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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

domingo, 25 de dezembro de 2022

Papo de irmãos: "despojar-se de si"



Véspera de Natal de 2022. E como de costume, tradição, eu e meu compadre Fábio, falávamos ao telefone. Nossa comunicação é constante e é como aquele livro gostoso de se ler ou aquela série que nos prende, não importa se paramos alguns dias de ler ou assistir, quando nos conectamos não existe hiato temporal em nossa amizade. Vale ressaltar que somos compadres por duas vezes, fui seu padrinho de casamento e ele padrinho do meu primogênito Felipe. Entre brincadeiras, zoeiras, palavrões vulgarmente carinhosos de amigos e felicitações, caímos em mais um papo sagrado, mas dessa vez sobre O Sagrado. Como parceiros, amigos, companheiros e irmãos pela vida, outras vidas, noutras épocas pelo tempo dessa estrada, nos reservamos o direito de falar aquilo que percebemos faltando ou sobrando no outro. Sempre achamos o meio certo de expor a nossa percepção, esta que se insurge em nosso íntimo em forma de um cuidado especial. Sempre descobrimos um sentido diferenciado que as vezes só percebemos ao longo dos dias. 

E como irmãos, presente da vida para a vida, o ato de preocupar com o outro nos dá as condições necessárias de chamar a atenção quando necessário pois, elogiar quem a gente gosta é fácil mas, ter coragem de puxar a responsabilidade de cuidar do outro é para poucos. Cuidar implica também ser contra, questionar, chacoalhar no sentido de alertar os prós e contras da inércia em que nos encontramos, seja um engessamento no lugar, seja um movimento desenfreado, ambos com riscos iminentes. 

Entre papos e frases aleatórias que trocávamos, eis que surge um questionamento do meu amigo sobre a minha espiritualidade, o contato direto com o Sagrado sem adentrar o quesito religião, ou seja, religiosidade sem denominação religiosa. A abordagem direta de sua parte foi sobre minha crença em Deus e a possibilidade de dar-me o direito de ausentar-me do mundo e conectar-me com o Sagrado, sem envolvimento com trabalhos, apenas eu e o Divino. 

Suas dúvidas em relação ao meu pensamento sobre tal assunto eram palpáveis, explodiam em seu olhar e se manifestavam em palavras ditas com muito cuidado, carinho e sentimento. Adentrar num terreno desses, um terreno amigo porém alheio, em que se mexe no íntimo do outro, não é pra qualquer um. Mas, nossa amizade tem uma potência que ultrapassa barreiras e isso não abala as estruturas. Ele tinha a necessidade de saber como estava minha vida longe do contato com o Sagrado, que a seu ver, necessita de uma intimidade maior e a sós com o Divino, longe do mundo. Expliquei-lhe que tenho uma conexão com o Sagrado mas de outra forma, na figura de cada próximo que cruza meu caminho e isso está longe das paredes de qualquer instituição religiosa. 

Mas, com toda sensibilidade e respeito, ele me contou de sua experiência e isso foi concreto para mim, Trouxe-me um alento de esperança para uma reconexão com a Vida, o Divino, o Sagrado, Deus. Ele ainda falou algo que, com certeza, poucos entenderão: "precisamos nos reconectar com aquele Deus da Cantizani". Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, na vila Cantizani, Piraju-SP, foi o local onde demos nossos primeiros passos dentro da igreja Católica. Missas, catequese, grupo de canto, grupo de adolescentes, grupo de jovens, retiros, encontros, coordenações, teatros, vigílias, serenatas, trabalhos diversos, enfim, muita experiência que é a nossa base para os dias atuais. Entendi então o convite através de sua experiência: resgatar o "eu", ainda certamente inocente para a vida, mas com ânsia de viver, que não se afastava do Sagrado, das raízes, do alicerce... Não podemos esquecer os passos dados dentro da travessia de nossa história.

O que ele me contava era mais que uma história ou experiência, mas um convite a viver algo íntimo, de reconexão com o Sagrado, em que possamos ser apenas o "EU e DEUS", sem pretensões extras em qualquer tipo de envolvimento dentro da comunidade religiosa. E claro que, dentro de nosso momento de pura transcendência num simples diálogo de amigos, percorremos por várias direções do pensamento mas a linha mestra que norteou esse tempo que nos demos um ao outro, foi no intuito mais puro desse meu irmão dividir algo que ele já sabia, poderia ser grandioso para mim também tanto quanto tem sido pra ele. 

O caminho que ele fez para chegar no lugar de onde fala precisou sim se desconectar do mundo, dos afazeres, das atribuições e cargos que ocupa para ser simplesmente ele, aquele menino crescido na Cantizani, com uma fé enraizada na simplicidade e, assim, se reconstruir a partir de experiências da base, do alicerce e do presente. A palavra que, por unanimidade, marcou esse bate papo foi "despojo". Despojar-se de si para adentrar o solo sagrado da pura intimidade e privacidade com Deus. "Ali eu sou apenas o Fábio, da Cantizani, sem pretensões a não ser o de agradecer, rezar, pedir junto a Deus e Nossa Senhora Aparecida", disse meu amigo. 

Apesar de estar sempre me conectando com o Sagrado, Deus, através da intimidade com o próximo que cruza meu caminho, que ao meu ver é um ato concreto de manifestação do Divino, senti na experiência retratada no olhar e no tom de sua voz, do meu querido compadre, algo mais que especial que iam além das palavras. E foi esse sentimento, o do "despojar-se de si", que me fez refletir sobre o meu momento atual e, a partir daí, dessa nossa conversa, senti a necessidade de me permitir experimentar, sem amarras e sem ambições, uma nova forma de viver a experiência do despojo de si para encontrar o Sagrado que habita em mim. 

Papo de irmãos: pra sempre. 








domingo, 6 de novembro de 2022

Marginal social ou sociedade marginal



A hipocrisia acompanha a evolução da espécie desde os primórdios da existência
A briga, tanto quanto as guerras, sempre foi por poder 
A luta desarmada em prol do bem comum
Sempre perdeu espaço para as guerras desalmadas
O sacrifício oferecido em tempos sombrios
Sempre foi o dos inocentes e sem voz
Para se manter o poder é necessário abalar as bases da estrutura
Uma sociedade que não visa igualdade
Terá sua política voltada para manter suas classes bem separadas
Destruindo a educação, sentencia-se o futuro
Quem está no topo do poder sempre terá seus privilégios inabalados de geração em geração
Enquanto isso, na base, quando não se foca na educação
Ou quando se destrói o sistema educacional
As possibilidades de um futuro vão se anulando


A criança presa por fora
como marginal social
acusada e sentenciada por suas precárias condições
abandonada em si
refém por herança
busca sobrevivência
e encontra saída nas mazelas
no crime, nas drogas
porque são os únicos lugares que acolhem
e novamente se tornam reféns
o sistema, que recebe para cuidar
pouco se importa do lugar em que a criança está

Cuidar das crianças
Para que quando adultas
Possam passar valores e cuidar dos seus
Educação é base, é caminho e caminhada,
É a própria vida, é a própria jornada

Poema escrito para o trabalho da disciplina de Psicologia Social e Comunitária - 4º período de Psicologia - Unitri


"As crianças saudáveis não terão receio da vida se os seus idosos tiverem integridade suficiente para não recear a morte." - Erik Erikson 

"Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos" - Pitágoras

"Por meio da educação transformamos realidades, diminuímos diferenças sociais e criamos oportunidades para as nossas crianças!" - Marianna Moreno

"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." - John Dewey

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Alienação, hipocrisia, desrespeito: CHEGA!



Hoje, após compartilhar uma mensagem em diversos grupos que faço parte, falando sobre pessoas de opiniões políticas diferentes e que nem por isso sua índole e caráter são duvidosos, alguém postou em seguida, num determinado grupo, a imagem de uma "enxada" com os dizeres "Varinha mágica pra trazer cerveja e picanha". 

Refleti muito sobre a minha postagem antes de responder, se havia algo provocativo da minha parte, mas não. Foi uma mensagem encaminhada e de autor desconhecido. Segue: 
- "Aprendi que existem pessoas maravilhosas que votam no Bolsonaro e existem pessoas maravilhosas que votam no Lula. Há extremistas dos dois lados. A escolha por um desses candidatos não define o caráter de alguém. Ela é baseada nos conhecimentos e experiências de vida e sobretudo como cada indivíduo significou tudo isso. Isso não faz das pessoas melhores ou piores, são apenas pontos de vista e expectativas diferentes. No entanto, a forma grosseira de lidar, julgar e acusar o outro porque ele pensa diferente, supor que você é mais inteligente, vivido, esclarecido... enquanto o outro é alienado, ignorante, manipulado, isso sim diz MUITO sobre você! Cuidado com as projeções pessoais, elas tem mais a ver com a gente do que com o outro" (autor desconhecido).

Me senti não apenas no direito mas na obrigação de responder de forma clara, simples e sem perder a noção e limite do meu espaço. Minha resposta: 
- "Isso é lindooooo!!! Vejo com bons olhos e orgulhoso da minha origem. Meus pais e avós são da roça, da terra. Mas, teologicamente falando, sendo o crucificado alguém que veio das mazelas da pobreza, e teve ao seu lado todo o tipo de excluídos e pobres (ladrões, prostitutas) me sinto duas vezes abençoado."

Tentei refletir sobre essa imagem a partir de várias ópticas mas, em nenhuma eu consegui ver algo que não fosse pejorativo; foi apenas no sentido de debochar. E, debochar de quem é simples e usa de trabalho braçal e pesado para sobreviver, tal como pessoas que trabalham no campo, na lavoura, na roça soa estranho demais para quem se julga "do bem", "cristão" e "patriota". Me questiono se o que se passa em certas cabeças seria que "uma pessoa da classe dos trabalhadores braçais não poderia então tomar sua cerveja e comer uma carne melhor"? 

Sem muitos questionamentos, me apego em três pontos: a minha origem e ou minhas raízes; os trabalhadores braçais, em especial os que utilizam da enxada, defendendo a premissa de que todo trabalho é abençoado e digno; o olhar teológico que, numa simples passada de olho pelos diversos livros sagrados, em especial a Bíblia cristã, todos falam sobre amor ao próximo, falam em especial sobre os excluídos, as minorias rejeitadas pelo sistema, pelos doutores da lei, pelos homens do poder, pelos abastados que se encontram no topo da pirâmide. 

Sem trabalhar ninguém se mantém, ninguém sobrevive. A injustiça está em todo canto, em todo campo. Trabalho escravo ainda existe em pleno século 21. Meus avós não tinham boa escolaridade mas eram sábios em seus ensinamentos, lições e exemplos. A classe trabalhadora, operária, braçal, não pode ser resumida a isso. Enxada, foice, martelo são ferramentas e símbolos de quem trabalha de forma pesada, de sol a sol, em sua maioria com um salário de fome; têm suas mãos calejadas, rachadas, cheias de bolhas de sangue; suas peles são queimadas pelo sol e muitas pessoas aparentam mais idade que de fato tem. 

O dito "cidadão de bem" faz o bem para quem? O "patriota" usa seu patriotismo para defender qual tipo de valor? O "cristão" usa o "seu deus" pra acolher ou pra julgar e sentenciar? Usa sua religião pra libertar ou pra alienar? Usa sua oratória pra trazer amor e paz ou pra esbanjar ódio, intolerância, discriminação, guerra e morte? 

Seguindo os valores do evangelho cristão, prefiro estar com os loucos do que com os falsos; falsos esses que na expressão de Jesus eram os hipócritas do templo e da sociedade que batiam no peito mas era verdadeiros sepulcros caiados. Prefiro estar com os excluídos, os pobres, as putas, as LGBTQIA+ do que com a cristeirada hipócrita de armas na mão. A diferença entre os lados é que os bandidos da elite se vestem bem e são protegidos pelo sistema. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O sequestro de Deus


As ciências que discorrem sobre a fé. A fé que atesta a ciência. Assim deveria ser, mas não é. Há mais que uma disputa de devotos e torcidas entre os opostos e divergentes. A briga é por uma verdade que ninguém detém. Verdade empurrada, à força, que soa mais como necessidade de impor e mostrar poder. Ganância pelo próprio poder. O poder que proporciona status. E para se impor, com poder, é necessário causar medo. E o medo aliena. E quando se aliena, qualquer mazela dita como "verdade", mesmo que não o seja, acaba sendo única, seja ela religiosa ou científica. Uma verdadeira deturpação de valores. 

Quando a necessidade de mostrar poder e força estão acima do bem comum, há no contexto um grande sinal de desvio de finalidade e, nos porta-vozes da alienação, um medo maior de perder o controle, o poder, e todas as regalias que o mesmo proporciona. 


Falamos aqui não apenas do sequestro de Deus através da religião, da fé ou mesmo da teologia que tem "Deus" como objeto de estudo mas, de todo os deuses pré-fabricados por quem deveria usar o "poder" para libertar e não alienar. As ciências, as políticas e todo tipo de radicalização que produz cegueira coletiva, alienação, polarização, extremismos inconsequentes, fanatismo, os quais geram vítimas. O Deus das religiões, o deus das ciências e por mais que a política seja uma ciência ou, em sua mais resoluta e simples tradução como sendo a "arte do bem comum", também produz o seu deus e este talvez seja o mais perigoso de todos, pois consegue manipular tanto as mentes "religiosas" quanto "científicas.


A religião deveria ser aquela que liberta a mente, que cura a alma. A ciência deveria ser aquela que liberta o corpo, que cura a matéria. A política deveria ser aquela que cuida de todos, sem distinção. Mas cada força desse tripé é controlado por pessoas que deturpam o objetivo real, e promovem "verdades" conforme sua própria intenção, necessidade, proteção de seus asseclas e no fim, o que deveria ser para todos torna-se uma megaprodução para poucos e uma retaliação para os que divergirem. 


Deus foi sequestrado em nome do deus do poder. A ciência foi prejudicada em nome do deus do poder. A política há muito deixou de ser a arte do bem comum para ser fonte de autoritarismo de quem está no poder que, como tal, usa o mesmo poder para proteger os comparsas à sua volta. Uma guerra de interesses onde a tirania assume um papel de mocinho e salvador, aliciando para si os deuses do poder.


Deus mesmo, continua sendo esquecido, encarcerado, morrendo nas esquinas, nas favelas, marginalizado. Deus, sendo amor, está deturpado até mesmo nos altares dos vendilhões e "mestres da lei". Vendem por aí os milagres da fé tanto quanto os da ciência, mas o milagre do amor ao próximo, muito mais real e necessário, já não existe nem nas tábuas dos mandamentos desses senhorios. 



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Crítica: "Sintonia"



“Sintonia” é uma excelente série brasileira da Netflix que retrata com perfeição o cotidiano das pessoas que habitam a periferia de São Paulo, também conhecida como favela para quem vê apenas por fora e de comunidade para quem enxerga por dentro. 

Os protagonistas são três jovens amigos que cresceram juntos, cada um com seu grande sonho de realização e sucesso. Apesar de caminhos diferentes a amizade é algo forte, sólido e sempre presente. Talvez por isso o título da série: "Sintonia". Existe um respeito mútuo, cuidado, amor e dentro do possível se encontram para prestigiar as conquistas do outro. 

Eles conseguem se realizar naquilo que tanto sonharam, mas nada foi fácil e não continua sendo. Entre acertos, riscos, consequências e muita superação o trio caminha por suas escolhas sem perder o contato e as raízes, algo muito típico do espírito de comunidade que habita nos moradores da periferia. Quem expande para o sucesso não esquece suas origens.  

Um conseguiu evoluir na carreira artística como MC. Outro se reencontrou dentro da religião. O terceiro conseguiu seu tão almejado posto dentro do tráfico. A realidade na periferia é tal como descrito na série, tanto no quesito de comunidade, em que todos se ajudam e se respeitam, como na questão do crime, da ordem imposta para uma boa convivência entre os membros da comunidade e a "lei do crime" que age quando alguém trai a confiança da "irmandade", quando alguém tenta explorar trabalhadores honestos.

As drogas são o carro chefe. Por isso evita-se todo tipo de violência para não chamar atenção da polícia. Há policiais corruptos, bem como bandidos que exercem um papel conciliador e protetor da comunidade. Uma inversão não apenas de valores, mas de papéis. A polícia acaba sendo conivente com o tráfico e ganha por isso. Policiais são comprados. Traidores do tráfico são punidos e silenciados com a morte. Retaliações acontecem quando matam policiais, quando morrem bandidos e quando matam inocentes. 

Há um tripé essencial entranhado não apenas no enredo da trama mas na realidade que assola as grandes comunidades periféricas brasileiras: fama, religião e crime. A fé que salva e aliena, o sucesso que dá e tira, o tráfico que mata mas as vezes é a única forma de sobrevivência. Contextos reais, vidas paralelas intimamente ligadas. A verdade tal como é sua realidade. Caminhos de fama e sucesso, dinheiro e prosperidade, fé e religião, crime e ilusão, vida e morte. 


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Crises: de fé ou de instituição? - Parte II


Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss (*) a palavra
crise vem do latim crĭsis, is que remete ao "momento de decisão, de mudança súbita". No grego krísis,eōs significa "ação ou faculdade de distinguir, decisão", por extensão, "momento decisivo, difícil", derivação do verbo grego krínō, "separar, decidir, julgar"; a palavra ganha curso em economia a partir do séc. XIX que remete à "fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão, ou vice-versa".(*)


A crise de fé pode encontrar diversas palavras para representar o momento específico bem como os meios que a ocasionaram. A zona de impacto, ou seja, o que ocorre fora do âmbito religioso é o que mais gera questionamentos no indivíduo. Ao começar a se deparar com situações que transgridem o "mar de rosas" exposto nos púlpitos sagrados, os questionamentos são inevitáveis. Após os questionamentos vêm as dúvidas e com elas o véu que ora impedia a visão começa a cair. O afastamento também pode ser entendido como uma libertação de um sistema que mantém seus fiéis como reféns da instituição religiosa, muitas vezes usando o medo do inferno como método de alienação e aprisionamento.

 

"Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso" (Melanie Klein), ou muitas vezes é tido como alguém não temente a Deus, pecador, impuro, indigno, marginal, que pelo fato de escolher não conviver e obedecer as regras institucionais, é tido como inimigo da igreja e do Deus punidor, que, certamente lhe permitirá algo de ruim como forma de castigo devido às suas escolhas e pensamentos. E quem destila esse tipo de punição são aqueles que se sentem os donos da verdade, das regras, dos templos e ousam falar em nome de Deus. Há quem acredite, tenha medo, e até se submeta, mas de certa forma também existe uma certa evolução no sentido de libertação das amarras do poder que aliena. E quem se liberta não gera lucro institucional. O mito da caverna de Platão também pode ser usado para contribuir ao pensamento.


A crise de fé não poderia ser porque a pessoa já alcançou o suficiente para não se apegar em mais nada? Neste caso o desapego é que lhe causa a crise? Tais como:
- crise de identidade espiritual, religiosa e de fé;
- perde-se o sentido de pertença.

Duas possibilidades de crises de fé - zona de conforto X zona de impacto:
- de baixo: mantendo-se na estrutura religiosa, sentindo a necessidade de permanecer nessa estrutura e então encontrar obstáculos na caminhada que facultem essa crise. Considero esse espaço como a "zona de conforto" em que a pessoa não consegue se identificar fora da estrutura e do sistema em que está inserida. Fora dele sua crise seria maior, do tipo síndrome de abstinência. 
- de cima: alcançando um topo que, já não suporta nem sustenta uma continuidade na estrutura, pois ela já se torna indiferente, existe a necessidade de se libertar. Seria essa a "zona de impacto", ou o momento em que a pessoa consegue alcançar o seu fruto do conhecimento, que lhe produz libertação, novos olhares e entendimentos.


Por fim, "Emoção X Transformação": existe um modismo explorado em diversas instituições religiosas existentes, que cultua midiaticamente encenações milagreiras que mexem com o emocional das pessoas. Ao se tratar de emoção os riscos acompanham todo o processo muito mais de forma negativa. Manter o ser humano preso emocionalmente é crime. Há igrejas que operam verdadeiras lavagens cerebrais onde as pessoas são levadas à doar o que não têm para as pseudo obras de seus dirigentes e pastores. Estes enriquecem e esbanjam suas vaidades e aquisições. A conversão pela emoção, de forma apelativamente psicológica, não é duradoura. Existem recaídas que podem levar o indivíduo abaixo do buraco em que se encontrava antes de sua inserção religiosa. Considero que a conversão é algo a ser trabalhada na realidade, sem apelos fantasiosos, pela práxis, fortalecendo a fé em seu verdadeiro tripé de estudo, oração e ação. 

Um breve histórico da palavra "crise": A palavra crise é, em história da medicina, «segundo antigas concepções, o 7.º, 14.º, 21.º ou 28.º dia que, na evolução de uma doença, constituía o momento decisivo, para a cura ou para a morte»; em medicina, trata-se de «o momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte» ou de «dor paroxística, com distúrbio funcional em um órgão». Em economia, é «fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão, ou vice-versa».

[Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss]

(*) https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-da-palavra-crise/28974

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ano 45


Queria talvez parar o tempo, voltar, controlar enfim. Mas só posso trazer de volta lembranças em forma de sonhos ou pesadelos. Reviver o que se passou é um processo de libertação de processos dolorosos, de reencontro com as vozes da sabedoria, de confronto consigo mesmo, de lágrimas de saudade, arrependimentos tardios, guerras internas e batalhas reais.
O tempo escoa feito areia pelas mãos. E as ações reverberam tempo afora. Ficam memórias, histórias, tristezas, certezas, saudades, possibilidades e sonhos. Tons, sobre-tons, sons e todas as suas derivações maiores e menores que a aquarela da vida pode entoar, cantar, pintar, poetizar...

Entre uma primavera e outra, as estações me abrigam em momentos de sonhos, fé e luta, ou me obrigam a rever os passos em cada ciclo, cada obstáculo, cada espinho, cada batalha travada, com cheiro de lona ou de vitória.

Meus poemas nascem na fonte, e a boca que a toca é única. Entre o sentimento épico sem liberdade e a muralha medieval de oposições, vivo no limiar de todas as batalhas, sem saber se haverá uma próxima vez. Pela pureza da água que corre entre os leitos e os lábios, driblando cada pedra, assim é a esperança que não dorme. Em cada manhã a porteira se abre esperando a chegada da luz que se irradia no reflexo do olhar. E como os leitos esperam a água em ciclos, o lábios esperam o beijo eterno.

Cá de dentro, já sou feliz e grato pela vida que vivi, vivo, e que ainda tenho a escrever pelas linhas deste tempo. Meu maior legado pulsa fora do meu corpo, meus meninos, meus orgulhos, o melhor de mim. E entre as estruturas familiar e de amizade toda a maldade foi sendo vencida. Meu mundo simples de poemas, leituras, artes e busca por conhecimento, cabe ainda sentimentos que se misturam entre sonhos e raízes, suor e flores.  

Sob a luz do senso-crítico tornei-me incansável combatente à hipocrisia que se disfarça na sociedade, mascarada de pseudos religiosos e corrompidos políticos. A falsidade incutida em quem se vende pelo poder não fica escondida por muito tempo. Assim, a máscara maquiada se dissolve na mesma linha de tempo que consome os dias. Há quem será lembrado de maneira honrosa por suas lutas, mesmo que o resultado seja derrota. Mas pior será para quem se vendeu e venceu sorrateiramente, este ficará à margem da história, sem honra nem glória.

O tempo de agora requer mais que reflexão, inspira cuidado para com o amor, esperança para quem não enxerga e coragem para quem se levanta. Neste ano 45, agradeço pelo que sou, pelo que me tornei, aonde cheguei. De nada valeria cada passo dado se não fosse o legado que me importa honrar, se não fosse os amigos que vivenciaram cada batalha ao meu lado, se não fosse o sentimento que me fez acreditar que tudo, tudo vale a pena. 

45 e muitos sonhos, muito desejo de viver, muita vontade de lutar. Que não me falte a coragem para viver e honrar ao sangue que corre nas veias, nas minhas e dos meus. 

"Porque metade de mim é amor
E a outra também"


domingo, 14 de março de 2021

No palco da vida, ensaios reais


No palco da vida, 

abrindo e fechando 

as cortinas diariamente

sigo encenando o dia da vitória

que será seguido 

de aplausos e lágrimas

estas que lavarão a honra, 

levarão a tristeza

e elevarão a alma

revigorando a vida,

curando as dores

revitalizando o amor...

 

No palco da vida

entre rios e montanhas

sigo na travessia

vivenciando cada passo

ora me sentindo sem forças

ora encontrando conforto

nos olhos alheios 

que refletem o amor

rumo à outra margem

rumo ao cume

apreciando as paisagens

suportando os quedas, 

as dores, as fraquezas

as feridas...

 

No palco da vida

por vezes o cansaço

se equipara à vontade de vencer

e noutras vezes me despeço

como se não fosse retornar

para a batalha que será última

entre o corpo e a alma

entre o medo e a coragem

a esperança é o que se sobrepõe

no entardecer de cada espetáculo

e quando a voz perde o tom

quando o único eco 

é ressoado no silêncio da dor

nesse momento olho ao redor

e me deparo com um mar de amigos

que num canto em coro

fazem o coração novamente

bater em compasso

 

No palco da vida

que não permite ensaios

cada ato é real

mesmo diante da surrealidade dos fatos

nada é imaginário

nem a dor

muito menos o amor

não há o que superar

a não ser o tempo e suas angústias

suas esperas e suas mortes

morrer deveria ser apenas

única e verdadeira vez

porque morrer todo dia um pouco

é desumano, é injusto

mas até o último suspiro

até a última gota de sangue

que correndo pelas veias

ou escorrendo para fora do corpo

enquanto houver vida

haverá luta, suor e lágrimas

porque o amor,

ah! o amor vale a pena


sexta-feira, 12 de março de 2021

Preso por dentro e por fora



Preso nesse loop quase interminável
Ora girando por dentro, ora por fora
Sigo sangrando em silêncio
Em minha morada última
Que talvez possa ser
Andando e construindo sonhos
Voando e reconstruindo meu alicerce
Navegando e refazendo a eterna travessia
Num horizonte em que meus olhos contemplam
O tempo que condena os dias

Meu quarto, meu calabouço
Meu silêncio, esperança inquietante,
Santo inquisidor que fere minha alma
Sobrevivo pela necessidade 
De um novo e vitorioso amanhã
Em que o peso do ar seja leve
E então as páginas tristes sejam descartadas
Nesse mesmo tempo que agora jaz no passado
O momento é uma espessa corrente a ser quebrada
E a estrada se abrirá em flores e amor

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020, o ano que não terminou



2020 poderá ficar marcado para sempre como o ano que nunca se acabou. As consequências de tudo o que vivemos e passamos serão marcas eternas em nossa vida, em nossa alma. 

Muitos distantes que se fizeram próximos, muitos próximos que se distanciaram. Enquanto fomos obrigados a usar máscaras por um bem maior, muitos seres tiraram a máscara e mostraram sua verdadeira face.

Vidas se perderam e com o distanciamento percebemos o quanto um tato, um contato, um abraço faz falta.

Se eu tiver que escolher algo em que acreditar e levar para o próximo ano, se eu puder ter esperança em algum sentido, depositarei toda a minha fé na Justiça, a dos Homens e a Divina.

Que 2021 não seja apenas o reflexo ou simplesmente a sequela do que passamos até agora, mas que realmente seja um ano de muita humanidade, sensatez, esperança, fé, e que o sonho jamais se acabe... "E que a maior revolução seja o Amor!"

Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Retratos do meu interior

"Ter uma casinha branca de varanda
com quintal e uma janela só pra ver o sol nascer"


Eu vim de lá do interior, duma casa simples de chão com vermelhão, terraço adornado com primaveras e um jardim repleto de variedades: roseiras, samambaias, copo de leite. E uma horta bem diversificada, com couve, quiabo, alface, limão, laranja, acerola, cebolinha, abóbora, alecrim, hortelã... Era o meu reduto, meu mundo, meu recanto sagrado... o meu interior.. a casa de meus avos. 

Este quadro tem uma conotação diversificada. A elaboração, a visualização gerada na mente até a construção de cada detalhe, tudo feito com materiais naturais. O simples, o rústico, a leveza de um retrato interiorano que traz memórias de um passado vivo, saudoso e repleto de amor. 

Numa outra óptica, a paisagem retrata um sonho, o sonho da paz e do amor vivido com profundidade na infância, adolescência e juventude, na casinha simples com terraço, jardim e quintal. As lições de sabedoria deixadas por meus avos. A capela, símbolo de fé, que remete ao sagrado, das lições de vida às cobranças sobre conduta e religiosidade que minha avó mantinha firme e acesa. O poço, a água, a natureza, que me remete à luta, às grandes lutas da vida travadas diariamente. A água, que contorna seus obstáculos, que vence sua batalhas e modifica a paisagem ao seu redor. 

Histórias e lições que trago vivas no coração. Lembranças de um tempo que não volta mais. A imagem do quadro é diferente do retrato da casa de meus avós, ainda bem fresco na memória. Há uma mística nisso tudo que ainda levo tempo e silêncio pra compreender e decifrar. Serve para lembrar do passado, do alicerce, da saudade, do amor, e muito mais para alertar que um dia, um dia tudo se tornará pó ou memória.

A cada tempo, em cada estação, em cada travessia após uma longa jornada, me pego de volta nesse interior. Por hora, é o meu refúgio, guardado num lugar especial e exclusivo, onde o acesso se dá de tempos em tempos ou quando se faz necessário. Já fiz esse caminho diversas vezes, ora feliz e vencedor, ora derrotado e destruído. E quando me pegava a desanimar era ali, aí nesse reduto de interior que encontrava o meu descanso, o meu alento. Aonde minhas lágrimas eram secadas, meu suor enxugado e minhas feridas curadas no tempo e na saudade.  

Eu vim de lá do interior...




sexta-feira, 13 de julho de 2018

Fé sem fronteiras


Cheguei ao ponto em que considero a religião como um caminho sem fim e isso pode soar agressivamente de forma negativa para algumas pessoas mas, após análise mais aprofundada, pode-se considerar a expressão como positiva, também.

Ao desmistificar algumas situações que foram impostas a partir de uma educação familiar e, posteriormente, social e cultural, numa tentativa de alicerçar para uma fé cristã, o que de fato ocorre é praticamente uma ditadura educacional que contribui, em grande escala, para uma alienação sem precedentes.

Fui forjado no meio católico e, neste, tive a oportunidade de conhecer vários seguimentos, inúmeras teologias, incontáveis ações pastorais e milhares de movimentos de massa. Raros, porém, são as pessoas que optam e operam numa linha de menor expressão midiática. Sendo assim, movimentos de massa tem uma larga vantagem no quesito "atrair adeptos".

Adentrando num terreno mais complicado, acredito e assim compreendo facilmente que Jesus de Nazaré em nenhum momento deixou explícito, tampouco implícito, ao mundo em geral, durante e pós sua época, para que as pessoas seguissem o judaísmo que, não por acaso, era a religião que predominava naquela região e naquele tempo.

Jesus era judeu e seguia o judaísmo, entretanto, não hesitou em apontar as hipocrisias religiosas, os exageros da lei, a corrupção política, esta que andava de conluio com a religião. Em suma, lutou contra a instituição corrompida por detrás dos panos da religião protegida pela política e vice-versa.

Sendo assim, se fosse pra ser radical no sentido de seguir a Jesus, o correto seríamos optar pelo Judaísmo, porém, se o revolucionário homem de Nazaré criticou as atitudes miseráveis e deploráveis dos poderosos religiosos, então significa que tal religião também não era perfeita e continua não sendo, assim como todas as outras, até os dias de hoje.

Acredito mais além, que Jesus tentou implantar sim uma outra religião, totalmente desvinculada da religião institucional. Óbvio que não abandonou o Judaísmo, mas lutou para libertar as pessoas de todas as amarras impostas pela religião e pela política. Sua religião não precisava de templos, apenas baseava-se na doutrina do amor.

Amor, não apenas como sentimento, mas num contexto mais amplo que abrange respeito, justiça, lealdade, honestidade, caráter, integridade, idoneidade, esperança e fé, no mínimo. Se Deus é amor, as religiões de outrora e principalmente de agora estão no templo errado.

Não carrego mais o fardo imposto de uma religião à qual fui educado, e de certa forma, ainda vejo muita gente impondo obrigações surreais através de leis geradas antes mesmo da idade média e tudo isso em nome de uma fé cega. Se sou cristão? Sim. Se ainda me considero Católico? Sim. Se sigo cegamente tudo o que alguns "doutrinadores vendilhões" dizem, berram e postam por aí, baseado no que chamam de santa doutrina? Jamais!

Se seguir a Jesus Cristo é ser cristão, então eu sou. Mas sou no sentido de buscar cada vez mais a compreensão de suas palavras e atitudes que remetem sempre ao sentido mais amplo da palavra "amor". O catolicismo é antigo, mas não tanto quanto o judaísmo, e posso considerá-lo uma mistura de simples e complexo, arcaico e progressista, antigo e novo, aberto e fechado no quesito de acompanhar a evolução humana ou se fechar nas leis de um passado distante. Há quem viva, mata ou morre, em nome das santas normas institucionais, apenas. Não é o meu caso.

O catolicismo em si, por sua complexidade e amplitude, consegue abarcar várias correntes de pensamentos e interpretações. Aos poucos, cada um vai se moldando conforme e de acordo com suas convicções e ideais. Esquerda, centro ou direita, tradicionais, conservadores ou libertários e assim por diante. Vários caminhos, várias opções que, numa forma mais simples de pensar, levariam ao mesmo lugar. Sim. Pode até ser. Só muda o que cada uma dessas vertentes é capaz de realizar por sua fé e em nome de Deus.

Isso está muito longe de ser uma revolta. Considero e posso justificar de outra forma: desconstruir-se; desapegar-se; ampliar os horizontes; reconstruir-se sem amarras, sem mordaças, sem preconceitos, sem alienação. Há sim uma indignação e é muito mais por conta de atitudes unilaterais e radicais repletas de preconceito e julgamentos descabidos e excludentes, movido por um fanatismo que cega.

Não é intenção causar embaraço e nem incentivar para que as pessoas deixem suas religiões, pois cada um vive sua fé e sua religião como bem entende. Ao contrário, creio que serve, no mínimo, para que tomemos coragem de buscar conhecer o terreno religioso que pisamos, suas regras, suas missões e principalmente suas intenções.

Papa Francisco é um seguidor nato dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. Luta contra a instituição por detrás da religião. Sua forma de levar o evangelho, viver sua fé e ainda hastear sua bandeira católica não o faz extremista, nem imprudente, tampouco ousa dizer que somente dentro da igreja haverá salvação. Ele merece o respeito devido!

Do mais, para mim está mais claro enxergar a essência por trás da aparência e assim procuro distinguir através das intenções explícitas na instituição e em seus porta-vozes. Se a religião não proporciona uma libertação e assim contribui para a vida plena do ser humano em si mas cria regras e por consequentemente um aprisionamento através de uma alienação velada, nesse caso, não cumpre seu papel original. Deus não é religião. Jesus não é religião.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Desatando antigos nós


Sim. Acredito em Deus. Acredito que deva ter existido um início 'mágico', 'celestial', 'inexplicável' para tudo isso. Acredito também que essa obra criacional pode ser entendida como fruto de um amor incomensurável, tal qual um pai por ser filho, ou como um pintor que se deleita de orgulho quando conclui sua pintura. 

Também não perdi minha fé com a conclusão do curso de Teologia. 'A verdade que liberta' deixou de me assombrar e passou a me encorajar. Sem medo de denunciar, de criticar (se for preciso), de expor e principalmente de questionar os modos operantes que assolam os bastidores institucionais. Discordar das regras morais que violam o bem estar e até mesmo a vida do ser humano é mais do que um mero fato, é obrigação! 

Sou católico de berço, gosto dessa religião mas não concordo com muitas de suas páginas de regras ora absurdas, ora abusivas, ora descabidas. Conheço leigos, padres e freis, entre outros, que são verdadeiros meios de libertação junto à caminhada de sua comunidade e para uma vida plena e em abundância de seus fiéis. Conheço também, infelizmente, o oposto disso que está na prática deturpada daquilo que se encontra nas tais páginas: a hipocrisia, a falsidade, a alienação que se manifestam através dos falsos profetas. Não tenho medo do que penso, do que sinto e nem tampouco de partilhar tais sentimentos e convicções. Por outro lado não me considero menos cristão que aqueles que ostentam seus joelhos calejados de tanto frequentarem a igreja. As aparências também fazem parte do marketing religioso. 

Biblicamente discordo daquele deus citado, principalmente no Antigo Testamento, que castigava um povo em detrimento de outro, que era severo e vingativo, além de dar poderes para alguns seletos homens que, julgando-se escolhidos, usavam deus para atuar em causa própria. No que diz respeito a isso, encontramos versões atuais de como atuar em causa própria nas religiões contemporâneas. É algo que nunca deixou de existir, apenas se modernizou.

Seguindo à risca a expressão bíblica 'crescei-vos e multiplicai-vos', assim as religiões o fizeram. São muitas denominações que, em seus ambientes criam insatisfações entre seus membros e a partir daí os que discordam das regras e doutrinas aplicadas se insurgem e recriam sua própria igreja, desta vez readaptada aos seus moldes de entendimento, até que o ciclo se repita e a redivisão aconteça.

E não é apenas por isso que as ruas de cada cidade estão repletas de templos, ou melhor, uma nova gama de adaptações de templos. Há lugares em que são mais de cinco numa única ruela. Como disse 'não apenas por isso', mas o motivo principal ultrapassa as questões espirituais e a busca pela tão desejada salvação eterna, tornou-se um negócio. Não duvido da fé de quem procura mas quem manipula está ciente de seu oportunismo que visa apenas o lucro sobre a fé alheia. Impossível assistir a isso calado! 

Não mais acredito na religião que se impõe acima da vida, nem naquela que valoriza o institucional em detrimento do ser humano. Qualquer religião que tem em seu legado o amor e a luta pela vida é digna de ser um caminho para a salvação. O contrário disso é hipocrisia, alienação e caminho de escuridão.

Em termos de religião, a arte, a cultura e a educação tem sido religiosamente libertadoras e comprometidas com a vida. Já a religião, há muito perdeu-se de si e perdeu sua própria fé... Desatar um antigo nó, é desatar a nós mesmos. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Crises - Parte I - Do conforto ao impacto



Que a fé ainda é objeto de estudos e de especulações, tamanha sua capacidade de alterar o estado emocional e motivacional de uma pessoa e, consequentemente, sua maneira de encarar a própria realidade, não há o que questionar. A fé no sagrado pode ser considerada um meio eficaz para a pessoa em busca de mudanças em seu próprio ser bem como o único "meio" para depositar sua esperança diante das variadas impossibilidades que surgem em sua vida. Infelizmente ela tornou-se também alvo de exploração por parte das grandes instituições religiosas sobre as pessoas de baixa renda.

Somos criados, na maioria dos casos, sob uma estrutura religiosa que é passada de geração em geração. Somos batizados enquanto crianças sem a opção de fazer a livre escolha, no caso dos católicos, ou, no caso dos evangélicos, após uma certa maturidade que lhe permita escolher, porém, não é uma escolha totalmente livre, uma vez que o ambiente familiar e os vários círculos religiosos influenciam sumariamente tal decisão. E é óbvio que o batismo ocorrerá.

Mas o fato de ser batizado para estar devidamente inserido na comunidade religiosa e assim fazer parte desse "grande corpo espiritual" e poder crescer sob a tutela institucional da moral religiosa não é o objeto da discussão. Amadurecer sob os pilares religiosos é, de certa forma, crescer numa zona de conforto e o problema real que levará às mais diversas crises, principalmente a de fé, será quando for necessário direcionar os passos para além desse reduto de conforto. E é fora do alcance das sombras religiosas que as regras básicas institucionais, que envolvem fé e moral, serão testadas. Esta será então uma nova zona, a zona de impacto.

As instituições de fé, de maneira geral, tendem a podar o ser humano com regras por vezes exageradas. Algumas dessas regras são datadas anterior à idade média, portanto, arcaicas. Uma grande dificuldade para o "fiel" pode ser a de ter que carregar uma enciclopédia de leis e coloca-las em prática em pleno século XXI, exigência essa totalmente institucional. Há uma disparidade que permeia a distância entre o berço de fé do indivíduo e o seu atual espaço de convívio e nesse vácuo surgem os conflitos de fé.

Quem nunca se sentiu um animal com tapa olhos quando, diante de novos entendimentos e compreensões sobre determinados assuntos, percebe que muito do que foi dito e imposto no ambiente religioso e familiar era um mero engano e um exagero em nome da fé? Claro que há alternativas para se compreender melhor uma vez que tais enganos e exageros podem ser frutos de uma consciência inocente ou ignorante tanto por parte de quem expõe como de quem interpreta.