Por outro lado, deu certo sim. Deu certo enquanto houve reciprocidade, enquanto durou e até o momento em que não houve danos colaterais.
Teo ΑΩ
Psic Ψ (acadêmico)
@teologia_para_insatisfeitos
O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
Transcrevo aqui a parte de um diálogo ocorrido a
partir dos quinze minutos finais do 7º episódio da 1ª temporada da série
"Missa da meia noite", da Netflix. Mas antes de dar
seguimento no mesmo e de continuar minha percepção e crítica à reflexão que se
tece pela fala da personagem sobre a morte e consequentemente a vida, a
travessia ou o ciclo, me atenho a dar alguns adjetivos em todo o enredo, porém
com o devido cuidado para não dar spoilers.
O cenário da trama é uma pequena cidade construída
numa ilha afastada do continente. A religião predominante é a católica, com
alguns personagens muçulmanos e ateus. Existem outros diálogos profundamente
interessantes com teor filosófico e reflexivo, tanto quanto questionamentos
sobre a fé e a verdade que muitos buscam e outros mais tentam deter para
si.
Há também a parte fantasiosa sobre o mal disfarçado
numa figura bíblica em que podemos tanto interpretar biblicamente como de forma
analogicamente figurada para a nossa realidade. Tem romance, têm exageros, têm
verdades, tem maldade e bondade tal qual vemos no dia a dia e, principalmente, uma grande pitada de fanatismo religioso que se manifesta pela detenção de uma
verdade deturpada por quem quer poder para controlar os demais.
Uma das coisas que chama muito a atenção nesse diálogo, além do teor profundamente reflexivo, é a interpretação do casal. A concentração e a troca de olhares durante a fala, que é feita com perfeição de entonação e sintonia, consegue nos possibilitar a conexão com cada palavra dita, que de certa forma estabelece uma ponte entre o fictício e o real, a nossa realidade. Vale muito a pena conferir.
*****
- O que acontece?
- O que?
- Quando a gente morre, o que acontece?
- O que que acontece?
- O que acha que acontece quando a
gente morre?
- Falando só de mim?
- Falando por você.
-
De mim... Só de mim. Esse é o problema. Esse é o grande problema da questão.
Esse conceito "eu", isso não existe. Não tá certo. Não é... Não
existe. Como eu esqueci isso? Quando eu esqueci isso? O corpo para uma célula
de cada vez mas o cérebro continua disparando os neurônios, como mini raios,
como fogos ali dentro. Eu pensei que fosse desesperar, sentir medo, mas eu não
senti nada disso. Nada. Porque eu tô ocupada demais. Ocupada demais no momento,
lembrando. Claro, eu lembro que cada átomo do meu corpo foi forjado numa
estrela. Essa matéria, esse corpo é praticamente só espaço vazio no fim das
contas e matéria sólida? É só energia vibrando lentamente. E não existe eu.
Nunca existiu. Os elétrons do meu corpo interagem e dançam com os elétrons do
chão embaixo de mim e do ar que eu não respiro mais. E eu lembro, não existe
sentido onde tudo aquilo acaba e eu começo. Eu lembro que eu sou energia. Não
memória. Não "eu". O meu nome, a minha personalidade as minhas
escolhas, tudo vem depois de mim. E eu era antes deles e eu vou ser depois. E
todo o resto são imagens que eu juntei no caminho. Breves sonhos passageiros
impressos no tecido do meu cérebro morrendo. E eu sou raio saltando ali, eu sou
a energia disparando os neurônios e... Eu tô voltando... Só de lembrar, eu tô
voltando pra casa. É como uma gota d'água caindo de volta no oceano. De onde
ela sempre fez parte. Todas as coisas fazem parte. Todos nós somos partes,
você, eu, a minha filhinha, minha mãe e meu pai. Todos que já existiram, toda
planta, animal, todo átomo, toda estrela, toda galáxia, tudo. Tem mais galáxias
no universo que grãos de areia na praia e é disso que nós estamos falando
quando falamos Deus. O Deus. O cosmos e seus infinitos sonhos. Nós somos o
cosmos sonhando consigo mesmo. É só um sonho que eu penso que é a minha vida,
toda vez. Mas eu vou esquecer isso. Eu sempre esqueço. Eu sempre esqueço os
meus sonhos. Mas agora nesse milésimo de segundo, no momento que eu lembro, no
instante que eu lembro, eu compreendo tudo de uma vez. Não existe tempo. Não
existe morte. A vida é um sonho, é um desejo, que fazemos de novo, de novo, de
novo, de novo e de novo. E é assim por toda eternidade. Eu sou tudo isso. Eu
sou tudo. Eu sou todos. Eu sou o que sou.
*****
Esse diálogo penetrou em meus pensamentos de forma
poética, livre de preceitos religiosos e outros mais. Por isso se tornou belo,
distinto, mágico, independente, uma verdadeira arte final à parte diante de um
contexto que teve seus altos e baixos, ficções verdadeiras e pseudo-realidades.
Me levou a um nível de reflexão além do fictício e do imaginário. Talvez pelo
momento pandêmico que vivemos em comum, que nos traz consequências várias e
tudo isso juntado aos problemas particulares de cada um. Outro ângulo para
pensar é que que nem tudo o que parece é. As coisas são vendidas de forma
bonita, com um marketing pesado por trás. Assim também são as pessoas que se
vendem, ou melhor, se apresentam pela aparência. Elas demonstram ser aquilo que
têm, que possuem. Estamos carentes de essência... de coisas reais... de pessoas
de verdade...
A praça é a Praça, é o mundo, é o
fundo,
é o circo, é o recanto do justo,
do sábio e do vagabundo
paraíso e deserto do sem teto
Filosofia da vida, dos dias, das
horas
o tempo não passa, e a vida indo embora
Dias de luta sem glória
a droga é a festa, todo dia, toda hora
Retiro do mundo,
vazio existente na alma sem fundo
Que aos olhos do povo, a sociedade
perfeita
não tem bem, só o mal, quem ali está é
só marginal
Esquece que ali, aquele que habita tem
a sua história
sua guerra sua vida, seus traumas, suas
lutas sofridas
uma família talvez
A praça é o elo perdido, último dos
paraísos
de quem se perdeu nesse plano de
vida
nesse mundo tão sujo
de batalha egoísta
No meio da praça tem a regra, a
moral,
a ética de todo marginal
cada um no seu canto, enxugando seus
prantos
ninguém rouba ninguém, todos se
protegem
Tem cachorro e gato que habitam
juntinhos
ambos respeitam até o passarinho
todos sem comida, sem casa, sem abrigo
Banho de chuva no frio, noites mal
dormidas
Corpos bem colados pra se manter
aquecidos
Presos por dentro, julgados por
fora
a vida é um tempo que passa e demora
esperança sem vez
Um dia quem sabe,
um pouco de asa
vai me levar de volta pra casa
A crise
de fé pode encontrar diversas palavras para representar o momento
específico bem como os meios que a ocasionaram. A zona de impacto, ou seja,
o que ocorre fora do âmbito religioso é o que mais gera questionamentos no
indivíduo. Ao começar a se deparar com situações que transgridem o "mar de
rosas" exposto nos púlpitos sagrados, os questionamentos são inevitáveis.
Após os questionamentos vêm as dúvidas e com elas o véu que ora impedia a visão
começa a cair. O afastamento também pode ser entendido como uma libertação de
um sistema que mantém seus fiéis como reféns da instituição religiosa, muitas
vezes usando o medo do inferno como método de alienação e aprisionamento.
"Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum
paraíso" (Melanie Klein), ou muitas vezes é tido como alguém
não temente a Deus, pecador, impuro, indigno, marginal, que pelo fato de
escolher não conviver e obedecer as regras institucionais, é tido como inimigo
da igreja e do Deus punidor, que, certamente lhe permitirá algo de ruim como
forma de castigo devido às suas escolhas e pensamentos. E quem destila esse
tipo de punição são aqueles que se sentem os donos da verdade, das regras, dos
templos e ousam falar em nome de Deus. Há quem acredite, tenha medo, e até se
submeta, mas de certa forma também existe uma certa evolução no sentido de
libertação das amarras do poder que aliena. E quem se liberta não gera lucro
institucional. O mito da caverna de Platão também pode ser usado para contribuir ao pensamento.
A crise
de fé não poderia ser porque a pessoa já alcançou o suficiente para não se
apegar em mais nada? Neste caso o desapego é que lhe causa a crise? Tais como:
- crise de identidade espiritual, religiosa e de fé;
- perde-se o sentido de pertença.
Duas possibilidades de crises de fé - zona de
conforto X zona de impacto:
-
de baixo: mantendo-se na estrutura religiosa, sentindo a necessidade de
permanecer nessa estrutura e então encontrar obstáculos na caminhada que
facultem essa crise. Considero esse espaço como a "zona de conforto"
em que a pessoa não consegue se identificar fora da estrutura e do sistema em
que está inserida. Fora dele sua crise seria maior, do tipo síndrome de
abstinência.
-
de cima: alcançando um topo que, já não suporta nem sustenta uma
continuidade na estrutura, pois ela já se torna indiferente, existe a
necessidade de se libertar. Seria essa a "zona de impacto", ou o
momento em que a pessoa consegue alcançar o seu fruto do conhecimento, que lhe
produz libertação, novos olhares e entendimentos.
Por fim, "Emoção X Transformação": existe um modismo explorado em
diversas instituições religiosas existentes, que cultua midiaticamente
encenações milagreiras que mexem com o emocional das pessoas. Ao se tratar de
emoção os riscos acompanham todo o processo muito mais de forma negativa.
Manter o ser humano preso emocionalmente é crime. Há igrejas que operam
verdadeiras lavagens cerebrais onde as pessoas são levadas à doar o que não têm
para as pseudo obras de seus dirigentes e pastores. Estes enriquecem e esbanjam
suas vaidades e aquisições. A conversão pela emoção, de forma apelativamente
psicológica, não é duradoura. Existem recaídas que podem levar o indivíduo
abaixo do buraco em que se encontrava antes de sua inserção religiosa.
Considero que a conversão é algo a ser trabalhada na realidade, sem apelos
fantasiosos, pela práxis, fortalecendo a fé em seu verdadeiro tripé de estudo,
oração e ação.
Um
breve histórico da palavra "crise": A palavra crise é, em história da medicina,
«segundo antigas concepções, o 7.º, 14.º, 21.º ou 28.º dia que, na evolução de
uma doença, constituía o momento decisivo, para a cura ou para a morte»; em
medicina, trata-se de «o momento que define a evolução de uma doença para a
cura ou para a morte» ou de «dor paroxística, com distúrbio funcional em um
órgão». Em economia, é «fase de transição entre um surto de prosperidade e
outro de depressão, ou vice-versa».
[Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss]
(*)
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-da-palavra-crise/28974