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quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O caos na calmaria do sistema



Doce caos nesse mundo sem calmaria
O que me falta?
Não mais que alegria
Não menos que ousadia
O que eu tento é todo dia
Uma nova alquimia
Nessa sobrevivência
Sem latência
Muita querência
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Preza, presa, preso
Nessa cela
Com esse selo
Ileso
Cela de carne, de ossos, de sangue
Selo da marcação
Da contramão
Na irritação
"Dos patrão"
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Já dizia o grande 
Freriano, Freire, Freirão
O sonho do oprimido
Hum
É se tornar opressão
Feito um patrão
Mas eu, Ah!
Eu sobrevivo!

Estranho mundo estranho
Mundo estranho mundo
Tão sujo, 
Tão profundo,
Tão imundo...
E quem se tornou patrão
Subiu na chefia, 
Na diretoria
Hum
Por cima
Pra cima
Sem rima
E opressão

Até mesmo a tal qualidade
Hum
Extorquida
De qualquer jeito
De qualquer vida
Para estar
No patamar
Do vislumbre
De seu altar

Fazem até uma pesquisa de satisfação
Mas não é pra melhorar essa qualidade
Jamais!
É só pra causar perseguição 
De quem está descontente 
Com esse sistema
Podre, imundo, e pago
De opressão
E mesmo pagando
Você não tem mais o direito de exigir
Clareza
Competência,
Qualidade
Ouse, tente, abuse!
Pra você ver aonde seu nome estará jogado
Haja medina!
E não lhes faltam de propina
Porque o sistema é uma jogatina
Interesseiros
Pelo dinheiro!
Mas eu, ah!
Margeado pelos pensamentos inquietantes
Eu mais que sobrevivo
Eu sonho, eu acredito, eu luto.
Luto enquanto vivo
Para que a vida não se torne luto.

quarta-feira, 7 de março de 2018

20 anos depois


1998. Formatura da turma de Administração de Empresas - FIO - Ourinhos-SP.
2018. Formatura da turma de Teologia - PUC - Uberlândia-MG.

Uma das palavras de otimismo que mais recebemos nesses momentos é, sem dúvida, "sucesso". Ela vem carregada de muitos significados, na maioria, o desejo de uma carreira brilhante, financeiramente rentável e de reconhecimento a qual nos traga também a tão desejada felicidade. E tudo isso não é apenas válido mas muito bom para o ouvido e para a alma. 

Hoje, reconheço meu sucesso diante das pessoas que se tornaram próximas e amigas bem como as que se tornaram distantes e até aos desafetos. Sucesso, sem demagogia, é ter histórias, é ser memória na vida dos que você ama. Sucesso é ter amizade e pessoas que são verdadeiramente recíprocas com você. 

Talvez, esse não seja o sucesso etiquetado nas vitrines e estipulado pela sociedade, tampouco o que as pessoas esperam e exigem de você. Mas e daí? O que importa? Cada um sabe o que é melhor pra si. E nem tudo o que os outros gostam e fazem é agradável para mim. Então, que se dane! 

Quando optei por fazer Administração eu já havia tentado por duas ou três vezes ingressar na faculdade de Direito. Que bom que não deu. O tempo me provou com tantos frutos que colhi nessa travessia que foi uma ótima jornada e apenas isso já me enche o coração de orgulho. Na verdade, foi uma escolha de alternativa única. Era o que se tinha para fazer e o que dava para se fazer. Por vezes pensei em mudar de curso e até desistir mas acabei resistindo até o final. Minha mãe e minha avó Iolanda foram vozes insistentes para que eu não parasse no meio do caminho.

Não posso deixar de expressar um desejo eterno de ingressar em outras áreas do conhecimento que, desde a adolescência, sempre estiveram bem guardados no coração, letras e literatura e até psicologia. Quem sabe um dia?

Quando optei por fazer Teologia, eu realmente escolhi conscientemente. Foi mais prazeroso. Já não tinha a obrigação de apenas concluir a faculdade e obter um diploma. Entrei para "aprender mais". O desejo de conhecimento, de entender e compreender melhor as coisas, de trilhar novos caminhos do saber são alguns pontos dessa jornada que durou quatro anos e meio.  

Vinte anos se passaram entre um formatura e outra e uma das coisas que nunca deixei apagar é o sonho, ou melhor, o ato de sonhar sempre. Sonhar é preciso para que haja esperança de dias melhores, para que possamos acreditar numa vitória, por mais incerta que seja. Sonhar é para os fortes, uma vez que, até isso, o mundo tenta nos tirar. 

Hoje, posso dizer que vejo e sinto o meu sucesso no brilho dos olhos das pessoas que eu amo e estão presentes em minha vida. Quando elevo meu pensamento aos que já partiram dessa vida, sinto que cada esforço valeu a pena. Quando reflito também sobre os que se ausentaram e sumiram, só compreendo que nunca estiveram presentes de verdade. "É a vida, é bonita e é bonita!" 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Travessia teológica



Um pouco mais de 4 anos se passaram. Lembro-me da primeira aula quando uma professora perguntou para cada aluno presente qual tema gostaria de ver em sua disciplina. Na minha vez: "Teologia da Libertação!" Como eu estava sentado ao fundo, percebi alguns corpos se remexendo na cadeira, alguns pescoços quebrando de lado na tentativa de reconhecer a origem da voz que ousou mencionar tal blasfêmia (rsrs). Engraçado mesmo é que os incomodados não permaneceram nessa empreitada teológica.


Amizades. Muitos conhecidos, muitos colegas de turma, de outras turmas, de outros cursos e uma seleta gama de amigos. Ambiente ímpar que os companheiros de caminhada proporcionaram. Discordâncias à parte, ainda bem que cada um tinha sua opinião bem centrada, pois foi o senso crítico e as diferentes ópticas sobre os temas que nos propiciaram grandes diálogos, discussões e embates positivos. Nem tudo são flores, mas os espinhos também nos ensinam.

Educação I. É fato que existem profissionais e profissionais. Há quem esteja pelo valor, e ainda há quem esteja pelo amor. Estes são poucos, mas ainda existem. E... são justamente esses que eu quero exaltar. Tive a oportunidade e o privilégio de conhecer "nomes de renomes", os quais merecem todo o respeito e minha eterna gratidão. Agradeço ao Prof.º Manoel Messias que foi o nosso primeiro coordenador do curso, ao Prof.º Pe. Flávio - atual coordenador, ao Prof.º Márcio Fernandes - o meu Orientador e à Prof.ª Margarete - por todo o seu apoio. Existem muitos nomes para agradecer e cada um, tenho certeza, sabe bem o valor que teve...

Educação II. Mas existem também os que, infelizmente, só detém o título, o diploma, e não conseguem sequer serem organizados. Sim, perdemos muito tempo com alguns professores e isso gerou um atraso, ou um desperdício. Prefiro manter o sigilo quanto aos nomes, pois não foram poucos. Entretanto, é necessário que a Instituição se atente a fim de que se evite os mesmos eventos num futuro próximo. Mas, pior mesmo, é aquele tipo que não é nada daquilo que diz e que prega. Hipócrita! Descobrimos à tempo, novamente, que "as aparências continuam enganando sim". Falso! O asco e o desprezo como retribuição...

Travessia. Gosto dessa palavra e do que representa para mim. Tem uma conotação poética, profética, de sonhos, fé e lutas. Poesia e profecia, uma alquimia  regada a sonhos, muitos sonhos, por uma fé desconstruída e alicerçada sem amarras e sem alienação, e muita luta, principalmente contra as imposições de quem ainda persiste em condenar em nome de Deus: Medievalismo Contemporâneo, guardem esse nome! Uma Travessia que perpassa caminhos, trilhas, rios, montanhas, céu e inferno, aqui e agora, realidade e imaginação, desertos e sertão...

Sim, valeu a pena! Todo ofício tem seus gargalos. Adquirir o pacote tem lá suas desvantagens, pois não dá pra selecionar o que tem dentro e não tem como escolher pela aparência. Os bons mantiveram o nível. As amizades ajudaram a contornar o que tava ruim, ou perdido. O curso finalizou, mas a Teologia, ou as Teologias, permanecem A Caminho.

Obrigado a todos e todas.

















domingo, 6 de dezembro de 2015

Aos mestres com carinho - III



Professor. Professores. Então, após dar um passeio no tempo e recordar com saudade sobre os primeiros passos da alfabetização mergulho no presente dessa semana. Dois momentos ímpares que me fizeram pensativo. Ainda mais. Agradecido também.

Segunda feira, último dia de novembro. Estávamos na cantina da faculdade, eu, alguns amigos e o professor Márcio Fernandes, doutorando em Filosofia na USP, que abre o livro "Cá de dentro" e nos lê o poema "Ecos do Tempo". Indescritível a sensação de ouvir o seu pensamento recitado pela boca de um Mestre. Interessante o sentimento que ele depositou ao encontrar-se nessas linhas. Gratificante tudo isso.

Já na terça feira, primeiro dia de dezembro, aconteceu a última avaliação do 5º período do curso de Teologia. Ao me dirigir para entregar a prova o professor Antonio Jacaúna me disse que precisava de umas "Doses diárias" de poesia, de Drumonnd, Quintana. Imaginei que sua vontade tivesse sido despertada ao ler alguns dos meus poemas. A surpresa maior foi quando ele olhou em meus olhos e disse "escrevo porque escrevo". Assim caiu a ficha que ele estava literalmente me dizendo frases do meu livro "Cá de dentro". Fiquei sem palavras e só soube sorrir desconcertado. Gratidão!

No texto anterior citei as minhas primeiras professoras. Neste, comentei sobre dois professores do meu atual curso. Em comum, eu estava apenas escutando. E justamente por isso a frase do Rubem Alves no final deste escrito. Creio que a mesma surpresa ao conseguir escrever e ler as primeiras letras se deu neste outro momento que ouvi minhas poesias recitadas em outras vozes.


Minha admiração é eterna por todos os professores. Admiração! Óbvio que empatia é algo à parte que não se impõe, apenas flui natural ou não.  Encontrei profissionais, mestres, doutores aos quais tive a oportunidade de partilhar meus escritos. A todos vocês, professores do curso de Teologia, que dividiram momentos ímpares em nosso espaço sagrado, simplesmente meu muito obrigado!



sábado, 5 de dezembro de 2015

Aos mestres com carinho - II



Professor. É arte. É dedicação. É amor. Há quem assim nasceu. Dom total. Há quem se esforce para ser bom profissional nessa arte. As vezes dá certo. Em sua maioria não. 

A experiência dessa semana me remeteu ao passado. Começo então pelo passado para achegar-me ao presente. Antes de aprender a ler e a escrever a gente ouvia o professor ensinar. Há também quem teve um apoio extra em casa para o início da alfabetização mas nada comparado aos professores. Esses são mágicos, místicos, tem poderes. Creio que a tarefa mais difícil se deu no pré e no antigo primeiro ano. Minhas professoras foram Márcia Leão e Leni, respectivamente.

O que se via na lousa da Escola Moreira Porto não passavam de rabiscos. Era interessante, legal, e por vezes complicado fazer o contorno adequado conforme cada letra desenhada no quadro. Os primeiro garranchos eram os piores. Muito tempo depois eu me recordo com saudade daquela época, das artes e dos meus ídolos. Sim, são ídolos. E por ter tido o privilégio de tê-los em minha vida, em vários momentos quis fazer o que eles fizeram: ensinar com arte e amor. 

Mas, hoje concluo que talvez não seria uma boa ser professor. Não quero ser ídolo. Quero tê-los apenas. São únicos e a eles me reverencio toda vez que penso na minha história de educação escolar, quando os encontro e também nas possibilidades que a vida me proporciona de conhecer outros mestres nessas doces travessias. 

Gratidão eterna!

* Continua no próximo sobre o "presente".




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Descontruções


E neste processo
Quem tá longe se faz perto
E quem tá perto
Não te quer sentindo
Tantos amigos que eu ganhei de novo e sorrindo
Tanta gente que chegou saindo

A gente espanta
Com essa coisa braba
De quem não quer nada com nada
E não se perde a oportunidade
De usar a língua com vontade
Solta o verbo e não se cansa

Desconstruir-se faz sentido
Eu que já fui encontrado
Vou me fazendo perdido
E buscando razões em outros lados
Escrevendo certo onde tava errado
Retornando em terra que já fui banido

Minhas desconstruções serão eternas
Se Deus quiser serão
Enquanto estiver bem das pernas
Vou reaprendendo a desamarrar
Onde o ensino foi imposição
Vou reconstruir com outro olhar

A certeza certa e imediata
É não se limitar atrás do muro
Deste lado o cego-surdo-mudo
Segue a sua trilha obediente
Precisa agora de um destorpecente
Pra encontrar o rumo de sua jornada

Sigo a vida navegando
Em outras águas me encontrando
Beijando em sonho a minha rosa
Fazendo verso, tramando prosa
Sobrevivo à guerra sem razão
Reaprendendo em minha desconstrução

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Eu me recebo muito mais do que me faço"


Um reencontro com o que há de mais profundo, íntimo, sacramentado e desconhecido, eis a tarefa mística do ser humano ao dar-se conta da necessidade quase lógica de que somente em si terá, não só respostas para as questões mais incertas e descabidas, mas como também a luz na medida necessária para o caminho proposto a seguir. 

As experiências nos possibilitam uma avaliação cada vez mais apurada da trajetória e um olhar mais criterioso e destemido do horizonte. Desnudar-se das roupagens e embrenhar-se na natureza interior, sem temer riscos, intempéries e verdades não ditas é sinal de amadurecimento. Compreender que o sagrado e o profano, inerentes ao ser individual, é muito mais humano que sobrenatural e apocalíptico também faz parte das dádivas adquiridas pelos longos tempos idos.

Destorpecer. Desintoxicar. Destemer. Desamarrar. São inúmeras as palavras que me evocam a libertação e me refrescam com a sensação de liberdade. O que diferencia entre uns e outros é a coragem de ousar conhecer além do que os olhos veem. Há quem desteme os riscos do novo e há os que optam por não cortar cordões umbilicais.

Ninguém encontra a si se não se romper. Rompimento gera desconforto, dor, questionamento, dúvida, falta de sentido, mas é tudo passageiro quando a busca não se finda nesses sintomas. O que vem depois dos movimentos de agitadas águas de mares desconhecidos são novas paisagens, maresias, e infinitas possibilidades de novos frutos, saberes, autoconhecimento.

Na rota das passividades, seja de crescimento ou de diminuição, conforme ressignifica Teilhard Chardin, não há como escolher e santificar uma em detrimento de outra. Ambas participam do imenso universo desconhecido de cada ser. Uma mera semelhança entre causa e efeito ou também um equilíbrio natural entre as forças que atuam em nós, conforme a filosofia chinesa bem explica no Yin Yang: energias opostas, positivo e negativo. Resta a cada um buscar-se. Do mais, "Deus seja louvado"!

Escrito apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia, 5º período de Teologia - FCU - Ailton Domingues de Oliveira - 19/11/15.

"Eduque seus olhos para ver" - Por Gilson Rocha


A vida humana é marcada pelas intempéries das relações de alteridade, e a decadência se evidencia na finitude de nossa existência. Nisso, Deus nos educa e se desvela, VENDO para que nós possamos VER. 

No que a opaca ciência só visualiza um vulto de decadência, o exemplo chardiano de Jó – por seus olhos astutos -, enxerga resquícios de evolução. Isso mesmo: um paradoxo! Mas um paradoxo que é claro em o “Meio Divino”. 

Trata-se tão somente do esvaziar-se de nós mesmos para aproximarmo-nos do divino: é como a criança que precisa necessariamente cair para aprender a andar, e o incauto que plasma algo novo. 

Portanto, a partir dessa perspectiva trazida por Chardin, é imprescindível que o “ver” seja mais do que o simples “olhar”. E nesse processo de educação dos olhos, consideremos o deixar-se educar por Deus: esse Deus que muito mais oferece que espera.

Escrito apresentado pelo amigo Gilson Rocha, aluno do 5º período de Teologia - FCU, na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia




"Eu me recebo muito mais do que me faço" - Por Ricardo Albenes


Com o passar do tempo temos a ilusão de que as coisas se tornam mais claras, ledo engano. Na verdade, a cada passo que damos estamos envoltos numa sombra. Contudo, ela não é o mal em si, mas pode se tornar, caso o homem não enfrente os seus medos e tenha a coragem de ampliar o horizonte para toda forma de representação divina.

Faz-se necessário uma reeducação dos olhos, dos ouvidos e porque não de todo o ser. É uma busca contínua, que faz parte do nosso processo de evolução. Mas, se há um fechamento ao reino das possibilidades e não existe um princípio investigativo sobre o ser, pode-se determinar que este homem está caminhando na contramão da obra criativa.

Talvez seja uma questão de ousadia, pois não é fácil abrir-se a si mesmo. Pois a cada passo dado rumo ao interior de si mesmo, o homem acaba por encontrar e revirar antigas memórias e velhos pesadelos. Porém, no transcurso da vida, o homem é convidado a realizar algo pelo outro. Em algumas situações ele pode receber mais do que doar. E é neste momento que serão refletidas as decisões e escolhas do passado e elas serão responsáveis por delinear o movimento que este ser teve ou não no processo de evolução.

Desse modo, antes de abrir-se ao mundo e às realizações, se faz necessário quebrar paradigmas; reencontrar-se. É preciso coragem no sentido de esvaziar-se e deixar o Sagrado preenchê-lo: divinizar e perceber o Meio Divino.

Em Cristo,
Ricardo Albenes

Uberlândia, 19/11/15 

Escrito apresentado pelo amigo Ricardo Albenes, aluno do 5º período de Teologia - FCU, na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia




terça-feira, 17 de novembro de 2015

Águas profundas

 

Ousar.
É um risco.
Fincar os pés na areia e não partir também é.
Manter-se firme no reduto conhecido, por medo das ondas, é uma opção.

As águas são perigosas mas, também, são apaixonantes, viciantes.
Somente através delas se pode conhecer outras terras, outros céus, outros saberes.
Porém se, por medo dos riscos, não se ousar, a sentença é morrer intacto.
Intacto na inexperiência, no saber restrito, no sonho não contemplado.

Há quem consiga apenas molhar os pés nas águas, mas quando a onda vem mais forte, afasta-se.
Há quem tente ir mais além e ao se dar conta da distância da terra firme, o desespero o sucumbe a voltar.

Há então os que se lançam em águas mais profundas, superam as ondas, conhecem outros mares, outros ares, outros saberes, novos recantos.
Estes não se cansam das águas, nem do tempo e das dificuldades, uma vez que o que se adquire quando se lançam são, no mínimo, uma experiência e um conhecimento novos.

A dificuldade encontrada por quem não se permite experimentar novos saberes, nem ao menos se quer conhecê-los, se dá pela diretriz incorporada de que não existe nenhuma outra verdade que aquela que adotou para si.

Lançar-se em outras águas não significa negar sua origem ou abominar o que lhe incutiram.
Ao contrário, é dar-se a oportunidade de agregar outros conhecimentos e experimentar outras fontes.
Fundamentar-se em seu reduto consagrando-o como único viés plausível e capaz e desprezar o que não se conhece, é prática fadada ao ócio por medo.

Ninguém se constrói sozinho.
Arriscar é preciso.
Ousar, mais ainda.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Para onde caminha a igreja católica?



Para o abismo e para o céu. Tudo é uma questão de óptica. Tudo depende de onde se fala e sobre o que se fala. Olhares diferentes sobre o mesmo ponto mostram diversidade, mas também revelam os perfis dos que estão falando de maneira consciente e com conhecimento de causa e os que repetem frases soltas e sem noção de onde estão.

A começar do topo da hierarquia, nota-se que o Papa Francisco tem não só uma visão para as causas mais urgentes da atualidade, mas também, atitudes concretas que possibilitam abertura e diálogo, inclusão e resgate à dignidade da pessoa. O mesmo não ocorre com a elite do alto escalão romano que ainda está cegamente enraizada em suas normas estáticas que não acompanharam o tempo. É visivelmente destoante a linha de pensamento entre tais. A distância é ainda maior no quesito comportamento.

Se a sede romana, de onde parte toda a estrutura organizacional e emana o poder de decisões e ações, não caminha em sintonia, quiçá nos escalões inferiores: dioceses, paróquias, comunidades, pastorais e grupos. Sem contar que, na individualidade de cada católico, existe uma diretriz que lhe foi passada, sabe-se lá de qual forma, e que está arraigada em seu ser. Essa pessoa em si também destoa de todo o contexto hierárquico que vai do local aonde participa até aos pilares da Santa Sé Romana.

O exacerbado preciosismo que algumas tendências fundamentalistas de esquerda ou de direita possuem em suas correntes e posicionamentos é um agravante para as questões da unidade interna. O liberalismo a qualquer custo e o apego às normas acima da pessoa humana se confrontam cotidianamente. Dessa batalha, novas subtendências se criam e se multiplicam. As bandeiras da paz e da unidade permanecem num local inatingível.

Se o abismo começa pelo topo hierárquico, o céu também pode estar mais centrado na base da estrutura institucional. Independente das decisões tomadas lá em Roma é a base que movimenta, sustenta e tem as ferramentas para mudar o cenário pessoal e coletivo. E a base referida, engrenagem viva e operante desse sistema religioso, é a Paróquia e suas Comunidades.

Os procedimentos adotados pelo alto da instituição Católica são digeridos e repassados até suas instâncias de base. O entendimento e aceitação do que vem de cima vai depender da liderança que repassa as informações e principalmente como as repassa. Daí, cada líder vai pintar conforme o seu gosto.

Neste disparate divergente entre polos distintos, abismo e céu, a comunidade católica caminha ciente de um comandante de mãos fortes que se empenha para uma igreja coerente com os ensinamentos de Jesus, comprometida com as causas imediatas e de suma importância como a fome, meio ambiente, vida, família, e noutras vezes cega, surda e muda quando as correntes oposicionistas, por vezes sensacionalistas, insurgem com os velhos discursos farisaicos e fadados de hipocrisia simplesmente porque existe uma lei que "proíbe colher milhos com as mãos em dia de sábado para comer".

Essa não é uma guerra santa. É uma batalha moderna e virtualmente infernal mas que interfere na realidade individual e coletiva. Bem e mal se misturam e trocam de lado conforme suas convicções ou necessidades. A individualidade do ser fica à mercê dos altos e baixos dos lados da mesma moeda, a dúbia igreja de olhares múltiplos com suas nuances para a estética, maquiagem, glamour e status e, em menor proporção e em segundo plano e voz, com outras para a vida, a paz e o bem.

Independente por qual caminho ela vai, simplesmente, ela se vai.

domingo, 16 de agosto de 2015

Qual o lugar de Deus no mundo?



"Deus é o lugar do mundo, afirma o Êxodo."

O mundo está em Deus, Ou, matematicamente, o mundo está contido em Deus tanto quanto Deus contém o mundo e o mundo pertence a Deus. Uma fórmula científica para atestar a relação teológica entre Deus e o espaço/lugar.

O ser faz parte do mundo, está totalmente inserido nele. Pela lógica, logo, cada ser está em Deus. Se cada um já está em Deus, não é necessário sair pelos lugares em busca Dele. A beleza Divina consiste em redescobrir-Lo em si mesmo.

Uma vez que esta certeza esteja compreendida, enxergar o Deus no próximo é uma questão de tempo.

Sendo Deus o lugar do mundo, de certa forma experimentamos aqui o Seu Reino. Podemos então enfatizar as ações no presente, considerando que a nossa estadia neste tempo/espaço/lugar perdurarão pela eternidade.

A íntima relação com tudo o que nos cerca é também uma relação com Deus. "Do pó viemos, ao pó voltaremos."


Trabalho apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia.
Teologia - 5º Período - FCU
Ailton Domingues de Oliveira - 06/08/15

sábado, 4 de julho de 2015

Vidas em Redenção: Nhô Augusto & Jó


A novela de Guimarães Rosa mostra Nhô Augusto,  protagonista de toda a trama, vivendo uma vida desregrada e sem lei, ou melhor, ele próprio faz a sua lei. Sem temor a nada, sem piedade e sem compaixão, falta-lhe o amor até mesmo para com os seus: Dionóra, sua esposa e Mimita, a filha. Jó, da literatura bíblica, ao contrário, é um homem temente a Deus que segue um caminho honroso.
Nesse contexto de histórias em vias contrárias ambos são postos a prova. Nhô Augusto perde tudo, esposa que vai-se com outro homem e leva a filha, as propriedades já não as têm e sua reputação de homem violento, que a tudo resolve do jeito que for preciso, lhe é tirada à truculência. A mesma truculência que até o momento usava para com todos.
Jó também perde tudo, bens, filhos e ainda adquire uma doença que sentencia profundamente seu corpo.
O personagem do sertão encontra a redenção, primeiramente na bondade dos que o cuidaram no momento de sua aflição que beirou a morte. Na longa espera de sua recuperação conheceu um padre que lhe trouxe esperança de novos dias: “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.” Neste espaço de tempo encontrou Deus nas rezas do sertão, na solidão do tempo e no silêncio de sua labuta diária. Tornara-se um homem bom.
Já o personagem do drama bíblico, reconhecido como um herói por outros escritores, é testado por todos os que o rodeiam, amigos, esposa, que até o aconselha a amaldiçoar a Deus. Ele, porém, mantem-se firme na fé em Iahweh e mesmo nos dias mais difíceis não se esmorece. Crê firmemente que há de vencer.
Augusto Matraga rompe com a solidão e parte sem rumo e sem destino. Deixa-se levar pela sorte dos caminhos que se cruzam à sua frente enquanto Jó espera na paciência o dia de sua libertação. Eis que o sertanejo redimido reencontra-se com seu amigo Joãozinho Bem-Bem, homem que também vive sob suas próprias regras mundanas. Quando o jagunço está prestes a cometer uma injustiça interpela em prol dos desfavorecidos e se entrega em luta de morte contra aquele que outrora o chamara de irmão. Vê seu mano velho morrer por suas mãos e depois se entrega feliz e em paz consigo mesmo à mesma morte.
Jó também intercede por seus amigos junto à Iahweh, que estava prestes a castiga-los por não honrarem Seu nome. Iahweh mudou a sorte de Jó retribuindo e abençoando sua vida com bens, longevidade e filhos. Jó morreu velho e cheio de dias.
Em ambos os contextos, um dos pontos em evidência, se dão na provação que os personagens têm que passar durante suas travessias. A fé que não se abala e a fé que é encontrada diante das intempéries da vida. Os protagonistas são homens fortes, destemidos e se colocam à frente de quem necessita. Arriscam-se pela boa e justa medida praticada.



Trabalho da disciplina de Bíblia V: Correlação entre os personagens Nhô Augusto ("A hora e a vez de Augusto Matraga" - Sagarana - João Guimarães Rosa) e Jó (Livro de Jó - Bíblia)
Ailton Domingues de Oliveira

IV Período de Teologia - FCU

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Eu, nós mesmos e a inquisidura


Final de semestre. Férias da faculdade. Sensação de dever cumprido. Avaliação de caminhada e lembranças de um tempo bem aproveitado.

O confronto de ideias se fez necessário em belas oportunidades. E o melhor de tudo não é a satisfação por ter alcançado excelentes notas mas sim pelo processo de desconstrução e reconstrução de pensamento que possibilitou novas visões sobre o mesmo, antigo e moderno enfoque. 

Nem tudo são flores. Contemos com os espinhos. Somos pedra, mas também vidraça. Sair para um franco confronto é dispor-se a acertar e ser acertado. Risco que vale a causa. Mais importante é a disposição e o despojamento. Pena, nem todos são assim.

Tenho o privilégio de estar entre pessoas que anseiam pelo conhecimento. Origens diferentes, perspectivas também, e muito contrassenso no modo de enxergar o mesmo pontinho no quadro branco. 

De um modo geral tudo muito bem, obrigado. Colegas, amigos, irmãos, profissionais, educadores, professores, mestres, tem de tudo nesse auê. Exceções também, óbvio. Saldo positivo!

De um modo específico, dentre as coisas que faço questão de salientar, é a eloquência do discurso falido de quem se assenta na cadeira como se fosse um trono de doutor da lei e dali tece suas premonições, teses e julgamentos sobre os outros. Não se manifesta com o que é preciso mas critica a quem o fez. Porta-se de uma maneira mascarada, tudo para ficar bem na fita com a instituição. Hipocrisia.


Se fosse para vendar meu olhos, tapar os ouvidos e calar a boca, aceitando tudo o que é colocado, simplesmente para manter um status de boa cordialidade na relação, preferia nem estar ali. E sei que não estou neste meio para contrapor a tudo e a todos, nem tampouco aceitar calado quando a incoerência está gritante e atrapalhando o fluxo. O ambiente tem que ser e estar propício. 

Entendo que há quem assuma o papel de nada dizer, nem ver, nem ouvir. Fazer, nem pensar! É a santa inquisidura academicista que aparece na figura de douto da lei, o mesmo do Evangelho. Ao mesmo tempo se incomoda com quem não tem medo, nem receio, nem rabo preso para se expor. 

Já fomos tachados de ridículos por uma mazela tapada que tem medo e não aceita o processo de desconstrução. Lancei meu protesto e to aqui, to aí, pro que der e vier. Agora, porém, encerramos o período com o gosto do afrontamento através de um discurso de quem tenta manter-se no topo da cadeia, portentosa, jubilosa, regateira e mascarada. E viva a santice desvairada!

"Eu, nós mesmos e a inquisidura" ainda nos cruzaremos por aí. Aguarde cenas dos próximos períodos. 


Notas de rodapé:

"É melhor ser rejeitado por ser sincero, do que ser aceito sendo hipócrita." (autor desconhecido)

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo." (Raul Seixas)

"Antes ser um ridículo do que um hipócrita alienado." (Eu e nós)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O que nos torna capazes de Deus? - II



O que nos torna capazes de Deus?
A religião nos torna capazes de Deus?
É somente a religião que nos torna capazes de Deus?
Então, quem não tem religião não tem Deus?


Já observamos que para se ter uma experiência com o Sagrado não é necessário passar pelo crivo da religião e o que nos torna capazes de Deus não depende de nenhuma denominação religiosa. A religião em si significa "religar" e é apenas um caminho ou uma possibilidade deste encontro imanente-transcendente.

O que nos torna capazes de Deus está ligado às ações individuais que praticamos, as quais refletem diretamente nas pessoas dos círculos que participamos, seja na comunidade ou na sociedade em geral. A prática do bem não é exclusividade de religião alguma. É a escolha de uma conduta que aprendemos a desenvolver desde os primeiros passos da educação, ainda em casa. Está intrínseca na consciência de cada indivíduo.

A religião foca na boa conduta moral e na prática das boas ações explicitadas no cerne de seus livros sagrados e na tradição histórica. A partir de suas regras, promove um encontro individual e coletivo com o Sagrado. É preciso abster-se de particularidades e, de certa forma, aceitar a imposição institucional.

No cristianismo se afirmarmos e confrontarmos que quem não tem religião não tem Deus estamos indo contra a proposta do próprio Cristo que disse: "Eu vim para que TODOS tenham vida e a tenham em abundância". Jesus não mencionou que veio somente para os cristãos, uma vez que Ele mesmo era adepto do judaísmo. E. Durkhein afirma: "Não existe religião que seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, a condições dadas da existência humana." Assim sendo, nenhuma religião ou igreja são detentoras do Reino de Deus.

Papa Francisco em um de seus discursos deixou uma frase celebre: "Quem procura a igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da fé." Sentindo que a igreja está muito mais institucionalizada e dessa forma impossibilitada de acolher os que a procuram, tamanho é o engessamento de suas estruturas, tem se portado aberto a acolher e dialogar em todos os níveis e sobre todos os assuntos que permeiam a sociedade. Ele mesmo é ciente que o Catolicismo, uma das opções do Cristianismo, não é o único caminho de salvação disponível e portanto tem deixado nítida sua preocupação com quem busca este encontro com o Sagrado.

Leonardo Boff uma vez indagou Dalai Lama sobre "qual seria a melhor religião?". A resposta foi desconcertante como afirma o próprio teólogo: "A melhor religião é aquela que te faz melhor". Não contente Boff ainda pergunta "e o que o faz melhor?" e para sua surpresa:  "Aquilo que te faz mais compassivo, aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião." Nas próprias palavras do budista tibetano encontramos um tom de desapego religioso. Sua fala está muito mais voltada para a boa conduta que propriamente a um caminho de religião que possibilite o encontro com o Sagrado.

A experiência com o sagrado é individual e não depende de estruturas religiosas. O que passar disso é histeria coletiva (induzida pelo apelo emotivo). O trabalho sim, este é comunitário.


Ailton Domingues de Oliveira
Avaliação final de Filosofia da Religião
Prof.º Márcio Fernandes
4º Período de Teologia - FCU





sexta-feira, 29 de maio de 2015

oS ridÍKulOs


Antes da pitoresca entrada solada, procurei o "pai-dos-burros" no google, facilmente acessível e acessável por qualquer um que queira satisfazer sua curiosidade quanto ao significado das palavras. No meu caso digitei "RIDÍCULO". Do resultado da pesquisa, sem tirar nem por, apenas copiei e colei da forma que segue abaixo:

a) Significado de Ridículo: adj. Risível; digno de riso; merecedor de escárnio ou de zombaria.
Insignificante; de valor irrisório; de pouco ou nenhum valor: quantia ridícula.
s.m. Pessoa que submete à zombaria, ao riso; quem se comporta ou diz algo que desperta o riso por ser muito engraçado ou constrangedor.
Algo ou alguém que é ridículo: o ridículo ainda não chegou?
Expor ao ridículo. Apresentar algo ou alguém de modo a causar risos.
Expor-se ao ridículo. Colocar-se numa situação de zombaria.
(Etm. do latim: ridiculu.a.um)


b) Sinônimos de Ridículo: esquisito, estrambólico, excêntrico, extravagante, heteróclito, insignificante risível
c) Antônimos de Ridículo: elegante, fino, chique, lógico, sensato e razoável

d) Definição de Ridículo:
Classe gramatical: adjetivo e substantivo masculino
Separação das sílabas: ri-dí-cu-lo
Plural: ridículos
*Fonte: www.dicio.com.br

Simbora que rapadura é doce mas num é mole não! O que sassucede é que niquiquando você discorda da opinião alheia, tem autor de alheice que se ofende e ataca barraqueiramente a tu, o discordante.

O episódio ocorreu numa instituição acadêmica. Professor, disciplina e tema não vêm ao caso. Participantes, entre eles estava eu, opinaram acerca do tema em discussão. Favoráveis, contras, alternativos e não optativos eram os que compunham a orquestra. Como em tudo que se refere a assuntos de ordem religiosa, principalmente quando se tratam de regras institucionais e dogmas de fé pouco conhecidas e discutidas, portanto mal interpretadas em sua maioria, onde a própria instituição religiosa ainda caminha rumo a melhores esclarecimentos e compreensão, toda opinião de qualquer leigo merece, no mínimo, respeito. É o que se espera de graduandos de um 4º período de Teologia que ali estão não por acaso.

A cena desrespeitosa foi que um participante esporádico, desconsiderando os comentários de um colega de sala, saiu do campo da discussão acadêmica e desdenhou com gestos e palavras a este. O colega apenas manteve o foco no embate. O participante reclusou-se no silêncio e no desdenho. Posterior a tal fato a sala manteve-se sem a presença esporádica de quem não gostou de ouvir outras vertentes sobre o mesmo assunto. Eu, quanto a essa digníssima ausência, quase não tenho dormido direito!

Não bastasse nos honrar com sua ausência ainda necessitou destilar sua profunda mágoa e incômodo, quanto ao episódio ocorrido a mais de mês e devidamente citado acima, contemplando nossa sala de "ridícula". Infelizmente, fui eu quem escutou no corredor desta instituição acadêmica a persona de orgulho ferida a nos adjetivar de ridículos. Aí pergunto: "Que tipo de teólogo vai sair dessa academia? Que tipo de líder é esse que não aceita discordância de sua opinião?" Pior que isso: "O que é que a pessoa desenrola e verbaliza nos momentos que ministra o seu movimento universitário?" Pseudo-cristianismo, eu penso!

Por isso me reservei, desde os primeiros momentos de faculdade, a não participar de certos eventos universitários que começam sem pé nem cabeça. Recusei veemente os inúmeros convites e afirmei que alguns movimentos acadêmico-religiosos não eram a minha praia! Geralmente quem atua em certas bandas religiosas que descartam o estudo e a discussão sadia e fincam o pé numa trilha regada de ingenuidade mística e espirituosa são travados para acolher o diferente. A acepção de pessoas já se dá a partir do pensamento alheio.

Estar num ambiente acadêmico requer, antes de qualquer coisa, prontidão para se desconstruir. Há quem queira somente o título e prefira manter sua catequese de raiz intocável. Enveredar pelo caminho da ciência é correr o risco de se deparar com verdades diferentes das que nos foram repassadas um dia. Se durante o percurso os sinais de fé se estremecerem com o novo isso não será o problema vital, mas é um grande sinal de que precisamos continuar buscando respostas. Todo o conhecimento deve propiciar-nos a desconstrução dos pensamentos e possibilitar-nos o reerguimento de um alicerce com verdades pertinentes à nossa caminhada de fé. Se ao final de quatro anos acadêmicos nada mudar, o tempo fora perdido.

Quanto a adjetivada que nos foi tacada não vejo como um peso negativo, quiçá desonroso, nem que influenciará na academia, tampouco na caminhada de fé. Quando crianças, épocas de pré-escola, quando o coleguinha dizia alguma coisa que não gostássemos a reação era mostrar a língua e xingar de chato. Em tempos acadêmicos a reação evoluiu para o desdenho e o ridículo. Pena que esse mesmo grau de evolução não se dê na abertura para o novo e para o diálogo saudável. De qualquer forma eu PREFIRO SER UM RIDÍCULO MAS VERDADEIRO A UM HIPÓCRITA E ALIENADO!

Ou, como diria o grande Rauzito: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."

sábado, 23 de maio de 2015

O que nos torna capazes de Deus?


Para ter uma experiência do Sagrado é necessário passar pelo crivo da religião?
Necessariamente não. Ela é um dos caminhos existentes para se experenciar com o Sagrado, mas não se encerra em si mesma como única opção.
A religião, em suma, deveria ser o caminho fiel para a pessoa conectar-se com o transcendente. Pode-se dizer que o é enquanto fonte de libertação ou não o é enquanto fonte de alienação. A linha que separa libertação de alienação é tênue. Ao mesmo tempo que a experiência com o Sagrado através da religião permite à pessoa liberta-se, de si mesma ou de opressões externas, poderá também ocorrer o oposto. Um único indivíduo corre o risco de passar por ambas as experiências repetidas vezes. Há que se considerar então como um verdadeiro círculo vicioso.
O que torna uma pessoa capaz do Sagrado não é necessariamente a religião. Esta, enquanto caminho e com seu fiel sentido de "religar", proporciona meios para um encontro imanente-transcendente.
Usando como exemplo apenas o cristianismo, pode-se dizer pautado na tradição escrita onde Jesus afirma "Eu vim para que todos tenham vida", que não há nenhum privilégio de salvação somente para as pessoas que seguem alguma ou determinada religião. Neste pronunciamento do Nazareno manifestado a todos não ocorre nenhum tipo de acepção de pessoas. Todos, simplesmente todos têm direito à vida e não somente os que estão inseridos em determinada denominação religiosa.
A experiência com o Sagrado deve transcender e superar todo e qualquer obstáculo. Se existir alguma regra imposta para a pessoa atingir o ápice desse "religamento" com o Transcendente há que se considerar a mesma como uma alienação mascarada. É o ópio oferecido de maneira disfarçada. Em contrapartida a religião deve permanecer fiel em seu caminhar, sem engessar-se em exageros e ao mesmo tempo propiciar a leveza do encontro com o Sagrado, melhor dizendo, com Deus. O papel da religião é criar de maneira simples este espaço de aproximação e experiência.
Particularmente, enquanto cristão e praticante, não preciso estar sob as asas da instituição para conectar-me à Deus. Professo minha fé Católica ciente do que tange as leis da Igreja, a Palavra de Jesus e a minha consciência humana. Respeitar os diversos tipos e possibilidades de encontro com o Sagrado é acreditar que a salvação está para todos tanto quanto este Transcendente que tudo criou.


Ailton Domingues de oliveira
IV Período Teologia - Trabalho de Filosofia da Religião – Prof.º Márcio Fernandes
Faculdade Católica de Uberlândia – Mar/15