As vezes me pergunto se algum dia vou
crescer, mas em seguida volto à realidade e penso: "crescer pra quê? A
quinta série deve ser eterna."
A seriedade das labutas diárias, das
rotinas várias, compromissos, burocracias e coisas do mundo entediante dos
adultos camuflam a essência do ser que somente enquanto criança é capaz de
viver com plenitude.
Segundo Rubem Alves, em "As
contas de vidro e o fio de nylon" (1996), somente as crianças e os avôs
são capazes de encontrar a essência da alegria. Os adultos são engessados e só
se preocupam com as coisas sérias e chatas. No Psicodrama, de Jacob Leyi Moreno (1889 - 1974), chamamos esse enrijecimento de "conserva cultural".
Brincar é um ato sério. O pensamento
atribuído a Charles Chaplin (1889 - 1977) descreve bem e enfatiza a seriedade
por trás da brincadeira: "Se você tivesse acreditado nas minhas
brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer
brincando. Eu falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da
seriedade da plateia que sorria."
Tenho medo do crescer. Não o medo da
vida adulta, até porque já estou nela. Não o medo das responsabilidades, mas o
medo de perder a mão da leveza que só as crianças têm. A forma mágica com que
encaram os desafios é simplesmente encantadora. Tenho comigo que preciso sempre
cuidar da criança interior, levá-la aos recantos do faz de conta, das
brincadeiras, aos parques da memória, enchê-la das guloseimas da vida,
encorajá-la a ser heroína de suas histórias e a alimentar seus sonhos de
aquarela.
Brincar não é falta de seriedade muito
menos falta de comprometimento. Brincar é libertador. Brincar é a reconexão com
o natural, com o simples, é trazer a criança interior ao protagonismo da cena,
ao cenário infinito da imaginação, tirá-la da plateia e realocá-la no centro do
palco da vida. O adulto que não sabe brincar não sabe viver.
A criança enxerga o mundo colorido e
com alegria, tem solução simples para as equações robustas. O adulto que se
permite brincar consegue não se sobrecarregar de bagagens desnecessárias. Anda
mais leve e alimenta conexões profundas.
Levar a vida com uma pitada da essência da criança interior é compartilhar o brilho colorido e a alegria que só os pequenos possuem. E muitas vezes, isso é tudo o que as pessoas precisam. A administração, a teologia, a psicologia, as artes, tudo me contribui para esse lugar, o da alegria. Se "viver é um negócio perigoso", como afirmou Guimarães Rosa em "Grande Sertão, Veredas" (1956), quero viver intensamente, sem perder a criticidade, sem esquecer das responsabilidades, sem ocultar a seriedade, sem perder o equilíbrio das brincadeiras sérias.
Sigo nessa travessia, nesse legado de
viver com alegria em cada canto desse sertão da vida, sendo companheiro fiel de
minha história e minhas raízes, honrando o legado da existência e a memória da
criança que em mim habita. Como companheiro de brincadeiras, convido para a
ciranda viva da vida a todas as almas que buscam a essência da
existência.
A criança que habita em mim
saúda a criança que habita em você!



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