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sábado, 21 de março de 2026

O processo



Outro dia ouvi a frase "só chega no topo quem vive o processo". Soa uma competição. Sim, isso mesmo uma competição em que só os mais fortes sobreviverão. O interessante é que a frase foi retirada de um vídeo exposto num grupo de trabalhos voluntários, com uma equipe de comando previamente formada para a boa condução do mesmo. Penso que destoa do objetivo ao qual fora criado.

Pergunto-me: é uma caminhada coletiva, de parcerias, em grupo ou é uma corrida para ver quem chega primeiro, ou ainda para disputar quem alcança esse topo? E que topo seria esse aos olhos de quem postou? Que processo é esse?

Em se tratando de grupo, eu fico com a certeza da travessia. Ah, a travessia é ritmada pela vida, pelos prazeres que a vida dispõe. Sim, pelas lutas também, porém existe aí um saborear por cada passo de uma caminhada, ou de uma escalada. O topo, o ápice, o pódio é apenas uma consequência de se ter vivido bem e aproveitado toda a natureza e atmosfera ao redor durante a travessia. Isso não significa caminhar a esmo. Quem se propõe a tecer o caminho já sabe bem onde quer estar.

Processo lembra empresa, que lembra hierarquia, que lembra poder... Travessia remete a parceria, coletividade, amizade, ideais em comum e horizontalidade entre os seus. Os cargos e funções numa empresa permitem a imposição de ideias da cadeia de comando de forma vertical. Já para a coletividade de um grupo de ideais afins, cargos e funções não agem pelo poder, mas pelo bem maior, pelo grupo.

Há quem se esconda nesse processo para garantir seus desejos pessoais acima do coletivo. Há quem simplesmente queira ser o coletivo, de forma transparente e democrática. Há quem se cegue pelos vieses ora idealizados de um sonho particular acima de qualquer objetivo comum do grupo. Há quem não se importe com o cargo, tampouco pelo poder que este pode lhe atribuir. 

E quem se apega ao poder para se impor, calar vozes de forma autoritária, punir a quem se expressa contrário, não tem desejo de coletividade, não pensa em caminhada grupal. Isso prova que há particularidades não declaradas que afloram diante daquilo que consideram afronta e ameaça ao seu legado. 

O que é vencer na vida? Tem uma moral capitalista nisso... Que tal parar de tentar só vencer, e passar a viver? Processo e topo são tópicos extremamente comentados no positivismo tóxico e também entre alguns coaching's. Prefiro a leveza sertaneja de Guimarães Rosa ao transformar processo em travessia e assim apreciar e degustar as paisagens de horizontes como uma possibilidade de alcançar o seu prazer no fim que lhe sustenta o sonho. 

As pessoas não estão prontas nem para o contraposto, nem para o contraditório, principalmente quando o resultado atinge o ego. 

Quem precisa se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

As dores da existência



Meus olhos 
Ah, quantos horizontes vislumbraram?
Quantas lágrimas rolaram?
Quantas vezes se perderam?
Quantos desertos já viveram?

Meus olhos
Já foram janelas
Janelas que espelham a alma
E hoje parecem celas
Cárcere do coração que ama

Meus olhos já mergulharam sob o caos
Se perderam nas trincheiras do mundo
E sorriram diante dos cenários de paz
Buscaram refúgio na reciprocidade aquecida da amizade 
E se forjaram diante das esquecidas tempestades

Meus olhos, já cansados
Se recolhem à penumbra da solidão
Desafiam os dias de verão
Não se deixam abater na escuridão
Meus olhos, ainda sofrem pela dor
Mas nunca deixaram de eternizar o amor

Com meus olhos
Vivo o primeiro dia 
Do resto da minha vida
Sem mandamentos em meu pensamento
E um modo sobrevivência ativado
De guerreiro incansável
A pacificador inconformado
Ah, meus olhos ainda sonham acordados

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Solo e dolo, segredos e medos



Dos descaminhos que se encerram nas estações
Sigo a viagem por trilhos em ritmo solo
Destino, acaso ou sina, meu dolo
Quando não lembrar que ouçam canções

Dos céus recaem sonhos em brisas
Dos meus olhos as lágrimas ecoam
Cortinas de ventos no tempo voam
E minha dor novamente canaliza

Dos mares atravessam segredos
O silêncio sussurra em minha alma
Das tempestades cicatrizam meus traumas
E no deserto da maresia se escondem meus medos


domingo, 16 de junho de 2024

Não prometeu nada e entregou tudo



Dos caminhos que a gente segue, alguns nos possibilitam encontros inesperados e ao mesmo tempo, marcantes. 

Mais um dia de acasos nas esquinas da vida. Ou quem sabe, destinos.

O carro estava apresentando um problema constante. Do nada, á agua fervia e secava o reservatório em instantes.

Era necessário parar, deixar o motor esfriar, abrir a tampa do reservatório com cuidado, completar com água e seguir ao destino.

A água do reservatório do motor ferveu enquanto esperava o sinal esverdear. Uma motociclista avisou sobre a água vazando por baixo e a fumaça saindo pelo capô. 

O semáforo ficou verde e eu segui até um local que fosse possível parar. Deu certo estacionar sob a sombra de uma árvore. 

Saí do carro, abri o capô e já olhava ao redor para ver onde conseguiria pegar algum recipiente com água. 

Um rapaz se aproximou. Primeiro perguntou se eu iria em algum restaurante. Quando viu que ergui o capô e notou que ainda saia fumaça, logo se prontificou para ajudar. 

Foi numa caçamba de lixo, encontrou um galão e atravessou três vias para buscar água numa construção próxima. 

Fiquei observando, de braços cruzados, toda a saga do rapaz. Em seu retorno fez questão de dizer que lavou o recipiente antes de colocar água.

Abasteci o reservatório enquanto o rapaz falava de sua experiência profissional. Havia trabalhado numa retifica. Sabia muito bem sobre mecânica.

No momento que seguia com o galão para buscar a água, fez um único pedido: "olha a minha enxada, por favor". Era o seu instrumento de trabalho.

Sentado escorado no tronco da árvore ao lado de sua enxada, simplesmente não me pediu nada em troca. Percebi em seus olhos o quanto sua atitude foi isenta de intenção em ser retribuído pelo seu nobre gesto.

Sentiu-se bem em ser útil. Sentiu-se digno em ser ouvido e respeitado como pessoa em toda sua integridade, independente do que fazia ali naquele momento.

De bermuda, camiseta e calçado, parecia aguardar ali sob a sombra da árvore alguém chamá-lo para um serviço rápido de limpeza, capinagem. Um verdadeiro guerreiro pronto para a batalha que aparecer.

Suas mãos, grossas, calejadas, se eu pudesse ler cada traço, ousaria dizer que as incontáveis histórias de luta que marcam sua pele, jamais conseguiria imaginar, nem tampouco capaz de reproduzir em palavras.

Não tinha muito dinheiro no bolso mas ofereci o que podia naquele momento, como forma de agradecimento e principalmente pelo reconhecimento daquele esforço que não pediu nada em troca. Considero que foi uma atitude nobre e repleta de senso de humanidade por parte do rapaz.

O caminho, o evento e o encontro. Uma lição de empatia que dispensa cadeiras acadêmicas. Isso é do ser como um todo. Isso é para poucos. 

Não prometeu nada mas entregou tudo.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Só não fui amor pra mim




Eu não fui amado
Fui amor
As migalhas do tempo 
Deixadas do caminho
Sobrevivi entre a seca e a fome
Na devassidão da espera
De um tempo que nunca chega

Eu não fui amado
Fui amor
Sobre o tempo, sob o céu
Sobre a terra, entre as flores
Com muitos espinhos
Na seca do deserto, no frio gelado
No outono apagado

Eu não fui amado
Eu fui amor
Amor de espera, de esperança
Amor doce, suave feito criança
Sobrevivi ao caos
Das noites sem luz
Na expectativa de um olhar que seduz

Não fui amado
Fui amor
Amor sustentação, 
Amor pilar
Amor travessia, amor alegria
Amor sem fim
Só não fui amor pra mim

sexta-feira, 22 de março de 2024

O homem da praça



Ele caminha. Perambula numa solidão que mais parece estar fugindo de algo ou de alguém. Talvez, de um passado que o assombra no presente. Talvez, por isso um chapéu ou um boné puxado abaixo da linha dos olhos que não permite que ninguém o encare. Um olhar desconfiado, muitas vezes intimidador. Cara fechada, literalmente amarrada. Uma mochila nas costas, botas brancas de borracha nos pés, camiseta e bermuda surradas. Cabelo e barbas compridos, por fazer, mas cuidados. Aparentemente apenas um suor incrustrado na pele e na medida do seu possível, uma demonstração de auto cuidado ao lavar-se numa torneira da praça ou do posto de combustível mais próximo. Seu espaço, sua morada, é a praça. Mesmo ali, diante de outros que dividem o mesmo espaço-tempo percebe-se que não há proximidade com ninguém, nem mesmo um cão o segue. Um sujeito isolado em seu mundo. Nada se sabe. Curioso a falta de interatividade com outros ao seu redor. Ninguém se aproxima. Algumas vezes puxava um carrinho de recicláveis pelas ruas. Noutras carregava seus materiais em sacos pretos. Não foram poucos os dias que o presenciei correndo pelo gramado da praça. Novamente, só e solitário, demonstra não se importar com nada ou ninguém à sua volta, exceto sua continuidade entediante e necessária pela sobrevivência. Age feito um ex-combatente que deixou a guerra mas a guerra não o deixou. As marcas de sua corrida fixaram-se na grama formando um caminho circular, um loop eterno no horizonte da terra que se considera sua. Ali, preso em seu mundo é livre de tudo e todos. Liberto, talvez. Liberto em sua liberdade mas, por hora, quem sabe, preso em seus pensamentos, em suas batalhas já vividas. Um sobrevivente das guerras da vida e do mundo. Um foragido? Resiliente do tempo? Um prisioneiro a céu aberto, no campo de concentração de seus pensamentos. Os mesmos pensamentos que o permitem sobreviver ao caos das ruas, das praças. Se porte físico é consideravelmente forte e grande. Ele sabe como sobreviver bem, pois não aparenta desnutrição. E este é um sinal de que apesar da vida que leva, da forma como a leva, sua mente o mantém seguro, alerta. E toda vez que o vejo lembro-me de Viktor Frankl, pai da logoterapia, que em sua obra, "Em busca de sentido", descreveu como sobreviveu aos campos de concentração nazista. Manteve, de certa forma, sua mente blindada e sã. Quantas pessoas conhecemos que são capazes de viver sem deixar que o externo abale suas estruturas internas? Há algo a se aprender com elas. Por hora, sigo no imaginário, em cada vez que vejo o "homem da praça" em sua rotina, tentando perceber o que o torna são e forte numa sociedade egocêntrica que visa status, poder e fama. Há muito mais a aprender com o que não é dito do que com pronunciamentos carregados de alegorias e encrustados de hipocrisia. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Pobreza de espírito x Delírio de grandeza


Nem parece que recentemente estávamos enclausurados por um vírus que dissipou vidas em todos os cantos do mundo. Mesmo e ainda com a necessidade de doses extras de vacina, para a devida prevenção contra as mutações do coronavírus, a grande maioria das pessoas esqueceu-se da COVID-19. A palavra pandemia já não causa aquele impacto de medo e sensação de impotência quanto causou nas primeiras semanas, em meados do primeiro semestre de 2020. 

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) a pandemia foi decretada em 01 de março de 2020. Apesar de termos retomado às atividades normais de trabalho, lazer, sociais, etc, ainda existem surtos em vários países e regiões do mundo. Foi um tempo sem luz, e até sem perspectivas de superação diante dessa crise de ordem mundial. Mesmo depois de tantos avanços tecnológicos, de tantas potências da ciência empenhadas no desenvolvimento de um antídoto que nos imunizasse, isso não amenizou nossos sofrimentos, medos e angústias. Centenas de pessoas morreram diariamente. 

Além de tudo, ainda precisamos enfrentar obstáculos de ordem política que pareciam se opor à ciência, contra a vacina, contra a cura, contra as vidas humanas... Uma verdadeira inversão de valores em que os eleitos pelo povo para cuidar e proteger o povo, na verdade eram os ceifadores, uma verdadeira máquina de morte contra o povo. Parecia que esse sistema de política excludente estava a favor do vírus e das mortes. Contra fatos não há argumentos. 

Mas, não é esse o objetivo desse texto, apesar de sempre precisarmos refrescar a memória de quem ainda continua cegado por suas ideologias partidárias. Mergulhemos um pouco mais fundo no cerne da reflexão. Considerei importante buscar fatos relevantes de nossa recente história para então aprofundar nas questões da essência.

Voltamos às correrias da vida. Retomamos o controle das situações cotidianas. Vivemos na intensidade das aparências como se não houvessem amanhãs. Enfim, rotinas viciantes em busca do mais, do ter, do conquistar, do adquirir, do consumo sem precedentes. "Vida para consumo", "Modernidade Líquida", "Tempos Líquidos", "Amor Líquido", todas obras de Zygmunt Bauman, descrevem atentamente sobre o consumismo exacerbado que potencializa a sensação de poder em detrimento do ser. E quem precisa do "ser", numa sociedade de memória curta que ostenta as aparências do "ter"? Máscaras?! Só as de maquiagem, ou da hipocrisia, ou da ignorância, ou da inocência ou da conivência. 

Li e ouvi muitas frases conscientes que "sairíamos melhores, evoluídos, com os princípios renovados", após essa pandemia. Isso até pode ter acontecido com uma minoria. A grande massa retomou sua rotina com sede de fazer em dobro tudo aquilo que deixou durante as quarentenas da pandemia. 

Não. Infelizmente, a geração que sobreviveu à pandemia não conseguiu superar a si mesma. O poder de consumo está ainda mais entranhado na sociedade, e nós, os famosos seres pensantes e dito evoluídos, de tão consumistas parecemos vampiros sedentos por sangue. Literalmente sangue humano. O "ter" consegue classificar e definir uma diferenciação entre os humanos. Trabalhamos para ter, e quando temos, precisamos ter ainda mais. Um looping frenético e eterno. Um ciclo inquebrável nas cadeias sociais. Essa espécie precisa reaprender a ser humana. 

A pobreza de espírito se resume naquilo que de fato falta em essência no ser de cada um. O delírio de grandeza é aquilo que sobra exageradamente do resultado das cegas ações em busca de ganho, poder e consumo. O ganho, o poder e o consumo tornou-se premissa religiosamente sagrada para quem precisa de alguma forma romper e vencer. Romper o que? Vencer a quem? Buscamos um algoz, um adversário, um inimigo para justificar nossas lutas, labutas, disputas e condutas. Líderes religiosos, gurus, e a nova onda do coching-ismo (que mistura de tudo um pouco) é o que alavanca o mercado dos milagres imediatos, em especial nas redes sociais. E quando as pessoas tentam aplicar essa idealização coaching-ista, a frustração é também imediata.

Bom, foi uma obra literária, "Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Marquez, que clareou a inspiração para o título desse escrito. Por sinal, obra maravilhosa. Márcia Tiburi, em 2019, nos apresenta uma de suas obras, "Delírio do Poder", que muito tem a ver com o exposto aqui. Uma correlação de duas obras a ser explorada noutra oportunidade.

O que de fato me conduziu para esse assunto foi a observação das pessoas ao redor e perceber o quanto suas rotinas malucas consomem seu tempo e as deixam ansiosas, estressadas e até doentes. Isso, aparentemente, sempre acontece ao final de um período, ou de um ciclo, ou ainda de um dia de intensa correria. Quando chegam em seus lares é como se todo aquele status midiático fosse apagado e ficasse impregnado em suas entranhas apenas o efeito colateral, o cansaço, o esgotamento e visivelmente o mau humor, ora demonstrado sem ressalvas aos que convivem no mesmo espaço. A busca constante e desenfreada sempre deixa uma sensação de vazio, por mais que as metas sejam alcançadas. O sistema, o mercado, a sociedade, o mundo respira e vive isso. Raras são as exceções, que não se limitam a essas regras.

Aqui estão apenas algumas constatações. Se aprofundarmos em pesquisas e diálogos, perceberemos que o iceberg é imenso. De tudo, a finitude da matéria corporal e da vida em si não interessa e não preocupa a ninguém. Estamos, enquanto seres ditos humanos, preocupados com o imediatismo. A pressa não é por uma vida profundamente vivida. A urgência é para estar na crista da onda, no ápice do mercado, no topo do status midiático, ser influencer na vida de um desconhecido seguidor virtual, e ponto. Aparências. Aparências visuais. Aparências em palavras. Aparências em maquiagens. Verdadeiras máscaras maquiadas que os gurus do mercado contemporâneo ensinam como ser diferente num mundo de desigualdades. 

Eles, os gurus, só não mostram sua rotina imperfeita, sua vida de fato. Isso não atrairia os fieis consumistas de seus produtos. É necessário se portar como se tudo fosse uma perfeição de aparências. O mercado exige isso. Quem não consegue acompanhar, não é apto nem digno para tal corrida. E nesse mercado, só é notado quem está em evidência de aparência. Há muito tempo, o conteúdo, a essência, o ser em si deixou de ser notado. Esse status, que também é de poder, segrega em todas as camadas sociais. 

Sem mais delongas para as máscaras maquiadas, ou biblicamente falando, os sepulcros caiados, as aparências portentosas do universo ao qual fazemos parte... Todos necessitamos consumir, ter, produzir, ganhar, sim. Hipocrisia dizer o contrário. A questão é quando isso se torna uma espécie de religião e o que há de mais sagrado acaba ficando à margem da única travessia que não há retorno, nem atalho, nem pausa: a vida. Que o que nos resta dessa travessia, possa ser experimentada de uma forma ainda não vivida nem encontrada em nós mesmos. 

sábado, 6 de janeiro de 2024

Vidas Secas das ruas



Vi um senhor passando na rua. Estava puxando uma carrocinha carregada de recicláveis. Corri e peguei as sacolas com os plásticos recicláveis que sempre guardamos e fui entregar a ele. Uma simplicidade em pessoa, poucas palavras e muitos agradecimentos pelos materiais que o entreguei. Mas essa não é parte principal. Não se trata dos descartáveis, muito menos no meu movimento de entregá-los ao senhor da carrocinha. 

Assim que atravessei a rua em direção a esse senhor, sua carrocinha estava parada junto à calçada e ele estava conversando com outro senhor. Este, estava sentado na calçada sob a sombra de uma árvore comendo um pão. Apenas um pão. 

Ao retornar ouvi o senhor que estava sentado à calçada oferecendo um pão ao homem da carrocinha. Este aceitou e disse que estava mesmo com fome. Estavam numa boa prosa, comendo pão, apenas pão. 

Minha mãe havia acabado de fazer café. Coloquei dois copos e voltei com os dois homens. O da calçada é morador de rua. O da carroça já tinha visto algumas vezes pelas ruas. 

Mais do que saborear o café, seus olhos transbordavam alegria e agradecimento. O sentir-se notado numa sociedade que não respeita a condição alheia resgata um pouquinho de dignidade e devolve fios de esperança e coragem para enfrentar as batalhas diárias.

A prosa com pão e café mereceu uma pausa no tempo para ambos os protagonistas. 

Dias depois concluí a leitura de Vidas Secas de Graciliano Ramos, um clássico que já acumula mais de 85 anos desde seu lançamento, e não pude deixar de correlacionar a ficção experenciada pelo olhar do autor, com as cenas que contemplei na rua. 

As ruas estão lotadas de personagens como os do livro, vivendo suas mazelas diante de tantos olhares indiferentes frente às suas Vidas urbanamente Secas. Fios de esperança frente a um gole de café, é como gotas de chuvas que minguam no sertão, vez ou outra, como Graciliano Ramos bem nos contou.

Na ficção o fim foi incerto, triste, desesperançoso. Na vida real, há muito o que se pode fazer com poucas atitudes... basta não apenas olhar, mas enxergar que existe vida.





terça-feira, 21 de novembro de 2023

Costuras, tempo e psicologias

Fonte: https://patchworkdasideias.blogspot.com/2011/08/patchwork-de-ideias.html

Chegamos aqui no acaso de uma travessia
Destinos de vidas forjadas na dor, na alegria
Protagonistas das lutas de nossas histórias
Presenças, ausências e sonhos em nossas memórias

Nascemos, crescemos, vivemos mas, nunca a sós
As dores do mundo não poupam a nenhum de nós
Recortes do tempo vivido se tornam retratos
Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Costuras são laços que a vida nos deu de presente 
Sentimentos de cores, tamanhos, formas diferentes
Lá fora perdura o que aqui se viveu de verdade
Assim escrevemos as linhas da nossa amizade

A vida tem ciclos, janelas, portas e passagens
Sentidos, perdidos, vividos com luta e coragem
Daqui ficarão as lembranças, nossas alegrias
Teatros, provas, relações: psicologias 

Aqui nesse mundo que só cultiva aparências
Mais caro e mais raro é quem mostra sua essência
Estamos aqui porque existe um sentido de fato
Somos uns pelos outros, cuidando e sendo cuidado

Enfim, não importa dinheiro, nem crença e origem
Mais certo que o certo é a morte, não escolhe roupagem
A terra é a mesma pra todos que a deitarão
Vivamos a vida, e que a morte não seja em vão

Direitos humanos pra humanos repletos de dor
Com pouco se faz quando a alma carrega o amor
Na luta dos que não tem voz somos resistência,
Esperança e mudança, uma chama de sobrevivência

Nascemos, crescemos, vivemos mas, nunca a sós
As dores do mundo não poupam a nenhum de nós
Recortes do tempo vivido se tornam retratos
Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos

Momentos, partilhas, amigos: colcha de retalhos





sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Poema da madrugada: nessa vida, nesse mundo


Nessa vida...
Ora pacífica, ora repuxada 
Uma colcha de retalhos sem fim
De cores,
Sabores
Cheiros e toques
Sensopercepções e ações
Ou, talvez, omissões
Imaginada e criada
Costurada e forjada
De acordo com a necessidade 
A de manter o calor dos corpos
Das relações que nos permeiam
E, que promovem a nossa existência

Nesse mundo...
De afinidades e diferenças
Convergências ou divergências
Nos afastamos pelos díspares
Nos ajuntamos pelos afins
Nos ajustamos pelas costuras
De sentimentos, 
De lembranças
E necessidades
Que significam nossa travessia
Que selam nossa existência

Somos uns pelos outros...
Ressignificando sempre
A nossa vida
O nosso mundo
Dando sentido à travessia
Quando nossos caminhos cruzam 
Outras vidas
Outras histórias
Fazendo memórias
Entre chegadas e partidas
Lágrimas pela dor alheia
Que nos ensina sobre o amor
E nos torna humanamente gente

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos IV - inquietudes



Você está em dois mundos
Do sonho, do romântico
E o da realidade, frustração


Desejos não mudam o cenário. Atitudes sim.


O tempo dedicado a quem se considera 
é um presente que não se mede em valor material. 
Mesmo que não haja reciprocidade, 
a experiência é válida para quem se dispôs em ação.  15/12/22


Somos objetos de nossas próprias vaidades. 
Somos reféns de nosso próprio egoísmo. 
Somos passageiros sombrios 
perdidos na vitrine das aparências. 20/12/22


Da janela da minha alma
Ecoam prantos de dores
Escorrem melodias de sonhos
No lapso de cada tom
Um suspirar de esperança
Entre a saudade do que não se viveu
E o amor que transborda teimosia,
Inquietudes, e duras lutas de silêncio e solidão. 24/12/22


E o vento?
Vento não faz barulho. 
O barulho é das trombadas que ele dá 
no que tem pela frente.






Rascunhos incompletos II - eternidades


Todos são eternos mas somente um te acompanhará pela eternidade.


A melhor parte de saber as regras é encontrar a forma certa de quebrá-las (Anne)


Não é o corpo... É o combustível que me impulsionou a agir... 
Suor, lágrimas e sangue
Batimentos que arrebentam o peito


Para além da eternidade
é o sentimento que alimenta a esperança
de te reencontrar



Ponto cego, em que perdi o rumo e encontrei você...


Companheiros de almas perdidas, 
tantas histórias
tantas partidas
outras vidas





Queda livre




A sensação a ser descrita é a mais próxima do real, por mais surreal que a situação aparente ou seja de fato: em queda livre. É assim que consigo definir os meus dias, que em meio a tantos desequilíbrios externos firmo-me numa corda bamba imaginária. Um verdadeiro dilema desconexo. Quando se sonha caindo de um lugar alto, ou voando, ou pulando, a sensação de frio na barriga, aquele susto, aquele pulo na cama são coisas que talvez se aproximem de uma queda livre. Associe a isso uma segunda sensação entre uma queda livre e outra, a de equilibrar-se numa corda bamba, sem fim, onde não se vê o horizonte, nem o chão nem o céu. Restam apenas os rastros do quanto já se caminhou e algumas gotas de sangue e esperança para se chegar em algum fim o mais inteiro possível. É preciso sobreviver. É necessário suportar até a última gota de sangue, até o último suspiro. (01/02/2021)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Diálogos sobre a vida



Após analisar a experiência sentida através da série "After Life", resolvi compartilhar os pensamentos com uma grande amiga de longa data. Eis que suas palavras refletem além dos meus próprios pensamentos e aprofundam para além do que se vê a olho nu. São dádivas, pérolas de uma grande pessoa. 

A - (...) Daqui, sigo na mesma, sem novidades... Cansado de tudo... Vontade descer na primeira estação, antes do fim...

M.A. - Eu estou bem, sobrevivendo como todo mundo. Realmente o mundo e principalmente as pessoas estão muito chatas. Vontade de ir embora. Não pense que é só você, a maioria das pessoas estão assim. Só notícia triste, só desgraça. Parece que as pessoas estão mostrando o pior de si. Mas fique tranquilo e se mantenha firme, porque tudo isso estava no script. Estamos (o planeta) passando por um processo de depuração, portanto é só uma fase, logo passa. Lembre-se que por mais maluco que tudo pareça, DEUS ESTÁ NO CONTROLE DE TUDO! O seu sentido não é solitário, muita gente sentindo isso. Só os alienados é que ainda acham que a vida é um grande barato.

A - Foda, viu! Vou te mandar a minha percepção sobre essa série, e que ,e fez refletir ainda mais. A série é ótima. Já gostei desde o primeiro capítulo. Um viúvo que perdeu o sentido da vida desde que sua esposa faleceu por conta do câncer. Ele faz auto-questionamentos e não se importa mais em falar o que pensa. Drama e comédia que se misturam. Vale a pena! Do riso às lágrimas e vice versa. Acho que me vi muito nessa série. Penso que vamos nos lapidando com, as experiências ao mesmo tempo que podemos nos embrutecer com as perdas pelo caminho... Amando isso!!! Acho que eu encontro sentido na minha vida quando consigo expressar meu sentimento, cuidados... Porque não existe outra razão pra viver que não seja a de se doar por quem a gente ama... Primeiro a gente brinca e cresce. Estuda, sonha e cresce. Trabalha, faz planos e cresce. E quando se dá conta de que não precisa de nada, é porque toda experiência só serve para te fazer melhor, mais sensível, mais humano... E assim, te possibilitar a cuidar dos seus, daqueles que você ama... Mesmo que seja a distância...

M.A. - Poderia sentar e conversar sobre tudo isso com você por horas e horas. Verdadeiras descobertas sobre não que somos, mas o que vamos nos tornando ao longo do caminho, porque a gente não para, vive, aprende, evolui e cresce. O mundo tá chato, as pessoas nem se fala, tem horas que dá vontade de sumir da "civilização", ir pra onde não tenha gente. Tá difícil. Ando muito em casa, comigo mesma, e isso tem me feito muito bem. Aprendi nos últimos anos que sou a pessoa mais importante da minha vida. Sempre me doei demais nas minhas relações de amizade, família e relacionamentos e acabava esquecendo de mim. Então hoje estou cuidando de mim, me nutrindo, fazendo o que e quando me agrada. Sempre achei que era egoísmo pensar em si primeiro, mas hoje percebo que trata-se de amor próprio. Também estou me desvendando, muita coisa ruiu de 2020 e acabou me trazendo muitas verdades sobre amizades principalmente e sobre mim mesma. Fico triste pelo tempo e energia que desperdicei, amizades longas, de anos, só decepção, mas descobri que nada, mas absolutamente nada do que você doa é em vão, porque de um jeito ou de outro, por meio de uma pessoa ou de outra, você recebe TUDO aquilo de doou. Sabe aquela frase que você vê em obras, "Desculpe o transtorno estamos em reforma", é bem isso, estou em reforma e em constante construção.

Mª Amélia é uma amiga de longa data a qual admiro, respeito e tenho enorme carinho. Faz muitos anos que não nos vemos, pelo menos uns 10 anos, mas nem tempo e nem distância nos impossibilitam de cultivar nossa amizade. Com sua autorização resolvi publicar nosso diálogo. Senti que sempre há uma entrega de verdades e pensamentos quando conseguimos ter um tempinho para trocar experiências. Suas palavras, Amélia, reverberam de forma profunda trazendo a essência da vida para o acalento da alma. Obrigado por sua partilha!

domingo, 19 de junho de 2022

E eles eram a vida um do outro

Um amor para além da vida
Um encontro de almas
Eternizado no tempo
Para além da eternidade...

Ele era a vida dela... 

E ela era a vida dele...

Mas ela se foi

Cumpriu sua missão e partiu

Deixou seu legado de amor 

Sua história de labutas, cicatrizes e vitórias

Compartilhada ao lado dele, com ele

Fiel ao seu único amor por décadas de vida

De tantas vidas 

De outras vidas

Amor que se resume em presença

Companheirismo

Dificuldades vividas a dois

Vitórias celebradas na simplicidade

Herança deixada para os seus

Que não existe preço

O valor é mensurado pela história

Na memória de quem é fruto desse amor

A coisa mais bonita que se pode ter

Quando a beleza se acaba

E o cansaço dos dias pesa sobre a aparência

Quando a textura da pele que um dia fora fresca

Se torna marcas cicatrizadas pelo tempo

Tudo o que sobra é a essência

E então o amor se resume em cuidado

Cuidado que vem no olhar 

No silêncio

Na dificuldade e na falta de forças...

Quando não houver mais nada 

Que a aparência possa oferecer e satisfazer

E então o outro permanecer

Isso é tudo o que se pode esperar do amor

A paciência, a presença, o cuidado...

E isso não há tempo que apague

Será sempre a melhor história de amor

Quando o belo se for

E o outro permanecer

Apenas isso é o amor

E é isso que eles gravaram para a posteridade

No coração e na alma de quem leu

Cada verso de olhar e carinho

Que eles pintaram na tela da vida...


sábado, 9 de abril de 2022

Antessalas

O medo cresce enquanto a hora marcada se aproxima. Imagino que essa seria a nossa sensação se soubéssemos o dia exato de nossa travessia final. O ambiente de espera aparenta não deixar o ponteiro do relógio girar. Não estou só. Ao meu lado está minha irmã. No meu coração, meus filhos, sentimentos, saudades, esperança. E, por mais que seja um simples procedimento, segundo a própria medicina, o medo de não voltar para as pessoas que amo é grande. A vida é boa, apesar dos obstáculos e contratempos. Meu nome é chamado por um senhor, o maqueiro. Sou conduzido para um quarto para me preparar. Banho, roupão de hospital e maca. Um atraso de mais de hora possibilitou-me um cochilo e isso de certa forma me tranquilizou. Minha irmã sempre junto. Novamente sou chamado. Dessa vez era chegada a minha vez. Deitado na maca sou conduzido por corredores até chegar numa antessala. Nesse momento me despeço da minha irmã. Um aperto por estar só. O pensamento sempre conectado pelo amor e pela saudade. O maqueiro abre uma fresta de uma porta de vidro à minha frente e fecha outra porta atrás de mim. Acima dessa porta tem um crucifixo. Sinal de fé, esperança, proteção, algo que não se explica, apenas se sente. Imagino quantas pessoas passaram por essa porta. Quantas puderam retornar para suas vidas. Quantas partiram (...). Ambiente frio e silencioso. Fixo meus olhos no crucifixo. O momento me permite uma reconexão: amor e saudade, vontade de viver, de lutar, reencontrar. Peço, diante desse silêncio, para que tudo ocorra bem. Penso fortemente em meus filhos, no amor (...). Enfermeiras passam por mim. Cruzam de uma porta à outra e me cumprimentam. Todas atenciosas. O local necessita disso, de atenção, de cuidado, de empatia, de força, necessita mais do que excelentes profissionais, mas de pessoas extremamente humanas. Enfim chega a pessoa que vai me conduzir até o centro cirúrgico. A enfermeira pega uma prancheta que está aos meus pés na maca, pergunta meu nome e verifica meus dados. Tudo certo. Ela abre a porta de vidro e enfim sou conduzido para o meu destino, o centro cirúrgico. Luzes fortes, extrema claridade, muitos aparelhos e acessórios, cinco enfermeiras, anestesista, cirurgião e assistente. Cenário perfeito de um filme. A anestesista fala comigo. Novamente verifica meus dados. Ela recebe um aviso de que em breve a minha cirurgia começará. Então, me prepara para a anestesia, a geral. Muita movimentação. O cirurgião brinca para relaxar. Tudo se volta e se resume nesse tempo: fragmentos intensos da vida e da memória. A saudade aperta. O medo de uma partida iminente incomoda. Medo de partir sem despedir (...). Um esforço interno para encontrar um pouco de tranquilidade por fora. Penso em meus avós (...). Não me sinto só. O clima está muito frio e eu recebo um cobertor. "Braços ao longo", foi essa a expressão usada pela enfermeira, conforme o pedido do médico. A anestesista termina o preparo de uma dose que será injetada em minha veia. Uma enfermeira coloca agulha na veia da mão. O líquido injetado dói. A anestesista coloca uma máscara em meu rosto e pede pra eu respirar profundamente. O cheiro é forte, remete a um éter. Começo a ficar sonolento. Reclamo da dor em minha mão. Minha voz fica fraca, minhas pernas adormecem. Um adormecimento estranho vai tomando conta do meu corpo. Sou orientado a focar na respiração e a fechar os olhos. Meu esforço ainda consciente para manter-me acordado é em vão. Não resisto... Não consigo... Não dá... Tudo escurece enquanto perco meus sentidos. Segundo o tempo do relógio, foram quase três horas apagado, sem noção da realidade, da vida, nada. Um sono profundo e silencioso. Acordo com uma voz me chamando. Estou de volta. A vida continua e a luta também. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Crítica: "Missa da meia noite"



Transcrevo aqui a parte de um diálogo ocorrido a partir dos quinze minutos finais do 7º episódio da 1ª temporada da série "Missa da meia noite", da Netflix. Mas antes de dar seguimento no mesmo e de continuar minha percepção e crítica à reflexão que se tece pela fala da personagem sobre a morte e consequentemente a vida, a travessia ou o ciclo, me atenho a dar alguns adjetivos em todo o enredo, porém com o devido cuidado para não dar spoilers

O cenário da trama é uma pequena cidade construída numa ilha afastada do continente. A religião predominante é a católica, com alguns personagens muçulmanos e ateus. Existem outros diálogos profundamente interessantes com teor filosófico e reflexivo, tanto quanto questionamentos sobre a fé e a verdade que muitos buscam e outros mais tentam deter para si. 

Há também a parte fantasiosa sobre o mal disfarçado numa figura bíblica em que podemos tanto interpretar biblicamente como de forma analogicamente figurada para a nossa realidade. Tem romance, têm exageros, têm verdades, tem maldade e bondade tal qual vemos no dia a dia e, principalmente, uma grande pitada de fanatismo religioso que se manifesta pela detenção de uma verdade deturpada por quem quer poder para controlar os demais. 

Uma das coisas que chama muito a atenção nesse diálogo, além do teor profundamente reflexivo, é a interpretação do casal. A concentração e a troca de olhares durante a fala, que é feita com perfeição de entonação e sintonia, consegue nos possibilitar a conexão com cada palavra dita, que de certa forma estabelece uma ponte entre o fictício e o real, a nossa realidade. Vale muito a pena conferir.

***** 

- O que acontece?

- O que?

- Quando a gente morre, o que acontece?

- O que que acontece?

- O que acha que acontece quando a gente morre?

- Falando só de mim?

- Falando por você.

- De mim... Só de mim. Esse é o problema. Esse é o grande problema da questão. Esse conceito "eu", isso não existe. Não tá certo. Não é... Não existe. Como eu esqueci isso? Quando eu esqueci isso? O corpo para uma célula de cada vez mas o cérebro continua disparando os neurônios, como mini raios, como fogos ali dentro. Eu pensei que fosse desesperar, sentir medo, mas eu não senti nada disso. Nada. Porque eu tô ocupada demais. Ocupada demais no momento, lembrando. Claro, eu lembro que cada átomo do meu corpo foi forjado numa estrela. Essa matéria, esse corpo é praticamente só espaço vazio no fim das contas e matéria sólida? É só energia vibrando lentamente. E não existe eu. Nunca existiu. Os elétrons do meu corpo interagem e dançam com os elétrons do chão embaixo de mim e do ar que eu não respiro mais. E eu lembro, não existe sentido onde tudo aquilo acaba e eu começo. Eu lembro que eu sou energia. Não memória. Não "eu". O meu nome, a minha personalidade as minhas escolhas, tudo vem depois de mim. E eu era antes deles e eu vou ser depois. E todo o resto são imagens que eu juntei no caminho. Breves sonhos passageiros impressos no tecido do meu cérebro morrendo. E eu sou raio saltando ali, eu sou a energia disparando os neurônios e... Eu tô voltando... Só de lembrar, eu tô voltando pra casa. É como uma gota d'água caindo de volta no oceano. De onde ela sempre fez parte. Todas as coisas fazem parte. Todos nós somos partes, você, eu, a minha filhinha, minha mãe e meu pai. Todos que já existiram, toda planta, animal, todo átomo, toda estrela, toda galáxia, tudo. Tem mais galáxias no universo que grãos de areia na praia e é disso que nós estamos falando quando falamos Deus. O Deus. O cosmos e seus infinitos sonhos. Nós somos o cosmos sonhando consigo mesmo. É só um sonho que eu penso que é a minha vida, toda vez. Mas eu vou esquecer isso. Eu sempre esqueço. Eu sempre esqueço os meus sonhos. Mas agora nesse milésimo de segundo, no momento que eu lembro, no instante que eu lembro, eu compreendo tudo de uma vez. Não existe tempo. Não existe morte. A vida é um sonho, é um desejo, que fazemos de novo, de novo, de novo, de novo e de novo. E é assim por toda eternidade. Eu sou tudo isso. Eu sou tudo. Eu sou todos. Eu sou o que sou. 

***** 

Esse diálogo penetrou em meus pensamentos de forma poética, livre de preceitos religiosos e outros mais. Por isso se tornou belo, distinto, mágico, independente, uma verdadeira arte final à parte diante de um contexto que teve seus altos e baixos, ficções verdadeiras e pseudo-realidades. Me levou a um nível de reflexão além do fictício e do imaginário. Talvez pelo momento pandêmico que vivemos em comum, que nos traz consequências várias e tudo isso juntado aos problemas particulares de cada um. Outro ângulo para pensar é que que nem tudo o que parece é. As coisas são vendidas de forma bonita, com um marketing pesado por trás. Assim também são as pessoas que se vendem, ou melhor, se apresentam pela aparência. Elas demonstram ser aquilo que têm, que possuem. Estamos carentes de essência... de coisas reais... de pessoas de verdade...