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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Não há cura para o que não é doença"



A frase, que é título desse artigo, "Não há cura para o que não é doença!", faz parte do texto do Núcleo de Diversidade de Gênero da Comissão de Direitos Humanos¹, que também fez parte da pauta da campanha criada pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) em 2017, ressaltando a importância de colocar a Psicologia a serviço dos Direitos Humanos e contra o conservadorismo

A campanha também se pauta na Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia², assinado por ninguém menos que Ana Maria Bahia Bock, presidente-conselheira na época. Tal Resolução "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual".

Ainda, após grandes conquistas pela e para a Comunidade LGBTQIAP+, erguem-se grandes barreiras e obstáculos discriminatórios e preconceituosos, oriundos da falta de conhecimento científico bem como um estridente negacionismo para se conservar padrões sociais ultrapassados e que deixam à margem todas as pessoas que não se encaixam nas formas de relações consideradas normais.

Tanto no âmbito político quanto, e principalmente, no religioso, existem prós e contras. Não é uma luta em prol da vida e da dignidade humana diante do que a pessoa realmente é e da forma que escolhe viver mas, sim uma luta por poder, como descreveu Michel Foucault em Vigiar e Punir (1975) e Microfísica do Poder (1978): o poder de mandar e desmandar sobre os atos alheios. Não é uma luta de defesa mas  sim uma guerra de imposições. Imposições que vêm regada de ameaças de punições religiosas e sanções sociais com avais políticos. 

São várias formas de prosseguir esse texto, provando biblicamente, teologicamente, filosoficamente, psicologicamente, poeticamente, que simples e puramente "toda vida importa". Assim como o maior princípio deixado como guia para todxs os que seguem sua religião e ou filosofia de vida é o "amor ao próximo", o segundo maior mandamento bíblico, o grande erro que nos leva a um desrespeito por esse próximo é simplesmente o "não amor". E, esse "não amor", que restringe a empatia e o respeito ao próximo, por conta de suas orientações, escolhas, fé, etc, podemos chamar de "pecado" também. Sendo assim, "Pecado é não amar" (Cá de dentro - 2015).

E onde pode chegar a falta de uma orientação responsável seja de cunho religioso, político, social e principalmente profissional, para quem de fato esteja vivendo na corda bamba da vida, entre lapsos de sobrevivência neste mundo e a busca pela libertação de suas dores ocultas através da morte? Em que pese, como já dito acima, tudo pode beneficiar a vida humana ou ser um gatilho para que o pior aconteça. 

Um caso recente que me chamou a atenção foi o suicídio da influenciadora Karol Eller, 36 anos, que, suicidou-se no dia 12/10/23. Apoiadora política da extrema direita, acabou polemizando quando manifestou-se contrária às causas defendidas pela comunidade LGBTQIAP+. Segundo a imprensa, Eller, que era lésbica, "anunciou que tinha passado por "cura gay" no último mês. Ela estava participando de retiros religiosos e disse havia renunciado à sexualidade."³

Conheci uma pessoa no interior de SP, vítima das drogas, fez um retiro espiritual de três dias consecutivos e no final considerava-se liberto e convertido literalmente no caminho do cristianismo. Comentava que sua meta era ser um pregador da boa nova de Jesus Cristo. Até aqui tudo certo e bonito de se contemplar e apoiar. A questão é que, era urgente um acompanhamento de profissionais que lhe dessem o suporte e a direção adequadas para sua sustentação na luta pela libertação do vício. Não o fez, não teve, não buscou e, talvez, não soubesse... Mas o resultado foi que, em menos de dois meses ele estava de volta às drogas e dessa vez, muito pior. 

Karol Eller passou pela experiência religiosa de sentir-se, não curada, mas disposta e apta a renunciar aquilo que é considerado errado para os padrões normais da sociedade e pecado para o cerne de algumas religiões de cunho fundamentalista e ultra conservador. Mexer com questões dessa dimensão implicam muitas coisas, entre elas a responsabilidade por parte de quem lidera tais encontros e cultos. Isso começa com a liderança e vai para altos escalões da hierarquia religiosa. Todxs são responsáveis diretos e indiretos. 

É preciso entender a dor, o trauma, a angústia e os anseios do ser humano antes de prescrever alternativas para uma cura, uma pseudo cura, uma renúncia de si, antes de traçar caminhos únicos, regras propriamente ditas, com o intuito de manter a pessoa enclausurada em si, com dores inimagináveis diante de seus flagelos de renúncias. Cada ser em si é único e merece o devido respeito em sua jornada. Não há uma fórmula comum para padronizar a todxs. Entender que um encontro, ou um retiro espiritual de vários dias, em que todxs os presentes se fortalecem diante do objetivo, se sustentam mutuamente é uma coisa, mas quando encerra-se a euforia dos dias de cantos e orações, aí começa a realidade. Não é uma crítica às religiões, nem à forma de seus cultos mas sim uma crítica direta do conteúdo que é colocado de forma as vezes covarde na tentativa de fazer a pessoa caber dentro de padrões aceitáveis de uma ala da sociedade. 

Espiritualidades, religiões e religiosidades, são caminhos, signos, travessias, opções, possibilidades, de reconexão entre o humano e o sagrado, com propósito de bem maior que envolve a dignidade de si e o respeito ao próximo. Cuidar da vida, é premissa de qualquer instituição. Respeitar é obrigação de todxs. Aceitar só cabe a quem de fato é, ou seja, muitos já travam sua guerra de auto-aceitação e não precisam de mais ninguém para fazer peso contra. Mais uma vez, a todxs, só cabe o respeito. 

E assim sendo, ressalto novamente a importância da Psicologia para acolher e ajudar a pessoa a se aceitar, tomar consciência de si e de toda sua potência, redescobrindo-se enquanto ser único e de opções múltiplas nesse universo de infinitas travessias, protagonizando empoderadamente sua vida sem medo do que as sociedades impõem. A bem da verdade, toda vida importa, o amor salva, a paz de si liberta e a Psicologia está aí para dar voz, vez, luz para essa jornada chamada vida. 


¹ https://crppr.org.br/nao-ha-cura-para-o-que-nao-e-doenca/
² https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/1999/03/resolucao1999_1.pdf
³ https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/10/13/morre-a-influenciadora-karol-eller-aos-36-anos.htm


Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta
*Pós Graduando em Psicanálise, Coaching e Docência do Ensino Superior
@psicriarts_ailton
@escritos_em_tempos
@teologia_para_insatisfeitos

domingo, 25 de dezembro de 2022

Papo de irmãos: "despojar-se de si"



Véspera de Natal de 2022. E como de costume, tradição, eu e meu compadre Fábio, falávamos ao telefone. Nossa comunicação é constante e é como aquele livro gostoso de se ler ou aquela série que nos prende, não importa se paramos alguns dias de ler ou assistir, quando nos conectamos não existe hiato temporal em nossa amizade. Vale ressaltar que somos compadres por duas vezes, fui seu padrinho de casamento e ele padrinho do meu primogênito Felipe. Entre brincadeiras, zoeiras, palavrões vulgarmente carinhosos de amigos e felicitações, caímos em mais um papo sagrado, mas dessa vez sobre O Sagrado. Como parceiros, amigos, companheiros e irmãos pela vida, outras vidas, noutras épocas pelo tempo dessa estrada, nos reservamos o direito de falar aquilo que percebemos faltando ou sobrando no outro. Sempre achamos o meio certo de expor a nossa percepção, esta que se insurge em nosso íntimo em forma de um cuidado especial. Sempre descobrimos um sentido diferenciado que as vezes só percebemos ao longo dos dias. 

E como irmãos, presente da vida para a vida, o ato de preocupar com o outro nos dá as condições necessárias de chamar a atenção quando necessário pois, elogiar quem a gente gosta é fácil mas, ter coragem de puxar a responsabilidade de cuidar do outro é para poucos. Cuidar implica também ser contra, questionar, chacoalhar no sentido de alertar os prós e contras da inércia em que nos encontramos, seja um engessamento no lugar, seja um movimento desenfreado, ambos com riscos iminentes. 

Entre papos e frases aleatórias que trocávamos, eis que surge um questionamento do meu amigo sobre a minha espiritualidade, o contato direto com o Sagrado sem adentrar o quesito religião, ou seja, religiosidade sem denominação religiosa. A abordagem direta de sua parte foi sobre minha crença em Deus e a possibilidade de dar-me o direito de ausentar-me do mundo e conectar-me com o Sagrado, sem envolvimento com trabalhos, apenas eu e o Divino. 

Suas dúvidas em relação ao meu pensamento sobre tal assunto eram palpáveis, explodiam em seu olhar e se manifestavam em palavras ditas com muito cuidado, carinho e sentimento. Adentrar num terreno desses, um terreno amigo porém alheio, em que se mexe no íntimo do outro, não é pra qualquer um. Mas, nossa amizade tem uma potência que ultrapassa barreiras e isso não abala as estruturas. Ele tinha a necessidade de saber como estava minha vida longe do contato com o Sagrado, que a seu ver, necessita de uma intimidade maior e a sós com o Divino, longe do mundo. Expliquei-lhe que tenho uma conexão com o Sagrado mas de outra forma, na figura de cada próximo que cruza meu caminho e isso está longe das paredes de qualquer instituição religiosa. 

Mas, com toda sensibilidade e respeito, ele me contou de sua experiência e isso foi concreto para mim, Trouxe-me um alento de esperança para uma reconexão com a Vida, o Divino, o Sagrado, Deus. Ele ainda falou algo que, com certeza, poucos entenderão: "precisamos nos reconectar com aquele Deus da Cantizani". Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, na vila Cantizani, Piraju-SP, foi o local onde demos nossos primeiros passos dentro da igreja Católica. Missas, catequese, grupo de canto, grupo de adolescentes, grupo de jovens, retiros, encontros, coordenações, teatros, vigílias, serenatas, trabalhos diversos, enfim, muita experiência que é a nossa base para os dias atuais. Entendi então o convite através de sua experiência: resgatar o "eu", ainda certamente inocente para a vida, mas com ânsia de viver, que não se afastava do Sagrado, das raízes, do alicerce... Não podemos esquecer os passos dados dentro da travessia de nossa história.

O que ele me contava era mais que uma história ou experiência, mas um convite a viver algo íntimo, de reconexão com o Sagrado, em que possamos ser apenas o "EU e DEUS", sem pretensões extras em qualquer tipo de envolvimento dentro da comunidade religiosa. E claro que, dentro de nosso momento de pura transcendência num simples diálogo de amigos, percorremos por várias direções do pensamento mas a linha mestra que norteou esse tempo que nos demos um ao outro, foi no intuito mais puro desse meu irmão dividir algo que ele já sabia, poderia ser grandioso para mim também tanto quanto tem sido pra ele. 

O caminho que ele fez para chegar no lugar de onde fala precisou sim se desconectar do mundo, dos afazeres, das atribuições e cargos que ocupa para ser simplesmente ele, aquele menino crescido na Cantizani, com uma fé enraizada na simplicidade e, assim, se reconstruir a partir de experiências da base, do alicerce e do presente. A palavra que, por unanimidade, marcou esse bate papo foi "despojo". Despojar-se de si para adentrar o solo sagrado da pura intimidade e privacidade com Deus. "Ali eu sou apenas o Fábio, da Cantizani, sem pretensões a não ser o de agradecer, rezar, pedir junto a Deus e Nossa Senhora Aparecida", disse meu amigo. 

Apesar de estar sempre me conectando com o Sagrado, Deus, através da intimidade com o próximo que cruza meu caminho, que ao meu ver é um ato concreto de manifestação do Divino, senti na experiência retratada no olhar e no tom de sua voz, do meu querido compadre, algo mais que especial que iam além das palavras. E foi esse sentimento, o do "despojar-se de si", que me fez refletir sobre o meu momento atual e, a partir daí, dessa nossa conversa, senti a necessidade de me permitir experimentar, sem amarras e sem ambições, uma nova forma de viver a experiência do despojo de si para encontrar o Sagrado que habita em mim. 

Papo de irmãos: pra sempre. 








quarta-feira, 23 de maio de 2018

A maior religião de todas


Todo templo é solo sagrado. Merece respeito. A ideia central de sua fundação parte do pressuposto objetivo de propiciar um caminho de salvação aos seus fiéis. Para seguir por este caminho de salvação e fazer parte da seleta gama de merecedores da eternidade celestial é preciso seguir as regras institucionais a risca.

No caso das religiões cristãs, em especial a Católica, uma questão que sempre se mantém no auge das discussões são os fundamentos por detrás das tais regras, principalmente quando confrontadas com o evangelho pregado em único tom maior: amor. Historicamente Jesus confrontou a religião de sua época que, não por acaso, estava conivente com o sistema político. Sua perseguição e morte são o resultado de seu questionamento público e de sua luta para mostrar um caminho alternativo, despojado de alienações institucionais e de falsas morais.

Calaram o homem, mas seus feitos ressoam pelo tempo e a história não deixa estancar o som de sua voz. Para ser seguidor das palavras deste Homem não é necessário hastear nenhuma bandeira institucional, tampouco fazer apologia ao uso abusivo das regras moralmente religiosas em nome dos bons costumes ou de um Deus castigador. Se Sua palavra última sempre foi "amor", então o respeito, o bom senso, a justiça, a igualdade e a luta pela paz são as palavras de ordem que seguem fielmente essa nota. O que parte fora disso é uma pseudotentativa de institucionalizar, manipular e alienar a fé alheia.

Para fazer parte de uma religião não é necessário fazer discurso de salvação, ou de moral religiosa, ou de diabos e tentações, usando como subterfúgio descabido o método de denegrir a fé alheia, principalmente quando a religião do próximo faz parte de uma minoria perseguida historicamente e o autor do pseudodiscurso é um midiático religioso.

Sou Católico, de berço, ainda. Gosto da minha religião. Acredito que seus princípios originais ainda permanecem no coração de uns poucos homens e mulheres de boa fé que agregam as características descritas acima (3ª frase). Esses poucos (as) também não deixam de ser uma minoria, porém consciente, dentro de um amplo contexto que se perde entre o tradicionalismo, o medievalismo, o extremismo, o fanatismo e outros ismos mais. A inocência, a ignorância ou a conivência (ou todas as opções anteriores) são características da maioria e, nesse caso, apontar o que de fato existe "dentro" de casa é o mesmo que anunciar uma guerra.

Mas entre calar em nome de uma pseudopaz institucional, que impõe silêncio aos fiéis e que não aceita questionamento ou contestações, e denunciar os absurdos em nome da religião, de suas regras institucionais ou do Deus castigador usado por ela, com certeza me coloco entre os que se mantêm em frente de batalha e alinhados com a necessidade de mostrar que todo humano é sagrado. Essa é a maior religião de todas.

Enxergar o sagrado no humano é mais do que obrigação religiosa, é o papel de quem hasteia qualquer bandeira de fé. Quer contribuir para um mundo melhor? Acolha, conheça, pesquise, procure saber a origem da religião, sua origem, sua história, seus ritos, aí, quem sabe, passamos a compreender a religiosidade que ali existe e deixamos de caçar um diabo que é apenas fruto de uma imposição histórica e uma perseguição religiosa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Impossibilidades humanas

Um mundo sem impossibilidades, como seria? O que edificaria de fato o ser humano? O que engrandeceria sua existência? Um mundo sem guerra dispensaria a utopia? Um lugar para todos que fosse comum evitaria a disputa pelo poder e a morte? A inexistência das diferenças seria passiva de fraternidade e comunhão? Enfim, se não existissem impossibilidades, o amor existiria plenamente? Ou elas são necessárias para que haja o crescimento do ser e a descoberta do próximo? Impossibilidades humanas, talvez sejam parte da sabedoria divina que a tudo concede e permite através do livre arbítrio.

Sobrevivência e vaidade

Na descrença em que o mundo se planta, ser e estar é uma questão de sobrevivência e vaidade. Limiares que jamais cruzam suas fronteiras. A quem é destinado a lutar pra viver cabe um dedo de sonho e crença. Utopia. Além da cerca a vaidade está para poucos e para tais viver é esbanjar-se até repugnar. Mas se tudo é vaidade, até pra quem não é permitido a encontra em alguma soleira. Há quem ame pela vaidade, há quem não ame também pelo mesmo motivo. Deus mesmo se fez vaidade em sua obra de criação, ou seria o mundo uma vaidade Sua? Ele, em seu trono majestoso, a ouvir a canção da lua que se deleita em estrelas e depois chove lágrimas ao mar, diante do resultado de sua obra, deve lamentar-se pelo deszelo que seu fruto têm neste lugar. Mas, se prometeu liberdade, não há que interferir, é o que regozijam os doutores da vaidade. Se bem que pode vir e lutar e que esteja armado e disposto a sangrar. E, se assiste a tudo porque se emudece? Quer que haja resistência pela sobrevivência mas permite o fruto de suas obras se gladiarem até o vermelho manchar a terra. Mostra-Te aos seus e equilibre essa labuta, essa luta, essa guerra a que tanto assistes...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Debandada das massas

Primeiramente, há de se pensar na escravidão que assolou o passado histórico da humanidade. Será que realmente o ato de libertação dos escravos fez por onde? Libertou ou mascarou as atrocidades? A libertação foi apenas um marco ou de fato foi um pontapé para que as minorias se tornassem livres e independentes da tirania de seus senhores? 

Além dessas duas questões que abrem as fronteiras da dúvida sobre o que de fato aconteceu na história e acontece mascaradamente na atualidade, numa terceira visão, percebo que os senhores de escravo apenas mudaram de nomenclatura e a escravatura mudou de cara. Alguns, inclusive, usam o nome de Deus para implantar a sua ideologia de vida ou o seu sistema teológico de arrecadação, que depende dos ganhos gerados pela mão de obra escrava, alienada e massificada.

O tempo é sempre o melhor remédio, dizem-nos os mais antigos. E a maior novidade é que "nenhuma novidade se eterniza em primeiro lugar no seleto podium", pois num determinado momento será destronada por outra que será mais completa, mais abrangente. Em suma, o ciclo é rotativo. E essa rotatividade também acontece bem no centro do campo das religiões.

Há algo explodindo neste meio, o das massas. Muitas pessoas já se libertaram da culpa que as religiões mais antigas incutiam-lhes, quando procuravam sustentação espiritual e conforto em outras denominações que não fossem a sua de origem. Os líderes, não poucas vezes, condenavam e condenam os infiéis desgarrados que encontram seu caminho em outros templos. Esse medo gerado no âmbito das religiões já não afeta tanto. As pessoas evoluíram e passaram a compreender mais sobre Deus.

Nosso momento está voltado, principalmente, para o pluralismo religioso. E é justamente nesse ponto que evangélicos e carismáticos perdem força. Por um lado, as pessoas sentem a necessidade de se complementarem-se espiritualmente e nem sempre encontram e recarregam sua fé somente numa determinada religião. Por isso, cresce a busca constante por novidades que superem suas expectativas. 

Em segundo lugar, os eventos neo-pentecostais evangélicos, seguido pelo evento carismático católico, elevaram e resumiram a relação busca-encontro-fé-graça (ou milagre) a um momento de pura emoção. Não que não existam resultados potenciais. A questão é que esse "boom" atingiu uma escala altíssima e, de tão alta, não há mais novidade no que se pode esperar. Em suma, as coisas simples ficaram de lado. Sempre se espera um portentoso encontro ou evento ou culto ou missa em que, ao se derramarem em lágrimas, estará certo de que obtiveram o milagre solicitado. Este encanto tem se quebrado gradativamente.

Há também uma terceira questão em evidência, líderes religiosos que não atingem o seu objetivo e fiéis que buscam sempre mais shows do que a essência das palavras são pontos que também podem levar a evasão da massa das igrejas. 

E, em se tratando de debandada, as pessoas vão adquirindo experiência. Já não é uma palavra gritada pela boca de um líder religioso que tocará seu coração. De uma forma ou de outra, percebo que nesse pula-pula de denominação, elas também agregam conhecimento e, por vezes, desistem de seguir as leis dos templos tecendo o seu próprio caminho de diálogo com Deus.

Seja por qualquer um desses motivos, ou de outros não citados aqui, acredito que esses são passos importantes para a libertação das pessoas frente aos sistemas que tendem a massificá-las. Encerro então com outra velha e conhecida frase: "A Casa Grande pira quando a senzala se liberta!"

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sob condicional


"Se?" Sim. Se, caso, contanto que, salvo se, a não ser que, desde que, a menos que, sem que, etc são conjunções subordinativas adverbiais condicionais, ou seja, aquelas que ligam duas orações, sendo uma delas dependente da outra. A oração dependente, introduzida pelas conjunções subordinativas, recebe o nome de oração subordinada. As conjunções condicionais no caso introduzem uma oração que indica a hipótese ou a condição para ocorrência da principal. Nossa! Uma palavrinha pequena - "se" - expressa tanta coisa!

Mas para que tudo isso? Simples. Apenas para falar das questões condicionais de ordem religiosa que, através das leis que regem os bons modos e os costumes da fé propriamente dita, implicam diretamente na conduta "condicionada" de cada indivíduo promovendo-lhe a salvação ou a condenação. Ou, em outras palavras, a alienação e a libertação, respectivamente.

A visão que a estrutura religiosa mantém é que as pessoas só terão a salvação "SE" agirem conforme a instituição dita. Agindo sob a tutela da santa e pecadora igreja estaremos libertos e salvos. O contrário disso seria a condenação, ou seja, o sentenciamento ao fogo do inferno.

Mas, podemos também pensar de forma diferente. Levando em conta a diversidade de dons, carismas, o livre arbítrio, a espiritualidade e a própria fé, as condicionais que a instituição nos dá nem sempre valem como fonte de libertação e possível salvação. Salvação esta que configura ter direito ao Reino dos Céus. Penso até que a frase de Agostinho de Hipona (Fora da igreja não há salvação!) ao longo do tempo foi muito mais usada para exercer uma pressão psicológica e medo sobre os fieis, do que para mostrar um caminho de salvação através do amor e da caridade. Não só foi como ainda continua sendo usada dessa forma deturpada e bem longe da essência ao qual foi pensada e sentida.

"SE" a estrutura condiciona para salvaguardar o direito à salvação, "SE" ela impõe critérios vários para garantir aos fieis a sua entrada ao Reino dos Céus, automaticamente e na contramão, está criando mecanismos que impossibilitam a liberdade individual e, assim sendo, alienando os fieis. Muitas vezes a mensagem salvífica é transmitida de forma deturpada e o que era pra ser fonte de libertação torna-se um aprisionamento através da cultura do medo. E pessoas com medo de questionar a estrutura tornam-se escravas.

E, novamente utilizando a própria "condicional" sempre manifestada pelos cristãos de carteirinha, onde afirmam que só serão salvos aqueles que cumprirem o que a igreja diz, "SE" a instituição trabalha a salvação através da cultura do medo, ela está promovendo a alienação. Então, implica-me profundamente que, agindo e atuando descarregado de certas regras institucionalmente religiosas, conforme o livre arbítrio que me fora legado, consciente da minha fé e da mensagem cristã que é o amor-caridade estarei promovendo a minha libertação e também galgando o caminho da minha salvação. Condenado está aquele que se permitir ser acorrentado pela doutrinação desmedida.

Ailton Domingues de Oliveira
Adm ∞ 
Teo ΑΩ 
Psic Ψ (acadêmico)
Escritor & Poeta

sábado, 11 de junho de 2016

Das almas inquietas


A poesia me permite rezar sem nada dizer. Ela me permite também contemplar o místico do mundo. Viver uma espiritualidade libertada de amarras e libertadora por si só. Posso com ela questionar os doutos da fé ou de qualquer outro sistema e contrapor suas metáforas desvairadas. Apesar do risco da medieval excomunhão eterna dada pelos homens do poder religioso, que se consideram no direito de fazê-lo, e acreditam que são detentores da verdade absoluta, e que este poder lhes garante a dádiva de salvar ou simplesmente condenar a quem contrapõe suas ordens, apesar desses pesares eu assumo tais riscos diante das minhas escolhas.

Perguntaram-me se me tornei ateu ou se briguei com a igreja. Nem "a" nem "b". Continuo cristão. Porém, não compactuo com alguns critérios do sistema institucional, tampouco deixo de manifestar meus pensamentos por conta das classificações que podem me dar. Geralmente quem se encoraja para aplicar algum sermão desmedido e sem fundamento apenas repete o que ouviu algum dia. Nada que possa me colocar numa fogueira santa ou num apedrejamento em praça pública.

Viver a inquietude de não se contentar com as coisas impostas é algo para poucos. Não significa estar "de mal com a vida". Pelo contrário, o gosto da vida sem a imposição das suposições condicionadas é melhor e mais apurado. Questionar o inquestionável e ser taxado de subversivo ou herege é um mero preço pela liberdade do pensamento. Minha auto libertação não depende das mazelas regradas pelos homens e seus sistemas entorpecentes.

Quem vive feliz na submissão, sem questionamento, e obediente às regras, se é o que há de melhor para si, que continue. O livre arbítrio deve realmente ser levado ao pé da letra.

Do mais, posso apenas reafirmar que Jesus foi um cara inquieto, subversivo e considerado um blasfemador, pois sua luta foi contra um sistema religioso e político que oprimia as determinadas classes de pessoas, as grandes mazelas excluídas pelo poder.

Outro cara, acusado de ateu por sua liberta forma de pensar, e inquieto em seu tempo, que até hoje nos ressoa com sua ousadia foi Nietzsche. Os puritanos, os tradicionais e os radicais com certeza estufarão o peito para gritar palavras de ordem, em nome de sua arcaica fé. Afinal, classificar Jesus Cristo e o filósofo Friedrich Nietzsche como pessoas inquietas pode ser uma mega heresia. De qualquer forma o pensamento é livre e cada um tem o seu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De volta pra casa


Nascer tem um sentido: viver.
Morrer é certo. 
Certo?! 
Será?!

Seria a morte um retorno? 
"A morte é uma pausa da individualidade e a volta para o todo." (*)

Ou uma continuidade?
"É crível, é possível. 
Uma travessia para a eternidade.
Um retorno para casa. 
Uma continuidade sem chronos. 
Se a morte é irmã, como dizia Francisco de Assis, a eternidade é mãe. 
Deus é amor. 
Deus é eterno. 
Deus é mãe. 
Estaremos bem, de volta pra casa." (**)

A poesia permite esse tráfego de pensamento louco.
Desordenado para os padrões atuais.
Pensar ainda pode. 
A morte assusta.
Assustador pensar sobre a morte.

De qualquer forma
Estamos sempre partindo
"De volta pra casa..." (***)


(*) Sandra Silva Arantes - comentários em "Pra quando for a hora" - www.escritosemtempos.blogspot.com.br

(**) Ailton Domingues de Oliveira - (Idem, Ibid)

(***) Cássia Éller - "Por equanto"

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Descontruções


E neste processo
Quem tá longe se faz perto
E quem tá perto
Não te quer sentindo
Tantos amigos que eu ganhei de novo e sorrindo
Tanta gente que chegou saindo

A gente espanta
Com essa coisa braba
De quem não quer nada com nada
E não se perde a oportunidade
De usar a língua com vontade
Solta o verbo e não se cansa

Desconstruir-se faz sentido
Eu que já fui encontrado
Vou me fazendo perdido
E buscando razões em outros lados
Escrevendo certo onde tava errado
Retornando em terra que já fui banido

Minhas desconstruções serão eternas
Se Deus quiser serão
Enquanto estiver bem das pernas
Vou reaprendendo a desamarrar
Onde o ensino foi imposição
Vou reconstruir com outro olhar

A certeza certa e imediata
É não se limitar atrás do muro
Deste lado o cego-surdo-mudo
Segue a sua trilha obediente
Precisa agora de um destorpecente
Pra encontrar o rumo de sua jornada

Sigo a vida navegando
Em outras águas me encontrando
Beijando em sonho a minha rosa
Fazendo verso, tramando prosa
Sobrevivo à guerra sem razão
Reaprendendo em minha desconstrução

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Eu me recebo muito mais do que me faço"


Um reencontro com o que há de mais profundo, íntimo, sacramentado e desconhecido, eis a tarefa mística do ser humano ao dar-se conta da necessidade quase lógica de que somente em si terá, não só respostas para as questões mais incertas e descabidas, mas como também a luz na medida necessária para o caminho proposto a seguir. 

As experiências nos possibilitam uma avaliação cada vez mais apurada da trajetória e um olhar mais criterioso e destemido do horizonte. Desnudar-se das roupagens e embrenhar-se na natureza interior, sem temer riscos, intempéries e verdades não ditas é sinal de amadurecimento. Compreender que o sagrado e o profano, inerentes ao ser individual, é muito mais humano que sobrenatural e apocalíptico também faz parte das dádivas adquiridas pelos longos tempos idos.

Destorpecer. Desintoxicar. Destemer. Desamarrar. São inúmeras as palavras que me evocam a libertação e me refrescam com a sensação de liberdade. O que diferencia entre uns e outros é a coragem de ousar conhecer além do que os olhos veem. Há quem desteme os riscos do novo e há os que optam por não cortar cordões umbilicais.

Ninguém encontra a si se não se romper. Rompimento gera desconforto, dor, questionamento, dúvida, falta de sentido, mas é tudo passageiro quando a busca não se finda nesses sintomas. O que vem depois dos movimentos de agitadas águas de mares desconhecidos são novas paisagens, maresias, e infinitas possibilidades de novos frutos, saberes, autoconhecimento.

Na rota das passividades, seja de crescimento ou de diminuição, conforme ressignifica Teilhard Chardin, não há como escolher e santificar uma em detrimento de outra. Ambas participam do imenso universo desconhecido de cada ser. Uma mera semelhança entre causa e efeito ou também um equilíbrio natural entre as forças que atuam em nós, conforme a filosofia chinesa bem explica no Yin Yang: energias opostas, positivo e negativo. Resta a cada um buscar-se. Do mais, "Deus seja louvado"!

Escrito apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia, 5º período de Teologia - FCU - Ailton Domingues de Oliveira - 19/11/15.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Águas profundas

 

Ousar.
É um risco.
Fincar os pés na areia e não partir também é.
Manter-se firme no reduto conhecido, por medo das ondas, é uma opção.

As águas são perigosas mas, também, são apaixonantes, viciantes.
Somente através delas se pode conhecer outras terras, outros céus, outros saberes.
Porém se, por medo dos riscos, não se ousar, a sentença é morrer intacto.
Intacto na inexperiência, no saber restrito, no sonho não contemplado.

Há quem consiga apenas molhar os pés nas águas, mas quando a onda vem mais forte, afasta-se.
Há quem tente ir mais além e ao se dar conta da distância da terra firme, o desespero o sucumbe a voltar.

Há então os que se lançam em águas mais profundas, superam as ondas, conhecem outros mares, outros ares, outros saberes, novos recantos.
Estes não se cansam das águas, nem do tempo e das dificuldades, uma vez que o que se adquire quando se lançam são, no mínimo, uma experiência e um conhecimento novos.

A dificuldade encontrada por quem não se permite experimentar novos saberes, nem ao menos se quer conhecê-los, se dá pela diretriz incorporada de que não existe nenhuma outra verdade que aquela que adotou para si.

Lançar-se em outras águas não significa negar sua origem ou abominar o que lhe incutiram.
Ao contrário, é dar-se a oportunidade de agregar outros conhecimentos e experimentar outras fontes.
Fundamentar-se em seu reduto consagrando-o como único viés plausível e capaz e desprezar o que não se conhece, é prática fadada ao ócio por medo.

Ninguém se constrói sozinho.
Arriscar é preciso.
Ousar, mais ainda.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os imigrantes e o menino poeta


Duas histórias distintas através de um único olhar sobre a vida dos que carregam em si a esperança. Histórias que nunca se cruzaram. Vidas que não se conheceram. Enredo que se tece apenas nos detalhes do coração e que somente a nudez do olhar é capaz de absorver.

Nos arredores da minha rua existem pessoas que vieram de outros lugares. Com certeza são de outro país. Continente, talvez. Imigrantes, é isso! Ressoam uma conversa que não se entende por quem passa perto. Ninguém se aproxima deles. São estranhos. São diferentes. Falam meio gritado. Vivem entre si e isolados do resto do mundo. Creio, são obrigados a se firmarem nessa terra que escolheram para desbravar. São felizes, eu vejo. São tristes, eu percebo. Sinto. Conversam apenas entre os seus. Tenho vontade de ir lá. Meu receio não permite. Então eu escrevo de forma orante. Uma escrita simples e que só cabe a mim e Deus entender.

Tento imaginar o que os fez chegarem nessas terras. Guerras em seu país natal? Massacres, fome, miséria? Como saíram? Como chegaram? Do que vieram? Passaram fome, tiveram medo, foram explorados nessa travessia? A quem deixaram? O que buscam? Queria saber de suas vidas, sua fé, familiares deixados em outro canto do mundo. Queria saber o que esperam daqui. Eu sei que esperam. Carregam em si uma única força que os motiva: a esperança. Tive vontade de aproximar. Mas até o momento essa vontade ficou na inércia da não-ação. 

E dessa força que nos motiva a prosseguir, alimentada pela fé e pelo sonho, eu encontro a esperança. Morrer é um dilema para quem está vivo mas nem todo homem ou mulher vivos conseguem viver. Esses que trazem a insignia da esperança em seus olhares, já são gente libertada e que vive a vida a cada dia. 

Outro dia deparei-me com um menino, adolescente de uns quinze anos de idade, que pensa grande com coisas pequenas. Ele já trabalha duro. Tem traços de homem responsável e sonhador. Tem a arte em seu olhar. Sonha o sonho do poeta com sensibilidade. É diferenciado na prosa. Gosta dos versos e das boas músicas. Pasmei durante a conversa que tivemos ao enxergar tamanha coragem num garoto de pouca idade. É quase um achado para os padrões atuais. 

Primeiramente o adolescente interessou-se pela conversa que eu tinha com outra pessoa, sobre livro de poesia. Começou a perguntar educadamente sobre os meus escritos. Depois abriu-se e disse que também gostava de escrever e de ler. Sua preferência: literatura barroca. O espanto foi grande! Contou-me também, nos minutos que teve ali, sobre sua paixão pela música e os instrumentos que toca. É um garoto diferenciado, sem dúvida alguma, e carregado de esperança. Da minha parte apenas disse que não deve desperdiçar os pensamentos e ao contrário, organizá-los num caderno. Foi assim que eu comecei até chegar ao blog.

Daqui do meu lugar, ou do não-lugar, encontrei em comum no olhar de cada um dos personagens dessa história a certeza da esperança. A gana pelo desbravar de outros mundos, por vezes tão próximos e sem fronteiras, por outras tão guerreados pelas estradas desconhecidas em que se põem a caminhar, essa, é força contida e gritada por gente que ainda tem um pouco de humanidade em seu ser e seu olhar. A esperança assim, não é mérito de poucos abastados. Ela é fruto nascido no coração de poucos e que se expande de tal forma a quem ainda consegue enxergar. Sou imigrante, sou menino poeta, tenho esperança e teimo em viver.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Roupa de Missa


"Recordar é viver." Realmente, e como é bom recordar momentos especiais e pessoas importantes em nossa vida! E é com essa nostalgia que me pus a adocicar o dia com pitadas de boas lembranças regadas de muita saudade. 


No tempo em que morava com meus avôs Joaquim e Iolanda, onde tinha o meu cantinho com todas as minhas roupas, violão, cadernos e uma caixa de brinquedos guardada debaixo da cama, trago muitos ensinamentos expressados de maneira simples mas com uma profundidade de sabedoria indescritível. 

Parar e voltar o pensamento no tempo tem um significado enorme para mim. Não se basta em simplesmente lamentar e chorar pela ausência dos que amo. Vale também celebrar sua Páscoa, sua partida até o lugar que acredito que um dia nos reencontraremos.

Das frases guardadas no baú do coração tem uma que vem à mente cada vez que compro uma roupa nova. "Roupa nova é roupa de Missa!", dizia minha avó. E assim se procedia. As roupas recém compradas eram usadas primeiramente para ir à Igreja, na Missa no domingo de manhã. Era uma espera ansiosa mas valia a pena. Depois, já podia usá-las para outras ocasiões. 

De certa forma sua fala reflete até os dias de hoje. Por mais que eu não cumpra esse preceito tal como me foi passado ainda assim coloco-me a pensar na importância que minha avó dava ao Sagrado, o carinho com que me educava nos conformes da religião e o respeito que tinha para com a Igreja.

Respeitar sem questionar. Assim que sua educação foi baseada. Sei que ela quebrou barreiras para poder dialogar com o meu tempo. Acompanhou até aonde pode. Depois trilhei meu próprio caminho. 

Hoje, tanto tempo depois, eis que estou a interpretar o sentido das poucas palavras dessa frase que ouvi. A 25 ou 30 anos atrás não havia possibilidade de tantos questionamentos, nem tampouco a liberdade religiosa. Ou era de Deus ou era do diabo. Fazer o contrário do que a Igreja pregava era ruim. Era como ajuntar pontos negativos até o final de sua existência e no dia de sua passagem tudo lhe seria mostrado e pesado na balança: boas e más ações. Do resultado a sentença seria dada: céu ou inferno. 

Vó Landa tinha um zelo enorme pela Igreja, um amor admirável. Legião de Maria, Apostolado da Oração, Grupo de Oração e principalmente a Missa, não media esforços para dedicar seu tempo. Dia de novena de Nossa Senhora Aparecida não perdia uma. As rezas da Campanha da Fraternidade, do Natal e outras também estava lá. Queria me ver tocando violão na igreja. E eu o fiz. Mesmo em dias que demorava a voltar do passeio do sábado, as 7:30 horas da manhã de domingo já estava a postos para a Missa. Ai se não fosse!

Seu entendimento era limitado, tanto quanto sua pouca leitura. Praticamente soletrava picotadamente cada palavra quando se dispunha a ler a Bíblia. E lia todos os dias. Sabedoria, fé, respeito, amor, é isso que se resume aquela frase. Talvez quem leia ache graça ou até mesmo um absurdo, em dias de tanta tecnologia e liberdade desmedida, alguém se prestar a encontrar sentido numa frase dita a um adolescente a 30 anos atrás. Não importa! Cada um carrega e guarda aquilo que lhe convém. 

Estudarei eternamente tentando encontrar respostas para o sentido das coisas, frequentarei academias e me dedicarei a compreender ao menos um pouquinho sobre a fé que move montanhas mas tenho certeza: jamais alcançarei a sabedoria que eles tinham; jamais possuirei a fé que eles viviam. Levarei, então, por toda a minha existência tudo quanto eu puder carregar de seus ensinamentos, de suas sabedorias, de suas vidas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Crer e pensar para não se alienar - por Gilson Rocha

 É com satisfação que apresento e publico aqui, em "Escritos em Tempos", um texto de Gilson Rocha, amigo e também colega do curso de Teologia. É um pensamento intrigante, questionador, portanto nada convencional e que contrapõe muito do que nos foi ensinado, repassado ou imposto de forma não intencional. Vale a pena a leitura. Ailton Domingues de Oliveira





Vivemos num mundo da lógica, cerceados pelo acaso. Ando pelas ruas, e percebo a maravilha da criação. De uma pequenina flor que nasce na calçada ao complexo funcionamento do cérebro humano, que processa simultaneamente uma quantidade incrível de informações, que reconhece todas as cores e objetos que vê, que assimila a temperatura a sua volta, que escuta os sons ao seu redor... Torna-se evidente que crer na existência de um Ser Supremo - autor da ordem natural - não é uma questão de lógica, é um fato. Sim! Deus existe!

Ao mesmo tempo, observo as ações humanas - o descaso, a miséria, a sede por poder e a ganância -, fechados em sua individualidade, e me pergunto se este Ser Divino está conosco e nos acompanha em nossos atos. Nesse ponto, o questionamento e a falta da razão me ensurdecem. Como pode Deus, que é onipotente, onipresente e onisciente permitir que um filho venha a este mundo e morra por falta de um pedaço de pão? Ou que aconteça uma catástrofe de qualquer ordem que destrua a vida de centenas de famílias? Ou que exista tanta violência contra indefesos e fragilizados na sociedade em que vivemos?

Existe uma justificativa muito plausível que trata de um diálogo sobre a existência de Deus numa barbearia. O personagem descrente aponta que existem pessoas com o cabelo grande e barba mal tratada. Este fato, pela lógica, sustentaria a tese de que não existe o profissional. O barbeiro rebate dizendo que são as pessoas que não o procuram. A premissa é aplicada a Deus, que também existe; o problema é que as pessoas não o procuram. Mas isso traz um problema crucial quando inclui uma condição para o amor divino, e ao mesmo tempo não justifica que os bons e fiéis aos ensinamentos divinos também sofram com injustiças generalizadas.

Nesse ponto, a tese do livro arbítrio me parece o conceito exato que embasa o meu questionamento. Mas, ao mesmo tempo em que resolve algumas questões, levanta outras piores e mais ameaçadoras para a estrutura hierárquica e espiritual. Uma delas é: Se Deus não intervém em nossa realidade (pelo respeito ao livre arbítrio), qual seria o sentido de rezar ou pedir a intercessão divina? E se a razão de não intervir seja o fato de ele não poder fazê-lo? Mais complicado ainda, pois teríamos a ação de um elemento limitador do divino, ou seja, um SPP - Ser Supremo Superior.

Gosto de uma alegoria que compara a vida da “consciência” – ou alma, se preferir – a ciclos de passagem. Ela considera cada estágio como um percurso, e da mesma forma que passamos pelo ciclo da maternidade durante os nove meses da vida intrauterina, estamos também passando pela vida que conhecemos. Sempre me recordo do final do filme “MIB – homens de preto”, onde toda a galáxia que conhecemos não passa de uma bolinha de gude nas mãos de uma criança extraterrestre. Então, cada estágio tem suas peculiaridades e sua finitude. Mesmo que quiséssemos voltar à barriga materna, não sobreviveríamos àquelas condições, fazendo dele um estágio já percorrido que não tem volta. Quando nosso corpo já não mais aguentar, teremos iniciado uma nova jornada, e uma certeza é válida: será totalmente diferente do que conhecemos e até imaginamos, mas mesmo assim, será um novo estágio, e a premissa ainda é válida: não há retorno.

Pensando agora a partir da estrutura eclesial, percebo que a justiça - pelo seu caráter regulatório -, não consegue por si ser um instrumento de controle e motivação populacional, e nesse ponto, a(s) igreja(s) intervém com maior sucesso por estabelecer regras (mandamentos) de um Ser Supremo – inegável – e julgamento (pecado) aos infratores. Para imputar o castigo, justifica-se a criação da figura do Diabo, com um embasamento muito forte e até cativante. Isso responde qual o sentido da igreja enquanto instituição. Mas é perigoso pensar assim, já que a figura de Jesus Cristo enquanto divindade pode ser considerada como um pivô de manipulação em massa com objetivos políticos, em despeito da ação interventora do Ser Divino. E partindo do princípio em que o cristianismo se baseia, prefiro estar redondamente enganado em minhas teses hereges. A história, por sua vez, nos conta que isso é perfeitamente plausível, ainda mais sabendo que o campo da teologia não envolve certezas absolutas. É uma questão de fé! Mas assim também é de mistério.

E de repente, o que faz sentido é o contrário de tudo que me foi ensinado. E se o mal é fruto de escolhas, isso faz da serpente do Éden o motivo da sabedoria que temos hoje. E o mais interessante é perceber que a felicidade que tanto buscamos se faz presente na ignorância, e muito raramente na sapiência!

Tudo isso me leva para o lado de uma teologia de cunho realmente prático, que visa socorrer a humanidade no estágio em que estamos. Mais pautado no “aqui agora”. A humanidade precisa de socorro, e mais urgente que adoradores do invisível, está o cunho social e vivencial. Tratar do humano enquanto humano, nas necessidades básicas e ordinárias que a própria sociedade impõe. Esse modelo libertário de teologia traz consigo os seus atos em favor de uma fé, contrariamente às pautas, tratados e concílios, que antes de mais, parece-me que complicam mais que simplificam. É mais do mesmo.

Gilson Rocha - aluno do 4º Período do Curso de Teologia - FCU

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Felipe em seu primeiro encontro eucarístico


26/04/2015 - 10:00 horas
Foi um dia marcante
Emocionante
Que nenhuma palavra seria capaz de traduzir
Nem dar sentido ao que se sentiu
Ficam as imagens para a posteridade
E as mensagens para a eternidade
Parabéns meu filho
Por sua PRIMEIRA EUCARISTIA.