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sexta-feira, 14 de julho de 2023

Adão & Eva: o peso da culpa recaído sobre a mulher e outras teorias.

 


O texto de hoje na verdade é um diálogo que se iniciou quando o jovem Mateus (*), estudante de psicologia na mesma instituição em que também estudo, procurou-me com alguns questionamentos que aguçaram e muito o meu pensamento. A partir daí, a conversa foi se desenrolando. Fiz questão de colocar tudo da forma como se deu para não perder nenhum detalhe. E, como eu disse ao próprio Mateus, "esse bate-papo merece destaque".


Mateus: Bom dia Ailton, estava procurando o seu contato pra falar a respeito de uma teoria que pensei enquanto estava com insônia.

Ailton: Bom dia. Tudo bem?

Mateus: Tudo jóia. Enquanto eu estava com insônia, estava pensando a respeito de Adão e Eva e minha teoria tem a ver com isso e, por você ser Teólogo, vai saber me falar se faz sentido ou não.

Ailton: Claro, vamos decifrar seu pensamento... rs. Bora. Se preferir mandar áudio, fique à vontade.

Mateus: A minha teoria é a seguinte ... O "fruto proibido" nunca foi um fruto e a "cobra" era Lúcifer. E na minha teoria o fruto proibido seria o sexo. Eva transou com Lúcifer porque foi tentada pela "cobra" kkkkkkk. Com isso ela fez o mesmo com o Adão. Tiveram o primeiro filho que seria o Caim. Que é filho de Lúcifer e Eva. E pela essência do pai dele, ele acabou cometendo o primeiro assassinato no mundo contra o meio irmão. Botou o pé na estrada. E fez filhos.

Ailton: Certo. Vamos por partes...

Mateus: Como diria o Jack Estripador ... Vamos por partes.

Ailton: Em primeiro lugar é necessário compreender que Adão e Eva na verdade não passa de um conto. Não chega nem a ser uma lenda porque nunca existiram de fato. São personagens fictícios criados para contar a história do nascimento humano, do universo e da vida em si, a partir de uma teoria religiosa construída desde há muitos milênios atrás, muito antes de Cristo.

Ailton: Desculpa se estou sendo muito detalhista, mas vou tentar descrever de uma forma que, seria o jeito que explicaria para qualquer pessoa, independente do seu grau de conhecimento, fé, crença ou coisa do tipo. Então, desculpa se eu disser coisa que talvez, vc já saiba...

Mateus: Tranquilo.

Ailton: Sua teoria é interessante mas não tem embasamento nas histórias descritas no único livro que a conta, que no caso é a Bíblia (seja ela de qualquer religião cristã). Talvez, numa outra religião ou seita, sua teoria já até tenha sido mencionada e estudada. Quanto a isso não posso dizer, porque desconheço.

Ailton: A cobra no caso, tem muitos pensadores e teólogos que trazem diferentes interpretações. Eu, ainda penso, que ela (a cobra) seja apenas o nosso pensamento. E, como tal, o pensamento está incutido em nós, faz parte do nosso ser. Temos no caso a possibilidade de pensar coisas positivas ou negativas, e consequentemente bota-las em prática. Ou, podemos dizer que temos o anjo bom e o anjo mau, ou ainda, o lobo bom e o lobo mau. Basta saber qual devemos controlar e qual devemos acessar.

Ailton: Sua teoria seria perfeita para uma continuidade da série Lúcifer. Pois, seria algo a ser explorado a fundo por pesquisadores que se desdobram para construir uma ficção em cima de algo que, há muito tempo, faz parte da crença, da fé e da religiosidade de grande parte da população mundial.

Mateus: Nunca assisti essa série. Por preguiça kkkkkkk.

Ailton: A cobra representa o mal, entre Adão e Eva no paraíso. Seu papel é o de instigar o casal a fazer aquilo que não deveria ser feito. Por outro lado, pense, se o sexo já existia desde sempre para a procriação, por que ele seria algo considerado como fruto proibido? Ou seja, o sexo, como parte da criação também deveria ser algo abençoado por Deus. E é, sem sombra de dúvidas. Então vamos além...

Ailton: O que de fato estava impedido de acontecer, que era considerado o pecado dos pecados seria o "prazer". O prazer conseguido através do sexo. E por que a mulher em si, no caso EVA, que foi a que ousou comer desse fruto proibido? Porque na verdade, desde sempre a mulher era proibida de ter o seu prazer; ela, sequer, tinha direito a qualquer tipo de expressão na sociedade de sua época. Se ainda hoje temos essas diferenças, imagina a 2000 ou 5000 anos atrás !?

Ailton: É interessante, sátiro, a forma que a série recoloca o Lúcifer no papel da sociedade. Te indico pra assistir com olhos abertos e pensamento livre, encarando como um gênero de humor e com questionamentos que até o momento nenhuma religião foi capaz de fazer.

Ailton: Naquele momento somente o homem sentia prazer. E percebemos que isso ainda acontece nos dias de hoje. A história bíblica conta que a mulher saiu da costela de Adão. Mais uma história de submissão e pertencimento. A mulher pertence ao homem. A história foi escrita por homens e não por mulheres. Até mesmo algumas histórias bíblicas, em que a mulher é protagonista, foram escritas por homens. Ainda existem países e religiões em que a mulher não tem vez, nem voz, e tampouco pode sentir prazer. Alguns lugares ainda mutilam as mulheres para que não sintam prazer, cortando seus clitóris.

Ailton: A bíblia, demonstra o tempo todo que a mulher devia exercer apenas um papel de submissão. Nem nos templos ela podia entrar. Colocaram essa conta nas costas da mulher, que o pecado entrou no mundo quando Eva deu ouvidos à cobra e cedeu a tentação. Consideravelmente um pensamento machista.

Ailton: Eu acho inviável que essa teoria (a sua) seja uma possibilidade dentro do contexto bíblico em que o texto foi descrito, levando em conta principalmente a insignificância do papel da mulher na sociedade da época. 

Ailton: Por outro lado, acho uma teoria muito interessante, porque se de fato ela transou com a cobra, essa cobra teria se materializado feito homem, então não havia apenas Adão e Eva, mas muitos Adãos e muitas Evas, ou seja, era uma sociedade. Então Eva, impossibilitada de ter prazer com seu parceiro, encontrou prazer nos braços de outro homem, o que a fez descobrir-se enquanto mulher e, dessa forma pode conhecer o prazer. Foi descoberta e de certa forma amaldiçoada. E, pode ser, nesse caso, dentro das perspectivas de sua teoria, que esse primeiro filho tenha sido fruto de um adultério, ao mesmo tempo, fruto de um amor extraconjugal no qual ela descobriu-se enquanto mulher.

Ailton: Irmão, o baguio é loko! rsrs. 

Ailton: Já viu um vídeo do pastor Marco Feliciano dizendo que a África era amaldiçoada? Vou te mandar. Cara, olha a que ponto chegam os idiotas! Isso porque são líderes religiosos...

Ailton: https://www.youtube.com/watch?v=e9QGVliE-p8

Ailton: Bom, não sei se pude contribuir com seu pensamento, com sua teoria, mas de qualquer forma te agradeço pela confiança em partilhar. Questionamentos assim fazem a gente parar e refletir. Sua teoria me auxiliou a rever alguns conceitos. Obrigado. Qualquer coisa me chama aqui. E quero saber o que você achou de tudo isso acima

Mateus: Caraca ... Explodiu minha mente kkkkkk.

Ailton: Espero que junte tudo de volta e de forma turbinada rs.

Mateus: Perfeito ! É exatamente por isso que eu vim atrás de você ! Acho você uma pessoa muito mente aberta e muito inteligente e acabou abrindo a minha mente pra novas teorias também kkkkkkkk.

Mateus: Me senti recebendo uma aula! E que aula ... Assim que eu entrar no horário de almoço eu dou uma olhada, mas eu acredito que eu já vi esse vídeo e fiquei em choque com o que foi dito quando vi pela primeira vez

Ailton: Que isso irmão! Somos todos aprendizes. O simples fato de você me questionar, me aguçou a pensar. E pode ter certeza, o papo de agora é único, pois nunca o tive com ninguém. A aprendizagem é sempre uma via de mão dupla. Seu questionamento me fez ter percepções que até a pouco estavam apagadas ou nem as tinha de forma elaborada na minha mente. Pode ter certeza que eu aprendi muito mais...

Mateus: Um bom mestre é um eterno aluno

Ailton: Obrigado Mateus, por me propiciar esse momento de aprendizado mútuo. O mundo, a sociedade em geral, precisa de pessoas com senso-crítico, que pensem e questionem antes de aceitarem toda história contada como verdade única. Parabéns, jovem!


* Mateus de Souza Barbosa
21 anos
Estudante do 4º período de Psicologia Ψ - Unitri 
Insta: @mateussouzabarbosa


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos


quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos I



A última ceia

A última ceia é a referência da vivência do amor e da caridade: "nisso todos reconhecerão".

O que faz com que uma pessoa potencialize uma demanda se a demanda é da ordem do inatingível?



2) "(...) aquele que foi mais autêntico: Tomé"



3) Nada é por acaso.
Nada acontece sem a vontade de Deus.
Deus seria o acaso?
Ou o acaso é a vontade de Deus??
Livre arbítrio
Ou
Conspiração divina?


4) A luta da mulher
Gênesis 2 - Fica claro que desde os tempos em que a história do Gênesis foi contada, escrita e repassada pela tradição de geração em geração, alguém, de certa forma já se preocupava com a posição da mulher. O texto evidencia que ambos deveriam ter direitos e espaço em mesmo pé de igualdade. A luta pela inclusão da mulher e o seu devido e merecido respeito é mais antiga que este escrito....


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Efésios 4,11

Um dia desses uma pessoa tocou o interfone do meu trabalho. Pude ver pela câmera que era um rapaz, aparentemente de uns 35 anos de idade. Ele identificou-se como alguém que estava fazendo o trabalho espontâneo de levar mensagens bíblicas nas casas das pessoas e chegou a se intitular como um pregador da Palavra de Deus. Então, pediu-me 5 minutos para que pudesse falar pessoalmente comigo. 

Naquela hora não podia atendê-lo e expliquei a situação. O rapaz insistiu e eu expliquei novamente que não poderia mesmo. Então ele pediu-me para que lesse um trecho da Bíblia: Efésios 4,11. Eu respondi "tudo bem" e ele repetiu em alto e bom tom: "Efésios 4,11". Fiquei curioso e no mesmo instante acessei a internet (https://www.bibliaon.com/versiculo/efesios_4_11/)  para ler a mensagem: "E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, [...]"

Aí fiquei na dúvida de entender onde estaria a mensagem para a minha pessoa, para a minha reflexão, para o meu dia ou para a minha vida. Não havia nada de específico nesta passagem sugerida e isso me intrigou. Comecei a pensar na fala e no modo com que o rapaz se pronunciou no interfone. "Eu sou um pregador e venho trazer a palavra de Deus". 

Entendi que a passagem sugerida era algo que apenas justificava o fato dele estar ali fazendo essa espécie de "trabalho voluntário". Porém, alguém que quer fazer algo espontâneo não precisa se justificar, ainda mais com uma passagem específica da Bíblia. Considerando o momento atual em que vivemos, acredito que a mensagem que deveria ser levada às pessoas seria através de palavras de fé, otimismo e esperança, dentre outras. 

Posso estar fazendo um julgamento equivocado da situação, mas levando em conta o número excessivo de pessoas que usam da boa fé alheia para lhes roubar o tempo, o dinheiro e a própria alma, deixando-as não apenas alienadas às regras de determinadas instituições mas também psicologicamente dependentes de um certo tipo de submissão pseudorreligiosa, ando extremamente atento. 

Os espertos buscam presas fáceis à exploração mas, como eu já disse e repito, "posso estar equivocado na forma de pensar", porém nada me tira da cabeça que aquela abordagem era algo muito mais além de levar uma mensagem bíblica. No fundo me arrependi por não ter atendido, assim eu teria certeza sobre o que de fato o rapaz queria além de, de forma direta ou indireta, intitular-se como um designado segundo Efésios 4,11. Minha dúvida é: "Será um homem de Deus ou um bandido da Fé?"

terça-feira, 19 de abril de 2016

A morte orquestrada pelo sinédrio

Havia um propósito. A missão foi cumprida com suor, lágrimas e sangue. Seu destino? Morte de cruz. Antes porém, muita tortura, insultos, cusparadas, chicotadas, bofetões e um bando de carniceiros que representava a moral. Pessoas de destaque na sociedade que tinham peso em suas falas, mesmo se fossem falsas.

A última ceia é o ápice. Referência maior do amor e da caridade. Despojamento total de Si. Entrega. Ali, seus amigos, traidores e covardes, partilham o pão e o vinho. Angústia que precede o medo. Dor maior ao receber o beijo. A emboscada estava armada. Começaria então o Seu calvário.

O processo que resultou na morte de Jesus estava amparado pelas leis. O episódio orquestrado pelo sinédrio foi uma conspiração para calar a voz Daquele que questionava as leis de seu tempo. Homens do poder nunca admitiram que um filho de carpinteiro tivesse tanto conhecimento de causa e ousadia nas palavras. Todas as vezes que tentaram fazê-Lo cair em contradição o Moreno de Nazaré os deixava perplexos com sua sabedoria.

De Pilatos a Herodes, de Herodes a Pilatos, Jesus foi ultrajado e humilhado. O povo foi incitado a clamar por sua morte. Os mestres da lei tinham essa maestria. Eram políticos, sumo sacerdotes. Entre um bandido condenado e um revolucionário que dizia a verdade e questionava as estruturas políticas e religiosas, optaram pela soltura de quem já estava impregnado pela corrupção. O filho do carpinteiro seguia rumo ao seu martírio.

A morte de Jesus foi também um evento portentoso para servir de lição a todos os que pudessem atentar contra a lei. Nada poderia depor contra a lei e os que a representavam. Haviam questões políticas, sociais e religiosas envolvidas. Abrir os olhos do povo à justiça e conduzi-los à sua liberdade, direito divino por sinal, era um perigo real.

Em extrema força os soldados abriram seus braços e o pregaram sobre a cruz. Fato que olhares românticos não enxergam e pensamentos mágicos não percebem. Torturado e questionado até o último instante, ainda assim não voltou atrás em nada do que havia dito. Honrou sua palavra até o fim. 

A conspiração armada visava manter a estrutura de poder intocável. Se o descrédito às leis da religião se entranhasse no meio do povo aqueles doutores da lei, sumo sacerdotes ornados de pompas, orgulho e vaidade, estariam literalmente sepultados vivos em suas túnicas. Acreditaram que calando o "Profeta do povo", o líder, tudo deveria voltar ao seu devido leito. Essa era a ideia. Porém, a história mostra que as palavras desse revolucionário e libertador ultrapassaram séculos e continuam ecoando a todo tempo. 


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Tomé tocou ou foi tocado?

(Reflexão inspirada na homilia do dia 03/04/16,
por Frei Geovane Santiago - Jo 20,19-31)

E de repente, a única esperança que lhes restava, justamente a palavra Daquele que revolucionara suas vidas, foi estremecida e dissipada com Sua morte de cruz. Imagina-se o quão perdidos ficaram os discípulos! Mesmo tendo convivido diretamente com o Jesus de Nazaré, escutado Seus ensinamentos e presenciado Seus milagres, ainda assim a fé desses seguidores mais próximos foi totalmente abalada. Nada mais importava pois a única voz que lhes dava sentido havia sido calada...

"A paz esteja convosco!" A tristeza foi quebrada e deu lugar à alegria quando Jesus pronunciou estas palavras. Os discípulos reunidos a portas fechadas, por medo de perseguição e retaliação, uma vez que os seguidores de Jesus ficaram mal vistos na sociedade principalmente após Sua morte, foram surpreendidos. Ele apareceu no meio deles e após a saudação mostrou-lhes as mãos e o lado. A tristeza se dissipa com a alegria do reencontro e o medo é superado por uma encorajadora exortação.

Nesta aparição de Jesus, Tomé, um dos doze, não estava presente. Os outros discípulos contaram-lhe depois mas ele não acreditou. Dídimo, nome pelo qual Tomé também era conhecido, carregado pela tristeza da morte de Jesus, por quem havia depositado toda a sua confiança, frustrado pela ausência Daquele que trouxe-lhe uma nova razão para a vida, foi além nas palavras: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei."

Tomé carrega muito mais do que tristeza em seu coração. Traz também a angústia, o medo e principalmente a frustração pela morte Daquele que sempre teve palavras de vida nova e prometera a vida eterna. Talvez ele imaginasse que o desfecho deveria ter sido outro por parte do Homem que se dizia Filho de Deus. Talvez, em certos momentos, tivesse sentindo-se enganado. E tudo isso fez com que suas palavras fossem tão carregadas de mágoa e dúvida. Uma mágoa que causava-lhe incômodo e aguçava-lhe a esperança. Uma dúvida que maquiava o desejo de que a notícia fosse realmente verdade. 

Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa. Desta vez Tomé estava presente. Portas fechadas e Jesus pôs-se no meio deles. A saudação, como de costume e depois disse a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel." Nenhum relato de que o incrédulo discípulo tenha tocado de fato em Jesus como havia dito aos outros que faria. O mais longe que podemos pensar sobre sua reação é que a tristeza, mágoa, dúvida, incerteza, medo, tudo se dissipa diante do ressuscitado.

No contra ponto desta narrativa algo sublime renova o coração fragilizado do discípulo que tivera sua fé abalada. Jesus vem ao seu encontro. E apesar da ausência de relatos sobre a aproximação de fato, notoriamente a simples fala de Tomé mostra o quanto fora tocado por Jesus. Talvez tenha sentido-se envergonhado diante do Mestre. Talvez, não contivera as lágrimas. Talvez, quisesse ter falado mais neste encontro, talvez... Mas, a chegada do ressuscitado simplesmente apazígua seu coração e devolve-lhe a fé: "Meu Senhor e Meu Deus!"

domingo, 20 de março de 2016

Curiosidade e frustração de Herodes

(Reflexão inspirada na homilia do dia 20/03/16,
por Frei Geovane Santiago - Lc 23,1-13)

O contentamento causado pela curiosidade e pela expectativa de um milagre foi desfeito com o silêncio do galileu. Herodes estava em Jerusalém no tempo da prisão de Jesus. Muito maior do que o desejo incomensurável em conhecê-lo, era o fato de que os ensinamentos e milagres do Nazareno se alastraram desde a Galileia até a Judeia fazendo com que seu nome ganhasse repercussão e consequentemente fosse perseguido pelas autoridades, tanto as políticas quanto as religiosas. 

Uma vez que não encontrou culpa naquele filho de carpinteiro Pilatos resolveu entregá-lo a Herodes. Diante de tantas perguntas e expectativas o silêncio foi a única resposta que obtiveram do moreno de Nazaré. Assim sendo, a alegria do Governador foi frustrada quando percebeu que não seria testemunha ocular de nenhum milagre. 

Os sumos sacerdotes e os mestres da lei, como hienas carniceiras, não perdiam tempo e reforçavam a dramatização acusando Jesus de ser um agitador das massas por conta de seus ensinamentos libertários. Entre outras culpas pesava-lhe o fato de fazer subversão entre o povo, proibindo pagar impostos a César e afirmando ser ele mesmo Cristo, o rei. Palavras dos acusadores.

Revoltado por não ter sua curiosidade saciada, Herodes tratou logo de desferir toda a sua arrogância que o posto de autoridade lhe concedia. Em atos de desprezo, juntamente com seus soldados, não polpou zombarias ao Nazareno. Encerrou sua participação na acusação de Jesus vestindo-o com uma túnica vistosa e devolvendo-o a Pilatos. Assim pode demonstrar ao dito Cristo e a toda plateia quem é que detinha o poder. 

A curiosidade e frustração de Herodes é algo que me chamou a atenção no Evangelho de hoje. Óbvio que no contexto existem particularidades mais importantes as quais devemos nos atentar. Porém, essa insaciável busca por milagres concretos e palpáveis que possam definir a existência de um Deus que escuta e atende ao pedido é algo que tomou proporções alienáveis no meio religioso. São práticas vendidas pelos diversos templos de nossa contemporaneidade. Muitos herodes de nosso tempo perdem sua fé quando não tem seus desejos atendidos. Desejos estes que estão no campo material, na prosperidade, na ganância, no poder...

A fé se tornou um produto prático no mercado religioso. As pessoas são instruídas (alienadas) a exigir um milagre de Deus, uma vez que participam de determinado templo e contribuem com o que lhes é solicitado. É quase uma permuta sagrada. Longe dos holofotes midiáticos e dos detentores da passagem para o Céu ainda podemos encontrar pessoas desalienadas, destorpecidas, e sábias em suas práticas de fé. Afinal, a vida é um milagre.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Jesus é um cara legal, o que arregaça é a torcida.

Escribas, os doutores da lei.

Naquele tempo...

Jesus liberta e cura pessoas de suas doenças simplesmente para que possam ser reinseridas na sociedade que até então as excluía.

Uma sociedade regida por leis religiosas severas que rotulava de pecadores e amaldiçoados os leprosos e as mulheres estéreis, dentre outras vítimas.

Para que a vida humana fosse valorizada foi preciso romper com os tabus exagerados, excessos de demonizações, sacrifícios infundados, bem como a visão erroneamente inocente de um deus-castigador criado pelos doutos, que ao invés de interpretar a lei deturpavam-na.

O tempo passou e as denominações ditas religiosas reciclaram-se, multiplicaram-se e reapareceram com novas leis retiradas de forma alucinada dos textos bíblicos.

A religião que não proporciona a libertação da pessoa para a vida está longe de sua função e corre o risco de ser outra mera fonte de alienação.

A diferença entre a proposta do Homem de Nazaré e a dos doutos interpretadores das Escrituras é que enquanto Ele resgata a essência humana, a torcida condena pela aparência.

"Jesus é um cara legal, o que arregaça é a torcida." - autor desconhecido.


                                 Cardeal Burke e suas pompas.

domingo, 16 de agosto de 2015

Qual o lugar de Deus no mundo?



"Deus é o lugar do mundo, afirma o Êxodo."

O mundo está em Deus, Ou, matematicamente, o mundo está contido em Deus tanto quanto Deus contém o mundo e o mundo pertence a Deus. Uma fórmula científica para atestar a relação teológica entre Deus e o espaço/lugar.

O ser faz parte do mundo, está totalmente inserido nele. Pela lógica, logo, cada ser está em Deus. Se cada um já está em Deus, não é necessário sair pelos lugares em busca Dele. A beleza Divina consiste em redescobrir-Lo em si mesmo.

Uma vez que esta certeza esteja compreendida, enxergar o Deus no próximo é uma questão de tempo.

Sendo Deus o lugar do mundo, de certa forma experimentamos aqui o Seu Reino. Podemos então enfatizar as ações no presente, considerando que a nossa estadia neste tempo/espaço/lugar perdurarão pela eternidade.

A íntima relação com tudo o que nos cerca é também uma relação com Deus. "Do pó viemos, ao pó voltaremos."


Trabalho apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia.
Teologia - 5º Período - FCU
Ailton Domingues de Oliveira - 06/08/15

sábado, 25 de julho de 2015

Brilho e glamour VS um cabeludo língua solta


Um carro é estacionado à beira da calçada do outro lado da rua. Era uma noite tranquila e sem frio. Do veículo apeiam pessoas estilosas em suas roupagens classe média alta. Perfumes chiques se misturaram no ar. Gel no cabelo dos rapazes e maquiagem no rosto das moças davam o ar de uma noite glamourosa.

Abriram o porta-malas e começaram a descer alguns instrumentos. Era uma banda. Logo, um cortejo de fãs atravessou a rua ao encontro dos artistas. Carregaram suas bagagens até o local do show. Uma última olhada no vidro do carro para conferir o ajuste das roupas e pronto. Os cantores e instrumentistas seguiram em meio aos expectadores fiéis com cumprimentos, selfies e autógrafos.

Mas tinha alguma coisa errada! Do outro lado da rua, o destino daquele alvoroço de pessoas, não haviam casas de shows. O que havia era um supermercado, um sacolão, uma loja de ração de animais e uma igreja. Uepaaaa!!! Desacelerei as minhas passadas e fiz questão de observar até que as costas do último dos súditos ultrapasse os pórticos do recinto.

Sim. Era uma igreja. Não preciso dizer qual a denominação porque isso é recorrente em todas, sem exceção. Continuei minha caminhada mas, por hora, pensante na situação que visualizei. Lembrei-me da chegada daquele dito forasteiro, que se tornou conhecido por sua língua solta, ao chegar em Jerusalém montado num burrinho. É, esse Cara mesmo! Aquele moreno de Nazaré, cabeludão, barbudo, amigo das putas, dos ladrões, defensor dos oprimidos e excluídos. Incluamos aqui os gays, lésbicas, transsexuais, e outros.


Não esperei para ouvir o show, nem tampouco ver, pois meu traje era inapropriado e eu estava suado. Na verdade nem sei se teria alguma vestimenta típica para aquele portentoso evento. Também não sei se eu poderia chegar lá na cara dura e dizer: "E aí?! Beleza?! Cheguei! Vim assistir... o que vocês vão fazer aí!" É, não rolaria mesmo!

Então volto para casa inquieto com este contraponto de situações. De um lado um cara com mais de dois mil anos de história e fama que prega amor, humildade, perdão e oferece a quem quer segui-lo que se desapegue das coisas materiais. Do outro um bando de gente que usa o nome desse mesmo cara para alcançar fama, status, nobreza e enfim propor uma salvação deturpada de sua forma original, com promessa de prosperidade material.

Hoje, ao ler sobre uma obra a ser publicada da vida de Rubem Alves, ex-pastor protestante, escritor, poeta, professor, mestre, e que deixou um legado literário, inclusive para a Teologia, considerei pertinente trazer aqui para este enredo um de seus pensamentos: "Sempre entendi que o Evangelho é um chamado a liberdade." E tudo o que não gera libertação é sintoma de opressão e alienação. Ele também usou a seguinte frase na área da educação, a qual acredito, que se encaixa muito bem no campo da religião: "Há religiões que são gaiolas. Há religiões que são asas."

Que ninguém se obrigue a concordar com este pensamento. E tomara que pelo menos incomode ao ponto de outras ideias surgirem. O importante é não se deixar iludir pelo brilho e glamour que camuflam a essência do Evangelho e da liberdade.


sábado, 23 de maio de 2015

Deus e o diabo no sertão


"666". Uau! Este é o escrito de número seiscentos e sessenta e seis. Pensei em usar o próprio número como tema mas, parei, pensei e recuei. Haveria um certo risco de deparar-me com uma comitiva inquisidora pronta pra me levar ao julgamento. Eu seria obrigado a renunciar o meu pensamento, pedir perdão pelas palavras usadas, ser pendurado em praça pública, uma fogueira pronta pra me consumir e com a gran'sentença da ex-comunhão institucional, etc.

Putz! Viajei legal! Nada disso sô! Apesar da sensibilidade exacerbada de alguns radicais, creio que não chegariam a tanto. Levando em conta que o próprio Moreno de Nazaré, Jesus, não sentenciou a ninguém, tampouco ex-comungou, o que pensam as mazelas do poder religioso não me incomoda. Relaxem que dói menos!

O "meia-meia-meia" seria o quê, então? Algo cabalístico? Apocalíptico? Os sorrateiros doutos da fé têm uma interpretação leviana e amadora. Utilizam o tema e suas nuances para armar um circo sobre seus altares. Um verdadeiro espetáculo forjado por oportunistas que objetivam holofotes, ibope e renda. Casadinha mega-infernal, por sinal. Ou, conspiração religiosa, pois precisam evidenciar o mal para que seus mega poderes sejam televisionados.

Em poucas inteiras palavras a Bíblia trata o 7 como o número da perfeição, portanto que representa o Bem, Deus. O 666 é a imperfeição que representa o mal, portanto nunca atingirá o estado perfeito. Do mais, é conversa midiática pra vender shows, CD's melodramáticos, e livros de auto-ajuda. As instituições precisam se manter, principalmente no que tange a vaidade de seus líderes.




Pegando um gancho do grande poeta dos sertões, João Guimarães Rosa, faço agora minha travessia nesse enlace escriturístico a provocar a sã demência dos livre pensadores, contrapondo a hipocrisia disfarçada dos mestres da lei e a "bestage" dos alienados à supra-corte hierárquica.

"O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar (G. Rosa)." O sertão habita no universo de cada homem tanto quanto o bem e o mal que ele pode nutrir. O chão deste sertão é livre, quase terra sem lei ou terra de ninguém e nele se planta o que melhor lhe há de convir. Cada um planta o que tem. Se bom ou ruim, o gosto do fruto depende da escolha.

Por isso, a questão da existência do mal em tudo quanto é coisa que existe no sertão desse mundão parte muito mais da eloquente necessidade que muitos neuróticos da fé cultivam em si. Travar aquele espetáculo apocalíptico, típico de batalha de juízo final, ou star-wars, é indispensável para que na contra medida os experts da fé expunham seus multi poderes paranormais. E assim se dizem ungidos, poderosos, milagreiros. Os justiceiros do apocalipse, gladiadores do altar, e outras entidades pseudo cristãs são como os grandes inventores de anti-vírus. Primeiramente criam o vírus. Posterior, criam o antídoto e o vendem inescrupulosamente. É o sistema. Isso sim é uma conspiração de ordem social e com objetivos capitalistas e consumistas.

O fantasma do sertão de nós está extravasado do lado de dentro. Ele não se alimenta por si só. Requer trato especial, ou seja, quanto mais enfoque se dá mais ele se fortalece. Prático e necessário para a atualidade evidenciar o diabo. Pena que os sistemas de teologias usadas nos mercados religiosos servem apenas para massificar e alienar os seguidores. Construir uma cadeia de pensadores é escolha que atrapalha a fluência das valorosas bolsas religiosas.

Se a liberdade consiste em escolher o caminho, não há que insistir em endiabrar o sistema. O sertão está em todo lugar, está dentro de cada um. Nele, como todo homem que se é criação, a presença do bem e do mal existe. Da escolha de qual lado prevalecerá no controle é que dependerá a sobrevivência do errante solitário no sertão deste mundão. "Deus e eu no sertão."



sexta-feira, 24 de abril de 2015

O perfil das vaidades



Coélet narra poética e proverbialmente sobre as vaidades: "Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade." Eclesiastes.

O cenário haveria de ser diferente no ambiente das comunidades, principalmente por sobre aqueles que encabeçam trabalhos. Fato: não o é!

Não precisa ir tão longe na percepção uma vez que tudo está tão nítido até aos olhares mais ingênuos e desprovidos de qualquer intenção de crítica. A vaidade não consegue ser camuflada. Ela é uma alegoria imperceptível mas essencial para a celebridade em questão.

Levemos em conta a evolução geral de tudo e de todos, o que de certa forma contribuiu para um melhor entendimento e esclarecimento sobre a vida em comunidade, sobre as escrituras e por conseguinte sobre a vaidade.

O retrato da comunidade, digamos que poderia ser na forma de um mosaico. Várias cores, formatos e tamanhos que se encaixam. Melhor ainda: uma colcha de retalhos! Assim sendo não há um único rosto, nem um único perfil. Há um padrão onde todos se entrelaçam mutuamente. Peças ou retalhos que requerem maior atenção não conseguem se encaixar neste retrato. Precisam de um holofote exclusivo.


O perfil das vaidades é o mesmo das celebridades. Sua entrada é triunfal. Jamais por sobre um burrinho. O tapete vermelho é indispensável. Faz sua política de notoriedade na cumprimentação de cada um que passa por sob seu campo de visão.

Outro detalhe importante sobre as notórias celebridades é que sempre querem dar a sua vontade como rosto definitivo para a comunidade. Na verdade não chega a ser nem uma caricatura pois sua sensível vaidade se desfaz frente ao clamor real da colcha de retalhos. 

Para a celebridade, ter suas vontades contrariadas é uma afronta para o ego. É um chamado para a briga, ou para a guerra, dependendo da óptica. As peças ilustres levam em conta apenas a necessidade de realizar suas vaidades acima de qualquer coisa. Se necessário usam da hierarquia, da oposição, do motim, da fogueira, das palavras soltas, da Palavra deturpada, dentre outras cositas mais, para o seu proveito próprio. Tudo é vaidade!




"A mística e a espiritualidade de aparecer que é perigoso. Quem não sabe aparecer cai em pecado. Quem não sabe aparecer pros outros para mostrar Jesus corre um grande risco de aparecer por aparecer." Pe. Zezinho em uma pregação na Canção Nova. Público alvo: músicos e lideranças. Aí eu pergunto: "Será que serviu pros artistas de lá? E pros de cá?"

terça-feira, 3 de março de 2015

"Justiça: caminho seguro para a vida" - Pr. 11-15



A modernidade coloca a justiça numa condição de relatividade. Ser justo ultrapassa o critério legal que rege a sociedade. Como exemplo, o caso de outro brasileiro prestes a ser executado na Indonésia. O país está legalmente amparado para praticar a pena de morte, porém, como cristãos a consideramos uma falsa justiça que o homem inventou para assegurar o controle sobre os seus compatriotas. Neste caso há uma inversão de valores e práticas em que a morte é subitamente usada como castigo ao contraventor da lei e também para que sirva de lição à sociedade em geral. A vida perde o valor e é sucumbida frente ao valor dado à justiça dos homens.

Apesar de tantas leis, ainda assim, o ser humano tem a liberdade da escolha, que por sinal requer responsabilidade sobre as consequências que virão. Provérbios 15,32 alerta: "quem rejeita a disciplina despreza a si mesmo". É importante estar ciente das atitudes. Uma vez desprezada a razão que norteia uma caminhada segura, a morte, seja do corpo ou da alma, torna-se o prêmio estipulado e mais próximo.

Em contrapartida "a justiça leva à vida" (11, 19) e aqui essa justiça praticamente se define como um caminho seguro regado à dignidade, honestidade, retidão e prudência na conduta, pois "para o homem prudente o caminho da vida leva para o alto" (15,24). Escolher a justa medida, a verdade que dignifica a vida, requer disciplina, consciência e muita renúncia frente às facilidades comercializadas e até prostituídas pelo sistema, pela sociedade e pelo homem.

A justiça não só liberta da morte, mas principalmente previne o ser humano de entrar num caminho sem volta. E não se trata somente da morte corporal, porém de todo tipo de ação que gera opressão e fere a integridade do próximo direta ou indiretamente, física, psíquica ou espiritualmente. Usar a liberdade e fazer a escolha sensata e prudente é agir com justiça, ou melhor, caminhar seguramente rumo à vida eterna. 

Eimar Oliveira & Ailton Domingues de Oliveira 
IV Período Teologia - Trabalho de Bíblia V
Faculdade Católica de Uberlândia - Fev./15

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Esses caras não aprendem!


As passagens bíblicas que mais me aguçam o pensamento, com certeza, são as que Jesus sempre quebra o protocolo em prol de quem precisa, sem se importar se ferirá as regras do sistema. Burlar a lei, mesmo que em prol da vida, era algo considerado como blasfêmia, ou seja, totalmente proibido e passível de punição. Claro, que, conforme relatam as escrituras, um dia conseguiram, enfim, prendê-lo. Foi acusado de agitador, blasfemo, herege por descumprir as normas. Sentenciado e morto, seus ensinamentos, sua conduta, sua vida em si, ecoam até os nossos dias e ainda causam uma verdadeira revolução.

Um santo, revolucionário, questionador nato, uma voz que se fazia ser ouvida e respeitada. Isso sim! É cômico imaginar a cara dos sentenciadores, os mestres da lei, quando, diante de cada questionamento por eles feito, Jesus dava uma prova viva de que o amor, a vida e a dignidade humana estavam acima de qualquer norma social. Seria aquele momento vago em que os indivíduos se entreolhavam e sem dizer nada apenas pensavam: "Ih! Lascou geral! O cara nos pegou de jeito!" Tamanha sua sabedoria, não poupava palavras nem gestos para dizer as verdades necessárias, independente da "patente" de quem lhe questionava.

Jesus perdoou o pecado do paralítico quando colocaram-no em sua presença pelo telhado. Ele se admira com tamanha fé. Porém, o espanto dos mestres da lei foi simplesmente inquisidor no íntimo de seus corações. Consideraram aquelo ato de Jesus, que perdoa os pecados de quem Lhe procura, como blasfêmia. Deviam pensar: "Quem esse cara pensa que é? Chega-chegando, fazendo e acontecendo, expulsa demônio e nos dá lição de moral?!" Jesus, ciente de tais pensamentos ordena ao paralítico que se levante e saia carregando sua cama (Marcos 2,1-12).

O Nazareno agitador fora questionado por que somente os discípulos de João Batista e os fariseus estavam jejuando, enquanto os seus não o faziam. Noutro momento também o questionaram por que seus discípulos arrancavam espigas enquanto caminhavam por um campo de trigo, em dia de sábado (Marcos 2,18-28). Novamente, os fariseus e os partidários de Herodes falavam entre si por que Jesus realizava tais curas, descumprindo assim as leis sagradas. Nesse evento Jesus cura o homem da mão seca também em dia de sábado. A conspiração contra Ele crescia e já tramavam sua morte (Marcos 3,1-6).

Bom, e se eu te disser que essa inquisição hipócrita ainda existe? Não vou enveredar pelo caminho das religiões, pois cada uma tem as suas "santas e inquisidoras regras". Também não quero me entranhar nas quase 3000 páginas do Catecismo da Igreja Católica (CIC) para discutir "regras". E nem que eu fosse formado em Direito Canônico também não me valeria disso para enfatizar as discussões. Na verdade, creio, que o CIC é um instrumento para nortear as pessoas e suas comunidades, levando sempre em conta o local, a cultura e principalmente a diversidade. O engraçado é que alguns falastrões usam de seu "rigoroso conhecimento" para impor como leis, e o que seria objeto de comunhão passa a ser instrumento de sentenciamento e exclusão. E viva a santa inquisição! E viva a selvageria da idade média presente na cabeça dos patetas do poder! E viva o urubu de Cuiabá, o RPM, o batman, Paulo Ricardo! Viva também o matemático esmilingüido e seus adeptos aquinóides, aquele que como escritor, pregador e estrelinha seria um professor mediano! 

De mais a mais, guardo apenas uma frase que está acima de qualquer guarnição da ala carismática católica e seus pregadores de blá-blá-blá que adoram show e palco, microfones e holofotes: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado", por um certo Moreno de Nazaré. 

Outro detalhe importante: atentem-se porque Francisco é o cara que veio pra revolucionar essa bagaça! "Uai, não sei como foi que aconteceu, só sei que foi assim!" Chupa essa manga! 

Esses caras não aprendem, né Chico!?



domingo, 25 de agosto de 2013

A melhor parte


A vida é feita de escolhas, como afirma o título do blog de uma grande amiga. Realmente, a todo momento nos encontramos em pontos de decisões, de atitudes, de escolhas. O livre-arbítrio deixado por Deus nos permite optar. Escolhemos então aquilo que melhor nos convém. Com o tempo e o amadurecimento aprendemos a escolher melhor... as vezes. E, aprendemos também a degustar cada coisa no momento oportuno e não simplesmente a ingerir sem saborear.


Uma das passagens do Evangelho que inquietou-me por vários dias e que me fez refletir sobre as coisas que tenho priorizado no dia-a-dia é a de Lucas 10, 38-42, sobre Marta e Maria que acolheram Jesus quando ele passava por aquele povoado. Como em outros tempos, uma mulher toma a iniciativa para hospedar o profeta Eliseu (2Rs 4,8-10). Também, desta vez é uma dona de casa que hospeda Jesus.

Marta, realiza o "normal", o que mandam as normas da acolhida e da hospitalidade; ela é símbolo dessa porção de povo que acredita que "cumprindo" a lei já está tudo preparado, e portanto o critério de julgamento para determinar o comportamento dos outros é se a cumprem ou não. Maria também cumpre o costume da acolhida e da hospitalidade, mas o faz de um modo diferente, com uma atitude de novidade que brota do coração, é a "melhor parte" que ninguém pode tirar.

Quando Marta se vê ocupada com muitas tarefas a fazer enquanto Maria escuta os ensinamentos de Jesus, aproxima-se e diz: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!" Imagino a forma e a serenidade que Jesus tenha lhe respondido sem magoá-la e ao mesmo tempo fazendo-a meditar sobre a importância de cada coisa em seu tempo oportuno: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada."

Ao ler e reler a passagem em várias versões, contemplar e meditar, senti que o mais notável é que Jesus não menospreza o trabalho que Marta faz. Entende sua preocupação em organizar a casa e suas tarefas e ao mesmo tempo mostra com amor e humildade que ela pode estar gastando tempo com coisas irrelevantes e superficiais."Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas." Em nenhum momento disse que não era importante o trabalho que ela desenvolvia. "Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada."


"A melhor parte", tema deste escrito, é o que tenho meditado desde meados de julho. Será que tenho escolhido "a melhor parte"? Entre afazeres e rotinas tenho dispensado meus ouvidos e atenção aos familiares, amigos e companheiros de caminhada, colegas de trabalho e até estranhos que cruzam pelo meu caminho na correria do dia-a-dia? Ou simplesmente tenho dado mais atenção para o cumprimento das normas? Onde está "a melhor parte" na mística da relação com o próximo? 

Sempre queremos o melhor, buscamos realizar nossas tarefas em perfeita sincronia e sintonia para que haja êxito nos resultados. E quanto ao próximo, que muitas vezes está tão próximo que se torna objeto e rotina de nossa jornada diária, temos a mesma dedicação, paciência, destreza, respeito, amor? O mundo nos coloca como tais objetos que precisam acompanhar as mudanças e a modernização necessárias para a sobrevivência. O sistema nos robotiza e a tecnologia apaga a essência do que realmente somos. E a melhor parte acaba sendo apenas a vitória, a conquista, as metas alcançadas. 

Que ousemos mais! Que vivamos mais! Que intensifiquemos nossos olhos e ouvidos para a verdadeira essência da vida! Que saibamos ousar sem perder o valor! Que re-aprendamos a valorizar os que estão ao nosso redor! Que nossas relações sejam intensas, fraternas, eternas! Que abramos o coração ao Deus da Vida e que saibamos escolher cada vez mais "a melhor parte"!


Fontes: Bíblia do Peregrino; Bíblia de Jerusalém; Bíblia Edição Pastoral; Bíblia Edição CNBB; Bíblia de Estudos da Ave-Maria.
Leituras: Lc 10,38-42; 2Rs 4,8-10; At 16,14-15; At 20,35; Lc 8,14; Jo 11,1-44; Mt 6,9ss; Jo 12,1-3.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Proibido realizar milagres em dia de sábado!



A regra dos homens X O amor de Deus.

Imaginem que só fosse considerado cristão aquele que soubesse e também respeitasse as regras estabelecidas por sua igreja, por sua religião. No meu caso, como Cristão Católico, existe o CIC - Catecismo da Igreja Católica - com quase 3.000 páginas para nortear, levando em conta a necessidade do respeito à comunidade, à localidade, à realidade e à cultura. Não deve nem pode ser um mecanismo engessado. Isso acabaria por sentenciar a diversidade a uma massa falida e não pensante, ou seja, totalmente alienada.

Jesus, ultrapassou as regras para o bem comum. Ponto. Soltou o chicote no Templo quando os ambulantes faziam daquele lugar sagrado uma verdadeira feira livre. Os doutores da Lei é que deveriam cuidar desse detalhe mas não! Quem revirou as bancas, esbravejou, gritou foi o simples Nazareno, filho do carpinteiro José. 

Ao se criar um extenso livro com itens e sub-itens, creio eu, a intenção seria muito mais para que a Igreja como um todo pudesse caminhar com proximidade. Mas, o que ocorre é que estudiosos e entendidos usam as regras da igreja para classificar quem é digno e está de acordo com a doutrina e quem é herege por descumpri-las. 

A regra de Deus: o Amor! Pronto. Ponto. Seguindo as pegadas do Nazareno, que foi considerado um blasfemador, um herege, um possuído por espíritos malignos, entendemos que tudo se resume no amor ao Pai, o Deus criador, e ao próximo, imagem e semelhança do Pai. 

"A Lei de Moisés manda que apedrejemos essa mulher pega em adultério e tu, o que dizes?" Perguntaram os homens da lei ao revolucionário Jesus. "Quem não tem pecado que atire a primeira pedra!" Respondeu o Nazareno. O desfecho dessa história todos sabem. Dos mais velhos aos mais novos, cada um foi soltando sua pedra e retirando-se do local. Ficaram apenas Ele, o libertador, e a adúltera sentenciada. A lição foi o amor. O amor acima da regra. O amor acima da lei. Na verdade pode ter sido uma conspiração armada pelos doutores para pegar Jesus e o contradizê-Lo na frente do povo. O amor venceu! 

"Este homem desobedece a Lei de Moisés, pois curou um homem em dia de sábado!" E mais uma vez, os importunados e orgulhosos escalonados da Lei, mestres e fariseus, destilavam sua ira e conspiravam numa trama que teria seu desfecho na prisão, condenação e morte de Cruz ao "classificado" agitador que para nós é o Filho do Amor. Amor e perdão. O Filho de Deus, Jesus. 

Jesus em sua essência, viveu a regra do amor-obediência ao Pai e amor-perdão ao próximo, os irmãos. Se Jesus chegasse agora e agitasse nosso meio revirando bancas, questionando regras impostas que mais servem para classificar e excluir que à instigar uma caminhada coesa em unidade e respeito para com a diversidade, com certeza seria novamente crucificado e em praça pública. A condenação seria inevitável! 

Os mestres da lei vivem por conta da classificação. A sentenciação acontece nas bancas de cada Templo. A condenação é destilada pelos lábios dos que se põem a serviço. Do encontro com os olhares, entre sentenciadores e sentenciados, as cusparadas, pedradas e zombarias continuam até o calvário. As vozes cessam quando a morte parece vitoriosa. Excluídos pelas regras e pelos olhares, as pessoas deixam de caminhar rumo à Comunhão com o Cristo, que já percorrera e pagara o preço por todos nós. 

O Amor de Deus sempre vence! Cristo venceu a morte! Jesus é o Filho de Deus! Deus é amor! Jesus é o amor! No caminho que os pés percorrem até o encontro maior com o Cristo, o crucificado, morto e ressuscitado, cabe a cada um a entrega e o comprometimento de querer, no raiar de cada manhã, ser alguém melhor do que fora outrora. Como imperfeitos pecadores, os erros, as falhas, tudo acontecerá e por vezes poderemos tropeçar na mesma pedra. Vale-nos a conversão diária que nos instiga a ser e viver esse amor e a não correr o risco de morrer sem ter havido alguma mudança em si. 

Religião: justificação ou contradição? Nem uma nem outra. Ela tem que ser o caminho, as próprias pegadas do Cristo, o Jesus, o Nazareno, filho do carpinteiro, agitador, revolucionário, libertador enviado por seu Pai, o Deus do Amor para viver e morrer por esse Amor...

Enquanto as regras dos homens forem usadas para uma classificação de falsa moral que resulta na exclusão de pessoas, detona a dignidade alheia e transforma o sentenciado em pobre diabo, a Igreja estará longe de ser caminho de libertação e salvação.

"Proibido fazer milagres em dia de sábado" ainda é lei vigente em tempos atuais. Que Francisco não se curve aos homens e suas regras! Que ele solte o chicote no trono e na realeza e caminhe conosco rumo ao horizonte do Amor. Que o Templo esteja aberto e se torne fonte de Libertação! Jamais de exclusão! E, que os resquícios farisaicos, a começar dos mais velhos, joguem suas pedras e retornem aos seus lugares!


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Comentários - Mateus 7,1-5

O Evangelho de hoje – Mateus 7,1-5 – é algo muito interessante, uma lição que serve para nortear a caminhada, principalmente para nós Cristão Católicos que, inseridos na Igreja e na comunidade e mergulhados nos diversos trabalhos pastorais, sempre nos deparamos com a hipocrisia. Tomemos o cuidado para que, com nossos pensamentos e atitudes, não nos sintamos "os donos da verdade" e assim acabamos por considerar como único o caminho que escolhemos para servir a Cristo e seu Reino.

Respeitar os diversos é se unir em Cristo, nossa causa maior. Não importa por qual caminho chegamos até a Cruz. Cada um vem de um lado. Cada um se apaixonou por Cristo e sua causa de forma diferente. Uns vêm pelo amor, outros pela dor. Alguns vêm da lama, outros trocam a luxúria para servi-Lô. Enfim, são vários caminhos que chegam ao mesmo destino: "Jesus Cristo, um revolucionário, destemido e sofrido que não se calou."

"Deixo de ser hipócrita quando paro de me preocupar com quem escolheu servir a Deus de forma diferente da minha."

Ailton Domingues de Olvieira
25/06/12

Comentários - Mateus 6,5

"Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-a."

‎"Engraçado!
Domingo tinha uma turminha de pé na praça
Fazendo graça
E no auto-falante gritando
Umas coisas que a gente não entende...
Um homem de terno e gravata
Por mais meia dúzia de gente granfina,
Estava bem cercado ou talvez escoltado!
Não entendia aquela língua,
Na verdade má-le-má o português!!!
Engraçado!
Acho que na Bílbia deles este versículo acima foi abolido!
Cruizicredo!!!
Quando eles falavam umas coisas enroladas
E logo depois gritavam: 'SAI DAQUI DÊMO!!!'
Muita gente ao redor olhava assustada!
Acho que não tiveram muito êxito
Em seu objetivo que nem sei qual era
Os 'éramos seis' permaneceram até o final
Firmes e fortes. E só!
Oh coitado do engraçado!!!"

Ailton Domingues de Oliveira
20/06/12

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Comentário - "Eclesiástico 4,12-22"

Leitura do Livro do Eclesiástico – 4,12-22

A SABEDORIA comunica a vida a seus filhos e acolhe os que A procuram. Os que A amam, amam a vida; os que A procuram desde manhã cedo serão repletos de alegria pelo Senhor.
            Quem a ela se apega herdará a GLÓRIA; para onde for, Deus o abençoará. Os que A veneram prestam culto ao santo; pois Deus ama os que A amam. Quem A escutar julgará as nações; quem A ela se dedicar viverá em segurança. Se alguém confiar Nela, vai recebê-la em herança; e na sua posse continuarão seus descendentes. No começo, ela o acompanha por caminhos contrários, trazendo-lhe temor e tremor; começa a prová-lo com a sua disciplina, até que ele a tenha em seus pensamentos e Nela deponha sua confiança. Então voltará a ele em linha reta, o confirmará e lhe dará alegria, lhe revelará os seus SEGREDOS e lhe dará o tesouro da CIÊNCIA e da compreensão da JUSTIÇA.
            Se, porém, se desviar, ELA o abandonará e o entregará às mãos do inimigo.


Comentários

Deus, o Criador, nos dá o livre arbítrio e assim escolhemos o caminho pelo qual queremos trilhar. A sabedoria é um dom celeste que não requer nenhuma inteligência extraordinária para tê-la, é necessário apenas querer, mas um “querer” com determinação, um “querer” com persistência, um “querer” com renúncia. A SABEDORIA está para quem A quer.
ELE, nosso Deus, deixou a SABEDORIA não só como um dom, mas também como herança divina. Não é necessário um vasto currículo ou diversos diplomas para possuí-la. Ao contrário disso, ela está para todos em igualdade. A humildade e a sensatez são caminhos de perseverança ao qual podemos alcançá-LA.
A SABEDORIA que Deus se refere é aquela que nos mantém no caminho do bem. E nem sempre este caminho nos traz satisfação. A renúncia entra justamente aí. Muitas vezes, nos vemos em encruzilhadas e para sermos diferentes renunciamos nossa vontade ou nossa opinião para atender ao próximo, ao irmão.  Eis aí a SABEDORIA que o Criador nos dá. Quem se apóia Nela alcançará a Glória e as bênçãos de Deus para onde quer que vá.
Deus ama a quem A ama. Somos instrumentos do Criador, ora imperfeitos no ser e no agir, mas que nas mãos Deste Arquiteto tão Sublime e Onipotente, as maravilhas realizadas tornam-se verdadeiras obras-de-arte; somos como um cano d’água, sujo por fora e repleto de limbo por dentro, mas que transporta em si um líquido cristalino e puro que sacia a sede de muitos. Assim são aqueles que buscam essa SABEDORIA, verdadeiros instrumentos.
A dedicação e a confiança nesta Dádiva refletem uma vida em segurança que continuará por todos os seus descendentes. No começo ela nos vem por caminhos incertos de provação, dor e sofrimento, tribulação e tentação e é justamente aí que somos provocados a nos auto-disciplinar. Quando A tivermos constantemente em nossos corações e pensamentos e Nela depositarmos nossa confiança, nem temor nem tremor haverão de nos provar ou abalar. Neste momento Ela retorna nos confirmando e presenteando de alegria, revelando seus segredos, dando o tesouro da ciência e da compreensão da justiça.
Em suma, a sabedoria está para todos, mas são poucos os que a buscam. A tão famosa e celebre frase bíblica completa este pensamento: “Conheceis a verdade e a verdade vos libertará.” Sejamos sábios da Sabedoria de Deus para reconhecer esta verdade de libertação. Não deixemos as colunas de nosso Templo interior sucumbirem diante das provações. Aprendamos e re-aprendamos com humildade e perseverança, cada dia mais, a sermos pessoas sábias nesta sociedade que habitamos. Estejamos conscientemente atentos de que o desvio deste caminho, do caminho da Sabedoria, refletirá única e exclusivamente sobre quem o fizer.

(Sugestão de leitura: Salmo 118(119)

Ailton Domingues de Oliveira

sábado, 21 de maio de 2011

Altar para os homens e palco para Deus?


         ‘Vocês compreenderam o que acabei de fazer?’ Pergunta Jesus após ter lavado os pés dos discípulos. Quem segue a Jesus deve servir. Essa é a máxima desta passagem, João 13, 12-17.
Jesus veio para libertar os pecadores, veio justamente por eles; Jesus morreu por amor, amor incondicional, principalmente aos pecadores e excluídos; Jesus tem seu nome ecoado por mais de 2000 anos, apenas por sua vida exemplar de amor e fidelidade a Deus; Jesus veio para servir...
A Igreja, santa e pecadora, deveria ser o local maior, o templo sagrado onde nos unimos em partilha e comunhão para celebrar a vida de Jesus e a palavra de Deus. Ela deveria ser um lugar acolhedor e a comunidade o meio em que se vive na prática os ensinamentos de Jesus.
Porém, existe algo que acaba ressoando mais forte em corações individualistas. Sendo a igreja a Casa de Deus, Templo Sagrado de e da Comunhão com o Pai e com os irmãos, sendo a comunidade o meio de servir a Deus, onde então, estaria a nossa doação, como cristãos que afirmamos ser, de trabalho e carisma, de força de vontade e talento? Por onde anda o respeito para com a casa do Pai?
As laterais ficam entupidas de pessoas que nem “assistem” a missa, e nem bem ficam do lado de fora. Digo “assistem” porque a “participação” fica muito distante da atual realidade. Pra começar a querer “assistir” ainda deve-se melhorar muito.
E a quem trabalha, ou presta serviços, faz dessa “doação” uma função, um cargo de alto escalão, onde o seu trabalho é muito mais por ego que por gratidão e amor. Servir a Deus, à Igreja e aos irmãos, mais uma vez passa longe. Poucos são os temerosos a Deus, que realmente se fazem instrumentos Seu e se colocam a serviço.
O lugar onde deveria ser o Altar de Deus, o está sendo para os homens. Deixaram para Deus apenas o palco... E Jesus continuou: “O servo não é maior que o seu Senhor”.
Ainda há que se romper as barreiras do tempo, do espaço e do ego de cada um. Ainda há que se ter a noção da necessidade da educação, da humildade, do comprometimento com a causa Real. O crescimento virá no momento em que as intrigas, as brigas por espaço no centro do altar, deixarem de existir no meio e a partir daí a coerência dessa vida comunitária terá um sentido cristão. E nesse momento, o altar voltará a ser de Deus e não mais haverá o palco... Estaremos lá apenas por amor a Deus e ao serviço à Igreja e aos irmãos.


Ailton Domingues de Oliveira