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domingo, 12 de janeiro de 2025

Nas gavetas da memória


Numa roda conversa, que mistura boa prosa, belos versos, altos papos e causos antigos, com alguns entendidos no assunto como Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade, Eduardo Galeano e José Lins do Rego, através de suas obras "Sobre o tempo e a eternidade"(1995/1997), "Cadeira de balanço" (1966/2009), "O livro dos abraços" (1991/2022) e "Menino de Engenho" (1957/2001), respectivamente, algo mexeu profundamente em minhas gavetas de memórias e trouxe à luz algumas histórias que ouvi de minha avó paterna Maria Aparecida de Oliveira, a Vó Cida. 

Não dá pra descrever a sensação ao remexer essas gavetas e sentir aflorar tantas memórias. O cenário em que eram contadas, o clima, o suspense, o mistério, o pedido de silêncio e de atenção, a seriedade da dona Cida e o desfecho final que tinha uma mensagem direta e objetiva, uma verdadeira lição de respeito, educação e obediência que me causava um medo sem precedentes. Recordando esses momentos, percebo que na simplicidade de suas falas, típicas de uma pessoa da roça que não sabia ler nem escrever, e da devoção eloquente que fazia de seus causos um verdadeiro retrato, a ponto de me fazer acreditar que ela mesma havia sido testemunha ocular de cada história. Na narrativa de cada causo acontecia um ritual sagrado que acompanhavam as histórias e cabia somente a nós, eu, minha irmã e meus primos ainda crianças, validar com o nossos olhares de pura devoção e medo.

Para adentrar sua casa haviam duas formas, pelo bar que meu pai Derci e meu avô Benedito tocavam, e pela garagem, que acabava sendo uma espécie de antessala com cadeiras para quem ali chegasse prosear. Ali, nessa garagem, fechada com portões de ferro, Vó Cida passava horas espreitando pelos vãos das grades o movimento das pessoas e dos carros pela Avenida Humberto Martignoni. 

E foi justamente nos bancos dessa garagem que me tornei testemunha assídua de cadeira cativa das histórias jamais contadas em qualquer banco de escola. Por mais que fossem sempre as mesmas, não me cansava de ouvi-las. 

Havia um homem muito ruim que vivia a praticar o mal a toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Nem mesmo seu próprio pai, enfermo e acamado, ficou impune de suas maldades. No leito de sua morte, o velho pai lhe pediu água, que num ímpeto de pura crueldade urinou numa garrafa e deu ao pobre homem. Não tardou, seu pai faleceu. O castigo para tanto mal feito não tardaria. Esse homem começava a se transformar fisicamente. Pelos por todo o corpo cresciam e um rabo comprido nascia. O mal homem exilou-se para o desconhecido de um cemitério e nunca mais foi visto. Tornou-se uma lenda.

Como lenda, essa história era contada e repassada com muito mistério e dúvida. Os anos se passaram e eis que um rapaz dizia a todos que não acreditava e chegava a zombar de quem tinha medo. Muitas vezes se dizia corajoso o suficiente para ir até esse cemitério à noite, com um rabo de tatu em mãos, procurando por esse homem-bicho de pelos e rabo e, quando o encontrasse, lhe daria uma surra bem dada. 

Disse tanto que chegou a apostar com seus conhecidos que iria até esse cemitério para provar que não existia nada, mas se existisse daria um jeito. Certa noite se aprontou e foi. Lanterna numa mão e rabo de tatu na outra. Aproximou-se do cemitério e nada viu. Perambulou e nada. Confiante de que nada havia e que tudo aquilo não passava de uma lenda, virou em retirada. Foi nesse momento que deparou-se com um bicho peludo, alto e de rabo comprido. "Não era tu que me daria uma surra com rabo de tatu? Pois bem, isso é pra você aprender a não duvidar de cruza-ruim." O bicho tomou-lhe o rabo de tatu e deu uma surra no rapaz, que voltou para sua casa desorientado e enlouquecido.

Finalizado o causo, vinha a grande lição, que devemos sempre ter o respeito pelos mais velhos, pelos pais e rezar pedindo a Deus para que nada de ruim nos aconteça. Dona Cida gostava de santinhos. Tinha sobre a penteadeira o seu próprio altar com imagens compradas e ganhadas de parentes e conhecidos. Ali, fazia suas rezas diárias com o terço na mão. Uma fé enraizada na simplicidade, que lhe fora transmitida por sua mãe e adquirida ao longo de sua vida. 

Histórias assim me fazem crer nessa profecia poética de que a vida é sempre um caminhar de volta pra casa, um reencontro com a memória, com a saudade e consigo mesmo. Talvez, eu já tenha ultrapassado a fronteira que ainda permitia manter-me isento de tais pensamentos. Talvez, esteja eu consciente desse tempo, desse retorno eterno que é essa travessia. Hoje entendo minha avó, que no recontar de tantos causos, trilhava um caminho de retorno deixando por ali, simplicidade, carinho, dedicação, amor em prosa e sabor. O tempo que passa nos conecta com as memórias, e nos permite recostar a cabeça no travesseiro, com a leveza de uma criança que descansa seu corpo no colo de seus avós. O tempo e a eternidade, um caminho eterno.


quinta-feira, 21 de março de 2024

Ainda me lembro bem


Ainda me lembro bem das brincadeiras no quintal de terra na casa dos meus avós, Joaquim e Iolanda. Não tinha hora para acabar. Histórias inventadas, sonhadas, entre carrinhos, soldados e índios...

Ainda me lembro bem do medo de ficar na escola, de não ter ninguém a me esperar do lado de fora, das lutinhas com meu pai, das tarefas ao lado da minha mãe, do tempo que não volta mais...

Ainda me lembro bem dos almoços de domingo na casa da vó Cida. Vô Dito organizando o quintal, tratando das galinhas ou sentado na varanda olhando o movimento da rua.

Ainda me lembro bem ...

Em muitas datas especiais eu me dividia entre a tristeza pela ausência de pessoas queridas que já partiram ou de pessoas distantes separadas pela geografia, e a alegria pela presença viva dos que ali celebravam comigo. É uma batalha tão intensa quanto estranha, viver o presente sem se abater pela saudade...

Natais, Páscoas, aniversários, sempre há uma mistura de emoções e sentimentos que nos transbordam. São datas em que ajuntamo-nos com os nossos. Família, amigos, 

Sempre tem uma data chegando, uma saudade batendo, uma lágrima escorrendo, e uma esperança nascendo.

(12/01/21)

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Resenha - O velho que acordou menino


 

Rubem Alves é sinônimo de leveza, nostalgia, saudade, simplicidade e vida. Nesse livro ele faz uma verdadeira travessia pelas coisas de antigamente, com assuntos de família, fé, brincadeiras de criança, superação, curiosidades e muitos causos ouvidos e recontados. Uma leitura tão fácil quanto saborosa que nos remete a pensar e refletir sobre o quanto podemos ser felizes degustando da companhia dos que amamos. É nesse seio de amor, amizade e companheirismo que as histórias se tecem e se ajuntam ultrapassando gerações. Uma verdadeira colcha de retalhos de histórias vividas e que nos coloca como protagonistas em cada cena descrita.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Sobrecargas que não me pertencem mais

Criador: tree - Crédito: pt.pngtree.com
Direitos autorais: © Copyright 2017-2023 Pngtree.
Todos os direitos reservados.

Das dores que ficaram pelo caminho 
Da saudade do que não se viveu
Existe um corte temporal que delimita meu papel 
Diante do que era meu herói, amigo e protetor. 
A distância machuca, mas cicatriza 
E a dor vira companhia costumeira 
Até o dia que o analgésico das lágrimas de saudades se torna dispensável.
É bom não precisar recorrer à caixinha dos paliativos. 
Evolução, independência, amadurecimento...
Passado encaixotado num álbum de fotos imaginário
Que só reprisa em minha mente o que poderia ter sido
O que se poderia ter vivido, sentido...
Carrego culpa?
Não mais!
Já busquei meus erros diante de uma relação que não tive relevância.
Já chorei dores de saudade, da falta de uma presença importante.
Mas, olhando essa trajetória
Fica as lacunas na travessia dessa história
Onde a figura jaz perpetuada na memória
De uma infância até muito tranquila 
E dali, só ficaram resquícios
Interstícios de estações
Lacunas de inverno a verões
Versos desconexos sem melodia
Sem outonos, sem a inocente fantasia
O tempo não apenas passou, mas me abraçou
E fui me descarregando das tralhas durante a viagem
Não conseguiria sobreviver com tantos fardos
De uma presença que nunca se fez presente.
O que ficou disso tudo, entre esperas e primaveras
É a visão de que não se paga uma ausência
Recriando versões de uma vida não vivida
Com aqueles em que você se permitiu.
Não fez questão de uma história subtraída
Sem o seu papel.
Importou-se porém em aplacar sua consciência
Recriando versões de uma vida, conosco, não vivida.
E por tal, sem sua benção matinal
Sem sua companhia fundamental
Velejo no mar dos meus dias e da vida 
Entre brisas, tempestades
Horizontes e calmarias
Com sua figura numa longínqua paisagem
Num sonho, num plano em que você não faz parte.
Você divide seu ego num espaço que não me pertence.
Justifica seus erros comigo e conosco
Em gestos paternais com sua então família.
Já não dói
Já não sinto
Já não espero
O milagre da sua presença.
Só não me cobre jamais pela minha despretensiosa ausência.
Essa herança, foi você que testamentou.
Não carrego mais, jamais, a sobrecarga de suas escolhas
Lamento, mas o tempo, ah! o tempo...
Foi meu bandido, mas também meu herói.
Ciclos se encerram, se fecham
Se findam...
O tempo passa
O tempo leva
O tempo lava...

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

sábado, 16 de setembro de 2023

De setembro a setembro


Um olhar humanamente teológico sobre as pessoas que perderam o encanto pela vida, o sentido da existência e a esperança no mundo. Setembro Amarelo deveria ser uma luta de todos os dias e não somente quando as mídias jogam os holofotes para o assunto. É positivo entrar nessa campanha de mobilização e prevenção ao suicídio. Porém, mais belo do que estampar os perfis de amarelo e cobrir com frases de efeito é necessário se atentar para o nosso papel social enquanto indivíduos de um sistema que oprime, desqualifica, exclui, negligencia e ignora os verdadeiros motivos que têm levado algumas pessoas a pensarem na possibilidade de atentar contra a própria vida e outras, de fato, na esperança de se curarem das dores da alma, infelizmente, executam seu plano. 

Se a dor de quem fica é grande, imagina a dor de quem preferiu não viver mais. Não existe covardia nem heroísmo nesse ato, ou, dependendo da óptica, também pode ser ambos. Pecado? Talvez. Olhando pela bíblia cristã, o quinto mandamento diz "não matarás". Sendo assim, tirar a própria vida, segundo a bíblia cristã é um pecado. Porém, ainda segundo a mesma bíblia cristã, não é algo digno de condenação eterna e sem direito a perdão. Esse é um pensamento popular que ganhou força nos redutos das igrejas mas que não tem fundamento bíblico. Segundo o livro sagrado cristão, o único pecado que é causa de condenação eterna ao inferno é o de "blasfemar contra o Espírito Santo". 

Se considerarmos as pessoas que dão sua vida em prol de uma causa religiosa, conforme algumas religiões ultra radicais, que as instigam a se tornarem verdadeiros homens ou mulheres bombas, as mesmas são consideradas mártires com promessas e garantias de uma vida eterna e digna no Paraíso, no Céu, etc. Durante as guerras surgiram os camicases que, não tendo mais o que fazer, lançavam-se com seus aviões no território inimigo na tentativa de abater o maior número de adversário possível. 

O que difere cada ato de tirar sua própria vida: uma causa, uma esperança, uma promessa, um sentido? Ou, talvez, a falta de cada uma dessas possibilidades ou, todas e mais um pouco? A esperança que um homem bomba tem ao se permitir explodir em prol de uma causa político-religiosa não seria a mesma esperança que uma pessoa, que perdeu seu sentido de viver, tem para amenizar sua dor da alma? Essa última perdeu o sentido da vida, mas está sobrecarregada de dor. Tirar a vida não significa covardia mas, livrar-se da dor que ninguém sabe que existe nela, e por mais que saiba não consegue entender.  Como não teremos jamais a resposta sobre o motivo de tal ato, sempre dialogaremos a partir dos relatos deixados de sua caminhada. A cadeira vazia será apenas um cenário de dor e luto por parte de quem ficou sem respostas. 

E qual seria o nosso papel social, religioso, político ou simplesmente humano (o mais importante) para contribuir com essa luta de prevenção ao suicídio? Estamos numa era em que as informações que nos chegam são como uma tempestade em nossos pensamentos. Creio que não percebemos mas, muita gente se encontra esgotada mentalmente pelo excesso de informações que são oferecidas aos milhões, minuto a minuto. Esse excesso também pode contribuir para o desequilíbrio emocional, o que afeta diretamente as relações diretas e indiretas de cada pessoa. 

A sociedade egoísta que ignora; as religiões com suas regras morais que exaltam as leis em detrimento do ser humano e da vida; as políticas, sejam as públicas que são falhas por conta do dinheiro que se desvia e não chega aonde precisa, sejam os representantes escolhidos pelo voto nos Estados e municípios, que se esquecem do seu compromisso com o povo e legislam em causa própria. Junte-se a isso a falta de recursos para coisas básicas. Muitos "próximos" sucumbem à tentação de deixar de existir num mundo onde não apenas se sentem invisíveis mas são tratados como escória. 

Numa pesquisa de trabalho realizado durante o curso de Teologia, nos deparamos com índios da tribo Guarani-Kaiowás que preferiam tirar sua própria vida a viverem fora de suas terras, que naquele momento foram tomadas por latifundiários. A dor de viver fora do seu habitat, da sua casa, e sobreviver nas beiras das estradas, era um dos motivos de desordem emocional e desonra para si. 

A dor alheia é algo que não conseguimos mensurar. Seja uma dor física ou, pior ainda, uma dor da alma, aquela que não se vê mas que mexe com todos os sentidos. Para a dor física existem remédios de resolução imediata. Para a dor da alma, existe uma demora para se chegar num ponto satisfatório de entendimento para então, de forma lenta e gradativa organizar as coisas que estão fora do lugar em seu pensamento, em seu íntimo, em sua história e na falta de expectativa. 

Enquanto seres humanos, não nos custa levar um pouquinho de alegria, ou no mínimo ouvidos para as pessoas ao nosso redor. Não temos condições para salvar o mundo, mas podemos contribuir dando um mínimo de atenção para aquela pessoa que antes sorria atrás de um balcão e hoje se quer solta um "bom dia". Familiares que passam a reclamar da vida mesmo não faltando nada. Solitários ao nosso redor, regados de silêncio, timidez, e dificuldades de interação, dentre outros tantos, não custa acolher. Acolher no sentido de deixa-la sentir-se vista, notada, ouvida. Não precisa de muito. Um simples "tá tudo bem?" pode ser o essencial para salvar o dia e os pensamentos de alguma pessoa próxima que vive seus dias de tribulação.

Não importa a orientação sexual. Pecado é não amar! E, não há cura para o que não é doença! Antes da piada, antes da crítica, pense que uma palavra pode ser a melhor ou pior coisa que a pessoa com ideação suicida pode ouvir naquele momento e você nem sabe. Não sabemos quantas guerras habitam na pessoa com quem cruzamos todos os dias de nossa jornada. Por isso, empatia e respeito, é a melhor acolhida que podemos dar. 

Para quem sempre cita a bíblia, em especial as rígidas leis do Antigo Testamento, eis que me deparo com um pensamento, o qual desconheço seu autor, mas que simplifica e alivia quando me deparo com pregações grotescas e de ódio: "Jesus não voltou durante a escravidão. Não voltou durante o holocausto e nem durante as cruzadas. Mas, vai voltar agora por causa do gênero de alguém."

Uma igreja que não acolhe as minorias e suas diversidades já perdeu seu papel aqui na Terra. Uma política que não cumpre com sua função de bem comum só serve para alimentar os lobos no poder. Uma sociedade que não percebe a dor alheia, já deixou de ser humana com seus semelhantes. E por que esse discurso em meio à campanha Setembro Amarelo? Porque tudo isso pode ser causa, mínima ou máxima para alguém que está desacreditado de si, sobrecarregado de dores, cometer suicídio. 

Há inúmeros fatores que levam as pessoas a buscar o suicídio: a inundação da dimensão de sombra, transtornos psicológicos, doenças incapacitantes, profundas decepções e prolongadas depressões. Mas mais que tudo, a perda do sentido da vida que suscita nas pessoas vulneráveis o impulso de desaparecer. Não raro, tirar a própria vida é uma forma de buscar um sentido que lhe é negado nesta vida (franciscanos.org.br). E "Não é a maneira como uma pessoa morre que determina se ela é salva ou condenada" (https://teologiabrasileira.com.br/o-suicidio-da-razao/).

Somos corresponsáveis direta ou indiretamente pelas vidas ao nosso redor. A omissão é algo que poderemos somar na cartilha da consciência como culpa, frente ao que poderíamos ter contribuído mas não o fizemos. 

A imagem desse texto foi utilizada como convite para o evento do dia 15/09/23, na Casa das Cenas, em Uberlândia-MG, para um encontro realizado com pessoas de diversos segmentos da sociedade. Um público misto em todos os sentidos. Através do Psicodrama e Cinema, trazendo uma ótica da Psicologia pela minha colega Ana Elisa, enquanto eu, da Teologia, discutimos o suicídio dentro do contexto do filme "Orações para Bobby". É um filme que está disponível no youtube, portanto de fácil acesso. Ali, sentimos o peso da falta de apoio familiar diante da homoafetividade por um dos membros dessa família, o peso do conservadorismo religioso que passa a manifestar um moralismo seletivo, a sociedade que exclui, os familiares que se afastam, as auto condenações por conta do que se considera pecado conforme os ditames de sua religião, até a ideação suicida. Deixo aqui, como forma de continuidade nessa reflexão, um convite para que assistam ao filme. 

https://www.youtube.com/watch?v=IIYNfCoGgUQ



sábado, 9 de abril de 2022

Antessalas

O medo cresce enquanto a hora marcada se aproxima. Imagino que essa seria a nossa sensação se soubéssemos o dia exato de nossa travessia final. O ambiente de espera aparenta não deixar o ponteiro do relógio girar. Não estou só. Ao meu lado está minha irmã. No meu coração, meus filhos, sentimentos, saudades, esperança. E, por mais que seja um simples procedimento, segundo a própria medicina, o medo de não voltar para as pessoas que amo é grande. A vida é boa, apesar dos obstáculos e contratempos. Meu nome é chamado por um senhor, o maqueiro. Sou conduzido para um quarto para me preparar. Banho, roupão de hospital e maca. Um atraso de mais de hora possibilitou-me um cochilo e isso de certa forma me tranquilizou. Minha irmã sempre junto. Novamente sou chamado. Dessa vez era chegada a minha vez. Deitado na maca sou conduzido por corredores até chegar numa antessala. Nesse momento me despeço da minha irmã. Um aperto por estar só. O pensamento sempre conectado pelo amor e pela saudade. O maqueiro abre uma fresta de uma porta de vidro à minha frente e fecha outra porta atrás de mim. Acima dessa porta tem um crucifixo. Sinal de fé, esperança, proteção, algo que não se explica, apenas se sente. Imagino quantas pessoas passaram por essa porta. Quantas puderam retornar para suas vidas. Quantas partiram (...). Ambiente frio e silencioso. Fixo meus olhos no crucifixo. O momento me permite uma reconexão: amor e saudade, vontade de viver, de lutar, reencontrar. Peço, diante desse silêncio, para que tudo ocorra bem. Penso fortemente em meus filhos, no amor (...). Enfermeiras passam por mim. Cruzam de uma porta à outra e me cumprimentam. Todas atenciosas. O local necessita disso, de atenção, de cuidado, de empatia, de força, necessita mais do que excelentes profissionais, mas de pessoas extremamente humanas. Enfim chega a pessoa que vai me conduzir até o centro cirúrgico. A enfermeira pega uma prancheta que está aos meus pés na maca, pergunta meu nome e verifica meus dados. Tudo certo. Ela abre a porta de vidro e enfim sou conduzido para o meu destino, o centro cirúrgico. Luzes fortes, extrema claridade, muitos aparelhos e acessórios, cinco enfermeiras, anestesista, cirurgião e assistente. Cenário perfeito de um filme. A anestesista fala comigo. Novamente verifica meus dados. Ela recebe um aviso de que em breve a minha cirurgia começará. Então, me prepara para a anestesia, a geral. Muita movimentação. O cirurgião brinca para relaxar. Tudo se volta e se resume nesse tempo: fragmentos intensos da vida e da memória. A saudade aperta. O medo de uma partida iminente incomoda. Medo de partir sem despedir (...). Um esforço interno para encontrar um pouco de tranquilidade por fora. Penso em meus avós (...). Não me sinto só. O clima está muito frio e eu recebo um cobertor. "Braços ao longo", foi essa a expressão usada pela enfermeira, conforme o pedido do médico. A anestesista termina o preparo de uma dose que será injetada em minha veia. Uma enfermeira coloca agulha na veia da mão. O líquido injetado dói. A anestesista coloca uma máscara em meu rosto e pede pra eu respirar profundamente. O cheiro é forte, remete a um éter. Começo a ficar sonolento. Reclamo da dor em minha mão. Minha voz fica fraca, minhas pernas adormecem. Um adormecimento estranho vai tomando conta do meu corpo. Sou orientado a focar na respiração e a fechar os olhos. Meu esforço ainda consciente para manter-me acordado é em vão. Não resisto... Não consigo... Não dá... Tudo escurece enquanto perco meus sentidos. Segundo o tempo do relógio, foram quase três horas apagado, sem noção da realidade, da vida, nada. Um sono profundo e silencioso. Acordo com uma voz me chamando. Estou de volta. A vida continua e a luta também. 


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Caixa de ferramentas





Ao ler um texto de Rubem Alves, "Presente", do livro "Ostra feliz não faz pérola", senti a semelhança da história com algo que vivi junto ao meu filho Felipe, que hoje está praticamente às vésperas de seu 18º aniversário. 

No texto um menino recebe uma enxada de presente quando completa 5 anos de idade. Meu filho Felipe, ao longo de seu crescimento, pode me acompanhar em algumas invenções e construções e aos 15 anos dei-lhe uma caixa de ferramentas.

O menino do texto de Rubem Alves recebeu ali não um instrumento que o induzisse ao trabalho precoce, mas o legado de sua família que vive no e do campo. Foi como passar o bastão, o bastão da responsabilidade, do orgulho de pertencer àquela família e àquele lugar, orgulho literalmente da origem. Seus pais, tios e avós também receberam uma enxada da mesma forma.

Felipe, meu filho, depois de me acompanhar nos sonhos e projetos, recebeu de minhas mãos aquilo que representaria a minha história, as minhas raízes. Independente dos diplomas que ele venha a adquirir, haverá de se lembrar sempre de suas origens. Simplicidade, dedicação e amor. Essa é a nossa essência.

Eu sempre gostei de aprender, de fazer e acontecer, inventar, reciclar, criar, e tudo isso principalmente através de coisas e objetos descartados e que não se utilizam mais. Encontrar beleza onde ninguém mais olha. Dar leveza e sentido em detalhes que o mundo ignora. Esse é um diferencial em nossa coexistência de Pai e Filho.

Rubem Alves sempre me desperta para as maravilhas do simples, do profundo, da poesia perdida nas belezas descartadas pela correria e pelas tecnologias.

A semelhança nos gestos ao dar o presente aos filhos, tanto o menino que recebeu a enxada como meu filho que recebeu a caixa de ferramentas, são gestos que se perpetuam no amor, que dispensa preços mas está carregado de valores eternizados em nossas vidas.

Eu tenho guardado comigo algumas ferramentas que foram dos meus avôs. Verdadeiras relíquias que foram empunhadas por homens íntegros, justos, honestos e dignos. Nessa caixa de ferramentas eu dei muito mais do que meros objetos de utilidades para o dia a dia do meu filho. Dei-lhe sentimento de pertença, a continuação da nossa história e do nosso legado. Dei-lhe o meu carinho e amor, e onde quer que esteja, na profissão que escolher, vai usar as ferramentas certas da mesma forma, com dedicação, amor e justiça. Passei-lhe o bastão da confiança regado de amor e poesia e um dia também será passado ao Joaquim. 

Meu chão de vermelhão


Foi naquele chão de vermelhão 
Que tanto brinquei, engatinhei, andei
A felicidade dispensava o ter
A magia da criação num quintal de terra 
E possibilidades me fizeram crescer 
Frente ao amor que me viu nascer
Meu berço eterno
Tesouro sem igual
Que dispensava riquezas 
Mas que ao redor da mesa 
Se fartura na simplicidade

Carrego memórias de uma vida feliz
Sou parte viva dessa história
De orgulho e raiz
Minha herança?
A sabedoria aprendida 
Ora com o olhar
Ora como silêncio dos meus avós
Quantas lembranças
Quanta saudade
Quanta sabedoria 
Que nenhum diploma poderia me conceber
Quanto orgulho

Suas vozes ressoam pelo tempo
Reverberam em minha vida
Meu sangue carrega o seu legado
E a cada dia me espelho nas lembranças
Para melhorar
E transbordar 
O que de melhor me deram
Naquele chão de vermelhão
Vermelhão de tanto amor


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Desenhos de Manuella


 
Hoje minha sobrinha e afilhada, Manuella de 7 anos, estava fazendo desenhos para vender. Mostrou-me vários e perguntou se eu queria comprar algum. O preço tava meio fora do mercado mas eu sugeri algo que fosse possível para ela vender rápido. Um real cada desenho tá bom para um início de carreira como desenhista mirim. Ela então se empolgou e até sua irmã mais velha, Lara, também se motivou a entrar na onda dos desenhos.

Questionei a Manu para saber o que aqueles desenhos copiados significam para ela. A pergunta foi complexa e acabei ajudando na resposta. Será que a cruz significa algo relacionado a Jesus e a do coração e da mão significaria o amor? Ela ficou pensativa e concordou. Pedi para olhar mais para os desenhos, pensar e depois me responder novamente. 

Para alguns religiosos donos da verdade talvez a cruz com uma touca de papai Noel seja uma heresia. Nesse caso "eu fico com a pureza das respostas das crianças" que, sem saber como expressar sua motivação e encantamento por aquele desenho, viu nele algo de especial e belo, ainda que não saiba explicar suas sensações e sentimentos. 

Dentre vários desenhos que ela me mostrou, fiquei com esses dois acima. Por mais que os desenhos foram copiados, além da intenção dela em ganhar algum dinheiro com essa tarefa prazerosa de desenhar e pintar, penso no que a motivou a escolhê-los. Não pode ter sido apenas pela facilidade em copiar. Há algo a mais, inexplicável em sua cabecinha, mas ainda assim que seus olhos vislumbraram uma beleza que chamou sua atenção.

Um dia, num futuro próximo, mostrarei os mesmos desenhos e farei a mesma pergunta: "o que esses desenhos significam para você Manuella?" Para mim, há um mix de simplicidade, inocência, dedicação, amor e belo nesses desenhos. A cruz com o gorro, uma mistura de fé, sonho e possibilidades. A mão que com dedos nessa posição, simbolizando um coração, tão simples quanto o amor deveria ser. 



Te amo princesa!

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Eu não sou forte mas minha família é


Nunca foi fácil, mas confesso que nunca foi tão prazeroso como agora. A maturidade e a sabedoria que o tempo propicia na travessia permitiu-me enxergar as diferenças como oportunidade para aparar as arestas daquilo que se excede em nós.

Ao invés de me preocupar com o que se derrama de nós, tenho focado naquilo que nos completa, nos sacia, nos motiva a prosseguir e divinamente nos contempla com o bem maior do amor e do cuidado com o outro.

Procuro a cada dia desapegar-me daquilo que um dia em nós, por nós e de nós causou dor. O passado deve permanecer lá. Lembranças vêm, mas só devem ser permitidas no campo da aprendizagem, jamais para ressuscitar a dor. Novamente a vida nos dá a oportunidade de sermos mais e melhor. Mais unidos e melhores do que já fomos. 

Meus braços e pernas, assim considero você, minha mãe. Tem me levado e me guiado por caminhos que eu não conseguiria andar só. Uma escalada rumo ao topo, da verdade, da justiça e por todo o amor que há em nós. Em dias difíceis você me dá sua presença, ao seu modo. Quando lhe faltam palavras, o teu silêncio é de fé e de força. Suas lágrimas rolaram junto às minhas em dias desesperadores.

Muitas vezes falta-me a vontade de continuar, até mesmo de me cuidar, de levantar a cabeça, mas por você tenho me motivado, expressado a minha gratidão e a vontade de cuidar de você. E assim, te ver melhor, te ver sorrindo... Não sei o que o tempo futuro nos reserva, mas sei que lá na frente teremos boas histórias pra contar, pra cantar...

Nessa jornada, entre altitudes e abismos, o que sei e posso afirmar é que talvez eu não seja tão forte, mas sei que minha família é. E ela, é tudo o que eu tenho. Família de sangue ou de laço, do berço ou da vida, não importa. Sinto que me ressignifico em pedaços e partes que se ajuntam e assim formam o meu todo. Cá estamos nós, unidos, juntos e seguindo em frente. 

Meus filhos dividem os compassos do meu coração. Minha irmã, a minha mais pura razão. Dos que se foram, guardo o sentido, a sabedoria herdada e a convicção de honrar todo o legado por eles deixado. Meu pai, a inspiração que não se explica. Tantos nomes, tantas histórias, amizades que me impulsionaram a continuar, formaram a forte costura, o elo entre minhas partes.

E o meu sentimento, a minha melhor poesia, continua a compor versos entre o sol e a lua, vivendo no jardim secreto da minha alma, corpo e pensamento, completando o valor da minha existência e o sentido da minha vida.

"Eu não sou forte, mas minha família é! E ela é tudo o que eu tenho." É com essa frase que me elevo em pensamento e sentimento, fortaleço meu ser e revigoro a força da minha existência, da minha fé e resgato a coragem para continuar a travessia. 

De tantos falsos e desmedidos apontamentos, do lado de quem não recebeu amor por parte daqueles que deveriam lhe proteger no seio familiar, entendi que, talvez, eu não tenha palavras para me expressar a minha dor e indignação mas o importante mesmo é o que as pessoas que me conhecem pensam e me respeitam e, por isso, estão ao meu lado nessa jornada.







domingo, 14 de março de 2021

Nossas raízes, histórias e memórias



Hoje fui surpreendido com algumas fotos enviadas pela esposa do meu primo Carmelino, a Otília. O pai dele, tio Carmo, falecido ano passado, é irmão do meu avô materno Joaquim, também já falecido em 1997. 

Essas fotos, por mais que eu não conheça o lugar, trouxeram-me lembranças e uma saudade da infância e dos meus avós. De forma inexplicável sinto-me parte desse lugar. Uma conexão que não cabe em palavras. 

A simplicidade, a casinha ainda em pé, que remete à infância do meu avô e seus irmãos, em Piranguçu, Minas Gerais. Tudo transcende o olhar. Tudo é de uma beleza ímpar, carregada de humildade, sabedoria, respeito, honra, orgulho e amor.

Nessa casinha habitaram meus bisavôs Sebastião Rosa e Anna Rita Vitalina. As poucas informações que tinha a respeito deles era o que minha avó Iolanda contava. Meu avô Joaquim, um homem muito reservado, quase não falava do tempo que morou ali. 

Em cada foto fico recriando imagens em meu pensamento, de rodas de conversa ao redor de uma mesa simples, brincadeiras num terreiro de terra cercada de muito verde. Tento ultrapassar os mundos, a distância, e observar de longe tudo o que de certa forma faz parte do meu universo.

Não há como descrever a sensação de felicidade ao ver paisagens tão lindas e tão puras. Ouvindo o relato desses meus primos, Carmelino e Otília, a emoção toma conta... É como se eu tivesse visitado ali também, esse lugar que para nós tornou-se um local sagrado da família Rosa.

Não almejo muita coisa mas ainda quero conhecer de perto essa casa, além da famosa roseira, com mais de cem anos, que foi plantada pelos meus bisavôs Sebastião e Anna, dentre outras plantas que resistiram ao tempo e estão lá fazendo parte da nossa história e da nossa memória. 

Isso pode não ter muita importância aos olhos de muitos, mas aqui dentro tem um sentido especial, um significado essencial: família, raízes, memórias, sabedoria, saudades...


 









 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

"E qual é o seu tipo de família?"


"... E qual é o seu tipo de família?" Do tipo UNIDA!

Família é um negócio engraçado, uma coisa esquisita, repleto de gente que pensa diferente. Ora diverge no geral, ora nos detalhes. Discute, briga, mas no final, na hora H, diante de cada batalha, torna-se um verdadeiro forte, um arsenal de estímulos e pensamentos positivos, uma máquina de guerra pra defender a sua honra e o seu legado. 

Essa é apenas uma parte da família... da minha família. Fugimos do padrão montado pela sociedade, principalmente da sociedade religiosa. E mesmo infringindo tais regras, posso dizer que desse jeito, desse modo, encontramos a nossa forma de conviver em harmonia, e assim sermos felizes em nosso meio. 

 

Da direita para a esquerda: minha mãe Claudete, meu filho Felipe, eu, meu pai Derci, meu irmão Gabriel e sua mãe Sueli, a esposa do meu pai. Há quem conteste ou questione tal façanha. "Como podem?" Simplesmente podemos e vivemos. E é isso o que importa.


A outra parte da família que tem sido braços, pernas, olhos e ouvidos: minha irmã Cinthia, meu filho Felipe, minha mãe Claudete, Henrique meu sobrinho, eu, minhas sobrinhas Manuella e Lara e Lucas meu cunhado.

Nossa origem é simples. Meus avós paternos e maternos eram pessoas da roça que migraram para a cidade. Humildes, respeitosos, sempre zelaram pelo nome. Sabiam que a honra e a dignidade estavam acima de qualquer coisa. E isso sempre foi algo passado de pais para filhos. Da mesma forma, sempre encaminhei tais direcionamentos ao meu filho mais velho. Espero que, da mesma forma consiga fazer para com meu pequeno.

Essa viagem foi no mínimo libertadora. Por vezes carregamos fardos desnecessários em nossa jornada. Mágoas de situações que não caberiam palavras nem explicações. Situações que fugiram totalmente do controle e que só o tempo para apaziguar o coração, sem a exigência de uma explicação. A resposta sempre vem na ordem natural do tempo certo.

A maturidade nos permitiu entender e compreender que, numa família, entre altos e baixos, alegrias e decepções, a única coisa que não pode e não deve ser prejudicada é a união. E isso nós entendemos nesse processo do tempo. 

Ela, a maturidade, também nos permitiu quebrar protocolos de distanciamentos gerados ao longo desse mesmo tempo. Dentre todos os momentos que passamos juntos nesse final de semana, ressalto o do diálogo e o da despedida. Determinados assuntos nos tiram do chão, nos jogam para além de nossa capacidade de compreensão e nos largam em queda livre com a realidade. De repente, nos vemos sem horizontes, e até sem esperança... 

Mas, como eu disse, família é um negócio também estranho, porque é nela que recomeçamos a nos reerguer das quedas. Mesmo sem poder mudar o cenário à nossa volta, é ela que continua nos amparando na dura caminhada diária. Pois, se sua família não estiver em sintonia com a necessidade, ninguém mais estará. 

Ainda sobre a maturidade, que vem chegando para todos no tempo certo de cada um, que nos permite olhar o passado, reconhecer o exageros e desentendimentos e, assim nos possibilita orgulharmos do que nos tornamos e do que aprendemos a respeitar, hoje é uma realidade a ser celebrada. A despedida aconteceu nesse tom... É esse aprendizado que nos alicerça no presente. E nesse momento, mesmo diante dos obstáculos, celebramos a nossa vida em família, a união, a esperança, a confiança mútua refletida no olhar de cada um. Mesmo que ainda existam divergências de ideias e pensamentos em nosso meio, se tem algo que nos une e fortalece é a dificuldade. Somos fortes na transparência, na honestidade, no caráter e por isso honramos o nosso nome, a nossa história e nosso sangue.

O diálogo nos reaproxima de tal forma, numa intimidade única que dispensa palavras e rodeios e nos coloca cara a cara com o que há de mais íntegro em cada um de nós. E nesse momento de surpresas, superação, dor e fé, nossos olhos se cruzam marejados de indignação com o que é cruel e, infelizmente, só nos resta esperar lutando. Já a despedida, num tom de profunda falta de palavras, nos deixa apenas com a linguagem do corpo. E, corpo e alma, só pedem aquele abraço acalentador regado à lágrimas e saudades.

Foi assim, meu pai, que segurando suas mãos e suas mãos apertando as minhas, alternando com um forte e demorado abraço, entre lágrimas e soluços, que mais uma vez reencontrei-me como filho, como pai e como um homem orgulhoso de suas raízes. Apesar de toda angústia do momento, a energia positiva foi captada por nossos corações. Em orações silenciosas e olhares profundos, nos despedimos mais uma vez... A distância é apenas geográfica. E cada reencontro nos permite reconhecer o quanto somos imperfeitos, o quanto nos precisamos e o quanto aprendemos uns com os outros. 

Trouxe comigo todo o seu apoio. E, a sua confiança demonstrada no olhar, foi o que me preencheu de força e coragem. Deixo minha eterna gratidão, por ser tão aberto, compreensivo, amoroso e acolhedor, não apenas comigo, mas para com meus meninos, os seus netos, principalmente. E estendo meus agradecimentos à Sueli e ao Gabriel pela acolhida, pelo carinho e respeito. Em breve celebraremos a vitória e a vida renascida das cinzas. Esse deserto de lágrimas não é eterno. E são com essas lágrimas que lavaremos nossa alma... 









segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Joaquim

Nosso Joaquim.

E de repente a gente se pega assim em êxtase, admirando e contemplando, buscando palavras para expressar um universo de emoções guardadas ao longo dessa espera. Mas, maior do que o desejo das palavras são as lágrimas da alegria.

Nove meses se passaram e por vezes nos pegamos sonhando com este encontro. Quando vimos seus olhinhos pela primeira vez toda a angústia, toda a dor, todo o medo se traduziram em alegria. Tudo valeu a pena.

Joaquim, você é uma dádiva em nossas vidas. Papai, Mamãe e Felipe, seu irmão, ansiávamos por tua chegada. São muitas histórias pra te contar e tenha certeza que nós estaremos ao seu lado sempre. 

Te amamos.

17/09/18