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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De volta pra casa


Nascer tem um sentido: viver.
Morrer é certo. 
Certo?! 
Será?!

Seria a morte um retorno? 
"A morte é uma pausa da individualidade e a volta para o todo." (*)

Ou uma continuidade?
"É crível, é possível. 
Uma travessia para a eternidade.
Um retorno para casa. 
Uma continuidade sem chronos. 
Se a morte é irmã, como dizia Francisco de Assis, a eternidade é mãe. 
Deus é amor. 
Deus é eterno. 
Deus é mãe. 
Estaremos bem, de volta pra casa." (**)

A poesia permite esse tráfego de pensamento louco.
Desordenado para os padrões atuais.
Pensar ainda pode. 
A morte assusta.
Assustador pensar sobre a morte.

De qualquer forma
Estamos sempre partindo
"De volta pra casa..." (***)


(*) Sandra Silva Arantes - comentários em "Pra quando for a hora" - www.escritosemtempos.blogspot.com.br

(**) Ailton Domingues de Oliveira - (Idem, Ibid)

(***) Cássia Éller - "Por equanto"

domingo, 6 de dezembro de 2015

Aos mestres com carinho - III



Professor. Professores. Então, após dar um passeio no tempo e recordar com saudade sobre os primeiros passos da alfabetização mergulho no presente dessa semana. Dois momentos ímpares que me fizeram pensativo. Ainda mais. Agradecido também.

Segunda feira, último dia de novembro. Estávamos na cantina da faculdade, eu, alguns amigos e o professor Márcio Fernandes, doutorando em Filosofia na USP, que abre o livro "Cá de dentro" e nos lê o poema "Ecos do Tempo". Indescritível a sensação de ouvir o seu pensamento recitado pela boca de um Mestre. Interessante o sentimento que ele depositou ao encontrar-se nessas linhas. Gratificante tudo isso.

Já na terça feira, primeiro dia de dezembro, aconteceu a última avaliação do 5º período do curso de Teologia. Ao me dirigir para entregar a prova o professor Antonio Jacaúna me disse que precisava de umas "Doses diárias" de poesia, de Drumonnd, Quintana. Imaginei que sua vontade tivesse sido despertada ao ler alguns dos meus poemas. A surpresa maior foi quando ele olhou em meus olhos e disse "escrevo porque escrevo". Assim caiu a ficha que ele estava literalmente me dizendo frases do meu livro "Cá de dentro". Fiquei sem palavras e só soube sorrir desconcertado. Gratidão!

No texto anterior citei as minhas primeiras professoras. Neste, comentei sobre dois professores do meu atual curso. Em comum, eu estava apenas escutando. E justamente por isso a frase do Rubem Alves no final deste escrito. Creio que a mesma surpresa ao conseguir escrever e ler as primeiras letras se deu neste outro momento que ouvi minhas poesias recitadas em outras vozes.


Minha admiração é eterna por todos os professores. Admiração! Óbvio que empatia é algo à parte que não se impõe, apenas flui natural ou não.  Encontrei profissionais, mestres, doutores aos quais tive a oportunidade de partilhar meus escritos. A todos vocês, professores do curso de Teologia, que dividiram momentos ímpares em nosso espaço sagrado, simplesmente meu muito obrigado!



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Pra quando for a hora...


Eu vejo mensagens de despedida
Para quem partiu desta vida
Vejo declarações comoventes
Com imagens de um luto indecente

Eu vejo o adeus na boca do humano 
Tão vazio, sem sagrado, sem profano
Vejo, porém, atitudes idealmente surreais
Quando se trata de outros animais

De minhas quimeras, que se façam partes
Em cinzas, me devolvam com arte
À terra, um pouco sob a lápide fria
Para as rezas e os ritos, silêncio da travessia

Outra parte, aos pés de uma roseira
Às águas do Panema, meu rio, uma terceira
E por último nas águas desta terra em que estou
Aonde amei o amor e o amor me amou

Eu sugiro uma bela canção
Nas vozes dos meus amigos do coração
Recitem versos, os meus preferidos
E dispensem aquelas falácias dos meus esquecidos

Abominarei, de onde estiver, e vou
Qualquer menção de quem nunca se importou
E o velho discurso de que fora uma pena não ter ficado
Mais pena é saber de que em vida não fora lembrado

Expulsem a chicote os ausentes
Deixem-me em paz com os meus presentes
Não permitam, eu peço, por favor
Nenhuma lágrima de falsa dor

A herança será o que eu fui, a minha história
E nas entrelinhas jazerá a minha memória
Travessia de um deserto penoso e feliz em flor
Vou aonde há de ser, com fé, saudade e amor

* Para este dia dispensem as tecnologias!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Eu me recebo muito mais do que me faço"


Um reencontro com o que há de mais profundo, íntimo, sacramentado e desconhecido, eis a tarefa mística do ser humano ao dar-se conta da necessidade quase lógica de que somente em si terá, não só respostas para as questões mais incertas e descabidas, mas como também a luz na medida necessária para o caminho proposto a seguir. 

As experiências nos possibilitam uma avaliação cada vez mais apurada da trajetória e um olhar mais criterioso e destemido do horizonte. Desnudar-se das roupagens e embrenhar-se na natureza interior, sem temer riscos, intempéries e verdades não ditas é sinal de amadurecimento. Compreender que o sagrado e o profano, inerentes ao ser individual, é muito mais humano que sobrenatural e apocalíptico também faz parte das dádivas adquiridas pelos longos tempos idos.

Destorpecer. Desintoxicar. Destemer. Desamarrar. São inúmeras as palavras que me evocam a libertação e me refrescam com a sensação de liberdade. O que diferencia entre uns e outros é a coragem de ousar conhecer além do que os olhos veem. Há quem desteme os riscos do novo e há os que optam por não cortar cordões umbilicais.

Ninguém encontra a si se não se romper. Rompimento gera desconforto, dor, questionamento, dúvida, falta de sentido, mas é tudo passageiro quando a busca não se finda nesses sintomas. O que vem depois dos movimentos de agitadas águas de mares desconhecidos são novas paisagens, maresias, e infinitas possibilidades de novos frutos, saberes, autoconhecimento.

Na rota das passividades, seja de crescimento ou de diminuição, conforme ressignifica Teilhard Chardin, não há como escolher e santificar uma em detrimento de outra. Ambas participam do imenso universo desconhecido de cada ser. Uma mera semelhança entre causa e efeito ou também um equilíbrio natural entre as forças que atuam em nós, conforme a filosofia chinesa bem explica no Yin Yang: energias opostas, positivo e negativo. Resta a cada um buscar-se. Do mais, "Deus seja louvado"!

Escrito apresentado na disciplina de Teologia Sistemática V: Pneumatologia e Escatologia, 5º período de Teologia - FCU - Ailton Domingues de Oliveira - 19/11/15.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Águas profundas

 

Ousar.
É um risco.
Fincar os pés na areia e não partir também é.
Manter-se firme no reduto conhecido, por medo das ondas, é uma opção.

As águas são perigosas mas, também, são apaixonantes, viciantes.
Somente através delas se pode conhecer outras terras, outros céus, outros saberes.
Porém se, por medo dos riscos, não se ousar, a sentença é morrer intacto.
Intacto na inexperiência, no saber restrito, no sonho não contemplado.

Há quem consiga apenas molhar os pés nas águas, mas quando a onda vem mais forte, afasta-se.
Há quem tente ir mais além e ao se dar conta da distância da terra firme, o desespero o sucumbe a voltar.

Há então os que se lançam em águas mais profundas, superam as ondas, conhecem outros mares, outros ares, outros saberes, novos recantos.
Estes não se cansam das águas, nem do tempo e das dificuldades, uma vez que o que se adquire quando se lançam são, no mínimo, uma experiência e um conhecimento novos.

A dificuldade encontrada por quem não se permite experimentar novos saberes, nem ao menos se quer conhecê-los, se dá pela diretriz incorporada de que não existe nenhuma outra verdade que aquela que adotou para si.

Lançar-se em outras águas não significa negar sua origem ou abominar o que lhe incutiram.
Ao contrário, é dar-se a oportunidade de agregar outros conhecimentos e experimentar outras fontes.
Fundamentar-se em seu reduto consagrando-o como único viés plausível e capaz e desprezar o que não se conhece, é prática fadada ao ócio por medo.

Ninguém se constrói sozinho.
Arriscar é preciso.
Ousar, mais ainda.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os imigrantes e o menino poeta


Duas histórias distintas através de um único olhar sobre a vida dos que carregam em si a esperança. Histórias que nunca se cruzaram. Vidas que não se conheceram. Enredo que se tece apenas nos detalhes do coração e que somente a nudez do olhar é capaz de absorver.

Nos arredores da minha rua existem pessoas que vieram de outros lugares. Com certeza são de outro país. Continente, talvez. Imigrantes, é isso! Ressoam uma conversa que não se entende por quem passa perto. Ninguém se aproxima deles. São estranhos. São diferentes. Falam meio gritado. Vivem entre si e isolados do resto do mundo. Creio, são obrigados a se firmarem nessa terra que escolheram para desbravar. São felizes, eu vejo. São tristes, eu percebo. Sinto. Conversam apenas entre os seus. Tenho vontade de ir lá. Meu receio não permite. Então eu escrevo de forma orante. Uma escrita simples e que só cabe a mim e Deus entender.

Tento imaginar o que os fez chegarem nessas terras. Guerras em seu país natal? Massacres, fome, miséria? Como saíram? Como chegaram? Do que vieram? Passaram fome, tiveram medo, foram explorados nessa travessia? A quem deixaram? O que buscam? Queria saber de suas vidas, sua fé, familiares deixados em outro canto do mundo. Queria saber o que esperam daqui. Eu sei que esperam. Carregam em si uma única força que os motiva: a esperança. Tive vontade de aproximar. Mas até o momento essa vontade ficou na inércia da não-ação. 

E dessa força que nos motiva a prosseguir, alimentada pela fé e pelo sonho, eu encontro a esperança. Morrer é um dilema para quem está vivo mas nem todo homem ou mulher vivos conseguem viver. Esses que trazem a insignia da esperança em seus olhares, já são gente libertada e que vive a vida a cada dia. 

Outro dia deparei-me com um menino, adolescente de uns quinze anos de idade, que pensa grande com coisas pequenas. Ele já trabalha duro. Tem traços de homem responsável e sonhador. Tem a arte em seu olhar. Sonha o sonho do poeta com sensibilidade. É diferenciado na prosa. Gosta dos versos e das boas músicas. Pasmei durante a conversa que tivemos ao enxergar tamanha coragem num garoto de pouca idade. É quase um achado para os padrões atuais. 

Primeiramente o adolescente interessou-se pela conversa que eu tinha com outra pessoa, sobre livro de poesia. Começou a perguntar educadamente sobre os meus escritos. Depois abriu-se e disse que também gostava de escrever e de ler. Sua preferência: literatura barroca. O espanto foi grande! Contou-me também, nos minutos que teve ali, sobre sua paixão pela música e os instrumentos que toca. É um garoto diferenciado, sem dúvida alguma, e carregado de esperança. Da minha parte apenas disse que não deve desperdiçar os pensamentos e ao contrário, organizá-los num caderno. Foi assim que eu comecei até chegar ao blog.

Daqui do meu lugar, ou do não-lugar, encontrei em comum no olhar de cada um dos personagens dessa história a certeza da esperança. A gana pelo desbravar de outros mundos, por vezes tão próximos e sem fronteiras, por outras tão guerreados pelas estradas desconhecidas em que se põem a caminhar, essa, é força contida e gritada por gente que ainda tem um pouco de humanidade em seu ser e seu olhar. A esperança assim, não é mérito de poucos abastados. Ela é fruto nascido no coração de poucos e que se expande de tal forma a quem ainda consegue enxergar. Sou imigrante, sou menino poeta, tenho esperança e teimo em viver.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Eternamente travessia


Somente uma casa no meio do nada
Sem sombra de pedras
Sem as copas dos monumentos
Que vedam o deleite da lua
E ofuscam as estrelas da cortina escura

Quero o silêncio da terra
O choro dos rios
O canto encantado da passarada
As cores da vida verdadeira
O desfecho que, tão a mim, espera

Quero a menina dos olhos
Dos olhos, a menina, me fulminam
Quero cantar-lhe meus cantos
E quando o pôr do sol se achegar
Tombaremos no regaço do abraço

Hei de recostar na rede
Que jaz permanente na varanda
Chamarei cada qual pelo nome
Enquanto a memória se perfazer viva
E no apagar das velas rezarei novamente

Na mesa grandiosa 
Ao redor comemoram cada meu
Histórias, memórias, glórias
Saudade, pensamentos, esperança
É o espaço de nós

Farei poesia a cada dia
Trarei pertinho meus poetas guerreiros
Entoarei hinos aos mártires
Saudarei minha terra com os meus
Minhas montanhas, meus sertões louvarei

Não guardarei mais passado
Trarei apenas lembranças de vida
Meus escritores para sempre do lado
Enquanto a luz ainda me guiar os olhos
E minha boca prosear sobre os tons

Tão duras estradas até aqui
Tão cruéis meus algozes
Tantos fantasmas que gerei e alimentei
Vão se desfazendo em cada estação que acheguei
E mais uma vez sigo o leito do peito

As cercas não têm porteiras
Bichos e gente vão se achegando
Meu altar é o chão com roseiras
O nascer de cada dia é o presente
Que a gente abre, abraça e sente

Minha história não terá fim
Meu nome ninguém saberá
Entre dores, amores e alegrias
Sei que vivi à frente de qualquer morte
Mas hei que um dia também serei travessia

Flores que rodeiam este sertão
Rios que cortam esta montanha
Fontes que o mundo não me deu
Altar que guerreei para encontrar
Silêncio, oração, esperança, amor: utopia


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cartas do Calabouço - Parte VIII - final



Não quero falar do tempo
Nem do tal amor...
Já não o sei que bicho é este
O que será?
De onde vem?
Como que se pega?
Dói e remedia, sim
Mas, já não sei como é que é
Se é ou não é
Se um dia eu amei
Se ao menos amar eu sei...
Na verdade não quero falar de nada mais
Trago aqui o meu despir
Despindo minhas máscaras
E despedindo por esta carta
Tenho um desejo, sei
De carregar o desejo livre
E isso é despojar-se do mundo inteiro
Tudo ao redor
Nada ao dispor
No voo da liberdade
A solidão é companheira no céu
Aquele culpado e inocente
Assentado como réu
Refém de seus algozes
Paixões do repente ferozes
Assim cá estou
Desmedido de meu eu
Corpo e alma se golpeiam
Razão e fé se contradizem
Minha vida nesta cela
De ossos, carne e sangue
Anseia um respiro mais puro
Sentir o enigma da montanha
Além dos sonhos e da esperança
Alimentar esta criança
Com a bruteza da doce natureza
Cá estamos num diálogo eternal
Sem fim mas que agora encerro
E um dia, quem sabe retomaremos
Sei que estás em mim
E eu em ti
Somos tal corpo e tal alma
Somos tal emoção e tal razão
Somos eu e meu eu
Imagem da imagem
Côncavo e convexo
Que em determinados pontos se contrapõe
Que em momentos vários se esquivam
Que em estações afora embarcam separadamente
Que por inúmeras vezes exigem a separação total
Mas não acontece
Porque somos corpo e alma
Minha cela está aberta
A tranca era de dentro
Valeu-nos as experiências trocadas
De maneira como se separados fôssemos
Hoje o silêncio foi possuidor de tudo
Esse mérito é nosso
Despeço-me daqui
Mas não me entristeço
Porque sei que este silêncio inquietante
É o sinal de que ainda fazemos valer a pena
Entre consciência, alma e corpo...
Pássaro só é livre quando voa
Bons céus para nós!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte VII




Liberdade...
Tanto tempo se faz no tempo
Tanto tempo se faz com tempo
Tanto tempo se perde no tempo
Tanto tempo se perde com tempo

Inimigo seu, caro meu amigo, és tu
O teu silêncio é supérfluo
Entrega-te ao vazio do não agir
E do não falar
Mas inquietante é o seu pensar
Barulhenta é o teu aquietar

A natureza na montanha
Lá, creio agora, talvez seja o seu destino
Quem sabe lá, não se perca em desatinos
Quem sabe no caminhar te encontres num menino
Aquele de alma pura e sonhador
Que tem de menos o medo e de mais o amor

Eis que a montanha é mística
Tem segredos que se revela a cada um
Tem encantos que se perfazem à pureza dos seus
Tem belezas que hipnotizam os mais brutos
Requer porém um tantinho de esforço
Sofrido e merecido esforço em lá se adentrar

A vitória, caro meu inimigo teu
Não é o topo alcançar
Talvez lá chegar seja a meta
Mas o que há de melhor e mais concreto
É a sua travessia
Com todas as estrepolias que nos geram alegrias

Sua insanidade ainda tem alguma razão
Realmente desconheço teu calabouço
Ou teu esconderijo de si mesmo
Concordo sobre seus piores algozes 
Pois estão aprisionados com você
Você os criou e os alimentou

Jamais nos perderemos
Mas, queira querer bem
Contemple a vida...




Cartas do calabouço - Parte VI



Meu inquisidor de nós dois
Quanto mais me entrego ao silêncio
Mais o barulho teima explodir em mim
E o estrago é grande

Não fiz escolha alguma
Ou, se fiz, não sei mais qual foi
Só sei que aqui estou
Resultado do que trilhei
Quando consigo, encontro a janela
E arrisco olhar por ela
Vejo verde, vejo azul
Ouço a água batendo na pedra
Ouço pássaro cantando
Então vislumbro a montanha distante
É lá que eu quero estar
Vejo então a esperança aproximar
É o passo ao horizonte
Um frescor de novos ares
Voltando a sonhar
Que eu não morra em utopia

Nunca pedi para ficar
Se queres partir
Que vá
Mas te peço
Não me esqueças
Ou mesmo que quisesse
Nossa história não permitiria
Corpo e alma
Razão e emoção
Foram feitos em conformidade
Tem horas que penso
Que o preso és tu
Desta vez, por fora

Tempo?!
O tempo é aniquilador
Fé?!
A fé é resposta pra desesperança
Ouses tu trocar de lugar
Viva o oposto de teus dias
Coloque-se onde estou
Hoje, simplesmente
Quero ousar não dizer nada

Em tempo ainda
Exijo respostas do tempo já vivido
E espero num tempo sofrido
Entender o futuro perseguido
Vivo numa fuga intensa da dor
Do tempo que ainda resta para entender
E livrar-me de meu algoz
É livrar-me deste calabouço
Aqui jazem e vigiam-me
Os meus piores inquisidores


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cartas para o calabouço - Parte V



Tudo é um risco
Viver é um risco
Mas quem não vive corre o risco de morrer sem ter vivido
Paz e bem, meu caro infiel ingrato
Apesar de sua reclusão
Ainda mantem-se inalterado
Inquieto e pelo medo frustrado
Tenta abrigar-se na escuridão de tua cela
Fingindo não haver portas nem janelas
Acreditando encontrar aí a paz
Frente ao silêncio que teimas fazer
Podando-se simplesmente de tua vida
E deixando este avesso do bem lhe imperar

Espinhosa a tua escolha
Eu preferi a coerência da realidade
Não tanto sonhadora ou utópica
Mas, certamente, palpável e passiva de ser vivida
Tu tens te arrastado
Para além da compreensão
Tuas fontes tens aniquilado
Tuas estruturas abaladas
Suas sementes estirpadas
Teus ramos podados
E as raízes cortadas

Confesso, não poucas vezes, a vontade em te deixar
Na prisão de tuas escolhas
Onde tens as chaves de todas as trancas
Ainda assim, teimas em manter-se inerte
Caro algoz de tu mesmo
Veloz é o tempo quando se vive
Ontem mesmo éramos meninos livres
Hoje cá estamos na discorrência filosófica da vida
Buscando razões para as emoções
E encontrando emoções pelas razões
Onde está tua fé?

Não busco entender-te 
Apenas ouvir-te, e esperar-te
Que não tardes a sorrir aos céus
Pois, poderás chegar e encontrar um dia escuro
Ao som de marchas fúnebres
Vendo a morte alheia a lhe sorrir
Enterrando o que havia de melhor a lhe esperar
Lembre-se que para ter a tua tranquilidade da morte
Apaixone-se pela vida

Queres amar, não queres amar
Queres viver, queres se esconder
Queres e não queres a mesma coisa, sempre
E nesse sempre das coisas quistas 
Há de não tê-lo mais
Não quer pagar o preço
Exiges o quê de ti mesmo?
Hã?

Já ousou olhar o dia?
Quando foi este último encontro?
Já vislumbrou o encanto da lua?
Tentou brincar de contar estrelas?
Sob a luz do sol enxergou as cores?
Quando foi a última brisa sentida em tua face?
Escutou as notas cantadas pelos pássaros?
Eu mesmo lhe respondo: Não! 
E já faz muito tempo que jaz vivo em teu confinamento
Que tu chamas cela 
E eu digo que és um sepulcro

Amor, dor...
Então digas!
Realmente digas e sejas!
Sou mesmo teu amigo inquisidor
E assim prefiro por mais difícil seja 
Minhas palavras são verdades
Que rebatem tua atual incapacidade
De querer e não conseguir
Livrar-se das correntes que teimas carregar

Estancastes à toa a esperança
Não queres ousar a entrega
Preferes o sequestro de tua alma
O aprisionamento de teu coração
E a fuga de seus medos
A enfrentar a saga da vida
Com tudo o que há em seus compassos
Livra-te de teu algoz

Estarei por aqui, 
Ainda não sei quanto tempo mais

Teu amigo, inquisidor, porém amigo e fiel.

terça-feira, 31 de março de 2015

Cartas do calabouço - Parte IV




Jamais me entenderás amigo
O máximo que conseguirá
Uma leitura será
Dos meus devaneios escritos
Ainda assim, as entrelinhas
Não lhes serão reveladas

O tempo nos leva ao esquecimento
A memória se perdura na história
Ou vice-versa
Quero ao menos, permanecer na lembrança
Do amor que um dia tive
Ou que não soube tê-lo
Nem vivê-lo
Nem amá-lo
Nem esquecê-lo

Pergunto pro tempo: e agora?
Sinto sua resposta como vento
Pedindo para passar
Ou, sem pedir, vai passando
E já me perco nessa busca sem fim
Não sei se sou eu que corri do tempo
Ou o tempo que fugiu de mim

Quero mesmo é falar de amor
O tempo e o amor
Amar é sofrer, será?
Será mesmo que é esse o tal?
Da relação, o mistério norteador?
Amor e dor
Que relação desastrosa!
Talvez, menos penoso seja
Esquecer-se em si
Sem vivência, sem querência
Mas sem sofrência

A paga é alta meu amigo inquisidor
O tempo custa tempo
O amor custa tempo
O tempo custa ao amor
O amor custa ao amor
E cá perdido estou
No silêncio desta cela
Uma gota, uma quimera
Do que a mim se resta
É a dolorosa espera
De um tempo que há de curar
Ou de um amor que o venha sagrar-se
Pois já cansado estou
De assim ver jorrar o vermelho heroico
E o que passou, de mim levou
O que havia de melhor
Resta-me revirar o baú e a terra
Em busca de uma semente
De amor

Amigo das humanas razões
Voz das mais avessas emoções
Já faz mesmo, tanto tempo assim?
Creio que ouvira certas vozes
Aproximando-se deste recanto impiedoso meu
Não foi falta de vontade
Nem falta de forças
Apenas, não havia o que quisesse ouvir
Nem tampouco algo a responder-lhe

Despeço-me
No estanque da esperança
Ou no balanço de uma nota só
E que não cesse-lhe a alegria
Que já fora-me o esteio mas um dia 
Para mim virou pó
E agora, jaz o passado
De que não quero mais estar atrelado
E remexo a alma em busca de mudança
Aguardo-lhe, novamente, outra vez
Caro meu.

Quanto à letra,
Creio que firmei o golpe
E exigi-me uma à altura
Para que a sua leitura
Não se canse mais na decifração
Meu caro da razão

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cartas para o calabouço - Parte III



Caro amigo, ainda infiel
Se respondestes pela vez primeira
É porque recebeste o meu sentimento escrito
Se o recebeste é porque não estais todo trancafiado
Seu calabouço não é à prova de tudo
Nossa conexão é prova disso
Existe, vez ou outra, uma abertura
Já havia tentado por vezes a comunicação
Porém, tudo em vão
Parecia que tu estavas enterrado
Vivo, porém enterrado

Meu querido infiel
O tempo urge
E tu o foges
São tantas coisas a lhe falar
Das menores às de maior importância
Não tenho noção do tamanho dessa distância
Em que tu se encontras da firme terra
Já se passaram dias, muitos dias
De sol, de calor, de brisa
De noites com chuva fria
Ou de seca e de dor
De escuridão e pavor

Infiel amigo meu
Das muitas coisas que gostaria
De te dizer pessoalmente um dia
Vou tentar aqui expor
De tudo que por essa terra passou
Há coisas que não devemos jamais desistir
Daqueles que a muito gostamos, é uma
Acreditamos, consideramos e juntos lutamos
Eis-me aqui, entre o ir e vir
A te levar um pouquinho seja
Do novo ar, dos bons tempos que tu mesmo almeja

Ah, meu caro e danado infiel
Sobre o tempo quero chamar-te, amigo
Vejo que apesar de tanto tempo neste seu abrigo
O calabouço que tu mesmo o considera assim
Ainda não perdeste de fato a razão
Nem tampouco a profundeza de sua emoção
E sua retórica traz a tona o reflexo a mim
Tempos e mais tempos
E quando estamos cansado do tempo
Tiramos um tempo pro descanso

Amigo infiel
Nossa prosa é séria
O nosso tempo aqui é finito
E com tantos pesares, e falta de humanas essências
Ainda nos prostramos à infinita beleza
Tu perdes tempo
E o perdendo de si
Não construirá seus alicerces
Há um destino que podemos chamar de eternidade
Aqui, o tempo é corriqueiro, passageiro
É o tempo de se plantar, cultivar,
E cativar

Amigo infiel,
Seu abandono sofrido
Tu o repetes para si
Ao abandonar-se nesta cela
Sem querer participar do tempo de hoje
Incomoda-me tanto sua ausência
Sua falta de sentido
A vida ainda é bela
E por ela vale a pena
Tanto pelos que ainda te esperam
Sem saber que tu aí estás
Lembre-se: "A morte é tão íntima com a vida. Esteja preparado."
Só não deixe de viver

Meu caro amigo
Tu já sabes de sua infidelidade
Não comigo, mas consigo mesmo
E é este o maior perigo
Pois já perdeste a noção
Será insanidade?
Sei que ainda tu carregas um coração
Se de razão ou de emoção
De nada importa mais não
Só se dê a devida atenção
Despeço-me aqui
Com o calor te todo o tempo
Com a brisa do momento
E com o frescor do vento
E para a próxima desde já espero
Que tu mesmo queira de algo falar.


PS: Ah, melhore sua letra.