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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos III - modismos de massa

 

A futilidade dos modismos de massa - pseudorreligiões e outras fraudes
A futilidade dos modismos de massa e a doce arte de ser um bom inútil ou a futilidade do que se torna demais. Como uma pirâmide... o inventor e os próximos 10 ou 100 que acompanham até tem um grande êxito, um êxito saudável, uma renda, sucesso, mas o restante é massa, massa de manobra, vai apenas compor o meio e a base da pirâmide, com pequenos êxitos, pequenos lucros, alguns sucessos e a maior parte, abaixo dessa base são os que ficam iludidos e apenas auxiliam o crescimento de quem ta lá em cima.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

900 - Descortinando

Começa aqui um longo descortinar
De sair de cena, eis o momento
No silêncio das palavras repousar
Reencontrar-me com o tempo
Abraçar
Sentir...

Pendurar os escritos
Eternizar a poesia
Restaurar o coração
Velejar com ousadia

Já fui de flores
De dores, amores
Temores, ardores

Sem palavra já fiz proeza
Sem vergonha trepei na mesa
Sem cartas venci com destreza

Dos fatos escrevi histórias
Dos sentimentos fiz memória
Das palavras fiz estrepolia
Mas é da alma que sangrou poesia

Salvaguardei-me das instituições
Resguardei-me das religiões
Desprezei a politicaria dos ladrões
E contrapus os charlatões

Aos idiotas compus recados
E palavrões não foram poupados
Mas pros hipócritas que veem tudo errado
Vai pra (...longe...) deixar de ser tapado

Brinquei com a dor e chorei com a alegria
Fiz orações de amor e cantei moda e utopia
Pelos pseudo-doutores da moral já fui condenado
Pelos mestres da lei em fogueira santa fui queimado

Mas sobrevivi aos babacas da hipocrisia  
Destilando sentimento nas entrelinhas da poesia
E os que fazem do poder uma tremenda putaria
Jazem na cova de suas próprias heresias

sexta-feira, 22 de julho de 2016

"Exija de Deus a sua parte"


Sim! É realmente com essa fala - "Exija de Deus a sua parte" - que o empresário-fundador-pastor da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) ministra suas pregações no altar de seu portentoso Templo de Salomão. Claro que há uma continuidade nessa fala que justificam-se os meios, os seus próprios meios: "...se você, enquanto cristão, fizer a sua." Basta um click no google e você terá um arsenal repleto de falas, mensagens, vídeos solicitando uma ajudinha dos fieis para as obras de seu Reino.

Exigir de Deus a sua parte enquanto o cristão fizer a sua, isenta a instituição e sua teologia de qualquer coisa que não dê certo na vida da pessoa, faz o indivíduo sair debaixo da saia do pastor. É uma jogada de mestre, não podemos negar, mas há controvérsias. A internet está repleta de pessoas que moveram ações judiciais contra a Universal por terem seguido a risca, doado tudo, e ficado na miséria. Por outro lado as falas dos designados bispos estão, além de inovadoras, cada vez mais abusadas. Pede-se cartões com senha, carros, casas, doações com valores altíssimos, dentre outras bagatelas.

Fazer a sua parte, essa é a máxima que os seguidores da IURD devem obedecer, ou seja, parte essa que não significa simplesmente atos de bondade e caridade e amor ao próximo. O objeto dessa fala está diretamente ligado às ações que as pessoas devem ter em relação à sua instituição, cumprindo todos os requisitos espírito-financeiros. Estão eles errados? Digo que não. Alienados, talvez. O que move aquelas pessoas é a fé, além do receio de não obterem a salvação por descumprir os desígnios do bispo Macedo e, ao contrário, ganharem a condenação eterna ao inferno. Mas sendo a fé um elo que liga a Deus, espero que Ele liberte os cativos e oprimidos das garras dos poderosos.

Edir é um cara inteligente, desenvolto, tem feeling para os negócios, visão-audição-lábia-olfato-tato devidamente aguçados. Construiu o seu próprio império, fruto do suor alheio arrancado em suas pregações alicerçadas na teologia da prosperidade. Dono, também, de um crescente e expansivo canal de TV. Sabe muito bem como entrar na mente do seu público fiel e colocá-lo em check com Deus.

Tem outros impérios em evidência por aí. Tomei a liberdade de falar apenas da IURD porque é uma das mais antigas e ainda em atividade crescente. Assembleia de Deus (Silas Malafaia), Igreja Mundial (Valdomiro Santiago), Igreja Internacional da Graça de Deus (RR Soares) são algumas das opções no mercado evangélico. Do lado Católico, temos algumas comunidades e movimentos, cito a CN (Canção Nova, fundada pelo Monsenhor Jonas Abib) e a RCC (Renovação Carismática Católica), ambas xerocópia do movimento neo-pentecostal.

Enfim, para finalizar essa cena, uma vez que as cortinas do show ainda não encerraram-se, devemos ter sempre em mente o livre-arbítrio, seja ele alicerçado pela nossa fé, pela nossa experiência de indivíduo em sociedade ou em ambas as situações. Sempre haverá um mentor para cabular a mente das pessoas porque nem todas estão preparadas para filtrar o conteúdo das mensagens enfadadas e deturpadas. A messe é grande, os operários são poucos, a matilha cresce deliberadamente e no momento existe um crescente número de lobos cercando ovelhas e conduzindo-as para um determinado pasto.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu bom ateu


Andarilha pelos becos à procura
Das indigências expelidas pela realeza,
A besta sociedade que se endeusa de poder,
E toma para si as graças terrenas da sorte
Como os nobres romanos divinizados pelos seus feitos
Aclamados e glorificados feito deuses

Andarilha pelos becos à procura
De toda gente sem sorte
De quem sobrevive à margem real
E cura com lágrimas e sangue
O câncer de cada faminto andante
No abraço desmedido e sem barreira

Andarilha pelos becos à procura
Do Deus da nobreza que salva a realeza
E pune a massa escalpelada e empobrecida
Vira as costas pra miserável fome
Esquarteja e maltrata a quem não o teme
Desqualifica o maldito por ser pobre e sem vez

Andarilha pelos becos à procura
Um ser sem regras, sem quimeras
Destorpecido das fadadas leis morais
Protegido contra o Senhor vingador
Que a sociedade deturpou e matou
Eis um homem sem o vitimizado Criador
És um santo descrente e sem deus
Andarilha por aí o meu bom ateu

sábado, 16 de julho de 2016

Guerrilha por Deus sem Deus

"Dá-me teus pertences
É Deus que te ordena
Dá-me teus bens
Dá-me teu suor
Dá-me teu sangue
DÁ-ME TUA VIDA!
Não ouses desobedecer
Não atreva-se a questionar
Ele há de castigar os subversivos
Ao fogo eterno do inferno
Portanto, não relute
DEUS QUER TUA VIDA!"

É isto que se escuta por aí
É isto que se comercializa nos templos dos algozes
Toca de lobos, forasteiros, carniceiros
Fábrica de massificação
Manipulação de mentes
Ópio maldito
Alienação de famintos

Essa guerrilha moderna
Que se destrava escandalosamente
Em nome de Deus
Jamais teve Deus 
Em seu cerne, apenas bandeiras
Do dinheiro, da ganância, do poder
Em nome de Deus, a exploração inescrupulosa...

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Felicidade para além das regras


Após pensar e escrever sobre o texto anterior, "Relações de antigamente: de essências ou de aparências?", fruto de algumas ocorrências recentes, fiquei sensivelmente tocado a comentar sobre os fatos que comprovam a "Felicidade para além das regras" sob a óptica verídica das pessoas que deram certo em sua segunda, terceira ou décima relação. 

Aos olhos sociais, aqueles que notoriamente também estão sensivelmente atentos a tudo o que acontece na rai soçaite (high society = alta sociedade), ou pra ser mais exato, estão atentos na vida alheia mesmo, uma segunda relação de união não atende aos padrões morais e religiosos pré impostos desde sempre. 

A igreja destina um espaço aos chamados "casais de segunda união". Fazem parte de "quase" tudo o que a santa regra institucional, milimetricamente dogmática, lhes permite. Corrigindo: fazem parte de "quase" nada mesmo! Quase sempre não são bem vistos. Sobram-lhes o serviço mais discreto, braçal por exemplo. Sentar-se à mesa não pode! É uma falsa inclusão, num local que se diz acolhedor, junto à uma comunidade que acredita obter a salvação mantendo-se sob as asas das leis que Deus mandou. E Ele mandou mesmo??? Bem, isso é outra história e já não cabe aqui.

É preciso força para enfrentar as pedras jogadas através dos olhares das pessoas que estão aprisionadas numa relação de aparência e não tem coragem para romper com as regras. A essas cabe-lhes tão somente o altar da crítica à quem ousou ser feliz a seguir os mandamentos e viver na amargura eterna. Muitas relações de vitrine carregam as marcas da infelicidade, do desrespeito e da falta total de amor. Ainda assim, manter-se neste reduto parece-lhes o mais viável.

As destemidas pessoas que investiram o tempo e a dedicação no amor real, desvencilharam-se das amarras ousando deixar uma relação de aparência e, no tempo oportuno, atreveram-se viver numa de essência, merecem tanto respeito quanto quem não quer sair da caverna. O amor está no ar, na livre escolha, com liberdade e autenticidade. Escolhas mal feitas resultam quase sempre em fracasso. Errar faz parte, mas permanecer na escolha errada ninguém merece. Não existe maior condenação do que a infelicidade. Portanto, para isso, é preciso encontrar-se, mesmo que isso signifique romper com o politicamente correto, pois manter-se tutelado sob a pseudo moral é hipocrisia.

Relações de antigamente: de essências ou de aparências?


Lembro bem das palestras que ouvia enquanto participante de grupo de adolescentes e de jovens. Era lindo. Os casais que ministravam eram perfeitamente donos de uma verdade absoluta. Falavam de Deus com propriedade, das regras básicas para a felicidade no amor, respeitando, obviamente, o que deveriam ser normas religiosas, o que eram regras morais para a sociedade e o que era apenas tabu.

Mais de 25 anos se passaram e hoje percebo algumas falhas naquilo que ouvi incessantemente. Conheço e sou amigo de alguns casais que prosperaram na essência da relação a dois. São verdadeiros exemplos. Outros não tiveram tanta sorte e sucumbiram em suas próprias estruturas edificadas sobre a areia. Centraram suas vidas num mundo surreal de normas apenas e plastificaram a relação tornando-a de aparência. De antemão ouso classificar nos quesitos moralismo religioso exacerbado, inexperiência, inocência, falsidade ou hipocrisia, tudo isso fruto de uma exagerada fixação pelas regras doutrinais. Esqueceram de fazer o "céu" valer aqui na terra, sob o teto matrimonial.

Meus avós, que fazem parte dos honrosos casais de antigamente que deram certo, mesmo após a partida de cada um, continuam sendo para mim o maior exemplo de boa relação e superação. Construíram um sólido alicerce, sem frescura, sem muito entendimento doutrinal, mas regado de perseverança, cumplicidade, respeito e amor. Orgulho! Não deixaram nada a desejar aos filhos e netos. Se a descendência não progrediu na questão matrimonial e familiar, com toda certeza não foi culpa deles.

Óbvio que muitos casais que se formaram antes da metade do século passado viveram sob o pilar da aparência social, tão somente. Romper com as aparências era constrangimento, quase um crime que repercutia negativamente entre a sociedade e a família. Existia sim casamentos arranjados e isso não é novidade. Graças a Deus não foi o caso dos meus avós.

Já na segunda metade do século XX, eis alguns exemplos dos quais me refiro no início deste escrito: os casais que pregavam regras de uma perfeita relação mas esqueceram de viver o amor. Focaram nos mandamentos institucionalmente religiosos e moralísticos mas não cederam às boas, pequenas e simples práticas que requer uma relação a dois.

Não quero aqui fazer o papel de acusador aos que um dia estufavam o peito no púlpito a falar do que deveria ou não fazer, certo e errado, bem e mal. Mas, quero sim, mostrar que muitos casais que se formaram longe dos holofotes das religiões também venceram e são felizes até hoje. Portanto, à felicidade e ao amor não cabem regras externas. Vale a intensidade do que se vive, cultivada na essência de cada um, a sós, a dois.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sob condicional


"Se?" Sim. Se, caso, contanto que, salvo se, a não ser que, desde que, a menos que, sem que, etc são conjunções subordinativas adverbiais condicionais, ou seja, aquelas que ligam duas orações, sendo uma delas dependente da outra. A oração dependente, introduzida pelas conjunções subordinativas, recebe o nome de oração subordinada. As conjunções condicionais no caso introduzem uma oração que indica a hipótese ou a condição para ocorrência da principal. Nossa! Uma palavrinha pequena - "se" - expressa tanta coisa!

Mas para que tudo isso? Simples. Apenas para falar das questões condicionais de ordem religiosa que, através das leis que regem os bons modos e os costumes da fé propriamente dita, implicam diretamente na conduta "condicionada" de cada indivíduo promovendo-lhe a salvação ou a condenação. Ou, em outras palavras, a alienação e a libertação, respectivamente.

A visão que a estrutura religiosa mantém é que as pessoas só terão a salvação "SE" agirem conforme a instituição dita. Agindo sob a tutela da santa e pecadora igreja estaremos libertos e salvos. O contrário disso seria a condenação, ou seja, o sentenciamento ao fogo do inferno.

Mas, podemos também pensar de forma diferente. Levando em conta a diversidade de dons, carismas, o livre arbítrio, a espiritualidade e a própria fé, as condicionais que a instituição nos dá nem sempre valem como fonte de libertação e possível salvação. Salvação esta que configura ter direito ao Reino dos Céus. Penso até que a frase de Agostinho de Hipona (Fora da igreja não há salvação!) ao longo do tempo foi muito mais usada para exercer uma pressão psicológica e medo sobre os fieis, do que para mostrar um caminho de salvação através do amor e da caridade. Não só foi como ainda continua sendo usada dessa forma deturpada e bem longe da essência ao qual foi pensada e sentida.

"SE" a estrutura condiciona para salvaguardar o direito à salvação, "SE" ela impõe critérios vários para garantir aos fieis a sua entrada ao Reino dos Céus, automaticamente e na contramão, está criando mecanismos que impossibilitam a liberdade individual e, assim sendo, alienando os fieis. Muitas vezes a mensagem salvífica é transmitida de forma deturpada e o que era pra ser fonte de libertação torna-se um aprisionamento através da cultura do medo. E pessoas com medo de questionar a estrutura tornam-se escravas.

E, novamente utilizando a própria "condicional" sempre manifestada pelos cristãos de carteirinha, onde afirmam que só serão salvos aqueles que cumprirem o que a igreja diz, "SE" a instituição trabalha a salvação através da cultura do medo, ela está promovendo a alienação. Então, implica-me profundamente que, agindo e atuando descarregado de certas regras institucionalmente religiosas, conforme o livre arbítrio que me fora legado, consciente da minha fé e da mensagem cristã que é o amor-caridade estarei promovendo a minha libertação e também galgando o caminho da minha salvação. Condenado está aquele que se permitir ser acorrentado pela doutrinação desmedida.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

sábado, 11 de junho de 2016

Das almas inquietas


A poesia me permite rezar sem nada dizer. Ela me permite também contemplar o místico do mundo. Viver uma espiritualidade libertada de amarras e libertadora por si só. Posso com ela questionar os doutos da fé ou de qualquer outro sistema e contrapor suas metáforas desvairadas. Apesar do risco da medieval excomunhão eterna dada pelos homens do poder religioso, que se consideram no direito de fazê-lo, e acreditam que são detentores da verdade absoluta, e que este poder lhes garante a dádiva de salvar ou simplesmente condenar a quem contrapõe suas ordens, apesar desses pesares eu assumo tais riscos diante das minhas escolhas.

Perguntaram-me se me tornei ateu ou se briguei com a igreja. Nem "a" nem "b". Continuo cristão. Porém, não compactuo com alguns critérios do sistema institucional, tampouco deixo de manifestar meus pensamentos por conta das classificações que podem me dar. Geralmente quem se encoraja para aplicar algum sermão desmedido e sem fundamento apenas repete o que ouviu algum dia. Nada que possa me colocar numa fogueira santa ou num apedrejamento em praça pública.

Viver a inquietude de não se contentar com as coisas impostas é algo para poucos. Não significa estar "de mal com a vida". Pelo contrário, o gosto da vida sem a imposição das suposições condicionadas é melhor e mais apurado. Questionar o inquestionável e ser taxado de subversivo ou herege é um mero preço pela liberdade do pensamento. Minha auto libertação não depende das mazelas regradas pelos homens e seus sistemas entorpecentes.

Quem vive feliz na submissão, sem questionamento, e obediente às regras, se é o que há de melhor para si, que continue. O livre arbítrio deve realmente ser levado ao pé da letra.

Do mais, posso apenas reafirmar que Jesus foi um cara inquieto, subversivo e considerado um blasfemador, pois sua luta foi contra um sistema religioso e político que oprimia as determinadas classes de pessoas, as grandes mazelas excluídas pelo poder.

Outro cara, acusado de ateu por sua liberta forma de pensar, e inquieto em seu tempo, que até hoje nos ressoa com sua ousadia foi Nietzsche. Os puritanos, os tradicionais e os radicais com certeza estufarão o peito para gritar palavras de ordem, em nome de sua arcaica fé. Afinal, classificar Jesus Cristo e o filósofo Friedrich Nietzsche como pessoas inquietas pode ser uma mega heresia. De qualquer forma o pensamento é livre e cada um tem o seu.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Se não há libertação não há salvação


Existe um ápice em que cada pessoa almeja um dia atingi-lo. É uma meta individual. E depois deste, outros virão. Novas dúvidas, novos questionamentos, novas metas, novos horizontes. Porque a vida é feita de conquistas. A maioria das pessoas pensa assim, almejam apenas as materiais. Alguns, que velejam na contramão, optam por conquistas nem tão terrenas assim, reservando-se ao glamour libertário de novos pensamentos apenas.

E o que a liberdade do pensar traz nem sempre está de acordo com as regras sociais, políticas e principalmente religiosas. Ousar pensar por si só, sem a tutela das santas hierarquias religiosas, é um risco grave que atenta contra as dezenas de regras institucionalizadas, estas que visam manter a ordem (ou as pessoas em seu devido cabresto), com enormes possibilidades de excomunhão e passagem direta para o inferno eterno.

Não que as igrejas e religiões são extremamente fontes alienantes, mas longe de serem o único caminho de salvação. Céu e inferno, salvação e condenação, eis as dúvidas que mais afligem os fieis. Toda a promessa e garantia de vida eterna é arquitetada em cima de pensamentos de grandes pensadores e doutores de nossa história. A mensagem deixada por Jesus pode ser resumida numa única palavra: amor. O resto é invenção humana.

E por falar em invenção humana todas as regras religiosas o são, principalmente quando deturpam o legado de "amor" deixado por Jesus e experienciado por grandes nomes da história mundial que lutaram pela dignidade humana com caridade e evidenciaram esforços para uma vida em igualdade. Para quem não segue as ordens à risca, já se auto-condenou. Não seria então, tais regras, apenas um mecanismo para manter os fieis sobre sua custódia religiosa e jurisdição espiritual, uma vez que, sendo a igreja detentora da salvação, fora dela a condenação estaria automaticamente imputada?

Se não há libertação não há salvação, eis um grande princípio que não se discute, tampouco se pratica. E o que as instituições e seitas religiosas fazem, em sua maioria, são manipular as mensagens e incutir um medo desmedido sobre os seus fieis. O medo gera o respeito e dá crédito à instituição. Enquanto houver quem tenha voz capaz de alienar as pessoas em nome de uma denominação, a verdadeira mensagem de salvação estará deturpada. E tenha consciência: isso não é pratica de "amor".

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Esquemas de salvação


Criaram cascas,
Criaram armas,
Criaram regras,
Criaram trevas...
Sim, os homens desta terra.
Coroaram deuses,
Elegeram o deus
Mas desconhecem a Deus
Institucionalizaram a fé
Inventaram modos
Escolheram-se a si mesmos
Como elegidos dos Céus
Promoveram guerras
Em nome da santa paz
Travaram lutas
Visando o poder
Terras, riquezas
E deixaram seu rastro
Devastação, devassidão
Morte e pobreza
Caos sobre a vida
E dentre as ordens 
É preciso respeitá-las
A desobediência leva ao inferno
Um inferno que os doutos desconhecem
E dentre os esquemas de salvação
Ousam pensar em nome de Deus
Tangendo e escolhendo os que lhes provém
Aqueles que submetem calados
Às morais, costumes e leis
A hipocrisia de cada dia
Tem o orgulho ferido
Quando indagada por quem desconfia
E quem não está do lado dela
Está banido para o além
Fadado ao ócio do fogo eterno
E se para fazer parte do esquema
É necessário empanturrar-se do ópio
Ainda prefiro abster-me desse cálice...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Ex-conceito!


Reconhecer-se. Esse é o limite perfeito da própria razão. Nem mais nem menos, nem melhor nem pior, apenas diferente. Bom, o tempo quaresmal é propício e já se faz necessário um novo olhar sobre um escrito que data de 03/12/2012, dia em que exacerbei numa crítica ironicamente satirizada tentando achar certa graça na razão que me faltava. Na imagem que seguia o texto de poucas linhas o rosto do Mussum (dos Trapalhões) numa fantasia de Mestre dos Magos (da Caverna do Dragão). O título: "Consulta o Mestri dos Maguis". Uma crítica nada velada. Razões temporais que algumas vivências me levaram a crer que eu estaria correto nos pensamentos. Não. Hoje vejo que não mesmo. Por isso, um novo escrito com o título "Ex-conceito" pra deixar claro que reconheço os meus limites e que na data passada eu os extrapolei. Tive sim, como já disse, motivos vários para escrevê-lo e que hoje não vêm ao caso. Naquele momento eu não poderia englobar a todos na minha forma de pensar em virtude de um fato isolado. Pensei também em simplesmente apagar o texto passado mas muitas pessoas o leram. E é pra esses que eu me reescrevo com um sincero pedido de desculpas. A crítica era diretamente para os que vivem pulando de religião em religião, coletando o que melhor lhes convém. E?! Quem disse que isso tá errado? Na verdade, a minha auto pergunta deve ser outra: "Quem disse que o que atrapalha a vida da pessoa é o fato dela buscar o melhor das religiões ou viver à procura da que lhe faz sentir-se bem?" Enfim, nenhuma denominação é detentora da Verdade nem tem a chave secreta para o Céu, o Paraíso, o Jardim do Eden, a próxima fase, outra vida... 

Segue abaixo o link do texto "Consulta o Mestri dos Maguis" de 30/12/12: 

http://escritosemtempos.blogspot.com.br/2012/12/mestri-dos-maguis.html


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Jesus: sem mito, sem rito


Nazareno, filho de um carpinteiro, Jesus era conhecedor das leis que regiam a sociedade de sua época, por sinal, fortemente marcada pela religião.

Sendo judeu abominou as regras religiosas que serviam muito mais para segregar, sentenciar e excluir as pessoas do que para resgatá-las, acolhe-las e incluí-las.

Ao questionar a maneira que os doutos interpretavam e aplicavam a lei, favoreceu o humano em detrimento dos ritos. 

Chocou a sociedade ao defender a prostituta de um apedrejamento público, ao colher milhos e curar leproso em dia de sábado. 

E se Ele, o nazareno, o judeu, o filho do carpinteiro, o Cristo, questionou as leis de sua religião, descumprindo-as por diversas vezes para favorecer a dignidade humana, por que então usam o cristianismo para continuar fazendo acepção de pessoas e determinar quem é merecedor do céu ou do inferno?

(...)

Essa revolução que Ele peitou na sociedade religiosa de seu tempo custou-lhe muito caro. 

Mataram o homem mas prevaleceu, sem demagogia, a Vida pela vida. 

Sua voz ressoa...


"Denominações que criam leis para adestrar fieis não são religiões." 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Precisa-se: pregadô e cantô



Domingo. Dia em que acontece as mais variadas celebrações religiosas nos infinitos templos que se instauram da noite para o dia. Templos estes que vão desde os casebres mais modestos aos magnânimos palácios repletos de adornos. 

E foi exatamente no dia 22/11/15, que ao passar perto de um desses, escutei a seguinte pregadura, pela voz de um pastor, creio eu: "Precisamos de bom pregadô, de bom cantô (...)". Óbvio que é uma frase dita dentro de um determinado contexto ao qual não tenho conhecimento por completo. Como se diz, peguei o rabo da conversa

Nem sei na verdade o que de fato comentar sobre. Me esforço para ampliar os horizontes dessa frase e assim tentar entender a cabecinha do homem que verbalizava na tribuna. Em vão. Havia eloquência na pronúncia, tipo aquela que se vê e escuta nos shows milagreiros de fé. Nenhuma novidade nisso, uma vez que a maioria das denominações cristãs tem em seu portfólio o mesmo discurso, as mesmas práticas, os mesmos produtos que ao final ultrapassam o absurdo. Um absurdo sem a devida Graça. Apenas... show, onde a fé é o produto, os fiéis são os clientes, e quem não conhece que compre! 

Quem estiver qualificado para essas vagas de pregadô e cantô enviar curriculum vitae ou comparecer pessoalmente no local mais próximo de sua residência. 

A gente perde o amigo mas num perde o comentário. Améimmmm?!?!?



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Para onde caminha a igreja católica?



Para o abismo e para o céu. Tudo é uma questão de óptica. Tudo depende de onde se fala e sobre o que se fala. Olhares diferentes sobre o mesmo ponto mostram diversidade, mas também revelam os perfis dos que estão falando de maneira consciente e com conhecimento de causa e os que repetem frases soltas e sem noção de onde estão.

A começar do topo da hierarquia, nota-se que o Papa Francisco tem não só uma visão para as causas mais urgentes da atualidade, mas também, atitudes concretas que possibilitam abertura e diálogo, inclusão e resgate à dignidade da pessoa. O mesmo não ocorre com a elite do alto escalão romano que ainda está cegamente enraizada em suas normas estáticas que não acompanharam o tempo. É visivelmente destoante a linha de pensamento entre tais. A distância é ainda maior no quesito comportamento.

Se a sede romana, de onde parte toda a estrutura organizacional e emana o poder de decisões e ações, não caminha em sintonia, quiçá nos escalões inferiores: dioceses, paróquias, comunidades, pastorais e grupos. Sem contar que, na individualidade de cada católico, existe uma diretriz que lhe foi passada, sabe-se lá de qual forma, e que está arraigada em seu ser. Essa pessoa em si também destoa de todo o contexto hierárquico que vai do local aonde participa até aos pilares da Santa Sé Romana.

O exacerbado preciosismo que algumas tendências fundamentalistas de esquerda ou de direita possuem em suas correntes e posicionamentos é um agravante para as questões da unidade interna. O liberalismo a qualquer custo e o apego às normas acima da pessoa humana se confrontam cotidianamente. Dessa batalha, novas subtendências se criam e se multiplicam. As bandeiras da paz e da unidade permanecem num local inatingível.

Se o abismo começa pelo topo hierárquico, o céu também pode estar mais centrado na base da estrutura institucional. Independente das decisões tomadas lá em Roma é a base que movimenta, sustenta e tem as ferramentas para mudar o cenário pessoal e coletivo. E a base referida, engrenagem viva e operante desse sistema religioso, é a Paróquia e suas Comunidades.

Os procedimentos adotados pelo alto da instituição Católica são digeridos e repassados até suas instâncias de base. O entendimento e aceitação do que vem de cima vai depender da liderança que repassa as informações e principalmente como as repassa. Daí, cada líder vai pintar conforme o seu gosto.

Neste disparate divergente entre polos distintos, abismo e céu, a comunidade católica caminha ciente de um comandante de mãos fortes que se empenha para uma igreja coerente com os ensinamentos de Jesus, comprometida com as causas imediatas e de suma importância como a fome, meio ambiente, vida, família, e noutras vezes cega, surda e muda quando as correntes oposicionistas, por vezes sensacionalistas, insurgem com os velhos discursos farisaicos e fadados de hipocrisia simplesmente porque existe uma lei que "proíbe colher milhos com as mãos em dia de sábado para comer".

Essa não é uma guerra santa. É uma batalha moderna e virtualmente infernal mas que interfere na realidade individual e coletiva. Bem e mal se misturam e trocam de lado conforme suas convicções ou necessidades. A individualidade do ser fica à mercê dos altos e baixos dos lados da mesma moeda, a dúbia igreja de olhares múltiplos com suas nuances para a estética, maquiagem, glamour e status e, em menor proporção e em segundo plano e voz, com outras para a vida, a paz e o bem.

Independente por qual caminho ela vai, simplesmente, ela se vai.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Trilogia picante: Chico, Sarah e Jarbas

24/09/15 - Papa nos E.U.A.: "Se eu sou socialista, Jesus também era."
Eitaaa! Vai ter fundamentalista se revirando no túmulo!
"Herege! Comunista! Marxista! Socialista!" gritavam aqueles que queriam vê-lo condenado... Que em seu papado, Francisco não se esmoreça diante das barreiras impostas pelo poder! É nóis Chico!(Fonte: http://portalmetropole.com/2015/09/papa-nos-estados-unidos-se-eu-sou-socialista-jesus-tambem-era.html)


11/03/15 - A partir da leitura do pronunciamento de um Cardeal: Sarah...
A igreja não faz política? Jesus não fez política? Depende da óptica de quem vê e de onde se está sentado. A igreja foi construída sob pilares políticos. Fato histórico! Jesus foi um grande contraventor sócio-político. Fato bíblico! O Papa Chico está fazendo o quê neste exato momento? Cuba que o diga! Engraçado como algumas estruturas hierárquicas da instituição, ainda em mentalidade medieval, dificultam e dilapidam as tentativas da "igreja" em se tornar realmente acolhedora. Tudo em função de razões humanas, regras dos homens, hierarquia, fundamentalismo...
(Fonte: http://fratresinunum.com/2015/03/11/cardeal-sarah-faco-parte-daqueles-e-somos-muitos-que-nao-permitirao-que-a-pastoral-substitua-a-doutrina/)



23/09/15 - "Eli, Eli, Lamá Sabactâni!"
1º) André Valadão?! Pop-star gospel?! Não curto!
2º) "A minha igreja?!" Ele construiu um templo para si? O Templo do Valadão?! Como o de Salomão, do Edir Macedo?! No momento, não me interessa.
3º) Tabernáculo?! Davi?! Trombeta?! - *@#$% ?! "Jarbas?! Meu pai?! Cê é loko cachoera?" 
(Youtube: "Jarbas, meu pai?" e "Cê é louco Cachoera?"

sábado, 25 de julho de 2015

Brilho e glamour VS um cabeludo língua solta


Um carro é estacionado à beira da calçada do outro lado da rua. Era uma noite tranquila e sem frio. Do veículo apeiam pessoas estilosas em suas roupagens classe média alta. Perfumes chiques se misturaram no ar. Gel no cabelo dos rapazes e maquiagem no rosto das moças davam o ar de uma noite glamourosa.

Abriram o porta-malas e começaram a descer alguns instrumentos. Era uma banda. Logo, um cortejo de fãs atravessou a rua ao encontro dos artistas. Carregaram suas bagagens até o local do show. Uma última olhada no vidro do carro para conferir o ajuste das roupas e pronto. Os cantores e instrumentistas seguiram em meio aos expectadores fiéis com cumprimentos, selfies e autógrafos.

Mas tinha alguma coisa errada! Do outro lado da rua, o destino daquele alvoroço de pessoas, não haviam casas de shows. O que havia era um supermercado, um sacolão, uma loja de ração de animais e uma igreja. Uepaaaa!!! Desacelerei as minhas passadas e fiz questão de observar até que as costas do último dos súditos ultrapasse os pórticos do recinto.

Sim. Era uma igreja. Não preciso dizer qual a denominação porque isso é recorrente em todas, sem exceção. Continuei minha caminhada mas, por hora, pensante na situação que visualizei. Lembrei-me da chegada daquele dito forasteiro, que se tornou conhecido por sua língua solta, ao chegar em Jerusalém montado num burrinho. É, esse Cara mesmo! Aquele moreno de Nazaré, cabeludão, barbudo, amigo das putas, dos ladrões, defensor dos oprimidos e excluídos. Incluamos aqui os gays, lésbicas, transsexuais, e outros.


Não esperei para ouvir o show, nem tampouco ver, pois meu traje era inapropriado e eu estava suado. Na verdade nem sei se teria alguma vestimenta típica para aquele portentoso evento. Também não sei se eu poderia chegar lá na cara dura e dizer: "E aí?! Beleza?! Cheguei! Vim assistir... o que vocês vão fazer aí!" É, não rolaria mesmo!

Então volto para casa inquieto com este contraponto de situações. De um lado um cara com mais de dois mil anos de história e fama que prega amor, humildade, perdão e oferece a quem quer segui-lo que se desapegue das coisas materiais. Do outro um bando de gente que usa o nome desse mesmo cara para alcançar fama, status, nobreza e enfim propor uma salvação deturpada de sua forma original, com promessa de prosperidade material.

Hoje, ao ler sobre uma obra a ser publicada da vida de Rubem Alves, ex-pastor protestante, escritor, poeta, professor, mestre, e que deixou um legado literário, inclusive para a Teologia, considerei pertinente trazer aqui para este enredo um de seus pensamentos: "Sempre entendi que o Evangelho é um chamado a liberdade." E tudo o que não gera libertação é sintoma de opressão e alienação. Ele também usou a seguinte frase na área da educação, a qual acredito, que se encaixa muito bem no campo da religião: "Há religiões que são gaiolas. Há religiões que são asas."

Que ninguém se obrigue a concordar com este pensamento. E tomara que pelo menos incomode ao ponto de outras ideias surgirem. O importante é não se deixar iludir pelo brilho e glamour que camuflam a essência do Evangelho e da liberdade.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A mistura de todas as coisas



Dias atrás recebi essa montagem acima e fiquei inquieto com a intenção de quem a fez e também com a inocência de quem ajudou a propagar. Em tempos de rápida viralização virtual, quanto mais carregada a mensagem, de incitação contra "certas causas", melhor. E assim se procedeu. Meu primeiro contato com a imagem foi num grupo de whatssapp e ao retornar às redes sociais após um período de abstinência pude entender algumas questões.

A repúdia maior, aqui no Brasil, começou quando Viviany Beleboni desfilou crucificada num carro alegórico durante a Parada LGBT de São Paulo no dia 07/06/15. Na placa acima de sua cruz ressaltavam os seguintes dizeres: "Basta de HOMOFOBIA com LGBT". Nem preciso lembrar-lhes que ela é transsexual, uma vez que virou notícia, vidraça e caça dos homens preservadores dos bons costumes (Malafaias, Felicianos, Paulos Ricardos, homofóbicos, preconceituosos e mais um monte de hipócritas dessa estirpe). Os hómes da lei entenderam como um chamamento para a briga. Bom, a pauta aqui não está para defender a protagonista deste enredo, muito menos crucificá-la. Já o fizeram bastante.

Mas, o que mais trouxe repercussão e causou incômodo nas alas conservadoras foi a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos EUA. A partir daí o facebook possibilitou, a quem quisesse mostrar apoio a causa, colocar as cores do arco íris em sua foto de perfil.  Muitas celebridades aderiram. Foi também uma maneira de se mostrar indignado contra os reacionários homofóbicos. O assunto ganhou notoriedade tanto quanto a cultura de incitação ao ódio, provocada pela fala de quem deveria pregar o amor, teve um aumento considerável.

A foto da criança engatinhando, sofrendo pela dor da fome, pode ser do sul-africano, Kevin Karter. Se sim, data de 1993 e foi tirada no Sudão. O fotógrafo que registrou este momento em suas lentes, apesar da foto ter ganhado prêmio em 1994, entrou em depressão profunda e suicidou-se nesse mesmo ano, aos 34 anos de idade. Não suportara o bombardeio de críticas recebidas. Deixou uma carta de suicídio facilmente encontrada na internet. De qualquer forma a foto é tão antiga que muita gente não a conhecia e assim tornou-se novidade nas redes sociais e viralizou pelas vias dos ingênuos, dos inertes e dos regados de consciência mágica.

Então, vem agora o objeto destas linhas, "A mistura de todas as coisas": o que tem a ver "desigualdade social", representada na foto pela fome da criança que se arrasta no chão de terra, com as cores da bandeira que representa o movimento LGBT? Suponho que a intenção é dizer que uma causa que vale a pena lutar (no caso a fome no mundo) está longe dos holofotes, enquanto um assunto de menor significância (preconceito - casamento gay - LGBT) está estampado em várias capas e tem célebres defensores manifestando-se em massa.

Duas situações embutidas no mesmo pacote. Ambas são injustiças, merecem atenção e são de responsabilidade de todo cidadão, principalmente quando se intitula cristão. Mas (...), passaram a régua e soltaram na net. De um lado o discurso adotado é o da necessidade de acabar com a fome no mundo. Na via contrária é outro, pois são disseminados toda a intolerância e preconceito contra quem não está adequado aos padrões religiosos, sociais e culturais impostos pela ditadura homofóbica. Eu resumo como um discurso falido pela hipocrisia.

Nos dizeres da montagem, entendi que a pessoa que a fez, juntamente com todos os que compartilharam, só irão PARTICIPAR na luta da "causa (contra a fome) quando toda uma nação se unir em prol da mesma". Esquisito demais! Enquanto isso vão acomodar o traseiro e esperar. Não irão fazer mais nada por ninguém. Ou "SEJE" (*), pode o mundo acabar, pode o céu desabar, e tudo acabar em pizza que as personalidades de plantão estarão à espreita de um "grand espetáculo".

Enfim, nem tudo é o que parece ser. As personas são tendenciosas e se deixam levar pela primeira impressão visual. São facilmente manipuladas diante de uma imagem montada. Falta, então, um "quezinho" de senso crítico, senão, uma simples questão torna-se uma tremenda confusão. Aquelas velhas piadinhas que a gente aprendeu na adolescência são bons exemplos: "Não confunda: Bife de caçarolinha com rifle de caçar rolinha; Gentileza com gente lesa; A moribunda com amor e bunda; O homem documentado com o homem do cu mentado" dentre outras tantas. Portanto, abre o zóio e analisa sem pavoramento, pois "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa"!



Nota:
(*) Seje = A escrita correta é "SEJA". No texto foi colocado intencionalmente errada.