Mostrando postagens com marcador Teologia para insatisfeitos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia para insatisfeitos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Distopias de uma cegueira social




Inocência, Ignorância e Conivência são elementos extremamente importantes que alguns líderes procuram diante da fragilidade alheia. E quando farejam, feito lobos em busca de ovelhas, partem em verdadeiras cruzadas praticando o terror psicológico até aliciarem seu rebanho que os seguem ao matadouro sem questionar.

Como administrador eu entendo as igrejas como instituições sem fins lucrativos. Assim deveria ser, somo via de regra. Mas, o que a realidade mostra são empresas isentas de impostos que hoje estão inseridas em outros setores influenciando o andamento do país. Perdeu totalmente a identidade de sua atividade fim. Uma empresa é um negócio. O mercado da fé está em alta.

Como teólogo entendo que as múltiplas denominações religiosas multiplicaram exponencialmente. A questão da fé ficou em segundo plano. Há um certo modo operante típico de um medievalismo que aplica o medo como meio de dominação da pessoa, esta que, muitas vezes cegada pela inocência, sucumbe aos caprichos de seus líderes. A função das religiões (religare) se perdeu diante do fanatismo, do ultra conservadorismo radical, das aberrações proferidas por diversos líderes bilionários, e se tornou uma verdadeira máquina de alienação. Quanto mais cegos alienados maior a continuidade e a rentabilidade.

Como estudante de psicologia, ainda me faltam argumentos científicos para expor minha óptica mas arrisco dizer que os líderes religiosos, em sua maioria, trazem o mesmo discurso, o que impõe regras, causa medo, e pune com sentenças do além a todos os que pisam fora da margem estipulada pela instituição. Tais líderes são capazes de causar histeria coletiva, cegueira intelectual e alienação exacerbada.

A religião que vive a pregar contra minorias sociais e outras religiões tem em seu cerne não os fundamentos cristãos de edificação de si e da comunidade, o amor em si, mas a estratégia escancarada para disseminação de ódio e guerra, reforçando uma rivalidade sanguinária contra quem exerce sua fé de maneira diferente. O que mais presenciamos hoje nos cultos e celebrações ditas religiosas são pregações contra a fé alheia e não mensagens edificantes de amor e paz, perdão e alegria. Acusa-se de obras demoníacas tudo aquilo que está fora dos redutos daquela denominação. Não veem as pessoas de outras denominações e fé como irmãos de uma mesma e única pátria, mas como concorrentes,  adversários e até inimigos. A luta dessas atuais pseudorreligiões é a busca incessante pela dominação global, o controle absoluto de poder, status e dinheiro. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Não há cura para o que não é doença"



A frase, que é título desse artigo, "Não há cura para o que não é doença!", faz parte do texto do Núcleo de Diversidade de Gênero da Comissão de Direitos Humanos¹, que também fez parte da pauta da campanha criada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) em 2017, ressaltando a importância de colocar a Psicologia a serviço dos Direitos Humanos e contra o conservadorismo

A campanha também se pauta na Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia², assinado por ninguém menos que Ana Maria Bahia Bock, presidente-conselheira na época. Tal Resolução "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual".

Ainda, após grandes conquistas pela e para a Comunidade LGBTQIAP+, erguem-se grandes barreiras e obstáculos discriminatórios e preconceituosos, oriundos da falta de conhecimento científico bem como um estridente negacionismo para se conservar padrões sociais ultrapassados e que deixam à margem todas as pessoas que não se encaixam nas formas de relações consideradas normais.

Tanto no âmbito político quanto, e principalmente, no religioso, existem prós e contras. Não é uma luta em prol da vida e da dignidade humana diante do que a pessoa realmente é e da forma que escolhe viver mas, sim uma luta por poder, como descreveu Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975) e Microfísica do Poder (1978): o poder de mandar e desmandar sobre os atos alheios. Não é uma luta de defesa mas  sim uma guerra de imposições. Imposições que vêm regada de ameaças de punições religiosas e sanções sociais com avais políticos. 

São várias formas de prosseguir esse texto, provando biblicamente, teologicamente, filosoficamente, psicologicamente, poeticamente, que simples e puramente "toda vida importa". Assim como o maior princípio deixado como guia para todxs os que seguem sua religião e ou filosofia de vida é o "amor ao próximo", o segundo maior mandamento bíblico, o grande erro que nos leva a um desrespeito por esse próximo é simplesmente o "não amor". E, esse "não amor", que restringe a empatia e o respeito ao próximo, por conta de suas orientações, escolhas, fé, etc, podemos chamar de "pecado" também. Sendo assim, "Pecado é não amar" (Cá de dentro - 2015).

E onde pode chegar a falta de uma orientação responsável seja de cunho religioso, político, social e principalmente profissional, para quem de fato esteja vivendo na corda bamba da vida, entre lapsos de sobrevivência neste mundo e a busca pela libertação de suas dores ocultas através da morte? Em que pese, como já dito acima, tudo pode beneficiar a vida humana ou ser um gatilho para que o pior aconteça. 

Um caso recente que me chamou a atenção foi o suicídio da influenciadora Karol Eller, 36 anos, que, suicidou-se no dia 12/10/23. Apoiadora política da extrema direita, acabou polemizando quando manifestou-se contrária às causas defendidas pela comunidade LGBTQIAP+. Segundo a imprensa, Eller, que era lésbica, "anunciou que tinha passado por "cura gay" no último mês. Ela estava participando de retiros religiosos e disse havia renunciado à sexualidade."³

Conheci uma pessoa no interior de SP, vítima das drogas, fez um retiro espiritual de três dias consecutivos e no final considerava-se liberto e convertido literalmente no caminho do cristianismo. Comentava que sua meta era ser um pregador da boa nova de Jesus Cristo. Até aqui tudo certo e bonito de se contemplar e apoiar. A questão é que, era urgente um acompanhamento de profissionais que lhe dessem o suporte e a direção adequadas para sua sustentação na luta pela libertação do vício. Não o fez, não teve, não buscou e, talvez, não soubesse... Mas o resultado foi que, em menos de dois meses ele estava de volta às drogas e dessa vez, muito pior. 

Karol Eller passou pela experiência religiosa de sentir-se, não curada, mas disposta e apta a renunciar aquilo que é considerado errado para os padrões normais da sociedade e pecado para o cerne de algumas religiões de cunho fundamentalista e ultra conservador. Mexer com questões dessa dimensão implicam muitas coisas, entre elas a responsabilidade por parte de quem lidera tais encontros e cultos. Isso começa com a liderança e vai para altos escalões da hierarquia religiosa. Todxs são responsáveis diretos e indiretos. 

É preciso entender a dor, o trauma, a angústia e os anseios do ser humano antes de prescrever alternativas para uma cura, uma pseudo cura, uma renúncia de si, antes de traçar caminhos únicos, regras propriamente ditas, com o intuito de manter a pessoa enclausurada em si, com dores inimagináveis diante de seus flagelos de renúncias. Cada ser em si é único e merece o devido respeito em sua jornada. Não há uma fórmula comum para padronizar a todxs. Entender que um encontro, ou um retiro espiritual de vários dias, em que todxs os presentes se fortalecem diante do objetivo, se sustentam mutuamente é uma coisa, mas quando encerra-se a euforia dos dias de cantos e orações, aí começa a realidade. Não é uma crítica às religiões, nem à forma de seus cultos mas sim uma crítica direta do conteúdo que é colocado de forma as vezes covarde na tentativa de fazer a pessoa caber dentro de padrões aceitáveis de uma ala da sociedade. 

Espiritualidades, religiões e religiosidades, são caminhos, signos, travessias, opções, possibilidades, de reconexão entre o humano e o sagrado, com propósito de bem maior que envolve a dignidade de si e o respeito ao próximo. Cuidar da vida, é premissa de qualquer instituição. Respeitar é obrigação de todxs. Aceitar só cabe a quem de fato é, ou seja, muitos já travam sua guerra de auto-aceitação e não precisam de mais ninguém para fazer peso contra. Mais uma vez, a todxs, só cabe o respeito. 

E assim sendo, ressalto novamente a importância da Psicologia para acolher e ajudar a pessoa a se aceitar, tomar consciência de si e de toda sua potência, redescobrindo-se enquanto ser único e de opções múltiplas nesse universo de infinitas travessias, protagonizando empoderadamente sua vida sem medo do que as sociedades impõem. A bem da verdade, toda vida importa, o amor salva, a paz de si liberta e a Psicologia está aí para dar voz, vez, luz para essa jornada chamada vida. 


¹ https://crppr.org.br/nao-ha-cura-para-o-que-nao-e-doenca/
² https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf
³ https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/10/13/morre-a-influenciadora-karol-eller-aos-36-anos.htm


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

domingo, 1 de outubro de 2023

De setembro a setembro: refletindo o amarelo em todos os dias do ano

Setembro Amarelo é uma campanha que ocorre uma vez ao ano. O restante dos meses ingressamos em outros movimentos de relevante importância e comprometimento social, de saúde e conscientização. Enquanto estudantes de psicologia poderíamos fazer um pouquinho a mais, esticando esse movimento para uma campanha de prevenção ao suicídio *DE SETEMBRO A SETEMBRO*. Algo a se pensar.

Porém, antes, vale uma pergunta de autorreflexão: *A DOR ALHEIA ME IMPORTA?* Obviamente não sabemos se uma pessoa próxima está passando por alguma dificuldade. Também não conseguimos mensurar o tamanho da dor de alguém, que no momento esteja atravessando problemas de várias ordens. 

O que podemos fazer, primeiramente, seria mudar o nosso jeito, ativar o nosso *ser humano* e nos atentar para detalhes que antes não prestávamos tanta atenção. *COMO?* Quando começamos a fazer parte de algum ambiente, lugar, movimento, grupo (trabalho, faculdade, comunidade, bairro, igreja, família, etc), obviamente passamos a perceber as pessoas ao nosso redor. Cumprimentos básicos de "bom dia, boa tarde, boa noite" podem não apenas quebrar o gelo mas abrir possibilidades de aproximação. Perguntar se "está tudo bem" pode não ser nada, não representar nada para nós e simplesmente recebermos como resposta "sim, tudo e você?" Mas, pode ser, que esse cumprimento, seguido dessa pergunta, seja a única coisa positiva que impediu uma pessoa de atentar contra sua própria vida. 

Acredito que muitos de nós conhecemos pessoas que tiraram sua própria vida. Talvez não conhecemos de perto mas, já ouvimos falar de conhecidos distantes, pessoas que um dia fizeram parte de nossa vida e acabamos perdendo o contato. As redes sociais nos mantém atualizados, principalmente quando o assunto é tragédia. 

*TERÍAMOS NÓS ALGUMA RESPONSABILIDADE SOBRE A VIDA DE OUTRA PESSOA?* Sim e Não. Sim ou não. Cada um sabe de si. E em diálogo com uma amiga, falando sobre suicídio, logo após participarmos de um evento no dia 15/09/23, justamente sobre esse tema, o qual refletimos sobre o filme *ORAÇÕES PARA BOBBY*, chegamos à nossa conclusão de que temos sim responsabilidade e que podemos fazer nossa parte. Novamente: *COMO?* Acolhida, empatia, respeito, etc. Podemos, enquanto seres humanos, fazer um pouquinho a mais nesse sentido. Independentemente de crenças, fé e religiões, a qual acreditamos que todas pregam *AMOR À VIDA E AO PRÓXIMO*, podemos e queremos ressignificar o nosso papel aqui neste plano, no aqui e agora, de forma a contribuir COM A SAÚDE, COM A PSICOLOGIA, COM A VIDA. 


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Marx, Freire e o Marco Temporal

Protesto contra marco temporal em Brasília 
Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O que me motivou a escrever esse artigo, ou manifesto, ou simplesmente um desabafo, foram alguns comentários que ouvi acerca do "Marco Temporal". Antes gostaria de falar o que seria esse marco e porque ele está em evidência no cenário social, político e obviamente no religioso.

"Marco temporal é uma tese jurídica segundo a qual os povos indígenas têm direito de ocupar apenas as terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição" (Fonte: Agência Câmara de Notícias). Aqui no site da Agência Câmara de Notícias podemos saber melhor sobre essa questão: https://www.camara.leg.br/noticias/966618-o-que-e-marco-temporal-e-quais-os-argumentos-favoraveis-e-contrarios/

Bom, a ideia sobre a questão do "Marco Temporal" é usar como linha de corte o dia, mês e ano em que a Constituição Federal Brasileira foi promulgada, 05/10/1988. E isso implica que as terras consideradas indígenas, só serão de fato dos povos originários, as que constam até essa data da CF. Após essa data, todas as questões de terra seriam revistas e, inclusive, haveria de mexer no que já estaria acentuadamente acordado e resolvido. 

Agora, imaginem que algumas questões de terra já tenham sido resolvidas no ano subsequente à promulgação da CF, no caso em 1989. Povos originários assentados em suas terras e, de repente, com a aprovação do Marco Temporal, eles poderiam (e com certeza seriam) retirados de seu habitat novamente. Uma guerra iminente seria provável. Há quem seja favorável ao marco mas há muito mais que lutam contra. Há quem se beneficie com a aprovação desse marco, e com certeza "peixe grande" mas, há quem seja contrário por simples razões. Não tem como se beneficiar com nada sendo contrário ao Marco Temporal. E, a partir disso, claro que estou do lado contrário ao tal "marco". 

Aprovar isso seria jogar o destino e a vida dos povos indígenas ao léu. Já existe uma invasão sem limites acontecendo, totalmente descontrolada, que ganhou força no governo anterior (que não faço questão de mensurar o nome, uma vez que só intensificou o ódio, criou o caos e gerou mortes a partir do ódio e do caos...) e isso, independe de fiscalização e policiamento. Invadir terras indígenas, a maioria regada de riquezas naturais, é algo não apenas fácil mas lucrativo. E quem sempre ganha são os que continuam ganhando, os que estão lá no cume do topo da pirâmide: latifundiários por exemplo. 

"A história da humanidade é a história da luta de classes." Sim, Karl Marx tinha razão, porque a força propulsora da história se baseia na história da luta de classes. Quantos e quantas que, emergiram da pobreza, tiveram suas dificuldades durante a jornada em ascensão e ao atingir um novo patamar social, tornaram-se algozes de quem ficou num patamar inferior? Não são poucos, aliás, são incontáveis os casos em que o "sonho do oprimido de se tornar opressor", e nisso Paulo Freire também tinha total razão, se justifica na história passada, recente e presente. 

Durante o curso de Teologia, fiz um trabalho sobre a situação dos Guaranis-Kaiowás que, expulsos de suas terras por fazendeiros, eram obrigados e sobreviver acampados às margens de rodovias. Muitos jovens dessas tribos, diante da dureza da vida longe de seu habitat, do sofrimento e da falta de recursos, sem voz e sem vez, e frente à tristeza de ver os seus perecendo cruelmente, acabavam tirando sua própria vida como forma de aplacar a dor; um verdadeiro protesto, à base do seu sangue e da sua vida, para que as autoridades tomassem as devidas providências.

Caberá à Justiça resolver a questão e os casos diferenciados. Concordo que pessoas que tem o seu pedaço de terra para subsistência e, que em sua maioria adquiriram as posses de forma não regulamentada, muitas vezes compradas de usurpadores, deverão ter um olhar atento para sua situação. Bem como, os que adquiriram suas terras para projetos de lazer em áreas de preservação ambiental e território indígena, que cientes das circunstâncias e riscos iminentes, devido à irregularidade da aquisição, poderão perder o investimento. Há aqui um grande contraponto entres os dois exemplos que mencionei. Os que foram enganados e lesados mas que dependem da terra e os que não foram enganados, assumiram o risco e investiram seu dinheiro mas, porém, podem ser desapropriados e assim, lesados. E quanto a esses que entraram conscientes, não há inocentes. 

E, nesse momento, a luta é contra o "Marco Temporal". Seria desumano e injusto mexer numa demarcação que já está corrigida e resolvida. Voltar ao ano de 1988 para refazer as demarcações seria uma violência contra os povos originários. Se, em nome da ganância e do poder, os defensores do moralismo seletivo justificarem seus atos de ódio contra as minorias, conforme aconteceu nos últimos 4 anos, para continuarem invadindo, matando e expulsando os verdadeiros donos das terras, invocamos aqui a questão religiosa como uma força de origem centrada capaz de manipular ou libertar o indivíduo. Nem social, nem política e nem religiosamente, não há viés plausível para a aprovação do marco temporal. O que justifica essa ganância de poder pode ser visto sob a história da luta de classes e sobre as lutas entre oprimido e opressor. 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Adão & Eva: o peso da culpa recaído sobre a mulher e outras teorias.

 


O texto de hoje na verdade é um diálogo que se iniciou quando o jovem Mateus (*), estudante de psicologia na mesma instituição em que também estudo, procurou-me com alguns questionamentos que aguçaram e muito o meu pensamento. A partir daí, a conversa foi se desenrolando. Fiz questão de colocar tudo da forma como se deu para não perder nenhum detalhe. E, como eu disse ao próprio Mateus, "esse bate-papo merece destaque".


Mateus: Bom dia Ailton, estava procurando o seu contato pra falar a respeito de uma teoria que pensei enquanto estava com insônia.

Ailton: Bom dia. Tudo bem?

Mateus: Tudo jóia. Enquanto eu estava com insônia, estava pensando a respeito de Adão e Eva e minha teoria tem a ver com isso e, por você ser Teólogo, vai saber me falar se faz sentido ou não.

Ailton: Claro, vamos decifrar seu pensamento... rs. Bora. Se preferir mandar áudio, fique à vontade.

Mateus: A minha teoria é a seguinte ... O "fruto proibido" nunca foi um fruto e a "cobra" era Lúcifer. E na minha teoria o fruto proibido seria o sexo. Eva transou com Lúcifer porque foi tentada pela "cobra" kkkkkkk. Com isso ela fez o mesmo com o Adão. Tiveram o primeiro filho que seria o Caim. Que é filho de Lúcifer e Eva. E pela essência do pai dele, ele acabou cometendo o primeiro assassinato no mundo contra o meio irmão. Botou o pé na estrada. E fez filhos.

Ailton: Certo. Vamos por partes...

Mateus: Como diria o Jack Estripador ... Vamos por partes.

Ailton: Em primeiro lugar é necessário compreender que Adão e Eva na verdade não passa de um conto. Não chega nem a ser uma lenda porque nunca existiram de fato. São personagens fictícios criados para contar a história do nascimento humano, do universo e da vida em si, a partir de uma teoria religiosa construída desde há muitos milênios atrás, muito antes de Cristo.

Ailton: Desculpa se estou sendo muito detalhista, mas vou tentar descrever de uma forma que, seria o jeito que explicaria para qualquer pessoa, independente do seu grau de conhecimento, fé, crença ou coisa do tipo. Então, desculpa se eu disser coisa que talvez, vc já saiba...

Mateus: Tranquilo.

Ailton: Sua teoria é interessante mas não tem embasamento nas histórias descritas no único livro que a conta, que no caso é a Bíblia (seja ela de qualquer religião cristã). Talvez, numa outra religião ou seita, sua teoria já até tenha sido mencionada e estudada. Quanto a isso não posso dizer, porque desconheço.

Ailton: A cobra no caso, tem muitos pensadores e teólogos que trazem diferentes interpretações. Eu, ainda penso, que ela (a cobra) seja apenas o nosso pensamento. E, como tal, o pensamento está incutido em nós, faz parte do nosso ser. Temos no caso a possibilidade de pensar coisas positivas ou negativas, e consequentemente bota-las em prática. Ou, podemos dizer que temos o anjo bom e o anjo mau, ou ainda, o lobo bom e o lobo mau. Basta saber qual devemos controlar e qual devemos acessar.

Ailton: Sua teoria seria perfeita para uma continuidade da série Lúcifer. Pois, seria algo a ser explorado a fundo por pesquisadores que se desdobram para construir uma ficção em cima de algo que, há muito tempo, faz parte da crença, da fé e da religiosidade de grande parte da população mundial.

Mateus: Nunca assisti essa série. Por preguiça kkkkkkk.

Ailton: A cobra representa o mal, entre Adão e Eva no paraíso. Seu papel é o de instigar o casal a fazer aquilo que não deveria ser feito. Por outro lado, pense, se o sexo já existia desde sempre para a procriação, por que ele seria algo considerado como fruto proibido? Ou seja, o sexo, como parte da criação também deveria ser algo abençoado por Deus. E é, sem sombra de dúvidas. Então vamos além...

Ailton: O que de fato estava impedido de acontecer, que era considerado o pecado dos pecados seria o "prazer". O prazer conseguido através do sexo. E por que a mulher em si, no caso EVA, que foi a que ousou comer desse fruto proibido? Porque na verdade, desde sempre a mulher era proibida de ter o seu prazer; ela, sequer, tinha direito a qualquer tipo de expressão na sociedade de sua época. Se ainda hoje temos essas diferenças, imagina a 2000 ou 5000 anos atrás !?

Ailton: É interessante, sátiro, a forma que a série recoloca o Lúcifer no papel da sociedade. Te indico pra assistir com olhos abertos e pensamento livre, encarando como um gênero de humor e com questionamentos que até o momento nenhuma religião foi capaz de fazer.

Ailton: Naquele momento somente o homem sentia prazer. E percebemos que isso ainda acontece nos dias de hoje. A história bíblica conta que a mulher saiu da costela de Adão. Mais uma história de submissão e pertencimento. A mulher pertence ao homem. A história foi escrita por homens e não por mulheres. Até mesmo algumas histórias bíblicas, em que a mulher é protagonista, foram escritas por homens. Ainda existem países e religiões em que a mulher não tem vez, nem voz, e tampouco pode sentir prazer. Alguns lugares ainda mutilam as mulheres para que não sintam prazer, cortando seus clitóris.

Ailton: A bíblia, demonstra o tempo todo que a mulher devia exercer apenas um papel de submissão. Nem nos templos ela podia entrar. Colocaram essa conta nas costas da mulher, que o pecado entrou no mundo quando Eva deu ouvidos à cobra e cedeu a tentação. Consideravelmente um pensamento machista.

Ailton: Eu acho inviável que essa teoria (a sua) seja uma possibilidade dentro do contexto bíblico em que o texto foi descrito, levando em conta principalmente a insignificância do papel da mulher na sociedade da época. 

Ailton: Por outro lado, acho uma teoria muito interessante, porque se de fato ela transou com a cobra, essa cobra teria se materializado feito homem, então não havia apenas Adão e Eva, mas muitos Adãos e muitas Evas, ou seja, era uma sociedade. Então Eva, impossibilitada de ter prazer com seu parceiro, encontrou prazer nos braços de outro homem, o que a fez descobrir-se enquanto mulher e, dessa forma pode conhecer o prazer. Foi descoberta e de certa forma amaldiçoada. E, pode ser, nesse caso, dentro das perspectivas de sua teoria, que esse primeiro filho tenha sido fruto de um adultério, ao mesmo tempo, fruto de um amor extraconjugal no qual ela descobriu-se enquanto mulher.

Ailton: Irmão, o baguio é loko! rsrs. 

Ailton: Já viu um vídeo do pastor Marco Feliciano dizendo que a África era amaldiçoada? Vou te mandar. Cara, olha a que ponto chegam os idiotas! Isso porque são líderes religiosos...

Ailton: https://www.youtube.com/watch?v=e9QGVliE-p8

Ailton: Bom, não sei se pude contribuir com seu pensamento, com sua teoria, mas de qualquer forma te agradeço pela confiança em partilhar. Questionamentos assim fazem a gente parar e refletir. Sua teoria me auxiliou a rever alguns conceitos. Obrigado. Qualquer coisa me chama aqui. E quero saber o que você achou de tudo isso acima

Mateus: Caraca ... Explodiu minha mente kkkkkk.

Ailton: Espero que junte tudo de volta e de forma turbinada rs.

Mateus: Perfeito ! É exatamente por isso que eu vim atrás de você ! Acho você uma pessoa muito mente aberta e muito inteligente e acabou abrindo a minha mente pra novas teorias também kkkkkkkk.

Mateus: Me senti recebendo uma aula! E que aula ... Assim que eu entrar no horário de almoço eu dou uma olhada, mas eu acredito que eu já vi esse vídeo e fiquei em choque com o que foi dito quando vi pela primeira vez

Ailton: Que isso irmão! Somos todos aprendizes. O simples fato de você me questionar, me aguçou a pensar. E pode ter certeza, o papo de agora é único, pois nunca o tive com ninguém. A aprendizagem é sempre uma via de mão dupla. Seu questionamento me fez ter percepções que até a pouco estavam apagadas ou nem as tinha de forma elaborada na minha mente. Pode ter certeza que eu aprendi muito mais...

Mateus: Um bom mestre é um eterno aluno

Ailton: Obrigado Mateus, por me propiciar esse momento de aprendizado mútuo. O mundo, a sociedade em geral, precisa de pessoas com senso-crítico, que pensem e questionem antes de aceitarem toda história contada como verdade única. Parabéns, jovem!


* Mateus de Souza Barbosa
21 anos
Estudante do 4º período de Psicologia Ψ - Unitri 
Insta: @mateussouzabarbosa


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos


segunda-feira, 26 de junho de 2023

Deturpações da fé



"A prisão foi um propósito de Deus". Não. Não mesmo! 

Da até pra explicar por raciocínio lógico ou regra de 3. Deus é amor. Amor não fere. Deus é pai. Pai não descuida. Logo, Deus que é amor e pai, não permitiria uma injustiça dessas. 

Erros humanos acontecem e aos montes. E muita gente inocente paga por tais erros. No entanto, essa fala, vem muito do discurso neopentecostal e carismático Católico de hoje, oriundo da Teologia da Prosperidade. "Deus te dá, mas você tem que pagar por isso. Pagar no sentido de "dinheiro e bens" mesmo. Correntes como a do Edir Macedo e do Valdemiro Santiago chegam a dizer que você tem que doar tudo e depois cobrar de Deus. Você tem que exigir sua parte de Deus. 

A moça, na simplicidade e humildade, tirando forças e lições do que vivenciou, ressignificou o pesadelo creditando a Deus todo o ocorrido. Como que, Ele quisesse lhe dar uma lição por um bem maior.

Muitas coisas acontecem por consequência de nossas escolhas ou por erro de terceiros, como no caso dessa moça. Mas, é tranquilo entender as palavras dela. E, por outro ângulo, não está errada levando em conta que toda religião, com raras exceções, traz esse tipo de argumento. 

Dentro da própria família sempre ouvimos desde cedo que Deus castiga, e por aí vai. Em outras situações, muita gente vive na miséria, e ouve nas igrejas que isso também é um propósito de Deus. "Deus está te provando!" 

Ao contrário do que a religião deveria ser e fazer (ser libertadora e praticar a libertação), ela acaba alienando e fazendo a pessoa acreditar que tudo isso seria um desígnio de Deus em sua vida. 

É extremamente importante, para quem crê, buscar a verdade para além das falácias oriundas dos empresários da fé e dos movimentos que corroboram para manter os fieis presos por medo a um Deus castigador, que já não cabe na sociedade já tem mais de 2000 anos. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos I



A última ceia

A última ceia é a referência da vivência do amor e da caridade: "nisso todos reconhecerão".

O que faz com que uma pessoa potencialize uma demanda se a demanda é da ordem do inatingível?



2) "(...) aquele que foi mais autêntico: Tomé"



3) Nada é por acaso.
Nada acontece sem a vontade de Deus.
Deus seria o acaso?
Ou o acaso é a vontade de Deus??
Livre arbítrio
Ou
Conspiração divina?


4) A luta da mulher
Gênesis 2 - Fica claro que desde os tempos em que a história do Gênesis foi contada, escrita e repassada pela tradição de geração em geração, alguém, de certa forma já se preocupava com a posição da mulher. O texto evidencia que ambos deveriam ter direitos e espaço em mesmo pé de igualdade. A luta pela inclusão da mulher e o seu devido e merecido respeito é mais antiga que este escrito....


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor - parte II



Há de se lembrar do texto anterior, em que questionamentos e autocríticas nos fizeram refletir sobre as verdades instauradas pelos "fiscais da fé" através de suas bandeiras religiosas. Em contrapartida, entendemos que o amor é a ponte, o caminho, a travessia que nos conduz a um bem maior, o de praticar a caridade sem ressalvas. 

"Fiscais da fé" é um termo que foi utilizado pelo Papa Francisco, quando mencionou que quem procura a igreja precisa encontrar as portas abertas e não fiscais da fé. Jesus chamou os mesmos, os tais mestres e doutores da lei, de hipócritas. Não o sejamos e não hajamos como tais! 

Ainda sobre o texto anterior, foi deixado propositalmente uma pergunta com uma afirmação um tanto quanto duvidosa. Como disse, foi proposital. Eis o trecho: "Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?!"

Ressalva para uma questão em particular: "Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco?" Então, o que percebemos aqui? Espero que todos tenham percebido o erro provocado. Sim, é um erro agir com a pretensão de nos favorecer enquanto cristãos, tanto quanto é errado o sentenciamento alheio para com quem não o é.  É pretencioso a forma de imaginar que "nós", ditos cristãos, já estamos designados à vida eterna só porque o somos e, em contrapartida, supor, julgar e até mesmo sentenciar indiretamente a não participar conosco desse prêmio porque não está nesse mundo sob os holofotes do cristianismo.

E onde está a caridade nisso tudo, meus amigos? A caridade não é simplesmente o ato de ajudar a quem precisa de algo material e ou espiritual. A caridade está em servir. Servir com amor. Servir e não cobrar. Servir a quem precisa mas sem a necessidade de vincular essa atitude a uma resposta imediata por parte de quem é servido. Servir sem forçar nem obrigar que a pessoa segure nossas mãos e nos acompanhe até a igreja mais próxima. Isso é barganha. Se queremos mostrar que o caminho que trilhamos é bom, basta levar apenas o alimento pro corpo e pra alma de peito aberto, sem placas, sem propagandas.

Ninguém neste mundo é detentor da verdade. Existe uma música que diz "Tudo o que move é sagrado" (Amor de índio - Beto Guedes e Djavan). E isso é verdade! Onde existe vida existe o sagrado. Não é uma música sacra, mas diz uma verdade que muitos que se dizem religiosos não respeitam. Encerro aqui com a reflexão de outra música que foi cantada na Campanha da Fraternidade de 2002. Nos atentemos para alguns símbolos dessa letra: a mesa, terra-mãe, altar, rio, mata, natureza. A cidade é abençoada com todos esses símbolos, porém, será que podemos imaginar apenas "uma só mesa" para comungarmos com todos e todas ao seu redor? Onde está a nossa caridade? 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

Ouçam: https://www.youtube.com/watch?v=oLgWCOyiAbQ

"Uma só será a mesa" - Oferendas 2002 (CNBB)

1. Quando os pés o chão tocarem
Para a dança começar
Quando as mãos se entrelaçarem
Vida nova há de brotar

2. Toma, ó Pai, o amor perfeito
Pelo rio, a mata, a flor
Que o índio traz no peito
É louvor ao Criador!

Uma só será a mesa
Terra-mãe será o altar
O sustento, a natureza
Em milagres, vai nos dar!

3. Eis aqui, Senhor, as dores
Deste Cristo-Povo-Irmão
Sejam hinos seus clamores
Na defesa de seu chão

4. Nova Terra nós sonhamos
Onde todos têm lugar
Os direitos nós buscamos
Vida, pão, respeito, lar

5. Povos todos, terra inteira
Te pertencem, ó Senhor!
Que os males e as fronteiras
Deem lugar ao Pleno Amor

domingo, 19 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor


"Olhe para uma instituição e veja 
o que ela tanto quer curar, 
que você perceberá do que ela é doente." 
(Autor desconhecido).

Qual seria a "verdade" que podemos tratar como única? Os cristãos dirão que é a que vem de Jesus Cristo. E nessa dimensão os evangélicos dirão que, enquanto cristãos, a única verdade é a deles. Como sabemos que no meio evangélico existem várias denominações, cada uma afirmará que detém o poder da verdade em seu meio. Os neopentecostais farão do mesmo jeito. Sim, os católicos também. Apesar da igreja católica não ter vertentes, existe uma divisão interna entre as correntes de pensamentos, entre pastorais e movimentos e, logicamente, também faz a sua guerra santa em prol da detenção da exclusividade da verdade. 

Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?! 

Será que, enquanto cristão, eu levo a sério os ensinamentos da minha religião? Será que eu boto em prática tudo o que me é oferecido e devido enquanto cristão que eu afirmo ser? Será que estou apto para ser merecedor da vida eterna, segundo o que rege a minha religião? E Jesus, sendo praticante do judaísmo, o que mais lutou foi contra os mestres e doutores da lei de seu tempo. Chamou-os de hipócritas por saberem as leis de cor e salteado, mas não colocavam em prática nada que favorecesse o ser humano. 

A princípio e a bem da verdade: ninguém é detentor da verdade; nenhuma pessoa é; nenhuma instituição é; muito menos alguma forma de poder o seja! Primeiramente não precisamos ter uma bandeira religiosa exposta no peito para sermos praticantes da caridade. Existem milhões de pessoas sem religião que têm muito mais atitudes de empatia e amor para com todas as formas de vida do que muitos que se denominam cristãos. Quem está inserido no meio religioso, em alguma denominação é porque se sente acolhido, encontrou apoio, suporte pessoal-emocional-espiritual e elementos que fortalecem sua fé na caminhada diária. Esse é o sentido da comunidade: comunhão, partilha, caridade e amor. 

São muitas questões e devemos nos ater em uma palavra que nos motive a caminhar. Essa palavra não é a palavra "verdade". A verdade está onde se pratica o amor, onde se pratica o respeito, onde existe solidariedade, partilha e comunhão. Ela está principalmente, onde a hipocrisia não habita. Existe uma passagem em que Jesus caminhava com os seus discípulos e estes notaram que outras pessoas também pregavam em nome de Jesus. Preocupados com o fato de que outras pessoas falavam do "amor", ou da "verdade", ou do próprio "Jesus", os discípulos levantaram essa questão e esperavam que Jesus tomasse uma atitude drástica, talvez ordenando que as outras pessoas não pregassem em seu nome. Jesus então disse: "os que não estão contra nós, estão conosco". Ali, naquele exato momento, não se permitiu que os discípulos tomassem exclusivamente para si todo o ensinamento e bem-aventuranças que Jesus pregava. 

E nós? Como está o nosso caminhar frente a tantas questões que nos fazem distinguir quem é santo de quem é pecador? Que critério usamos para sentenciar ou libertar as pessoas da nossa análise "cristã"? Espero que não o façamos dessa forma. "Quem quiser ser grande, que se faça pequeno entre os seus." A vida está para todos da mesma forma que a morte aguarda a todos. O que vem depois não podemos prever mas, podemos fazer o nosso melhor enquanto pessoas, seja para melhorar o ambiente ao nosso redor, seja para ajudar a quem precisa de uma palavra ou de um alimento. A caridade não é exclusividade de nenhuma religião. Ela tem que brotar no mais puro íntimo de nosso coração, de nossa alma. Mas, só quem é capaz de amar, pode se doar para o próximo, a serviço de quem precisa. 

Quando se faz com amor, o resultado obtido é melhor que o esperado. Toda atitude de amor, por si só, é capaz de mudar-melhorar-contagiar para quem é realizada, por quem realizou, por quem presenciou ou por quem simplesmente ouviu o resultado da boa ação praticada. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Caridade sem holofotes

[¹]

Começo com a seguinte pergunta: "Quantos tipos de caridade existem?" Uma pausa para refletirmos (...).

Não falamos aqui, de caridade ao arrecadar alimentos e donativos para auxiliar a quem precisa. Caridade está além desse gesto. Muitas vezes as pessoas doam dinheiro nos semáforos simplesmente para aplacar seu ego de "pessoa caridosa", ou para se mostrar benfeitora e digna de aplausos, ou ainda para se ver livre da presença "inconveniente" de quem pede. Pois, quem se dá ao trabalho da humilhação de pedir, sempre está com roupas sujas, e sem as necessidades básicas de higiene supridas. 

O Papa Francisco tem afirmado que a caridade é o maior antídoto contra as tendências de nosso tempo, que “a caridade é sempre a via mestra do caminho de fé. Mas a caridade não é simples filantropia, mas, por um lado, é olhar o outro com os mesmos olhos de Jesus e, por outro lado, é ver Cristo no rosto dos necessitados” (23 de mar. de 2022) ².

Segundo São Vicente de Paula, “a caridade é um amor elevado acima dos sentidos e da razão, pelo qual nos amamos uns aos outros pelo mesmo fim, pelo qual Jesus Cristo amou os homens para fazê-los santos neste mundo e bem-aventurados no outro” ³.

De acordo com o site SSVP Brasil, o Beato Antônio Frederico Ozanam diz que "segundo as leis que regem o mundo espiritual, para elevar uma alma é necessária outra alma, esta atração é o Amor, que também se chama amizade na linguagem da filosofia e a caridade na linguagem do cristianismo” (23 de abr. de 2021) ₄.

A palavra que interliga o pensamento desses três nomes, esteja ela explícita ou não, é simplesmente o amor. Não foi à toa que o atual Papa escolheu o nome de Francisco para o seu papado. Francisco de Assis, considerado um santo pela igreja católica, despojou-se de si, dos seus bens e se entregou ao serviço dos mais necessitados, humildes e excluídos da sociedade de seu tempo. Amor-entrega, amor-doação, amor-caridade, ou simplesmente amor. Francisco de Roma tem lutado com veemência contra o sistema político-social opressor para dar voz e espaço aos que precisam de todo tipo de ajuda e em especial, de inclusão. 

Vicente de Paula mostra que o amor é o caminho. E caminhar é, antes de uma ação concreta, uma opção aguçada pela necessidade de fazê-la. Essa percepção vem através do olhar que nos permite a compaixão com a dor alheia. Se a dor alheia não me comove, não me dói, então o amor já deixou de existir e, assim sendo, a caridade fraterna deixa de acontecer, dando espaço para a frieza desumana habitar o coração. A partir dessa premissa, o que poderá ocorrer é apenas um assistencialismo medíocre e hipócrita que necessita de holofotes, tal como os mestres da lei do tempo de Jesus faziam.

Ozanam segue uma linha que se assemelha ao pensamento da doutrina espírita. Ele fala que as almas são co-dependentes no sentido de se necessitarem mutuamente para seu devido crescimento (ou elevação). Amor que se traduz em amizade e caridade. Junto a esse pensamento do beato, trago uma lição que um dia ouvi através da voz da simplicidade e sabedoria e que ecoa eternamente em meus ouvidos: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Essa frase, eu ouvi de um senhor, pedreiro e carpinteiro, que veio socorrer-me com um cano estourado num final de tarde de sábado. Feito o serviço perguntei o preço e ele não quis cobrar. Por insistência minha, coloquei um dinheiro no bolso de sua camisa. Então o senhor me solta essa lição de vida com muita propriedade e amor e que vale a pena repetir sempre: "estamos nesse mundo uns pelos outros". 

Então, qual seria o sentido da vida se não houvessem outros e outras de nós? A vida é mais que uma partilha com os que amamos. A vida é entrega diária, doação, afeição, empatia, caridade e amor. Nem sempre temos as condições para ajudar de forma material a quem precisa, mas temos a oportunidade de dar o melhor de nós levando o calor humano, com o coração aberto para acolher, dar ouvidos, um olhar de atenção e de empatia. Isso é caridade, isso é amor. E amor dispensa holofotes.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

[¹] https://portaljfonte.com.br/fora-da-caridade-nao-ha-salvacao/
[²] https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2022-03/pilar-caridade-papa-francisco-padre-gerson-schmidt.html#:~:text=O%20Papa%20tem%20afirmado%20que,Cristo%20no%20rosto%20dos%20necessitados%E2%80%9D.
] https://catequisar.com.br/texto/colunas/julinei/04.htm#:~:text=%E2%80%9CA%20caridade%20%C3%A9%20um%20amor,bem%2Daventurados%20no%20outro%E2%80%9D.
[₄] https://ssvpbrasil.org.br/palavras-de-frederico-ozanam/#:~:text=%E2%80%9CSegundo%20as%20leis%20que%20regem,caridade%20na%20linguagem%20do%20cristianismo%E2%80%9D.