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quinta-feira, 18 de abril de 2024

Sobre as cartas, o que falas?



Caos e calmaria
Vento e ventania
Dor e alegria
Asa e poesia
Brisa e melodia
Sou asa, mas também sou casa
Sou céu, mas também o fel 
A asa que minha habita
Impulsiona-me para céu
Além do meu caos
Um duplo sistema de acordes disformes
Que reverberam notas intensas
No relento do meu deserto
Caos e borboleta
Discorrem suas intensidades
Fragilidades
Num vácuo do tempo
Não percebível aos olhos alheios
Eu corro, eu fujo
Eu me enfrento
As vezes choro
As vezes sangro
As entrelinhas dizem o que a alma sente
Seja ausência, seja presença
Seja aparência, seja essência
Apenas seja...

* Abaixo os links em sequência, referente às 8 cartas:

Cartas - Do caos à borboleta VIII



Toda vida tem seus riscos
Toda brisa esconde o infinito
Rastejar e se ancorar
Romper-me do casulo
Criar asas e voar
Nada pode ser mais duro
Que o mundo que te espera
Por anos, por dias, por segundos
Mas é preciso arriscar
A vida não acontece 
No recôndito de um esconderijo
Nem na prisão de um pensamento
Ela se tece, se aventura
Se doa, se vive
A metamorfose é o processo
De que passamos a cada dia
Caos é a dor
A borboleta sua libertação
É preciso uma retratação
Uma reconciliação com o equilíbrio
Entrelaces e conexões
Expurgos e inclusões
O milagre acontece
No passo, no abraço
No voo, 
Mesmo nas incertezas mais cruéis
Com a presença incansável da solidão
É preciso um espelho d'água
Refletindo a imagem imediata
Tão certa quanto a correnteza que arrasta
Que tudo é passagem
Só resta saber, 
Se queremos a falsa miragem
Ou as dores da liberdade do viver

Cartas - Do caos à borboleta VII


Entre a dor da existência
E a da sobrevivência
Ao meu próprio caos
Prefiro a que eu mesmo gerei
Pois é fruto de meus passos
Ora pisados, pra plantados
Ora empurrados em minha direção
Se há esperança, é a de vencer-me
Aquém de minhas fronteiras
Encontrar sentidos 
Algo que ainda me reencante
Que valha cada gota
De suor, lágrima ou sangue
As leis seriam descartadas
Se não fossem as injustiças
Desigualdades
Esse mundo é imundo
É alto o preço a se pagar
Questionar o improvável
Esperar no amanhã
Lutar no agora
Assumir o passado
Há que honrar o legado
Quem vem depois
Precisa de referência
Só por isso ainda me permito
Nesse mar de caos
Ele faz doer
Mas evita outro sofrer

Carta - Do caos à borboleta VI


A morte é certa
Nunca se sabe quando
Será a última planada 
Sob a terra, sob a água
Onde o vento soprar
Tomar consciência da brevitude
Do tempo que circunda as asas
É estabelecer um plano de voo sem fim
Tão intenso quanto a certeza
Da rosa no jardim
São cores, são louvores
Da criatura que se encanta
Sem saber de seus encantos
O caos também me habita
Mas não me consome
Porque há uma lei 
Que rege toda existência
A consciência do amor
O voo é solo
Mas o ar que sustenta
Que empurra e que dissipa
É o que em comum nos alimenta
Pés abaixo, asas acima

Carta - Do caos à borboleta V

O caos
Universo de opções
Sem intenções
Que tende sempre a despertar
Monstros e demônios
A gladiar com anjos
Num terreno tão sagrado
Quanto profano
Deserto de desejos
Tudo se mistura nessa imensidão
Ao ponto de não saber
O quão inocente seria o demônio
Ou tão tirano seria o anjo
Na guerra dos mundos
O amor quando profano 
Se torna fecundo
A cegueira social é contagiante
Sobrevive quem se anula,
Quem morre para esse mundo
O efeito é gritante
A causa sempre foi distante
De todo e qualquer olhar
Poder, status, ganância
Eis a verdadeira ânsia
Instinto matuto e selvagem
Gerir meu caos
Tem menos danos
Que o sistema desumano

Cartas - Do caos à borboleta IV


Sempre há um porvir
E todos um dia irão partir
Não se pensa primeiro na chegada
Sem antes contemplar a escalada
O vazio está aquém ou além
Nunca no movimento
O efeito do bater das asas
Pode ecoar no infinito
Ou simplesmente enfeitar
A insignificância existencial
De quem não aprendeu viver
Crescer faz doer
Faz perder
Ou melhor, seleciona-se
Pela ordem natural da vida
O que tu chama de caos
Eu chamo de oportunidade
O vento me arrasta
Mas também me mostra
Outros rumos
Outros prumos
Por cima dos muros
Há sempre um quintal
E no quintal os sonhos nascem
Tomam forma, e um dia
São reais

Cartas - Do caos à borboleta III


O caos não tem mais ar
Suga-me das entranhas
Sou engrenagem de sistema
Não vejo sol
Não tenho brilho
Não ouso com a lua
O frio me apetece
Porque me obriga superar
Não espero menos 
Do que a dor da desilusão
Caos de deserto
Caos de solidão
Caos de sentimentos
Caos de um vazio gritante
No deserto do meu ser
Em que vago sem limites
Divago sem pudor
Me apetece minha dor
É nela que me reencontro
Num vazio
Tardio
De frio
Da alma

Cartas - Do caos à borboleta II

Na brisa que dissipa
Sob efeito da gravidade
Mergulho nos abismos da solidão
Percebo meu destino
Nem por isso me desatino
Da grandeza do servir
Mesmo que o depois já é partir
Para onde a correnteza do ar
Para o alto ou para baixo me arrastar
Sou livre, porque a leveza me permite
Antes de voar, 
Precisei renascer
Todo nascimento é um rompante
Antes da alegria vem a dor
A espera é sofrimento
Mas também esperança
Tudo pode ser cinzas
Mas também arco-íris
Não precisa ser um jardim
Uma flor já é um começo
Uma dádiva
Uma vida
Deixe o vento transpassar 

Cartas - Do caos à borboleta I

Meu caos é necessário 
Eu preciso que ele exista, 
Para que a dor prevaleça, 
Para que a coragem persista, 
Para que eu resista
Para que a vida aconteça
A resistência me põe à prova
O silêncio me perturba
Chega a ressoar e doer
O barulho é minha companhia
Minha velha amiga nova
Eu sonho, e vivo nele
Num mundo de possibilidades
Que, talvez, ciente do irreal
A espera, sem muita alegria
Subscrevo-me nas entrelinhas
De versos desconexos
Revisitando paisagens
Miragens de um além
Esperando o efeito
Do remédio
Do tédio
Da causa 
Sem pausa
Sem ar
Sem paz...

sábado, 10 de junho de 2023

Carta aberta: orgulho x hipocrisia



O assunto é delicado e pode levar a inúmeras interpretações equivocadas. Por isso é sempre necessário invocar o bom senso, ter empatia, saber acolher e se posicionar em prol da dignidade humana. Para início de conversa trago a seguinte questão: Quantos tipos de orgulho existem, ou melhor, como podemos interpretar a palavra "orgulho"? Particularmente, penso de duas formas: existe o orgulho, em seu significado negativo, que impede o ser humano de se redimir de algum ato cometido, o qual o resultado tenha sido prejudicial a si, a outros ou a uma situação; e, existe o orgulho, em seu aspecto positivo, aquele que nos enche de prazer e, que se dá no momento em que elogiamos alguém, "você me enche de orgulho". Como pai, não me canso de repetir aos meus filhos, o quanto eles me enchem de orgulho. 

Estamos nos aproximando de uma data em que já é um marco nacional e mundial: a PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+. E esse termo é repleto de significado positivo, porém, incomoda os padrões de uma certa ala da sociedade. A PARADA não é apenas um ato de representatividade, é um momento de juntar forças e poder expressar, entre protagonistas, simpatizantes e apoiadores, o ORGULHO por ter tido a coragem de assumir perante ao mundo, aquelx que realmente é: simplesmente VOCÊ! Não é um movimento provocativo, nem impositivo mas um ato simbólico e de protagonismo que se expande para além do momento. Ao mesmo tempo há uma provocação sim mas, para que, enquanto telespectadores, saiamos do nosso anonimato e lutemos por igualdade para todxs, bem como a única imposição que existe é a de si mesmo, ao se aceitar como é de fato, sem precisar se encaixar nos padrões impostos. 

No tempo que antecede esse encontro, mercadores da fé usam de seu púlpito pseudorreligioso, ora transformado em palco de exibicionismo, ora em palanque de moralismo seletivo e, ora ainda, em tribuna religiosa para sentenciar àqueles que não se encaixam nos padrões sociais ditados por sua instituição. Segundo essa corrente seletiva de fé deturpada, tais desviados dos padrões são sempre merecedores de um certo inferno. E inferno sempre foi usado para usurpar e manter os fiéis submissos e alienados. De forma teológica, que meu ínfimo conhecimento acadêmico nessa área me permite, gosto sempre de lembrar e ressaltar quem foram os escolhidos citados nas passagens da bíblia cristã, o qual tinha como protagonista o nazareno, este que foi condenado por instituições religiosas, tido como blasfemador; literalmente um preso político de seu tempo. Ele dava voz e vez aos excluídos da sociedade: prostitutas, ladrões, cobradores de impostos, etc. E na contramão das regras sociais condenava a hipocrisia exacerbada dos mestres da lei e donos dos templos. Vale ressaltar que as instituições religiosas daquela época tinham poder igual ou maior ao do Estado. 

Nesse mesmo tempo em que uma instituição, que prega fé cristã, através de seu líder que usa das mídias, inclusive de seu canal de TV para segregar, dizendo que Deus odeia o orgulho, referindo-se ao ORGULHO LGBTQIA+, isso literalmente é tido como uma incitação nada velada de ódio e que pode acarretar formas violentas de expressão contra os protagonistas desse movimento, a PARADA. Na mesma semana em que esse líder religioso se manifesta, o pastor de uma de suas filiais foi preso, suspeito de estuprar adolescentes.  Talvez, se o dono desse templo institucional se preocupasse menos com a sexualidade alheia e tomasse conta dos gestores de suas filiais, dito religiosas, crimes assim não aconteceriam. Isso vale para toda pessoa e para todo tipo de instituição que se acha detentora exclusiva da verdade e no direito de classificar quem é ou não digno de sua aprovação arcaica. Veio à tona também, nas redes sociais que, sua instituição foi uma das que mais lucrou no Governo passado. Nesse caso, o silêncio tornou-se ensurdecedor. Os tempos mudaram mas os excluídos ainda existem e resistem contra o sistema discriminatório. Infelizmente os hipócritas também estão por aí e à solto. 

Nascido em berço Católico, conheço a fundo as diversas ideologias religiosas existentes nos bastidores da igreja. Devida à sua extensão, existem inúmeros braços e formas de se trabalhar mas, infelizmente , também está regada de moralismo seletivo, hipocrisia, deturpadores da fé e bandidos disfarçados de cidadão de bem. Minha formação e atuação sempre se deu através da Pastoral da Juventude, que tem uma representatividade muito forte nas questões sociais, políticas e lutas de inclusão. Sempre me mantive alheio aos exibicionismos de fé e shows milagreiros e midiáticos. A maior forma de se viver uma espiritualidade e praticar a fé é respeitando o outro, o próximo. O que não se pode tolerar são as formas de segregação que culminam em discriminação e preconceito. Falo aqui da vertente cristã (católica, evangélica, protestante, pentecostal, neo-pentecostal, etc...) porque é a que tem mais adeptos. Demais religiosidades, como budismo, espírita e as de matrizes africanas têm uma prática mais inclusiva e social.

Penso que, se a religião não te liberta e te faz perseguir e atacar minorias, tome cuidado. Você está sendo enganado, usado e manipulado. O intuito é te manter cego, surdo e mudo, enquanto você sustenta os vícios e regalias dos magnatas da fé.

Como pai de dois filhos, já trouxe em outros momentos que tenho um filho assumidamente dono de si: liberto de amarras, livre de mordaças. Considero um ser de muita luz, inteligência e amor, ao qual me ORGULHO dia e noite. Por ele, por eles, estou contra qualquer tipo de sistema opressor, seja religioso, seja político, seja de algum hipócrita sem noção que se punha no caminho. Para além de política e principalmente de qualquer crença religiosa, nossa missão é sempre combater a favor da inclusão, da igualdade, da justiça. Uma palavra resumiria tudo: amor. Amor cuidado, amor empatia, amor ao que se faz. Para além das instituições que regem a sociedade, nós, acadêmicos, que escolhemos o curso de psicologia como um meio para o futuro profissional, que tem como uma de suas missões, auxiliar o ser humano a encontrar respostas e ressignificar sua vida, precisamos nos ater e nos posicionar de forma sensata, humana e científica. 

A PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+ está chegando, e de coração, estou me preparando para ir pela primeira vez, assistir de perto. Isso não partiu do meu filho, ao contrário, eu o convidei. E é pelo AMOR e por esse ORGULHO que tenho por ele, e pelas tantas lutas que pude presenciar e participar ao lado de amigxs tão queridxs dessa jornada, amigxs da Pastoral da Juventude, amigxs da teologia, amigxs do vôlei, amigxs das academias, familiares, afilhadxs, amigxs-irmãos de alma, amigxs da poesia, amigxs da psicologia, enfim, amigxs que a vida e o universo divinamente me presentearam, que não poderia me calar diante de tanta discriminação, preconceito disparados com ódio através daqueles que se julgam detentores da verdade. Pobres de espírito e podres no pensamento. Hipócritas. 

Essa luta não pode se findar nas palavras. PARADA DO ORGULHO LGBTQIA+ aí vamos nós!!! 


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Carta para minha irmã - Parte 1 do infinito



Eu não sei o que dizer
Porque nunca aprendi a dizer adeus
Cultivar a proximidade é o que eu aprendi a fazer
Não significa não saber cortar o cordão
Está além disso
Eu não seria eu se não te apoiasse
Mas também não seria eu pra deixar de te dizer "não vá"
Meu coração bate assim, pulsando pra que você não vá
Para que vocês não vão
Porque metade da minha vida aqui é vocês
Meus sobrinhos... 
Ainda não assimilei
Ver vocês crescendo e conquistando as coisas aqui
É motivo de muita satisfação e orgulho
Sabe que isso é de coração
Porque eu sempre te quis o melhor
E sou orgulhoso de você e por vocês
O meu lugar de fala sempre se manterá assim
No cuidar de perto
E cuidar, na maioria das vezes, é só estar perto
Mesmo sem precisar falar, nem ouvir, nem ver
Apenas saber que está ali
Penso que nunca quis sair do lugar, do meu lugar
Não queria sair de Piraju, mas me vi obrigado
Foi necessário
Tive meus arrependimentos
Mas tenho também meus motivos pra sorrir diante da escolha
Hoje é só o começo de uma longa jornada até a partida
Ou melhor, até a despedida...
"A vida se dá é no meio da travessia"
Nunca se esqueça disso
O melhor da vida não é apenas a festa, a conquista, o topo...
Toda a vivência e experiência adquirida nessa travessia
Faz parte, e temos que aproveitar ao máximo
Eu sempre estarei aqui
Eu apenas não sei o que dizer...
Minha eterna "Companheira"

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Carta para a próxima vida


O mundo me cansou... Por muito tempo não o reconheci mais como o meu lugar. Até porque as pessoas que sempre foram minhas referências, partiram cedo demais e deixaram aquele vazio, que por vezes parecem sombras no meio do caminho... 

 Me esforço para reencontrá-los entre as flores, os versos, as melodias... mas tem dias que não são dias, são pedacinhos de um inferno inimaginável que teimo em sobreviver como a uma guerra. Me esforço e me reencontro com seus rostos pairados à minha frente reverberando frases, pensamentos, conselhos... e muita saudade.

Meu violão também sucumbiu ao cansaço de um tempo pálido e frio. Sem acordes sofreu com a ausência da vibração de suas cordas e vez ou outra soava tristemente quando algumas notas lhe eram tocadas... Sua madeira, também já cansada pelo tempo, lamentava o tempo sem DÓ.

Meus versos, se perdiam entre os espaçamentos do tempo. Vez ou outra brotavam faíscas de esperança, em olhares que me refletiam amor, amores... que de tão sem jeito, se tornavam perfeitos. 

Minha voz deixou de gritar... Mãos sem lutas e pés sem caminho levaram o corpo ao desequilíbrio do coração. Meu avesso tornou-se refúgio e somente poucos e loucos recebiam o convite do olhar, a sentar-se comigo no alpendre da alma... território íntimo, simples, selvagem, seleto, intenso e verdadeiro.

O mundo sempre foi o palco mais habitado da vida. Cortinas, holofotes, improvisos, risos e lágrimas... A plateia? Ah, do palco do meu coração só permiti os olhares benditos e amorosos. Descartei e expulsei do meu cenário tudo o que não condizia com o enredo... Matei meus próprios demônios. Enraizou o que sempre foi real, único e, novamente, intenso e verdadeiro.

Certas cenas eternizaram-se pela janela da alma e no lugar dos olhares já partido, plantei flores. Fiz o meu próprio memorial com versos de suor, lágrimas e sangue. Reguei a saudade do que ficou oculto entre os brilhos de cada olhar, bem lá no horizonte, onde a fonte do verbo amar jamais deixou de derramar...

Olho pelo retrovisor e vejo que sim, o mundo me cansou, mas encontrei na poesia do amor, o descanso para os olhos, o coração e a alma.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Carta para o menino do futuro


e...
de repente vivemos uma vida que achamos que é perfeita, direita, normal
acostumados com descasos, ausências, desimportâncias, falta de atenção
e a gente acaba acreditando que isso tudo é normal,
que tem que ser assim, que a vida é assim
Mas não!

a vida não é assim
a vida tem que ser plena, inquieta, apaixonante, motivadora
por vezes depende da chegada inesperada de alguém em nosso meio
um alguém que chega nos desbancando e nos redescobrindo
e faz a gente entender que tudo aquilo que achávamos que era viver, na verdade era ilusão, era prisão

em algum momento você vai entender
porque ser normal, viver a normalidade não é aceitar situação imposta
a ausência e a solidão de um dia passado não deve mais ser aceito
devem ser substituídos e preenchidos
só quando encontrar é que saberá que chegou a hora
E isso sim é normal!
viver bem
estar apaixonado todos os dias
acordar com aquele frio na barriga
esperando a oportunidade de ver, ouvir, abraçar e beijar

o que é normal pra sociedade não me serve
porque o que é normal pra sociedade é fingir que está tudo bem, enquanto não está
eu estou bem, porém não preciso mostrar nada
basta que eu sinta e saiba
basta que você sinta e saiba

"querido diário de amor mais perfeito que existe"

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Carta de uma velha infância


Se
tivesse toda a certeza da continuidade dessa vida em outras vidas
com certeza não hesitaria em partir e te esperar
te esperaria e partiria quantas vezes fossem necessárias
até que os ciclos se encaixassem no mesmo ponto 
e no mesmo tempo...

Mas
não, infelizmente não tenho essa certeza,
sou refém desse tempo, do tempo em que não se mede
sou passageiro da vida, eternizado no tempo do seu amor
sou caminhante do destino, de outros mundos
em busca do seu encontro, do seu mundo

Você 
é estrada sem fim, só de ida... 
inesquecível travessia 
de outras vidas 
para todas as outras
eterno sentimento

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Sobre as cartas, o que sentes?


Em muitas vezes somos o único ouvinte de nossas vozes mais profundas. A realidade já é certa, tanto quanto o destino final que nos aguarda em algum momento na linha do tempo. Em diversas situações nos abrigamos em nosso próprio calabouço e de lá nos comunicamos de diversas formas. 'Cartas para o calabouço' e 'do calabouço' referem-se a um diálogo entre as vozes que habitam em nosso íntimo. Talvez, a possibilidade única de expressar as maiores dores, tensões bem como esperança e sonhos. 

Segue abaixo a sequência das cartas em ordem cronológica. Cada título é um link que dá acesso a uma das 'Cartas para' e 'do calabouço':









É sempre interessante e importante saber o que tais cartas refletem e despertam no pensamento de quem lê. Caso sinta interesse em partilhar, envie email para: ailton.domingues.oliveira@gmail.com.

Até +

Sobre as cartas, o que vês?


Aqui no Escritos em Tempos, tem uma sessão chamada 'cartas' em que compartilho alguns pensamentos formados ao longo do tempo. Seguem como conflitos que envolvem principalmente questões sociais e de fé, e que por sua vez acabam correlacionando com outras áreas como política, moral, filosofia. É possível também encontrar o viés de uma reflexão a partir do olhar e do estado de cada personagem. 

Segue abaixo a sequência das cartas em ordem cronológica. Cada título é um link que dá acesso a uma das 'Cartas em tempos':

I - Cartas em tempos - da guerra














É sempre interessante e importante saber o que tais cartas refletem e despertam no pensamento de quem lê. Caso sinta interesse em partilhar, envie email para: ailton.domingues.oliveira@gmail.com


Até +

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Cartas em Tempos (XV) - A terceira via


A terceira visão.
 Faz-se necessário quebrar alguns protocolos de meus devaneios escritos. Explicar (-se). Ou, na verdade mostrar um algo que não atingiu ainda o pensamento de quem leu. Não é uma crítica a quem teve outras visões. Aliás, isso é ímpar e contributivo para quem teceu as ideias e escreveu. Entendamos assim que essa terceira via é de fato alguns relatos do pensamento do autor. Manter o mistério do sentido original de cada escrita é, talvez, a única regra deste espaço. As experiências que retornam de cada um (a) que se atreveu a participar das linhas e entrelinhas é magnífico.

Nesse caso, em específico, faço questão de direcionar algumas razões e emoções que penderam durante a escrita das Cartas em Tempos. Direcionar não é decifrar os pormenores. Entendamos bem isso, pois, se a cada texto ou livro que é publicado diariamente pelo mundo vier um manual ou roteiro com as devidas explicações e motivos que levaram o autor a produzi-lo, a obra em si não teria a menor graça. Bastava ler o resumo (o manual).

A primeira via de fato são as questões abordadas em cada carta. Elas partem da ordem social, política, econômica, financeira, religiosa e se desembocam num cenário de guerra. Esta porém nem sempre acontece com as armas em punho. Não deixam, também, de serem grandes batalhas contemporâneas. Cada personagem tem um pouquinho do outro. As questões se entrelaçam.

O que de mais profundo posso deixar é que tudo foi devidamente pensado num sonho. Imaginar um sonho e pensá-lo. É um ato de introspectar-se e ao mesmo tempo sair de si. O ambiente "sonho" permite o enlace das trocas de cartas. Por isso, estão todos cientes dos outros cenários, praticamente em tempo real. Todos os personagens as leem. 

Ao mesmo tempo pode-se também imaginar que é um único herói e algoz, ao mesmo tempo, protagonizando todas as histórias ali vividas. Um único personagem capaz de estar em todas batalhas. Atenção para o herói que é também algoz, de si mesmo! O inimigo declarado é outro, é externo e como já citado acima, pode ser social, político, religioso, financeiro e econômico.

A maior luta acontece no consciente deste protagonista que a cada carta envereda-se de uma nova guerra. A crença de um personagem é a descrença do outro. A esperança, a utopia que brota de um lado, desaparece de outro. O sonho que é retomado pelo retorno à vida é morto por aquele que não quer mudança. Altos e baixos de um único ser, que na vida diária, persiste e desiste, ganha e perde, vive e morre.

Dizer que não há nada de si, do autor, nas cartas que precederam A terceira via seria uma inverdade. Há mais do que pensamentos. Há sentimentos declarados. Viver é uma aventura mas é também uma guerra constante. Falar de sentimentos enquanto o mundo se despenca em valores materiais é uma insanidade. Mas, me disseram, porém, que aos poetas tudo é permitido. Poetas vivem em mundos paralelos, em outras vidas. São manhosos, sensíveis, inquietos, românticos e brigões. Será?


Enfim, encerrando esse diálogo com os leitores que se entrelaçaram com as cartas, digo que A segunda via são os olhos de cada um de vocês. O retorno nem sempre me veio através do espaço que o blog permite responder. Muitos fizeram questão de formalizar via email, nas redes sociais e até nas rodas de conversa. O olhar apurado de quem lê traz uma visão, um cenário, por vezes inimaginado pelo devaneio do autor. A todos, muito obrigado! Terno abraço...

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cartas em Tempos (XIV) - Capítulo Final


O velho do subúrbio não resistiu a cirurgia. De sua vida solitária restaram seus pensamentos anotados por sua "vxlha máquina dx xscrxvxr".

Os índios resistiram, apesar de grandes perdas. As mídias independentes conseguiram transmitir a barbárie cometida pelos fazendeiros, uma tentativa de expulsar os índios de suas terras. Nenhum poderoso foi preso. Porém, o governo teve de se manifestar e agir. 

O homem da rua continua em seu lugar, em sua rotina entre o perambular pela praça e amoitar-se do lado de fora do cemitério. Sua invisibilidade lhe permite não pagar impostos nem ter de dar explicações a terceiros. Uma vida onde ele mesmo é o fantasma.

No sertão, o homem de pele queimada pelo calor infernal do cangaço permanece em sua lida. Uma labuta constante para driblar a seca da natureza e a secura do coração dos políticos que não querem mudar aquele cenário. Apesar da descrença no homem faz suas rezas para os santos daquele chão.

O soldado retornou para sua terra. Nada mais estava como antes. Encontrou seu amor, teve filhos e leva uma vida fora da cidade grande, numa casinha branca na beira de um rio. Seus fantasmas ora o perturbam ora desaparecem. 

As cartas se corresponderam e as histórias se entrelaçaram. Ninguém se conhecia e ao mesmo tempo estiveram unidos pela esperança, pelas batalhas e pela grande luta da vida: sobreviver frente aos desafios

Cada personagem carrega um pouco do outro. Estão interligados. São pessoas desconhecidas que se cruzam através desta sessão de cartas. O que têm em comum é a guerra. Questionamentos, fé, esperança, utopia ou a falta de tudo isso que se resume em enigmas da vida. Razões e emoções.

É uma guerra muito mais psicológica do que real. As cartas partem sem destino e encontram outros semelhantes, caminhantes em aflição. Cada um é uma parte do consciente do outro... Talvez, sejam um só... Um protagonista de várias fases e vidas. Talvez seja eu... ou você.

Meus heróis deste sonho encerram-se com o despertar das horas. É hora de guardá-los, sacrificá-los talvez. Todos em um findam-se para a vida continuar... Em meio a tantas guerras, de tantos confins, sigo a vida, a rotina, aprumando pelos caminhos que se entrelaçam. Em cada estação, um pouco eu deixo, outra tanto eu carrego... 

Sou da mata, sou da rua, sou do sertão, sou da favela, sou da guerra...

Cartas em Tempos (XIII) - Das matas


"Acordamos antes do costume com o barulho dos tiros que partem de todos os lados.
Como num ritual de guerra última, os homens pegam arcos, flechas, lanças, facas e todas as armas possíveis e se dirigem para o limite entre a mata e a cerca que os capangas do fazendeiro colocaram.
Mulheres, crianças e os mais velhos se dirigem mata adentro.
Temos um lugar ainda desconhecido pelos brancos.
Nosso chão sagrado nos protege porque nós também lutamos para protegê-lo.
Hoje tem mais gente do que outros dias, lá do outro lado da cerca.
Já pedimos ajuda para outras tribos.
Se faz necessário...
Aqui, somos todos irmãos.
As tribos se unem para proteger uns aos outros.
É o destino de cada um aqui.
Ficamos escondidos, na espreita.
Nossas armas são limitadas frente ao poder de fogo dos capitães do mato.
Estão alvoraçados.
Nada está normal.
Eles avançam rápido.
Estão nos dizimando...
Somos obrigados a recuar...
Atearam fogo e as chamas adentram a mata.
E assim eles tomam um pouco mais de nossas terras.
Os latifúndios políticos logo mandam suas máquinas para devastar ainda mais...
Não somos nada para este país...
Desde sempre tomaram nossas terras...
Somos o encalço aos olhos deles...
Mas enquanto houver um de nós que ainda respira, haverá luta.
Vigiamos dia e noite.
Nosso povo só quer viver...
Viver em paz na terra que é nossa.
Caros companheiros de tantas guerras.
Essa noite decidimos sacrificar tudo nesta batalha que agora acontece.
Os mais velhos, junto com as mulheres e crianças já partiram.
Estamos ornados para a guerra.
Preparamos nosso espírito para tombar o inimigo ou entregá-lo à nossa mãe terra.
Outras tribos já se ajuntaram a nós.
Portanto, essa batalha terá sangue, mas não será só o nosso...
Daqui me despeço, com a tristeza pelos que vão sucumbir ao poder de fogo inimigo...
Mas com muita esperança de que essa luta não será em vão...
Já perdemos muitos irmãos que preferiram se enforcar a ter que passar pela humilhação de sair de suas terras...
Lutaremos por cada um destes...
Não findaremos nossa existência, pois nossos filhos continuarão esse legado...
Nossas mulheres e os mais velhos cuidarão deles...
Adeus meus amigos pela dor...
Eles avançam...
E nós também..."