domingo, 11 de janeiro de 2026

Ecos do tempo


Por sobre os trilhos de vento

As pistas e ruelas do invisível

Ecoa sem fronteiras o tempo

Constante de um instante irreversível

 

Por sobre as vielas abstratas 

Aos recantos do anonimato

Bate em retirada de data em data

Entre o retrato e o imediato

 

Por sobre as nuvens de pensamentos

Desliza feito areia nas mãos

Mais certo que o certo é o tempo

O que era o agora, já virou ilusão

 

Feito brisa livre e sem confronto

Uma via de mão única e sem porém

O tempo é passagem que distancia pontos

O que era já não é, mas será também

 

O que os olhos sentiram ficou no coração

Para sempre o eternamente agora

De um homem sem ilusões, a última ilusão

O sonho de um tempo sem tempo que aflora

 

Entre os sonhos de hoje e as lições de amanhã

Um tempo que voa sem asas

Um olhar pela janela do meu divã

Ecos do tempo ao retorno pra casa


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Companheiro de brincadeiras


As vezes me pergunto se algum dia vou crescer, mas em seguida volto à realidade e penso: "crescer pra quê? A quinta série deve ser eterna."

A seriedade das labutas diárias, das rotinas várias, compromissos, burocracias e coisas do mundo entediante dos adultos camuflam a essência do ser que somente enquanto criança é capaz de viver com plenitude. 

Segundo Rubem Alves, em "As contas de vidro e o fio de nylon" (1996), somente as crianças e os avôs são capazes de encontrar a essência da alegria. Os adultos são engessados e só se preocupam com as coisas sérias e chatas. No Psicodrama, de Jacob Levy Moreno (1889 - 1974), chamamos esse enrijecimento de "conserva cultural".

Brincar é um ato sério. O pensamento atribuído a Charles Chaplin (1889 - 1977) descreve bem e enfatiza a seriedade por trás da brincadeira: "Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria." 

Tenho medo do crescer. Não o medo da vida adulta, até porque já estou nela. Não o medo das responsabilidades, mas o medo de perder a mão da leveza que só as crianças têm. A forma mágica com que encaram os desafios é simplesmente encantadora. Tenho comigo que preciso sempre cuidar da criança interior, levá-la aos recantos do faz de conta, das brincadeiras, aos parques da memória, enchê-la das guloseimas da vida, encorajá-la a ser heroína de suas histórias e a alimentar seus sonhos de aquarela. 

Brincar não é falta de seriedade muito menos falta de comprometimento. Brincar é libertador. Brincar é a reconexão com o natural, com o simples, é trazer a criança interior ao protagonismo da cena, ao cenário infinito da imaginação, tirá-la da plateia e realocá-la no centro do palco da vida. O adulto que não sabe brincar não sabe viver.

A criança enxerga o mundo colorido e com alegria, tem solução simples para as equações robustas. O adulto que se permite brincar consegue não se sobrecarregar de bagagens desnecessárias. Anda mais leve e alimenta conexões profundas. 

Levar a vida com uma pitada da essência da criança interior é compartilhar o brilho colorido e a alegria que só os pequenos possuem. E muitas vezes, isso é tudo o que as pessoas precisam. A administração, a teologia, a psicologia, as artes, tudo me contribui para esse lugar, o da alegria. Se "viver é um negócio perigoso", como afirmou Guimarães Rosa em "Grande Sertão, Veredas" (1956), quero viver intensamente, sem perder a criticidade, sem esquecer das responsabilidades, sem ocultar a seriedade, sem perder o equilíbrio das brincadeiras sérias.  

Sigo nessa travessia, nesse legado de viver com alegria em cada canto desse sertão da vida, sendo companheiro fiel de minha história e minhas raízes, honrando o legado da existência e a memória da criança que em mim habita. Como companheiro de brincadeiras, convido para a ciranda viva da vida a todas as almas que buscam a essência da existência. 

 A criança que habita em mim saúda a criança que habita em você!

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O que ninguém vê


Repousa à margem social
Da vida medíocre e sem igual
De uma classe que acusa, julga e condena
Mas que que ao marginalizado não se atenta


Repousa sob a penumbra invisível
Aos olhos de quem menospreza o sofrido
História do carrasco terrível
Memória de quem não se dá por vencido


Repousa sob alertas pichados
Aos cidadãos que estufam de falácias
Um pedido que ecoa silenciado
Pois, sobreviver é afronta, é audácia


Repousa entre muros de papel
Sob os holofotes de olhares e faróis 
Tendo seu teto não menos que o céu
E os papelões como seus lençóis


Repousa ternamente sem berço esplêndido
Um filho teu que luta pela sobrevivência
E foge das armas do olhar pervertido
E dos apontamentos da fria aparência

Repousa nas calçadas sem liberdade
Sem o amor e a esperança dessa terra incerta
Há quem diga que há penhor na igualdade
Mas a verdade é que ela exclui e enterra

Repousa absoluto em seu canteiro
E se ergue sem a clava forte da justiça e esquecido
O que é liberdade, às vezes, é cativeiro
E por fim, nem todo filho é gentilmente reconhecido