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sexta-feira, 24 de março de 2023

Travessia PJ



Entrei no que a gente chamava de comunidade, primeiramente no grupo de canto da Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Comunidade da Vila Cantizani, em Piraju, São Paulo. Eu tinha uns 9 anos de idade e esse grupo de canto era formado por adultos, jovens, adolescentes e crianças. Nesse período comecei a tocar violão nas missas. Os grupos de jovens ainda eram constituídos por muitas pessoas, chegando a somar mais de 100. Lembro da transição feita de grupão para grupos menores, os grupos de base. Quando acabou o Crisma, fui para o grupo de adolescentes. Os roteiros de reuniões ainda eram diversificados, em sua maioria nada dinâmicos. De forma inocentemente engessada, as reuniões eram basicamente estudos em que só o coordenador lia algo, comentava e depois abria para discussões, o que quase nem sempre havia participação. Eu tinha 14 anos. 

A partir de 1996/97, com 20 anos respectivamente, conheci de fato a Pastoral da Juventude, sua estrutura, espiritualidade e modos de ação. Sua história de lutas me encantou. Foi uma história de amor e libertação que se perpetua nos meus dias de travessia. Dentro do ambiente católico também conheci outras linhas de ação de movimentos de massa mas, foi a PJ, sua caminhada de sonho-fé-luta que constituiu toda a minha base de pessoa, cristão, ser humano, de forma especial.

Antes mesmo de conhecer a PJ eu já buscava por algo diferente do convencional, não queria mais do mesmo. E sem saber eu já ansiava por esse "novo" que tivesse uma práxis libertadora. Na época, ainda adolescente e instigado por inquietudes inexplicáveis e questionamentos que me gritavam internamente sobre a estrutura engessada de todo tipo de sistema, eu já era PJoteiro. Era uma questão de tempo para que esse encontro acontecesse. 

1998 foi o ano em que o mergulho nas águas da PJ foi realmente profundo, transformador, libertador e gratificante. O meu marco referencial foi o Curso de Inverno na cidade de Araçatuba (SP), desse mesmo ano. 1998 a 2000 foi um triênio de uma travessia ímpar. Após me afastar literalmente dos trabalhos pastorais da Comunidade devido a questões familiares, em meados de 95 até 1996, meu retorno se deu com um convite para trabalhar com grupo de adolescentes. Fiquei pensativo por alguns dias antes de dar a resposta oficial mas, em meu coração, já havia um SIM. Eu só precisava mentalizar e fortalecer como que trabalharia e me dedicaria nesse projeto com os adolescentes.

Foi uma entrega maravilhosa, com muito amor e dedicação. O resultado foi o crescimento de um grupo de adolescentes repleto de sonhos, alegria contagiante, inquietos, questionadores e com um senso-crítico para lá de aguçado. Era o grupo ABC. Em um ano, esse grupo se tornou uma espécie de referência e havia muita procura de adolescentes de outras comunidades para fazer parte do ABC. Reabrimos o grupo mas foi necessário dividir. Vieram mais de 30 novos integrantes e formamos um "grupão", o que inviabilizava os trabalhos e a dinâmica de um grupo de base. Formamos então o segundo grupo, que ficou conhecido como grupo Águia.

De coordenador de 2 grupos de adolescentes, fui convidado a coordenar a PJ da minha comunidade que contava com 3 grupos de adolescentes e 3 grupos de jovens. Era o ano de 1999. No mesmo ano, assumi provisoriamente a coordenação da PJ Paroquial de Piraju e representava a Paróquia nas Coordenação Diocesana de Ourinhos (SP). Sendo a Diocese de Ourinhos ainda nova, e Piraju nomeada como uma das cidades "região", fiz o trabalho de conectar com as outras cidades que faziam parte da região Piraju. Através de cartas, telefonemas e visitas de carro (com dinheiro do próprio bolso), conseguimos contatar os representantes de cada cidade. 

Na Coordenação Diocesana fiquei como representante da Diocese para as assembleias do Sub-regional. Infelizmente não pude dar continuidade nessa caminhada, não da forma como gostaria. Com minha mudança para a capital paulista no ano de 2000, por conta de uma oportunidade profissional, precisei interromper esse projeto.

Em São Paulo, consegui contato com o querido amigo Pe. Raymundo Aristides, e participei de alguns encontros da Escola Bíblica que ele liderava na época. Foi uma experiência maravilhosa. 

Hoje, sou pai de dois meninos, Felipe e Joaquim, que são a minha razão de viver. Moro em Uberlândia (MG) desde 2009. Já participei do grupo de canto da comunidade Imaculada Conceição e até iniciei o projeto de um grupo de jovens no formato da PJ. Fiquei como coordenador durante 6 meses e depois passei a coordenação. Formado em Administração (1998), Teologia (2018) e atualmente cursando o 5º período de Psicologia, sinto cada vez mais que a educação, o estudo em si, é um dos meios mais potentes para contribuir para si e para o mundo no sentido de construir pontes, quebrar paradigmas, e libertar para a vida plena que cada ser humano tem direito e merece. Afinal, "estamos nesse mundo uns pelos outros", esse é o verdadeiro sentido dessa nossa travessia. E a PJ, até hoje reverbera aqui dentro questionamentos que me fazem parar, refletir e agir, com senso crítico, justiça e amor. 

PJ não foi um mero caminho. Muito menos ficou perdida no passado. Ela é, continua sendo, caminho, caminhada e travessia. Eternamente travessia.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

ABC & ÁGUIA - Parte I - A origem


"Fazendo memória e celebrando a história"


Recontar uma história tão boa e positiva tal como foi vivenciada naqueles anos, intensos anos de 1997 a 2000, é algo que me enche de alegria... Trazer isso à tona, neste momento tão triste e de luto pela perda do querido amigo Carlos Henrique, foi também uma forma de reaproximar a todas e todos que de alguma forma participaram daquele período. De antemão, conto com a ajuda de vocês para momentos e detalhes que eu acabar esquecendo de mencionar. Quem sabe, num futuro próximo, esse material possa até ser catalogado para a posteridade, para os nossos filhos, netos (...).

Bom... era uma vez (...)

1997. Eu estava participando de um grupo de jovens na Comunidade de Vila Cantizani, coordenado pelo Márcio Assis e pelo Toca, já havia alguns meses, e recebi um convite da Riete, coordenadora geral da PJ na Cantizani, para iniciar um grupo de adolescentes junto com a Érika de vice. Tal convite vinha como um "chamado" bem como uma chance de fazer algo diferente em termos de grupo.

De início eu fugi da responsabilidade. Não queria nenhum compromisso. Mas a forma que fui abordado pela Riete ficou martelando em minha cabeça. Ali, no pensamento, já estava lançada a semente de um Novo Grupo, um Novo Amanhã, um Novo Horizonte.

Passaram-se uma ou duas semanas e enfim aceitei o convite. Eu já tinha noção que queria ser alguém próximo dos adolescentes, queria ser amigo, estar presente, me dedicar, criar possibilidades para que cada um pudesse se desenvolver dentro do seu próprio potencial. E olha que ambos os grupos eram recheados de talentos. Na minha cabeça eu queria contribuir para que cada um pudesse desenvolver o seu senso-crítico e ter voz ativa dali por diante. Reconheço que em muitas vezes tive cuidado e zelo em excesso. Mas também posso justificar que foi uma experiência nova, única e com muita dedicação.

Fomos atrás de alguns nomes que haviam terminado a crisma. Entregamos convites para cada pessoa, em mãos, com data e hora para a primeira reunião. No primeiro encontro foram nove pessoas, contando comigo e com a Erika. Todo mundo tímido, pouca empolgação. E como diziam alguns adolescentes da época: "perdido igual azeitona em boca de banguela". Na segunda reunião foram apenas duas pessoas. Aí deu aquele gelo. Medo de ter fracassado sem mesmo ter começado direito. Pensei em desistir mas tinha algo que dizia para "acreditar" e então fomos novamente atrás de todas as pessoas. Para nossa surpresa, na terceira reunião havia mais de 10 participantes. E assim o grupo foi crescendo em número mas principalmente em personalidade, amizade, talento, alegria e participação.

Detalhar esse início da caminhada creio que é fundamental para esse resgate histórico. Entendam que não foi meramente um acaso ou uma coincidência, mas uma história sonhada, planejada e dedicada para uma caminhada diferente. Lógico que nem tudo saiu como o esperado. Houve, no decorrer, desentendimentos e decepções porque todos eram inexperientes, inclusive e principalmente os coordenadores, mas mesmo assim acredito que o resultado foi verdadeiramente positivo.

Por enquanto é isso. Aguardem os próximos capítulos dessa história a qual vocês foram protagonistas!

Ver - Julgar - Agir - Rever - Celebrar





terça-feira, 6 de agosto de 2019

Memória de um dia triste - II


A vida é um espaço no tempo delimitado entre nascimento e morte...


03/08/2019, sábado.

Ainda tomado pela triste notícia da morte inesperada de um conhecido amigo, eis que me chega uma outra notícia de um fato acontecido a dois anos mas que até então eu não sabia.

Tomei conhecimento através de um grupo no Facebook no momento em que algumas pessoas falavam da morte de outros amigos (Joice e Carlos Henrique) e citaram seu nome, Gabriel...

Gabriel... nos tornamos amigos a partir do Curso de Inverno da PJ, que aconteceu em Araçatuba no ano de 1999. Ele tirou sua própria vida em 2017, aos 34 anos de idade... Nossa última conversa foi justamente em janeiro desse mesmo ano, no dia do seu aniversário...

No mesmo instante fui até sua página nas redes sociais mas não encontrei nenhuma informação.

Novamente, muitas perguntas sem respostas, muitas respostas que não se explicam... Vários pensamentos que passam pela cabeça a começar, principalmente, o motivo e as dores que o levou, ou melhor, que os levaram ao extremo dos extremos... Penso também na dor dos que ficaram... Tentar organizar e seguir a vida sem o contato e o convívio dos que partiram sem explicação é uma tarefa penosa, árdua e que, realmente, não existe resposta...

A vida é tão curta... Tão jovem se foram...

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Memória de um dia triste

A vida é um espaço determinado no tempo (...) entre o início e o fim.

E de repente uma notícia triste me tirou da rotina dos meus dias. Fez-me parar diante da correria e buscar na memória momentos vividos que deixaram saudades. Muitas perguntas sem respostas. Muitas tentativas de respostas que não amenizam o sofrimento de quem ficou após a súbita partida de um ente querido.

Nesta última sexta-feira, 02/08/2019, recebi a notícia de que um jovem de 34 anos partiu desse mundo, tirando sua própria vida. Eu o conheci quando ele tinha entre 14 e 15 anos de idade. Fez parte de um grupo de adolescente, ao qual fui coordenador, entre 1998 e 1999. Foram dois anos intensos vivido por todos os integrantes. Uma experiência de aprendizagem múltipla e recíproca. O grupo, que seguia uma caminhada aos moldes da Pastoral da Juventude - PJ, recebeu o nome de ABC. O garoto, C.H., era um adolescente cheio de vida, levado, traquino, inquieto, sorridente, questionador, amigo, inteligente...

O fato triste e trágico que o tirou deste mundo é algo muito sério... Vale pra gente a reflexão de que o nosso espaço aqui neste mundo, delimitado entre nascimento e morte, já é rápido por sinal, e noutras vezes esse espaço, esse tempo ainda é encurtado...

Que Deus dê forças para os familiares do Carlos Henrique e que ele enfim encontre descanso e paz para todas as suas angústias.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Tempos de busão: Piraju X Ourinhos (SP)

Momentos atrás recordava-me um período de trabalho e faculdade quando ainda morava em Piraju, interior de São Paulo. Trabalhava durante o dia e viajava em média 130 quilômetros, entre ida e volta, de segunda à sexta até a cidade de Ourinhos onde cursava Administração de Empresas. Foram sacrificantes cinco anos, de 94 a 98, mas que valeram muito a pena. Dificuldades das mais variadas possíveis, muitas histórias e amizades que se eternizaram.

Por conta da minha cidade natal não ter Faculdades ela disponibilizava ônibus que transportavam os alunos às escolas técnicas e faculdades situadas nas cidades vizinhas: Avaré (SP), Ipaussu (SP), Ourinhos (SP), Marília (SP) e Jacarezinho (PR). Óbvio que não era de graça. Havia um custo repassado aos usuários do transporte. E mais óbvio ainda imaginar que a maioria dos que necessitavam do ônibus eram jovens que se autossustentavam.

Vale lembrar, com muito orgulho e respeito, que estudei em escola pública nos antigos primeiro e segundo grau, Moreira Porto e Nhonhô Braga, respectivamente. Excelentes professores e claro, não dava para ter a simpatia por todos mas, sem exceção, foram excelentes no cumprimento de seu dever. Uns mais profissionais, outros mais amorosos e aqueles que possuíam os dois adjetivos.

Penúltimo ano de faculdade ou o último talvez. Não lembro ao certo e também não tem muita importância. Estávamos num período de eleições municipais e devido à dificuldade em saber se haveria ou não apoio da prefeitura para contratar uma empresa de ônibus para transportar os alunos às cidades vizinhas nos anos seguintes, mesmo tendo 100% do custo repassado a nós usuários, resolvemos criar uma comissão e questionar os candidatos.

A preparação foi ótima. Na verdade arquitetamos um debate na Casa da Cultura. Posso dizer que a preparação foi melhor que o resultado. Sempre assim, a escalada da montanha traz mais experiência entre cansaço e prazer do que a chegada ao topo propriamente dita. Nós, que tomamos a frente do evento, crescemos enquanto pessoas e literalmente exercemos o papel de jovens cidadãos. Lutamos pelo nosso interesse e pelo de todos os estudantes que utilizavam o serviço de transporte, mesmo não tendo o comparecimento de 10% deles. 

Mas, ainda não era essa a lembrança maior. Não me contendo, pra variar, assumi a responsabilidade num determinado ano, talvez o de 97 ou 98. Enquanto "coordenador do busão" todo final de mês eu fazia um relatório dos dias úteis que utilizaríamos o transporte no mês seguinte e as devidas contas para se chegar ao valor que cada usuário deveria desembolsar. Apresentava o resultado ao então responsável da época, o Sr. Pedro Rocha. Pelo que me recordo, nunca tivemos divergência no quesito valores e o mesmo resultado era apresentado à toda galera do busão.

Era de costume, pelo menos ouvi isso de algumas pessoas, que o coordenador do ônibus não pagava a sua mensalidade. Como ele já assumia toda a responsabilidade em estar à frente das situações, inclusive participar de reuniões com o responsável da prefeitura e intermediar o diálogo entre usuários e a máquina administrativa, seu benefício era estar isento do pagamento. Como o ônibus tinha um preço fixo mensal, acredito que o valor acabava sendo rateado pelo restante dos colegas. 

Sendo assim, quando resolvi assumir a bronca, tivemos uma proposta diferente. Não havia um pagamento mensal fixo. Pagávamos pelos dias úteis utilizados e o valor era razoavelmente variado, mês a mês. Por isso era necessário fazer as contas antecipadamente. Tínhamos um valor de viagem diária. Desse valor multiplicávamos pelos dias que utilizaríamos e desse montante dividíamos pelo número de usuários. Um outro porém: haviam alunos de várias escolas e com calendários letivos variados, o que acarretava uma certa dificuldade na elaboração do custo mensal. No final, foi bom para todos. 

De tudo isso posso dizer hoje, com muito orgulho, que eu paguei todas as mensalidades no período em que estive à frente do busão. As planilhas eram apresentadas a todos. Estava à mostra para quem quisesse conferir. Claro que haviam possibilidades infinitas de burlar as regras, dar um jeitinho, pagar de malandro e deixar de cumprir com a minha parte, afinal eu estava assumindo uma função que me demandava tempo e dor de cabeça. Mas, honrei com meus amigos, colegas de transporte e principalmente com minha consciência. 

Hoje posso contar ao meu filho e dizer o quanto foi bom optar por fazer diferente. Consciência tranquila e a certeza de que fiz a coisa certa em prol da maioria, mesmo sendo essa maioria pessoas que não eram do meu convívio diário. 

Aos meus amigos do busão e do provão:
Cristiane, Carla, Flamínio, Flávio, Cristiano, Soraia, Valdir. 

* Foto: 1º Grito dos Excluídos realizado pela Pastoral da Juventude - Piraju-SP - 07/09/1999.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Cá de Dentro - O Livro

 
* Imagem: Gilson Rocha

Escrever sempre foi não só uma arte apaixonante mas um caminho alternativo e com estilo próprio. Sinto também como um desbravar de horizontes e mundos ou, talvez, um refúgio, uma inquietude e um libertar-se. Com o tempo novas ressignificações surgiram e com estas a necessidade de materializar na história e na memória o fruto de mais de vinte anos de constantes ensaios.

Em tempo de tecnologias sofisticadas, onde um clique te coloca a par do que acontece do outro lado do mundo, os livros estão ficando em terceiro ou quarto plano. O público em geral é fiel às redes sociais e o que surte efeito são as frases feitas, imagens e muita fofocaria (mistura de fofoca com porcaria). Escrever um livro nos dias de hoje é quase uma insana loucura. Mas, quem disse que eu gosto das coisas normais?! Essa quebra de paradigmas é simplesmente um desafio ao qual me permito e me dedico conscientemente.


Já me encheram de perguntas a respeito do livro, antes mesmo de lerem o conteúdo. As melhores foram: É um livro de Deus? É um livro de autoajuda? Qual o sentido daquilo que você escreveu? Estou ciente e tranquilo quanto aos que vão ler com olhos abertos e críticos e os que vão simplesmente concluir por osmose virtual. Faz parte!


Em primeiro lugar escrever é também um passa-tempo ao qual me dedico com prazer desde a época de colégio. Não é um livro de Deus, foi eu mesmo que escrevi e apesar de não terem perguntado ainda, não é uma autobiografia. Também não é um livro de autoajuda nem tampouco descobri uma fórmula de enricar. Poesia não é para ser entendida, é para ser sentida. E quanto à última pergunta que selecionei respondo com uma frase de Mário Quintana: "Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro."



Bem, no trajeto da preparação para esta ousada obra, contei com a ajuda extrema de um grande amigo ao qual tive o prazer de conhecer no curso de Teologia: Gilson Rocha. A começar pela capa, ilustrações, organização, diagramação até a impressão, o empenho e os devidos méritos são dele.

O título da obra, Cá de Dentro, foi um dos últimos itens escolhidos após exaustiva seleção e correção de conteúdo que contou com a ajuda da Prof.ª Margarete Santos, da Faculdade Católica de Uberlândia, a qual tem a minha eterna gratidão e respeito.


Comentem, critiquem, opinem, mas, antes de qualquer coisa, leiam destorpecidos da necessidade de interpretar o sentido de cada verso. Apenas deixem fluir e sintam. Do mais, não sei de nada, só sei que foi assim...


Obrigado!



Fotos: Gilson Rocha - 29/10/15






sábado, 25 de julho de 2015

Brilho e glamour VS um cabeludo língua solta


Um carro é estacionado à beira da calçada do outro lado da rua. Era uma noite tranquila e sem frio. Do veículo apeiam pessoas estilosas em suas roupagens classe média alta. Perfumes chiques se misturaram no ar. Gel no cabelo dos rapazes e maquiagem no rosto das moças davam o ar de uma noite glamourosa.

Abriram o porta-malas e começaram a descer alguns instrumentos. Era uma banda. Logo, um cortejo de fãs atravessou a rua ao encontro dos artistas. Carregaram suas bagagens até o local do show. Uma última olhada no vidro do carro para conferir o ajuste das roupas e pronto. Os cantores e instrumentistas seguiram em meio aos expectadores fiéis com cumprimentos, selfies e autógrafos.

Mas tinha alguma coisa errada! Do outro lado da rua, o destino daquele alvoroço de pessoas, não haviam casas de shows. O que havia era um supermercado, um sacolão, uma loja de ração de animais e uma igreja. Uepaaaa!!! Desacelerei as minhas passadas e fiz questão de observar até que as costas do último dos súditos ultrapasse os pórticos do recinto.

Sim. Era uma igreja. Não preciso dizer qual a denominação porque isso é recorrente em todas, sem exceção. Continuei minha caminhada mas, por hora, pensante na situação que visualizei. Lembrei-me da chegada daquele dito forasteiro, que se tornou conhecido por sua língua solta, ao chegar em Jerusalém montado num burrinho. É, esse Cara mesmo! Aquele moreno de Nazaré, cabeludão, barbudo, amigo das putas, dos ladrões, defensor dos oprimidos e excluídos. Incluamos aqui os gays, lésbicas, transsexuais, e outros.


Não esperei para ouvir o show, nem tampouco ver, pois meu traje era inapropriado e eu estava suado. Na verdade nem sei se teria alguma vestimenta típica para aquele portentoso evento. Também não sei se eu poderia chegar lá na cara dura e dizer: "E aí?! Beleza?! Cheguei! Vim assistir... o que vocês vão fazer aí!" É, não rolaria mesmo!

Então volto para casa inquieto com este contraponto de situações. De um lado um cara com mais de dois mil anos de história e fama que prega amor, humildade, perdão e oferece a quem quer segui-lo que se desapegue das coisas materiais. Do outro um bando de gente que usa o nome desse mesmo cara para alcançar fama, status, nobreza e enfim propor uma salvação deturpada de sua forma original, com promessa de prosperidade material.

Hoje, ao ler sobre uma obra a ser publicada da vida de Rubem Alves, ex-pastor protestante, escritor, poeta, professor, mestre, e que deixou um legado literário, inclusive para a Teologia, considerei pertinente trazer aqui para este enredo um de seus pensamentos: "Sempre entendi que o Evangelho é um chamado a liberdade." E tudo o que não gera libertação é sintoma de opressão e alienação. Ele também usou a seguinte frase na área da educação, a qual acredito, que se encaixa muito bem no campo da religião: "Há religiões que são gaiolas. Há religiões que são asas."

Que ninguém se obrigue a concordar com este pensamento. E tomara que pelo menos incomode ao ponto de outras ideias surgirem. O importante é não se deixar iludir pelo brilho e glamour que camuflam a essência do Evangelho e da liberdade.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A mistura de todas as coisas



Dias atrás recebi essa montagem acima e fiquei inquieto com a intenção de quem a fez e também com a inocência de quem ajudou a propagar. Em tempos de rápida viralização virtual, quanto mais carregada a mensagem, de incitação contra "certas causas", melhor. E assim se procedeu. Meu primeiro contato com a imagem foi num grupo de whatssapp e ao retornar às redes sociais após um período de abstinência pude entender algumas questões.

A repúdia maior, aqui no Brasil, começou quando Viviany Beleboni desfilou crucificada num carro alegórico durante a Parada LGBT de São Paulo no dia 07/06/15. Na placa acima de sua cruz ressaltavam os seguintes dizeres: "Basta de HOMOFOBIA com LGBT". Nem preciso lembrar-lhes que ela é transsexual, uma vez que virou notícia, vidraça e caça dos homens preservadores dos bons costumes (Malafaias, Felicianos, Paulos Ricardos, homofóbicos, preconceituosos e mais um monte de hipócritas dessa estirpe). Os hómes da lei entenderam como um chamamento para a briga. Bom, a pauta aqui não está para defender a protagonista deste enredo, muito menos crucificá-la. Já o fizeram bastante.

Mas, o que mais trouxe repercussão e causou incômodo nas alas conservadoras foi a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos EUA. A partir daí o facebook possibilitou, a quem quisesse mostrar apoio a causa, colocar as cores do arco íris em sua foto de perfil.  Muitas celebridades aderiram. Foi também uma maneira de se mostrar indignado contra os reacionários homofóbicos. O assunto ganhou notoriedade tanto quanto a cultura de incitação ao ódio, provocada pela fala de quem deveria pregar o amor, teve um aumento considerável.

A foto da criança engatinhando, sofrendo pela dor da fome, pode ser do sul-africano, Kevin Karter. Se sim, data de 1993 e foi tirada no Sudão. O fotógrafo que registrou este momento em suas lentes, apesar da foto ter ganhado prêmio em 1994, entrou em depressão profunda e suicidou-se nesse mesmo ano, aos 34 anos de idade. Não suportara o bombardeio de críticas recebidas. Deixou uma carta de suicídio facilmente encontrada na internet. De qualquer forma a foto é tão antiga que muita gente não a conhecia e assim tornou-se novidade nas redes sociais e viralizou pelas vias dos ingênuos, dos inertes e dos regados de consciência mágica.

Então, vem agora o objeto destas linhas, "A mistura de todas as coisas": o que tem a ver "desigualdade social", representada na foto pela fome da criança que se arrasta no chão de terra, com as cores da bandeira que representa o movimento LGBT? Suponho que a intenção é dizer que uma causa que vale a pena lutar (no caso a fome no mundo) está longe dos holofotes, enquanto um assunto de menor significância (preconceito - casamento gay - LGBT) está estampado em várias capas e tem célebres defensores manifestando-se em massa.

Duas situações embutidas no mesmo pacote. Ambas são injustiças, merecem atenção e são de responsabilidade de todo cidadão, principalmente quando se intitula cristão. Mas (...), passaram a régua e soltaram na net. De um lado o discurso adotado é o da necessidade de acabar com a fome no mundo. Na via contrária é outro, pois são disseminados toda a intolerância e preconceito contra quem não está adequado aos padrões religiosos, sociais e culturais impostos pela ditadura homofóbica. Eu resumo como um discurso falido pela hipocrisia.

Nos dizeres da montagem, entendi que a pessoa que a fez, juntamente com todos os que compartilharam, só irão PARTICIPAR na luta da "causa (contra a fome) quando toda uma nação se unir em prol da mesma". Esquisito demais! Enquanto isso vão acomodar o traseiro e esperar. Não irão fazer mais nada por ninguém. Ou "SEJE" (*), pode o mundo acabar, pode o céu desabar, e tudo acabar em pizza que as personalidades de plantão estarão à espreita de um "grand espetáculo".

Enfim, nem tudo é o que parece ser. As personas são tendenciosas e se deixam levar pela primeira impressão visual. São facilmente manipuladas diante de uma imagem montada. Falta, então, um "quezinho" de senso crítico, senão, uma simples questão torna-se uma tremenda confusão. Aquelas velhas piadinhas que a gente aprendeu na adolescência são bons exemplos: "Não confunda: Bife de caçarolinha com rifle de caçar rolinha; Gentileza com gente lesa; A moribunda com amor e bunda; O homem documentado com o homem do cu mentado" dentre outras tantas. Portanto, abre o zóio e analisa sem pavoramento, pois "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa"!



Nota:
(*) Seje = A escrita correta é "SEJA". No texto foi colocado intencionalmente errada. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Eu, nós mesmos e a inquisidura


Final de semestre. Férias da faculdade. Sensação de dever cumprido. Avaliação de caminhada e lembranças de um tempo bem aproveitado.

O confronto de ideias se fez necessário em belas oportunidades. E o melhor de tudo não é a satisfação por ter alcançado excelentes notas mas sim pelo processo de desconstrução e reconstrução de pensamento que possibilitou novas visões sobre o mesmo, antigo e moderno enfoque. 

Nem tudo são flores. Contemos com os espinhos. Somos pedra, mas também vidraça. Sair para um franco confronto é dispor-se a acertar e ser acertado. Risco que vale a causa. Mais importante é a disposição e o despojamento. Pena, nem todos são assim.

Tenho o privilégio de estar entre pessoas que anseiam pelo conhecimento. Origens diferentes, perspectivas também, e muito contrassenso no modo de enxergar o mesmo pontinho no quadro branco. 

De um modo geral tudo muito bem, obrigado. Colegas, amigos, irmãos, profissionais, educadores, professores, mestres, tem de tudo nesse auê. Exceções também, óbvio. Saldo positivo!

De um modo específico, dentre as coisas que faço questão de salientar, é a eloquência do discurso falido de quem se assenta na cadeira como se fosse um trono de doutor da lei e dali tece suas premonições, teses e julgamentos sobre os outros. Não se manifesta com o que é preciso mas critica a quem o fez. Porta-se de uma maneira mascarada, tudo para ficar bem na fita com a instituição. Hipocrisia.


Se fosse para vendar meu olhos, tapar os ouvidos e calar a boca, aceitando tudo o que é colocado, simplesmente para manter um status de boa cordialidade na relação, preferia nem estar ali. E sei que não estou neste meio para contrapor a tudo e a todos, nem tampouco aceitar calado quando a incoerência está gritante e atrapalhando o fluxo. O ambiente tem que ser e estar propício. 

Entendo que há quem assuma o papel de nada dizer, nem ver, nem ouvir. Fazer, nem pensar! É a santa inquisidura academicista que aparece na figura de douto da lei, o mesmo do Evangelho. Ao mesmo tempo se incomoda com quem não tem medo, nem receio, nem rabo preso para se expor. 

Já fomos tachados de ridículos por uma mazela tapada que tem medo e não aceita o processo de desconstrução. Lancei meu protesto e to aqui, to aí, pro que der e vier. Agora, porém, encerramos o período com o gosto do afrontamento através de um discurso de quem tenta manter-se no topo da cadeia, portentosa, jubilosa, regateira e mascarada. E viva a santice desvairada!

"Eu, nós mesmos e a inquisidura" ainda nos cruzaremos por aí. Aguarde cenas dos próximos períodos. 


Notas de rodapé:

"É melhor ser rejeitado por ser sincero, do que ser aceito sendo hipócrita." (autor desconhecido)

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo." (Raul Seixas)

"Antes ser um ridículo do que um hipócrita alienado." (Eu e nós)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Grande Sertão: Brasil - parte III - Versus



Realidade versus ficção
Natureza versus tecnologia
Riqueza versus pobreza
Sabedoria versus insensatez
Franqueza versus hipocrisia
O mundo é um jogo de opostos
O avesso dos avessos
Côncavo e convexo
E no limiar entre céus e terra
Jaz o sertão
Seja lá, acolá ou no coração
Já dizia o grande poeta dos sertões
Guimarães Rosa
"O sertão está em toda parte
É dentro da gente"
E nessa desventura desprovida de almejo
Na sábia insensatez e vontade do benfazejo
Sigo o instinto matuto do agrado imediato
É necessário abrir novas picadas
Seja no asfalto ou no mato
No primeiro contato o olhar inocente
São crianças, sorrisos e esperança
São gente que pouca gente vê
Um casal de irmãos me esperam atentos
Eu, de não sei de onde oriundo
Caminhando rumo ao seu mundo

Mostrei-me amigo e de boa vontade
A confiança então foi verdade
Conheci seus nomes
Logo num chão acinzentado
Pela queima de lixos e objetos
A menina, a mais nova, com sua meia vassoura varria
Um caixote era uma mesa
Uma cadeira com cordas de naylon descartada ali
E um balde que era a suposta lixeira
Identifiquei o cenário e perguntei
Estão brincando de escola?
Toda tímida me respondeu com a cabeça que sim
E então ganhei um santinho
A imagem de uma santa, a mãe de Jesus

Seu irmão sobre a bicicleta ziguezagueava
Davam-se bem
Toda delicada a garotinha, já vaidosa
Tinha marcas de esmaltes em suas unhas dos pés
Apenas algumas
Era rosa
Noutro canto outras três crianças brincando
Numa piscina desusada e descartada
Sem água sob o chão
Posterior, com alguns copos de água e terra

A bola sobre a cerca
Vi como um sonho pendurado
Escondido, deturpado, roubado
Por quem?
Por todos nós que nos calamos
E os mantemos à margem
Marginalmente aquém da margem

Um telefone de tecnologia no meio da terra
Bonecas e cd's abeirando a cerca
Um caminhãozinho parado sob a barraca inacabada
Todo tipo de descarte
Que a santa hipocrisia chama de caridade
Ali se encrusta os recebidos em cores e amores
Pra saciar o ego dos doutores
Dando um paliativo pra tantas dores

Ainda me deparo sob a ponte
Com o nome de Jesus pintado na lateral
Deus no céu que olha
Deus na terra que faz
E alguém pintando o nome de Jesus
Como se olhando estivesse para esses amarginalizados 
Imagino que quem isso fez
Sequer olhou pro lado uma vez
E visitou o Jesus no rosto sofrido de cada assentado

Na prosa poética de um estimado meu doutor
Tamanha simplicidade e humildade
Vou saindo margeando meu caminho novamente
E com uma tamanha inquietança
Mas com vontade de fazer mudança 
Então, compadre meu, senhor José
A festa ainda há de ser do tamanho de seu merecimento
 De tudo que vivi nesse tempo de hoje
Em meio a inocência da infância
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."

(Guimarães Rosa)





Grande Sertão: Brasil - parte II - Prosas


Pensamentos, prosas e provérbios
Na contramão da imaginação
Minha arrumação teve de ser reajeitada
Era uma a minha intenção
Saber quantas casas ali tinham
E quantas famílias, quantas pessoas
Perspectivas, e situações
O pra quê de tanta investigação
Só fui entender nas prosas que ali travei
Que nada tinha mais valor
Que o calor de cada vida
Um borná, caderno, caneta e celular
A água na garrafa de usar nem lembrei
Procuro por alguém já conhecido
Não lembro o nome e então proseando eu sigo

"Pra que tu tá aqui?"

Digo que é um levantamento
E já embalo no proseamento
Querendo saber o que mais se precisa
Além de tudo de que se necessita

"Água e luz meu sinhô"

Responde o primeiro José
Cearense arretado
Sem pregas na língua
Personalidade honrada
Tem palavra certa
E uma fé em Deus
Que a todos abençoa
Minha pesquisa vai ficando de lado
Em cada história
Que o valente combatente 
Vai trazendo da memória

"Ah, meu sinhô, aqui a polícia visitava direto
Roubavam nos cafundó
E os home parava aqui só
Eu, já me enfezado, 
Um dia esbravejei e bem alto falei
Aqui mora homem digno e honrado
Tanto ladrão engravatado
E os ceis vem aqui na minha porta?
Depois disso, meu sinhô
Essa folia se acabô
Graças a Deus"


E as horas se passaram mas o tempo eu não vi
Seu José me dispensou
Quando logo se alembrou 
Que tinha um barraco a construir
Uma foto, seu José, pra eu guardar dessa visita
De braços abertos e sorridente
Braços fortes e honradez
Em meio a timidez sorriu contente
Meio sem rumo fui caminhando
Pra de volta da direção do meu mundo
Entre a via marginal e marginalizados
Encontrei a pessoa que procurava
Três crianças com febre
Mais ela e seu marido
Aguardando as roupas quarando no varal
Pra depois correr com os meninos pro hospital

"Não tem muita roupa
Tem que esperar secar"

Fui tocando mais adiante
E vi outro rosto conhecido
De outra missa que lá teve
Dona Francisca e seu marido, José
O segundo José, e três crianças
Que espreitavam numa piscina vazia
Fui tirando foto, com a licença devida
De tudo quanto é coisa que eu via
Na primeira tentativa seu José se recusou


"Pra quê tirar foto de um bicho feio feito eu?"

Deu alguns passos, colocou boné na cabeça
Pensou e se virou

"Então tira meu mestre
Se tu quer tirar, então tira essa foto"


Ficou um pouco distante de sua esposa
Mas sorriu e agradeceu 
Seu barraco precisando de telhas
Madeiras, tudo quanto é coisa de se imaginar
Fui sabendo de sua vida
Em cada provérbio que ele contava
E se esperançava quando se alembrava


"Quem sofreu foi nosso Senhor Jesus Cristo
Para salvar dos nossos pecados
Aqui o cabra tem que se avivê com o que tem
Tenho fé que logo mais
Noutra vez o mestre vai ter um lugar pra se assentá
Voltei pra Juazeiro e não tive ajuda lá
Vim pra cá porque aqui as pessoas ajudam
Nada me há de faltá
Tenho filhos de outro casamento
Que não querem saber de mim
Tive casas e tudo perdi
Pra bebida e a jogatina
Nessa vida só tive duas mulheres
Aos meus setenta e seis anos
Não sou um cabra mulherengo
Lá no trecho eu era conhecido 
Era o José Fogueteiro
Aqui, minha mulher não gosta mas eu falo
Sou o José Fodeteiro
Estou todo fudido meu mestre
Mas tenho fé que vou vencer"

Fui logo me despedindo 
Apertando aquela mão calejada
E percebendo aquela pele surrada
Aquele olhar que não se perde jamais
Quatro telhas era o necessário para seu José
Resguardar a família 
Pois seu barraco de agora
Quando chove, dentro molha


E nos passos de retorno pelo lado de baixo
Ao longe avisto uma mulher 
Suas roupas lavando agachada na marginal
Cadeiras amarelas e vermelhas ao seu redor
Era pros motoristas perceberem o sinal
Ali, naquele espaço tinha gente ocupada
Que desviem os doutores da estrada
Fui andando de volta
Com os provérbios dos meus mais novos teólogos
Fermentando em minha mente
Não dava pra continuar igual
Dali em diante, haveria de ser e fazer diferente
Meu almoço já em casa
Parecia descer quadrado
Eu precisava dar um jeito e lá voltar
Eu precisava com aquele seu José Fogueteiro
Mais uma vez prosear
E assim, mais tarde eu voltei
Lá estava ele deitado sobre um compensado de madeira
Sua cabeça recostada sobre um tijolo forrado 
Com um pano, o seu travesseiro
O barraco continuava o mesmo
As mesmas telhas estavam faltando
Não pude socorrê-lo naquele pedido
Dia de feriado, tudo fechado
Minha boca nada prometeu
Mas meu coração se comprometeu
E se eu não mais voltar
As prosas se perderão no ar
Mas minha alma nunca mais se aquietará
Diante de tudo isso
"Como posso me calar?"



"O Sertão é o sozinho, 
É dentro da gente
Está em toda parte.
Deus e eu no Sertão."
(Guimarães Rosa - Victor e Léo)