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quinta-feira, 1 de junho de 2023

Descortinando para a vida



Eu sei,
Um dia, quando
Te vi, de uma forma não descrita, apenas sentida
E você, ainda presa em si mesma
Apesar, do silêncio e ausências de brilho e sorriso, sentia que havia mais
Mais do que eu e você esperávamos
Entre desertos, trincheiras e repostas
Inquietudes trazidas à tona, na pele, na alma
Pairando sobre o pensamento e a vontade de viver
Rompendo laços de aparências
Internalizando apenas o essencial para viver uma nova vida
Mas, também eu estive ali, estou aqui, pois
Eu, amei primeiro
Inteiro
Rasguei minhas roupagens e sigo esperando
O descortinar da verdadeira mulher que te habita

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Sonhos em auto análise: a cobra de cada dia



O sonho se desenvolve num lugar já conhecido de minha saudosa infância. Era a escola Moreira Porto, especificamente na entrada, a qual tinha uma rampa de acesso que passava por três árvore, dava de frente com a biblioteca e logo já estava no pátio onde tudo acontecia. 

Nessa rampa, uma cobra jiboia me dava o bote e pegava no dedão esquerdo da mão. O dedo estava inchando rapidamente e a impressão era a de que iria explodir, enquanto o veneno poderia invadir meu corpo, caso a cobra não soltasse.

Com a outra mão eu segurava o dedo ao qual a cobra ainda estava pressionando. A ideia era simular um torniquete e impedir que o veneno se espalhasse pelo. A dor era demais.

Algumas opções me passaram pela cabeça como pedir ajuda para alguém próximo e de confiança. Puxar a mão e correr o risco de perder o dedo. Cortar a cabeça da cobra, fazendo com que meu dedo fosse recuperado e assim o veneno ficaria sem efeito. 

A cobra pode ser um problema, alguém que está tentando dar o último bote, a última tentativa. Posso deixar o veneno tomar conta, como se não houvesse solução, como se minha única alternativa seria suportar a dor e as consequências desse efeito; com riscos da cobra sempre abocanhar cada vez mais, me consumir mais até que em determinado momento já não saberia a minha identidade. A cobra teria assumido o controle sobre mim.

Cortar a cabeça seria cortar os problemas, vínculos desnecessários, cortar na carne e cortar da vida pessoas e relações tóxicas. Todo corte causa incômodo, dores, reações próprias que nunca tivemos antes, mas depois vem a sensação de alívio. O tempo tem essa função de aliviar tudo. Desintoxicar.

Em muitos momentos, pedir ajuda de quem confiamos não é desmérito. Muitas vezes não temos força nem coragem de fazer algo só e, por medo ou vergonha, nos deixamos consumir pelos problemas e a toxidade que não nos pertence. Pedir ajuda é honroso para quem ajuda e para quem pede.

Uma outra opção e talvez a mais sensata, seria a de que a cobra faça parte dos meus próprios pensamentos, especificamente daqueles que me fazem voltar para lugares de toxidade. Lugares que já deveriam estar enterrados, uma vez que o luto da dor já acabou. A cobra faz parte de mim, ela é o pensamento ruim, o negativo, aquele que me instiga a permanecer no erro. Então, a cobra também sou eu. Anjos e demônios coabitam no ser e assim, estamos todos lutando internamente. 

Carrego meu bem e meu mal. A toxidade que meu ser - corpo, alma e mente - foram testados e forjados, demora para ser eliminada. Por mais que o grau de toxidade não seja mais tão alto, haverá dias em que corpo, alma e mente sucumbirão de desejo de possuir aquela droga, aquele problema, entre outros exemplos. É uma luta constante manter-se livre e liberto de tudo o que nos impede de viver, ser feliz e crescer. Sim, só depende de mim. Depende de querer mudar, depende de não aceitar pessoas e relações tóxicas, depende de compreender que preciso de ajuda.

A cobra mordendo meu dedo pode ser meu subconsciente alertando. É necessário deixar o sistema de defesa em estado de alerta. A cobra do sonho foi eliminada. Sua cabeça foi cortada. No mundo real as lutas são reais, mais intensas e reque cuidados, estratégias, convicção e ação. 

Eu sou o meu maior incentivador, mas posso muito bem ser o meu maior adversário também. Isso só depende do protagonismo que eu assumir: anjo ou demônio. Não vou deixar que o veneno nem a cobra façam parte da minha vida. Esses pensamentos do meu "eu adversário" serão sabiamente eliminados, dia por dia. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Saudades e Esperas no Tempo



Meu corpo se prepara todo

A espera, em qualquer momento

Que o desejo sai do sonho

E se torna realidade quando meus olhos se abrem

O tempo incerto se aproxima

A qualquer momento desse tempo de espera

O ponteiro se segura ao meu olhar

E minhas mãos gelam

Meu corpo treme entre aquecimentos, arrepios, frios

Meu estômago parece sofrer de brisas geladas

Meu organismo biológico se descompassa

E treme, e geme... gemidos

Que entoam tonalidades de cores e melodia de sabores

O descompasso se acerta numa dança de abraço

Que acalora meu ser

Acelera e desacelera até encontrar o ponto ideal

Um superaquecimento que se esvai

Num toque, num cheiro, num beijo

A porteira fechada é o sinal de que o mundo é nosso,

Só nosso

Eu e você, numa batalha de calor e amor

Uma luta agarrada de olhares penetrantes

Uma dança de almas entrelaçadas

Melodias desvairadas ao som da nossa voz

Entre a terra e o céu, eu e você

Entre o ar e o mar, você e eu

Uma travessia perfeita

Que não deveria se findar no tempo do aqui e agora

Caminhos de sentimentos num curto espaço de tempo

Que se eterniza na vida e se entranha nos corpos

Estabelecendo a conexão perfeita 

E a certeza de que esse encontro era escrito

Desde toda a existência

Entre a dança do olhar, 

Num calor sobre-humano de peles que se misturam,

As variações do prazer

Que alcançam sua mais pura plenitude

Ressignificando nosso compromisso único

O de amar incondicionalmente

É tudo o que precisamos 

Para superar o tempo de espera de um próximo momento

O tempo da realidade se finda

Enquanto o tempo do amor se concretiza, 

Se multiplica em saudades e esperas


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Sonho de luz



E na calada da noite quando o cansaço domina

A cama me acaricia e o lençol me abraça

Enquanto o sono arrebata o corpo

A rédeas do pensamento já se soltaram

Eis que a intensidade do sonho se torna marcante

Sonho é sonho, mas também pensamento

Dos detalhes vividos no auge de um romance

Entre idas e vindas, o sonho acontece

A liberdade refletida entre olhos e olhares

A felicidade estampada nos semblantes protagonizados 

Se dava mais forte que toda tentativa de separá-los

Quando a força contrária se deu conta de sua ineficiência

Restava compreender que o eterno não se acaba

Pois o sentimento imortalizado entre aqueles dois pares de olhos

Entre acaso ou destino, estava selado

Entre as cenas que vivenciei 

Durante a partida daquele lugar

De todo um jardim, me deparo com a única flor

Que me prende o olhar, a respiração e os compassos

Como numa dança, ela abre suas pétalas

Antes de minha necessária e breve partida

Me deparo com alguns lixos em cima do tapete no meio da sala

E ao descer as escadas, percebi algumas estruturas de madeira

Que estavam danificadas e comprometidas pelo tempo...

 

E de toda a novela vivenciada, meus pensamentos me levaram para duas partes: o lixo no meio da sala e as estruturas de madeira comprometidas. Há coisas que precisam ser retiradas de onde estão. Precisam de um fim adequado. Não se pode nem se deve carregar fardos desnecessários, ou acumular coisas sem sentido. As estruturas danificadas, que comprometiam a segurança da casa, ou precisaria ser consertada, reformada de forma geral, demolida para ser reconstruída, ou ainda, simplesmente deixada para trás. Acredito que a reconstrução, também pode se dar em outro lugar, com outros protagonistas. Nessa experiência eu entendi que precisava mostrar onde estavam as necessidades primordiais. Sonho é sonho, mas também experiência, sinal de luz.

 


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ano 45


Queria talvez parar o tempo, voltar, controlar enfim. Mas só posso trazer de volta lembranças em forma de sonhos ou pesadelos. Reviver o que se passou é um processo de libertação de processos dolorosos, de reencontro com as vozes da sabedoria, de confronto consigo mesmo, de lágrimas de saudade, arrependimentos tardios, guerras internas e batalhas reais.
O tempo escoa feito areia pelas mãos. E as ações reverberam tempo afora. Ficam memórias, histórias, tristezas, certezas, saudades, possibilidades e sonhos. Tons, sobre-tons, sons e todas as suas derivações maiores e menores que a aquarela da vida pode entoar, cantar, pintar, poetizar...

Entre uma primavera e outra, as estações me abrigam em momentos de sonhos, fé e luta, ou me obrigam a rever os passos em cada ciclo, cada obstáculo, cada espinho, cada batalha travada, com cheiro de lona ou de vitória.

Meus poemas nascem na fonte, e a boca que a toca é única. Entre o sentimento épico sem liberdade e a muralha medieval de oposições, vivo no limiar de todas as batalhas, sem saber se haverá uma próxima vez. Pela pureza da água que corre entre os leitos e os lábios, driblando cada pedra, assim é a esperança que não dorme. Em cada manhã a porteira se abre esperando a chegada da luz que se irradia no reflexo do olhar. E como os leitos esperam a água em ciclos, o lábios esperam o beijo eterno.

Cá de dentro, já sou feliz e grato pela vida que vivi, vivo, e que ainda tenho a escrever pelas linhas deste tempo. Meu maior legado pulsa fora do meu corpo, meus meninos, meus orgulhos, o melhor de mim. E entre as estruturas familiar e de amizade toda a maldade foi sendo vencida. Meu mundo simples de poemas, leituras, artes e busca por conhecimento, cabe ainda sentimentos que se misturam entre sonhos e raízes, suor e flores.  

Sob a luz do senso-crítico tornei-me incansável combatente à hipocrisia que se disfarça na sociedade, mascarada de pseudos religiosos e corrompidos políticos. A falsidade incutida em quem se vende pelo poder não fica escondida por muito tempo. Assim, a máscara maquiada se dissolve na mesma linha de tempo que consome os dias. Há quem será lembrado de maneira honrosa por suas lutas, mesmo que o resultado seja derrota. Mas pior será para quem se vendeu e venceu sorrateiramente, este ficará à margem da história, sem honra nem glória.

O tempo de agora requer mais que reflexão, inspira cuidado para com o amor, esperança para quem não enxerga e coragem para quem se levanta. Neste ano 45, agradeço pelo que sou, pelo que me tornei, aonde cheguei. De nada valeria cada passo dado se não fosse o legado que me importa honrar, se não fosse os amigos que vivenciaram cada batalha ao meu lado, se não fosse o sentimento que me fez acreditar que tudo, tudo vale a pena. 

45 e muitos sonhos, muito desejo de viver, muita vontade de lutar. Que não me falte a coragem para viver e honrar ao sangue que corre nas veias, nas minhas e dos meus. 

"Porque metade de mim é amor
E a outra também"


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Pra recomeçar


Na sobrevivência de outras lutas, outras vidas

Tornei-me combatente fiel de meus propósitos

Deixei pelo caminho dores, flores, amores

E carreguei na mesma proporção 

Cá em mim um pouquinho do que me foi dado

Aprendi a ver a vida com a luz daquele olhar

E me perdi na escuridão quando não mais o vi

Talvez o tempo não nos dê tanto tempo assim

Talvez o tempo tenha te afastado de mim

Por vezes, não sei mais quem eu sou

E o que sei são pelos olhos de quem me amou

Dos que me conhecem de forma absoluta

Sorrio pelo sorriso espelhado das lembranças 

De uma história de contos, real, inacabada

Que em outro tempo, noutra era foi começada

Diante de tantos combates, cicatrizes me acompanham

O relógio se descompassa no tempo

O violão teima em desconsiderar meus acordes

E os bilhetes coloridos se desbotaram em lágrimas

Ficaram marcas, lembranças e saudades

E sonhos, muitos sonhos

Pra recomeçar...

Do que fui já não me lembro mais

Inquietudes que vibram meu corpo 

Agarro-me na imensidão de um vazio persistente

Entre lampejos de esperanças 

E gotas de alegria quando o sorriso me alcança

Já não me esforço por me explicar

A opinião indifere ao meu pensar

O meu brilho se apagou naquele dia

Que me roubaram o direito da alegria

Desde então, vagueio no deserto

No concreto, na vida, na lida

E me reencontro em devaneios passageiros

Quando aos poucos consigo ainda sonhar

Ficaram marcas, lembranças e saudades

E sonhos, muitos sonhos

Pra recomeçar...

 


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020, o ano que não terminou



2020 poderá ficar marcado para sempre como o ano que nunca se acabou. As consequências de tudo o que vivemos e passamos serão marcas eternas em nossa vida, em nossa alma. 

Muitos distantes que se fizeram próximos, muitos próximos que se distanciaram. Enquanto fomos obrigados a usar máscaras por um bem maior, muitos seres tiraram a máscara e mostraram sua verdadeira face.

Vidas se perderam e com o distanciamento percebemos o quanto um tato, um contato, um abraço faz falta.

Se eu tiver que escolher algo em que acreditar e levar para o próximo ano, se eu puder ter esperança em algum sentido, depositarei toda a minha fé na Justiça, a dos Homens e a Divina.

Que 2021 não seja apenas o reflexo ou simplesmente a sequela do que passamos até agora, mas que realmente seja um ano de muita humanidade, sensatez, esperança, fé, e que o sonho jamais se acabe... "E que a maior revolução seja o Amor!"

Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Esperas ou esperança?



Na busca diante das incertezas se vive a sentenciada espera... Espera pela vitória, espera pelo alívio, espera pelo alcance de uma meta. Pouco se fala do tempo de espera que também é de tentativas, frustrações, derrotas, lona, dores, suor e lágrimas. Esse é o tempo do aprendizado, que em sua maioria é cercado de medo, dúvidas, sentimentos de desistência, escuridão e tempestades. Há um fio que permeia ambas as margens, que podemos considerar como sendo a esperança ou a falta dela. 

É preciso se apegar para não ser um náufrago em terra firme. Afundar no medo e na incerteza é não crer em si mesmo, é podar a esperança de que um dia a vitória será certa. Mas antes da esperança, o sonho se tece. E em cada pedacinho costurado nesse sonho, vamos alicerçando sua realização. Espera sem luta é vã. Desistir sem tentar é não se acreditar. 

"Todo ser humano pode. Se tem algo que o ser humano pode é poder." Há algo que está implícito nessa frase de efeito e empoderamento de gênero que é a capacidade humana além do poder, o pós poder. Há quem não saiba o que fazer com o poder alcançado e mete os pés pelas mãos. Todo ser humano pode sim, mas nem todo ser humano é capaz de lidar com a vida depois. 

"Todo ser humano morre, mas nem todo vive." Essa sim é uma frase épica, pois o que mais se vê são defuntos vivos, gente que habita um corpo mas não vive a vida. Deposita todas as fichas na conquista dos materiais diversos enquanto a balança da essência flutua sem peso. Se tem algo que o ser humano, independente do gênero, devia se dedicar era para a vida, a vivência.

Longe de embarcar nessa vibe de coaching que vagueia entre frases de efeito e insigths de auto-ajuda, terapia, psicologia e não conclui muita coisa além do que já conhecemos. Daqui deste reduto só poetizo a problemática que retumba à minha volta. 

O tocante desse contexto abordado em um emaranhado de pensamentos livres e devaneios necessários surge num momento ímpar, momento em que liberdade e libertação se alinham, dialogam e se confrontam. São apenas os ecos das vozes que coabitam entre corpo, alma e coração e buscam deliberadamente o canto em que o encanto permanece pairado no nosso recanto.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Retratos do meu interior

"Ter uma casinha branca de varanda
com quintal e uma janela só pra ver o sol nascer"


Eu vim de lá do interior, duma casa simples de chão com vermelhão, terraço adornado com primaveras e um jardim repleto de variedades: roseiras, samambaias, copo de leite. E uma horta bem diversificada, com couve, quiabo, alface, limão, laranja, acerola, cebolinha, abóbora, alecrim, hortelã... Era o meu reduto, meu mundo, meu recanto sagrado... o meu interior.. a casa de meus avos. 

Este quadro tem uma conotação diversificada. A elaboração, a visualização gerada na mente até a construção de cada detalhe, tudo feito com materiais naturais. O simples, o rústico, a leveza de um retrato interiorano que traz memórias de um passado vivo, saudoso e repleto de amor. 

Numa outra óptica, a paisagem retrata um sonho, o sonho da paz e do amor vivido com profundidade na infância, adolescência e juventude, na casinha simples com terraço, jardim e quintal. As lições de sabedoria deixadas por meus avos. A capela, símbolo de fé, que remete ao sagrado, das lições de vida às cobranças sobre conduta e religiosidade que minha avó mantinha firme e acesa. O poço, a água, a natureza, que me remete à luta, às grandes lutas da vida travadas diariamente. A água, que contorna seus obstáculos, que vence sua batalhas e modifica a paisagem ao seu redor. 

Histórias e lições que trago vivas no coração. Lembranças de um tempo que não volta mais. A imagem do quadro é diferente do retrato da casa de meus avós, ainda bem fresco na memória. Há uma mística nisso tudo que ainda levo tempo e silêncio pra compreender e decifrar. Serve para lembrar do passado, do alicerce, da saudade, do amor, e muito mais para alertar que um dia, um dia tudo se tornará pó ou memória.

A cada tempo, em cada estação, em cada travessia após uma longa jornada, me pego de volta nesse interior. Por hora, é o meu refúgio, guardado num lugar especial e exclusivo, onde o acesso se dá de tempos em tempos ou quando se faz necessário. Já fiz esse caminho diversas vezes, ora feliz e vencedor, ora derrotado e destruído. E quando me pegava a desanimar era ali, aí nesse reduto de interior que encontrava o meu descanso, o meu alento. Aonde minhas lágrimas eram secadas, meu suor enxugado e minhas feridas curadas no tempo e na saudade.  

Eu vim de lá do interior...




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A casa sem muros


Quando adolescente eu tinha comigo que no futuro teria uma enorme casa sem muros e sem portões. Deveria ser uma casa aberta, acolhedora, cercada por árvores, plantas e muitas flores. Cheguei a esboçar um desenho numa agenda antiga. Claro, que devido a idade em que esse pensamento me ocorreu, não foi poupado nenhum tipo de exagero no papel que abrigou parte do sonho.

Espaço e natureza, balanços, cachorros, gatos, tudo fazia parte daquele plano juvenil. O fato de não haver muros, ou talvez, não ter portões somente, era para que as pessoas se sentissem plenamente acolhidas ao se achegarem. Creio que isso fazia parte também de minha formação e vivência em grupos de jovens. Os termos "comunidade" e "fraternidade" sempre me fizeram crer num mundo de igualdade. Utopia? Talvez. Mas, graças a essa base, posso me considerar uma pessoa de bom senso e de olhar atento aos detalhes que a vida oferece, detalhes esses que o dinheiro não compra.

O tempo passa e a experiência nos obriga a enxergar a vida de outra forma. Mudamos a forma de realizar os sonhos, mas jamais perdemos a nossa essência. Quem se permite perdê-la, corrompe a si mesmo. A casa, ao contrário do sonho, têm muros e portões mas nossa mente e coração estão sempre abertos e repletos de flores e poesias. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O futuro num passado presente



"O ano é 2020.

O caos tornou-se uma realidade. A ditadura já havia ganhado a cabeça das pessoas. As eleições nem mesmo tinham acabado e a onda de violência já era noticiada. O presidente eleito até tentou conter os ânimos durante o primeiro mês. Só que a situação saiu de controle. Os apoiadores da ditadura sentiam-se não apenas no direito mas no dever de caçar e punir qualquer opositor que se manifestasse. Esse ainda era o ano de 2019.

Medo e insegurança nos olhares das pessoas. Sair de casa era um risco de não voltar mais. Grupos radicais faziam rondas por todas as ruas e bairros de cada cidade. Isso quando a própria polícia era quem reprimia descontroladamente a qualquer suspeito. Subversão e oposição ao sistema já era um crime.

Num dia de domingo fui abordado por policiais e automaticamente acusado de subversão. Minha família foi liberada para voltar pra casa, sem nada dizer, sem ter a quem recorrer. Nesse momento, o Estado era o dono da minha vida. O castigo era inevitável. Queriam, a todo custo, e por todos os meios, que eu assumisse uma culpa que não era devida. O meu silêncio custou caro, muita dor, muito sofrimento... e um fim iminente.

A pena de morte foi instituída nos primeiros meses do novo governo. Não precisava mais de um crime para ser penalizado e mandado para o abate. Bastava apenas pensar diferente... Esse foi o meu caso. Não deixei de escrever os pensamentos que iam de encontro ao sistema opressor. Não apenas eu, mas uma leva de companheiros e companheiras, tivemos o mesmo destino...

2019 foi considerado como o ano da caça as bruxas. Uma inquisição moderna que tinha alguns tentáculos religiosos unindo forças ao Estado. A minha sentença já era certa. Seria em praça pública, porém não mais numa fogueira, como na era medieval. Um tiro, por um soldado, ou por um lunático seguidor do governo que se habilitasse. Acredito que, no meu caso, haviam muitos interessados em apertar o gatilho, inclusive amigos e parentes.

Eu tinha direito a um último telefonema e desejei falar com o meu pai. Preferi que ninguém da minha família estivesse presente, mas fiz questão de me despedir e dizer que ele também foi iludido. Não tinha mágoa e por tanto não precisava perdoá-lo de nada, mas a dor que ele carregaria seria apenas dele... 'Adeus, Pai'. E meu corpo tombou numa praça em frente a uma capela."

PS.: Foi apenas um pesadelo, mas não estamos longe disso acontecer com pessoas que amamos.

sábado, 1 de setembro de 2018

Viajante



Viajante do mundo
Que segue sem destino, sem regras, sem pressa
Que carrega em sua bagagem apenas o que entrelaçou seu olhar
Se abriga na solidão da noite que desperta o santo e o profano
O louco insano que quebra padrões e protocolos
E se desvia das falsas morais e da hipocrisia alheia

Viajante dos mundos,
Sua religião é o viver a vida, viver a travessia
Pois é isso, tão somente e tão amplo, uma simples e abrangente travessia
Que há de ser sentida, e por que não, também incompreendida
Que há de ser contemplada, irrigada, intensa e ousada
Explorando outras terras, outros ares, outros mares, outras almas

Viajante da vida,
Que percorre os pensamentos, sem poréns nem tormentos
Entre acordes e melodias, vai encontrando suas notas em outros tons
Noutras vozes, noutros tus, versos incompletos que se rimam de outras vidas
Nas linhas e entrelinhas que se formam nessa estrada de sonhos
E se materializam no amanhecer de um eterno sorriso

Viajante do tempo,
Do agora, de outrora, do sonho real de outras vidas
Que já nasce partindo em eterna travessia
Rompendo com o destino certo, ora lhe traçado
Refazendo o caminho, o pensamento e o coração
Desbravando mundos, sonhos e almas
Equilibrando-se na onda incerta de cada tempo, cada olhar
Almejando a possibilidade única do reencontrar
Rimando lágrimas e risos, sonhos e medos, saudades e desejos
Tão certo de que o viver é único, mas a morte é o fim para quem não se arrisca
E a vida, a travessia de um início sem fim, para quem se eternizará pelo olhar
Pois entre um fim e outro, sempre existirá o recomeço, o novo...
Aqui, ou noutra história...

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Cicatrizes e troféus



Quando as palavras encontrarem seu fim
Terá sido também o fim de minha própria existência
E, de eterno, ficarão as lembranças, apenas
Tão só, se escoarão pelo funil do tempo
Até não restar nem um grão na lembrança derradeira
A vida é o agora, a história e o sonho

Minhas bandeiras, minhas lutas
Tudo carregará um pouco de minha essência
Tanto quanto minha essência se embebeu de cada pouco
Colcha de retalhos sem fim
Gotas de chuva escorrem em direção ao rio
O rio que se dissipa no mar

Encontrar razão para o simples fato de não existir em vão
Entre fantasmas passados e olimpos almejados
Se não houver uma razão maior do que isso
A simples existência não cumpriu com sua vida
E tampouco compreendeu essa dádiva
E nada terá valido a pena

Cicatrizes e troféus são marcas em meu tempo
Valores consagrados que renderam dores e honrarias
Que ao passar do tempo foram todas guardadas no mesmo baú
Desprezando todo e qualquer sintoma
E novamente mostrando o agora como limiar
Entre o restante próximo e o fim último

quarta-feira, 7 de março de 2018

20 anos depois


1998. Formatura da turma de Administração de Empresas - FIO - Ourinhos-SP.
2018. Formatura da turma de Teologia - PUC - Uberlândia-MG.

Uma das palavras de otimismo que mais recebemos nesses momentos é, sem dúvida, "sucesso". Ela vem carregada de muitos significados, na maioria, o desejo de uma carreira brilhante, financeiramente rentável e de reconhecimento a qual nos traga também a tão desejada felicidade. E tudo isso não é apenas válido mas muito bom para o ouvido e para a alma. 

Hoje, reconheço meu sucesso diante das pessoas que se tornaram próximas e amigas bem como as que se tornaram distantes e até aos desafetos. Sucesso, sem demagogia, é ter histórias, é ser memória na vida dos que você ama. Sucesso é ter amizade e pessoas que são verdadeiramente recíprocas com você. 

Talvez, esse não seja o sucesso etiquetado nas vitrines e estipulado pela sociedade, tampouco o que as pessoas esperam e exigem de você. Mas e daí? O que importa? Cada um sabe o que é melhor pra si. E nem tudo o que os outros gostam e fazem é agradável para mim. Então, que se dane! 

Quando optei por fazer Administração eu já havia tentado por duas ou três vezes ingressar na faculdade de Direito. Que bom que não deu. O tempo me provou com tantos frutos que colhi nessa travessia que foi uma ótima jornada e apenas isso já me enche o coração de orgulho. Na verdade, foi uma escolha de alternativa única. Era o que se tinha para fazer e o que dava para se fazer. Por vezes pensei em mudar de curso e até desistir mas acabei resistindo até o final. Minha mãe e minha avó Iolanda foram vozes insistentes para que eu não parasse no meio do caminho.

Não posso deixar de expressar um desejo eterno de ingressar em outras áreas do conhecimento que, desde a adolescência, sempre estiveram bem guardados no coração, letras e literatura e até psicologia. Quem sabe um dia?

Quando optei por fazer Teologia, eu realmente escolhi conscientemente. Foi mais prazeroso. Já não tinha a obrigação de apenas concluir a faculdade e obter um diploma. Entrei para "aprender mais". O desejo de conhecimento, de entender e compreender melhor as coisas, de trilhar novos caminhos do saber são alguns pontos dessa jornada que durou quatro anos e meio.  

Vinte anos se passaram entre um formatura e outra e uma das coisas que nunca deixei apagar é o sonho, ou melhor, o ato de sonhar sempre. Sonhar é preciso para que haja esperança de dias melhores, para que possamos acreditar numa vitória, por mais incerta que seja. Sonhar é para os fortes, uma vez que, até isso, o mundo tenta nos tirar. 

Hoje, posso dizer que vejo e sinto o meu sucesso no brilho dos olhos das pessoas que eu amo e estão presentes em minha vida. Quando elevo meu pensamento aos que já partiram dessa vida, sinto que cada esforço valeu a pena. Quando reflito também sobre os que se ausentaram e sumiram, só compreendo que nunca estiveram presentes de verdade. "É a vida, é bonita e é bonita!"