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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Convenção nos autos da praça IV: memórias da praça

(*)Foto: Clube Notícia


A praça é a Praça, é o mundo, é o fundo, 

é o circo, é o recanto do justo, 

do sábio e do vagabundo

paraíso e deserto do sem teto

Filosofia da vida, dos dias, das horas 

o tempo não passa, e a vida indo embora

Dias de luta sem glória

a droga é a festa, todo dia, toda hora

Retiro do mundo, 

vazio existente na alma sem fundo

Que aos olhos do povo, a sociedade perfeita 

não tem bem, só o mal, quem ali está é só marginal

Esquece que ali, aquele que habita tem a sua história 

sua guerra sua vida, seus traumas, suas lutas sofridas 

uma família talvez

A praça é o elo perdido, último dos paraísos 

de quem se perdeu nesse plano de vida 

nesse mundo tão sujo

de batalha egoísta

No meio da praça tem a regra, a moral, 

a ética de todo marginal

cada um no seu canto, enxugando seus prantos 

ninguém rouba ninguém, todos se protegem

Tem cachorro e gato que habitam juntinhos 

ambos respeitam até o passarinho 

todos sem comida, sem casa, sem abrigo

Banho de chuva no frio, noites mal dormidas

Corpos bem colados pra se manter aquecidos

Presos por dentro, julgados por fora 

a vida é um tempo que passa e demora

esperança sem vez

Um dia quem sabe, 

um pouco de asa 

vai me levar de volta pra casa


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Convenção nos autos da praça III


A quadra da praça estava vazia. Nenhum dos frequentadores assíduos estava lá para uma disputa de futsal descalço. O motivo é o período de férias. Nas férias não se joga bola na praça que fica próxima a uma escola. O bom é participar de um importante racha em período letivo. Fora disso, as férias devem ser curtidas longe dali. Suspeito que deve ser esse o motivo.

Não havia casais enamorados exalando corações em carinhosas trocas de olhares. O movimento realmente já esteve melhor. Apenas uma meia dúzia inteira de pessoas, entre adultos e crianças, no rol dos aparelhos de ginástica.

Ao centro, de seis bancos de pedra que lá existem, três estavam ocupados por distintos grupos concentrados em sua inconfundível tragada no modesto cigarrinho do capeta, vulgo baseado. Num determinado banco eram dois rapazes e uma moça. Noutro, apenas três camaradas em estado zumbi, que não faziam questão de se atentar ao que ocorria ao redor. No terceiro uma dupla de rapazes, aparentando um cara mais velho e talvez um adolescente, conversavam em gíria e sorriam descontroladamente ao som de um rap.

Num determinado ponto, atrás de um banco de pedra, estão os cativos da praça. Um grupo com cinco ou seis pessoas esparramados em papelões e cobertores, rodeados por mochilas, sacolas plásticas, muita cachaça e pouca comida. Ali os senhores de seu tempo, desertores da sociedade, libertados e dependentes, se reúnem como uma sociedade que não tem outra finalidade além da sobrevivência sem incômodo.

Estive invisível aos olhos de todos. Passei duas vezes, ida e vinda, e tenho certeza que não fui notado. Não havia outra intenção além de observar. Acredito que, principalmente este grupo de senhores que levam a vida ali naquele reduto, sentem e pensam como eu: são invisíveis na praça.

Imaginei assim que a praça é apenas passagem diante de algumas belas paisagens. Passagem, travessia, começo e fim, entrada e saída. É um encurtamento de caminhada com algumas trilhas sinuosas. A maioria dos pedestres alargam as passadas apressadamente para saírem logo daquele lugar. Talvez seja medo dos cativos. Há quem não olhe para os lados e se recusa a enxergar o óbvio. Há também, quem prefira caminhar por fora evitando cruzar com os que estão dentro. Outros o fazem por mera precaução.

O ilustre poeta do sertão, Guimarães Rosa, em um provérbio de "Grande Sertão: Veredas" atesta o meu pensamento quando diz: "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia." Algumas praças, desertos, casas e corações estão repletos de anseios na saída e na chegada. A importância para a travessia talvez nunca será dada num mundo que impõe apenas metas e não propõe vivências. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Convenção nos autos da praça II


Ela rasga de cima a baixo o véu azul, que se descortina sob os raios do sol, em movimentos transloucados, desgovernados e desinibidos. Em rasantes manobras audaciosas, com suas cores que a muito representa, de porte pequeno e velocidade não controlada, ela caça e corre, adormece e enlouquece no ar. É a pipa na mão do garoto que leva seus sonhos no mais alto dos céus no imperativo silêncio que não se corrompe frente aos devaneios sociais que o circundam na praça.

As tribos se encontram como de costume. Hoje porém não tem futsal descalço. A turma que se encontra no espaço fitness está maior e com isso as conversas são mais gritantes bem como as músicas e os subgrupos. Caras e bocas para as selfies que eternizam os instantes.

Hoje tem mais gente dormindo sobre os bancos de pedra. Gente uniformizada que aproveita o tempo do almoço para um cochilo. Os caras da maconha não se intimidam com os pedestres que cruzam a zona franca da praça e continuam em seu ritual enfadonho de tragar, tossir e expelir. Há outros mais tímidos que, acompanhados de um pitbul com focinheira e seguramente amarrado, espero, disfarçam o momento ímpar de fugir daqui em tragadas no baseado.

Uma mãe leva seus três filhos para casa. Ela consegue segurar na mão de dois e o terceiro, o maior, segue ora do lado ora atrás. Há um silêncio que perdura nessa caminhada. Ela aparenta cansaço e ao mesmo tempo atenção para com suas crias. Instinto de mãe.

A tribo dos exímios filósofos do álcool é fiel em seu templo, um espaço já marcado por sobre a grama. Ali ninguém, que não seja desvairado e descomprometido com a vida, pode se achegar. É um recanto para poucos. Eles são telespectadores diante da correria mundana e prostituída que nós protagonizamos. O líquido que desentorpece corpo e alma nunca falta. Preferem o ópio do álcool ao ópio da hipocrisia social. Lá esses são livres.

A solidão também impera em alguns bancos de monólogos pensadores. Pessoas com fone e celular que fogem do tempo, das obrigações e dos problemas ao som das batidas musicais. A música está em todo canto. É necessária. Cada qual com seu estilo e gosto. Ela transcende dimensões, revigora, proporciona reflexão e esperança. É sagrada, principalmente, quando a solidão é a única companheira durante a travessia no deserto.

A praça é uma zona de paz e guerra. Pessoas em paz com as outras e pessoas em guerra consigo mesmo. A vida é paz. Ou guerra, talvez. A violência social ocorre primeiramente no olhar, depois no coração e depois com as mãos. O cenário pode ser visto sob as duas ópticas. Depende qual lado você está vivenciando quando adentrar este cenário...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Convenção nos autos da praça


No acordar do meio dia eles já se colocam a postos em suas trincheiras. Levam seus baixeiros, bornais, mantas e outros apetrechos e estendem sobre a grama da praça. Em seus cantis estão o líquido da misericórdia. Derivações do álcool, das mais concentradas possíveis. À margem do último subnível das mazelas sociais estão as personagens mais destiladas possíveis. Entorpecidas desde sempre, celebram o prazer de não ser ninguém.

Em outra margem, no que restou de uma quadra de esportes, num canto qualquer desta praça, os garotos disputam uma partida fundamental de futsal. Cada jogo é como uma disputa pelo título de um campeonato mundial. A maioria ali chegou após o apito final da escola avisar que a aula deste dia enfim encerrara-se. Alguns ousados desbravadores conseguiram cabular as últimas aulas e desfrutaram mais de seu tempo neste reduto para poucos. Outros ainda, sequer compareceram à escola. Optaram pela quadra da praça. 

Um casal de namorados trocam carícias sentados num banco sob a sombra das grandes árvores. Cena incomum para os dias de hoje. Estão desprovidos de tempo e cegamente tranquilos no cenário que também protagonizam. Eles conversam, se olham, se beijam e o universo para em seu mundo avermelhado de paixão. O único barulho que escutam é dos descompassados corações vibrantes. Nem mesmo o mau cheiro da mistura de maconha que segue carregado pelas rajadas leves de vento é capaz de roubar-lhes a atenção.

Aglomerados noutro pedaço desta praça, num espaço fitness para jovens, adultos e idosos, estão meninos e meninas que, pelo visto, encontram-se sagradamente na mesma hora e local todos os dias após a aula. Papos retos, músicas de celular, muita conversa alta e a necessidade ímpar das relações dessa idade. Estar ali, aparenta estar entre os melhores da turma, os seletos, os mais-mais. Deste grupo, possíveis futuros casais, com certeza, se formarão. Impera no momento as amizades das quais algumas poderão entrar no rol das verdadeiras e eternas.

Na praça não existem flores. Apenas o verde das gramas e das árvores. As maritacas e outros pássaros dividem o topo dos galhos quando não rasgam o baixo céu. O que destoa é o barulho infernal dos motores e seus rastros de fumaça. Nada mais incomoda tanto que a pressa dos motorizados que ignoram todas as regras sociais e as leis que os monitoram. Por isso, prefiro a praça com seus diversos grupos, principalmente o dos mestres e filósofos que agem segundo o único líquido que os mantém sóbrios e protegidos da sociedade: o álcool.

Porém, esses assíduos oradores da praça, nobres e desprovidos com o politicamente correto, são inúteis para todos, para o sistema, para nós. Não passam de pobres desgraçados pela vida. São desprezíveis para as religiões. "Deus, no mínimo, os castigou severamente por estarem aonde estão neste momento. Estão colhendo o fruto de suas escolhas, com certeza...", dirão os hipócritas da fé, da moral e das leis. Há quem pague a passagem para outras cidades, só para não os verem na zona da praça.

Não vejo a vadiagem entre essas distintas pessoas. O que vejo são histórias regadas de derrotas, impressas em olhares e com cicatrizes pelo corpo. Estar aqui neste mundo deve ser um tormento. Acordar e ver as caras de paisagem que ofuscam a natureza ao seu redor é também um martírio diário. E assim caminhamos nós por entre praças. Que não nos falte o líquido do livramento da hipocrisia e do ópio social, pelo amor de Deus!