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quinta-feira, 4 de abril de 2024

Distopias de uma cegueira social




Inocência, Ignorância e Conivência são elementos extremamente importantes que alguns líderes procuram diante da fragilidade alheia. E quando farejam, feito lobos em busca de ovelhas, partem em verdadeiras cruzadas praticando o terror psicológico até aliciarem seu rebanho que os seguem ao matadouro sem questionar.

Como administrador eu entendo as igrejas como instituições sem fins lucrativos. Assim deveria ser, somo via de regra. Mas, o que a realidade mostra são empresas isentas de impostos que hoje estão inseridas em outros setores influenciando o andamento do país. Perdeu totalmente a identidade de sua atividade fim. Uma empresa é um negócio. O mercado da fé está em alta.

Como teólogo entendo que as múltiplas denominações religiosas multiplicaram exponencialmente. A questão da fé ficou em segundo plano. Há um certo modo operante típico de um medievalismo que aplica o medo como meio de dominação da pessoa, esta que, muitas vezes cegada pela inocência, sucumbe aos caprichos de seus líderes. A função das religiões (religare) se perdeu diante do fanatismo, do ultra conservadorismo radical, das aberrações proferidas por diversos líderes bilionários, e se tornou uma verdadeira máquina de alienação. Quanto mais cegos alienados maior a continuidade e a rentabilidade.

Como estudante de psicologia, ainda me faltam argumentos científicos para expor minha óptica mas arrisco dizer que os líderes religiosos, em sua maioria, trazem o mesmo discurso, o que impõe regras, causa medo, e pune com sentenças do além a todos os que pisam fora da margem estipulada pela instituição. Tais líderes são capazes de causar histeria coletiva, cegueira intelectual e alienação exacerbada.

A religião que vive a pregar contra minorias sociais e outras religiões tem em seu cerne não os fundamentos cristãos de edificação de si e da comunidade, o amor em si, mas a estratégia escancarada para disseminação de ódio e guerra, reforçando uma rivalidade sanguinária contra quem exerce sua fé de maneira diferente. O que mais presenciamos hoje nos cultos e celebrações ditas religiosas são pregações contra a fé alheia e não mensagens edificantes de amor e paz, perdão e alegria. Acusa-se de obras demoníacas tudo aquilo que está fora dos redutos daquela denominação. Não veem as pessoas de outras denominações e fé como irmãos de uma mesma e única pátria, mas como concorrentes,  adversários e até inimigos. A luta dessas atuais pseudorreligiões é a busca incessante pela dominação global, o controle absoluto de poder, status e dinheiro. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

E quem disse que deu certo?



E quem disse que deu certo? 
Temos a grande mania de julgar, se uma relação se inicia da noite para o dia e parte para um envolvimento mais sério, nós julgamos. Se uma relação demora muito tempo para se efetivar, e partir para algo mais sério, como noivado e casamento, nós também julgamos. Qual é o tempo certo? Qual é a nossa média padrão, e baseada em que? Se for aquela média baseada nos nossos familiares mais antigos, pais, tios e avós, que tiveram relações duradouras e, talvez, a única relação em suas vidas, 30, 40, 50 ou mais anos de convivência, de matrimônio, isso significa que deu certo? Sim. Mas, pode não ter dado certo também.  

Quem disse que ser duradoura significa que deu certo? 
Sabemos o quanto as relações foram sufocadas pelas regras sociais e familiares impostas, em épocas em que o conservadorismo falava muito mais que o próprio sentimento; épocas em que era muito mais valorizada a moral, os bons costumes sociais e familiar, na qual as relações eram obrigadas a se manterem em pé, disfarçadas, porém não vivas, mesmo que fosse ao custo do sacrifício e da infelicidade, principalmente, da mulher. 

E quem disse que deu certo? 
Isso não é um convite tampouco uma instigação às relações curtas e sem compromisso, ao contrário, é uma convocação à reflexão de que tudo o que não gera felicidade, não gera paz, e acaba se tornando uma prisão, está longe de ser uma relação. Portanto, partindo da reflexão, partindo da escolha pela liberdade de viver sentimentos libertadores e com reciprocidade, envolve muitas vezes, mudanças radicais, cortes com regras sociais para então ressignificar sua vida, sua existência, e se permitir viver o seu propósito, criando o seu próprio padrão de existir. 

Apesar da febre ultraconservadora, as lutas em diversas áreas e seguimentos, tem proporcionado mais voz a quem antes não tinha sequer o direito de voto. Isso não é apenas romper padrões. Isso é romper com o silêncio sentenciador imposto pela sociedade patriarcal, com base forte na religião e na política. Hoje já conseguimos saber de relacionamentos com 30 ou mais anos que romperam. Gerações mais novas estão mais fortes para essa tomada de decisão, quando necessário. 

E quando essa atitude é considerado necessária? 
Quando o respeito é deixado de lado, principalmente. Quando o desrespeito impera, o sentimento já era. Se não houver algo que interrompa esse ciclo constante e impeça a reincidência, para o bem da relação, a tendência é uma espiral descendente para um fim único, de agravos e até possíveis tragédias. 

A cultura atual, tem ajudado as mulheres e outras minorias a conseguirem visibilidade, voz e vez. Com tanta exposição de casos fatídicos de relações com fins trágicos e, outros casos em que se conseguiu quebrar as correntes da prisão tóxica e se libertar para a ressignificação da vida, têm contribuído para que as pessoas, em especial as mulheres, não se permitam mais viver sob a custódia de um pseudo-conservadorismo que facilita a vida do homem, mantém o estigma do patriarcado que, por sinal, é retirado aleatória e ignorantemente de contextos religiosos (bíblicos) e validado por uma política machista ultrarradical que deturpa o real significado do que é relação e família, enquanto a mulher ainda é mantida no cárcere da submissão, da insignificância sob a tutela de um discurso falido, medíocre e hipócrita.

Por outro lado, deu certo sim. Deu certo enquanto houve reciprocidade, enquanto durou e até o momento em que não houve danos colaterais.


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Não há cura para o que não é doença"



A frase, que é título desse artigo, "Não há cura para o que não é doença!", faz parte do texto do Núcleo de Diversidade de Gênero da Comissão de Direitos Humanos¹, que também fez parte da pauta da campanha criada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) em 2017, ressaltando a importância de colocar a Psicologia a serviço dos Direitos Humanos e contra o conservadorismo

A campanha também se pauta na Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia², assinado por ninguém menos que Ana Maria Bahia Bock, presidente-conselheira na época. Tal Resolução "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual".

Ainda, após grandes conquistas pela e para a Comunidade LGBTQIAP+, erguem-se grandes barreiras e obstáculos discriminatórios e preconceituosos, oriundos da falta de conhecimento científico bem como um estridente negacionismo para se conservar padrões sociais ultrapassados e que deixam à margem todas as pessoas que não se encaixam nas formas de relações consideradas normais.

Tanto no âmbito político quanto, e principalmente, no religioso, existem prós e contras. Não é uma luta em prol da vida e da dignidade humana diante do que a pessoa realmente é e da forma que escolhe viver mas, sim uma luta por poder, como descreveu Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975) e Microfísica do Poder (1978): o poder de mandar e desmandar sobre os atos alheios. Não é uma luta de defesa mas  sim uma guerra de imposições. Imposições que vêm regada de ameaças de punições religiosas e sanções sociais com avais políticos. 

São várias formas de prosseguir esse texto, provando biblicamente, teologicamente, filosoficamente, psicologicamente, poeticamente, que simples e puramente "toda vida importa". Assim como o maior princípio deixado como guia para todxs os que seguem sua religião e ou filosofia de vida é o "amor ao próximo", o segundo maior mandamento bíblico, o grande erro que nos leva a um desrespeito por esse próximo é simplesmente o "não amor". E, esse "não amor", que restringe a empatia e o respeito ao próximo, por conta de suas orientações, escolhas, fé, etc, podemos chamar de "pecado" também. Sendo assim, "Pecado é não amar" (Cá de dentro - 2015).

E onde pode chegar a falta de uma orientação responsável seja de cunho religioso, político, social e principalmente profissional, para quem de fato esteja vivendo na corda bamba da vida, entre lapsos de sobrevivência neste mundo e a busca pela libertação de suas dores ocultas através da morte? Em que pese, como já dito acima, tudo pode beneficiar a vida humana ou ser um gatilho para que o pior aconteça. 

Um caso recente que me chamou a atenção foi o suicídio da influenciadora Karol Eller, 36 anos, que, suicidou-se no dia 12/10/23. Apoiadora política da extrema direita, acabou polemizando quando manifestou-se contrária às causas defendidas pela comunidade LGBTQIAP+. Segundo a imprensa, Eller, que era lésbica, "anunciou que tinha passado por "cura gay" no último mês. Ela estava participando de retiros religiosos e disse havia renunciado à sexualidade."³

Conheci uma pessoa no interior de SP, vítima das drogas, fez um retiro espiritual de três dias consecutivos e no final considerava-se liberto e convertido literalmente no caminho do cristianismo. Comentava que sua meta era ser um pregador da boa nova de Jesus Cristo. Até aqui tudo certo e bonito de se contemplar e apoiar. A questão é que, era urgente um acompanhamento de profissionais que lhe dessem o suporte e a direção adequadas para sua sustentação na luta pela libertação do vício. Não o fez, não teve, não buscou e, talvez, não soubesse... Mas o resultado foi que, em menos de dois meses ele estava de volta às drogas e dessa vez, muito pior. 

Karol Eller passou pela experiência religiosa de sentir-se, não curada, mas disposta e apta a renunciar aquilo que é considerado errado para os padrões normais da sociedade e pecado para o cerne de algumas religiões de cunho fundamentalista e ultra conservador. Mexer com questões dessa dimensão implicam muitas coisas, entre elas a responsabilidade por parte de quem lidera tais encontros e cultos. Isso começa com a liderança e vai para altos escalões da hierarquia religiosa. Todxs são responsáveis diretos e indiretos. 

É preciso entender a dor, o trauma, a angústia e os anseios do ser humano antes de prescrever alternativas para uma cura, uma pseudo cura, uma renúncia de si, antes de traçar caminhos únicos, regras propriamente ditas, com o intuito de manter a pessoa enclausurada em si, com dores inimagináveis diante de seus flagelos de renúncias. Cada ser em si é único e merece o devido respeito em sua jornada. Não há uma fórmula comum para padronizar a todxs. Entender que um encontro, ou um retiro espiritual de vários dias, em que todxs os presentes se fortalecem diante do objetivo, se sustentam mutuamente é uma coisa, mas quando encerra-se a euforia dos dias de cantos e orações, aí começa a realidade. Não é uma crítica às religiões, nem à forma de seus cultos mas sim uma crítica direta do conteúdo que é colocado de forma as vezes covarde na tentativa de fazer a pessoa caber dentro de padrões aceitáveis de uma ala da sociedade. 

Espiritualidades, religiões e religiosidades, são caminhos, signos, travessias, opções, possibilidades, de reconexão entre o humano e o sagrado, com propósito de bem maior que envolve a dignidade de si e o respeito ao próximo. Cuidar da vida, é premissa de qualquer instituição. Respeitar é obrigação de todxs. Aceitar só cabe a quem de fato é, ou seja, muitos já travam sua guerra de auto-aceitação e não precisam de mais ninguém para fazer peso contra. Mais uma vez, a todxs, só cabe o respeito. 

E assim sendo, ressalto novamente a importância da Psicologia para acolher e ajudar a pessoa a se aceitar, tomar consciência de si e de toda sua potência, redescobrindo-se enquanto ser único e de opções múltiplas nesse universo de infinitas travessias, protagonizando empoderadamente sua vida sem medo do que as sociedades impõem. A bem da verdade, toda vida importa, o amor salva, a paz de si liberta e a Psicologia está aí para dar voz, vez, luz para essa jornada chamada vida. 


¹ https://crppr.org.br/nao-ha-cura-para-o-que-nao-e-doenca/
² https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf
³ https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/10/13/morre-a-influenciadora-karol-eller-aos-36-anos.htm


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Falsos pastores midiáticos e seus demônios de araque


 Essa imagem foi printada de um vídeo que está rolando nas mídias sociais. Um pastor, que não aparece no vídeo, a mulher e sua personagem endemoniada, uma outra mulher de vestido nas costas, que deve ser figurante de suporte, e a plateia que interage em meio a vozes de crianças. Só pelo fato de ter crianças presentes nessa situação, acredito que o Ministério Público deveria ser acionado e consequentemente até o Conselho Tutelar. 

A dramatização em si, da ordem da quinta categoria abaixo de zero, traz a voz de um pastor, que na trama exerce o papel de mediador e invocador de entidades. Ele pergunta à mulher possuída qual o nome da entidade que tomou posse do corpo de alguns nomes da política. A mulher responde, com uma voz forçada, movimentando a cabeça e os cabelos, assim como fez aquela Janaína Paschoal, certa vez, num palco de comício. Mesmo que virasse a cabeça em 360º sobre o pescoço, ainda haveria muitas dúvidas sobre a veracidade dos fatos. 

Teologicamente essa encenação fere princípios éticos sociais e de outras religiões e religiosidades, ao usar nomes de entidades que não pertencem a essa denominação. 

Religiosamente, o cristianismo verdadeiro não carrega esse fetiche de evidenciar o demônio para tirar proveito próprio: status midiático para saciar o pecado do ego. 

Casos raros de pessoas endemoniadas e a prática do exorcismo não são jamais midiatizadas e, tampouco, tratadas como um teatrinho infantil; os ritos utilizados no exorcismo, criados no seio cristão, especificamente no catolicismo, são tratados de forma rigorosa, ética e principalmente científica, e posteriormente, como questões de ordem religiosa e de fé. 

Psicologicamente pode haver alguma explicação para os protagonistas em questão, o pastor, a endomoniada e a plateia: "uma espécie de psicopatologia que oscila entre o dinamismo psicótico-paranoide-delirante e o dinamismo psicopático-perverso". 

Cinematograficamente não serve nem pra comédia, nem pras pegadinhas do Silvio Santos. 

Juridicamente, acredito que tudo se encaixa bem no artigo 171 do código penal.

Vídeo: https://www.brasil247.com/midia/pastor-bolsonarista-faz-suposto-exorcismo-em-fiel-e-diz-que-demonio-controla-lula-e-janja-video

Ailton Domingues de Oliveira
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domingo, 1 de outubro de 2023

De setembro a setembro: refletindo o amarelo em todos os dias do ano

Setembro Amarelo é uma campanha que ocorre uma vez ao ano. O restante dos meses ingressamos em outros movimentos de relevante importância e comprometimento social, de saúde e conscientização. Enquanto estudantes de psicologia poderíamos fazer um pouquinho a mais, esticando esse movimento para uma campanha de prevenção ao suicídio *DE SETEMBRO A SETEMBRO*. Algo a se pensar.

Porém, antes, vale uma pergunta de autorreflexão: *A DOR ALHEIA ME IMPORTA?* Obviamente não sabemos se uma pessoa próxima está passando por alguma dificuldade. Também não conseguimos mensurar o tamanho da dor de alguém, que no momento esteja atravessando problemas de várias ordens. 

O que podemos fazer, primeiramente, seria mudar o nosso jeito, ativar o nosso *ser humano* e nos atentar para detalhes que antes não prestávamos tanta atenção. *COMO?* Quando começamos a fazer parte de algum ambiente, lugar, movimento, grupo (trabalho, faculdade, comunidade, bairro, igreja, família, etc), obviamente passamos a perceber as pessoas ao nosso redor. Cumprimentos básicos de "bom dia, boa tarde, boa noite" podem não apenas quebrar o gelo mas abrir possibilidades de aproximação. Perguntar se "está tudo bem" pode não ser nada, não representar nada para nós e simplesmente recebermos como resposta "sim, tudo e você?" Mas, pode ser, que esse cumprimento, seguido dessa pergunta, seja a única coisa positiva que impediu uma pessoa de atentar contra sua própria vida. 

Acredito que muitos de nós conhecemos pessoas que tiraram sua própria vida. Talvez não conhecemos de perto mas, já ouvimos falar de conhecidos distantes, pessoas que um dia fizeram parte de nossa vida e acabamos perdendo o contato. As redes sociais nos mantém atualizados, principalmente quando o assunto é tragédia. 

*TERÍAMOS NÓS ALGUMA RESPONSABILIDADE SOBRE A VIDA DE OUTRA PESSOA?* Sim e Não. Sim ou não. Cada um sabe de si. E em diálogo com uma amiga, falando sobre suicídio, logo após participarmos de um evento no dia 15/09/23, justamente sobre esse tema, o qual refletimos sobre o filme *ORAÇÕES PARA BOBBY*, chegamos à nossa conclusão de que temos sim responsabilidade e que podemos fazer nossa parte. Novamente: *COMO?* Acolhida, empatia, respeito, etc. Podemos, enquanto seres humanos, fazer um pouquinho a mais nesse sentido. Independentemente de crenças, fé e religiões, a qual acreditamos que todas pregam *AMOR À VIDA E AO PRÓXIMO*, podemos e queremos ressignificar o nosso papel aqui neste plano, no aqui e agora, de forma a contribuir COM A SAÚDE, COM A PSICOLOGIA, COM A VIDA. 


Ailton Domingues de Oliveira
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Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Marx, Freire e o Marco Temporal

Protesto contra marco temporal em Brasília 
Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O que me motivou a escrever esse artigo, ou manifesto, ou simplesmente um desabafo, foram alguns comentários que ouvi acerca do "Marco Temporal". Antes gostaria de falar o que seria esse marco e porque ele está em evidência no cenário social, político e obviamente no religioso.

"Marco temporal é uma tese jurídica segundo a qual os povos indígenas têm direito de ocupar apenas as terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição" (Fonte: Agência Câmara de Notícias). Aqui no site da Agência Câmara de Notícias podemos saber melhor sobre essa questão: https://www.camara.leg.br/noticias/966618-o-que-e-marco-temporal-e-quais-os-argumentos-favoraveis-e-contrarios/

Bom, a ideia sobre a questão do "Marco Temporal" é usar como linha de corte o dia, mês e ano em que a Constituição Federal Brasileira foi promulgada, 05/10/1988. E isso implica que as terras consideradas indígenas, só serão de fato dos povos originários, as que constam até essa data da CF. Após essa data, todas as questões de terra seriam revistas e, inclusive, haveria de mexer no que já estaria acentuadamente acordado e resolvido. 

Agora, imaginem que algumas questões de terra já tenham sido resolvidas no ano subsequente à promulgação da CF, no caso em 1989. Povos originários assentados em suas terras e, de repente, com a aprovação do Marco Temporal, eles poderiam (e com certeza seriam) retirados de seu habitat novamente. Uma guerra iminente seria provável. Há quem seja favorável ao marco mas há muito mais que lutam contra. Há quem se beneficie com a aprovação desse marco, e com certeza "peixe grande" mas, há quem seja contrário por simples razões. Não tem como se beneficiar com nada sendo contrário ao Marco Temporal. E, a partir disso, claro que estou do lado contrário ao tal "marco". 

Aprovar isso seria jogar o destino e a vida dos povos indígenas ao léu. Já existe uma invasão sem limites acontecendo, totalmente descontrolada, que ganhou força no governo anterior (que não faço questão de mensurar o nome, uma vez que só intensificou o ódio, criou o caos e gerou mortes a partir do ódio e do caos...) e isso, independe de fiscalização e policiamento. Invadir terras indígenas, a maioria regada de riquezas naturais, é algo não apenas fácil mas lucrativo. E quem sempre ganha são os que continuam ganhando, os que estão lá no cume do topo da pirâmide: latifundiários por exemplo. 

"A história da humanidade é a história da luta de classes." Sim, Karl Marx tinha razão, porque a força propulsora da história se baseia na história da luta de classes. Quantos e quantas que, emergiram da pobreza, tiveram suas dificuldades durante a jornada em ascensão e ao atingir um novo patamar social, tornaram-se algozes de quem ficou num patamar inferior? Não são poucos, aliás, são incontáveis os casos em que o "sonho do oprimido de se tornar opressor", e nisso Paulo Freire também tinha total razão, se justifica na história passada, recente e presente. 

Durante o curso de Teologia, fiz um trabalho sobre a situação dos Guaranis-Kaiowás que, expulsos de suas terras por fazendeiros, eram obrigados e sobreviver acampados às margens de rodovias. Muitos jovens dessas tribos, diante da dureza da vida longe de seu habitat, do sofrimento e da falta de recursos, sem voz e sem vez, e frente à tristeza de ver os seus perecendo cruelmente, acabavam tirando sua própria vida como forma de aplacar a dor; um verdadeiro protesto, à base do seu sangue e da sua vida, para que as autoridades tomassem as devidas providências.

Caberá à Justiça resolver a questão e os casos diferenciados. Concordo que pessoas que tem o seu pedaço de terra para subsistência e, que em sua maioria adquiriram as posses de forma não regulamentada, muitas vezes compradas de usurpadores, deverão ter um olhar atento para sua situação. Bem como, os que adquiriram suas terras para projetos de lazer em áreas de preservação ambiental e território indígena, que cientes das circunstâncias e riscos iminentes, devido à irregularidade da aquisição, poderão perder o investimento. Há aqui um grande contraponto entres os dois exemplos que mencionei. Os que foram enganados e lesados mas que dependem da terra e os que não foram enganados, assumiram o risco e investiram seu dinheiro mas, porém, podem ser desapropriados e assim, lesados. E quanto a esses que entraram conscientes, não há inocentes. 

E, nesse momento, a luta é contra o "Marco Temporal". Seria desumano e injusto mexer numa demarcação que já está corrigida e resolvida. Voltar ao ano de 1988 para refazer as demarcações seria uma violência contra os povos originários. Se, em nome da ganância e do poder, os defensores do moralismo seletivo justificarem seus atos de ódio contra as minorias, conforme aconteceu nos últimos 4 anos, para continuarem invadindo, matando e expulsando os verdadeiros donos das terras, invocamos aqui a questão religiosa como uma força de origem centrada capaz de manipular ou libertar o indivíduo. Nem social, nem política e nem religiosamente, não há viés plausível para a aprovação do marco temporal. O que justifica essa ganância de poder pode ser visto sob a história da luta de classes e sobre as lutas entre oprimido e opressor. 

sábado, 16 de setembro de 2023

De setembro a setembro


Um olhar humanamente teológico sobre as pessoas que perderam o encanto pela vida, o sentido da existência e a esperança no mundo. Setembro Amarelo deveria ser uma luta de todos os dias e não somente quando as mídias jogam os holofotes para o assunto. É positivo entrar nessa campanha de mobilização e prevenção ao suicídio. Porém, mais belo do que estampar os perfis de amarelo e cobrir com frases de efeito é necessário se atentar para o nosso papel social enquanto indivíduos de um sistema que oprime, desqualifica, exclui, negligencia e ignora os verdadeiros motivos que têm levado algumas pessoas a pensarem na possibilidade de atentar contra a própria vida e outras, de fato, na esperança de se curarem das dores da alma, infelizmente, executam seu plano. 

Se a dor de quem fica é grande, imagina a dor de quem preferiu não viver mais. Não existe covardia nem heroísmo nesse ato, ou, dependendo da óptica, também pode ser ambos. Pecado? Talvez. Olhando pela bíblia cristã, o quinto mandamento diz "não matarás". Sendo assim, tirar a própria vida, segundo a bíblia cristã é um pecado. Porém, ainda segundo a mesma bíblia cristã, não é algo digno de condenação eterna e sem direito a perdão. Esse é um pensamento popular que ganhou força nos redutos das igrejas mas que não tem fundamento bíblico. Segundo o livro sagrado cristão, o único pecado que é causa de condenação eterna ao inferno é o de "blasfemar contra o Espírito Santo". 

Se considerarmos as pessoas que dão sua vida em prol de uma causa religiosa, conforme algumas religiões ultra radicais, que as instigam a se tornarem verdadeiros homens ou mulheres bombas, as mesmas são consideradas mártires com promessas e garantias de uma vida eterna e digna no Paraíso, no Céu, etc. Durante as guerras surgiram os camicases que, não tendo mais o que fazer, lançavam-se com seus aviões no território inimigo na tentativa de abater o maior número de adversário possível. 

O que difere cada ato de tirar sua própria vida: uma causa, uma esperança, uma promessa, um sentido? Ou, talvez, a falta de cada uma dessas possibilidades ou, todas e mais um pouco? A esperança que um homem bomba tem ao se permitir explodir em prol de uma causa político-religiosa não seria a mesma esperança que uma pessoa, que perdeu seu sentido de viver, tem para amenizar sua dor da alma? Essa última perdeu o sentido da vida, mas está sobrecarregada de dor. Tirar a vida não significa covardia mas, livrar-se da dor que ninguém sabe que existe nela, e por mais que saiba não consegue entender.  Como não teremos jamais a resposta sobre o motivo de tal ato, sempre dialogaremos a partir dos relatos deixados de sua caminhada. A cadeira vazia será apenas um cenário de dor e luto por parte de quem ficou sem respostas. 

E qual seria o nosso papel social, religioso, político ou simplesmente humano (o mais importante) para contribuir com essa luta de prevenção ao suicídio? Estamos numa era em que as informações que nos chegam são como uma tempestade em nossos pensamentos. Creio que não percebemos mas, muita gente se encontra esgotada mentalmente pelo excesso de informações que são oferecidas aos milhões, minuto a minuto. Esse excesso também pode contribuir para o desequilíbrio emocional, o que afeta diretamente as relações diretas e indiretas de cada pessoa. 

A sociedade egoísta que ignora; as religiões com suas regras morais que exaltam as leis em detrimento do ser humano e da vida; as políticas, sejam as públicas que são falhas por conta do dinheiro que se desvia e não chega aonde precisa, sejam os representantes escolhidos pelo voto nos Estados e municípios, que se esquecem do seu compromisso com o povo e legislam em causa própria. Junte-se a isso a falta de recursos para coisas básicas. Muitos "próximos" sucumbem à tentação de deixar de existir num mundo onde não apenas se sentem invisíveis mas são tratados como escória. 

Numa pesquisa de trabalho realizado durante o curso de Teologia, nos deparamos com índios da tribo Guarani-Kaiowás que preferiam tirar sua própria vida a viverem fora de suas terras, que naquele momento foram tomadas por latifundiários. A dor de viver fora do seu habitat, da sua casa, e sobreviver nas beiras das estradas, era um dos motivos de desordem emocional e desonra para si. 

A dor alheia é algo que não conseguimos mensurar. Seja uma dor física ou, pior ainda, uma dor da alma, aquela que não se vê mas que mexe com todos os sentidos. Para a dor física existem remédios de resolução imediata. Para a dor da alma, existe uma demora para se chegar num ponto satisfatório de entendimento para então, de forma lenta e gradativa organizar as coisas que estão fora do lugar em seu pensamento, em seu íntimo, em sua história e na falta de expectativa. 

Enquanto seres humanos, não nos custa levar um pouquinho de alegria, ou no mínimo ouvidos para as pessoas ao nosso redor. Não temos condições para salvar o mundo, mas podemos contribuir dando um mínimo de atenção para aquela pessoa que antes sorria atrás de um balcão e hoje se quer solta um "bom dia". Familiares que passam a reclamar da vida mesmo não faltando nada. Solitários ao nosso redor, regados de silêncio, timidez, e dificuldades de interação, dentre outros tantos, não custa acolher. Acolher no sentido de deixa-la sentir-se vista, notada, ouvida. Não precisa de muito. Um simples "tá tudo bem?" pode ser o essencial para salvar o dia e os pensamentos de alguma pessoa próxima que vive seus dias de tribulação.

Não importa a orientação sexual. Pecado é não amar! E, não há cura para o que não é doença! Antes da piada, antes da crítica, pense que uma palavra pode ser a melhor ou pior coisa que a pessoa com ideação suicida pode ouvir naquele momento e você nem sabe. Não sabemos quantas guerras habitam na pessoa com quem cruzamos todos os dias de nossa jornada. Por isso, empatia e respeito, é a melhor acolhida que podemos dar. 

Para quem sempre cita a bíblia, em especial as rígidas leis do Antigo Testamento, eis que me deparo com um pensamento, o qual desconheço seu autor, mas que simplifica e alivia quando me deparo com pregações grotescas e de ódio: "Jesus não voltou durante a escravidão. Não voltou durante o holocausto e nem durante as cruzadas. Mas, vai voltar agora por causa do gênero de alguém."

Uma igreja que não acolhe as minorias e suas diversidades já perdeu seu papel aqui na Terra. Uma política que não cumpre com sua função de bem comum só serve para alimentar os lobos no poder. Uma sociedade que não percebe a dor alheia, já deixou de ser humana com seus semelhantes. E por que esse discurso em meio à campanha Setembro Amarelo? Porque tudo isso pode ser causa, mínima ou máxima para alguém que está desacreditado de si, sobrecarregado de dores, cometer suicídio. 

Há inúmeros fatores que levam as pessoas a buscar o suicídio: a inundação da dimensão de sombra, transtornos psicológicos, doenças incapacitantes, profundas decepções e prolongadas depressões. Mas mais que tudo, a perda do sentido da vida que suscita nas pessoas vulneráveis o impulso de desaparecer. Não raro, tirar a própria vida é uma forma de buscar um sentido que lhe é negado nesta vida (franciscanos.org.br). E "Não é a maneira como uma pessoa morre que determina se ela é salva ou condenada" (https://teologiabrasileira.com.br/o-suicidio-da-razao/).

Somos corresponsáveis direta ou indiretamente pelas vidas ao nosso redor. A omissão é algo que poderemos somar na cartilha da consciência como culpa, frente ao que poderíamos ter contribuído mas não o fizemos. 

A imagem desse texto foi utilizada como convite para o evento do dia 15/09/23, na Casa das Cenas, em Uberlândia-MG, para um encontro realizado com pessoas de diversos segmentos da sociedade. Um público misto em todos os sentidos. Através do Psicodrama e Cinema, trazendo uma ótica da Psicologia pela minha colega Ana Elisa, enquanto eu, da Teologia, discutimos o suicídio dentro do contexto do filme "Orações para Bobby". É um filme que está disponível no youtube, portanto de fácil acesso. Ali, sentimos o peso da falta de apoio familiar diante da homoafetividade por um dos membros dessa família, o peso do conservadorismo religioso que passa a manifestar um moralismo seletivo, a sociedade que exclui, os familiares que se afastam, as auto condenações por conta do que se considera pecado conforme os ditames de sua religião, até a ideação suicida. Deixo aqui, como forma de continuidade nessa reflexão, um convite para que assistam ao filme. 

https://www.youtube.com/watch?v=IIYNfCoGgUQ



sexta-feira, 14 de julho de 2023

Adão & Eva: o peso da culpa recaído sobre a mulher e outras teorias.

 


O texto de hoje na verdade é um diálogo que se iniciou quando o jovem Mateus (*), estudante de psicologia na mesma instituição em que também estudo, procurou-me com alguns questionamentos que aguçaram e muito o meu pensamento. A partir daí, a conversa foi se desenrolando. Fiz questão de colocar tudo da forma como se deu para não perder nenhum detalhe. E, como eu disse ao próprio Mateus, "esse bate-papo merece destaque".


Mateus: Bom dia Ailton, estava procurando o seu contato pra falar a respeito de uma teoria que pensei enquanto estava com insônia.

Ailton: Bom dia. Tudo bem?

Mateus: Tudo jóia. Enquanto eu estava com insônia, estava pensando a respeito de Adão e Eva e minha teoria tem a ver com isso e, por você ser Teólogo, vai saber me falar se faz sentido ou não.

Ailton: Claro, vamos decifrar seu pensamento... rs. Bora. Se preferir mandar áudio, fique à vontade.

Mateus: A minha teoria é a seguinte ... O "fruto proibido" nunca foi um fruto e a "cobra" era Lúcifer. E na minha teoria o fruto proibido seria o sexo. Eva transou com Lúcifer porque foi tentada pela "cobra" kkkkkkk. Com isso ela fez o mesmo com o Adão. Tiveram o primeiro filho que seria o Caim. Que é filho de Lúcifer e Eva. E pela essência do pai dele, ele acabou cometendo o primeiro assassinato no mundo contra o meio irmão. Botou o pé na estrada. E fez filhos.

Ailton: Certo. Vamos por partes...

Mateus: Como diria o Jack Estripador ... Vamos por partes.

Ailton: Em primeiro lugar é necessário compreender que Adão e Eva na verdade não passa de um conto. Não chega nem a ser uma lenda porque nunca existiram de fato. São personagens fictícios criados para contar a história do nascimento humano, do universo e da vida em si, a partir de uma teoria religiosa construída desde há muitos milênios atrás, muito antes de Cristo.

Ailton: Desculpa se estou sendo muito detalhista, mas vou tentar descrever de uma forma que, seria o jeito que explicaria para qualquer pessoa, independente do seu grau de conhecimento, fé, crença ou coisa do tipo. Então, desculpa se eu disser coisa que talvez, vc já saiba...

Mateus: Tranquilo.

Ailton: Sua teoria é interessante mas não tem embasamento nas histórias descritas no único livro que a conta, que no caso é a Bíblia (seja ela de qualquer religião cristã). Talvez, numa outra religião ou seita, sua teoria já até tenha sido mencionada e estudada. Quanto a isso não posso dizer, porque desconheço.

Ailton: A cobra no caso, tem muitos pensadores e teólogos que trazem diferentes interpretações. Eu, ainda penso, que ela (a cobra) seja apenas o nosso pensamento. E, como tal, o pensamento está incutido em nós, faz parte do nosso ser. Temos no caso a possibilidade de pensar coisas positivas ou negativas, e consequentemente bota-las em prática. Ou, podemos dizer que temos o anjo bom e o anjo mau, ou ainda, o lobo bom e o lobo mau. Basta saber qual devemos controlar e qual devemos acessar.

Ailton: Sua teoria seria perfeita para uma continuidade da série Lúcifer. Pois, seria algo a ser explorado a fundo por pesquisadores que se desdobram para construir uma ficção em cima de algo que, há muito tempo, faz parte da crença, da fé e da religiosidade de grande parte da população mundial.

Mateus: Nunca assisti essa série. Por preguiça kkkkkkk.

Ailton: A cobra representa o mal, entre Adão e Eva no paraíso. Seu papel é o de instigar o casal a fazer aquilo que não deveria ser feito. Por outro lado, pense, se o sexo já existia desde sempre para a procriação, por que ele seria algo considerado como fruto proibido? Ou seja, o sexo, como parte da criação também deveria ser algo abençoado por Deus. E é, sem sombra de dúvidas. Então vamos além...

Ailton: O que de fato estava impedido de acontecer, que era considerado o pecado dos pecados seria o "prazer". O prazer conseguido através do sexo. E por que a mulher em si, no caso EVA, que foi a que ousou comer desse fruto proibido? Porque na verdade, desde sempre a mulher era proibida de ter o seu prazer; ela, sequer, tinha direito a qualquer tipo de expressão na sociedade de sua época. Se ainda hoje temos essas diferenças, imagina a 2000 ou 5000 anos atrás !?

Ailton: É interessante, sátiro, a forma que a série recoloca o Lúcifer no papel da sociedade. Te indico pra assistir com olhos abertos e pensamento livre, encarando como um gênero de humor e com questionamentos que até o momento nenhuma religião foi capaz de fazer.

Ailton: Naquele momento somente o homem sentia prazer. E percebemos que isso ainda acontece nos dias de hoje. A história bíblica conta que a mulher saiu da costela de Adão. Mais uma história de submissão e pertencimento. A mulher pertence ao homem. A história foi escrita por homens e não por mulheres. Até mesmo algumas histórias bíblicas, em que a mulher é protagonista, foram escritas por homens. Ainda existem países e religiões em que a mulher não tem vez, nem voz, e tampouco pode sentir prazer. Alguns lugares ainda mutilam as mulheres para que não sintam prazer, cortando seus clitóris.

Ailton: A bíblia, demonstra o tempo todo que a mulher devia exercer apenas um papel de submissão. Nem nos templos ela podia entrar. Colocaram essa conta nas costas da mulher, que o pecado entrou no mundo quando Eva deu ouvidos à cobra e cedeu a tentação. Consideravelmente um pensamento machista.

Ailton: Eu acho inviável que essa teoria (a sua) seja uma possibilidade dentro do contexto bíblico em que o texto foi descrito, levando em conta principalmente a insignificância do papel da mulher na sociedade da época. 

Ailton: Por outro lado, acho uma teoria muito interessante, porque se de fato ela transou com a cobra, essa cobra teria se materializado feito homem, então não havia apenas Adão e Eva, mas muitos Adãos e muitas Evas, ou seja, era uma sociedade. Então Eva, impossibilitada de ter prazer com seu parceiro, encontrou prazer nos braços de outro homem, o que a fez descobrir-se enquanto mulher e, dessa forma pode conhecer o prazer. Foi descoberta e de certa forma amaldiçoada. E, pode ser, nesse caso, dentro das perspectivas de sua teoria, que esse primeiro filho tenha sido fruto de um adultério, ao mesmo tempo, fruto de um amor extraconjugal no qual ela descobriu-se enquanto mulher.

Ailton: Irmão, o baguio é loko! rsrs. 

Ailton: Já viu um vídeo do pastor Marco Feliciano dizendo que a África era amaldiçoada? Vou te mandar. Cara, olha a que ponto chegam os idiotas! Isso porque são líderes religiosos...

Ailton: https://www.youtube.com/watch?v=e9QGVliE-p8

Ailton: Bom, não sei se pude contribuir com seu pensamento, com sua teoria, mas de qualquer forma te agradeço pela confiança em partilhar. Questionamentos assim fazem a gente parar e refletir. Sua teoria me auxiliou a rever alguns conceitos. Obrigado. Qualquer coisa me chama aqui. E quero saber o que você achou de tudo isso acima

Mateus: Caraca ... Explodiu minha mente kkkkkk.

Ailton: Espero que junte tudo de volta e de forma turbinada rs.

Mateus: Perfeito ! É exatamente por isso que eu vim atrás de você ! Acho você uma pessoa muito mente aberta e muito inteligente e acabou abrindo a minha mente pra novas teorias também kkkkkkkk.

Mateus: Me senti recebendo uma aula! E que aula ... Assim que eu entrar no horário de almoço eu dou uma olhada, mas eu acredito que eu já vi esse vídeo e fiquei em choque com o que foi dito quando vi pela primeira vez

Ailton: Que isso irmão! Somos todos aprendizes. O simples fato de você me questionar, me aguçou a pensar. E pode ter certeza, o papo de agora é único, pois nunca o tive com ninguém. A aprendizagem é sempre uma via de mão dupla. Seu questionamento me fez ter percepções que até a pouco estavam apagadas ou nem as tinha de forma elaborada na minha mente. Pode ter certeza que eu aprendi muito mais...

Mateus: Um bom mestre é um eterno aluno

Ailton: Obrigado Mateus, por me propiciar esse momento de aprendizado mútuo. O mundo, a sociedade em geral, precisa de pessoas com senso-crítico, que pensem e questionem antes de aceitarem toda história contada como verdade única. Parabéns, jovem!


* Mateus de Souza Barbosa
21 anos
Estudante do 4º período de Psicologia Ψ - Unitri 
Insta: @mateussouzabarbosa


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos


segunda-feira, 26 de junho de 2023

Deturpações da fé



"A prisão foi um propósito de Deus". Não. Não mesmo! 

Da até pra explicar por raciocínio lógico ou regra de 3. Deus é amor. Amor não fere. Deus é pai. Pai não descuida. Logo, Deus que é amor e pai, não permitiria uma injustiça dessas. 

Erros humanos acontecem e aos montes. E muita gente inocente paga por tais erros. No entanto, essa fala, vem muito do discurso neopentecostal e carismático Católico de hoje, oriundo da Teologia da Prosperidade. "Deus te dá, mas você tem que pagar por isso. Pagar no sentido de "dinheiro e bens" mesmo. Correntes como a do Edir Macedo e do Valdemiro Santiago chegam a dizer que você tem que doar tudo e depois cobrar de Deus. Você tem que exigir sua parte de Deus. 

A moça, na simplicidade e humildade, tirando forças e lições do que vivenciou, ressignificou o pesadelo creditando a Deus todo o ocorrido. Como que, Ele quisesse lhe dar uma lição por um bem maior.

Muitas coisas acontecem por consequência de nossas escolhas ou por erro de terceiros, como no caso dessa moça. Mas, é tranquilo entender as palavras dela. E, por outro ângulo, não está errada levando em conta que toda religião, com raras exceções, traz esse tipo de argumento. 

Dentro da própria família sempre ouvimos desde cedo que Deus castiga, e por aí vai. Em outras situações, muita gente vive na miséria, e ouve nas igrejas que isso também é um propósito de Deus. "Deus está te provando!" 

Ao contrário do que a religião deveria ser e fazer (ser libertadora e praticar a libertação), ela acaba alienando e fazendo a pessoa acreditar que tudo isso seria um desígnio de Deus em sua vida. 

É extremamente importante, para quem crê, buscar a verdade para além das falácias oriundas dos empresários da fé e dos movimentos que corroboram para manter os fieis presos por medo a um Deus castigador, que já não cabe na sociedade já tem mais de 2000 anos. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

domingo, 11 de junho de 2023

Sacrifício ou misericórdia - um olhar teológico



A igreja, o templo é um lugar de acolhida. Pelo menos deveria ser. E, quem a ela busca, precisa encontrar as portas abertas e não fiscais da fé, como disse o Papa Francisco. Isso vale para toda e qualquer religião. Quem busca é porque precisa. A igreja é para esses que tem esse sentimento, essa certeza e essa fé de que necessitam melhorar enquanto pessoas. Todo aquele que julga é porque está convencido de que é superior, puro, não comete erros, deixou de ser pecador. E, para sua decepção, a igreja não é para estes. 

O sacrifício que os "santos da verdade" fazem para se manterem no direito de julgar e sentenciar é vão, porque justamente a hipocrisia é vã. O "céu" deve estar cheio de pecadores enquanto o "inferno" com certeza está repleto de puritanos com véus. A igreja é lugar de gente que busca, que está a caminho, porque não existe uma conversão da noite para o dia. Toda conversão é diária. Toda mudança é uma construção. E essa construção é eterna. Passamos uma vida em construção e ainda assim não temos certeza do nosso último destino. 

O que não dá pra aceitar é que uma leva de seres que se acham como os mestres da lei da bíblia, só porque conhecem tais leis, só porque se sentam nos primeiros bancos, façam julgamentos sobre a vida alheia. Deus é amor. O Antigo Testamento foi renovado pelo Novo Testamento. Jesus veio para provar que a vida humana é mais importante que as regras sociais dos homens. 

Todo aquele que se acha superior já sentenciou a si mesmo. Adão e Eva foram expulsos daquele paraíso justamente pela vaidade e necessidade de se sentirem superiores. Quiseram o poder e encontram a ruína. Deus não odeia ninguém. Não odeia nem os empresários da fé que colocam palavras em Sua boca. Não odeia nem aqueles que enriquecem ilicitamente usurpando dinheiro e bens dos menos favorecidos e esclarecidos. Se algum líder religiosos ou instituição usar esse termo, "Deus odeia isso ou aquilo", duvide desse ser, de sua palavra. Tenha certeza que ali o único deus que existe é o do poder e do dinheiro. Até o Deus castigador do Antigo Testamento era um meio para manter os fiéis sob o poder da instituição. Ainda hoje existem deturpadores da fé.

Deus é amor, Jesus é misericórdia. E é isso, apenas isso, esse olhar que temos que ter para com o próximo. Em especial aquele próximo que vive marginalizado por regras sociais. Misericórdia, empatia, amor, caridade é isso que enquanto pessoas de fé, ou simplesmente seres humanos, nós precisamos ter para com o outro. Mesmo que não acreditemos em Deus, ou não tenha fé em nada, ainda assim, a regra maior é a do respeito, da misericórdia. Muito cuidado! Toda religião deve ser fonte de libertação para o ser humano. O que não te liberta, te aliena e te aprisiona. 

Ailton Domingues de Oliveira
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Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Rascunhos incompletos I



A última ceia

A última ceia é a referência da vivência do amor e da caridade: "nisso todos reconhecerão".

O que faz com que uma pessoa potencialize uma demanda se a demanda é da ordem do inatingível?



2) "(...) aquele que foi mais autêntico: Tomé"



3) Nada é por acaso.
Nada acontece sem a vontade de Deus.
Deus seria o acaso?
Ou o acaso é a vontade de Deus??
Livre arbítrio
Ou
Conspiração divina?


4) A luta da mulher
Gênesis 2 - Fica claro que desde os tempos em que a história do Gênesis foi contada, escrita e repassada pela tradição de geração em geração, alguém, de certa forma já se preocupava com a posição da mulher. O texto evidencia que ambos deveriam ter direitos e espaço em mesmo pé de igualdade. A luta pela inclusão da mulher e o seu devido e merecido respeito é mais antiga que este escrito....


sexta-feira, 24 de março de 2023

Travessia PJ



Entrei no que a gente chamava de comunidade, primeiramente no grupo de canto da Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Comunidade da Vila Cantizani, em Piraju, São Paulo. Eu tinha uns 9 anos de idade e esse grupo de canto era formado por adultos, jovens, adolescentes e crianças. Nesse período comecei a tocar violão nas missas. Os grupos de jovens ainda eram constituídos por muitas pessoas, chegando a somar mais de 100. Lembro da transição feita de grupão para grupos menores, os grupos de base. Quando acabou o Crisma, fui para o grupo de adolescentes. Os roteiros de reuniões ainda eram diversificados, em sua maioria nada dinâmicos. De forma inocentemente engessada, as reuniões eram basicamente estudos em que só o coordenador lia algo, comentava e depois abria para discussões, o que quase nem sempre havia participação. Eu tinha 14 anos. 

A partir de 1996/97, com 20 anos respectivamente, conheci de fato a Pastoral da Juventude, sua estrutura, espiritualidade e modos de ação. Sua história de lutas me encantou. Foi uma história de amor e libertação que se perpetua nos meus dias de travessia. Dentro do ambiente católico também conheci outras linhas de ação de movimentos de massa mas, foi a PJ, sua caminhada de sonho-fé-luta que constituiu toda a minha base de pessoa, cristão, ser humano, de forma especial.

Antes mesmo de conhecer a PJ eu já buscava por algo diferente do convencional, não queria mais do mesmo. E sem saber eu já ansiava por esse "novo" que tivesse uma práxis libertadora. Na época, ainda adolescente e instigado por inquietudes inexplicáveis e questionamentos que me gritavam internamente sobre a estrutura engessada de todo tipo de sistema, eu já era PJoteiro. Era uma questão de tempo para que esse encontro acontecesse. 

1998 foi o ano em que o mergulho nas águas da PJ foi realmente profundo, transformador, libertador e gratificante. O meu marco referencial foi o Curso de Inverno na cidade de Araçatuba (SP), desse mesmo ano. 1998 a 2000 foi um triênio de uma travessia ímpar. Após me afastar literalmente dos trabalhos pastorais da Comunidade devido a questões familiares, em meados de 95 até 1996, meu retorno se deu com um convite para trabalhar com grupo de adolescentes. Fiquei pensativo por alguns dias antes de dar a resposta oficial mas, em meu coração, já havia um SIM. Eu só precisava mentalizar e fortalecer como que trabalharia e me dedicaria nesse projeto com os adolescentes.

Foi uma entrega maravilhosa, com muito amor e dedicação. O resultado foi o crescimento de um grupo de adolescentes repleto de sonhos, alegria contagiante, inquietos, questionadores e com um senso-crítico para lá de aguçado. Era o grupo ABC. Em um ano, esse grupo se tornou uma espécie de referência e havia muita procura de adolescentes de outras comunidades para fazer parte do ABC. Reabrimos o grupo mas foi necessário dividir. Vieram mais de 30 novos integrantes e formamos um "grupão", o que inviabilizava os trabalhos e a dinâmica de um grupo de base. Formamos então o segundo grupo, que ficou conhecido como grupo Águia.

De coordenador de 2 grupos de adolescentes, fui convidado a coordenar a PJ da minha comunidade que contava com 3 grupos de adolescentes e 3 grupos de jovens. Era o ano de 1999. No mesmo ano, assumi provisoriamente a coordenação da PJ Paroquial de Piraju e representava a Paróquia nas Coordenação Diocesana de Ourinhos (SP). Sendo a Diocese de Ourinhos ainda nova, e Piraju nomeada como uma das cidades "região", fiz o trabalho de conectar com as outras cidades que faziam parte da região Piraju. Através de cartas, telefonemas e visitas de carro (com dinheiro do próprio bolso), conseguimos contatar os representantes de cada cidade. 

Na Coordenação Diocesana fiquei como representante da Diocese para as assembleias do Sub-regional. Infelizmente não pude dar continuidade nessa caminhada, não da forma como gostaria. Com minha mudança para a capital paulista no ano de 2000, por conta de uma oportunidade profissional, precisei interromper esse projeto.

Em São Paulo, consegui contato com o querido amigo Pe. Raymundo Aristides, e participei de alguns encontros da Escola Bíblica que ele liderava na época. Foi uma experiência maravilhosa. 

Hoje, sou pai de dois meninos, Felipe e Joaquim, que são a minha razão de viver. Moro em Uberlândia (MG) desde 2009. Já participei do grupo de canto da comunidade Imaculada Conceição e até iniciei o projeto de um grupo de jovens no formato da PJ. Fiquei como coordenador durante 6 meses e depois passei a coordenação. Formado em Administração (1998), Teologia (2018) e atualmente cursando o 5º período de Psicologia, sinto cada vez mais que a educação, o estudo em si, é um dos meios mais potentes para contribuir para si e para o mundo no sentido de construir pontes, quebrar paradigmas, e libertar para a vida plena que cada ser humano tem direito e merece. Afinal, "estamos nesse mundo uns pelos outros", esse é o verdadeiro sentido dessa nossa travessia. E a PJ, até hoje reverbera aqui dentro questionamentos que me fazem parar, refletir e agir, com senso crítico, justiça e amor. 

PJ não foi um mero caminho. Muito menos ficou perdida no passado. Ela é, continua sendo, caminho, caminhada e travessia. Eternamente travessia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor - parte II



Há de se lembrar do texto anterior, em que questionamentos e autocríticas nos fizeram refletir sobre as verdades instauradas pelos "fiscais da fé" através de suas bandeiras religiosas. Em contrapartida, entendemos que o amor é a ponte, o caminho, a travessia que nos conduz a um bem maior, o de praticar a caridade sem ressalvas. 

"Fiscais da fé" é um termo que foi utilizado pelo Papa Francisco, quando mencionou que quem procura a igreja precisa encontrar as portas abertas e não fiscais da fé. Jesus chamou os mesmos, os tais mestres e doutores da lei, de hipócritas. Não o sejamos e não hajamos como tais! 

Ainda sobre o texto anterior, foi deixado propositalmente uma pergunta com uma afirmação um tanto quanto duvidosa. Como disse, foi proposital. Eis o trecho: "Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?!"

Ressalva para uma questão em particular: "Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco?" Então, o que percebemos aqui? Espero que todos tenham percebido o erro provocado. Sim, é um erro agir com a pretensão de nos favorecer enquanto cristãos, tanto quanto é errado o sentenciamento alheio para com quem não o é.  É pretencioso a forma de imaginar que "nós", ditos cristãos, já estamos designados à vida eterna só porque o somos e, em contrapartida, supor, julgar e até mesmo sentenciar indiretamente a não participar conosco desse prêmio porque não está nesse mundo sob os holofotes do cristianismo.

E onde está a caridade nisso tudo, meus amigos? A caridade não é simplesmente o ato de ajudar a quem precisa de algo material e ou espiritual. A caridade está em servir. Servir com amor. Servir e não cobrar. Servir a quem precisa mas sem a necessidade de vincular essa atitude a uma resposta imediata por parte de quem é servido. Servir sem forçar nem obrigar que a pessoa segure nossas mãos e nos acompanhe até a igreja mais próxima. Isso é barganha. Se queremos mostrar que o caminho que trilhamos é bom, basta levar apenas o alimento pro corpo e pra alma de peito aberto, sem placas, sem propagandas.

Ninguém neste mundo é detentor da verdade. Existe uma música que diz "Tudo o que move é sagrado" (Amor de índio - Beto Guedes e Djavan). E isso é verdade! Onde existe vida existe o sagrado. Não é uma música sacra, mas diz uma verdade que muitos que se dizem religiosos não respeitam. Encerro aqui com a reflexão de outra música que foi cantada na Campanha da Fraternidade de 2002. Nos atentemos para alguns símbolos dessa letra: a mesa, terra-mãe, altar, rio, mata, natureza. A cidade é abençoada com todos esses símbolos, porém, será que podemos imaginar apenas "uma só mesa" para comungarmos com todos e todas ao seu redor? Onde está a nossa caridade? 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

Ouçam: https://www.youtube.com/watch?v=oLgWCOyiAbQ

"Uma só será a mesa" - Oferendas 2002 (CNBB)

1. Quando os pés o chão tocarem
Para a dança começar
Quando as mãos se entrelaçarem
Vida nova há de brotar

2. Toma, ó Pai, o amor perfeito
Pelo rio, a mata, a flor
Que o índio traz no peito
É louvor ao Criador!

Uma só será a mesa
Terra-mãe será o altar
O sustento, a natureza
Em milagres, vai nos dar!

3. Eis aqui, Senhor, as dores
Deste Cristo-Povo-Irmão
Sejam hinos seus clamores
Na defesa de seu chão

4. Nova Terra nós sonhamos
Onde todos têm lugar
Os direitos nós buscamos
Vida, pão, respeito, lar

5. Povos todos, terra inteira
Te pertencem, ó Senhor!
Que os males e as fronteiras
Deem lugar ao Pleno Amor

domingo, 19 de fevereiro de 2023

A bem da verdade, pratique o amor


"Olhe para uma instituição e veja 
o que ela tanto quer curar, 
que você perceberá do que ela é doente." 
(Autor desconhecido).

Qual seria a "verdade" que podemos tratar como única? Os cristãos dirão que é a que vem de Jesus Cristo. E nessa dimensão os evangélicos dirão que, enquanto cristãos, a única verdade é a deles. Como sabemos que no meio evangélico existem várias denominações, cada uma afirmará que detém o poder da verdade em seu meio. Os neopentecostais farão do mesmo jeito. Sim, os católicos também. Apesar da igreja católica não ter vertentes, existe uma divisão interna entre as correntes de pensamentos, entre pastorais e movimentos e, logicamente, também faz a sua guerra santa em prol da detenção da exclusividade da verdade. 

Se pensarmos de forma global, enquanto cristãos, será que quem não é cristão não se salvará? Será que quem não é cristão não partilhará da vida eterna conosco? A vida eterna que tanto ouvimos falar nas missas, cultos e diversas celebrações só vale para quem é cristão? E o que dizer dos ateus? E os budistas? E os judeus? Opa! Mas a religião de Jesus era o judaísmo. E agora?! 

Será que, enquanto cristão, eu levo a sério os ensinamentos da minha religião? Será que eu boto em prática tudo o que me é oferecido e devido enquanto cristão que eu afirmo ser? Será que estou apto para ser merecedor da vida eterna, segundo o que rege a minha religião? E Jesus, sendo praticante do judaísmo, o que mais lutou foi contra os mestres e doutores da lei de seu tempo. Chamou-os de hipócritas por saberem as leis de cor e salteado, mas não colocavam em prática nada que favorecesse o ser humano. 

A princípio e a bem da verdade: ninguém é detentor da verdade; nenhuma pessoa é; nenhuma instituição é; muito menos alguma forma de poder o seja! Primeiramente não precisamos ter uma bandeira religiosa exposta no peito para sermos praticantes da caridade. Existem milhões de pessoas sem religião que têm muito mais atitudes de empatia e amor para com todas as formas de vida do que muitos que se denominam cristãos. Quem está inserido no meio religioso, em alguma denominação é porque se sente acolhido, encontrou apoio, suporte pessoal-emocional-espiritual e elementos que fortalecem sua fé na caminhada diária. Esse é o sentido da comunidade: comunhão, partilha, caridade e amor. 

São muitas questões e devemos nos ater em uma palavra que nos motive a caminhar. Essa palavra não é a palavra "verdade". A verdade está onde se pratica o amor, onde se pratica o respeito, onde existe solidariedade, partilha e comunhão. Ela está principalmente, onde a hipocrisia não habita. Existe uma passagem em que Jesus caminhava com os seus discípulos e estes notaram que outras pessoas também pregavam em nome de Jesus. Preocupados com o fato de que outras pessoas falavam do "amor", ou da "verdade", ou do próprio "Jesus", os discípulos levantaram essa questão e esperavam que Jesus tomasse uma atitude drástica, talvez ordenando que as outras pessoas não pregassem em seu nome. Jesus então disse: "os que não estão contra nós, estão conosco". Ali, naquele exato momento, não se permitiu que os discípulos tomassem exclusivamente para si todo o ensinamento e bem-aventuranças que Jesus pregava. 

E nós? Como está o nosso caminhar frente a tantas questões que nos fazem distinguir quem é santo de quem é pecador? Que critério usamos para sentenciar ou libertar as pessoas da nossa análise "cristã"? Espero que não o façamos dessa forma. "Quem quiser ser grande, que se faça pequeno entre os seus." A vida está para todos da mesma forma que a morte aguarda a todos. O que vem depois não podemos prever mas, podemos fazer o nosso melhor enquanto pessoas, seja para melhorar o ambiente ao nosso redor, seja para ajudar a quem precisa de uma palavra ou de um alimento. A caridade não é exclusividade de nenhuma religião. Ela tem que brotar no mais puro íntimo de nosso coração, de nossa alma. Mas, só quem é capaz de amar, pode se doar para o próximo, a serviço de quem precisa. 

Quando se faz com amor, o resultado obtido é melhor que o esperado. Toda atitude de amor, por si só, é capaz de mudar-melhorar-contagiar para quem é realizada, por quem realizou, por quem presenciou ou por quem simplesmente ouviu o resultado da boa ação praticada. 

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

De almas e de rios, encontros



E quando me recobro da realidade
Sentindo-me deslocado da sociedade
Que padroniza religiosamente seus seguidores
Que crucifixa descaradamente seus opositores 
Escondendo suas fraquezas em recalques e tabus
Mantendo firmes suas regras, suas guerras 
Exalando preconceitos em nome de pseudorreligiões 
Condenando a pecados de dor, sem amor
Tudo o que não se enquadra em seus hipócritas padrões

E quando me reencontro dessa dura realidade
Sem padrão que me enquadre
Sem religião que me prenda
Sem senso que me cale
Sem preconceito que me oprima
Sem sombra que me pese
Sem dogmas que me ceguem
Sinto apenas o saldo das labutas
Sangue, suor e lágrimas de tantas lutas

E me vejo um forasteiro privilegiado
De tantas amarras libertado
E o que sobrou é tudo o que carrego
Aquilo que sou na minha mais íntima essência
Recortes de alegria, de sorrisos, de amigos
Amor, amores, cheiros e sabores
Porque o sentido desse mundo é sermos
Especialmente, uns pelos outros
O que seria dessa travessia sem a devida empatia?

Do mais, não quero ter aquilo que possa me definir
Nem status nem poder, nem matéria nem miséria
Principalmente aquela que mata de fome a alma
Quero continuar sendo o que sempre fui
"Nem melhor nem pior, apenas diferente"
Ser voz onde falta vez
Dar vez onde falta olhar
Ser olhos onde as palavras cegam
Verbalizar onde tentam calar a voz

Sou partida e sou chegada, mas antes de mais nada
Sou travessia e estripulia, intensidade e movimento
Sou deserto, sou paisagem, sou montanha, sou passagem
Sou verbo, de ação e ligação
Sou razão mas, emoção e coração
Encontro constante, de rios e de almas 
E de tudo o que já fui, só quero continuar sendo
Eterna construção do melhor que eu possa ser
Sou poeta e menino protagonizando meu próprio tempo

domingo, 6 de novembro de 2022

Marginal social ou sociedade marginal



A hipocrisia acompanha a evolução da espécie desde os primórdios da existência
A briga, tanto quanto as guerras, sempre foi por poder 
A luta desarmada em prol do bem comum
Sempre perdeu espaço para as guerras desalmadas
O sacrifício oferecido em tempos sombrios
Sempre foi o dos inocentes e sem voz
Para se manter o poder é necessário abalar as bases da estrutura
Uma sociedade que não visa igualdade
Terá sua política voltada para manter suas classes bem separadas
Destruindo a educação, sentencia-se o futuro
Quem está no topo do poder sempre terá seus privilégios inabalados de geração em geração
Enquanto isso, na base, quando não se foca na educação
Ou quando se destrói o sistema educacional
As possibilidades de um futuro vão se anulando


A criança presa por fora
como marginal social
acusada e sentenciada por suas precárias condições
abandonada em si
refém por herança
busca sobrevivência
e encontra saída nas mazelas
no crime, nas drogas
porque são os únicos lugares que acolhem
e novamente se tornam reféns
o sistema, que recebe para cuidar
pouco se importa do lugar em que a criança está

Cuidar das crianças
Para que quando adultas
Possam passar valores e cuidar dos seus
Educação é base, é caminho e caminhada,
É a própria vida, é a própria jornada

Poema escrito para o trabalho da disciplina de Psicologia Social e Comunitária - 4º período de Psicologia - Unitri


"As crianças saudáveis não terão receio da vida se os seus idosos tiverem integridade suficiente para não recear a morte." - Erik Erikson 

"Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos" - Pitágoras

"Por meio da educação transformamos realidades, diminuímos diferenças sociais e criamos oportunidades para as nossas crianças!" - Marianna Moreno

"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." - John Dewey