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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Anjo caído




Um dia, era pra ser apenas mais um dia de passeio com o Kinzé e a Mel ao redor da quadra, mas na metade do percurso um rapaz nos avistou e parou para falar sobre os cachorros. Sentou-se na calçada e esperou nossa aproximação. Mesmo sendo cortês Kinzé e Mel não deram confiança. 

O jovem se levantou e começou a nos acompanhar rua acima. Estava de chinelo, calça, camiseta e um blazer.  Aos poucos foi se abrindo. Contou que alguém o acordou dizendo para sair do sol. Falou de forma poética sobre a importância do sol e da lua. 

"Você sabe que os animais dão mais valor na gente do que muitos da família?! Tenho certeza que eles te protegem. Eles te amam, te respeitam. Eu tô aqui do seu lado porque eles sabem que não faço mal. Se não, eles não iam deixar não."

"Eu sou um anjo caído. Tô na decadência. Você sabe o que é decadência? Eu só tenho o sol pra me esquentar e a lua pra iluminar."

Chegamos à esquina e aí começamos a nos despedir. Eu seguiria à esquerda e ele continuaria em frente. "Obrigado, muito obrigado pelo tempo, por ter me escutado. Não esquece, eu sou um anjo caído. Decadência."

Só pude escutá-lo com atenção. E isso fez toda a diferença. Silenciosamente só quis ouvi-lo e prestar atenção em cada olhar, fala e expressão. Sua gratidão me trouxe um sentimento de inquietação. Na verdade eu fiquei grato por esse encontro do acaso.

"Sou um anjo caído, não esquece! Ah, lembra de mim quando estiver no paraíso. Você sabe quem disse isso né?"

Caminhando com ele de uma esquina a outra, percebia o olhar das pessoas ao notá-lo. Suas roupas sujas, seu jeito de caminhar e sua pequena bagagem numa sacola de plástico chamavam a atenção. 

Mas, no fundo o que ele quis deixar nessa mensagem? O que ele fez se sentir o anjo caído? Não tenho respostas, mas sensações e sentimentos que me conectaram ao ser humano que caminhou ao nosso lado por um quarteirão. Um anjo que tem o coração puro, sem maldade com toda forma de vida, em especial a dos animais. Caído, tombado, derrubado, machucado, esquecido, rejeitado, excluído e condenado pela sociedade. São muitas as formas de pensar e sentir. Faço questão de me ater apenas ao tempo de sua presença e isso já valeu a pena. Com certeza não dá pra descrever essa cena com as cores que vi e vivenciei porque tanto a cena quanto as cores foram únicas e aqui permanecerão vivas na história, na memória e no coração. Obrigado anjo caído. 


domingo, 12 de janeiro de 2025

Nas gavetas da memória


Numa roda conversa, que mistura boa prosa, belos versos, altos papos e causos antigos, com alguns entendidos no assunto como Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade, Eduardo Galeano e José Lins do Rego, através de suas obras "Sobre o tempo e a eternidade"(1995/1997), "Cadeira de balanço" (1966/2009), "O livro dos abraços" (1991/2022) e "Menino de Engenho" (1957/2001), respectivamente, algo mexeu profundamente em minhas gavetas de memórias e trouxe à luz algumas histórias que ouvi de minha avó paterna Maria Aparecida de Oliveira, a Vó Cida. 

Não dá pra descrever a sensação ao remexer essas gavetas e sentir aflorar tantas memórias. O cenário em que eram contadas, o clima, o suspense, o mistério, o pedido de silêncio e de atenção, a seriedade da dona Cida e o desfecho final que tinha uma mensagem direta e objetiva, uma verdadeira lição de respeito, educação e obediência que me causava um medo sem precedentes. Recordando esses momentos, percebo que na simplicidade de suas falas, típicas de uma pessoa da roça que não sabia ler nem escrever, e da devoção eloquente que fazia de seus causos um verdadeiro retrato, a ponto de me fazer acreditar que ela mesma havia sido testemunha ocular de cada história. Na narrativa de cada causo acontecia um ritual sagrado que acompanhavam as histórias e cabia somente a nós, eu, minha irmã e meus primos ainda crianças, validar com o nossos olhares de pura devoção e medo.

Para adentrar sua casa haviam duas formas, pelo bar que meu pai Derci e meu avô Benedito tocavam, e pela garagem, que acabava sendo uma espécie de antessala com cadeiras para quem ali chegasse prosear. Ali, nessa garagem, fechada com portões de ferro, Vó Cida passava horas espreitando pelos vãos das grades o movimento das pessoas e dos carros pela Avenida Humberto Martignoni. 

E foi justamente nos bancos dessa garagem que me tornei testemunha assídua de cadeira cativa das histórias jamais contadas em qualquer banco de escola. Por mais que fossem sempre as mesmas, não me cansava de ouvi-las. 

Havia um homem muito ruim que vivia a praticar o mal a toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Nem mesmo seu próprio pai, enfermo e acamado, ficou impune de suas maldades. No leito de sua morte, o velho pai lhe pediu água, que num ímpeto de pura crueldade urinou numa garrafa e deu ao pobre homem. Não tardou, seu pai faleceu. O castigo para tanto mal feito não tardaria. Esse homem começava a se transformar fisicamente. Pelos por todo o corpo cresciam e um rabo comprido nascia. O mal homem exilou-se para o desconhecido de um cemitério e nunca mais foi visto. Tornou-se uma lenda.

Como lenda, essa história era contada e repassada com muito mistério e dúvida. Os anos se passaram e eis que um rapaz dizia a todos que não acreditava e chegava a zombar de quem tinha medo. Muitas vezes se dizia corajoso o suficiente para ir até esse cemitério à noite, com um rabo de tatu em mãos, procurando por esse homem-bicho de pelos e rabo e, quando o encontrasse, lhe daria uma surra bem dada. 

Disse tanto que chegou a apostar com seus conhecidos que iria até esse cemitério para provar que não existia nada, mas se existisse daria um jeito. Certa noite se aprontou e foi. Lanterna numa mão e rabo de tatu na outra. Aproximou-se do cemitério e nada viu. Perambulou e nada. Confiante de que nada havia e que tudo aquilo não passava de uma lenda, virou em retirada. Foi nesse momento que deparou-se com um bicho peludo, alto e de rabo comprido. "Não era tu que me daria uma surra com rabo de tatu? Pois bem, isso é pra você aprender a não duvidar de cruza-ruim." O bicho tomou-lhe o rabo de tatu e deu uma surra no rapaz, que voltou para sua casa desorientado e enlouquecido.

Finalizado o causo, vinha a grande lição, que devemos sempre ter o respeito pelos mais velhos, pelos pais e rezar pedindo a Deus para que nada de ruim nos aconteça. Dona Cida gostava de santinhos. Tinha sobre a penteadeira o seu próprio altar com imagens compradas e ganhadas de parentes e conhecidos. Ali, fazia suas rezas diárias com o terço na mão. Uma fé enraizada na simplicidade, que lhe fora transmitida por sua mãe e adquirida ao longo de sua vida. 

Histórias assim me fazem crer nessa profecia poética de que a vida é sempre um caminhar de volta pra casa, um reencontro com a memória, com a saudade e consigo mesmo. Talvez, eu já tenha ultrapassado a fronteira que ainda permitia manter-me isento de tais pensamentos. Talvez, esteja eu consciente desse tempo, desse retorno eterno que é essa travessia. Hoje entendo minha avó, que no recontar de tantos causos, trilhava um caminho de retorno deixando por ali, simplicidade, carinho, dedicação, amor em prosa e sabor. O tempo que passa nos conecta com as memórias, e nos permite recostar a cabeça no travesseiro, com a leveza de uma criança que descansa seu corpo no colo de seus avós. O tempo e a eternidade, um caminho eterno.


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Resenha - O Martelo das Feiticeiras


Essa obra retrata, logo em suas primeiras cinquenta páginas, o quanto a mulher tinha um maior papel de destaque e importância em outras épocas, e aborda sobre como o patriarcalismo foi tirando-a de seu protagonismo, deixando-a em segundo plano, e colocando o homem como centro de tudo, seja na sociedade, na família, na política e em especial nas questões de fé e nas religiões. Vale muito a pena essa leitura, sem contar que esse livro retrata como e porque muitas mulheres foram consideradas bruxas e, por tal, condenadas e sentenciadas às mais diversas penas de morte, como a fogueira, forca e outros mais atuais como o apedrejamento. Sendo tudo isso de responsabilidade da famosa "Santa Inquisição", ministério da igreja católica na idade antiga e média, e atualmente extinta. Em sua segunda parte, esse livro traz o manual da inquisição:  como reconhecer as consideradas bruxas, sentenciá-las e aplicar-lhes a pena devida.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Resenha - O velho que acordou menino


 

Rubem Alves é sinônimo de leveza, nostalgia, saudade, simplicidade e vida. Nesse livro ele faz uma verdadeira travessia pelas coisas de antigamente, com assuntos de família, fé, brincadeiras de criança, superação, curiosidades e muitos causos ouvidos e recontados. Uma leitura tão fácil quanto saborosa que nos remete a pensar e refletir sobre o quanto podemos ser felizes degustando da companhia dos que amamos. É nesse seio de amor, amizade e companheirismo que as histórias se tecem e se ajuntam ultrapassando gerações. Uma verdadeira colcha de retalhos de histórias vividas e que nos coloca como protagonistas em cada cena descrita.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Recortes e Fotografias: fazendo a diferença



"Booom diiaaa!" Cumprimentou-nos a ciclista que pedalava numa das pistas que contornam o Rio Uberabinha. Estávamos fazendo uma caminhada matinal de domingo, eu e minha mãe, e cruzando com pessoas caminhando, correndo ou pedalando o tempo todo. O ambiente cercado de árvores que traz um ar de tranquilidade mistura-se por vezes com um certo mal cheiro que advém do rio. Várias pessoas nos cumprimentaram, mas essa ciclista, uma senhora por sinal, fez questão de nos cumprimentar olhando em nossa direção. Foi uma gentileza regada de vontade de transmitir um pouquinho de alegria. E toda alegria no mínimo tem de ser contagiante. 

Noutro dia, passeando com meu filho Felipe pelo shopping, entramos numa loja de tênis e numa livraria. Engraçado que sempre vamos aos mesmos lugares e o melhor é que temos praticamente os mesmos gostos. Quando eles não coincidem, sabemos exatamente que o que não me agrada, fica perfeitamente lindo nele e vice-versa. O que eu posso relatar desse dia foram duas pessoas, os dois atendentes que fizeram toda a diferença.

Na loja de tênis, o vendedor se aproximou e se colocou à disposição para me auxiliar, caso fosse preciso. Perguntei sobre tênis mais específico para uma caminhada e corrida. Ele perguntou minha preferência, e depois mostrou-me outra marca que eu não conhecia. Desse momento em diante, atento ao meu interesse e foco, ele explicou a diferença entre a marca que eu costumo usar e a que ele me apresentou. Posso dizer que foi uma aula sobre os tênis e a especificidade de cada um para determinados tipos de exercícios. Atentei-me principalmente quanto ao solado e o material inteligente que compõe todo o sistema de amortecimento de impacto que, segundo ele, não deforma o solado. É um material que depois de usado ele retorna ao estado natural. Por fim, não levei nada nesse dia mas quando resolvi, voltei com o mesmo vendedor. 

Já na loja de livros, uma perdição para meu vício, sempre tenho que me conter para não exagerar nas compras. Para mim, em especial, é um paraíso, um verdadeiro parque de diversões. Passaria horas na livraria olhando, conhecendo, experimentando um pouquinho de cada coisa e depois, com pesar, escolher apenas alguns para levar para casa. Nesse dia, em busca de alguns títulos específicos, me deparei com uma banca promocional do tipo "leve 3 e pague 2". Numa piscada eu já estava com 9 títulos à mão. Foi quando solicitei a ajuda de um vendedor. O rapaz, muito atencioso, não apenas me ajudou a escolher os 3 títulos que eu trouxe pra casa mas me levou para conhecer outros autores dentro da área que estava buscando. No final eu perguntei se ele havia feito filosofia. A resposta foi positiva e então adentramos em assuntos diversos sobre educação, filosofia, teologia e realidade. 

A diferença se faz não com belas palavras nem com atitudes para inflar o ego frente a holofotes. A coisa quanto mais simples, mais próxima da alma se achega. O bom dia da ciclista que expressava no seu olhar a vontade de transmitir alegria, a força de vontade do jovem e novato vendedor de tênis que passou um bom tempo explicando sobre as tecnologias de cada um mesmo sabendo que naquele dia eu não iria comprar nada e a transmissão de relevantes informações do vendedor de livros sobre temas variados que desprendeu tempo e boa vontade para me orientar na decisão de escolha foram verdadeiros recortes fotografados pelo click da sensibilidade e que de tão tocante fiz questão de registrar. Não sei se ainda os verei de alguma forma e nos lugares onde cruzamos, mas a experiência que me tocou é algo que é necessário compartilhar e trazer para os meus dias de forma que eu possa aprender mais e mais. São eventos do cotidianos que não precisam de diplomas nem de tecnologia mas de olhos atentos, olhos da alma.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O futuro num passado presente



"O ano é 2020.

O caos tornou-se uma realidade. A ditadura já havia ganhado a cabeça das pessoas. As eleições nem mesmo tinham acabado e a onda de violência já era noticiada. O presidente eleito até tentou conter os ânimos durante o primeiro mês. Só que a situação saiu de controle. Os apoiadores da ditadura sentiam-se não apenas no direito mas no dever de caçar e punir qualquer opositor que se manifestasse. Esse ainda era o ano de 2019.

Medo e insegurança nos olhares das pessoas. Sair de casa era um risco de não voltar mais. Grupos radicais faziam rondas por todas as ruas e bairros de cada cidade. Isso quando a própria polícia era quem reprimia descontroladamente a qualquer suspeito. Subversão e oposição ao sistema já era um crime.

Num dia de domingo fui abordado por policiais e automaticamente acusado de subversão. Minha família foi liberada para voltar pra casa, sem nada dizer, sem ter a quem recorrer. Nesse momento, o Estado era o dono da minha vida. O castigo era inevitável. Queriam, a todo custo, e por todos os meios, que eu assumisse uma culpa que não era devida. O meu silêncio custou caro, muita dor, muito sofrimento... e um fim iminente.

A pena de morte foi instituída nos primeiros meses do novo governo. Não precisava mais de um crime para ser penalizado e mandado para o abate. Bastava apenas pensar diferente... Esse foi o meu caso. Não deixei de escrever os pensamentos que iam de encontro ao sistema opressor. Não apenas eu, mas uma leva de companheiros e companheiras, tivemos o mesmo destino...

2019 foi considerado como o ano da caça as bruxas. Uma inquisição moderna que tinha alguns tentáculos religiosos unindo forças ao Estado. A minha sentença já era certa. Seria em praça pública, porém não mais numa fogueira, como na era medieval. Um tiro, por um soldado, ou por um lunático seguidor do governo que se habilitasse. Acredito que, no meu caso, haviam muitos interessados em apertar o gatilho, inclusive amigos e parentes.

Eu tinha direito a um último telefonema e desejei falar com o meu pai. Preferi que ninguém da minha família estivesse presente, mas fiz questão de me despedir e dizer que ele também foi iludido. Não tinha mágoa e por tanto não precisava perdoá-lo de nada, mas a dor que ele carregaria seria apenas dele... 'Adeus, Pai'. E meu corpo tombou numa praça em frente a uma capela."

PS.: Foi apenas um pesadelo, mas não estamos longe disso acontecer com pessoas que amamos.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Entre o caminho e o fim


Sentado na poltrona numa sala de espera com ar condicionado e tendo ainda ao dispor água, café e pão de queijo, aguardava o atendente me liberar. Minutos antes eu havia chegado nessa loja especializada em pneus automotivos e serviços em geral com um veículo para devidos reparos num dos pneus. De tiracolo carreguei um dos diversos livros em processo de leitura. Hoje foi a vez de "Origem" do famoso autor Dan Brown. 

Entre uma página e outra, servia-me das regalias disponíveis, poltrona confortável, ambiente fresquinho, uma boa leitura, cafezinho e pão de queijo. Como a impaciência me acompanha quando é necessário uma determinada espera, várias vezes levantei-me e fui até o saguão onde o veículo se encontrava. O jeito era avançar com a leitura uma vez que ainda não estava pronto.

Água e café eu já sabia que eram disponíveis aos clientes, mas o pão de queijo só me dei conta quando vi uma moça comendo satisfatoriamente. Realmente estava gostoso. 

Passaram-se mais alguns minutos do tempo e umas folhas da "Origem" quando notei dois meninos que aparentavam 10 e 14 anos no máximo adentrarem aquela sala. O mais velho ofereceu verduras que estaria vendendo. Eu apenas agradeci e talvez tenha sido o único a responder. Foram direto para o bebedouro e novamente o mais velho pediu permissão para tomar um pouco daquela água. Não ouvi resposta da atendente, mas acredito que ela tenha consentido apenas com um gesto. O mais novo aproveitou e se serviu de um cafezinho. 

O que mais me chamou a atenção foi quando percebi que ambos estavam com fome. Não demoraram muito ali mas o suficiente para comer o máximo de pão de queijo possível. O mais novo, sem pestanejar colocou alguns no bolso de sua calça. Quando ele se virou para sair fingi que nada vi para não constrangê-lo. 

São vários pontos para se pensar. Ninguém está nem aí para o que o outro está passando. Somos uma sociedade hipócrita. Pelo jeito os meninos são frequentadores dessa loja, ou melhor, do que ela oferece aos seus clientes. A desculpa da água sempre cola e talvez os funcionários e a gerente façam vistas grossas como uma forma de ajudá-los a saciar sua sede e fome. Crianças que trabalham no tempo em que deveriam estar na escola. Muitos julgam que quem não se esforça não consegue vencer na vida. Como vencer a fome e a miséria do dia a dia? 

Não vi tristeza em seus olhares. Entraram conversando e assim saíram, sem algazarra. Pareciam irmãos, tamanha sua intimidade e cumplicidade nos tratos um com o outro. Cenas assim me fazem repensar não apenas na importância de viver bem e com intensidade mas, principalmente, em não desperdiçar o tempo com coisas medíocres. Não acredito que estejamos aqui de passagem, existe um objetivo maior, mas nunca entenderemos o sentido da vida se não nos lançarmos nessa travessia. A felicidade não é um fim, ela é o próprio caminho.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Cenas do cotidiano


Cena 1: Adentrei ao supermercado como sempre para comprar aqueles pãezinhos feitos na hora. Fila pequena, apenas um senhor na minha frente. Num espaço pequeno em que duas pessoas por vez podem escolher seus pães, ele iniciou um assunto que aos poucos me fez atentar. "Um dia meu pai tirou um dente meu no tapa. Ele me chamou e ao invés de responder 'sim senhor' apenas falei 'oi papai'. Eu tinha 5 anos de idade e quando cheguei perto dele levei um tapa na boca que meu dente voou longe. Tudo porque não respondi 'sim senhor'. Nunca me esqueci dessa lição..." disse o senhor. Peguei meu pacote de pães, passei pela fila do caixa e fui para casa, pensando...

Cena 2: Parei de moto aguardando o semáforo liberar para eu prosseguir rumo ao meu destino e enquanto isso observei, no canteiro central da avenida que atravessaria, um rapaz que faz malabarismos em troca de alguns trocados brincando com um filhotinho de cachorro sobre a grama. Cachorrinho bem cuidado, de coleira, pacote de ração do lado e muita atenção de seu dono. Uma verdadeira distração aos motoristas que param para aguardar sua vez de prosseguir. Abriu o sinal, minha vez de acelerar e seguir adiante, pensando...

Cena 3: Fui até um posto de combustível para calibrar os pneus da moto. Enquanto o fazia vi ao fundo um funcionário sentado ao chão do local onde realizam troca de óleo, almoçando de marmita na mão. Concentrado em sua refeição que não arredava os olhos para lugar algum. Parecia pensativo sobre a vida durante o tempo que saciava sua fome. Mais uma vez parti, pensando...

Cena 4: Homens da prefeitura recolhendo pertences de pessoas que dorme sobre papelões nos canteiros das avenidas. Homens em bando, de crachás e luvas nas mãos, óculos escuros e pouca conversa, cumpriam ordens e obrigações. Sua tarefa? Retirar tudo aquilo que polui o ambiente visual da cidade. Eu? Sigo juntando as peças de cada cena, pensando... 

Pensando sobre tempos severos de pessoas que sobreviveram à rigidez e brutalidade da educação de antigamente. Pensando sobre o amor daqueles que nada tem podem dar a outros seres muitas vezes abandonados por seus antigos donos. Pensando no sacrifício daquele que se sujeita a muita coisa para dar o melhor aos seus. Pensando que somos escravos e senhores, vítimas e culpados, cegos, inocentes e coniventes com todo tipo de sistema opressor que paira sobre nossas vidas... Apenas, pensando...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

"Por que tanta matança?"


A pergunta do título é de autoria de um estrangeiro que fazia intercâmbio, segundo informações dadas pela internet, aqui no Brasil, especificamente em Uberlândia. Em uma carta encontrada no armário da empresa em que trabalhava o africano, cujo país de origem é a República do Congo, havia uma reflexão questionando o porquê de tanta crueldade e matança entres os seres humanos, que ainda segundo ele muitas pessoas precisam ridicularizar e humilhar a sua própria espécia para se dar bem na vida. Acredito que até já o tenha visto pelas ruas e por motivos diversos, o nome não será revelado aqui uma vez que outras mídias já o fizeram, basta apenas saber que mais uma vida foi tirada de forma violenta.

Tenho enorme respeito pelos que realizam suas travessias pela vida e pelo mundo. Não é fácil deixar sua Pátria e partir, na maioria das vezes rumo a um destino incerto, em busca de um sonho que muitas vezes torna-se um pesadelo. No bairro onde moro existem várias residências de estrangeiros. São pessoas alegres, extrovertidas, imigrantes que ousaram arriscar a sorte noutro lugar acreditando que lá fora, além das fronteiras, bastaria apenas a oportunidade de se dedicar a algo para que sua vida mudasse. 

Como já mencionei, a travessia não é fácil. São muitos os percalços que pairam no caminho e dificultam a continuidade do caminhar. Tive a oportunidade, ou melhor, a ousadia e determinação de realizar as minhas sendo que a mais difícil foi deixar minha cidade natal rumo à capital. O medo, óbvio que não deixou de me acompanhar, mas o sonho e a fé me encorajaram a seguir na luta. Cá estou. E por isso, por todo um contexto que não cabe em palavras, quando vejo ou conheço pessoas que fizeram algo parecido ou ainda maior, simplesmente ressalto meu respeito. 

Até onde pesquisei, ainda não se sabia se o corpo do jovem imigrante seria enterrado em Uberlândia ou voltaria para seu país de origem. Penso na dor da perda que os seus familiares, que lá ficaram, estão sentindo e, pior, sem saber os motivos pelos quais sua vida foi ceifada. A investigação sobre o crime seguirá por mais um tempo e talvez os assassinos nem serão encontrados. O caso será esquecido bem antes de um próximo jogo de futebol e a dor dos seus será um sepulcro aberto em seus corações que a cada dia enterrarão um pouquinho daquele que deixou saudades.

E com essa frase, também de autoria do jovem estrangeiro, finalizo esse texto: "Para quem tem fé, a vida nunca tem fim".

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Sociedade Secreta: das regras à realidade.


Reza a lenda que um grupo secreto foi criado por homens com o objetivo de guardar um segredo milenar. O segredo porém, só os membros que atingissem o grau mais alto da hierarquia interna da organização, após longo e indeterminado tempo de preparo e espera, provando merecimento e lealdade, estaria apto para guardá-lo.

Antes, para fazer parte deste seleto grupo de homens distintos é necessário passar pelo crivo de membros mais antigos dentre outros processos investigativos que variam desde a conduta social, profissional e religiosa até a renda mensal, considerando para este último quesito, que o candidato deve ter uma condição financeira notável. Após ser escolhido, convidado e aprovado é necessário ainda passar pelo rito de iniciação e só assim será considerado como membro da irmandade.

O que se prega nas reuniões semanais é a necessidade da expansão da sociedade secreta, visando a ajuda mutua entre os membros, que em sua maioria exercem cargos de destaque e influência na sociedade. Há uma segunda intenção que é a de fazer algum tipo de caridade na sociedade, levando em conta a necessidade extrema de destacar os feitos, a título de honras e méritos. Tudo o que acontece no interior deve ser mantido sob segredo, sujeito a sanções para quem infringir as regras. Em épocas medievais, os que as transgrediam tinham o pescoço cortado de ombro a ombro.

A justiça, a verdade, a conduta moral e ética são pontos de extrema relevância, que cada membro deve carregar em si e exercer, para que mantenha a imagem da sociedade secreta sempre bem vista. Esse é um relato que conheço por experiência e talvez eu não tenha muita coisa pra detalhar do que vi e ouvi lá dentro mas posso dizer que o que se prega não se vive. A curiosidade me levou até lá e a decepção me fez sair.

Dias atrás deparei-me com um membro da organização que já era antigo na casa quando lá cheguei. Nosso encontro permitiu-me relembrá-lo da minha pessoa. Estou afastado a um bom tempo e isso com certeza contribuiu para a demora de sua lembrança. O fato marcante deste encontro se deu pela situação que nos deparamos. Uma sala de audiência em que eu representava a parte autora e ele defendia o acusado.

O histórico e os motivos são desnecessários mas posso garantir que minha escolha em sair desta irmandade foi certeira. Não precisamos estar inseridos em grupos, sociedades ou religiões para desempenhar o papel de um bom cidadão e ter uma conduta social ilibada, mantendo a justiça sempre à frente de nossas mais importantes decisões. O que ficou de lembrança é apenas a mais celebre palavra, tão usada por quem cobra atitudes de terceiros enquanto sua própria conduta não condiz com as regras, tampouco com suas próprias pregações: hipocrisia.

Contudo, para finalizar, escolhi a frase de um desenho animado que pode muito bem ser levada a sério, especialmente no que tange o tal segredo milenar que a poucos homens de boa fé é revelado: "O segredo do tempero da sopa de vegetais é que não existe segredo" (By: Kung Fu Panda).

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O capeta anda mal falado no bairro

Meu bairro é o bicho pegando. Tem de tudo e para todos os gostos. Gente boa, bonita, rezadeira, trabalhadeira e que pega no batente antes mesmo da lua se esconder. Mas tem também a galera da muvuca, das noitadas, das quebradas, da vadiagem, da fuleiragem, os que gostam da marvada pinga, os fãs do cigarrinho do barato doido e os que incorporam o demonho. E o episódio de hoje é sobre um desses possuídos.

As igrejas neo-pentecostais, aquelas da teologia da prosperidade, bem como algumas alas católicas, têm investido alto na implantação da cultura do medo. Capetizando a torto e a direito, vão massificando os fieis sob a tutela de suas exageradas leis e consequentemente propagando a condenação ao inferno quando os mesmos não caem em suas pregações alienantes. A expansão dos templos, com denominações criativamente diversas, é simplesmente fenomenal e a busca por um lugar que contemple os anseios pessoais de cada fiel se caracteriza na constante migração de uma igreja para outra. Na verdade é um cliente que de fiel não tem nada.

A partir desse ponto e com tanta informação sobre o capiroto (demonização, capetização, possuimento), os fieis são portadores de um conhecimento típico dos pregadores despreparados que usurpam a boa fé das pessoas de bem. 

Chegando no bairro, novamente me deparo com umas trinta pessoas na esquina ao redor de um rapaz que, no exato momento, estava seguro por um outro homem. Perguntei para um telespectador o que havia acontecido: "Tá possuído! Tá com o demônio no corpo! Mas aqui não tem ninguém com o Espírito Santo, capaz de fazer ele ficar bom!"

O conhecimento popular não me permitiu hesitar nem por um minuto e já perguntei na lata: "Ele usa drogas?" E foi quando a senhora respondeu: "Tinha parado..." Bom, não sub-julgando e nem condenando (...), mas outro dia uma mulher estava endemoniada na avenida principal aqui do bairro. Enquanto o pastor tentava curá-la eu liguei pros Bombeiros. Ela tomou uma injeção ungida de glicose que a fez reencontrar sua paz. Cessaram os gritos, os coices, as vozes esquisitas, os choros, os risos, os palavrões e ficou somente uma espécie de amnésia necessária, típica de quem bebeu todas e tem vergonha de se lembrar dos episódios passados.

Tomei o rumo de casa e passei devagar próximo às pessoas que assistiam o rapaz, que segundo os especialistas populares de plantão, estava possuído e não havia nenhum ungido ali capaz de fazer uma descapetização. Nesse caso, nada melhor do que uma glicose benta para tirar qualquer encosto e livrar o capeta dos falatórios exagerados. 

"Toca", terrinha boa! Sempre tem um bom causo...

Acredito que em Piraju essas coisas não aconteçam.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Tempos de busão: Piraju X Ourinhos (SP)

Momentos atrás recordava-me um período de trabalho e faculdade quando ainda morava em Piraju, interior de São Paulo. Trabalhava durante o dia e viajava em média 130 quilômetros, entre ida e volta, de segunda à sexta até a cidade de Ourinhos onde cursava Administração de Empresas. Foram sacrificantes cinco anos, de 94 a 98, mas que valeram muito a pena. Dificuldades das mais variadas possíveis, muitas histórias e amizades que se eternizaram.

Por conta da minha cidade natal não ter Faculdades ela disponibilizava ônibus que transportavam os alunos às escolas técnicas e faculdades situadas nas cidades vizinhas: Avaré (SP), Ipaussu (SP), Ourinhos (SP), Marília (SP) e Jacarezinho (PR). Óbvio que não era de graça. Havia um custo repassado aos usuários do transporte. E mais óbvio ainda imaginar que a maioria dos que necessitavam do ônibus eram jovens que se autossustentavam.

Vale lembrar, com muito orgulho e respeito, que estudei em escola pública nos antigos primeiro e segundo grau, Moreira Porto e Nhonhô Braga, respectivamente. Excelentes professores e claro, não dava para ter a simpatia por todos mas, sem exceção, foram excelentes no cumprimento de seu dever. Uns mais profissionais, outros mais amorosos e aqueles que possuíam os dois adjetivos.

Penúltimo ano de faculdade ou o último talvez. Não lembro ao certo e também não tem muita importância. Estávamos num período de eleições municipais e devido à dificuldade em saber se haveria ou não apoio da prefeitura para contratar uma empresa de ônibus para transportar os alunos às cidades vizinhas nos anos seguintes, mesmo tendo 100% do custo repassado a nós usuários, resolvemos criar uma comissão e questionar os candidatos.

A preparação foi ótima. Na verdade arquitetamos um debate na Casa da Cultura. Posso dizer que a preparação foi melhor que o resultado. Sempre assim, a escalada da montanha traz mais experiência entre cansaço e prazer do que a chegada ao topo propriamente dita. Nós, que tomamos a frente do evento, crescemos enquanto pessoas e literalmente exercemos o papel de jovens cidadãos. Lutamos pelo nosso interesse e pelo de todos os estudantes que utilizavam o serviço de transporte, mesmo não tendo o comparecimento de 10% deles. 

Mas, ainda não era essa a lembrança maior. Não me contendo, pra variar, assumi a responsabilidade num determinado ano, talvez o de 97 ou 98. Enquanto "coordenador do busão" todo final de mês eu fazia um relatório dos dias úteis que utilizaríamos o transporte no mês seguinte e as devidas contas para se chegar ao valor que cada usuário deveria desembolsar. Apresentava o resultado ao então responsável da época, o Sr. Pedro Rocha. Pelo que me recordo, nunca tivemos divergência no quesito valores e o mesmo resultado era apresentado à toda galera do busão.

Era de costume, pelo menos ouvi isso de algumas pessoas, que o coordenador do ônibus não pagava a sua mensalidade. Como ele já assumia toda a responsabilidade em estar à frente das situações, inclusive participar de reuniões com o responsável da prefeitura e intermediar o diálogo entre usuários e a máquina administrativa, seu benefício era estar isento do pagamento. Como o ônibus tinha um preço fixo mensal, acredito que o valor acabava sendo rateado pelo restante dos colegas. 

Sendo assim, quando resolvi assumir a bronca, tivemos uma proposta diferente. Não havia um pagamento mensal fixo. Pagávamos pelos dias úteis utilizados e o valor era razoavelmente variado, mês a mês. Por isso era necessário fazer as contas antecipadamente. Tínhamos um valor de viagem diária. Desse valor multiplicávamos pelos dias que utilizaríamos e desse montante dividíamos pelo número de usuários. Um outro porém: haviam alunos de várias escolas e com calendários letivos variados, o que acarretava uma certa dificuldade na elaboração do custo mensal. No final, foi bom para todos. 

De tudo isso posso dizer hoje, com muito orgulho, que eu paguei todas as mensalidades no período em que estive à frente do busão. As planilhas eram apresentadas a todos. Estava à mostra para quem quisesse conferir. Claro que haviam possibilidades infinitas de burlar as regras, dar um jeitinho, pagar de malandro e deixar de cumprir com a minha parte, afinal eu estava assumindo uma função que me demandava tempo e dor de cabeça. Mas, honrei com meus amigos, colegas de transporte e principalmente com minha consciência. 

Hoje posso contar ao meu filho e dizer o quanto foi bom optar por fazer diferente. Consciência tranquila e a certeza de que fiz a coisa certa em prol da maioria, mesmo sendo essa maioria pessoas que não eram do meu convívio diário. 

Aos meus amigos do busão e do provão:
Cristiane, Carla, Flamínio, Flávio, Cristiano, Soraia, Valdir. 

* Foto: 1º Grito dos Excluídos realizado pela Pastoral da Juventude - Piraju-SP - 07/09/1999.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um mínimo de utopia: dignidade

Uma boca de sorrisos imperfeitos. Olheiras profundas que retratam noites mal dormidas ou nem dormidas. A fome saciada sob a sombra de um muro qualquer num dia indeterminado em que uma nobre alma quis ser caridosa. A comida fora dada numa sacola plástica (...). Ou atirada de longe para não ter contato com o sujeito faminto. Têm "caridades" contaminadas com a hipocrisia religiosa. E por tal fede a enxofre. De longe vi um vulto abrigando-se sentado entre o muro e o portão. O rapaz fez daquela sombra um reduto sagrado para sua refeição. A primeira do dia, da semana, talvez. O sol escaldante das treze horas, creio, seja o único sentimento de sua pertença nesse mundo uma vez que está brilhando para todos. A comida era degustada incontrolavelmente. O talher era sua própria mão. Bermuda, camiseta, chinelos nos sujos pés e um sorriso desmedido. Tão desmedido quanto puro. Serenidade no olhar sombreado pelas fortes olheiras. Ele queria apenas um suco. "A comida eu já tenho, senhor." Atendi o seu pedido mas sabia que era necessário mais para aquele momento. Fui buscar prato e talher mas ele já havia se retirado da sombra. Foi uma partilha em que não fiz o que deveria ter feito de fato e mesmo assim recebi através da força daquele olhar de dignidade as gotas de esperança e de amor para a utopia dos meus dias.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Manhã de um dia qualquer


7:00 horas. Manhã de um dia qualquer que se encaminha na costumeira rotina. Crianças e adolescentes marcham entre a calçada e o sono rumo à escola. Alguns pais acompanham seus filhos. As padarias de portas escancaradas recebem seus fiéis do sagrado pão. As igrejas ainda repousam no silêncio. Ao longe os caminhões rasgam a rodovia fazendo serenata contra o vento. 

Os aviõezinhos do tráfico encenam o protocolo de recolhimento. A noitada no relento é solitária. A movimentação não é intensa por parte da clientela que oriunda de diversos cantos da cidade. Estão sempre no mesmo lugar a partir de determinada hora entre o fim da tarde e a chegada da noite. Suas aparências são de zumbi. Magros, descuidados, com olheiras profundas e sem nenhuma higiene. Figuras conhecidas no bairro. 

Pouco ou quase nada se vê de ações concretas por parte do Estado para acabar com as drogas no bairro. As patrulhas de polícia também conhecem os distintos jovens que fazem parte do esquema de tráfico de drogas. São peixes pequenos, a ponta que tem o papel de vender e entregar o produto para os clientes. A maioria dos que estão nesse meio são usuários viciados. 

Difícil mesmo é colocar as mãos no grandão que comanda o esquema pesado. O cara tem poder. Poder e dinheiro. Carrões, lanchas, imóveis e botecos de fachada. Todo mundo sabe. A polícia também. Nada acontece com o cara. Mas para que o braço armado do Estado que dá as caras no bairro haveria de se preocupar com um sujeito que nem aparece na cadeia alimentar do esquema? Esse sujeito é liso. E a polícia faz de conta que não o conhece...

Enquanto isso um adolescente de cabelo alisado, com um violão pendurado nas costas, aguarda do lado de fora da sua casa a chegada do corpo de bombeiros para então seguir rumo à escola. Sua mãe sofre depressão, tem síndrome do pânico e precisa ser amparada pelo socorro neste dia. Porém, quem chega no local é uma viatura da PM. 

A abordagem do soldado é espetacular. Com ar de ironia pergunta se o garoto é gay. O rapaz lhe responde a altura dizendo que não mas se fosse não seria de sua conta. Enquanto isso a mãe do garoto aparece no portão chorando. Não lhe bastassem os problemas que carrega ainda tinha que ouvir o policial fazendo um desserviço e descumprindo o papel que lhe é devido. 

Pré-julgado por manter um cabelo alisado, que deve fugir aos padrões que estão incutidos na cabeça do policial, o garoto se revolta mas não perde o foco de seus objetivos. Palavras sua. 

Os valores se inverteram e o problema real é deixado de lado através do olhar da hipocrisia social. Respeito? Só com o traficante!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Felicidade para além das regras


Após pensar e escrever sobre o texto anterior, "Relações de antigamente: de essências ou de aparências?", fruto de algumas ocorrências recentes, fiquei sensivelmente tocado a comentar sobre os fatos que comprovam a "Felicidade para além das regras" sob a óptica verídica das pessoas que deram certo em sua segunda, terceira ou décima relação. 

Aos olhos sociais, aqueles que notoriamente também estão sensivelmente atentos a tudo o que acontece na rai soçaite (high society = alta sociedade), ou pra ser mais exato, estão atentos na vida alheia mesmo, uma segunda relação de união não atende aos padrões morais e religiosos pré impostos desde sempre. 

A igreja destina um espaço aos chamados "casais de segunda união". Fazem parte de "quase" tudo o que a santa regra institucional, milimetricamente dogmática, lhes permite. Corrigindo: fazem parte de "quase" nada mesmo! Quase sempre não são bem vistos. Sobram-lhes o serviço mais discreto, braçal por exemplo. Sentar-se à mesa não pode! É uma falsa inclusão, num local que se diz acolhedor, junto à uma comunidade que acredita obter a salvação mantendo-se sob as asas das leis que Deus mandou. E Ele mandou mesmo??? Bem, isso é outra história e já não cabe aqui.

É preciso força para enfrentar as pedras jogadas através dos olhares das pessoas que estão aprisionadas numa relação de aparência e não tem coragem para romper com as regras. A essas cabe-lhes tão somente o altar da crítica à quem ousou ser feliz a seguir os mandamentos e viver na amargura eterna. Muitas relações de vitrine carregam as marcas da infelicidade, do desrespeito e da falta total de amor. Ainda assim, manter-se neste reduto parece-lhes o mais viável.

As destemidas pessoas que investiram o tempo e a dedicação no amor real, desvencilharam-se das amarras ousando deixar uma relação de aparência e, no tempo oportuno, atreveram-se viver numa de essência, merecem tanto respeito quanto quem não quer sair da caverna. O amor está no ar, na livre escolha, com liberdade e autenticidade. Escolhas mal feitas resultam quase sempre em fracasso. Errar faz parte, mas permanecer na escolha errada ninguém merece. Não existe maior condenação do que a infelicidade. Portanto, para isso, é preciso encontrar-se, mesmo que isso signifique romper com o politicamente correto, pois manter-se tutelado sob a pseudo moral é hipocrisia.

Relações de antigamente: de essências ou de aparências?


Lembro bem das palestras que ouvia enquanto participante de grupo de adolescentes e de jovens. Era lindo. Os casais que ministravam eram perfeitamente donos de uma verdade absoluta. Falavam de Deus com propriedade, das regras básicas para a felicidade no amor, respeitando, obviamente, o que deveriam ser normas religiosas, o que eram regras morais para a sociedade e o que era apenas tabu.

Mais de 25 anos se passaram e hoje percebo algumas falhas naquilo que ouvi incessantemente. Conheço e sou amigo de alguns casais que prosperaram na essência da relação a dois. São verdadeiros exemplos. Outros não tiveram tanta sorte e sucumbiram em suas próprias estruturas edificadas sobre a areia. Centraram suas vidas num mundo surreal de normas apenas e plastificaram a relação tornando-a de aparência. De antemão ouso classificar nos quesitos moralismo religioso exacerbado, inexperiência, inocência, falsidade ou hipocrisia, tudo isso fruto de uma exagerada fixação pelas regras doutrinais. Esqueceram de fazer o "céu" valer aqui na terra, sob o teto matrimonial.

Meus avós, que fazem parte dos honrosos casais de antigamente que deram certo, mesmo após a partida de cada um, continuam sendo para mim o maior exemplo de boa relação e superação. Construíram um sólido alicerce, sem frescura, sem muito entendimento doutrinal, mas regado de perseverança, cumplicidade, respeito e amor. Orgulho! Não deixaram nada a desejar aos filhos e netos. Se a descendência não progrediu na questão matrimonial e familiar, com toda certeza não foi culpa deles.

Óbvio que muitos casais que se formaram antes da metade do século passado viveram sob o pilar da aparência social, tão somente. Romper com as aparências era constrangimento, quase um crime que repercutia negativamente entre a sociedade e a família. Existia sim casamentos arranjados e isso não é novidade. Graças a Deus não foi o caso dos meus avós.

Já na segunda metade do século XX, eis alguns exemplos dos quais me refiro no início deste escrito: os casais que pregavam regras de uma perfeita relação mas esqueceram de viver o amor. Focaram nos mandamentos institucionalmente religiosos e moralísticos mas não cederam às boas, pequenas e simples práticas que requer uma relação a dois.

Não quero aqui fazer o papel de acusador aos que um dia estufavam o peito no púlpito a falar do que deveria ou não fazer, certo e errado, bem e mal. Mas, quero sim, mostrar que muitos casais que se formaram longe dos holofotes das religiões também venceram e são felizes até hoje. Portanto, à felicidade e ao amor não cabem regras externas. Vale a intensidade do que se vive, cultivada na essência de cada um, a sós, a dois.

sábado, 9 de julho de 2016

Um pouco de "Cá de dentro"



Os olhinhos estavam brilhando. Expectativa por parte deles. E eu? Nem dá pra falar, tamanha a minha emoção neste encontro... 

Essa semana fui visitar e levar alguns exemplares do livro "Cá de dentro" na escola em que o Felipe estuda, especificamente para toda a sua turma do 7º ano. Alguns rostinhos já são bem conhecidos pois estão juntos desde o maternal. Fiz questão de fazer uma dedicatória para cada um dos alunos e alunas. 

Pré-adolescentes inteligentes, raciocínio rápido, alegres, brincalhões, respeitosos e com um alto astral maravilhosamente contagiante. Me senti à vontade. Contei um pouquinho da paixão pela escrita e como ela despertou em mim. 

Era aula de português. Não podia ser diferente. Devo muito aos meus professores mas tenho um enorme carinho por esta disciplina e pelos mestres que me incentivaram. A recepção foi simplesmente fantástica por parte da professora, coordenadora e diretora.

Acredito muito que naquela turminha existem talentos em formação e grandes apaixonados pela arte de escrever. Que o tempo conserve a essência e a pureza no coração desses jovenzinhos. Que no futuro as lembranças sejam fontes de inspiração e de muita poesia viva. Ousem!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Relatos da infância: dia de chuva



O dia está frio. Chuvoso. O toque final do sino avisa que é hora de ir embora. Material recolhido na mochila. Sigo rumo à saída principal. É preciso passar pelo pátio coberto para não se molhar. A chuva está forte. Coloco o capuz da jaqueta de nailon sobre a cabeça.

No último espaço coberto antes do portão aguardo amedrontado alguém me buscar. Deveria ser meu pai a me esperar. Todos os alunos se foram. Meu pai não estava. Minha única companhia era o medo incomensurável de ficar trancado ali.

Devagar sob a chuva fui me dirigindo até o portão. Olhei para todos os lados e nada via. Atravessei a rua. Nesse momento a chuva já lavava meu rosto das lágrimas. O resto do corpo se esfriava com as roupas encharcadas. Parei debaixo de uma árvore sem hesitar sobre os riscos de se abrigar ali naquela chuva. O medo de permanecer trancado na escola era maior do que o de raios num dia de temporal.

Um carro desconhecido para e um senhor vai até mim. Oferece-me ajuda para me levar em casa. Eu nem sabia onde morava ao certo. Aceitei o convite e entrei em seu carro. As lágrimas já haviam cessado. Ele busca seu filho na escola também. Tal como meu pai deveria ter feito. Desprotegido e abandonado, essa era a sensação. Aguardei-o.

Aquele senhor retorna com seu filho e para minha surpresa meu pai também o acompanha. Percebi que meu pai estava me procurando na escola. Eles devem ter se encontrado e conversado. Acompanhei meu pai até o carro dele. Meu tio também estava lá. O clima não estava dos melhores. Percebi pelas caras bravas. Fomos, enfim, para casa.

Relatar uma história do passado pode ser interessante. Tratar o fato e entendê-lo é melhor. É libertar-se. O medo do abandono na escola foi algo que persistiu durante muito tempo. Dissipou-se com o crescimento e a autonomia. Talvez o medo tenha se extinto ou se transformado, em insegurança, por exemplo. Com a maturidade conseguimos resolver certas questões, mas sempre outras novas surgirão.

Não me lembro de como foi a recepção em casa ao ver minha mãe. Com flashs desse desfecho, parece que consigo ver meu pai fazendo o relatório do ocorrido à ela, que certamente, já devia saber do meu medo...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Convenção nos autos da praça II


Ela rasga de cima a baixo o véu azul, que se descortina sob os raios do sol, em movimentos transloucados, desgovernados e desinibidos. Em rasantes manobras audaciosas, com suas cores que a muito representa, de porte pequeno e velocidade não controlada, ela caça e corre, adormece e enlouquece no ar. É a pipa na mão do garoto que leva seus sonhos no mais alto dos céus no imperativo silêncio que não se corrompe frente aos devaneios sociais que o circundam na praça.

As tribos se encontram como de costume. Hoje porém não tem futsal descalço. A turma que se encontra no espaço fitness está maior e com isso as conversas são mais gritantes bem como as músicas e os subgrupos. Caras e bocas para as selfies que eternizam os instantes.

Hoje tem mais gente dormindo sobre os bancos de pedra. Gente uniformizada que aproveita o tempo do almoço para um cochilo. Os caras da maconha não se intimidam com os pedestres que cruzam a zona franca da praça e continuam em seu ritual enfadonho de tragar, tossir e expelir. Há outros mais tímidos que, acompanhados de um pitbul com focinheira e seguramente amarrado, espero, disfarçam o momento ímpar de fugir daqui em tragadas no baseado.

Uma mãe leva seus três filhos para casa. Ela consegue segurar na mão de dois e o terceiro, o maior, segue ora do lado ora atrás. Há um silêncio que perdura nessa caminhada. Ela aparenta cansaço e ao mesmo tempo atenção para com suas crias. Instinto de mãe.

A tribo dos exímios filósofos do álcool é fiel em seu templo, um espaço já marcado por sobre a grama. Ali ninguém, que não seja desvairado e descomprometido com a vida, pode se achegar. É um recanto para poucos. Eles são telespectadores diante da correria mundana e prostituída que nós protagonizamos. O líquido que desentorpece corpo e alma nunca falta. Preferem o ópio do álcool ao ópio da hipocrisia social. Lá esses são livres.

A solidão também impera em alguns bancos de monólogos pensadores. Pessoas com fone e celular que fogem do tempo, das obrigações e dos problemas ao som das batidas musicais. A música está em todo canto. É necessária. Cada qual com seu estilo e gosto. Ela transcende dimensões, revigora, proporciona reflexão e esperança. É sagrada, principalmente, quando a solidão é a única companheira durante a travessia no deserto.

A praça é uma zona de paz e guerra. Pessoas em paz com as outras e pessoas em guerra consigo mesmo. A vida é paz. Ou guerra, talvez. A violência social ocorre primeiramente no olhar, depois no coração e depois com as mãos. O cenário pode ser visto sob as duas ópticas. Depende qual lado você está vivenciando quando adentrar este cenário...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Convenção nos autos da praça


No acordar do meio dia eles já se colocam a postos em suas trincheiras. Levam seus baixeiros, bornais, mantas e outros apetrechos e estendem sobre a grama da praça. Em seus cantis estão o líquido da misericórdia. Derivações do álcool, das mais concentradas possíveis. À margem do último subnível das mazelas sociais estão as personagens mais destiladas possíveis. Entorpecidas desde sempre, celebram o prazer de não ser ninguém.

Em outra margem, no que restou de uma quadra de esportes, num canto qualquer desta praça, os garotos disputam uma partida fundamental de futsal. Cada jogo é como uma disputa pelo título de um campeonato mundial. A maioria ali chegou após o apito final da escola avisar que a aula deste dia enfim encerrara-se. Alguns ousados desbravadores conseguiram cabular as últimas aulas e desfrutaram mais de seu tempo neste reduto para poucos. Outros ainda, sequer compareceram à escola. Optaram pela quadra da praça. 

Um casal de namorados trocam carícias sentados num banco sob a sombra das grandes árvores. Cena incomum para os dias de hoje. Estão desprovidos de tempo e cegamente tranquilos no cenário que também protagonizam. Eles conversam, se olham, se beijam e o universo para em seu mundo avermelhado de paixão. O único barulho que escutam é dos descompassados corações vibrantes. Nem mesmo o mau cheiro da mistura de maconha que segue carregado pelas rajadas leves de vento é capaz de roubar-lhes a atenção.

Aglomerados noutro pedaço desta praça, num espaço fitness para jovens, adultos e idosos, estão meninos e meninas que, pelo visto, encontram-se sagradamente na mesma hora e local todos os dias após a aula. Papos retos, músicas de celular, muita conversa alta e a necessidade ímpar das relações dessa idade. Estar ali, aparenta estar entre os melhores da turma, os seletos, os mais-mais. Deste grupo, possíveis futuros casais, com certeza, se formarão. Impera no momento as amizades das quais algumas poderão entrar no rol das verdadeiras e eternas.

Na praça não existem flores. Apenas o verde das gramas e das árvores. As maritacas e outros pássaros dividem o topo dos galhos quando não rasgam o baixo céu. O que destoa é o barulho infernal dos motores e seus rastros de fumaça. Nada mais incomoda tanto que a pressa dos motorizados que ignoram todas as regras sociais e as leis que os monitoram. Por isso, prefiro a praça com seus diversos grupos, principalmente o dos mestres e filósofos que agem segundo o único líquido que os mantém sóbrios e protegidos da sociedade: o álcool.

Porém, esses assíduos oradores da praça, nobres e desprovidos com o politicamente correto, são inúteis para todos, para o sistema, para nós. Não passam de pobres desgraçados pela vida. São desprezíveis para as religiões. "Deus, no mínimo, os castigou severamente por estarem aonde estão neste momento. Estão colhendo o fruto de suas escolhas, com certeza...", dirão os hipócritas da fé, da moral e das leis. Há quem pague a passagem para outras cidades, só para não os verem na zona da praça.

Não vejo a vadiagem entre essas distintas pessoas. O que vejo são histórias regadas de derrotas, impressas em olhares e com cicatrizes pelo corpo. Estar aqui neste mundo deve ser um tormento. Acordar e ver as caras de paisagem que ofuscam a natureza ao seu redor é também um martírio diário. E assim caminhamos nós por entre praças. Que não nos falte o líquido do livramento da hipocrisia e do ópio social, pelo amor de Deus!