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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A casa sem muros


Quando adolescente eu tinha comigo que no futuro teria uma enorme casa sem muros e sem portões. Deveria ser uma casa aberta, acolhedora, cercada por árvores, plantas e muitas flores. Cheguei a esboçar um desenho numa agenda antiga. Claro, que devido a idade em que esse pensamento me ocorreu, não foi poupado nenhum tipo de exagero no papel que abrigou parte do sonho.

Espaço e natureza, balanços, cachorros, gatos, tudo fazia parte daquele plano juvenil. O fato de não haver muros, ou talvez, não ter portões somente, era para que as pessoas se sentissem plenamente acolhidas ao se achegarem. Creio que isso fazia parte também de minha formação e vivência em grupos de jovens. Os termos "comunidade" e "fraternidade" sempre me fizeram crer num mundo de igualdade. Utopia? Talvez. Mas, graças a essa base, posso me considerar uma pessoa de bom senso e de olhar atento aos detalhes que a vida oferece, detalhes esses que o dinheiro não compra.

O tempo passa e a experiência nos obriga a enxergar a vida de outra forma. Mudamos a forma de realizar os sonhos, mas jamais perdemos a nossa essência. Quem se permite perdê-la, corrompe a si mesmo. A casa, ao contrário do sonho, têm muros e portões mas nossa mente e coração estão sempre abertos e repletos de flores e poesias. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O tempo que me rouba de mim



O tempo, meu amigo traiçoeiro
Tão íntimo, tão frio e faceiro
Usurpa-me sorrateiramente a destreza
E me devolve em lentidão e leveza
Proporciona à frente do meu próprio ver
Uma desatenção a qual sou incapaz de perceber
Deleito-me no sonhar viril
E acordo sem o olhar juvenil
Essa forçosa barganha que ele teima realizar
Reduz o meu cenário e aumenta o meu pensar
O tempo é tristeza e felicidade
O tempo é alegria e saudade
Companheiro na travessia
Algoz no dia a dia
Talvez esse seja o seu legado
Fazer-se presente e velado
Que ajuda a guardar segredos
E a esconder todos os meus medos
Que me aponta os passos mal dados
E camufla as armadilhas do passado
Meu amado e odiado tempo
Feito de eternos e fugazes momentos
Mocinho e bandido que traz e rouba a esperança
Que me faz velho sem deixar de ser criança
Apresenta e instiga-me às trincheiras da guerra
Que ora me consolam e jazem como jardins na terra
Tempo que me segue levando e devorando
Tempo que segue me presenteando e roubando
Sob a luz do meu próprio olhar
A capacidade de seguir e caminhar
Vai me despindo vagarosamente pelas margens
Vai me ludibriando a memória com miragens
Traz-me de volta à difícil realidade
De querer, sem poder, com real dificuldade
Tempo que se torna meu mestre e tirano
Que me torna santo e profano
Tempo que se tornou meu abrigo
Meu refúgio, minha sina, meu amigo
Tempo que se tornara minha única oração
Em que contemplo no silêncio os detalhes da canção

Que o medo da morte não me tire a esperança de viver
Que os apegos e tropeços do tempo não me impeçam de ser
Que eu possa sentir cada vez mais as brisas dessa vida sem fim
Sem deixar que o tempo me iluda, me traia e me roube de mim


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Ela é tão rara


a vida é um espaço entre dois marcos, 
o nascimento e a morte, a chegada e a partida
quem espera alcançar a felicidade no final 
pode não ter mais tempo para desfrutá-la
a felicidade se dá na travessia, 
entre idas e vindas, subidas e descidas, 
montanhas e rios, desertos e oceanos
quem não se atenta para os detalhes, 
dentre os passos ao longo do caminho, 
poderá passar uma vida sem flores, 
sem céus, sem cores, sem amores
um dia, um momento, um piscar
pode conter todas as paisagens possíveis, 
bem como uma mistura de sentimentos
basta fechar os olhos e abrir as janelas
afinal, quem apenas espera 
corre o risco de passar morrer sem ter vivido
a vida é tão rara

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Tempo: solidão e utopia

Já faz tempo...

Tanto tempo faz que as cores desbotaram
Naquela praça já não tem mais crianças
As escadarias foram cercadas com grade
Ali, onde se entoavam cantos 
Nas noites de céu estrelado
Hoje apenas o vazio mórbido
Como sinal de novos tempos
O que sobreviveu está apenas nas lembranças
Nas fotografias recortadas
A utopia, a inocência e a saudade

Já faz tempo... 

Tanto tempo faz que finquei raízes no mundo
Em busca desses novos tempos
Cortei meus sonhos de quintal
Voei de verdade rumo à capital
Mudei de casa, de cidade e de sonhos
Desacreditei dos discursos prontos
E valorizei a simplicidade da inteligência
Mudei meus mundos, meus risos
E senti na pele que tudo enfim muda
Os valores, os conceitos, os amigos
As dores, os amores, e as passadas

Já faz tempo 
Que o tempo não para
Tanto tempo faz
Que para o mundo parar
Meus sonhos tiveram de acordar


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sobre os dias, sobre o tempo

Sobre os meus dias já idos
Recai sempre o pensamento do que não foi
Por vezes esqueço-me dos passos dados
Das tentativas frustradas, tombos e cicatrizes deixadas
A cobrar-me do que poderia ter sido melhor
Essa viagem entre passado e presente
Equilibra-me o ser na humanês em que fui gerado
E chego à conclusão de que quando não ganhei,
No mínimo, eu aprendi a lição e refiz o caminho
Retornei mais maduro e convicto do destino ora escolhido

Sobre a linha do meu tempo
Esmiuçando as lembranças da memória
Inquieta-me a alma essa dor de saudade
Quando a ausência meu peito invade
E me leva aos bons tempos da história
Me faz assim velejar pelas nuvens do silêncio
Ouvindo ao fundo o ressoar das vozes dos meus mestres
E aos poucos aterrizo-me no presente 
Seguindo meus sonhos, meu legado
E compreendo então que a vida bem vivida já é uma vitória alcançada

Sobre o tempo que escoou
Eterna é a saudade que ficou
Imensa é a vontade de prosseguir
Forte é a necessidade em persistir
E por mais que haja dificuldade no caminhar
Fé e coragem me impulsionam a continuar

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Entre poderes e loucos


Essa lei que escolhe a quem servir
Essa lei que escolhe a quem abater
Essa política que segrega e oprime
Esses políticos que trabalham para se manter no poder
Esse país de paralelos
Esse país de poucos
Esse país de mazelas
De marginais poderosos e loucos...
Desconstrói-se a esperança dos dias
Comemoram os nobres da corte
Aniquilam sonhos e utopias
Mas o poder mantém os chefões com a sorte
Margens, mazelas, poesias e prantos
Sobrevivem na trama alguns outros poucos
Que desbravam fronteiras com lutas e cantos
E nesse mundão desmedido sobrevivem apenas os loucos...
Vida longa aos loucos!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Senhor do destino


Ela, em seu tempo, vai perdendo suas asas
Tão feliz quanto a certeza de ter voado em liberdade
Quisera eu viver com tanta destreza
Sem ser refém do mundo ou de minhas vaidades

Ah, esse tempo, maldito seja
Endiabrado, infiel, ladrão
Carrega para longe o pensamento
Distancia o coração

Mas não é o tempo, é o homem
Que persiste nas insanas travessias
Na rebuscada investida pelos dias
Desertos, consertos, utopias

Do tempo ao tempo, alegria ou tormento
É o desejo, é a escolha, emoção e razão
Asas que se desfazem pelos céus desta vida
Libertaram-se para o destino da imensidão

É o tempo, chegado o momento
As cores empalidecem sobre a asa
Nada perdura, tudo se eterniza 
E a alma retorna pra casa

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

900 - Descortinando

Começa aqui um longo descortinar
De sair de cena, eis o momento
No silêncio das palavras repousar
Reencontrar-me com o tempo
Abraçar
Sentir...

Pendurar os escritos
Eternizar a poesia
Restaurar o coração
Velejar com ousadia

Já fui de flores
De dores, amores
Temores, ardores

Sem palavra já fiz proeza
Sem vergonha trepei na mesa
Sem cartas venci com destreza

Dos fatos escrevi histórias
Dos sentimentos fiz memória
Das palavras fiz estrepolia
Mas é da alma que sangrou poesia

Salvaguardei-me das instituições
Resguardei-me das religiões
Desprezei a politicaria dos ladrões
E contrapus os charlatões

Aos idiotas compus recados
E palavrões não foram poupados
Mas pros hipócritas que veem tudo errado
Vai pra (...longe...) deixar de ser tapado

Brinquei com a dor e chorei com a alegria
Fiz orações de amor e cantei moda e utopia
Pelos pseudo-doutores da moral já fui condenado
Pelos mestres da lei em fogueira santa fui queimado

Mas sobrevivi aos babacas da hipocrisia  
Destilando sentimento nas entrelinhas da poesia
E os que fazem do poder uma tremenda putaria
Jazem na cova de suas próprias heresias

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Rascunhos de uma utopia


Medos e sonhos de uma flor em vida
Num futuro tão quisto quanto incerto
O olhar da ousadia enlouquecida
Na cruz silenciosa de um deserto

Fantasmas de um destino passando
Guerras e trevas da mais nobre emoção
Vozes sem rima pra sempre ecoando
Na alma, espancada e lapidada, sem razão

Na ladeira imposta a melancolia
Dor que sangra a esperança e constrói
Alcançada a chegada no topo, alegria
Saudade dos passos, ora me deixados, corrói

A dureza inquieta do que se vem lá
Suor e sangue, amor e aprendizado
A pureza perdida, encontrada no olhar
Legado ou destino, coração silenciado

Morrer aos poucos, preço da vida ou dor,
Encontrando na morte o seu artifício
Se viver se faz morrer para as sem razões do amor
Na vida se encontrou o seu sacrifício 

Ora, o artifício da vida é o amor!
Flores no peito e nos pés ousadia
Não há vitória sem dor
Rascunhos de uma utopia...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Impossibilidades humanas

Um mundo sem impossibilidades, como seria? O que edificaria de fato o ser humano? O que engrandeceria sua existência? Um mundo sem guerra dispensaria a utopia? Um lugar para todos que fosse comum evitaria a disputa pelo poder e a morte? A inexistência das diferenças seria passiva de fraternidade e comunhão? Enfim, se não existissem impossibilidades, o amor existiria plenamente? Ou elas são necessárias para que haja o crescimento do ser e a descoberta do próximo? Impossibilidades humanas, talvez sejam parte da sabedoria divina que a tudo concede e permite através do livre arbítrio.

Sobrevivência e vaidade

Na descrença em que o mundo se planta, ser e estar é uma questão de sobrevivência e vaidade. Limiares que jamais cruzam suas fronteiras. A quem é destinado a lutar pra viver cabe um dedo de sonho e crença. Utopia. Além da cerca a vaidade está para poucos e para tais viver é esbanjar-se até repugnar. Mas se tudo é vaidade, até pra quem não é permitido a encontra em alguma soleira. Há quem ame pela vaidade, há quem não ame também pelo mesmo motivo. Deus mesmo se fez vaidade em sua obra de criação, ou seria o mundo uma vaidade Sua? Ele, em seu trono majestoso, a ouvir a canção da lua que se deleita em estrelas e depois chove lágrimas ao mar, diante do resultado de sua obra, deve lamentar-se pelo deszelo que seu fruto têm neste lugar. Mas, se prometeu liberdade, não há que interferir, é o que regozijam os doutores da vaidade. Se bem que pode vir e lutar e que esteja armado e disposto a sangrar. E, se assiste a tudo porque se emudece? Quer que haja resistência pela sobrevivência mas permite o fruto de suas obras se gladiarem até o vermelho manchar a terra. Mostra-Te aos seus e equilibre essa labuta, essa luta, essa guerra a que tanto assistes...