O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
quarta-feira, 19 de junho de 2024
O jardim
terça-feira, 6 de fevereiro de 2024
Pobreza de espírito x Delírio de grandeza
domingo, 1 de outubro de 2023
De setembro a setembro: refletindo o amarelo em todos os dias do ano
Porém, antes, vale uma pergunta de autorreflexão: *A DOR ALHEIA ME IMPORTA?* Obviamente não sabemos se uma pessoa próxima está passando por alguma dificuldade. Também não conseguimos mensurar o tamanho da dor de alguém, que no momento esteja atravessando problemas de várias ordens.
O que podemos fazer, primeiramente, seria mudar o nosso jeito, ativar o nosso *ser humano* e nos atentar para detalhes que antes não prestávamos tanta atenção. *COMO?* Quando começamos a fazer parte de algum ambiente, lugar, movimento, grupo (trabalho, faculdade, comunidade, bairro, igreja, família, etc), obviamente passamos a perceber as pessoas ao nosso redor. Cumprimentos básicos de "bom dia, boa tarde, boa noite" podem não apenas quebrar o gelo mas abrir possibilidades de aproximação. Perguntar se "está tudo bem" pode não ser nada, não representar nada para nós e simplesmente recebermos como resposta "sim, tudo e você?" Mas, pode ser, que esse cumprimento, seguido dessa pergunta, seja a única coisa positiva que impediu uma pessoa de atentar contra sua própria vida.
Acredito que muitos de nós conhecemos pessoas que tiraram sua própria vida. Talvez não conhecemos de perto mas, já ouvimos falar de conhecidos distantes, pessoas que um dia fizeram parte de nossa vida e acabamos perdendo o contato. As redes sociais nos mantém atualizados, principalmente quando o assunto é tragédia.
*TERÍAMOS NÓS ALGUMA RESPONSABILIDADE SOBRE A VIDA DE OUTRA PESSOA?* Sim e Não. Sim ou não. Cada um sabe de si. E em diálogo com uma amiga, falando sobre suicídio, logo após participarmos de um evento no dia 15/09/23, justamente sobre esse tema, o qual refletimos sobre o filme *ORAÇÕES PARA BOBBY*, chegamos à nossa conclusão de que temos sim responsabilidade e que podemos fazer nossa parte. Novamente: *COMO?* Acolhida, empatia, respeito, etc. Podemos, enquanto seres humanos, fazer um pouquinho a mais nesse sentido. Independentemente de crenças, fé e religiões, a qual acreditamos que todas pregam *AMOR À VIDA E AO PRÓXIMO*, podemos e queremos ressignificar o nosso papel aqui neste plano, no aqui e agora, de forma a contribuir COM A SAÚDE, COM A PSICOLOGIA, COM A VIDA.
Teo ΑΩ
Psic Ψ (acadêmico)
@teologia_para_insatisfeitos
sábado, 16 de setembro de 2023
De setembro a setembro
Um olhar humanamente teológico sobre as pessoas que perderam o encanto pela vida, o sentido da existência e a esperança no mundo. Setembro Amarelo deveria ser uma luta de todos os dias e não somente quando as mídias jogam os holofotes para o assunto. É positivo entrar nessa campanha de mobilização e prevenção ao suicídio. Porém, mais belo do que estampar os perfis de amarelo e cobrir com frases de efeito é necessário se atentar para o nosso papel social enquanto indivíduos de um sistema que oprime, desqualifica, exclui, negligencia e ignora os verdadeiros motivos que têm levado algumas pessoas a pensarem na possibilidade de atentar contra a própria vida e outras, de fato, na esperança de se curarem das dores da alma, infelizmente, executam seu plano.
Se a dor de quem fica é grande, imagina a dor de quem preferiu não viver mais. Não existe covardia nem heroísmo nesse ato, ou, dependendo da óptica, também pode ser ambos. Pecado? Talvez. Olhando pela bíblia cristã, o quinto mandamento diz "não matarás". Sendo assim, tirar a própria vida, segundo a bíblia cristã é um pecado. Porém, ainda segundo a mesma bíblia cristã, não é algo digno de condenação eterna e sem direito a perdão. Esse é um pensamento popular que ganhou força nos redutos das igrejas mas que não tem fundamento bíblico. Segundo o livro sagrado cristão, o único pecado que é causa de condenação eterna ao inferno é o de "blasfemar contra o Espírito Santo".
Se considerarmos as pessoas que dão sua vida em prol de uma causa religiosa, conforme algumas religiões ultra radicais, que as instigam a se tornarem verdadeiros homens ou mulheres bombas, as mesmas são consideradas mártires com promessas e garantias de uma vida eterna e digna no Paraíso, no Céu, etc. Durante as guerras surgiram os camicases que, não tendo mais o que fazer, lançavam-se com seus aviões no território inimigo na tentativa de abater o maior número de adversário possível.
O que difere cada ato de tirar sua própria vida: uma causa, uma esperança, uma promessa, um sentido? Ou, talvez, a falta de cada uma dessas possibilidades ou, todas e mais um pouco? A esperança que um homem bomba tem ao se permitir explodir em prol de uma causa político-religiosa não seria a mesma esperança que uma pessoa, que perdeu seu sentido de viver, tem para amenizar sua dor da alma? Essa última perdeu o sentido da vida, mas está sobrecarregada de dor. Tirar a vida não significa covardia mas, livrar-se da dor que ninguém sabe que existe nela, e por mais que saiba não consegue entender. Como não teremos jamais a resposta sobre o motivo de tal ato, sempre dialogaremos a partir dos relatos deixados de sua caminhada. A cadeira vazia será apenas um cenário de dor e luto por parte de quem ficou sem respostas.
E qual seria o nosso papel social, religioso, político ou simplesmente humano (o mais importante) para contribuir com essa luta de prevenção ao suicídio? Estamos numa era em que as informações que nos chegam são como uma tempestade em nossos pensamentos. Creio que não percebemos mas, muita gente se encontra esgotada mentalmente pelo excesso de informações que são oferecidas aos milhões, minuto a minuto. Esse excesso também pode contribuir para o desequilíbrio emocional, o que afeta diretamente as relações diretas e indiretas de cada pessoa.
A sociedade egoísta que ignora; as religiões com suas regras morais que exaltam as leis em detrimento do ser humano e da vida; as políticas, sejam as públicas que são falhas por conta do dinheiro que se desvia e não chega aonde precisa, sejam os representantes escolhidos pelo voto nos Estados e municípios, que se esquecem do seu compromisso com o povo e legislam em causa própria. Junte-se a isso a falta de recursos para coisas básicas. Muitos "próximos" sucumbem à tentação de deixar de existir num mundo onde não apenas se sentem invisíveis mas são tratados como escória.
Numa pesquisa de trabalho realizado durante o curso de Teologia, nos deparamos com índios da tribo Guarani-Kaiowás que preferiam tirar sua própria vida a viverem fora de suas terras, que naquele momento foram tomadas por latifundiários. A dor de viver fora do seu habitat, da sua casa, e sobreviver nas beiras das estradas, era um dos motivos de desordem emocional e desonra para si.
A dor alheia é algo que não conseguimos mensurar. Seja uma dor física ou, pior ainda, uma dor da alma, aquela que não se vê mas que mexe com todos os sentidos. Para a dor física existem remédios de resolução imediata. Para a dor da alma, existe uma demora para se chegar num ponto satisfatório de entendimento para então, de forma lenta e gradativa organizar as coisas que estão fora do lugar em seu pensamento, em seu íntimo, em sua história e na falta de expectativa.
Enquanto seres humanos, não nos custa levar um pouquinho de alegria, ou no mínimo ouvidos para as pessoas ao nosso redor. Não temos condições para salvar o mundo, mas podemos contribuir dando um mínimo de atenção para aquela pessoa que antes sorria atrás de um balcão e hoje se quer solta um "bom dia". Familiares que passam a reclamar da vida mesmo não faltando nada. Solitários ao nosso redor, regados de silêncio, timidez, e dificuldades de interação, dentre outros tantos, não custa acolher. Acolher no sentido de deixa-la sentir-se vista, notada, ouvida. Não precisa de muito. Um simples "tá tudo bem?" pode ser o essencial para salvar o dia e os pensamentos de alguma pessoa próxima que vive seus dias de tribulação.
Não importa a orientação sexual. Pecado é não amar! E, não há cura para o que não é doença! Antes da piada, antes da crítica, pense que uma palavra pode ser a melhor ou pior coisa que a pessoa com ideação suicida pode ouvir naquele momento e você nem sabe. Não sabemos quantas guerras habitam na pessoa com quem cruzamos todos os dias de nossa jornada. Por isso, empatia e respeito, é a melhor acolhida que podemos dar.
Para quem sempre cita a bíblia, em especial as rígidas leis do Antigo Testamento, eis que me deparo com um pensamento, o qual desconheço seu autor, mas que simplifica e alivia quando me deparo com pregações grotescas e de ódio: "Jesus não voltou durante a escravidão. Não voltou durante o holocausto e nem durante as cruzadas. Mas, vai voltar agora por causa do gênero de alguém."
Uma igreja que não acolhe as minorias e suas diversidades já perdeu seu papel aqui na Terra. Uma política que não cumpre com sua função de bem comum só serve para alimentar os lobos no poder. Uma sociedade que não percebe a dor alheia, já deixou de ser humana com seus semelhantes. E por que esse discurso em meio à campanha Setembro Amarelo? Porque tudo isso pode ser causa, mínima ou máxima para alguém que está desacreditado de si, sobrecarregado de dores, cometer suicídio.
quinta-feira, 13 de abril de 2023
Queda livre
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
Crítica: "Um crime de mestre"
"(...)
Você se atreve a
sair?
Você se atreve a
entrar?
Quanto pode perder?
Quanto pode ganhar?
Se você entrar vai
pra esquerda ou direita?
Vai até a metade ou
nem isso tenta?
Você ficou tão
confuso que começa devagar
Pistas longas e com
curvas e você tem que acelerar
E andar muitos
quilômetros em todo tipo de lugar fútil
Até que chega com
temor a um local ainda mais inútil
O lugar de espera...
A gente apenas
esperar...
Por um trem que vai
partir
Ou um ônibus que vai
chegar
Ou o avião decolar
Uma correspondência
chegar
Ou a chuva passar
Ou o telefone tocar
Ou a neve tocar o
chão
Ou esperar por um sim
ou um não
Ou um colar de
pérolas
Ou um olhar de
relance
Ou uma peruca com
cachos
Ou outra
chance..."
O filme "Um crime de mestre", da Netflix, retrata uma verdadeira batalha
psicológica e de evidências entre o acusado de matar sua esposa e um jovem
promotor que de início estava cegado pela vaidade, mas depois de aprender com
os erros encara seu adversário de forma inteligente. É uma produção digna de
análise e não deixa aquém da expectativa. A trama como um todo é instigante.
Não há muito o que dizer, apenas assistir e se atentar para os detalhes.
Já o poema transcrito acima faz parte
de uma cena emocionante quando o promotor o lê para a mulher do acusado de
homicídio, que se encontra num leito de UTI entre a vida e a morte. Em se
tratando de poema, não importa o gênero do filme ou da série, pois a arte como
um todo tem suas derivações e conexões. Um verdadeiro complemento que eleva a qualidade
da história trazendo reflexões à parte sem desfocar do assunto principal.
Particularmente, toda arte é uma
espécie de poesia, seja falada, cantada, pintada ou interpretada. Vai mais dos
olhos e ouvidos de quem enxerga e se atenta do que do conteúdo propriamente
exposto. Mais um filme que vale a pena conferir
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
Crítica: "Missa da meia noite"
Transcrevo aqui a parte de um diálogo ocorrido a
partir dos quinze minutos finais do 7º episódio da 1ª temporada da série
"Missa da meia noite", da Netflix. Mas antes de dar
seguimento no mesmo e de continuar minha percepção e crítica à reflexão que se
tece pela fala da personagem sobre a morte e consequentemente a vida, a
travessia ou o ciclo, me atenho a dar alguns adjetivos em todo o enredo, porém
com o devido cuidado para não dar spoilers.
O cenário da trama é uma pequena cidade construída
numa ilha afastada do continente. A religião predominante é a católica, com
alguns personagens muçulmanos e ateus. Existem outros diálogos profundamente
interessantes com teor filosófico e reflexivo, tanto quanto questionamentos
sobre a fé e a verdade que muitos buscam e outros mais tentam deter para
si.
Há também a parte fantasiosa sobre o mal disfarçado
numa figura bíblica em que podemos tanto interpretar biblicamente como de forma
analogicamente figurada para a nossa realidade. Tem romance, têm exageros, têm
verdades, tem maldade e bondade tal qual vemos no dia a dia e, principalmente, uma grande pitada de fanatismo religioso que se manifesta pela detenção de uma
verdade deturpada por quem quer poder para controlar os demais.
Uma das coisas que chama muito a atenção nesse diálogo, além do teor profundamente reflexivo, é a interpretação do casal. A concentração e a troca de olhares durante a fala, que é feita com perfeição de entonação e sintonia, consegue nos possibilitar a conexão com cada palavra dita, que de certa forma estabelece uma ponte entre o fictício e o real, a nossa realidade. Vale muito a pena conferir.
*****
- O que acontece?
- O que?
- Quando a gente morre, o que acontece?
- O que que acontece?
- O que acha que acontece quando a
gente morre?
- Falando só de mim?
- Falando por você.
-
De mim... Só de mim. Esse é o problema. Esse é o grande problema da questão.
Esse conceito "eu", isso não existe. Não tá certo. Não é... Não
existe. Como eu esqueci isso? Quando eu esqueci isso? O corpo para uma célula
de cada vez mas o cérebro continua disparando os neurônios, como mini raios,
como fogos ali dentro. Eu pensei que fosse desesperar, sentir medo, mas eu não
senti nada disso. Nada. Porque eu tô ocupada demais. Ocupada demais no momento,
lembrando. Claro, eu lembro que cada átomo do meu corpo foi forjado numa
estrela. Essa matéria, esse corpo é praticamente só espaço vazio no fim das
contas e matéria sólida? É só energia vibrando lentamente. E não existe eu.
Nunca existiu. Os elétrons do meu corpo interagem e dançam com os elétrons do
chão embaixo de mim e do ar que eu não respiro mais. E eu lembro, não existe
sentido onde tudo aquilo acaba e eu começo. Eu lembro que eu sou energia. Não
memória. Não "eu". O meu nome, a minha personalidade as minhas
escolhas, tudo vem depois de mim. E eu era antes deles e eu vou ser depois. E
todo o resto são imagens que eu juntei no caminho. Breves sonhos passageiros
impressos no tecido do meu cérebro morrendo. E eu sou raio saltando ali, eu sou
a energia disparando os neurônios e... Eu tô voltando... Só de lembrar, eu tô
voltando pra casa. É como uma gota d'água caindo de volta no oceano. De onde
ela sempre fez parte. Todas as coisas fazem parte. Todos nós somos partes,
você, eu, a minha filhinha, minha mãe e meu pai. Todos que já existiram, toda
planta, animal, todo átomo, toda estrela, toda galáxia, tudo. Tem mais galáxias
no universo que grãos de areia na praia e é disso que nós estamos falando
quando falamos Deus. O Deus. O cosmos e seus infinitos sonhos. Nós somos o
cosmos sonhando consigo mesmo. É só um sonho que eu penso que é a minha vida,
toda vez. Mas eu vou esquecer isso. Eu sempre esqueço. Eu sempre esqueço os
meus sonhos. Mas agora nesse milésimo de segundo, no momento que eu lembro, no
instante que eu lembro, eu compreendo tudo de uma vez. Não existe tempo. Não
existe morte. A vida é um sonho, é um desejo, que fazemos de novo, de novo, de
novo, de novo e de novo. E é assim por toda eternidade. Eu sou tudo isso. Eu
sou tudo. Eu sou todos. Eu sou o que sou.
*****
Esse diálogo penetrou em meus pensamentos de forma
poética, livre de preceitos religiosos e outros mais. Por isso se tornou belo,
distinto, mágico, independente, uma verdadeira arte final à parte diante de um
contexto que teve seus altos e baixos, ficções verdadeiras e pseudo-realidades.
Me levou a um nível de reflexão além do fictício e do imaginário. Talvez pelo
momento pandêmico que vivemos em comum, que nos traz consequências várias e
tudo isso juntado aos problemas particulares de cada um. Outro ângulo para
pensar é que que nem tudo o que parece é. As coisas são vendidas de forma
bonita, com um marketing pesado por trás. Assim também são as pessoas que se
vendem, ou melhor, se apresentam pela aparência. Elas demonstram ser aquilo que
têm, que possuem. Estamos carentes de essência... de coisas reais... de pessoas
de verdade...
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
Recortes & Rascunhos III - Partidas e Despedidas
O equilibrista
A vida vale a pena
Mas eu entendo a dor e a necessidade
De quem antecipa sua partida
Travessia
Pego o trem
Desta vez da partida
E parto como se já não precisasse chegar
Meu lugar não está na partida
Nem na chegada
Vivo o pouco que me resta
No meio dessa louca travessia
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
Fragmentos de vida e de morte
Seria esse um tema para se discorrer
após a partida antecipada?
Causada pela injusta e cruel
desumanidade e frieza?
Ninguém nunca saberá quem de fato
Ou o que de fato, aconteceu aqui
dentro...
Minha vida sempre será uma incógnita...
talvez!?
Meus amores, minhas dores, em
fragmentos, em porções
Só se revelam por inteiro a quem de
fato o amor merece:
Meus filhos e àquela que me tentaram proibir...
Mas dentro das prisões que nos
cercavam
Nós fomos libertados em cada minuto de
conversa,
De olhar, de encontros
Possíveis encontros que nos
transportavam
Para uma dimensão única
De alegria, de paz, de amor
De deleite e desejo, paixão, de trocas
e cumplicidade
Em que nenhuma atmosfera externa podia
nos afetar...
Dentro dos meus fragmentos eu sou
inteiro,
Eu me refaço, me multiplico
Em doses de amor para quem eu
amo,
Ou em doses de ódio para os meus
algozes
E a ela que jogou o jogo mais sujo
Por ter sido vítima de seu próprio
pseudo-herói
O meu total desprezo
Quem vê apenas meus recortes
Estampados em sorrisos e olhares
Jamais consegue enxergar meus
cortes...
Quantos cortes existem aqui dentro...
Quantas dores,
Quantas batalhas,
Quantas lágrimas empoçadas
Lá no fundo da alma
Que talvez só a dor da morte
Para a plena libertação para vida...
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
Reflexões sobre a vida, suas histórias, suas memórias e a morte
Já não vejo a morte com medo, nem como inimiga que um dia terei de enfrentar. Quanto mais o tempo de vida passa, mais tenho convicção de que estou cada vez mais perto dela. Não é melancolia, nem poesia mas uma certeza tranquilizadora que só a maturidade estabelecida pelo tempo me permite olhar para este horizonte sem medo e refletir sobre toda e qualquer possibilidade.
A morte é um fato a se enfrentar, mas também a vivenciar. Não dá para parar a vida em função do medo que ela pode causar. Deixar de viver é morrer em vida. Pior do que a morte do corpo é passar pela vida sem ter vivido, sem ter experimentado sentimentos que só quem ama é capaz de entender. Família, filhos, amizades, o amor, todo tipo de amor. Amor é doação, é cuidado, é destemido, e capaz de enfrentar qualquer possível algoz, até a morte.
A morte que faz sim parte da vida, como um ato último antes da travessia final, antes do fechar das cortinas. Imagino a solidão do artista quando a cortina se fecha e o plateia se esvazia. O coro de palmas vai ficando cada vez menor, menos intenso até que as luzes se apagam e então é só você, o protagonista e suas memórias. Nada mais. Há quem vá levar adiante suas falas, seus pensamentos, seus gestos e não vai deixar morrer aquele riso. E é isso que te deixará eterno no coração daqueles que você ama em reciprocidade.
E a última morada para o corpo, hoje eu entendo, o cemitério como um recanto de sonhos adormecidos na eternidade. E, como todo sonho, carrega e guarda seus anseios, seus desejos, suas frustrações, seus medos não resolvidos, e romances muitas vezes não realizados bem como histórias de amor platônico, de amizades verdadeiras e de famílias imperfeitas mas alicerçadas de amor. As vezes, me pego a olhar para cada lápide e tento imaginar o que essa pessoa viveu, no tempo que ela permaneceu aqui neste plano, o que ela sonhou, quais foram suas lutas, por quais motivos sorriu e chorou...
Eu sei que o tempo de esperas um dia vai ser de reencontros. Reencontro com quem já se foi, reencontro com as histórias, memórias, com o amor que em vida não se viveu, com as diversas personagens que o meu eu protagonista vivenciou e assim, explicar-me sobre cada ato que até então fugia do texto e do contexto, mas que no final de cada capítulo e de cada ciclo aparecia alguma resposta e uma compreensão.
O tempo caminha para um horizonte infinito de possibilidades. A travessia não se acaba com a morte, hoje sei disso. Quanto mais esse caminho é trilhado, mais próximo eu me sinto dos abraços e afagos de quem precedeu a partida. Se é verdade que quem vai leva um pouquinho de você, tenho certeza de que sentirei-me em casa quando esse reencontro acontecer.
domingo, 17 de outubro de 2021
Levantou e andou
sexta-feira, 14 de maio de 2021
Tempo de adeus
quarta-feira, 5 de maio de 2021
A vida é uma peça
Toda perda é
irreparável
Toda dor é insuportável
Toda morte não é merecida
E por mais que saibamos dessa certeza
Ainda assim ela chega sem avisar
Tira o protagonista do palco da vida
Deixa o cenário vazio
Uma história sem o ato final
E uma plateia em prantos
Ora somos protagonistas
Ora somos plateia
Rimos, choramos
Presenciamos a chegada e a partida
Um dia, essa travessia final
Esse ato último também caberá a nós
Não sabemos quando
Não dá pra improvisar
Não dá pra fugir nem driblar esse capítulo
Mas dá pra viver intensamente
Cada dia, cada cena, cada ato
Da melhor forma possível
A morte é única
E a vida também
Diante de tantas mortes precoces
Por conta dessa pandemia
Uma das lições que fica
É que, independente de qualquer coisa,
Posição social, dinheiro, status, crenças,
Estamos todos sujeitos a enfrentá-la
Perdemos Paulo's, Maria's, João's,
Garis, professores, doutores, artesãos,
Ateus, espíritas, muçulmanos, cristãos
E que de cada perda tiremos uma lição
O que é bom, eterno será em nosso coração
"A vida é uma peça"









