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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Se não há libertação não há salvação


Existe um ápice em que cada pessoa almeja um dia atingi-lo. É uma meta individual. E depois deste, outros virão. Novas dúvidas, novos questionamentos, novas metas, novos horizontes. Porque a vida é feita de conquistas. A maioria das pessoas pensa assim, almejam apenas as materiais. Alguns, que velejam na contramão, optam por conquistas nem tão terrenas assim, reservando-se ao glamour libertário de novos pensamentos apenas.

E o que a liberdade do pensar traz nem sempre está de acordo com as regras sociais, políticas e principalmente religiosas. Ousar pensar por si só, sem a tutela das santas hierarquias religiosas, é um risco grave que atenta contra as dezenas de regras institucionalizadas, estas que visam manter a ordem (ou as pessoas em seu devido cabresto), com enormes possibilidades de excomunhão e passagem direta para o inferno eterno.

Não que as igrejas e religiões são extremamente fontes alienantes, mas longe de serem o único caminho de salvação. Céu e inferno, salvação e condenação, eis as dúvidas que mais afligem os fieis. Toda a promessa e garantia de vida eterna é arquitetada em cima de pensamentos de grandes pensadores e doutores de nossa história. A mensagem deixada por Jesus pode ser resumida numa única palavra: amor. O resto é invenção humana.

E por falar em invenção humana todas as regras religiosas o são, principalmente quando deturpam o legado de "amor" deixado por Jesus e experienciado por grandes nomes da história mundial que lutaram pela dignidade humana com caridade e evidenciaram esforços para uma vida em igualdade. Para quem não segue as ordens à risca, já se auto-condenou. Não seria então, tais regras, apenas um mecanismo para manter os fieis sobre sua custódia religiosa e jurisdição espiritual, uma vez que, sendo a igreja detentora da salvação, fora dela a condenação estaria automaticamente imputada?

Se não há libertação não há salvação, eis um grande princípio que não se discute, tampouco se pratica. E o que as instituições e seitas religiosas fazem, em sua maioria, são manipular as mensagens e incutir um medo desmedido sobre os seus fieis. O medo gera o respeito e dá crédito à instituição. Enquanto houver quem tenha voz capaz de alienar as pessoas em nome de uma denominação, a verdadeira mensagem de salvação estará deturpada. E tenha consciência: isso não é pratica de "amor".

domingo, 6 de dezembro de 2015

Superficialização

 (*)

Ao entregar o livro "Cá de dentro" a moça abriu-o e disse que precisava de um lugar assim, como o poema "Apenas um lugar" descrevia, sem conexão com a tecnologia.
De certa forma ta todo mundo perdendo o contato, o calor humano.
As relações estão superficiais, virtuais.
As pessoas estão acostumadas com tragédias cada vez mais violentas expostas nas redes sociais. 
Nada mais comove. 
Nada mais emociona.
Estamos numa era de maquiagem virtual.
Todo mundo é lindo.
As declarações de amor explodem por aí, de lá pra cá, daqui pra lá.
Na vida real, nada acontece.
Pessoas distantes que se fazem próximas.
Pessoas próximas que se distanciam.
É a vida.
São as pessoas. 
É a tecnologia. 
É a frieza humana.
Estamos mergulhados na era do superficial.
Pena.
O que será num futuro próximo?
Será?

(*) Foto de uma flor artificial, daquelas que ornam as lápides.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os imigrantes e o menino poeta


Duas histórias distintas através de um único olhar sobre a vida dos que carregam em si a esperança. Histórias que nunca se cruzaram. Vidas que não se conheceram. Enredo que se tece apenas nos detalhes do coração e que somente a nudez do olhar é capaz de absorver.

Nos arredores da minha rua existem pessoas que vieram de outros lugares. Com certeza são de outro país. Continente, talvez. Imigrantes, é isso! Ressoam uma conversa que não se entende por quem passa perto. Ninguém se aproxima deles. São estranhos. São diferentes. Falam meio gritado. Vivem entre si e isolados do resto do mundo. Creio, são obrigados a se firmarem nessa terra que escolheram para desbravar. São felizes, eu vejo. São tristes, eu percebo. Sinto. Conversam apenas entre os seus. Tenho vontade de ir lá. Meu receio não permite. Então eu escrevo de forma orante. Uma escrita simples e que só cabe a mim e Deus entender.

Tento imaginar o que os fez chegarem nessas terras. Guerras em seu país natal? Massacres, fome, miséria? Como saíram? Como chegaram? Do que vieram? Passaram fome, tiveram medo, foram explorados nessa travessia? A quem deixaram? O que buscam? Queria saber de suas vidas, sua fé, familiares deixados em outro canto do mundo. Queria saber o que esperam daqui. Eu sei que esperam. Carregam em si uma única força que os motiva: a esperança. Tive vontade de aproximar. Mas até o momento essa vontade ficou na inércia da não-ação. 

E dessa força que nos motiva a prosseguir, alimentada pela fé e pelo sonho, eu encontro a esperança. Morrer é um dilema para quem está vivo mas nem todo homem ou mulher vivos conseguem viver. Esses que trazem a insignia da esperança em seus olhares, já são gente libertada e que vive a vida a cada dia. 

Outro dia deparei-me com um menino, adolescente de uns quinze anos de idade, que pensa grande com coisas pequenas. Ele já trabalha duro. Tem traços de homem responsável e sonhador. Tem a arte em seu olhar. Sonha o sonho do poeta com sensibilidade. É diferenciado na prosa. Gosta dos versos e das boas músicas. Pasmei durante a conversa que tivemos ao enxergar tamanha coragem num garoto de pouca idade. É quase um achado para os padrões atuais. 

Primeiramente o adolescente interessou-se pela conversa que eu tinha com outra pessoa, sobre livro de poesia. Começou a perguntar educadamente sobre os meus escritos. Depois abriu-se e disse que também gostava de escrever e de ler. Sua preferência: literatura barroca. O espanto foi grande! Contou-me também, nos minutos que teve ali, sobre sua paixão pela música e os instrumentos que toca. É um garoto diferenciado, sem dúvida alguma, e carregado de esperança. Da minha parte apenas disse que não deve desperdiçar os pensamentos e ao contrário, organizá-los num caderno. Foi assim que eu comecei até chegar ao blog.

Daqui do meu lugar, ou do não-lugar, encontrei em comum no olhar de cada um dos personagens dessa história a certeza da esperança. A gana pelo desbravar de outros mundos, por vezes tão próximos e sem fronteiras, por outras tão guerreados pelas estradas desconhecidas em que se põem a caminhar, essa, é força contida e gritada por gente que ainda tem um pouco de humanidade em seu ser e seu olhar. A esperança assim, não é mérito de poucos abastados. Ela é fruto nascido no coração de poucos e que se expande de tal forma a quem ainda consegue enxergar. Sou imigrante, sou menino poeta, tenho esperança e teimo em viver.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Dorme com Deus, anjo...

Imagem: Márcio Sotelo Felipe
"Nana  nenê 
que a cuca vem pegá
Papai foi na roça
Mamãe no cafezá..."


Ouço essa cantiga popular desde que me conheço por gente. Meus pais, meus avós principalmente, fizeram-na conhecida. Cantei para o meu filho e hoje ainda canto para minhas sobrinhas. Funciona como uma espécie de mantra. Tem a magia de sintonizar a criança para a leveza do sono.

A imagem acima trouxe-me de imediato a lembrança de infância. A primeira impressão é de que a criança está dormindo, exausta, após um dia de muitas brincadeiras. Alguém a tomou nos braços e entoou a canção em seus ouvidos. O cansaço fora tanto que não deu tempo de tirar seus sapatinhos. 

Mero e triste engano! 
O pequeno não está dormindo 
Não foi um dia de longas brincadeiras 
Não está em seu quarto
Não é sobre sua cama que repousa
Não repousa 
Sequer respira!
Sequer acordará entre os seus...
Estirado nas areias de uma praia
Seu corpo foi trazido pelas ondas
A vítima mais pura deste mundo
Inocência maltratada
Tardiamente tornara símbolo 
Das insanas e necessárias migrações
Das fugas das mazelas rumo a um futuro incerto
Que no sonho, pelo menos, hão de serem livres
No final, se nada der certo
Pelo menos não deixaram de arriscar
Essa tentativa, porém, custou caro
Não só o sonho, mas o sonhador em si
Não só a esperança, mas a única flor do jardim
Dorme com Deus, anjo...






Fotos: Reuters

sábado, 25 de julho de 2015

Brilho e glamour VS um cabeludo língua solta


Um carro é estacionado à beira da calçada do outro lado da rua. Era uma noite tranquila e sem frio. Do veículo apeiam pessoas estilosas em suas roupagens classe média alta. Perfumes chiques se misturaram no ar. Gel no cabelo dos rapazes e maquiagem no rosto das moças davam o ar de uma noite glamourosa.

Abriram o porta-malas e começaram a descer alguns instrumentos. Era uma banda. Logo, um cortejo de fãs atravessou a rua ao encontro dos artistas. Carregaram suas bagagens até o local do show. Uma última olhada no vidro do carro para conferir o ajuste das roupas e pronto. Os cantores e instrumentistas seguiram em meio aos expectadores fiéis com cumprimentos, selfies e autógrafos.

Mas tinha alguma coisa errada! Do outro lado da rua, o destino daquele alvoroço de pessoas, não haviam casas de shows. O que havia era um supermercado, um sacolão, uma loja de ração de animais e uma igreja. Uepaaaa!!! Desacelerei as minhas passadas e fiz questão de observar até que as costas do último dos súditos ultrapasse os pórticos do recinto.

Sim. Era uma igreja. Não preciso dizer qual a denominação porque isso é recorrente em todas, sem exceção. Continuei minha caminhada mas, por hora, pensante na situação que visualizei. Lembrei-me da chegada daquele dito forasteiro, que se tornou conhecido por sua língua solta, ao chegar em Jerusalém montado num burrinho. É, esse Cara mesmo! Aquele moreno de Nazaré, cabeludão, barbudo, amigo das putas, dos ladrões, defensor dos oprimidos e excluídos. Incluamos aqui os gays, lésbicas, transsexuais, e outros.


Não esperei para ouvir o show, nem tampouco ver, pois meu traje era inapropriado e eu estava suado. Na verdade nem sei se teria alguma vestimenta típica para aquele portentoso evento. Também não sei se eu poderia chegar lá na cara dura e dizer: "E aí?! Beleza?! Cheguei! Vim assistir... o que vocês vão fazer aí!" É, não rolaria mesmo!

Então volto para casa inquieto com este contraponto de situações. De um lado um cara com mais de dois mil anos de história e fama que prega amor, humildade, perdão e oferece a quem quer segui-lo que se desapegue das coisas materiais. Do outro um bando de gente que usa o nome desse mesmo cara para alcançar fama, status, nobreza e enfim propor uma salvação deturpada de sua forma original, com promessa de prosperidade material.

Hoje, ao ler sobre uma obra a ser publicada da vida de Rubem Alves, ex-pastor protestante, escritor, poeta, professor, mestre, e que deixou um legado literário, inclusive para a Teologia, considerei pertinente trazer aqui para este enredo um de seus pensamentos: "Sempre entendi que o Evangelho é um chamado a liberdade." E tudo o que não gera libertação é sintoma de opressão e alienação. Ele também usou a seguinte frase na área da educação, a qual acredito, que se encaixa muito bem no campo da religião: "Há religiões que são gaiolas. Há religiões que são asas."

Que ninguém se obrigue a concordar com este pensamento. E tomara que pelo menos incomode ao ponto de outras ideias surgirem. O importante é não se deixar iludir pelo brilho e glamour que camuflam a essência do Evangelho e da liberdade.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A mistura de todas as coisas



Dias atrás recebi essa montagem acima e fiquei inquieto com a intenção de quem a fez e também com a inocência de quem ajudou a propagar. Em tempos de rápida viralização virtual, quanto mais carregada a mensagem, de incitação contra "certas causas", melhor. E assim se procedeu. Meu primeiro contato com a imagem foi num grupo de whatssapp e ao retornar às redes sociais após um período de abstinência pude entender algumas questões.

A repúdia maior, aqui no Brasil, começou quando Viviany Beleboni desfilou crucificada num carro alegórico durante a Parada LGBT de São Paulo no dia 07/06/15. Na placa acima de sua cruz ressaltavam os seguintes dizeres: "Basta de HOMOFOBIA com LGBT". Nem preciso lembrar-lhes que ela é transsexual, uma vez que virou notícia, vidraça e caça dos homens preservadores dos bons costumes (Malafaias, Felicianos, Paulos Ricardos, homofóbicos, preconceituosos e mais um monte de hipócritas dessa estirpe). Os hómes da lei entenderam como um chamamento para a briga. Bom, a pauta aqui não está para defender a protagonista deste enredo, muito menos crucificá-la. Já o fizeram bastante.

Mas, o que mais trouxe repercussão e causou incômodo nas alas conservadoras foi a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos EUA. A partir daí o facebook possibilitou, a quem quisesse mostrar apoio a causa, colocar as cores do arco íris em sua foto de perfil.  Muitas celebridades aderiram. Foi também uma maneira de se mostrar indignado contra os reacionários homofóbicos. O assunto ganhou notoriedade tanto quanto a cultura de incitação ao ódio, provocada pela fala de quem deveria pregar o amor, teve um aumento considerável.

A foto da criança engatinhando, sofrendo pela dor da fome, pode ser do sul-africano, Kevin Karter. Se sim, data de 1993 e foi tirada no Sudão. O fotógrafo que registrou este momento em suas lentes, apesar da foto ter ganhado prêmio em 1994, entrou em depressão profunda e suicidou-se nesse mesmo ano, aos 34 anos de idade. Não suportara o bombardeio de críticas recebidas. Deixou uma carta de suicídio facilmente encontrada na internet. De qualquer forma a foto é tão antiga que muita gente não a conhecia e assim tornou-se novidade nas redes sociais e viralizou pelas vias dos ingênuos, dos inertes e dos regados de consciência mágica.

Então, vem agora o objeto destas linhas, "A mistura de todas as coisas": o que tem a ver "desigualdade social", representada na foto pela fome da criança que se arrasta no chão de terra, com as cores da bandeira que representa o movimento LGBT? Suponho que a intenção é dizer que uma causa que vale a pena lutar (no caso a fome no mundo) está longe dos holofotes, enquanto um assunto de menor significância (preconceito - casamento gay - LGBT) está estampado em várias capas e tem célebres defensores manifestando-se em massa.

Duas situações embutidas no mesmo pacote. Ambas são injustiças, merecem atenção e são de responsabilidade de todo cidadão, principalmente quando se intitula cristão. Mas (...), passaram a régua e soltaram na net. De um lado o discurso adotado é o da necessidade de acabar com a fome no mundo. Na via contrária é outro, pois são disseminados toda a intolerância e preconceito contra quem não está adequado aos padrões religiosos, sociais e culturais impostos pela ditadura homofóbica. Eu resumo como um discurso falido pela hipocrisia.

Nos dizeres da montagem, entendi que a pessoa que a fez, juntamente com todos os que compartilharam, só irão PARTICIPAR na luta da "causa (contra a fome) quando toda uma nação se unir em prol da mesma". Esquisito demais! Enquanto isso vão acomodar o traseiro e esperar. Não irão fazer mais nada por ninguém. Ou "SEJE" (*), pode o mundo acabar, pode o céu desabar, e tudo acabar em pizza que as personalidades de plantão estarão à espreita de um "grand espetáculo".

Enfim, nem tudo é o que parece ser. As personas são tendenciosas e se deixam levar pela primeira impressão visual. São facilmente manipuladas diante de uma imagem montada. Falta, então, um "quezinho" de senso crítico, senão, uma simples questão torna-se uma tremenda confusão. Aquelas velhas piadinhas que a gente aprendeu na adolescência são bons exemplos: "Não confunda: Bife de caçarolinha com rifle de caçar rolinha; Gentileza com gente lesa; A moribunda com amor e bunda; O homem documentado com o homem do cu mentado" dentre outras tantas. Portanto, abre o zóio e analisa sem pavoramento, pois "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa"!



Nota:
(*) Seje = A escrita correta é "SEJA". No texto foi colocado intencionalmente errada. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Eu, nós mesmos e a inquisidura


Final de semestre. Férias da faculdade. Sensação de dever cumprido. Avaliação de caminhada e lembranças de um tempo bem aproveitado.

O confronto de ideias se fez necessário em belas oportunidades. E o melhor de tudo não é a satisfação por ter alcançado excelentes notas mas sim pelo processo de desconstrução e reconstrução de pensamento que possibilitou novas visões sobre o mesmo, antigo e moderno enfoque. 

Nem tudo são flores. Contemos com os espinhos. Somos pedra, mas também vidraça. Sair para um franco confronto é dispor-se a acertar e ser acertado. Risco que vale a causa. Mais importante é a disposição e o despojamento. Pena, nem todos são assim.

Tenho o privilégio de estar entre pessoas que anseiam pelo conhecimento. Origens diferentes, perspectivas também, e muito contrassenso no modo de enxergar o mesmo pontinho no quadro branco. 

De um modo geral tudo muito bem, obrigado. Colegas, amigos, irmãos, profissionais, educadores, professores, mestres, tem de tudo nesse auê. Exceções também, óbvio. Saldo positivo!

De um modo específico, dentre as coisas que faço questão de salientar, é a eloquência do discurso falido de quem se assenta na cadeira como se fosse um trono de doutor da lei e dali tece suas premonições, teses e julgamentos sobre os outros. Não se manifesta com o que é preciso mas critica a quem o fez. Porta-se de uma maneira mascarada, tudo para ficar bem na fita com a instituição. Hipocrisia.


Se fosse para vendar meu olhos, tapar os ouvidos e calar a boca, aceitando tudo o que é colocado, simplesmente para manter um status de boa cordialidade na relação, preferia nem estar ali. E sei que não estou neste meio para contrapor a tudo e a todos, nem tampouco aceitar calado quando a incoerência está gritante e atrapalhando o fluxo. O ambiente tem que ser e estar propício. 

Entendo que há quem assuma o papel de nada dizer, nem ver, nem ouvir. Fazer, nem pensar! É a santa inquisidura academicista que aparece na figura de douto da lei, o mesmo do Evangelho. Ao mesmo tempo se incomoda com quem não tem medo, nem receio, nem rabo preso para se expor. 

Já fomos tachados de ridículos por uma mazela tapada que tem medo e não aceita o processo de desconstrução. Lancei meu protesto e to aqui, to aí, pro que der e vier. Agora, porém, encerramos o período com o gosto do afrontamento através de um discurso de quem tenta manter-se no topo da cadeia, portentosa, jubilosa, regateira e mascarada. E viva a santice desvairada!

"Eu, nós mesmos e a inquisidura" ainda nos cruzaremos por aí. Aguarde cenas dos próximos períodos. 


Notas de rodapé:

"É melhor ser rejeitado por ser sincero, do que ser aceito sendo hipócrita." (autor desconhecido)

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo." (Raul Seixas)

"Antes ser um ridículo do que um hipócrita alienado." (Eu e nós)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

oS ridÍKulOs


Antes da pitoresca entrada solada, procurei o "pai-dos-burros" no google, facilmente acessível e acessável por qualquer um que queira satisfazer sua curiosidade quanto ao significado das palavras. No meu caso digitei "RIDÍCULO". Do resultado da pesquisa, sem tirar nem por, apenas copiei e colei da forma que segue abaixo:

a) Significado de Ridículo: adj. Risível; digno de riso; merecedor de escárnio ou de zombaria.
Insignificante; de valor irrisório; de pouco ou nenhum valor: quantia ridícula.
s.m. Pessoa que submete à zombaria, ao riso; quem se comporta ou diz algo que desperta o riso por ser muito engraçado ou constrangedor.
Algo ou alguém que é ridículo: o ridículo ainda não chegou?
Expor ao ridículo. Apresentar algo ou alguém de modo a causar risos.
Expor-se ao ridículo. Colocar-se numa situação de zombaria.
(Etm. do latim: ridiculu.a.um)


b) Sinônimos de Ridículo: esquisito, estrambólico, excêntrico, extravagante, heteróclito, insignificante risível
c) Antônimos de Ridículo: elegante, fino, chique, lógico, sensato e razoável

d) Definição de Ridículo:
Classe gramatical: adjetivo e substantivo masculino
Separação das sílabas: ri-dí-cu-lo
Plural: ridículos
*Fonte: www.dicio.com.br

Simbora que rapadura é doce mas num é mole não! O que sassucede é que niquiquando você discorda da opinião alheia, tem autor de alheice que se ofende e ataca barraqueiramente a tu, o discordante.

O episódio ocorreu numa instituição acadêmica. Professor, disciplina e tema não vêm ao caso. Participantes, entre eles estava eu, opinaram acerca do tema em discussão. Favoráveis, contras, alternativos e não optativos eram os que compunham a orquestra. Como em tudo que se refere a assuntos de ordem religiosa, principalmente quando se tratam de regras institucionais e dogmas de fé pouco conhecidas e discutidas, portanto mal interpretadas em sua maioria, onde a própria instituição religiosa ainda caminha rumo a melhores esclarecimentos e compreensão, toda opinião de qualquer leigo merece, no mínimo, respeito. É o que se espera de graduandos de um 4º período de Teologia que ali estão não por acaso.

A cena desrespeitosa foi que um participante esporádico, desconsiderando os comentários de um colega de sala, saiu do campo da discussão acadêmica e desdenhou com gestos e palavras a este. O colega apenas manteve o foco no embate. O participante reclusou-se no silêncio e no desdenho. Posterior a tal fato a sala manteve-se sem a presença esporádica de quem não gostou de ouvir outras vertentes sobre o mesmo assunto. Eu, quanto a essa digníssima ausência, quase não tenho dormido direito!

Não bastasse nos honrar com sua ausência ainda necessitou destilar sua profunda mágoa e incômodo, quanto ao episódio ocorrido a mais de mês e devidamente citado acima, contemplando nossa sala de "ridícula". Infelizmente, fui eu quem escutou no corredor desta instituição acadêmica a persona de orgulho ferida a nos adjetivar de ridículos. Aí pergunto: "Que tipo de teólogo vai sair dessa academia? Que tipo de líder é esse que não aceita discordância de sua opinião?" Pior que isso: "O que é que a pessoa desenrola e verbaliza nos momentos que ministra o seu movimento universitário?" Pseudo-cristianismo, eu penso!

Por isso me reservei, desde os primeiros momentos de faculdade, a não participar de certos eventos universitários que começam sem pé nem cabeça. Recusei veemente os inúmeros convites e afirmei que alguns movimentos acadêmico-religiosos não eram a minha praia! Geralmente quem atua em certas bandas religiosas que descartam o estudo e a discussão sadia e fincam o pé numa trilha regada de ingenuidade mística e espirituosa são travados para acolher o diferente. A acepção de pessoas já se dá a partir do pensamento alheio.

Estar num ambiente acadêmico requer, antes de qualquer coisa, prontidão para se desconstruir. Há quem queira somente o título e prefira manter sua catequese de raiz intocável. Enveredar pelo caminho da ciência é correr o risco de se deparar com verdades diferentes das que nos foram repassadas um dia. Se durante o percurso os sinais de fé se estremecerem com o novo isso não será o problema vital, mas é um grande sinal de que precisamos continuar buscando respostas. Todo o conhecimento deve propiciar-nos a desconstrução dos pensamentos e possibilitar-nos o reerguimento de um alicerce com verdades pertinentes à nossa caminhada de fé. Se ao final de quatro anos acadêmicos nada mudar, o tempo fora perdido.

Quanto a adjetivada que nos foi tacada não vejo como um peso negativo, quiçá desonroso, nem que influenciará na academia, tampouco na caminhada de fé. Quando crianças, épocas de pré-escola, quando o coleguinha dizia alguma coisa que não gostássemos a reação era mostrar a língua e xingar de chato. Em tempos acadêmicos a reação evoluiu para o desdenho e o ridículo. Pena que esse mesmo grau de evolução não se dê na abertura para o novo e para o diálogo saudável. De qualquer forma eu PREFIRO SER UM RIDÍCULO MAS VERDADEIRO A UM HIPÓCRITA E ALIENADO!

Ou, como diria o grande Rauzito: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Crer e pensar para não se alienar - por Gilson Rocha

 É com satisfação que apresento e publico aqui, em "Escritos em Tempos", um texto de Gilson Rocha, amigo e também colega do curso de Teologia. É um pensamento intrigante, questionador, portanto nada convencional e que contrapõe muito do que nos foi ensinado, repassado ou imposto de forma não intencional. Vale a pena a leitura. Ailton Domingues de Oliveira





Vivemos num mundo da lógica, cerceados pelo acaso. Ando pelas ruas, e percebo a maravilha da criação. De uma pequenina flor que nasce na calçada ao complexo funcionamento do cérebro humano, que processa simultaneamente uma quantidade incrível de informações, que reconhece todas as cores e objetos que vê, que assimila a temperatura a sua volta, que escuta os sons ao seu redor... Torna-se evidente que crer na existência de um Ser Supremo - autor da ordem natural - não é uma questão de lógica, é um fato. Sim! Deus existe!

Ao mesmo tempo, observo as ações humanas - o descaso, a miséria, a sede por poder e a ganância -, fechados em sua individualidade, e me pergunto se este Ser Divino está conosco e nos acompanha em nossos atos. Nesse ponto, o questionamento e a falta da razão me ensurdecem. Como pode Deus, que é onipotente, onipresente e onisciente permitir que um filho venha a este mundo e morra por falta de um pedaço de pão? Ou que aconteça uma catástrofe de qualquer ordem que destrua a vida de centenas de famílias? Ou que exista tanta violência contra indefesos e fragilizados na sociedade em que vivemos?

Existe uma justificativa muito plausível que trata de um diálogo sobre a existência de Deus numa barbearia. O personagem descrente aponta que existem pessoas com o cabelo grande e barba mal tratada. Este fato, pela lógica, sustentaria a tese de que não existe o profissional. O barbeiro rebate dizendo que são as pessoas que não o procuram. A premissa é aplicada a Deus, que também existe; o problema é que as pessoas não o procuram. Mas isso traz um problema crucial quando inclui uma condição para o amor divino, e ao mesmo tempo não justifica que os bons e fiéis aos ensinamentos divinos também sofram com injustiças generalizadas.

Nesse ponto, a tese do livro arbítrio me parece o conceito exato que embasa o meu questionamento. Mas, ao mesmo tempo em que resolve algumas questões, levanta outras piores e mais ameaçadoras para a estrutura hierárquica e espiritual. Uma delas é: Se Deus não intervém em nossa realidade (pelo respeito ao livre arbítrio), qual seria o sentido de rezar ou pedir a intercessão divina? E se a razão de não intervir seja o fato de ele não poder fazê-lo? Mais complicado ainda, pois teríamos a ação de um elemento limitador do divino, ou seja, um SPP - Ser Supremo Superior.

Gosto de uma alegoria que compara a vida da “consciência” – ou alma, se preferir – a ciclos de passagem. Ela considera cada estágio como um percurso, e da mesma forma que passamos pelo ciclo da maternidade durante os nove meses da vida intrauterina, estamos também passando pela vida que conhecemos. Sempre me recordo do final do filme “MIB – homens de preto”, onde toda a galáxia que conhecemos não passa de uma bolinha de gude nas mãos de uma criança extraterrestre. Então, cada estágio tem suas peculiaridades e sua finitude. Mesmo que quiséssemos voltar à barriga materna, não sobreviveríamos àquelas condições, fazendo dele um estágio já percorrido que não tem volta. Quando nosso corpo já não mais aguentar, teremos iniciado uma nova jornada, e uma certeza é válida: será totalmente diferente do que conhecemos e até imaginamos, mas mesmo assim, será um novo estágio, e a premissa ainda é válida: não há retorno.

Pensando agora a partir da estrutura eclesial, percebo que a justiça - pelo seu caráter regulatório -, não consegue por si ser um instrumento de controle e motivação populacional, e nesse ponto, a(s) igreja(s) intervém com maior sucesso por estabelecer regras (mandamentos) de um Ser Supremo – inegável – e julgamento (pecado) aos infratores. Para imputar o castigo, justifica-se a criação da figura do Diabo, com um embasamento muito forte e até cativante. Isso responde qual o sentido da igreja enquanto instituição. Mas é perigoso pensar assim, já que a figura de Jesus Cristo enquanto divindade pode ser considerada como um pivô de manipulação em massa com objetivos políticos, em despeito da ação interventora do Ser Divino. E partindo do princípio em que o cristianismo se baseia, prefiro estar redondamente enganado em minhas teses hereges. A história, por sua vez, nos conta que isso é perfeitamente plausível, ainda mais sabendo que o campo da teologia não envolve certezas absolutas. É uma questão de fé! Mas assim também é de mistério.

E de repente, o que faz sentido é o contrário de tudo que me foi ensinado. E se o mal é fruto de escolhas, isso faz da serpente do Éden o motivo da sabedoria que temos hoje. E o mais interessante é perceber que a felicidade que tanto buscamos se faz presente na ignorância, e muito raramente na sapiência!

Tudo isso me leva para o lado de uma teologia de cunho realmente prático, que visa socorrer a humanidade no estágio em que estamos. Mais pautado no “aqui agora”. A humanidade precisa de socorro, e mais urgente que adoradores do invisível, está o cunho social e vivencial. Tratar do humano enquanto humano, nas necessidades básicas e ordinárias que a própria sociedade impõe. Esse modelo libertário de teologia traz consigo os seus atos em favor de uma fé, contrariamente às pautas, tratados e concílios, que antes de mais, parece-me que complicam mais que simplificam. É mais do mesmo.

Gilson Rocha - aluno do 4º Período do Curso de Teologia - FCU

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O perfil das vaidades



Coélet narra poética e proverbialmente sobre as vaidades: "Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade." Eclesiastes.

O cenário haveria de ser diferente no ambiente das comunidades, principalmente por sobre aqueles que encabeçam trabalhos. Fato: não o é!

Não precisa ir tão longe na percepção uma vez que tudo está tão nítido até aos olhares mais ingênuos e desprovidos de qualquer intenção de crítica. A vaidade não consegue ser camuflada. Ela é uma alegoria imperceptível mas essencial para a celebridade em questão.

Levemos em conta a evolução geral de tudo e de todos, o que de certa forma contribuiu para um melhor entendimento e esclarecimento sobre a vida em comunidade, sobre as escrituras e por conseguinte sobre a vaidade.

O retrato da comunidade, digamos que poderia ser na forma de um mosaico. Várias cores, formatos e tamanhos que se encaixam. Melhor ainda: uma colcha de retalhos! Assim sendo não há um único rosto, nem um único perfil. Há um padrão onde todos se entrelaçam mutuamente. Peças ou retalhos que requerem maior atenção não conseguem se encaixar neste retrato. Precisam de um holofote exclusivo.


O perfil das vaidades é o mesmo das celebridades. Sua entrada é triunfal. Jamais por sobre um burrinho. O tapete vermelho é indispensável. Faz sua política de notoriedade na cumprimentação de cada um que passa por sob seu campo de visão.

Outro detalhe importante sobre as notórias celebridades é que sempre querem dar a sua vontade como rosto definitivo para a comunidade. Na verdade não chega a ser nem uma caricatura pois sua sensível vaidade se desfaz frente ao clamor real da colcha de retalhos. 

Para a celebridade, ter suas vontades contrariadas é uma afronta para o ego. É um chamado para a briga, ou para a guerra, dependendo da óptica. As peças ilustres levam em conta apenas a necessidade de realizar suas vaidades acima de qualquer coisa. Se necessário usam da hierarquia, da oposição, do motim, da fogueira, das palavras soltas, da Palavra deturpada, dentre outras cositas mais, para o seu proveito próprio. Tudo é vaidade!




"A mística e a espiritualidade de aparecer que é perigoso. Quem não sabe aparecer cai em pecado. Quem não sabe aparecer pros outros para mostrar Jesus corre um grande risco de aparecer por aparecer." Pe. Zezinho em uma pregação na Canção Nova. Público alvo: músicos e lideranças. Aí eu pergunto: "Será que serviu pros artistas de lá? E pros de cá?"

terça-feira, 21 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte III - Versus



Realidade versus ficção
Natureza versus tecnologia
Riqueza versus pobreza
Sabedoria versus insensatez
Franqueza versus hipocrisia
O mundo é um jogo de opostos
O avesso dos avessos
Côncavo e convexo
E no limiar entre céus e terra
Jaz o sertão
Seja lá, acolá ou no coração
Já dizia o grande poeta dos sertões
Guimarães Rosa
"O sertão está em toda parte
É dentro da gente"
E nessa desventura desprovida de almejo
Na sábia insensatez e vontade do benfazejo
Sigo o instinto matuto do agrado imediato
É necessário abrir novas picadas
Seja no asfalto ou no mato
No primeiro contato o olhar inocente
São crianças, sorrisos e esperança
São gente que pouca gente vê
Um casal de irmãos me esperam atentos
Eu, de não sei de onde oriundo
Caminhando rumo ao seu mundo

Mostrei-me amigo e de boa vontade
A confiança então foi verdade
Conheci seus nomes
Logo num chão acinzentado
Pela queima de lixos e objetos
A menina, a mais nova, com sua meia vassoura varria
Um caixote era uma mesa
Uma cadeira com cordas de naylon descartada ali
E um balde que era a suposta lixeira
Identifiquei o cenário e perguntei
Estão brincando de escola?
Toda tímida me respondeu com a cabeça que sim
E então ganhei um santinho
A imagem de uma santa, a mãe de Jesus

Seu irmão sobre a bicicleta ziguezagueava
Davam-se bem
Toda delicada a garotinha, já vaidosa
Tinha marcas de esmaltes em suas unhas dos pés
Apenas algumas
Era rosa
Noutro canto outras três crianças brincando
Numa piscina desusada e descartada
Sem água sob o chão
Posterior, com alguns copos de água e terra

A bola sobre a cerca
Vi como um sonho pendurado
Escondido, deturpado, roubado
Por quem?
Por todos nós que nos calamos
E os mantemos à margem
Marginalmente aquém da margem

Um telefone de tecnologia no meio da terra
Bonecas e cd's abeirando a cerca
Um caminhãozinho parado sob a barraca inacabada
Todo tipo de descarte
Que a santa hipocrisia chama de caridade
Ali se encrusta os recebidos em cores e amores
Pra saciar o ego dos doutores
Dando um paliativo pra tantas dores

Ainda me deparo sob a ponte
Com o nome de Jesus pintado na lateral
Deus no céu que olha
Deus na terra que faz
E alguém pintando o nome de Jesus
Como se olhando estivesse para esses amarginalizados 
Imagino que quem isso fez
Sequer olhou pro lado uma vez
E visitou o Jesus no rosto sofrido de cada assentado

Na prosa poética de um estimado meu doutor
Tamanha simplicidade e humildade
Vou saindo margeando meu caminho novamente
E com uma tamanha inquietança
Mas com vontade de fazer mudança 
Então, compadre meu, senhor José
A festa ainda há de ser do tamanho de seu merecimento
 De tudo que vivi nesse tempo de hoje
Em meio a inocência da infância
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."

(Guimarães Rosa)





Grande Sertão: Brasil - parte II - Prosas


Pensamentos, prosas e provérbios
Na contramão da imaginação
Minha arrumação teve de ser reajeitada
Era uma a minha intenção
Saber quantas casas ali tinham
E quantas famílias, quantas pessoas
Perspectivas, e situações
O pra quê de tanta investigação
Só fui entender nas prosas que ali travei
Que nada tinha mais valor
Que o calor de cada vida
Um borná, caderno, caneta e celular
A água na garrafa de usar nem lembrei
Procuro por alguém já conhecido
Não lembro o nome e então proseando eu sigo

"Pra que tu tá aqui?"

Digo que é um levantamento
E já embalo no proseamento
Querendo saber o que mais se precisa
Além de tudo de que se necessita

"Água e luz meu sinhô"

Responde o primeiro José
Cearense arretado
Sem pregas na língua
Personalidade honrada
Tem palavra certa
E uma fé em Deus
Que a todos abençoa
Minha pesquisa vai ficando de lado
Em cada história
Que o valente combatente 
Vai trazendo da memória

"Ah, meu sinhô, aqui a polícia visitava direto
Roubavam nos cafundó
E os home parava aqui só
Eu, já me enfezado, 
Um dia esbravejei e bem alto falei
Aqui mora homem digno e honrado
Tanto ladrão engravatado
E os ceis vem aqui na minha porta?
Depois disso, meu sinhô
Essa folia se acabô
Graças a Deus"


E as horas se passaram mas o tempo eu não vi
Seu José me dispensou
Quando logo se alembrou 
Que tinha um barraco a construir
Uma foto, seu José, pra eu guardar dessa visita
De braços abertos e sorridente
Braços fortes e honradez
Em meio a timidez sorriu contente
Meio sem rumo fui caminhando
Pra de volta da direção do meu mundo
Entre a via marginal e marginalizados
Encontrei a pessoa que procurava
Três crianças com febre
Mais ela e seu marido
Aguardando as roupas quarando no varal
Pra depois correr com os meninos pro hospital

"Não tem muita roupa
Tem que esperar secar"

Fui tocando mais adiante
E vi outro rosto conhecido
De outra missa que lá teve
Dona Francisca e seu marido, José
O segundo José, e três crianças
Que espreitavam numa piscina vazia
Fui tirando foto, com a licença devida
De tudo quanto é coisa que eu via
Na primeira tentativa seu José se recusou


"Pra quê tirar foto de um bicho feio feito eu?"

Deu alguns passos, colocou boné na cabeça
Pensou e se virou

"Então tira meu mestre
Se tu quer tirar, então tira essa foto"


Ficou um pouco distante de sua esposa
Mas sorriu e agradeceu 
Seu barraco precisando de telhas
Madeiras, tudo quanto é coisa de se imaginar
Fui sabendo de sua vida
Em cada provérbio que ele contava
E se esperançava quando se alembrava


"Quem sofreu foi nosso Senhor Jesus Cristo
Para salvar dos nossos pecados
Aqui o cabra tem que se avivê com o que tem
Tenho fé que logo mais
Noutra vez o mestre vai ter um lugar pra se assentá
Voltei pra Juazeiro e não tive ajuda lá
Vim pra cá porque aqui as pessoas ajudam
Nada me há de faltá
Tenho filhos de outro casamento
Que não querem saber de mim
Tive casas e tudo perdi
Pra bebida e a jogatina
Nessa vida só tive duas mulheres
Aos meus setenta e seis anos
Não sou um cabra mulherengo
Lá no trecho eu era conhecido 
Era o José Fogueteiro
Aqui, minha mulher não gosta mas eu falo
Sou o José Fodeteiro
Estou todo fudido meu mestre
Mas tenho fé que vou vencer"

Fui logo me despedindo 
Apertando aquela mão calejada
E percebendo aquela pele surrada
Aquele olhar que não se perde jamais
Quatro telhas era o necessário para seu José
Resguardar a família 
Pois seu barraco de agora
Quando chove, dentro molha


E nos passos de retorno pelo lado de baixo
Ao longe avisto uma mulher 
Suas roupas lavando agachada na marginal
Cadeiras amarelas e vermelhas ao seu redor
Era pros motoristas perceberem o sinal
Ali, naquele espaço tinha gente ocupada
Que desviem os doutores da estrada
Fui andando de volta
Com os provérbios dos meus mais novos teólogos
Fermentando em minha mente
Não dava pra continuar igual
Dali em diante, haveria de ser e fazer diferente
Meu almoço já em casa
Parecia descer quadrado
Eu precisava dar um jeito e lá voltar
Eu precisava com aquele seu José Fogueteiro
Mais uma vez prosear
E assim, mais tarde eu voltei
Lá estava ele deitado sobre um compensado de madeira
Sua cabeça recostada sobre um tijolo forrado 
Com um pano, o seu travesseiro
O barraco continuava o mesmo
As mesmas telhas estavam faltando
Não pude socorrê-lo naquele pedido
Dia de feriado, tudo fechado
Minha boca nada prometeu
Mas meu coração se comprometeu
E se eu não mais voltar
As prosas se perderão no ar
Mas minha alma nunca mais se aquietará
Diante de tudo isso
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)