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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O sequestro de Deus


As ciências que discorrem sobre a fé. A fé que atesta a ciência. Assim deveria ser, mas não é. Há mais que uma disputa de devotos e torcidas entre os opostos e divergentes. A briga é por uma verdade que ninguém detém. Verdade empurrada, à força, que soa mais como necessidade de impor e mostrar poder. Ganância pelo próprio poder. O poder que proporciona status. E para se impor, com poder, é necessário causar medo. E o medo aliena. E quando se aliena, qualquer mazela dita como "verdade", mesmo que não o seja, acaba sendo única, seja ela religiosa ou científica. Uma verdadeira deturpação de valores. 

Quando a necessidade de mostrar poder e força estão acima do bem comum, há no contexto um grande sinal de desvio de finalidade e, nos porta-vozes da alienação, um medo maior de perder o controle, o poder, e todas as regalias que o mesmo proporciona. 


Falamos aqui não apenas do sequestro de Deus através da religião, da fé ou mesmo da teologia que tem "Deus" como objeto de estudo mas, de todo os deuses pré-fabricados por quem deveria usar o "poder" para libertar e não alienar. As ciências, as políticas e todo tipo de radicalização que produz cegueira coletiva, alienação, polarização, extremismos inconsequentes, fanatismo, os quais geram vítimas. O Deus das religiões, o deus das ciências e por mais que a política seja uma ciência ou, em sua mais resoluta e simples tradução como sendo a "arte do bem comum", também produz o seu deus e este talvez seja o mais perigoso de todos, pois consegue manipular tanto as mentes "religiosas" quanto "científicas.


A religião deveria ser aquela que liberta a mente, que cura a alma. A ciência deveria ser aquela que liberta o corpo, que cura a matéria. A política deveria ser aquela que cuida de todos, sem distinção. Mas cada força desse tripé é controlado por pessoas que deturpam o objetivo real, e promovem "verdades" conforme sua própria intenção, necessidade, proteção de seus asseclas e no fim, o que deveria ser para todos torna-se uma megaprodução para poucos e uma retaliação para os que divergirem. 


Deus foi sequestrado em nome do deus do poder. A ciência foi prejudicada em nome do deus do poder. A política há muito deixou de ser a arte do bem comum para ser fonte de autoritarismo de quem está no poder que, como tal, usa o mesmo poder para proteger os comparsas à sua volta. Uma guerra de interesses onde a tirania assume um papel de mocinho e salvador, aliciando para si os deuses do poder.


Deus mesmo, continua sendo esquecido, encarcerado, morrendo nas esquinas, nas favelas, marginalizado. Deus, sendo amor, está deturpado até mesmo nos altares dos vendilhões e "mestres da lei". Vendem por aí os milagres da fé tanto quanto os da ciência, mas o milagre do amor ao próximo, muito mais real e necessário, já não existe nem nas tábuas dos mandamentos desses senhorios. 



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Deuses e desertos



Deserto, meu deserto sem Deus
Deserto, meu Deus, meu deserto
Deserto, meu Deus, sem deserto
Deserto, sem deserto, meu Deus
Deserto, sem Deus, sem deserto
Deserto, sem Deus, meu deserto

Deus, meu Deus sem deserto
Deus, meu deserto, meu Deus
Deus, meu deserto sem Deus
Deus, sem Deus, meu deserto
Deus, sem deserto, sem Deus
Deus, sem deserto, meu Deus

Talvez, Deus mesmo, não tenha feito nada
Nada além de sua brilhante criação
E distribuiu suas obras sobre o tabuleiro do mundo
E continua descansando desde o primeiro sétimo dia

Talvez, tantas palavras foram colocadas em seu nome
Por aqueles que encontraram no poder sua forma de sobrevivência
E desejaram controlar essa obra criacional e dominar esse mundo
E então, se sentiram como deuses de seu Deus

Talvez, Deus mesmo, esteja preso em seu próprio deserto
Feito refém de sua tão amada obra
Sem forças para remanejar suas crias
Entristecido no vale de lágrimas dos seus

Talvez, seja o deserto, o único lugar sem vida que Ele habita
Escondido, desarmado, amargurado com tanto sangue derramado
Tão calado quanto culpado em sua própria história 
Onipotente mas ciente de que o mundo quer ser deus

Talvez, tudo seja apenas um deserto de imaginações
Sonhos e lutas, utopias e emoções
Talvez, a razão seja o deserto e mais do que certo
Somos areia em sua memória, ou, meros peões

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Impossibilidades humanas

Um mundo sem impossibilidades, como seria? O que edificaria de fato o ser humano? O que engrandeceria sua existência? Um mundo sem guerra dispensaria a utopia? Um lugar para todos que fosse comum evitaria a disputa pelo poder e a morte? A inexistência das diferenças seria passiva de fraternidade e comunhão? Enfim, se não existissem impossibilidades, o amor existiria plenamente? Ou elas são necessárias para que haja o crescimento do ser e a descoberta do próximo? Impossibilidades humanas, talvez sejam parte da sabedoria divina que a tudo concede e permite através do livre arbítrio.

Sobrevivência e vaidade

Na descrença em que o mundo se planta, ser e estar é uma questão de sobrevivência e vaidade. Limiares que jamais cruzam suas fronteiras. A quem é destinado a lutar pra viver cabe um dedo de sonho e crença. Utopia. Além da cerca a vaidade está para poucos e para tais viver é esbanjar-se até repugnar. Mas se tudo é vaidade, até pra quem não é permitido a encontra em alguma soleira. Há quem ame pela vaidade, há quem não ame também pelo mesmo motivo. Deus mesmo se fez vaidade em sua obra de criação, ou seria o mundo uma vaidade Sua? Ele, em seu trono majestoso, a ouvir a canção da lua que se deleita em estrelas e depois chove lágrimas ao mar, diante do resultado de sua obra, deve lamentar-se pelo deszelo que seu fruto têm neste lugar. Mas, se prometeu liberdade, não há que interferir, é o que regozijam os doutores da vaidade. Se bem que pode vir e lutar e que esteja armado e disposto a sangrar. E, se assiste a tudo porque se emudece? Quer que haja resistência pela sobrevivência mas permite o fruto de suas obras se gladiarem até o vermelho manchar a terra. Mostra-Te aos seus e equilibre essa labuta, essa luta, essa guerra a que tanto assistes...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Debandada das massas

Primeiramente, há de se pensar na escravidão que assolou o passado histórico da humanidade. Será que realmente o ato de libertação dos escravos fez por onde? Libertou ou mascarou as atrocidades? A libertação foi apenas um marco ou de fato foi um pontapé para que as minorias se tornassem livres e independentes da tirania de seus senhores? 

Além dessas duas questões que abrem as fronteiras da dúvida sobre o que de fato aconteceu na história e acontece mascaradamente na atualidade, numa terceira visão, percebo que os senhores de escravo apenas mudaram de nomenclatura e a escravatura mudou de cara. Alguns, inclusive, usam o nome de Deus para implantar a sua ideologia de vida ou o seu sistema teológico de arrecadação, que depende dos ganhos gerados pela mão de obra escrava, alienada e massificada.

O tempo é sempre o melhor remédio, dizem-nos os mais antigos. E a maior novidade é que "nenhuma novidade se eterniza em primeiro lugar no seleto podium", pois num determinado momento será destronada por outra que será mais completa, mais abrangente. Em suma, o ciclo é rotativo. E essa rotatividade também acontece bem no centro do campo das religiões.

Há algo explodindo neste meio, o das massas. Muitas pessoas já se libertaram da culpa que as religiões mais antigas incutiam-lhes, quando procuravam sustentação espiritual e conforto em outras denominações que não fossem a sua de origem. Os líderes, não poucas vezes, condenavam e condenam os infiéis desgarrados que encontram seu caminho em outros templos. Esse medo gerado no âmbito das religiões já não afeta tanto. As pessoas evoluíram e passaram a compreender mais sobre Deus.

Nosso momento está voltado, principalmente, para o pluralismo religioso. E é justamente nesse ponto que evangélicos e carismáticos perdem força. Por um lado, as pessoas sentem a necessidade de se complementarem-se espiritualmente e nem sempre encontram e recarregam sua fé somente numa determinada religião. Por isso, cresce a busca constante por novidades que superem suas expectativas. 

Em segundo lugar, os eventos neo-pentecostais evangélicos, seguido pelo evento carismático católico, elevaram e resumiram a relação busca-encontro-fé-graça (ou milagre) a um momento de pura emoção. Não que não existam resultados potenciais. A questão é que esse "boom" atingiu uma escala altíssima e, de tão alta, não há mais novidade no que se pode esperar. Em suma, as coisas simples ficaram de lado. Sempre se espera um portentoso encontro ou evento ou culto ou missa em que, ao se derramarem em lágrimas, estará certo de que obtiveram o milagre solicitado. Este encanto tem se quebrado gradativamente.

Há também uma terceira questão em evidência, líderes religiosos que não atingem o seu objetivo e fiéis que buscam sempre mais shows do que a essência das palavras são pontos que também podem levar a evasão da massa das igrejas. 

E, em se tratando de debandada, as pessoas vão adquirindo experiência. Já não é uma palavra gritada pela boca de um líder religioso que tocará seu coração. De uma forma ou de outra, percebo que nesse pula-pula de denominação, elas também agregam conhecimento e, por vezes, desistem de seguir as leis dos templos tecendo o seu próprio caminho de diálogo com Deus.

Seja por qualquer um desses motivos, ou de outros não citados aqui, acredito que esses são passos importantes para a libertação das pessoas frente aos sistemas que tendem a massificá-las. Encerro então com outra velha e conhecida frase: "A Casa Grande pira quando a senzala se liberta!"

"Exija de Deus a sua parte"


Sim! É realmente com essa fala - "Exija de Deus a sua parte" - que o empresário-fundador-pastor da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) ministra suas pregações no altar de seu portentoso Templo de Salomão. Claro que há uma continuidade nessa fala que justificam-se os meios, os seus próprios meios: "...se você, enquanto cristão, fizer a sua." Basta um click no google e você terá um arsenal repleto de falas, mensagens, vídeos solicitando uma ajudinha dos fieis para as obras de seu Reino.

Exigir de Deus a sua parte enquanto o cristão fizer a sua, isenta a instituição e sua teologia de qualquer coisa que não dê certo na vida da pessoa, faz o indivíduo sair debaixo da saia do pastor. É uma jogada de mestre, não podemos negar, mas há controvérsias. A internet está repleta de pessoas que moveram ações judiciais contra a Universal por terem seguido a risca, doado tudo, e ficado na miséria. Por outro lado as falas dos designados bispos estão, além de inovadoras, cada vez mais abusadas. Pede-se cartões com senha, carros, casas, doações com valores altíssimos, dentre outras bagatelas.

Fazer a sua parte, essa é a máxima que os seguidores da IURD devem obedecer, ou seja, parte essa que não significa simplesmente atos de bondade e caridade e amor ao próximo. O objeto dessa fala está diretamente ligado às ações que as pessoas devem ter em relação à sua instituição, cumprindo todos os requisitos espírito-financeiros. Estão eles errados? Digo que não. Alienados, talvez. O que move aquelas pessoas é a fé, além do receio de não obterem a salvação por descumprir os desígnios do bispo Macedo e, ao contrário, ganharem a condenação eterna ao inferno. Mas sendo a fé um elo que liga a Deus, espero que Ele liberte os cativos e oprimidos das garras dos poderosos.

Edir é um cara inteligente, desenvolto, tem feeling para os negócios, visão-audição-lábia-olfato-tato devidamente aguçados. Construiu o seu próprio império, fruto do suor alheio arrancado em suas pregações alicerçadas na teologia da prosperidade. Dono, também, de um crescente e expansivo canal de TV. Sabe muito bem como entrar na mente do seu público fiel e colocá-lo em check com Deus.

Tem outros impérios em evidência por aí. Tomei a liberdade de falar apenas da IURD porque é uma das mais antigas e ainda em atividade crescente. Assembleia de Deus (Silas Malafaia), Igreja Mundial (Valdomiro Santiago), Igreja Internacional da Graça de Deus (RR Soares) são algumas das opções no mercado evangélico. Do lado Católico, temos algumas comunidades e movimentos, cito a CN (Canção Nova, fundada pelo Monsenhor Jonas Abib) e a RCC (Renovação Carismática Católica), ambas xerocópia do movimento neo-pentecostal.

Enfim, para finalizar essa cena, uma vez que as cortinas do show ainda não encerraram-se, devemos ter sempre em mente o livre-arbítrio, seja ele alicerçado pela nossa fé, pela nossa experiência de indivíduo em sociedade ou em ambas as situações. Sempre haverá um mentor para cabular a mente das pessoas porque nem todas estão preparadas para filtrar o conteúdo das mensagens enfadadas e deturpadas. A messe é grande, os operários são poucos, a matilha cresce deliberadamente e no momento existe um crescente número de lobos cercando ovelhas e conduzindo-as para um determinado pasto.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu bom ateu


Andarilha pelos becos à procura
Das indigências expelidas pela realeza,
A besta sociedade que se endeusa de poder,
E toma para si as graças terrenas da sorte
Como os nobres romanos divinizados pelos seus feitos
Aclamados e glorificados feito deuses

Andarilha pelos becos à procura
De toda gente sem sorte
De quem sobrevive à margem real
E cura com lágrimas e sangue
O câncer de cada faminto andante
No abraço desmedido e sem barreira

Andarilha pelos becos à procura
Do Deus da nobreza que salva a realeza
E pune a massa escalpelada e empobrecida
Vira as costas pra miserável fome
Esquarteja e maltrata a quem não o teme
Desqualifica o maldito por ser pobre e sem vez

Andarilha pelos becos à procura
Um ser sem regras, sem quimeras
Destorpecido das fadadas leis morais
Protegido contra o Senhor vingador
Que a sociedade deturpou e matou
Eis um homem sem o vitimizado Criador
És um santo descrente e sem deus
Andarilha por aí o meu bom ateu

sábado, 16 de julho de 2016

Guerrilha por Deus sem Deus

"Dá-me teus pertences
É Deus que te ordena
Dá-me teus bens
Dá-me teu suor
Dá-me teu sangue
DÁ-ME TUA VIDA!
Não ouses desobedecer
Não atreva-se a questionar
Ele há de castigar os subversivos
Ao fogo eterno do inferno
Portanto, não relute
DEUS QUER TUA VIDA!"

É isto que se escuta por aí
É isto que se comercializa nos templos dos algozes
Toca de lobos, forasteiros, carniceiros
Fábrica de massificação
Manipulação de mentes
Ópio maldito
Alienação de famintos

Essa guerrilha moderna
Que se destrava escandalosamente
Em nome de Deus
Jamais teve Deus 
Em seu cerne, apenas bandeiras
Do dinheiro, da ganância, do poder
Em nome de Deus, a exploração inescrupulosa...

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Se não há libertação não há salvação


Existe um ápice em que cada pessoa almeja um dia atingi-lo. É uma meta individual. E depois deste, outros virão. Novas dúvidas, novos questionamentos, novas metas, novos horizontes. Porque a vida é feita de conquistas. A maioria das pessoas pensa assim, almejam apenas as materiais. Alguns, que velejam na contramão, optam por conquistas nem tão terrenas assim, reservando-se ao glamour libertário de novos pensamentos apenas.

E o que a liberdade do pensar traz nem sempre está de acordo com as regras sociais, políticas e principalmente religiosas. Ousar pensar por si só, sem a tutela das santas hierarquias religiosas, é um risco grave que atenta contra as dezenas de regras institucionalizadas, estas que visam manter a ordem (ou as pessoas em seu devido cabresto), com enormes possibilidades de excomunhão e passagem direta para o inferno eterno.

Não que as igrejas e religiões são extremamente fontes alienantes, mas longe de serem o único caminho de salvação. Céu e inferno, salvação e condenação, eis as dúvidas que mais afligem os fieis. Toda a promessa e garantia de vida eterna é arquitetada em cima de pensamentos de grandes pensadores e doutores de nossa história. A mensagem deixada por Jesus pode ser resumida numa única palavra: amor. O resto é invenção humana.

E por falar em invenção humana todas as regras religiosas o são, principalmente quando deturpam o legado de "amor" deixado por Jesus e experienciado por grandes nomes da história mundial que lutaram pela dignidade humana com caridade e evidenciaram esforços para uma vida em igualdade. Para quem não segue as ordens à risca, já se auto-condenou. Não seria então, tais regras, apenas um mecanismo para manter os fieis sobre sua custódia religiosa e jurisdição espiritual, uma vez que, sendo a igreja detentora da salvação, fora dela a condenação estaria automaticamente imputada?

Se não há libertação não há salvação, eis um grande princípio que não se discute, tampouco se pratica. E o que as instituições e seitas religiosas fazem, em sua maioria, são manipular as mensagens e incutir um medo desmedido sobre os seus fieis. O medo gera o respeito e dá crédito à instituição. Enquanto houver quem tenha voz capaz de alienar as pessoas em nome de uma denominação, a verdadeira mensagem de salvação estará deturpada. E tenha consciência: isso não é pratica de "amor".

Roupagens e rupturas

"Fora da igreja não há salvação!" Segundo consta essa antiga frase foi pronunciada por Agostinho de Hipona, considerado santo e doutor pela igreja católica, e repetida ao longo dos séculos por outros nomes como por exemplo o papa Bonifácio VIII, no ano de 1312. O passar dos tempos manteve esse pensamento solidificado nas estruturas institucionais e deu base e força para muitos líderes agirem contra os que discordavam dessa santa verdade. Matar em nome de Deus nunca foi pecado na história, pelo contrário, sempre foi muito bem justificado.

A igreja em si não é a salvação. Ela pode ser um caminho escolhido para ser seguido, dentre tantos outros, até a tão desejada salvação. E todo o caminhar deve ser livre e proporcionar o rompimento das amarras que impossibilitam o crescimento de cada ser. Uma igreja que não promove a libertação está sendo alienante.

Se fosse apenas através da igreja que alcançássemos a salvação, o que aconteceria com tantas outras pessoas de seitas, filosofias, religiões distintas ou ateias? Afinal, sabemos, que fora da igreja existem pessoas "boas" e dentro delas existem pessoas "falsas". Portanto, o caminho de salvação é e deve continuar sendo individual. Não há regras celestiais para uma salvação garantida.

Tudo o que os homens tentaram justificar até hoje, no que tange a salvação eterna, foi a partir de uma experiência individual. Experiências individuais não refletem uma verdade absoluta para o coletivo. Cada pessoa terá um sentimento e um olhar diferenciado, sempre. Assim sendo, o caminho percorrido por um indivíduo não poderá ser o mesmo que garantirá a "salvação" de terceiros.

Somos livres. Isso é bíblico. É preciso respeitar a individualidade, a opção, a escolha de cada ser. Nascemos numa sociedade engessada por estruturas sociais, políticas e principalmente religiosas. Somos praticamente obrigados a aceitar e seguir sem questionar. Indagações são mal vistas. Opor-se ao sistema imposto é mal interpretado e quem o faz está sujeito a condenações várias, inclusive o fogo eterno.

O que se sabe até hoje, é que ninguém, até então, é detentor de uma verdade absoluta. Prefiro uma alteração no conteúdo do pensamento de Agostinho, pensada por um religioso espírita: "Fora da caridade, ou seja, fora do amor não há salvação". Será que vou poder continuar na minha religião após essa adesão de pensamento? Ou estarei fadado à condenação eterna por heresia?

E, das roupagens impostas, confesso, andarei nu, pois a ruptura se faz necessária. E mais, não é a igreja que salva mas as atitudes de cada um...

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Esquemas de salvação


Criaram cascas,
Criaram armas,
Criaram regras,
Criaram trevas...
Sim, os homens desta terra.
Coroaram deuses,
Elegeram o deus
Mas desconhecem a Deus
Institucionalizaram a fé
Inventaram modos
Escolheram-se a si mesmos
Como elegidos dos Céus
Promoveram guerras
Em nome da santa paz
Travaram lutas
Visando o poder
Terras, riquezas
E deixaram seu rastro
Devastação, devassidão
Morte e pobreza
Caos sobre a vida
E dentre as ordens 
É preciso respeitá-las
A desobediência leva ao inferno
Um inferno que os doutos desconhecem
E dentre os esquemas de salvação
Ousam pensar em nome de Deus
Tangendo e escolhendo os que lhes provém
Aqueles que submetem calados
Às morais, costumes e leis
A hipocrisia de cada dia
Tem o orgulho ferido
Quando indagada por quem desconfia
E quem não está do lado dela
Está banido para o além
Fadado ao ócio do fogo eterno
E se para fazer parte do esquema
É necessário empanturrar-se do ópio
Ainda prefiro abster-me desse cálice...

domingo, 13 de março de 2016

Pelos olhos da alma


"Há quem espere uma nova descida do Rei 
Numa carruagem dourada 
Por cavalos alados guiada
E por querubins cercada
Há quem espere uma manifestação real
Para dizer que é Ele dando um sinal
Existem as crianças porém
Que sabem admirar como ninguém 
Nas paisagens as cores
Nos bichos os amores 
E o balé dos beija-flores
Talvez assim sejamos
Felizes com aqueles que amamos
As nuances do céu compartilhando
Ora sorrindo, ora chorando
Mas jamais sem crer
Como loucos de amor para viver
Que Deus jamais deixou de existir
Basta os olhos da alma para sentir
E sorrir"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Jesus: sem mito, sem rito


Nazareno, filho de um carpinteiro, Jesus era conhecedor das leis que regiam a sociedade de sua época, por sinal, fortemente marcada pela religião.

Sendo judeu abominou as regras religiosas que serviam muito mais para segregar, sentenciar e excluir as pessoas do que para resgatá-las, acolhe-las e incluí-las.

Ao questionar a maneira que os doutos interpretavam e aplicavam a lei, favoreceu o humano em detrimento dos ritos. 

Chocou a sociedade ao defender a prostituta de um apedrejamento público, ao colher milhos e curar leproso em dia de sábado. 

E se Ele, o nazareno, o judeu, o filho do carpinteiro, o Cristo, questionou as leis de sua religião, descumprindo-as por diversas vezes para favorecer a dignidade humana, por que então usam o cristianismo para continuar fazendo acepção de pessoas e determinar quem é merecedor do céu ou do inferno?

(...)

Essa revolução que Ele peitou na sociedade religiosa de seu tempo custou-lhe muito caro. 

Mataram o homem mas prevaleceu, sem demagogia, a Vida pela vida. 

Sua voz ressoa...


"Denominações que criam leis para adestrar fieis não são religiões." 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De volta pra casa


Nascer tem um sentido: viver.
Morrer é certo. 
Certo?! 
Será?!

Seria a morte um retorno? 
"A morte é uma pausa da individualidade e a volta para o todo." (*)

Ou uma continuidade?
"É crível, é possível. 
Uma travessia para a eternidade.
Um retorno para casa. 
Uma continuidade sem chronos. 
Se a morte é irmã, como dizia Francisco de Assis, a eternidade é mãe. 
Deus é amor. 
Deus é eterno. 
Deus é mãe. 
Estaremos bem, de volta pra casa." (**)

A poesia permite esse tráfego de pensamento louco.
Desordenado para os padrões atuais.
Pensar ainda pode. 
A morte assusta.
Assustador pensar sobre a morte.

De qualquer forma
Estamos sempre partindo
"De volta pra casa..." (***)


(*) Sandra Silva Arantes - comentários em "Pra quando for a hora" - www.escritosemtempos.blogspot.com.br

(**) Ailton Domingues de Oliveira - (Idem, Ibid)

(***) Cássia Éller - "Por equanto"

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dorme com Deus, anjo...

Imagem: Márcio Sotelo Felipe
"Nana  nenê 
que a cuca vem pegá
Papai foi na roça
Mamãe no cafezá..."


Ouço essa cantiga popular desde que me conheço por gente. Meus pais, meus avós principalmente, fizeram-na conhecida. Cantei para o meu filho e hoje ainda canto para minhas sobrinhas. Funciona como uma espécie de mantra. Tem a magia de sintonizar a criança para a leveza do sono.

A imagem acima trouxe-me de imediato a lembrança de infância. A primeira impressão é de que a criança está dormindo, exausta, após um dia de muitas brincadeiras. Alguém a tomou nos braços e entoou a canção em seus ouvidos. O cansaço fora tanto que não deu tempo de tirar seus sapatinhos. 

Mero e triste engano! 
O pequeno não está dormindo 
Não foi um dia de longas brincadeiras 
Não está em seu quarto
Não é sobre sua cama que repousa
Não repousa 
Sequer respira!
Sequer acordará entre os seus...
Estirado nas areias de uma praia
Seu corpo foi trazido pelas ondas
A vítima mais pura deste mundo
Inocência maltratada
Tardiamente tornara símbolo 
Das insanas e necessárias migrações
Das fugas das mazelas rumo a um futuro incerto
Que no sonho, pelo menos, hão de serem livres
No final, se nada der certo
Pelo menos não deixaram de arriscar
Essa tentativa, porém, custou caro
Não só o sonho, mas o sonhador em si
Não só a esperança, mas a única flor do jardim
Dorme com Deus, anjo...






Fotos: Reuters

domingo, 16 de agosto de 2015

Qual o lugar de Deus no mundo?



"Deus é o lugar do mundo, afirma o Êxodo."

O mundo está em Deus, Ou, matematicamente, o mundo está contido em Deus tanto quanto Deus contém o mundo e o mundo pertence a Deus. Uma fórmula científica para atestar a relação teológica entre Deus e o espaço/lugar.

O ser faz parte do mundo, está totalmente inserido nele. Pela lógica, logo, cada ser está em Deus. Se cada um já está em Deus, não é necessário sair pelos lugares em busca Dele. A beleza Divina consiste em redescobrir-Lo em si mesmo.

Uma vez que esta certeza esteja compreendida, enxergar o Deus no próximo é uma questão de tempo.

Sendo Deus o lugar do mundo, de certa forma experimentamos aqui o Seu Reino. Podemos então enfatizar as ações no presente, considerando que a nossa estadia neste tempo/espaço/lugar perdurarão pela eternidade.

A íntima relação com tudo o que nos cerca é também uma relação com Deus. "Do pó viemos, ao pó voltaremos."


Trabalho apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia.
Teologia - 5º Período - FCU
Ailton Domingues de Oliveira - 06/08/15