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quinta-feira, 13 de abril de 2023

Convenção nos autos da praça V: hipocrisia social



A praça versus a hipocrisia social. É lógico, é óbvio, que se houvesse um real interesse de todas as partes, o salário dos políticos e a riqueza das igrejas ou a arrecadação do dízimo de um mês estancaria a fome. Mas as classes altas precisam da pobreza porque senão não conseguem se manter no topo. Isso é o óbvio da questão. É a pobreza que sustenta o topo da pirâmide. E a base da pirâmide tem que ser forte e pra ser forte tem que ter muitas cabeças pra sustentar. A base é uma sociedade à parte, independente e forte. Na verdade pra sobreviver ela não precisa da cúpula. A base da pirâmide é auto sustentável e não se dá conta da força que tem. Pra se dar conta dispenderia de muita organização e aí que a classe alta volta a ser influência dominante. Cedendo migalhas pra mínima sobrevivência sem dignidade da classe baixa. Só são mostradas as drogas que vêm de baixo, mas o que a classe alta dominante usufrui, compra, manipula, orquestra e vende e trafica não é mostrado. Usam as mazelas pra dizer que só la existe a corrupção e pobreza, mas jamais mostram a podridão que vem de cima. Hoje mesmo um carro parou e uma pessoa desceu para comprar droga com os habitantes da praça... O carro era de alto nível... (05/01/22)

terça-feira, 16 de julho de 2019

Possessão ou obsessão demoníaca?

Foto / Reprodução: Canção Nova

Bom, o assunto é delicado, polêmico e causa espanto e medo principalmente no público leigo. Quando se fala sobre possessão e manifestação demoníaca muita gente lembra do filme O exorcista. Eu, particularmente, não gosto do gênero, portanto não fiz questão de assisti-lo. Mas, deixando a ficção de lado, o tema esteve em pauta nas redes sociais após um episódio que marcou o final de semana dos fiéis que acompanhavam a celebração da missa, pelo Pe. Marcelo Rossi, num evento da CN (Canção Nova), no último dia 14/06/19. Uma mulher subiu ao palco e empurrou o sacerdote que caiu mas não teve nenhuma lesão grave, segundo o que ele mesmo relatou após o incidente.

Além de acompanhar pelos noticiários na TV também participei de algumas discussões na página de alguns amigos pelas redes sociais. É um absurdo ver o quanto as pessoas distorcem os fatos e dão seus vereditos sobre o ocorrido, mesmo não tendo conhecimento para tal. Muitos lacraram: "É o demônio agindo!"; "A mulher estava possuída pelo demônio, mas o padre é um ungido de Deus."

Graças a Deus o empurrão seguido do tombo não impossibilitou o padre de dar continuidade à missa no evento. Ato nobre o dele de não querer registrar B.O. e sua fala de "perdão" para com a mulher. Melhor ainda que não houve nada grave além das pequenas dores locais, conforme já mencionado anteriormente.

Por outro lado, eis a frase do padre Marcelo Rossi que deu um leque de interpretações: “Amados, vocês viram como o demônio me odeia”. Bom, não precisava estar lá para fazer uma simples interpretação ou correlação das coisas. Uma pessoa tão midiática como ele ao proferir tais palavras deixa a entender que tal ação foi motivada pelo demônio que pode ter usado aquela mulher. Manifestação demoníaca? Logicamente houve um alvoroço obsessivo para acreditar que sim. 

Ora, há um grande abismo entre transtorno psiquiátrico (o que já ficou esclarecido pelos familiares e conhecidos da mulher) e possessão e/ou manifestação demoníaca. A própria igreja tem uma vasta gama de documentos que discorrem sobre o tema. Agora, o que está em pauta é o exagero dessas grandes instituições (CN, RCC e afins) e celebridades religiosamente midiáticas em querer dar um veredito sobre o assunto, sem antes ter um respaldo legal, no caso, o de um médico.

Essa obsessão de que tudo é obra do demônio só serve para engrandecer os negócios, mas de uma outra forma. Assim como se criam certas doenças para vender os remédios é necessário inventar demônios para vender a cura e os produtos da religião. Precisa-se de um capeta para vender o desencapetamento. Sei que isso é polêmico e talvez entendam até de maneira simplista. Mas, mais simplista do que a grande massa manipulada dar um aval patológico, psicológico e religioso, mesmo sem ser psiquiatra, psicólogo ou sacerdote, não tem. 

No Doc. de Nº 53 da CNBB - Orientações Pastorais sobre a Renovação Carismática Católica - especificamente no item número 67, segue: "Poder do mal e exorcismo: Cristo venceu o demônio e todo o espírito do mal. Nem tudo se pode atribuir ao demônio, esquecendo-se o jogo das causas segundas e outros fatores psicológicos e até patológicos." Nem os próprios carismáticos, muitos deles, não se dão ao trabalho de ler e estudar sobre o assunto. É de uma irresponsabilidade tamanha afirmar sobre certas questões sem o devido conhecimento... 

Lembrei-me de um fato, que presenciei, e que agora já virou causo (rs). Voltava da faculdade e me deparei com várias pessoas no meio da rua em volta de uma mulher que estava deitada. Havia ali um pastor com um bíblia na mão e gritando, daquele jeito que todos já imaginam, palavras de ordem para que o demônio deixasse aquele corpo. Sugeri para levarmos a mulher para a calçada e imediatamente liguei para o Corpo de Bombeiros. Não se passaram nem 5 minutos e o pastor liberou a mulher "enferma" dizendo que ela já estava curada. Ela mal conseguia ficar sentada no chão, mas o religioso afirmava que ela poderia entrar para sua casa. Nesse momento eu disse que o Bombeiro já estava chegando e que era necessário uma avaliação. Ainda assim o homem com a bíblia na mão tentava lacrar com palavras do tipo: "eu já libertei ela"; "não tem mais demônio perturbando ela"... E por aí vai. Salientando que ele usava sempre o pronome "EU": eu fiz, eu aconteci!!! Os bombeiros chegaram e começaram os procedimentos. Enquanto isso conversei alguns minutos com a mãe da mulher enferma e o que descobri foi: "O demônio dela é cachaça, meu filho. Ela tá bebendo desde cedo porque eu chamei a atenção dela." Só informando que já eram umas 23 horas no momento do ocorrido. Enfim, ela tomou uma injeção de santa-glicose, foi para o P.S. onde passou por umas sessões de "soro-santo" e ficou curada desse capeta de cachaça, ou cachaça do capeta. O pastor, ainda todo pomposo, com sua bíblia debaixo do braço, foi-se embora afirmando que tinha expulsado o "demonho". "Questães de interpretaçães."

E depois de tudo, eis que fica a seguinte pergunta: será realmente possessão demoníaca ou mais uma situação de obsessão por demônios por parte da grande massa manipulada e induzida à tal conclusão?

No link, segue uma das matérias veiculada na mídia:

https://veja.abril.com.br/brasil/mulher-empurra-padre-marcelo-rossi-de-palco-durante-missa/?fbclid=IwAR151Von-NItkifZsYPuESU-TWTOM90Ie2BkcL_dZm6sHc6K3HBW8ccVzkE

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Fé sem fronteiras


Cheguei ao ponto em que considero a religião como um caminho sem fim e isso pode soar agressivamente de forma negativa para algumas pessoas mas, após análise mais aprofundada, pode-se considerar a expressão como positiva, também.

Ao desmistificar algumas situações que foram impostas a partir de uma educação familiar e, posteriormente, social e cultural, numa tentativa de alicerçar para uma fé cristã, o que de fato ocorre é praticamente uma ditadura educacional que contribui, em grande escala, para uma alienação sem precedentes.

Fui forjado no meio católico e, neste, tive a oportunidade de conhecer vários seguimentos, inúmeras teologias, incontáveis ações pastorais e milhares de movimentos de massa. Raros, porém, são as pessoas que optam e operam numa linha de menor expressão midiática. Sendo assim, movimentos de massa tem uma larga vantagem no quesito "atrair adeptos".

Adentrando num terreno mais complicado, acredito e assim compreendo facilmente que Jesus de Nazaré em nenhum momento deixou explícito, tampouco implícito, ao mundo em geral, durante e pós sua época, para que as pessoas seguissem o judaísmo que, não por acaso, era a religião que predominava naquela região e naquele tempo.

Jesus era judeu e seguia o judaísmo, entretanto, não hesitou em apontar as hipocrisias religiosas, os exageros da lei, a corrupção política, esta que andava de conluio com a religião. Em suma, lutou contra a instituição corrompida por detrás dos panos da religião protegida pela política e vice-versa.

Sendo assim, se fosse pra ser radical no sentido de seguir a Jesus, o correto seríamos optar pelo Judaísmo, porém, se o revolucionário homem de Nazaré criticou as atitudes miseráveis e deploráveis dos poderosos religiosos, então significa que tal religião também não era perfeita e continua não sendo, assim como todas as outras, até os dias de hoje.

Acredito mais além, que Jesus tentou implantar sim uma outra religião, totalmente desvinculada da religião institucional. Óbvio que não abandonou o Judaísmo, mas lutou para libertar as pessoas de todas as amarras impostas pela religião e pela política. Sua religião não precisava de templos, apenas baseava-se na doutrina do amor.

Amor, não apenas como sentimento, mas num contexto mais amplo que abrange respeito, justiça, lealdade, honestidade, caráter, integridade, idoneidade, esperança e fé, no mínimo. Se Deus é amor, as religiões de outrora e principalmente de agora estão no templo errado.

Não carrego mais o fardo imposto de uma religião à qual fui educado, e de certa forma, ainda vejo muita gente impondo obrigações surreais através de leis geradas antes mesmo da idade média e tudo isso em nome de uma fé cega. Se sou cristão? Sim. Se ainda me considero Católico? Sim. Se sigo cegamente tudo o que alguns "doutrinadores vendilhões" dizem, berram e postam por aí, baseado no que chamam de santa doutrina? Jamais!

Se seguir a Jesus Cristo é ser cristão, então eu sou. Mas sou no sentido de buscar cada vez mais a compreensão de suas palavras e atitudes que remetem sempre ao sentido mais amplo da palavra "amor". O catolicismo é antigo, mas não tanto quanto o judaísmo, e posso considerá-lo uma mistura de simples e complexo, arcaico e progressista, antigo e novo, aberto e fechado no quesito de acompanhar a evolução humana ou se fechar nas leis de um passado distante. Há quem viva, mata ou morre, em nome das santas normas institucionais, apenas. Não é o meu caso.

O catolicismo em si, por sua complexidade e amplitude, consegue abarcar várias correntes de pensamentos e interpretações. Aos poucos, cada um vai se moldando conforme e de acordo com suas convicções e ideais. Esquerda, centro ou direita, tradicionais, conservadores ou libertários e assim por diante. Vários caminhos, várias opções que, numa forma mais simples de pensar, levariam ao mesmo lugar. Sim. Pode até ser. Só muda o que cada uma dessas vertentes é capaz de realizar por sua fé e em nome de Deus.

Isso está muito longe de ser uma revolta. Considero e posso justificar de outra forma: desconstruir-se; desapegar-se; ampliar os horizontes; reconstruir-se sem amarras, sem mordaças, sem preconceitos, sem alienação. Há sim uma indignação e é muito mais por conta de atitudes unilaterais e radicais repletas de preconceito e julgamentos descabidos e excludentes, movido por um fanatismo que cega.

Não é intenção causar embaraço e nem incentivar para que as pessoas deixem suas religiões, pois cada um vive sua fé e sua religião como bem entende. Ao contrário, creio que serve, no mínimo, para que tomemos coragem de buscar conhecer o terreno religioso que pisamos, suas regras, suas missões e principalmente suas intenções.

Papa Francisco é um seguidor nato dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Luta contra a instituição por detrás da religião. Sua forma de levar o evangelho, viver sua fé e ainda hastear sua bandeira católica não o faz extremista, nem imprudente, tampouco ousa dizer que somente dentro da igreja haverá salvação. Ele merece o respeito devido!

Do mais, para mim está mais claro enxergar a essência por trás da aparência e assim procuro distinguir através das intenções explícitas na instituição e em seus porta-vozes. Se a religião não proporciona uma libertação e assim contribui para a vida plena do ser humano em si mas cria regras e por consequentemente um aprisionamento através de uma alienação velada, nesse caso, não cumpre seu papel original. Deus não é religião. Jesus não é religião.

terça-feira, 27 de março de 2018

Apocalipse: caos sem calmaria


A desordem necessária que se instaura na escuridão da consciência maldita

Que produz efeitos contraditórios em pomposos discursos falaciosos

O caos imposto pela tirania egoísta e gananciosa do corrupto poder

Que viciosamente desfavorece as mazelas milenares dessa era

Informações manipuladas de inverdades e propagadas sob os holofotes do púlpito

O altar que já celebrara a morte e a vida agora vislumbra um palco de egos

Castelos de fé que se erguem às custas da miséria humana

Leis que sentenciam o maldito e miserável e absolvem os donos do poder

Falsos sacerdotes que discordam da paz que lhes tira a vaidade

Mundo sem caos que se afunda em sangue sem glória

Calmaria maldita que percorre em veias sistêmicas da cegueira sem razão

Ei Deus, cadê os dinossauros?


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Simples e belo


08/12/16 - Festa em louvor a Imaculada Conceição - 
Paróquia São Gaspar Bertoni - Uberlândia-MG


A Folia de Reis adentrou a igreja e os acordes das violas, violões e cavaquinhos, unidos aos batuques e pandeiros, davam as notas e o tempo para as diversas vozes. A simplicidade das pessoas juntada ao alcance de suas canções extraem sentimentos inexplicáveis... Me leva para um tempo de saudades. As primeiras lembranças são de meus avós. A vó Cida, mãe de meu pai, sempre me contava que o meu avô Benedito participava das Folias de Reis. Eu mesmo nunca o vi mas, ainda assim, cada vez que eu vejo e ouço, é como se eu o visse também...

Encantar-se com a formosura que é o resultado da música, é indescritível. Cada som, de cada instrumento e cada voz que entra em seu determinado tempo é ímpar. Não há ego. Tudo tão simples, e tão mais belo. Contive minha emoção ao máximo ao mesmo tempo que pensava o porquê daquele sentimento. Não tem explicação. A beleza, a simplicidade, a arte, a música, a louvação não está para quem quer e sim para quem se entrega... E esse sentimento, essa sensibilidade me foram dados com amor e carinho avós...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

900 - Descortinando

Começa aqui um longo descortinar
De sair de cena, eis o momento
No silêncio das palavras repousar
Reencontrar-me com o tempo
Abraçar
Sentir...

Pendurar os escritos
Eternizar a poesia
Restaurar o coração
Velejar com ousadia

Já fui de flores
De dores, amores
Temores, ardores

Sem palavra já fiz proeza
Sem vergonha trepei na mesa
Sem cartas venci com destreza

Dos fatos escrevi histórias
Dos sentimentos fiz memória
Das palavras fiz estrepolia
Mas é da alma que sangrou poesia

Salvaguardei-me das instituições
Resguardei-me das religiões
Desprezei a politicaria dos ladrões
E contrapus os charlatões

Aos idiotas compus recados
E palavrões não foram poupados
Mas pros hipócritas que veem tudo errado
Vai pra (...longe...) deixar de ser tapado

Brinquei com a dor e chorei com a alegria
Fiz orações de amor e cantei moda e utopia
Pelos pseudo-doutores da moral já fui condenado
Pelos mestres da lei em fogueira santa fui queimado

Mas sobrevivi aos babacas da hipocrisia  
Destilando sentimento nas entrelinhas da poesia
E os que fazem do poder uma tremenda putaria
Jazem na cova de suas próprias heresias

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O capeta anda mal falado no bairro

Meu bairro é o bicho pegando. Tem de tudo e para todos os gostos. Gente boa, bonita, rezadeira, trabalhadeira e que pega no batente antes mesmo da lua se esconder. Mas tem também a galera da muvuca, das noitadas, das quebradas, da vadiagem, da fuleiragem, os que gostam da marvada pinga, os fãs do cigarrinho do barato doido e os que incorporam o demonho. E o episódio de hoje é sobre um desses possuídos.

As igrejas neo-pentecostais, aquelas da teologia da prosperidade, bem como algumas alas católicas, têm investido alto na implantação da cultura do medo. Capetizando a torto e a direito, vão massificando os fieis sob a tutela de suas exageradas leis e consequentemente propagando a condenação ao inferno quando os mesmos não caem em suas pregações alienantes. A expansão dos templos, com denominações criativamente diversas, é simplesmente fenomenal e a busca por um lugar que contemple os anseios pessoais de cada fiel se caracteriza na constante migração de uma igreja para outra. Na verdade é um cliente que de fiel não tem nada.

A partir desse ponto e com tanta informação sobre o capiroto (demonização, capetização, possuimento), os fieis são portadores de um conhecimento típico dos pregadores despreparados que usurpam a boa fé das pessoas de bem. 

Chegando no bairro, novamente me deparo com umas trinta pessoas na esquina ao redor de um rapaz que, no exato momento, estava seguro por um outro homem. Perguntei para um telespectador o que havia acontecido: "Tá possuído! Tá com o demônio no corpo! Mas aqui não tem ninguém com o Espírito Santo, capaz de fazer ele ficar bom!"

O conhecimento popular não me permitiu hesitar nem por um minuto e já perguntei na lata: "Ele usa drogas?" E foi quando a senhora respondeu: "Tinha parado..." Bom, não sub-julgando e nem condenando (...), mas outro dia uma mulher estava endemoniada na avenida principal aqui do bairro. Enquanto o pastor tentava curá-la eu liguei pros Bombeiros. Ela tomou uma injeção ungida de glicose que a fez reencontrar sua paz. Cessaram os gritos, os coices, as vozes esquisitas, os choros, os risos, os palavrões e ficou somente uma espécie de amnésia necessária, típica de quem bebeu todas e tem vergonha de se lembrar dos episódios passados.

Tomei o rumo de casa e passei devagar próximo às pessoas que assistiam o rapaz, que segundo os especialistas populares de plantão, estava possuído e não havia nenhum ungido ali capaz de fazer uma descapetização. Nesse caso, nada melhor do que uma glicose benta para tirar qualquer encosto e livrar o capeta dos falatórios exagerados. 

"Toca", terrinha boa! Sempre tem um bom causo...

Acredito que em Piraju essas coisas não aconteçam.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Debandada das massas

Primeiramente, há de se pensar na escravidão que assolou o passado histórico da humanidade. Será que realmente o ato de libertação dos escravos fez por onde? Libertou ou mascarou as atrocidades? A libertação foi apenas um marco ou de fato foi um pontapé para que as minorias se tornassem livres e independentes da tirania de seus senhores? 

Além dessas duas questões que abrem as fronteiras da dúvida sobre o que de fato aconteceu na história e acontece mascaradamente na atualidade, numa terceira visão, percebo que os senhores de escravo apenas mudaram de nomenclatura e a escravatura mudou de cara. Alguns, inclusive, usam o nome de Deus para implantar a sua ideologia de vida ou o seu sistema teológico de arrecadação, que depende dos ganhos gerados pela mão de obra escrava, alienada e massificada.

O tempo é sempre o melhor remédio, dizem-nos os mais antigos. E a maior novidade é que "nenhuma novidade se eterniza em primeiro lugar no seleto podium", pois num determinado momento será destronada por outra que será mais completa, mais abrangente. Em suma, o ciclo é rotativo. E essa rotatividade também acontece bem no centro do campo das religiões.

Há algo explodindo neste meio, o das massas. Muitas pessoas já se libertaram da culpa que as religiões mais antigas incutiam-lhes, quando procuravam sustentação espiritual e conforto em outras denominações que não fossem a sua de origem. Os líderes, não poucas vezes, condenavam e condenam os infiéis desgarrados que encontram seu caminho em outros templos. Esse medo gerado no âmbito das religiões já não afeta tanto. As pessoas evoluíram e passaram a compreender mais sobre Deus.

Nosso momento está voltado, principalmente, para o pluralismo religioso. E é justamente nesse ponto que evangélicos e carismáticos perdem força. Por um lado, as pessoas sentem a necessidade de se complementarem-se espiritualmente e nem sempre encontram e recarregam sua fé somente numa determinada religião. Por isso, cresce a busca constante por novidades que superem suas expectativas. 

Em segundo lugar, os eventos neo-pentecostais evangélicos, seguido pelo evento carismático católico, elevaram e resumiram a relação busca-encontro-fé-graça (ou milagre) a um momento de pura emoção. Não que não existam resultados potenciais. A questão é que esse "boom" atingiu uma escala altíssima e, de tão alta, não há mais novidade no que se pode esperar. Em suma, as coisas simples ficaram de lado. Sempre se espera um portentoso encontro ou evento ou culto ou missa em que, ao se derramarem em lágrimas, estará certo de que obtiveram o milagre solicitado. Este encanto tem se quebrado gradativamente.

Há também uma terceira questão em evidência, líderes religiosos que não atingem o seu objetivo e fiéis que buscam sempre mais shows do que a essência das palavras são pontos que também podem levar a evasão da massa das igrejas. 

E, em se tratando de debandada, as pessoas vão adquirindo experiência. Já não é uma palavra gritada pela boca de um líder religioso que tocará seu coração. De uma forma ou de outra, percebo que nesse pula-pula de denominação, elas também agregam conhecimento e, por vezes, desistem de seguir as leis dos templos tecendo o seu próprio caminho de diálogo com Deus.

Seja por qualquer um desses motivos, ou de outros não citados aqui, acredito que esses são passos importantes para a libertação das pessoas frente aos sistemas que tendem a massificá-las. Encerro então com outra velha e conhecida frase: "A Casa Grande pira quando a senzala se liberta!"

"Exija de Deus a sua parte"


Sim! É realmente com essa fala - "Exija de Deus a sua parte" - que o empresário-fundador-pastor da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) ministra suas pregações no altar de seu portentoso Templo de Salomão. Claro que há uma continuidade nessa fala que justificam-se os meios, os seus próprios meios: "...se você, enquanto cristão, fizer a sua." Basta um click no google e você terá um arsenal repleto de falas, mensagens, vídeos solicitando uma ajudinha dos fieis para as obras de seu Reino.

Exigir de Deus a sua parte enquanto o cristão fizer a sua, isenta a instituição e sua teologia de qualquer coisa que não dê certo na vida da pessoa, faz o indivíduo sair debaixo da saia do pastor. É uma jogada de mestre, não podemos negar, mas há controvérsias. A internet está repleta de pessoas que moveram ações judiciais contra a Universal por terem seguido a risca, doado tudo, e ficado na miséria. Por outro lado as falas dos designados bispos estão, além de inovadoras, cada vez mais abusadas. Pede-se cartões com senha, carros, casas, doações com valores altíssimos, dentre outras bagatelas.

Fazer a sua parte, essa é a máxima que os seguidores da IURD devem obedecer, ou seja, parte essa que não significa simplesmente atos de bondade e caridade e amor ao próximo. O objeto dessa fala está diretamente ligado às ações que as pessoas devem ter em relação à sua instituição, cumprindo todos os requisitos espírito-financeiros. Estão eles errados? Digo que não. Alienados, talvez. O que move aquelas pessoas é a fé, além do receio de não obterem a salvação por descumprir os desígnios do bispo Macedo e, ao contrário, ganharem a condenação eterna ao inferno. Mas sendo a fé um elo que liga a Deus, espero que Ele liberte os cativos e oprimidos das garras dos poderosos.

Edir é um cara inteligente, desenvolto, tem feeling para os negócios, visão-audição-lábia-olfato-tato devidamente aguçados. Construiu o seu próprio império, fruto do suor alheio arrancado em suas pregações alicerçadas na teologia da prosperidade. Dono, também, de um crescente e expansivo canal de TV. Sabe muito bem como entrar na mente do seu público fiel e colocá-lo em check com Deus.

Tem outros impérios em evidência por aí. Tomei a liberdade de falar apenas da IURD porque é uma das mais antigas e ainda em atividade crescente. Assembleia de Deus (Silas Malafaia), Igreja Mundial (Valdomiro Santiago), Igreja Internacional da Graça de Deus (RR Soares) são algumas das opções no mercado evangélico. Do lado Católico, temos algumas comunidades e movimentos, cito a CN (Canção Nova, fundada pelo Monsenhor Jonas Abib) e a RCC (Renovação Carismática Católica), ambas xerocópia do movimento neo-pentecostal.

Enfim, para finalizar essa cena, uma vez que as cortinas do show ainda não encerraram-se, devemos ter sempre em mente o livre-arbítrio, seja ele alicerçado pela nossa fé, pela nossa experiência de indivíduo em sociedade ou em ambas as situações. Sempre haverá um mentor para cabular a mente das pessoas porque nem todas estão preparadas para filtrar o conteúdo das mensagens enfadadas e deturpadas. A messe é grande, os operários são poucos, a matilha cresce deliberadamente e no momento existe um crescente número de lobos cercando ovelhas e conduzindo-as para um determinado pasto.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu bom ateu


Andarilha pelos becos à procura
Das indigências expelidas pela realeza,
A besta sociedade que se endeusa de poder,
E toma para si as graças terrenas da sorte
Como os nobres romanos divinizados pelos seus feitos
Aclamados e glorificados feito deuses

Andarilha pelos becos à procura
De toda gente sem sorte
De quem sobrevive à margem real
E cura com lágrimas e sangue
O câncer de cada faminto andante
No abraço desmedido e sem barreira

Andarilha pelos becos à procura
Do Deus da nobreza que salva a realeza
E pune a massa escalpelada e empobrecida
Vira as costas pra miserável fome
Esquarteja e maltrata a quem não o teme
Desqualifica o maldito por ser pobre e sem vez

Andarilha pelos becos à procura
Um ser sem regras, sem quimeras
Destorpecido das fadadas leis morais
Protegido contra o Senhor vingador
Que a sociedade deturpou e matou
Eis um homem sem o vitimizado Criador
És um santo descrente e sem deus
Andarilha por aí o meu bom ateu

sábado, 16 de julho de 2016

Guerrilha por Deus sem Deus

"Dá-me teus pertences
É Deus que te ordena
Dá-me teus bens
Dá-me teu suor
Dá-me teu sangue
DÁ-ME TUA VIDA!
Não ouses desobedecer
Não atreva-se a questionar
Ele há de castigar os subversivos
Ao fogo eterno do inferno
Portanto, não relute
DEUS QUER TUA VIDA!"

É isto que se escuta por aí
É isto que se comercializa nos templos dos algozes
Toca de lobos, forasteiros, carniceiros
Fábrica de massificação
Manipulação de mentes
Ópio maldito
Alienação de famintos

Essa guerrilha moderna
Que se destrava escandalosamente
Em nome de Deus
Jamais teve Deus 
Em seu cerne, apenas bandeiras
Do dinheiro, da ganância, do poder
Em nome de Deus, a exploração inescrupulosa...

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Felicidade para além das regras


Após pensar e escrever sobre o texto anterior, "Relações de antigamente: de essências ou de aparências?", fruto de algumas ocorrências recentes, fiquei sensivelmente tocado a comentar sobre os fatos que comprovam a "Felicidade para além das regras" sob a óptica verídica das pessoas que deram certo em sua segunda, terceira ou décima relação. 

Aos olhos sociais, aqueles que notoriamente também estão sensivelmente atentos a tudo o que acontece na rai soçaite (high society = alta sociedade), ou pra ser mais exato, estão atentos na vida alheia mesmo, uma segunda relação de união não atende aos padrões morais e religiosos pré impostos desde sempre. 

A igreja destina um espaço aos chamados "casais de segunda união". Fazem parte de "quase" tudo o que a santa regra institucional, milimetricamente dogmática, lhes permite. Corrigindo: fazem parte de "quase" nada mesmo! Quase sempre não são bem vistos. Sobram-lhes o serviço mais discreto, braçal por exemplo. Sentar-se à mesa não pode! É uma falsa inclusão, num local que se diz acolhedor, junto à uma comunidade que acredita obter a salvação mantendo-se sob as asas das leis que Deus mandou. E Ele mandou mesmo??? Bem, isso é outra história e já não cabe aqui.

É preciso força para enfrentar as pedras jogadas através dos olhares das pessoas que estão aprisionadas numa relação de aparência e não tem coragem para romper com as regras. A essas cabe-lhes tão somente o altar da crítica à quem ousou ser feliz a seguir os mandamentos e viver na amargura eterna. Muitas relações de vitrine carregam as marcas da infelicidade, do desrespeito e da falta total de amor. Ainda assim, manter-se neste reduto parece-lhes o mais viável.

As destemidas pessoas que investiram o tempo e a dedicação no amor real, desvencilharam-se das amarras ousando deixar uma relação de aparência e, no tempo oportuno, atreveram-se viver numa de essência, merecem tanto respeito quanto quem não quer sair da caverna. O amor está no ar, na livre escolha, com liberdade e autenticidade. Escolhas mal feitas resultam quase sempre em fracasso. Errar faz parte, mas permanecer na escolha errada ninguém merece. Não existe maior condenação do que a infelicidade. Portanto, para isso, é preciso encontrar-se, mesmo que isso signifique romper com o politicamente correto, pois manter-se tutelado sob a pseudo moral é hipocrisia.

Relações de antigamente: de essências ou de aparências?


Lembro bem das palestras que ouvia enquanto participante de grupo de adolescentes e de jovens. Era lindo. Os casais que ministravam eram perfeitamente donos de uma verdade absoluta. Falavam de Deus com propriedade, das regras básicas para a felicidade no amor, respeitando, obviamente, o que deveriam ser normas religiosas, o que eram regras morais para a sociedade e o que era apenas tabu.

Mais de 25 anos se passaram e hoje percebo algumas falhas naquilo que ouvi incessantemente. Conheço e sou amigo de alguns casais que prosperaram na essência da relação a dois. São verdadeiros exemplos. Outros não tiveram tanta sorte e sucumbiram em suas próprias estruturas edificadas sobre a areia. Centraram suas vidas num mundo surreal de normas apenas e plastificaram a relação tornando-a de aparência. De antemão ouso classificar nos quesitos moralismo religioso exacerbado, inexperiência, inocência, falsidade ou hipocrisia, tudo isso fruto de uma exagerada fixação pelas regras doutrinais. Esqueceram de fazer o "céu" valer aqui na terra, sob o teto matrimonial.

Meus avós, que fazem parte dos honrosos casais de antigamente que deram certo, mesmo após a partida de cada um, continuam sendo para mim o maior exemplo de boa relação e superação. Construíram um sólido alicerce, sem frescura, sem muito entendimento doutrinal, mas regado de perseverança, cumplicidade, respeito e amor. Orgulho! Não deixaram nada a desejar aos filhos e netos. Se a descendência não progrediu na questão matrimonial e familiar, com toda certeza não foi culpa deles.

Óbvio que muitos casais que se formaram antes da metade do século passado viveram sob o pilar da aparência social, tão somente. Romper com as aparências era constrangimento, quase um crime que repercutia negativamente entre a sociedade e a família. Existia sim casamentos arranjados e isso não é novidade. Graças a Deus não foi o caso dos meus avós.

Já na segunda metade do século XX, eis alguns exemplos dos quais me refiro no início deste escrito: os casais que pregavam regras de uma perfeita relação mas esqueceram de viver o amor. Focaram nos mandamentos institucionalmente religiosos e moralísticos mas não cederam às boas, pequenas e simples práticas que requer uma relação a dois.

Não quero aqui fazer o papel de acusador aos que um dia estufavam o peito no púlpito a falar do que deveria ou não fazer, certo e errado, bem e mal. Mas, quero sim, mostrar que muitos casais que se formaram longe dos holofotes das religiões também venceram e são felizes até hoje. Portanto, à felicidade e ao amor não cabem regras externas. Vale a intensidade do que se vive, cultivada na essência de cada um, a sós, a dois.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O papel da eclésia


"O plano divino da salvação parece dar-se antes mesmo do evento epifânico no tocante à encarnação. Desse modo é evidente que tal fato revela o ponto fulcral para a continuação da "obra começada" na humanidade, feita pela desobediência dos primeiros pais. Entretanto, a encarnação do verbo inaugura um tempo novo que impulsiona o surgimento da eclésia enquanto continuadora do projeto divino por intermédio da graça que pressupõe a transformação do gênero humano."

À igreja de Cristo compete a missão de continuar o projeto divino de salvação. Ela deve possibilitar a transformação do gênero humano para que cada ser em si alcance a graça que lhe é devidamente merecida. Uma vez que a salvação deve estar ao alcance de todos, conforme o mérito por suas ações, a eclésia não deve ser empecilho nem impor pesados fardos ou rigor exagerado às pessoas com a intenção de mantê-las sob sua custódia através da doutrinação e do medo da condenação eterna. Se ela foi gestada para ser continuadora da obra nada mais justo que manter o rigor conforme a vida de Jesus que foi regada de amor e misericórdia.

A encarnação do verbo quebra paradigmas de um tempo estagnado pelas leis políticas, sociais, morais e, principalmente, religiosas. Ela é uma ruptura que ocorreu nesse entremeio, entre o velho e o novo. Essa mesma ruptura, esse rasgar de cortinas, foi acontecendo no íntimo das pessoas que, primeiramente estiveram próximas do Verbo, um seleto número que foi o pioneiro na continuidade do plano salvífico e responsável pela estruturação inicial da eclésia.

Entre a encarnação do Verbo e o surgimento da eclésia existe um tempo que foi o propulsor motivacional para a continuação da "obra começada". A atuação do Verbo encarnado no mundo enquanto filho amado de Deus, irmão dos homens e, principalmente, a voz que ressoa no deserto contra os algozes da vida, foi o fator fundamental para a conversão e adesão das pessoas ao projeto de salvação e sua continuação, a eclésia.

Com o passar do tempo, a continuidade da obra, tendo objetivo principal a salvação para todos, foi-se desconfigurando. A individualidade do ser humano não foi levada em conta, ao contrário, as normas nivelaram a todos e se engessaram desde o início da organização eclesial. A salvação virou produto que se adquire mediante os cumprimentos das regras estabelecidas. Regras essas que foram feitas para uma porção apenas, não para todos, uma vez que havia muitos excluídos que já estavam condenados por sua condição social. A fé propriamente dita não era levada em conta.

A partir do ponto fundamental, que é a encarnação do Verbo, o divisor dos tempos entre o velho e o novo, dá-se início a uma nova possibilidade de vida. A esperança na justiça divina que, pode atuar diretamente no gênero humano, passa a ser enxergada, sentida e trabalhada na individualidade e também na vida em comunidade. A eclésia se organiza e acerta mas também se perde e comete erros com a justificativa de que exerce o seu divino papel, a ela incumbida por Deus no projeto que deveria ser de salvação e não de condenação. A história nos revela capítulos de martírio e terror pintados com o sangue de inocentes. 

Na contramão da conveniência eclesial, ao longo dessa história de derrotas e vitórias, surgem grandes nomes que entendem o sentido real do plano de salvação e travam verdadeiras batalhas contra o poder institucionalizado, que em nossa atualidade essa luta ainda acontece nos bastidores e nas comunidades. 

Enfim, mais de dois mil anos se passaram e muitos apedrejamentos, chicotadas e crucificações são sentenciadas de forma velada, através de palavras, atos e omissões, aos considerados pecadores e subversivos pelos defensores da doutrina, esta que deveria trazer para perto ao invés de condenar. Sendo assim, considera-se muito que o atual detentor da cadeira de Pedro, papa Francisco, esteja fazendo um trabalho dignamente próximo e coerente com a missão verdadeira a qual a eclésia foi constituída: "a continuação do plano salvífico por intermédio da graça divina que transforma o gênero humano."


AVALIAÇÃO DE TEMAS FUNDAMENTAIS
PROFº MARCIO FERNANDES
6º PERÍODO DE TEOLOGIA - FCU
24/06/16

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sob condicional


"Se?" Sim. Se, caso, contanto que, salvo se, a não ser que, desde que, a menos que, sem que, etc são conjunções subordinativas adverbiais condicionais, ou seja, aquelas que ligam duas orações, sendo uma delas dependente da outra. A oração dependente, introduzida pelas conjunções subordinativas, recebe o nome de oração subordinada. As conjunções condicionais no caso introduzem uma oração que indica a hipótese ou a condição para ocorrência da principal. Nossa! Uma palavrinha pequena - "se" - expressa tanta coisa!

Mas para que tudo isso? Simples. Apenas para falar das questões condicionais de ordem religiosa que, através das leis que regem os bons modos e os costumes da fé propriamente dita, implicam diretamente na conduta "condicionada" de cada indivíduo promovendo-lhe a salvação ou a condenação. Ou, em outras palavras, a alienação e a libertação, respectivamente.

A visão que a estrutura religiosa mantém é que as pessoas só terão a salvação "SE" agirem conforme a instituição dita. Agindo sob a tutela da santa e pecadora igreja estaremos libertos e salvos. O contrário disso seria a condenação, ou seja, o sentenciamento ao fogo do inferno.

Mas, podemos também pensar de forma diferente. Levando em conta a diversidade de dons, carismas, o livre arbítrio, a espiritualidade e a própria fé, as condicionais que a instituição nos dá nem sempre valem como fonte de libertação e possível salvação. Salvação esta que configura ter direito ao Reino dos Céus. Penso até que a frase de Agostinho de Hipona (Fora da igreja não há salvação!) ao longo do tempo foi muito mais usada para exercer uma pressão psicológica e medo sobre os fieis, do que para mostrar um caminho de salvação através do amor e da caridade. Não só foi como ainda continua sendo usada dessa forma deturpada e bem longe da essência ao qual foi pensada e sentida.

"SE" a estrutura condiciona para salvaguardar o direito à salvação, "SE" ela impõe critérios vários para garantir aos fieis a sua entrada ao Reino dos Céus, automaticamente e na contramão, está criando mecanismos que impossibilitam a liberdade individual e, assim sendo, alienando os fieis. Muitas vezes a mensagem salvífica é transmitida de forma deturpada e o que era pra ser fonte de libertação torna-se um aprisionamento através da cultura do medo. E pessoas com medo de questionar a estrutura tornam-se escravas.

E, novamente utilizando a própria "condicional" sempre manifestada pelos cristãos de carteirinha, onde afirmam que só serão salvos aqueles que cumprirem o que a igreja diz, "SE" a instituição trabalha a salvação através da cultura do medo, ela está promovendo a alienação. Então, implica-me profundamente que, agindo e atuando descarregado de certas regras institucionalmente religiosas, conforme o livre arbítrio que me fora legado, consciente da minha fé e da mensagem cristã que é o amor-caridade estarei promovendo a minha libertação e também galgando o caminho da minha salvação. Condenado está aquele que se permitir ser acorrentado pela doutrinação desmedida.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

sábado, 11 de junho de 2016

Das almas inquietas


A poesia me permite rezar sem nada dizer. Ela me permite também contemplar o místico do mundo. Viver uma espiritualidade libertada de amarras e libertadora por si só. Posso com ela questionar os doutos da fé ou de qualquer outro sistema e contrapor suas metáforas desvairadas. Apesar do risco da medieval excomunhão eterna dada pelos homens do poder religioso, que se consideram no direito de fazê-lo, e acreditam que são detentores da verdade absoluta, e que este poder lhes garante a dádiva de salvar ou simplesmente condenar a quem contrapõe suas ordens, apesar desses pesares eu assumo tais riscos diante das minhas escolhas.

Perguntaram-me se me tornei ateu ou se briguei com a igreja. Nem "a" nem "b". Continuo cristão. Porém, não compactuo com alguns critérios do sistema institucional, tampouco deixo de manifestar meus pensamentos por conta das classificações que podem me dar. Geralmente quem se encoraja para aplicar algum sermão desmedido e sem fundamento apenas repete o que ouviu algum dia. Nada que possa me colocar numa fogueira santa ou num apedrejamento em praça pública.

Viver a inquietude de não se contentar com as coisas impostas é algo para poucos. Não significa estar "de mal com a vida". Pelo contrário, o gosto da vida sem a imposição das suposições condicionadas é melhor e mais apurado. Questionar o inquestionável e ser taxado de subversivo ou herege é um mero preço pela liberdade do pensamento. Minha auto libertação não depende das mazelas regradas pelos homens e seus sistemas entorpecentes.

Quem vive feliz na submissão, sem questionamento, e obediente às regras, se é o que há de melhor para si, que continue. O livre arbítrio deve realmente ser levado ao pé da letra.

Do mais, posso apenas reafirmar que Jesus foi um cara inquieto, subversivo e considerado um blasfemador, pois sua luta foi contra um sistema religioso e político que oprimia as determinadas classes de pessoas, as grandes mazelas excluídas pelo poder.

Outro cara, acusado de ateu por sua liberta forma de pensar, e inquieto em seu tempo, que até hoje nos ressoa com sua ousadia foi Nietzsche. Os puritanos, os tradicionais e os radicais com certeza estufarão o peito para gritar palavras de ordem, em nome de sua arcaica fé. Afinal, classificar Jesus Cristo e o filósofo Friedrich Nietzsche como pessoas inquietas pode ser uma mega heresia. De qualquer forma o pensamento é livre e cada um tem o seu.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Roupagens e rupturas

"Fora da igreja não há salvação!" Segundo consta essa antiga frase foi pronunciada por Agostinho de Hipona, considerado santo e doutor pela igreja católica, e repetida ao longo dos séculos por outros nomes como por exemplo o papa Bonifácio VIII, no ano de 1312. O passar dos tempos manteve esse pensamento solidificado nas estruturas institucionais e deu base e força para muitos líderes agirem contra os que discordavam dessa santa verdade. Matar em nome de Deus nunca foi pecado na história, pelo contrário, sempre foi muito bem justificado.

A igreja em si não é a salvação. Ela pode ser um caminho escolhido para ser seguido, dentre tantos outros, até a tão desejada salvação. E todo o caminhar deve ser livre e proporcionar o rompimento das amarras que impossibilitam o crescimento de cada ser. Uma igreja que não promove a libertação está sendo alienante.

Se fosse apenas através da igreja que alcançássemos a salvação, o que aconteceria com tantas outras pessoas de seitas, filosofias, religiões distintas ou ateias? Afinal, sabemos, que fora da igreja existem pessoas "boas" e dentro delas existem pessoas "falsas". Portanto, o caminho de salvação é e deve continuar sendo individual. Não há regras celestiais para uma salvação garantida.

Tudo o que os homens tentaram justificar até hoje, no que tange a salvação eterna, foi a partir de uma experiência individual. Experiências individuais não refletem uma verdade absoluta para o coletivo. Cada pessoa terá um sentimento e um olhar diferenciado, sempre. Assim sendo, o caminho percorrido por um indivíduo não poderá ser o mesmo que garantirá a "salvação" de terceiros.

Somos livres. Isso é bíblico. É preciso respeitar a individualidade, a opção, a escolha de cada ser. Nascemos numa sociedade engessada por estruturas sociais, políticas e principalmente religiosas. Somos praticamente obrigados a aceitar e seguir sem questionar. Indagações são mal vistas. Opor-se ao sistema imposto é mal interpretado e quem o faz está sujeito a condenações várias, inclusive o fogo eterno.

O que se sabe até hoje, é que ninguém, até então, é detentor de uma verdade absoluta. Prefiro uma alteração no conteúdo do pensamento de Agostinho, pensada por um religioso espírita: "Fora da caridade, ou seja, fora do amor não há salvação". Será que vou poder continuar na minha religião após essa adesão de pensamento? Ou estarei fadado à condenação eterna por heresia?

E, das roupagens impostas, confesso, andarei nu, pois a ruptura se faz necessária. E mais, não é a igreja que salva mas as atitudes de cada um...

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Das lutas nas tempestades

"Liberdade, liberdade, 
Abre as asas sobre nós
Das lutas nas tempestades
Da que ouçamos tua voz"



"E o que há de vir não é o broto. O que almejam no que há de vir é praga. Um velho conhecido inimigo de tantas guerras. Desconhecedores da história e alfabetizados ignorantes aclamam pela derrocada insana na possível chegada do aniquilador sem escrúpulos. Este que se mascara de salvador. O covil anda em orgia sob o manto da falsa moral e por vezes religiosa. Libertaram antigos monstros. O opressor fareja sangue. Na terra vermelha de tantas labutas o espírito da liberdade ecoa gritos ao céu da pátria. A batalha se afunila mas a lona não é o limite nem o fim. Com ópio ou com dor, eis o que nos legaram: silêncio inquisidor. O poder?! É por ele que meus heróis se corromperam. Foi por ele que meus inimigos renasceram. É o fim de uma era e o infeliz começo incerto de um caos iminente."

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Tomé tocou ou foi tocado?

(Reflexão inspirada na homilia do dia 03/04/16,
por Frei Geovane Santiago - Jo 20,19-31)

E de repente, a única esperança que lhes restava, justamente a palavra Daquele que revolucionara suas vidas, foi estremecida e dissipada com Sua morte de cruz. Imagina-se o quão perdidos ficaram os discípulos! Mesmo tendo convivido diretamente com o Jesus de Nazaré, escutado Seus ensinamentos e presenciado Seus milagres, ainda assim a fé desses seguidores mais próximos foi totalmente abalada. Nada mais importava pois a única voz que lhes dava sentido havia sido calada...

"A paz esteja convosco!" A tristeza foi quebrada e deu lugar à alegria quando Jesus pronunciou estas palavras. Os discípulos reunidos a portas fechadas, por medo de perseguição e retaliação, uma vez que os seguidores de Jesus ficaram mal vistos na sociedade principalmente após Sua morte, foram surpreendidos. Ele apareceu no meio deles e após a saudação mostrou-lhes as mãos e o lado. A tristeza se dissipa com a alegria do reencontro e o medo é superado por uma encorajadora exortação.

Nesta aparição de Jesus, Tomé, um dos doze, não estava presente. Os outros discípulos contaram-lhe depois mas ele não acreditou. Dídimo, nome pelo qual Tomé também era conhecido, carregado pela tristeza da morte de Jesus, por quem havia depositado toda a sua confiança, frustrado pela ausência Daquele que trouxe-lhe uma nova razão para a vida, foi além nas palavras: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei."

Tomé carrega muito mais do que tristeza em seu coração. Traz também a angústia, o medo e principalmente a frustração pela morte Daquele que sempre teve palavras de vida nova e prometera a vida eterna. Talvez ele imaginasse que o desfecho deveria ter sido outro por parte do Homem que se dizia Filho de Deus. Talvez, em certos momentos, tivesse sentindo-se enganado. E tudo isso fez com que suas palavras fossem tão carregadas de mágoa e dúvida. Uma mágoa que causava-lhe incômodo e aguçava-lhe a esperança. Uma dúvida que maquiava o desejo de que a notícia fosse realmente verdade. 

Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa. Desta vez Tomé estava presente. Portas fechadas e Jesus pôs-se no meio deles. A saudação, como de costume e depois disse a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel." Nenhum relato de que o incrédulo discípulo tenha tocado de fato em Jesus como havia dito aos outros que faria. O mais longe que podemos pensar sobre sua reação é que a tristeza, mágoa, dúvida, incerteza, medo, tudo se dissipa diante do ressuscitado.

No contra ponto desta narrativa algo sublime renova o coração fragilizado do discípulo que tivera sua fé abalada. Jesus vem ao seu encontro. E apesar da ausência de relatos sobre a aproximação de fato, notoriamente a simples fala de Tomé mostra o quanto fora tocado por Jesus. Talvez tenha sentido-se envergonhado diante do Mestre. Talvez, não contivera as lágrimas. Talvez, quisesse ter falado mais neste encontro, talvez... Mas, a chegada do ressuscitado simplesmente apazígua seu coração e devolve-lhe a fé: "Meu Senhor e Meu Deus!"