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domingo, 21 de janeiro de 2024

Resenhando com a EJA: projeto tour pela biblioteca



Faltam adjetivos para descrever sobre as linhas que se seguem. Talentos natos irrigados de extrema sensibilidade, conseguiram reproduzir para além de uma simples resenha crítica. Trouxeram o seu olhar clínico, puro, que atravessa o enredo de cada obra e nos retorna em expressões de pura maturidade, responsabilidade e sentimentos vários. 

Para os dias atuais, a leitura já é algo difícil por si só, seja para estudantes, seja para as pessoas em geral. A falta de tempo, os compromissos do cotidiano e até a nossa falta de motivação são alguns dos itens que contribuem para a não leitura. Sabemos, que tanto a leitura como a escrita são elementos que nos promovem a libertação. Libertação de corações, de almas, de sentimentos e de quebra nos possibilita conexões e ressignificações de vida. 

Agora, uma leitura, seguida de uma resenha crítica é algo que está anos luz à frente de qualquer tempo. É preciso reconhecer e aplaudir tais talentos, tais olhares que, quebraram os padrões e se debruçaram na produção de algo tão valioso e sensível quanto essa obra. Diante de tantas adversidades enfrentadas nas lutas diárias, trazer essa obra à público é mais do que necessário, é como hastear uma bandeira de vitória após duras batalhas. 

É preciso que esse projeto continue, com gana, coragem, e muitas vidas envolvidas que se beneficiarão. É urgente que tais talentos, com essa produção, inspirem novas turmas a descobrirem os seus. Parabéns a todas e todos. O início já é agora, o fim um dia virá, mas, como disse Guimarães Rosa "a vida se dá é no meio da travessia". 

Parabéns à professora Heliene Rosa pela iniciativa e pelo belo trabalho que possibilita aos estudantes romper barreiras e estigmas através da leitura e da escrita. E parabéns à escola Mário Godói por propiciar esse espaço de crescimento, interação e arte. 


sábado, 9 de julho de 2016

Um pouco de "Cá de dentro"



Os olhinhos estavam brilhando. Expectativa por parte deles. E eu? Nem dá pra falar, tamanha a minha emoção neste encontro... 

Essa semana fui visitar e levar alguns exemplares do livro "Cá de dentro" na escola em que o Felipe estuda, especificamente para toda a sua turma do 7º ano. Alguns rostinhos já são bem conhecidos pois estão juntos desde o maternal. Fiz questão de fazer uma dedicatória para cada um dos alunos e alunas. 

Pré-adolescentes inteligentes, raciocínio rápido, alegres, brincalhões, respeitosos e com um alto astral maravilhosamente contagiante. Me senti à vontade. Contei um pouquinho da paixão pela escrita e como ela despertou em mim. 

Era aula de português. Não podia ser diferente. Devo muito aos meus professores mas tenho um enorme carinho por esta disciplina e pelos mestres que me incentivaram. A recepção foi simplesmente fantástica por parte da professora, coordenadora e diretora.

Acredito muito que naquela turminha existem talentos em formação e grandes apaixonados pela arte de escrever. Que o tempo conserve a essência e a pureza no coração desses jovenzinhos. Que no futuro as lembranças sejam fontes de inspiração e de muita poesia viva. Ousem!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Superficialização

 (*)

Ao entregar o livro "Cá de dentro" a moça abriu-o e disse que precisava de um lugar assim, como o poema "Apenas um lugar" descrevia, sem conexão com a tecnologia.
De certa forma ta todo mundo perdendo o contato, o calor humano.
As relações estão superficiais, virtuais.
As pessoas estão acostumadas com tragédias cada vez mais violentas expostas nas redes sociais. 
Nada mais comove. 
Nada mais emociona.
Estamos numa era de maquiagem virtual.
Todo mundo é lindo.
As declarações de amor explodem por aí, de lá pra cá, daqui pra lá.
Na vida real, nada acontece.
Pessoas distantes que se fazem próximas.
Pessoas próximas que se distanciam.
É a vida.
São as pessoas. 
É a tecnologia. 
É a frieza humana.
Estamos mergulhados na era do superficial.
Pena.
O que será num futuro próximo?
Será?

(*) Foto de uma flor artificial, daquelas que ornam as lápides.

Aos mestres com carinho - III



Professor. Professores. Então, após dar um passeio no tempo e recordar com saudade sobre os primeiros passos da alfabetização mergulho no presente dessa semana. Dois momentos ímpares que me fizeram pensativo. Ainda mais. Agradecido também.

Segunda feira, último dia de novembro. Estávamos na cantina da faculdade, eu, alguns amigos e o professor Márcio Fernandes, doutorando em Filosofia na USP, que abre o livro "Cá de dentro" e nos lê o poema "Ecos do Tempo". Indescritível a sensação de ouvir o seu pensamento recitado pela boca de um Mestre. Interessante o sentimento que ele depositou ao encontrar-se nessas linhas. Gratificante tudo isso.

Já na terça feira, primeiro dia de dezembro, aconteceu a última avaliação do 5º período do curso de Teologia. Ao me dirigir para entregar a prova o professor Antonio Jacaúna me disse que precisava de umas "Doses diárias" de poesia, de Drumonnd, Quintana. Imaginei que sua vontade tivesse sido despertada ao ler alguns dos meus poemas. A surpresa maior foi quando ele olhou em meus olhos e disse "escrevo porque escrevo". Assim caiu a ficha que ele estava literalmente me dizendo frases do meu livro "Cá de dentro". Fiquei sem palavras e só soube sorrir desconcertado. Gratidão!

No texto anterior citei as minhas primeiras professoras. Neste, comentei sobre dois professores do meu atual curso. Em comum, eu estava apenas escutando. E justamente por isso a frase do Rubem Alves no final deste escrito. Creio que a mesma surpresa ao conseguir escrever e ler as primeiras letras se deu neste outro momento que ouvi minhas poesias recitadas em outras vozes.


Minha admiração é eterna por todos os professores. Admiração! Óbvio que empatia é algo à parte que não se impõe, apenas flui natural ou não.  Encontrei profissionais, mestres, doutores aos quais tive a oportunidade de partilhar meus escritos. A todos vocês, professores do curso de Teologia, que dividiram momentos ímpares em nosso espaço sagrado, simplesmente meu muito obrigado!



sábado, 5 de dezembro de 2015

Aos mestres com carinho - II



Professor. É arte. É dedicação. É amor. Há quem assim nasceu. Dom total. Há quem se esforce para ser bom profissional nessa arte. As vezes dá certo. Em sua maioria não. 

A experiência dessa semana me remeteu ao passado. Começo então pelo passado para achegar-me ao presente. Antes de aprender a ler e a escrever a gente ouvia o professor ensinar. Há também quem teve um apoio extra em casa para o início da alfabetização mas nada comparado aos professores. Esses são mágicos, místicos, tem poderes. Creio que a tarefa mais difícil se deu no pré e no antigo primeiro ano. Minhas professoras foram Márcia Leão e Leni, respectivamente.

O que se via na lousa da Escola Moreira Porto não passavam de rabiscos. Era interessante, legal, e por vezes complicado fazer o contorno adequado conforme cada letra desenhada no quadro. Os primeiro garranchos eram os piores. Muito tempo depois eu me recordo com saudade daquela época, das artes e dos meus ídolos. Sim, são ídolos. E por ter tido o privilégio de tê-los em minha vida, em vários momentos quis fazer o que eles fizeram: ensinar com arte e amor. 

Mas, hoje concluo que talvez não seria uma boa ser professor. Não quero ser ídolo. Quero tê-los apenas. São únicos e a eles me reverencio toda vez que penso na minha história de educação escolar, quando os encontro e também nas possibilidades que a vida me proporciona de conhecer outros mestres nessas doces travessias. 

Gratidão eterna!

* Continua no próximo sobre o "presente".




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Descontruções


E neste processo
Quem tá longe se faz perto
E quem tá perto
Não te quer sentindo
Tantos amigos que eu ganhei de novo e sorrindo
Tanta gente que chegou saindo

A gente espanta
Com essa coisa braba
De quem não quer nada com nada
E não se perde a oportunidade
De usar a língua com vontade
Solta o verbo e não se cansa

Desconstruir-se faz sentido
Eu que já fui encontrado
Vou me fazendo perdido
E buscando razões em outros lados
Escrevendo certo onde tava errado
Retornando em terra que já fui banido

Minhas desconstruções serão eternas
Se Deus quiser serão
Enquanto estiver bem das pernas
Vou reaprendendo a desamarrar
Onde o ensino foi imposição
Vou reconstruir com outro olhar

A certeza certa e imediata
É não se limitar atrás do muro
Deste lado o cego-surdo-mudo
Segue a sua trilha obediente
Precisa agora de um destorpecente
Pra encontrar o rumo de sua jornada

Sigo a vida navegando
Em outras águas me encontrando
Beijando em sonho a minha rosa
Fazendo verso, tramando prosa
Sobrevivo à guerra sem razão
Reaprendendo em minha desconstrução

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Águas profundas

 

Ousar.
É um risco.
Fincar os pés na areia e não partir também é.
Manter-se firme no reduto conhecido, por medo das ondas, é uma opção.

As águas são perigosas mas, também, são apaixonantes, viciantes.
Somente através delas se pode conhecer outras terras, outros céus, outros saberes.
Porém se, por medo dos riscos, não se ousar, a sentença é morrer intacto.
Intacto na inexperiência, no saber restrito, no sonho não contemplado.

Há quem consiga apenas molhar os pés nas águas, mas quando a onda vem mais forte, afasta-se.
Há quem tente ir mais além e ao se dar conta da distância da terra firme, o desespero o sucumbe a voltar.

Há então os que se lançam em águas mais profundas, superam as ondas, conhecem outros mares, outros ares, outros saberes, novos recantos.
Estes não se cansam das águas, nem do tempo e das dificuldades, uma vez que o que se adquire quando se lançam são, no mínimo, uma experiência e um conhecimento novos.

A dificuldade encontrada por quem não se permite experimentar novos saberes, nem ao menos se quer conhecê-los, se dá pela diretriz incorporada de que não existe nenhuma outra verdade que aquela que adotou para si.

Lançar-se em outras águas não significa negar sua origem ou abominar o que lhe incutiram.
Ao contrário, é dar-se a oportunidade de agregar outros conhecimentos e experimentar outras fontes.
Fundamentar-se em seu reduto consagrando-o como único viés plausível e capaz e desprezar o que não se conhece, é prática fadada ao ócio por medo.

Ninguém se constrói sozinho.
Arriscar é preciso.
Ousar, mais ainda.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Padre João e a pedagogia do amor-doação


Das lembranças do tempo de catequese, uma que não sai da memória é a do Padre João. Italiano, seu nome mesmo era Giovanni Murazzo, mais conhecido e reconhecido como João. Suas missas tinham um "q" de especial para a criançada. Eram lotadas sempre. O motivo era que ele fazia com que prestássemos atenção nas leituras e no Evangelho e durante a homília fazia perguntas. Quem respondesse certo ganhava um santinho. Guardei muitos santinhos dessa época.

Isso dava certo. Não sei se hoje, essa mesma pedagogia para fazer com que as crianças e adolescentes sintam-se parte da comunidade e realmente participem da Celebração teria o mesmo êxito. 

Seu linguajar, sua forma de anunciar a Palavra atingia a todas as idades. Não havia quem não o conhecesse, fosse por seu carisma, fosse por sua doce e acolhedora forma de saudar, fosse pelas Celebrações e os santinhos, fosse simplesmente pelo nome... Pe. João era sinônimo de alegria, de participação ativa, diálogo...

Numa Missa de quarta feira, as dezenove e trinta horas - Comunidade de Nossa Senhora Aparecida (Vila Cantizani - Piraju - SP) - como de costume, ele chegou com boa antecedência. A Igreja ainda tinha a famosa e saudosa escadaria, que para os padrões de hoje não auxiliava aos portadores de necessidades especiais, muito menos as pessoas de idade que ali frequentavam. Subindo os primeiros degraus um menino entre dez e doze anos veio em sua direção e pediu dinheiro. Ele sentou ali mesmo na escadaria, deixando sua maleta e sua batina de lado e começou a conversar com o garoto. Aos poucos outras crianças foram se juntando. Várias rodas se formaram ao redor do Pe. João para ouvir as mesmas parábolas que Jesus contava. Sua expressão cativante e amorosa trazia as pessoas para perto, principalmente os pequenos. Um verdadeiro Dom Bosco contemporâneo.

Nos encontros da Vivência Cristã de nossa comunidade eu sempre era escolhido para participar de uma certa dramatização protagonizada por ele mesmo. Não lembro o contexto nem o motivo, mas lembro que ele me virava de ponta cabeça e caminhava comigo ali, segurando minhas pernas como se eu fosse um instrumento de semear, a cada passo minha cabeça tocava levemente o chão. Era engraçado...

Um dia ele teve de partir. Fora designado para outros lugares. Eu, nós, a comunidade e a cidade já amargava a futura caminhada com a ausência do nosso querido João. Haviam outras crianças, outros jovens e adultos, outros idosos que também teriam o privilégio de tê-lo como pastor. Nós, chorávamos sua partida.

Mais uma vez caio no mesmo pensamento: "as coisas quando são realizadas com amor, o resultado obtido é sempre melhor que o esperado." Sei que ele talvez nem se lembre da minha pessoa mas eu sei e mais uma vez carrego, não suas palavras, mas sua forma de viver aquilo que se prega. Sua vida foi e é o seu testemunho vivo de amor-doação.