale. Acompanharam durante certo tempo a religião, as orações e súplicas, e as minhas auto-terapias intercalando tempo, silêncio, solidão e poesia. Sobreviveu apenas a poesia. 

Das sobras do que marcou profundamente ficaram apenas marcas envelhecidas, escurecidas pelas ausências e quase apagadas pelo tempo como uma fotografia de jornal, ainda assim, guardada como relíquia e sinônimo da superação sobre a dor. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Cenas de uma longa travessia


Era o ano de 2000. Recém chegados na capital paulista, na carroceria de um caminhão que também transportava as nossas mudanças, eu e mais dois amigos vislumbrávamos o futuro para nós e nossas famílias. Jovens e cheios de sonho, carregávamos conosco a essência do interior, amizade, simplicidade e esperança. Desconhecíamos e muito a malícia necessária para a sobrevivência naquela selva de pedras.


Três meses se passaram e aquele sonho já havia ficado distante e difícil, especialmente para mim. Na partida do interior havia uma perspectiva certeira, um rumo definido que poderia ser o primeiro passo de uma longa e esperada jornada. Porém, surge o inesperado, a vaga para a qual seria contratado não aconteceu. O receio de que algo não desse certo então tornou-se um medo real. Foram dois dias nesse suposto emprego e três meses em busca de uma nova oportunidade. Estava ali por mim mesmo. Não dava e não queria regressar para o interior. 

Num determinado dia, retornando para casa após passar horas no grande centro paulista em busca de vagas de emprego, passando por processos seletivos variados e abordagens difíceis por parte dos entrevistadores, caminhei do ponto de ônibus até chegar numa rua deserta que dava acesso à rua de casa. Era uma noite não muito fria. Olhei para o alto e de repente estava em lágrimas. Lágrimas de desespero. Já havia tentado passar por incontáveis barreiras que antecediam uma simples vaga de emprego e que pareciam aumentar de tamanho e dificuldade à medida em que os dias também passavam.

Essa noite ficou bem marcada na memória. Caminhei devagar, sem perspectiva, e recostei minha cabeça num poste. Ninguém passava por aquela rua naquele momento. Cheguei a conversar com Deus e questionei-o sobre o porquê de tudo aquilo. Se Ele havia me dado oportunidade e me carregado de esperança, então por que todo aquele sofrimento, aquela angústia por não saber o que esperar do futuro e nem daquele momento. Foi um tempo difícil e retornar pra minha cidade natal não era uma opção. 

Enxuguei as lágrimas e prossegui com a caminhada para casa. Comigo, uma mistura de muitos sentimentos, raiva, impotência e um resto de esperança prestes a perder-se na impaciência e na necessidade de sobreviver. O sonho do futuro já era algo inatingível. A questão maior seria como permanecer e vencer tais dificuldades.

Uma semana depois eu já estava me organizando para trabalhar. Mas essa é uma outra cena para outro momento. Talvez, até já tenha mencionado em algum escrito lá atrás. Por hora, por hoje, me pus a refletir sobre essa travessia que me trouxe até aqui. Não foi fácil, nada vem fácil, mas com certeza tudo vale a pena, as lágrimas, os tombos, as perdas e até as decepções. Isso apenas nos torna mais humanos e nos ensina a valorizar que a travessia está para todos e no fundo, o objetivo real é saber caminhar bem e apreciar tudo que se encontra à beira do caminho.