quinta-feira, 14 de março de 2024

A hipocrisia escancarada na tal "corrente do bem"


Recentemente ouvi um termo da boca de uma pessoa conhecida. Uma tal de "corrente do bem". Não sei se isso é um movimento, um grupo, uma corrente de pensamento, mas enfim, a conotação não soa bem aos ouvidos. A primeira impressão é a de que somente está inserido neste grupelho aquele que pratica o bem. Isso foi criado por um politicozinho eleito por aquele movimento midiático (CN). Aí fica aquele mix de política e religião. E com tantos pseudo cristãos no poder e arredores, isso realmente não me soa bem. CN é um movimento elitista, uma organização rica que atua como um braço forte e radical da ICAR. Sim, os frequentadores são de todas as classes, pois são esses que sustentam as luxúrias dos artistas. Conservadorismo-coronelismo ímpar, digno de medievalismo. O deputadim cantô, ou cantô deputadim, defende interesses da classe. Óbvio. Um vendido! Um falso moralista, ou melhor, um moralista seletivo. Corrente do bem porra nenhuma! Gente hipócrita que se vende, se corrompe pela sobra de quem busca a fama. Bater no peito e dizer que faz parte da "corrente do bem" é o mesmo que dizer em alto e bom tom, que só você que faz parte é digna e só você é do bem. Hipocrisia! Se fazer parte desse grupo é ter essas posturas de falso moralismo e pseudo cristianismo, então eu to literalmente do outro lado. Minha gastrite não suporta hipocrisia. Esse povo alienado e que gosta de alienar são um perigo para a sociedade. Me oponho veemente a esse tipo de coisa. Vejo a CN como empresa do mesmo jeito que vejo a IURD. Abram os olhos porque quem fica se vangloriando por isso está alienado e quer levar seus seguidores para o mesmo caminho. Vendilhões do templo!

Devaneios solo


O mundo me cansa
Estou cansado
Fadado a acumular dores alheias
E poeiras de outras tempestades
Meus desertos, minhas cartas, minhas travessias
Vivem um dessentido imediato
Meus ventos refrescam a face
E a dor que nas costas se acumula
De fardos que teimei não descarregar
E sobrepesam meu caminhar
Que já vagueia entre nuvens de razão
Mordaças de emoção
Entre esperanças sem sentido e miragens do coração
Lá fora o barulho dos motores
Como o estrondo da explosão de outras guerras
Me invocam para as inquietações
Vivo meu calabouço de silêncio
Sentenciando-me à solidão do tédio
Ou, da espera, que me aflige
Esperas, talvez, sem porquês
A corrida agora é de um tempo
Que se perdura no limiar da passagem
Dia e noite, noite e dia
Sombras e ventanias
Que perseguem, ora varrem
As miragens, os sonhos, as dores, os amores
E ficam marcas do que nem vi acontecer
Porque, talvez, deixei de viver...
Mas, quando olho para elas,
Tenho ciência de que estive em algumas lutas,
Batalhas, becos, estradas
Perigosas, tortuosas, ardilosas,
Trincheiras e abismos
Montanhas e desertos
Ferido ou matado
Entre luas e pensamentos
Sonhos e tormentos
Apostando contra o tempo
De que em algum momento
A dor será vencida
A vida será vivida
E o amor será amado

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Relatos literários - "Sorria, você está sendo lido"


Essa semana um senhor entrou aqui no meu trabalho. É a segunda vez. Um homem de boa conversa, simples no vestir mas com assuntos que dariam horas e horas de prosa. Rico em sabedoria de vida, experiente na travessia, belo em conhecimento. O tipo de pessoa que a gente não percebe o tempo passar quando estamos juntos dela. Fala com o corpo e olha nos olhos. Apesar dos trajes simples e sujo, é um construtor que dispensa ostentação. Ele sabe que é travessia e que nesse mundo somos uns pelos outros. Ao se despedir, pegou esse pequeno livrinho nas mãos, abriu, leu, fechou e colocou de volta no lugar. Olhou-me e disse: "Esse livro faz toda uma diferença aqui na empresa. Livros fazem a diferença. Quem chegar, se não estiver de bom humor, já vai se monitorar ao ver isso aqui. Pode espantar energias ruins. Parabéns!"

Relatos Literários - "Nunca é tarde para aprender"




Relatos literários.

Há tempos venho brigando (no bom sentido) para que minha mãe lesse alguma coisa. E agora ela está empenhada na leitura do livro Persuasão, de Anselm Grün. Abordagem tranquila, linguagem simples, conteúdo profundo. E faço questão de perguntar sobre as partes que ela mais gostou. O fato dela se esforçar para transmitir com suas palavras aquilo que de fato ficou entendido é um exercício importante. 

Numa outra pegada, a 630 km de Uberlândia, meu pai (68 anos) começou a aprender a tocar viola. Quando me contou, de forma bem tímida, notei que estava com vergonha ou com receio do que eu poderia responder. Talvez, tenha imaginado que eu pudesse jogar água fria naquele pequena brasa de vontade e sonho. Simplesmente me emocionei e disse pra ele que gostaria que ele gravasse um vídeo em cada aula que fizesse e fosse me mandando. E isso tem acontecido. Ele me manda vídeos, tocando viola numa nota só, sem perder o ritmo, e cantando. Isso não deixa de ser uma leitura musical.

Algumas pessoas aqui eu conheço de longa data. Outras, um pouco mais recente. Mas, independente do tempo, aqui estão pessoas que admiro, respeito e carrego sentimentos vários. Um orgulho estar aqui com vocês. Poderia até falar um pouquinho sobre o que cada um me transmite e sem precisar dizer em palavras, mas não agora.

Que possamos continuar sendo Travessias para quem quer que cruze o nosso caminho. Nada mais apaixonante, terapêutico, libertador, regozijante e que nos enche de orgulho do que ver as pessoas que amamos buscando conhecimentos. É lindo ver crianças aprendendo a ler e escrever. É maravilhoso perceber que elas estão tomando gosto pela leitura, pois só assim terão senso-crítico, bom senso e discernimento. E é preciso, muito mesmo, convidar e motivar as pessoas de mais idade a mergulhar nesse universo literário. 

Que a leitura nos seja um alimento diário por onde quer que nossa travessia nos leve.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Felicidade não se possui - parte II



"Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura"

(Milton Nascimento - "Caçador de Mim")

Quanta mística, quanta espiritualidade, quanta sensibilidade, quanta luz... essa obra de arte carrega. E a arte tem em si, de forma tão potente, única, mágica, o poder de transcender para além de qualquer fronteira, seja em nós, seja física, seja emocional... 

E assim, retomo para a continuação de "Felicidade não se possui - parte II", caçando cada vez mais por aquilo que me possibilitará estar feliz, que seja por um momento, um tempo, um dia, uns minutos ou uma fração de segundos. Se o milagre acontece quando a gente vai à luta, que essa luta seja incansavelmente gostosa, saborosa e que cada esforço valha a pena. Se a vida se dá é no meio da travessia, como escreveu Guimarães Rosa, e eu não canso de repetir, que façamos isso intensamente. 

Bom, mergulhando de volta na questão da felicidade, penso e acredito que 
a gente nunca, nunca e nunca, seja no individual, na parceria, no coletivo, a gente nunca vai ser feliz. Sabe por quê? A felicidade não é um negócio que você vai ter e nunca mais vai te faltar. Vamos ter possibilidades de estarmos felizes em diversas situações. Podemos estar felizes fazendo o que gostamos, ao lado de quem a gente ama, e mesmo assim, estando ao lado de quem a gente ama e fazendo aquilo que gostamos, nem todo dia, nem todo momento, nem toda hora e segundo, estaremos felizes. Tristezas e decepções permeiam os momentos de felicidade. Estar ciente disso, é estar maduro o suficiente para superar todas as nuances enquanto a felicidade está ausente. A felicidade será cada vez mais constante cada vez que conseguirmos superar situações adversas.

Não existe fórmula, não existe o princípio da felicidade, não existe uma receita para a felicidade e nunca vai existir. E quem vende isso, quem coloca dessa forma, como os gurus da mística, da espiritualidade e da mídia, sejam eles, coaching's, líderes religiosos ou influencer's, que descobriram uma forma de encantar a quem, principalmente, esteja passando por um momento de fragilidade e assim vendem seus produtos em forma de receita pronta, e que tudo resolverá se você seguir o passo a passo ali descrito. Mas, e quem faz tudo o que está nesse manual e mesmo assim não consegue romper os obstáculos e tampouco alcançar ou conquistar a tão desejada felicidade? Essa pessoa estaria condenada à infelicidade eterna, fruto de suas escolhas, ou de sua falta de fé, ou de sua falta de sorte, ou abandonada pelo seu Deus ou deuses? Há uma responsabilidade muito grande quando se quer atingir públicos em massa, porque ao jogar a ideia, a fórmula pronta para todos sem saber da história de cada um é criar um mecanismo de pura concorrência, não levando em conta a individualidade de cada um. Quem conseguir encontrar a felicidade através da fórmula é merecedor e quem não conseguir, por questões das mais diversas imagináveis, pode se considerar um fracassado, um derrotado e isso impactará de tal forma negativa na vida dessa pessoa que contribuirá apenas e somente para deixa-la pior. Por isso que existe a terapia individual, que é realizada pelo profissional competente. Existe terapia de grupo, que também segue um formato devidamente ético e responsável. 

A questão é que a felicidade nunca funcionará dessa forma como os midiáticos vendem. Se não tivermos consciência de que a felicidade são momentos, estaremos fadados a nos sentir fracassados, segundo o padrão colocado pelos gurus. Fujamos dos padrões impostos, sejamos autênticos em nossa busca e em nossas escolhas. As pessoas amamos são as que mais nos deixam felizes, mas também são as que mais nos decepcionam. Uma pessoa aleatória, a qual não faz parte do nosso círculo de vida, no máximo conseguirá extrair de nós um momento de desprazer, de raiva, que poderá gerar um desentendimento. Passada a situação, seguiremos nossa vida normal sem lembrar da existência da mesma. 

Precisamos nos reeducar na forma de pensar, entender e aceitar o que de fato está na questão da felicidade. Nada vem pronto. Nada será tão fácil como padronizado nos bonitos e sensíveis discursos de quem diz ter vencido na vida após longas batalhas de superação. A busca não pode se resumir numa desenfreada luta para "ser feliz". Quero ser feliz, porque aquele "guru" é feliz e tem a receita da felicidade. Isso é balela pra vender produtos de auto ajuda, o que de fato não seria ruim, se houvesse uma responsabilidade em dizer a realidade e não a idealização inescrupulosa em palavras bonitas. Se considerarmos a felicidade como algo a ser buscado como meta, acredito que também não funciona. Felicidade não é uma linha de chegada, um topo da montanha a ser alcançada. Longe disso. A felicidade está em vários momentos da corrida, em vários pontos da subida, quando você para e contempla toda a paisagem e a natureza ao redor, por diversos ângulos e isso te sacia a alma de forma que não existem palavras capazes de descrever tamanha emoção. A felicidade está diretamente ligada ao verbo "estar". A felicidade é ação, movimento, requer atitude, requer renúncias também. 

Que sejamos capazes de ampliar nosso horizonte para captar as inúmeras paisagens, que possamos ter ciência da nossa capacidade de movimentar nossa vida e sensíveis para os momentos que de fato estamos felizes fazendo aquilo que gostamos, ou ao lado de quem amamos, ou apenas cultivando flores, narrando fatos, fazendo poemas, cantando paras os animais. Que tenhamos senso crítico e respeito por nós mesmos para que consigamos nos libertar dos padrões impostos e ter clareza que cada um é o seu próprio padrão, o seu próprio universo a ser explorado, assim como diz a música "Caçador de Mim".