O sertão é o sozinho, é dentro da gente, está em todo lugar. Deus e eu no sertão.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Pensamentos na calada da noite
"Não dá pra ter saudade daquilo que não se viveu, apenas sensações, vazio, inquietude [...]" (12/06/14)
"Após a jornada, a perfeição; após a perfeição, a sabedoria... com o tempo, no tempo, pelo tempo[...]" (25/09/14)
"Não quero um remédio nem um paliativo para amenizar a tempestade. Tudo é proveitoso. Até a desordem se faz necessária para que os móveis sejam reorganizados." (01/10/14)
"Se eu tivesse que escrever uma observação para explicar o sentido de cada escrito não teria sentido algum escrever. Cada um interpreta e dá a devida ênfase como lhe convir, a atenção ou o descarte segundo seu agrado." (08/10/14)
Antes de tudo
"Professor Mestre
Poderia
dizer-lhe
o quão és
inteligente
agraciado abençoado
dedicado humano
cristão
Mas para não
estender em adjetivos
e por acaso
deixar algum de fora
apenas lhe
digo que
antes de tudo
tu és um poeta
tens a leveza
da brisa
e a força da tempestade
a dedicação
de um pai
e a
sensibilidade de uma criança
a arte de ensinar
com a profundidade do amor.
És um ser em extinção"
Companheiro Chico, estamos sintonizados!
Uma semana com algumas contendas, muitas oferendas (algumas que deveriam ter voltado pro mar), e uma lenda que virou realidade. Enfim um líder real, um Papa do Povo, para o Povo e pelo Povo! Francisco não se cansa de falar e pede que se repita para não esquecer nada: "Nenhuma família sem casa! Nenhum agricultor sem terra! Nenhum trabalhador sem direitos! Nenhuma pessoa sem a dignidade de um trabalho!" Óbvio que isso não agrada a quem enxerga aos pobres de cima para baixo ou como portal para suas caridades (e desde que esses pobres não tenham ascensão) ou como um encalço no calcanhar. O Papa não só vê e enxerga como também sente e congrega do pensamento do povo.
Mexer nas estruturas financeiras, nas posses, nas terras é algo que com certeza incomoda a burguesia. Neste caso, dividir não é uma boa operação matemática para os direitistas que veem a igreja de maneira arcaica: compram seu terreno no céu dando esmola aos pobres! E que haja pobres para que este terreno seja grandioso!
Francisco é discreto. Não é do tipo que perde tempo respondendo fundamentalistas e fanáticos via twiter, ou facebook. Ele é um homem sensato e de ações práticas. Sabe a que veio e tem a dimensão do peso de seu legado. Por mais que tenha um senso de humor invejável, quanto ao serviço não está para brincadeira. Dá a abertura necessária para o diálogo mas não se agrada com as manifestações que se fazem às escuras, o que demonstra sinal de uma instituição dividida ou em vias de deriva.
E foi justamente isso que o Cardeal norte-americano, Raymond Burke (66), insinuou em um de seus discursos, que a igreja nas mãos de Francisco é como um barco sem leme. Atos dessa estirpe são uma verdadeira sabotagem cultural e social, pra não dizer guerra de bastidores. O Papa sabe que por onde passa, há quem corra na frente para construir obstáculo que dificultem sua caminhada. Creio que ele não tema as ervas-daninhas e os espinhos que surjam pelo caminho, uma vez que seu podão está afiado.
Mas, levando em conta que os conservadores estão com espaço para suas ações temperamentais cada vez mais restrito, isso significa que as mudanças para uma igreja acolhedora estão a todo vapor, quer eles aprovem ou não. O rebaixamento desse cardeal da linhagem conservadorista, devido às críticas que fez contra as reformas na igreja, foi um golpe "fatality" no orgulho da ala esquisita. Os pilares da arrogância e da prepotência, que se camuflam de lei, foram abalados.
Enquanto os pseudo-doutores da instituição se preocupam com suas ornamentações e leis, o Papa tem-se esvaziado das honrarias de seu cargo, se fardado de trabalhador e saído à campo para a lavoura. Sua militância tem ultrapassado os muros do Vaticano. Não é apenas um mero discurso de cunho cristão. Francisco é muito mais! É um interpelo social, político, econômico, cultural que vem em forma de luta e pela defesa da dignidade de todo ser humano, principalmente dos que estão esquecidos pelas leis dos homens. Chico, eis um homem que se comunica por exemplos.
O conservadorismo que endeusa as estruturas da instituição tende a acabar. Acredito que junto com a falência desta ala, não das pessoas mas sim do pensamento que os isola num patamar diferenciado do povo (e os fazem sentir-se mais cristãos que o resto), será paralelamente o renascimento de uma igreja ainda mais cristã (nos moldes do Evangelho de Cristo) e o nascimento de uma nova geração estruturada numa fé prática, de mãos na massa.
As contendas ainda existirão mas sigamos o exemplo dele cortando o mal pela raiz e assim isolamos todo discurso fadado de fundamentalismo no reduto de sua insignificância. As oferendas, se forem de coração e com a intenção de mudança, que sejam bem vindas, caso contrário que voltem pro mar. E como este legado papal já saiu do viés lendário, pois é uma realidade mística e verdadeiramente cristã, eis a hora de abrir portas e janelas para que o novo ar adentre pelas estruturas de cada ser e de cada coração, de cada templo e pelas veias da instituição.
Valeu companheiro Chico!
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Em reconstrução!
EM RECONSTRUÇÃO!
Seria o mesmo que manutenção?
Talvez
Seria então uma nova construção?
Também
Também
Seria na verdade
antes de qualquer coisa
uma desconstrução
antes de qualquer coisa
uma desconstrução
um desarrumar
um desorganizar
um desorganizar
um encontro necessário com o caos
Pois
a partir deste é que se busca a força
o combustível que o movimentará
para uma grande tarefa
a faxina geral nos escombros da vida
a dispensa das inutilidades
a arrumação
E por que não um mero deleite
ingênuo e seguro?
Eis a necessidade de se recomeçar
de um novo jeito
de um novo jeito
um novo marco zero
um novo presente
Não se faz uma construção em cima de outra
sem antes dar-lhe os devidos ajustes e cuidados
Se necessário que se desconstrua até o alicerce
E diante do necessário
eis o inevitável
a bagunça
o cansaço
e também a dor
Derrubam-se paredes
mas jamais a lembrança
Desenham-se novas plantas
refazem as ornamentações
novos enfeites realçam o ambiente
É a vez da pedra
embrutecida no tempo
é hora de ser novamente polida
Desconstruir-se é desvendar-se
desnudar-se
dar-se uma nova chance
dar-se uma nova chance
com coragem e humildade
a certeza de querer chegar adiante
Sabe-se lá onde
Basta não ficar parado
Que se fique a experiência
a sapiência
a eloquência
a essência
sábado, 1 de novembro de 2014
O cerco e os cercados
Nascera um menino que fora capaz de mudar o mundo com seus ensinamentos. Foi filho, foi simples, foi mestre e com total maestria percorreu povos e povoados levando sempre uma palavra de esperança. Durante sua estadia neste mundo fora perseguido desde o seu nascimento. De tão humano chorou, sentiu dor, teve medo mas enfrentou sua difícil missão com obediência aceitando entregar-se à morte de cruz.
Na sociedade em que vivera, dominada por diversos grupos políticos e religiosos, sua maior missão era abrir as portas da vida aos excluídos, resgatar-lhes a fé e dar-lhes vez e voz. Tarefa ultra difícil num sistema hipócrita que facilmente condenava aos desafortunados pelo destino. Prostitutas, cobradores de impostos, ladrões, paralíticos, leprosos e outros endemoniados mais que viviam à margem desta sociedade excludente, eram estes por quem lutava e defendia.
Como todo sistema de governo, como todo modo de religiosidade hierarquicamente engessada a sociedade politicamente correta (e hipocritamente cega) fazia um verdadeiro cerco em volta de si. Colocava-se num patamar diferenciado, numa verdadeira redoma blindada, distanciando, segregando e condenando a toda gente "politicamente pecadora" que por acaso Jesus escolhera e acolhera. No centro deste cerco somente os homens e donos das leis. Não foi à toa que Sua opção era pelos sem opção alguma.
Dois mil anos se passaram e o que se percebe, aliás, o que se vê nitidamente sem precisar de esforço algum, é que o cerco ainda existe e cada vez mais os muros da exclusão se erguem rumo ao céu. Apegam-se às leis copiadas, mudadas, recriadas e deixam de lado a essência de toda a vida do Nazareno: a inclusão pelo amor. Deturpa-se a tradição e se faz uma interpretação ingênua, leviana e fundamentalista sobre os escritos da Bíblia. Usam as escrituras para condicionar a verdade ao povo de forma velada, persuadindo de forma inquisidora à permitir autonomia de pensamento, oprimindo à libertá-lo das amarras sociais. Eis o fato: condicionam a salvação como exclusividade de quem supostamente vive nos moldes ditados pela lei.
Não precisamos percorrer muito, basta adentrar os redutos da igreja e procurar saber o que algumas lideranças pregam. Será que o fundamento está na essência do amor ou na repetição da lei? Será que vale mais resgatar a vítima já excluída pelo sistema e trazê-la de volta à sua dignidade e à sua vida como um todo ou condená-la conforme as leis do tempo os seus atos, que por vezes são a última alternativa que lhe resta? Pois é, há líderes e líderes. Privilégio de conhecer pessoas de bem e o dissabor de cruzar com doutores da lei do meu tempo. Malafaia's, Feliciano's, Paulo's Ricardo's, dentre outros ícones que dão voz e força ao sistema excludente.
Numa dessas idas e vindas conheci e até participei do famoso "Cerco de Jericó", um evento que acontece em seio católico. O intuito é quebrar barreiras. O público é composto principalmente por carismáticos, simpatizantes e alguns desavisados de plantão que tiveram o senso crítico tolhido, os alienados. Há quem, ingenuamente, busca uma resposta neste evento e sem perceber o quanto lhe é imposto cede ao que lá se ritualiza em um jugo pesado e incerto. São várias explicações sobre o assunto mas não vou me ater a detalhar o que acontece lá. Para quem se interessar eis o universo internético para sanar a curiosidade ou se preferir que se confira de corpo presente e tire suas próprias conclusões.
Na primeira vez que participei confesso que fiquei assustado com algumas coisas que li no roteiro que se repetia durante todos os dias do evento. O que mais me impressionou foi quando a leitura que se fazia comunitariamente a uma só voz com todos os presentes, numa das linhas assim dizia: "Senhor Jesus, peço-vos que quebre as muralhas das doenças, sejam elas quais forem, principalmente o câncer, leucemia, depressão e AIDS, dependência do álcool, prostituição e homossexualismo; [...]".
Bom, primeiro que prostituição é uma das mais antigas profissões desde o Egito antigo. Hoje podemos considerar como escolha ou em muitos casos a impossibilidade da escolha, em outras palavras, a necessidade real de sobrevivência. Então a reza deveria ser para quebrar as muralhas do sistema e principalmente a hipocrisia dos mantenedores desse sistema, que dificultam à pessoa uma opção mais digna perante e com a sociedade.
Segundo que homossexualismo já soa mal simplesmente por seu sufixo, e apesar da ciência já ter provado e comprovado tal termo ainda insinua uma doença. O mais adequado para o estudo seria a "homossexualidade" mas é a "homo-afetividade" que está em evidência e é coerentemente aceita. Não aprofundarei no significado de cada termo. Manterei-me nas linhas da denúncia do que se faz em certos redutos cristãos e que hoje conota falta de informação e até mesmo discriminação.
Além do susto e da má impressão ainda tive um terceiro momento, o da preocupação. Ali presente estava uma pessoa em busca de algo. Literalmente assumido em sua sexualidade, um rapaz que não apenas trajava roupas femininas mas seu próprio corpo possuía tais características tão nítidas, no fundo, creio eu, buscava respeito, dignidade, espaço, aceitação, no ambiente religioso que certamente crescera. O que passaria na cabeça dessa pessoa ao ouvir uma comunidade recitando tais palavras? No mínimo, decepção, tristeza, rejeição e todas as consequências possíveis para toda a sua vida.
Hoje posso concluir muitas coisas diante do que vivenciei e experimentei. O Cerco de Jericó teve um motivo para ser criado. Porém, como tudo na história tende a mudar e tomar proporções inimagináveis, com este não fora diferente. O exagero e o fanatismo, por mãos ultra-fundamentalistas, tomaram as rédeas da situação e o distanciou do real objetivo de sua concepção. Passou a ser muito mais um instrumento de exclusão e segregação do que de cura e libertação.
Constatado a ciência que "homossexualismo" não é doença, eis que uma voz no deserto é ouvida diretamente do centro do catolicismo. O Papa Francisco tem dado abertura ao diálogo e mostrado a importância de se respeitar cada pessoa em sua condição. Seu apoio à causa tem sido de grande valia principalmente dentro do cerco da própria igreja. Criticado pelos radicais que levam tudo ao pé da letra e aclamado pela maioria religiosa, sendo uma parcela de outras denominações e confissões, Francisco tem incomodado alguns segmentos em prol de se dar voz e vez aos sem opção alguma.
Diante disso a necessidade de se refazer o circuito do Cerco é iminente. Continuar na mesma toada é que não pode e não deve. É preciso reavaliar todo o ritual uma vez que não passa pelo crivo magisterial. Mais do que isso, é preciso compreender acerca do cuidado que se deve ter para não construir muralhas ao invés de pontes, prisões à libertações, manipulação à autonomia do pensamento e liberdade.
Em nossa sociedade é fácil identificar os diversos tipos de Cercos existentes, tanto os físicos como os sociais, os visíveis e os invisíveis. Não precisa de muito esforço para se concluir e obter um resultado. Chega a ser uma questão de lógica matemática. Uma vez que o cerco selecionou os certinhos da lei, quem não teve seu nome enaltecido na lista dos reavivados simplesmente fora segregado, excluído e banido sem saber para onde ir e vir e como complemento ao jugo ainda recebe olhares a apontamentos que lhe alvejam a alma. Em outras palavras, ficou cercado do lado de fora!
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