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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Rosas e muros



Andando por algumas ruas da cidade ainda é possível encontrar casas com grades às quais nos permitem olhar para sua frente. Dessas casas uma minoria ainda possui um canteiro com flores que ornamentam a vista. Dentre as flores, destaque para as roseiras. As flores em si sempre me trazem boas recordações, mas as rosas remexem no baú da saudade. Meus avós Joaquim e Iolanda tinham dois canteiros na frente de sua casa e ali cabia uma variedade incrível de plantas e flores. Obviamente não faltavam rosas das mais variadas cores. Vez ou outra, alguém pedia uma rosa e minha avó ia lá cortar com cuidado. Não havia grades, apenas um muro que de tão pequeno servia de banco nos finais de tarde em que meu avô e alguns vizinhos sentavam-se para prosear. Era um tempo sem tantas preocupações.

O passar dos anos fez com que meu avô colocasse grades altas em cima dos muros. Perdemos o banco no intuito de ganhar um pouco de segurança. Hoje, a fachada da maioria das residências tem muros altos, com cercas elétricas ou serpentinas. Quem está dentro não consegue ver o movimento da rua e quem está fora não consegue apreciar os canteiros que podem existir atrás dos muros. Ficamos todos presos por dentro e por fora, reféns do medo, da insegurança e da própria sociedade adoentada. Caminhamos para um isolamento social e as antigas e boas relações seguem para sua extinção. Nossos filhos e netos talvez nunca possam desfrutar das brincadeiras que um dia tivemos, na rua, ao ar livre, na chuva e curtindo o anoitecer com o céu repleto de estrelas. 

Numa outra realidade lembro-me de quando entrei para o mundo virtual, especificamente no facebook. A possibilidade de reatar laços e manter o contato com pessoas distantes era o máximo. Amigos de infância tinham a possibilidade de trocar experiências, formar grupos, comunidades com interesses afins e desenvolver bons diálogos. A possibilidade de fazer criar novas amizades também era positiva. Tudo concorria para uma boa evolução.

Porém, com o tempo e a evolução das redes sociais, o cenário que até então era místico, belo e com perspectivas positivas acabou se tornando um campo minado, permitindo que as pessoas se manifestassem sem suas devidas máscaras e o resultado é que esses espaços se tornaram palcos de guerrilhas com atenuantes para a violência e para o ódio, sem mencionar diretamente o preconceito e o deboche com a dor alheia que o ambiente propicia. O belo, o lúdico, a poesia, a arte, a vida em si, perderam espaço.

Em suma, o ser humano é a sua própria desgraça. Tem olhos mas não enxerga o que seus atos e pensamentos podem causar. Espero que a evolução seja realmente cíclica e que num futuro não distante possamos sentir o cheiro das flores ao passear tranquilamente pelas calçadas do seu bairro, que possamos também sentir o cheiro das cartas perfumadas que traziam notícias de alguém tão querido, e que a tranquilidade nos permita andar de bicicleta à luz do luar. Ou então, caminharemos para o abismo da apatia solitária, sem amigos reais, presos em nossa própria solidão e cercados por muros.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Manhã de um dia qualquer


7:00 horas. Manhã de um dia qualquer que se encaminha na costumeira rotina. Crianças e adolescentes marcham entre a calçada e o sono rumo à escola. Alguns pais acompanham seus filhos. As padarias de portas escancaradas recebem seus fiéis do sagrado pão. As igrejas ainda repousam no silêncio. Ao longe os caminhões rasgam a rodovia fazendo serenata contra o vento. 

Os aviõezinhos do tráfico encenam o protocolo de recolhimento. A noitada no relento é solitária. A movimentação não é intensa por parte da clientela que oriunda de diversos cantos da cidade. Estão sempre no mesmo lugar a partir de determinada hora entre o fim da tarde e a chegada da noite. Suas aparências são de zumbi. Magros, descuidados, com olheiras profundas e sem nenhuma higiene. Figuras conhecidas no bairro. 

Pouco ou quase nada se vê de ações concretas por parte do Estado para acabar com as drogas no bairro. As patrulhas de polícia também conhecem os distintos jovens que fazem parte do esquema de tráfico de drogas. São peixes pequenos, a ponta que tem o papel de vender e entregar o produto para os clientes. A maioria dos que estão nesse meio são usuários viciados. 

Difícil mesmo é colocar as mãos no grandão que comanda o esquema pesado. O cara tem poder. Poder e dinheiro. Carrões, lanchas, imóveis e botecos de fachada. Todo mundo sabe. A polícia também. Nada acontece com o cara. Mas para que o braço armado do Estado que dá as caras no bairro haveria de se preocupar com um sujeito que nem aparece na cadeia alimentar do esquema? Esse sujeito é liso. E a polícia faz de conta que não o conhece...

Enquanto isso um adolescente de cabelo alisado, com um violão pendurado nas costas, aguarda do lado de fora da sua casa a chegada do corpo de bombeiros para então seguir rumo à escola. Sua mãe sofre depressão, tem síndrome do pânico e precisa ser amparada pelo socorro neste dia. Porém, quem chega no local é uma viatura da PM. 

A abordagem do soldado é espetacular. Com ar de ironia pergunta se o garoto é gay. O rapaz lhe responde a altura dizendo que não mas se fosse não seria de sua conta. Enquanto isso a mãe do garoto aparece no portão chorando. Não lhe bastassem os problemas que carrega ainda tinha que ouvir o policial fazendo um desserviço e descumprindo o papel que lhe é devido. 

Pré-julgado por manter um cabelo alisado, que deve fugir aos padrões que estão incutidos na cabeça do policial, o garoto se revolta mas não perde o foco de seus objetivos. Palavras sua. 

Os valores se inverteram e o problema real é deixado de lado através do olhar da hipocrisia social. Respeito? Só com o traficante!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guerra dos Mundos IX: cortaram as luzes


"O braço que detém o poder não é apenas
 forte mas é rápido, impiedoso e age
 em benefício dos que o manipulam. 
Sempre foi e sempre será assim..."

Um fato obscuro chamou minha atenção. Na rodovia de acesso ao bairro em que moro, recentemente palco de grandes queimadas arquitetadas pelos responsáveis da manutenção, cortaram as luzes de alguns postes. Num raio de aproximadamente 200 metros até a entrada principal não há iluminação pública, diga-se de passagem, aquela que pagamos mensalmente.

O motivo? Não há nenhum indício de uma pane em apenas 10 ou 12 postes, justamente naquela área que, por coincidência, é um trecho onde ocorrem alguns incêndios premeditados. Parece até teoria da conspiração mas não é. Dá para se ter uma conclusão melhor sobre o episódio.

Existe ali na entrada do bairro, num terreno grande, umas dez famílias assentadas. Creio que, entre eles mesmos, já simularam uma demarcação e cada uma ocupou sua parte. Aparenta que o terreno pode ser do Governo, mas se fosse não haveria o porquê de uma significativa empreitada contra os posseiros.

O mais provável é que existe um dono daquele espaço, que antes era apenas um terreno baldio e que já serviu de lixão. Se não há como bater de frente com os atuais ocupantes da área, o que restou foi articular para que eles não tivessem uma boa estadia em seus pseudos terrenos. Sendo assim, o passo mais favorável foi cortar a energia.

Antes do repentino apagão das luzes dos postes da rodovia, que ficam próximos a entrada do bairro, os barracos tinham iluminação. Agora, sem energia, vão ter que improvisar e resistir aos próximos contratempos do destino. Quem engenhou tais eventos, com toda certeza, se não for dono do terreno, está incomodado com a paisagem formada de barracos e seus habitantes.

Bairro Tocantins - Uberlândia - MG

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pare: verdades loucas e pensantes!


É necessário o vírus para se vender o antivírus. É necessário a doença para se vender a cura. É necessário a miséria para que a elite prevaleça. É necessário o inferno para se vender o céu. É necessário o caos para sustentar o sistema. Conspirações? Não somente. Na verdade, são conspirações capitalísticas e capetológicas de um sistema prostituído e possuído pela ganância. (10/08/15)



Lei da atração ou "olho por olho, dente por dente"? Um dia o Pe. Marcelo Rossi se recusou a dividir o palco com "Vera-Verão". Chamou o artista de aberração. Dessa vez o padre foi vetado pelo ditador da Teologia da Prosperidade. Nessa briga de gente esquisita qualquer um que perder foi tarde. (16/08/15)


Olha a intervenção militar chegandooo! Cascavel (PR), um artista caracterizado de palhaço, fazendo da praça o seu picadeiro, foi preso ao dizer a verdade sobre o sistema ditatorial que rege o Estado. E tem gente que pede sem saber o quê! (16/08/15)

sábado, 22 de junho de 2013

21 anos e um fim antecipado



21 anos. O caminho escolhido por opção ou falta dela chegou ao fim. Refém das armadilhas contidas nessa escolha, a morte veio certeira, como que um pagamento antecipado. O corpo fora encontrado nas imediações do bairro. Segundo comentários a morte fora encomendada por alguém de dentro do presídio: o chefão. Com o chefe do tráfico não se brinca. 


Não conheço a pessoa em questão. Tive a oportunidade de ouvir parte do relato do irmão que carrega agora a dor da perda. Não bastasse, sofre também com a dor da mãe que com certeza deixará no caixão que se encerra parte de seu corpo, de seu coração, de sua vida. A família se quebra. Os cacos serão eternamente juntados. A lembrança do que foi bom ficará guardada. Independente do caminho tortuoso do filho, ela o lembrará carinhosamente como menino. 

A mãe carregará no peito não só a dor da perda mas também da decepção por não ter dado mais atenção ao filho ou por não ter percebido mais cedo que os passos do menino eram para direções erradas. Ela imaginou o melhor para sua cria. Jamais passou por sua cabeça que um dia, quando sua criança crescesse, se envolveria com gente perigosa e se perderia em caminhos de morte. A morte anda mais perto dos que se enveredam no submundo do crime. Tráfico é crime. A lealdade nesse meio dura pouco. A carreira tem uma ascensão rápida e o risco de queda é iminentemente maior. 

Muita gente ainda afirma que bandido bom é bandido morto. Não estamos em tempo de guerra. Não dá simplesmente para assistirmos inertes a estatística de baixas no contingente jovem aumentar gradativamente. E a quem culpar? Precisamos estabelecer um culpado. Óbvio. A família talvez! Especificamente na pessoa da mãe! Sim e não. Somos frutos de nossas escolhas. Somos reféns de uma engrenagem desproporcional e excludente. Na medida que o tempo passa, passamos a ser coadjuvantes desse sistema pelo simples fato de nos aquietarmos. Melhor: de nos omitirmos. 

Mocinhos e bandidos têm seus heróis. Depende da óptica. Depende muito mais de quem está no sofrimento pela dor da perda. Esse jovem poderia fazer parte de nossa família... As lágrimas poderiam ser nossas... Poderia ser eu ou você a enterrar parte de nossa vida, sem nenhuma chance de refazer a história de uma forma diferente e melhor. Nesse momento me compadeço das famílias que sofreram por perdas semelhantes, principalmente das mães que têm essa cruz para carregar nesse caminho de calvário que lhe resta em dias de sobrevida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Dois lados de uma meia moeda



Redução da maioridade penal, eis um tema que vem ganhando proporção e força Brasil afora. Entre orós e contras, argumentos e fatos, apoio e oposição, os especialistas de várias áreas profissionais defendem a redução afirmando que a pessoa com 16 anos de idade já tem noção e ciência dos seus atos. Grupos e Organizações religiosas e sociais são oposição frente a essa tentativa que o Governo envereda esforços para conseguir realizar.

Existe uma linha tênue entre tudo dar certo ao reduzir, como também tudo dar errado. Reduzindo para os 16 anos, logo mais veremos casos e mais casos onde os culpados por crimes hediondos, que assumem a culpa no lugar de adultos, serão adolescentes de 15, 14, 13 anos ou menos. Então, se mantermos a redução da maioridade penal na mesma proporção em que a maturidade dos seres humanos acontecem cada vez mais cedo, corremos o risco de crianças no jardim da infância adentrar o sistema carcerário à pagar por delitos cometidos. Claro que o exagero aqui se faz necessário.



Mantendo a maioridade penal aos 18 anos, sem nada a se fazer de imediato, a curto, a médio e a longo prazo também não muda nosso cenário brasileiro. Longe da educação melhorar de imediato ao ponto de contribuir para a melhora dessa situação.O sistema sócio-governamental não almeja isso. Parece até que chuta a bola com as duas pernas ao mesmo tempo. Acende uma vela pra Deus e outra pro diabo. Coisas de teoria conspiratória mas não deixa de ter lá seus fundos de verdade. 



O poder do governo precisa do lado ruim da situação para que então possa soltar seu braço de contenção e assim mostrar serviço. Paliativos, somente. Nada que se resolva a situação. Dinheiros acumulados nos altos cargos governamentais poderiam ser sub-divididos para a educação, esporte, cultura, saúde, segurança e assim possibilitar a melhoria de quem vive principalmente nas periferias, onde quem acaba sendo o herói é o traficante que toma conta do pedaço, não deixando que nada saia da ordem natural. Crianças desses lugares, crescem vendo que o poder do tráfico é bom, gera status, reconhecimento, etc, e sendo assim, o que vão querer ser quando crescer, traficante ou policial? No caso, o policial, acaba sendo o vilão. Infelizmente.


Se tudo evolui, se as crianças aprendem cada vez mais cedo coisas que em outras épocas demoravam mais tempo para assimilarem, concordo que o tempo de pré-adolescência, adolescência e juventude estão literalmente antecipados. Mesmo assim, ainda não estou favorável nem contra essa redução da maioridade penal. Conheço os dois lados dessa meia moeda, onde quem está com a outra metade, tanto da cara como da coroa, é um sistema omisso que lança homens por vezes despreparados e mal pagos para correr atrás de jovens e adolescentes reféns de um sistema paralelo, frutos da cegueira opcional do poder, que por outro lado fica nítida a necessidade desse em manter o caos sob o prisma hierárquico.

Ficam duas perguntas inquietantes que várias pessoas de opiniões contrárias se embasam: "se o adolescente de 16 anos tem capacidade de votar então porque não poderia assumir a responsabilidade de seus atos?!" Por outro lado, "se o adolescente cometer um crime e for preso, nosso sistema prisional será um meio para que ele possa pagar pela infração e sair de lá melhor ou literalmente escolado em meio a tantos profissionais do crime?!"



Enquanto cristão, e sem a devida menção por sobre os olhares e defesas por hora empenhados pelos prós e pelos contras, mantenho-me omisso da discussão, mas ao mesmo tempo, firmo ao lado pelo qual a minha fé, a igreja e o meu bom senso me alicerçam: junto aos que lutam contra a redução da maioridade penal...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

E a vez dos eleitos vai começar a partir de quando?"



Então, sabe, hoje as 7:30 horas da manhã, no bairro onde moro, a galera do corre, usuários, peças zumbis do tráfico que já perderam sua noção de higiene, de espaço e da vida, estavam alvoroçados. A movimentação que eles fazem é como se estivessem num feirão. O estilo de comunicação é algo que impossibilita discernir entre uma briga e uma conversa. Enfim, eles estavam lá. Eles continuam lá e sempre estarão. Não há que retirá-los pois outros virão. Jovens, mulheres, crianças e adolescentes que se tornaram reféns das drogas. Sobrevivem à margem, no sub-mundo. Para muitos são invisíveis. Basta atravessar a rua para não passar perto e tocar a vida normalmente.

Mas, então, se existe a vítima existe também quem está vitimando. Não é possível que algo tão escancarado não possa ser combatido. As vítimas estão expostas, são peças pequenas num grande quebra cabeça. O bairro é afastado do centro urbano. A ronda da PM faz o seu papel de manter a ordem e só. São vários pontos que precisam ser trabalhados:
1- Educação e conscientização;
2- Segurança: investigação, combate, monitoramento;
3- Saúde: cuidados, higiene, reabilitação;
4- Políticas Públicas: É COM VOCÊS ELEITOS!!!

Gostaria de convidar os candidatos eleitos, principalmente os que estiveram na Comunidade Imaculada Conceição pedindo votos, para fazerem realmente um trabalho diferenciado e de verdadeiro impacto social aqui no bairro. É um trabalho que talvez não seja uma vitrine imediata como arborizar e iluminar uma praça mas que, com certeza, no final e no conjunto da obra o resultado será algo positivo. Informações e ideias temos muitas e independente se votamos em "a", "b" ou "c", estamos dispostos, e existem mais pessoas nesse barco, a trabalhar pelo bem comum. Creio que a hora não é para "partidarismo" muito menos para "privilegiados seletos" que trabalharam em suas campanhas. Chega de "chororô" e frases prontas, agora é mão na massa!!!

Por isso repasso esse texto não como repudia aos eleitos mas como cidadão que visa melhorias reais ao bairro onde mora! Agora é com vocês, nobres vereadores: Gláucia da Saúde e Professor Neivaldo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Toque de recolher!



18/09/12 - 19:45 horas. Igreja Imaculada Conceição (Tocantins-Uberlândia-MG). Estaciono a moto e antes mesmo de adentrar sou acometido por uma cortina de fumaça, oriunda da praça em frente. O cheiro de ervas queimadas, nada aromatizantes. Estavam chegando no altar. Os ventiladores ligados, todos os dez, e ainda assim a catinga da daninha seguia no vácuo. Um casal sentado num dos bancos da praça curtiam seu baseado. Fatos, já, infelizmente, naturais de se deparar. Cresce não só o número de usuários mas também o número de traficantes. Crescem a depravação, a ignorância, bem como o nosso receio e insegurança. Somos retidos e encarcerados em nossas casas. Não há toque de recolher ao pé da letra mas todos sabem que a partir daquele horário tudo o que se vê e se encontra nas ruas e ruelas são usuários, e os ditos aviõezinhos, os camaradas, por vezes sem maior idade, fazendo o corre das entregas. Tocantins é um bairro distante do centro. Tem muita gente batalhadora que acorda cedo e dorme tarde. Não só espero mas quero cobrar e muito, independente de quem lá esteja, que providências sejam tomadas. Que o sistema, seja pelas políticas públicas, seja pelo policiamento adequado, seja pelo braço investigativo, que resolva aquilo que está depravadamente escancarado!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

De ousadia para afronta





As pessoas, cada vez mais, tem aumentado os muros de suas residências, reforçando com grades e cercas elétricas, no intuito de proteger a si e seus familiares. A fortaleza de proteção acaba sendo uma prisão às avessas. Preso em sua própria casa receando o perigo lá de fora.

Após as 22 horas o risco aumenta para quem ainda está na rua. Um deserto escuro. Motos barulhentas e muitos usuários de droga. A praça serve de ponto de encontro, de compra e venda dos sub-produtos. Polícia tem, só que dificilmente eles se cruzam noite adentro. Não é difícil detectar. Até mesmo em plena luz do dia as drogas correm a solta. 

Dias atrás, ao fazer uma caminhada, três jovens adolescentes fumavam maconha e o sol ainda estava raiando. Outro dia, crianças entregavam pequenos pacotes para rapazes e moças que aguardavam na mesma praça. Usavam o banco para cheirar algo que de longe parecia pó. 

Drogas cada vez mais acessíveis em todo e qualquer canto. Crianças tem contato cada vez mais cedo. A ousadia já se tornou afronta. Afrontam a polícia, afrontam o sistema, afrontam tudo e todos. Pontos de venda e tráfico existem... mas a polícia nunca chega lá! Ninguém viu, ninguém fala. Paisagem do cotidiano, ver o que todos fingem não existir.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Por que é que Você me aparece assim...?

 Domingo, 02 de setembro de 2.012. Igreja Santa Terezinha, Praça Tubal Vilela, Uberlândia-MG. 13:45 horas.

Estaciono a moto de frente a igreja Santa Terezinha e escuto alguém gritando "onde está os cinco reais que te emprestei? cadê?". Avisto três homens na praça, dois estavam sentados e o que gritava, em pé. Um deles, sentado, ouvia os gritos daquele que estava repleto de ira, e como resposta apenas balançava a cabeça dizendo que não tinha mais o dinheiro nem havia conseguido outro.

Percebia-se que todos estavam alcoolizados. O que estava sendo cobrado, por sinal, era o que estava em pior situação. Mal conseguia se levantar. Não bastassem os gritos, o cobrador partiu para a agressão. Primeiro, com uma das mãos segurou no pescoço do devedor, apertou forte e o jogou para trás. Este, virando com as pernas para cima, caiu de cabeça e costas no chão e ali ficou.

Não convencido daquela atitude, o homem inflamado de raiva por não encontrar os cinco reais com o bêbado que antes era parceiro de álcool, começou a chutá-lo na altura do peito e da cabeça. O terceiro homem, que também estava sentado, sentado ficou sem nada fazer.

De pé ao lado da moto, só deixei o capacete que por sinal num primeiro momento minha vontade era bater com ele naquele endiabrado que gritava, cobrava, humilhava e agredia... No atravessar a rua, minha ansiedade e raiva já estavam tal qual deste homem. Tentei ligar para a polícia, que por sinal há um posto naquela praça mas por ironia do destino, no momento não havia ninguém.

Antes mesmo de chegar do outro lado da rua o agressor já havia apanhado algumas pedras em cada mão e batido com elas na cara do homem prostrado no chão. Tempo era uma coisa que realmente não havia. Ninguém ao redor da praça. Pessoas passando e apenas assistindo. Confesso que sou fã de uma boa briga desde que seja justa, por um bom motivo e de preferência num ringue. Não era o caso.

Diante da cena a apenas alguns metros gritei "o que é que tá acontecendo aí meu irmão?". Minhas mãos suavam. Aquela raiva, ao presenciar de longe as primeiras agressões, e que empurravam para que minhas mãos arrebentassem aquele atrevido e covarde de repente viraram coragem para não deixar a situação pior do que já estava. Tem horas que precisamos de coragem para nos conter, envidar esforços para não tomar atitude alguma. Na hora nada consegui pensar. Fiz, acredito, no momento, o que era mais sensato...

O cara então me respondeu "este aqui tá me devendo cinco reais e agora não tem para me pagar". Ganhando tempo pra entender perguntei o porquê do empréstimo. A resposta foi grotesca mas... "pra ele comprar pinga." Cinco reais seria o suficiente para alguém ali perder a vida em segundos. Motivo: álcool!

Falei pro cobrador que então já estava no papel de agressor "cê vai matar o cara!" Por algum motivo ele parou. Como forma de demonstrar superioridade e manter talvez a fama de violento, não cessava de falar alto. Pedi pra ele deixar o cara em paz. Com os únicos cinco reais que tinha no bolso quitei aquela... dívida. Antônio é o nome do agressor e Anderson o que devia. Dívida quitada, Antônio seguiu sua caminhada e o terceiro homem que antes estava de parceiro de Anderson seguiu com aquele que mais se impunha entre eles. Talvez o medo falou mais alto. Preferiu seguir com quem tinha mais... força. Questão de sobrevivência, pode ser...

Anderson é de Araguari e para lá não pretende e não quer voltar. Diante da igreja dei algumas ideias pra ele de alguma forma sair daquilo... Questão de minutos e ele havia desaparecido. Tudo bem. Naquela tarde, de alguma forma ele sentiu que poderia ter sido seu fim.

Ao montar na moto fui acometido por uma comoção que resultou em lágrimas. Diante de todo este episódio, que não durou mais que cinco minutos, ao entregar o dinheiro nas mãos de Antônio que logo partiu dali, olhei para Anderson que já havia se levantado do chão e agora de cabeça baixa, com sangue escorrendo do ferimento causado pela pedra batida com força contra sua cabeça, apenas me disse, com aquele olhar de quem curte sim uma ressaca e que está prestes a arrematar outra garrafa para curar a anterior, mas também com um olhar que só se enxerga quem está de alguma forma buscando um sentido para sua vida: "brigado".

Claro que a única palavra que ele podia me dizer era essa. Não esperava nada mais, muito menos esse "brigado". Na verdade nem achei que ele conseguia falar de tão bêbado que estava. Diante das agressões sofridas nem pedia por socorro, nem gritava, muito menos esboçava reação ou clemência. Nada, naquele momento, talvez, pudesse fazer diferença. Nem polícia, pois não haveria tempo de chegar e salvá-lo antes de ser esfolado vivo e apedrejado...

Esta imagem com este olhar que atinge dentro dos olhos, ao som desta única palavra "brigado", foi a experiência maior deste dia. Já na moto, como citei acima, as lágrimas me incomodavam. Era uma comoção não só de pena por quem apanhou violentamente, mas de algo que enxerguei além daquela imagem e daquela cena toda. Vi um rosto transfigurado naquele homem. Um rosto excluído de um excluído que faz parte de um cenário cotidiano para muitos que perambulam por aquele recinto. Um olhar que tocou fundo. Para muitos tenho certeza de que entenderão apenas como um conto qualquer. Não importa. Eu sei o que vi. Mais que isso, eu sei o que vivi como testemunha do fato.

A única coisa que ficou na minha mente e, que por sinal, já me dei a resposta neste contexto explicado no texto, foi: "Por que é que Você, Jesus, me aparece assim...?"

Sem mais.