domingo, 10 de outubro de 2021

Almas-Dias-Olhares


Ah!

Instantes que precederam o encontro 

Lugares na história marcados

Tradução nos olhares reencontrados

O impacto de uma batida descompassada

No brilho de uma noite enluarada

 

Dias de luta, de dores e saudades

O tempo que se fazia tão lento

Muitas luas, muitos dias a espera

Imaginando e acontecendo no silêncio

Na magia do que estava escrito

Guardando o melhor nunca vivido

Universo que conspirou a favor

Equilibrando a distância e o tempo

Simplificando cada gesto, cada momento

 

Dias de travessia

E de dor, de alegria, e agora alforria

 

Olhar que ficaram à estrada

Livres e perdidos, seguros e sofridos

Intensidade que fora das lutas 

Vai se agora esvaindo pelas noites

Esperando um novo luar, quem sabe

Intenso tanto quanto tudo o que se foi

Rumo em qualquer mar, a qualquer canto

Alma que vagueia sem o seu grande encanto


Almas - Dias - Olhares


 A.D.O.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ano 45


Queria talvez parar o tempo, voltar, controlar enfim. Mas só posso trazer de volta lembranças em forma de sonhos ou pesadelos. Reviver o que se passou é um processo de libertação de processos dolorosos, de reencontro com as vozes da sabedoria, de confronto consigo mesmo, de lágrimas de saudade, arrependimentos tardios, guerras internas e batalhas reais.
O tempo escoa feito areia pelas mãos. E as ações reverberam tempo afora. Ficam memórias, histórias, tristezas, certezas, saudades, possibilidades e sonhos. Tons, sobre-tons, sons e todas as suas derivações maiores e menores que a aquarela da vida pode entoar, cantar, pintar, poetizar...

Entre uma primavera e outra, as estações me abrigam em momentos de sonhos, fé e luta, ou me obrigam a rever os passos em cada ciclo, cada obstáculo, cada espinho, cada batalha travada, com cheiro de lona ou de vitória.

Meus poemas nascem na fonte, e a boca que a toca é única. Entre o sentimento épico sem liberdade e a muralha medieval de oposições, vivo no limiar de todas as batalhas, sem saber se haverá uma próxima vez. Pela pureza da água que corre entre os leitos e os lábios, driblando cada pedra, assim é a esperança que não dorme. Em cada manhã a porteira se abre esperando a chegada da luz que se irradia no reflexo do olhar. E como os leitos esperam a água em ciclos, o lábios esperam o beijo eterno.

Cá de dentro, já sou feliz e grato pela vida que vivi, vivo, e que ainda tenho a escrever pelas linhas deste tempo. Meu maior legado pulsa fora do meu corpo, meus meninos, meus orgulhos, o melhor de mim. E entre as estruturas familiar e de amizade toda a maldade foi sendo vencida. Meu mundo simples de poemas, leituras, artes e busca por conhecimento, cabe ainda sentimentos que se misturam entre sonhos e raízes, suor e flores.  

Sob a luz do senso-crítico tornei-me incansável combatente à hipocrisia que se disfarça na sociedade, mascarada de pseudos religiosos e corrompidos políticos. A falsidade incutida em quem se vende pelo poder não fica escondida por muito tempo. Assim, a máscara maquiada se dissolve na mesma linha de tempo que consome os dias. Há quem será lembrado de maneira honrosa por suas lutas, mesmo que o resultado seja derrota. Mas pior será para quem se vendeu e venceu sorrateiramente, este ficará à margem da história, sem honra nem glória.

O tempo de agora requer mais que reflexão, inspira cuidado para com o amor, esperança para quem não enxerga e coragem para quem se levanta. Neste ano 45, agradeço pelo que sou, pelo que me tornei, aonde cheguei. De nada valeria cada passo dado se não fosse o legado que me importa honrar, se não fosse os amigos que vivenciaram cada batalha ao meu lado, se não fosse o sentimento que me fez acreditar que tudo, tudo vale a pena. 

45 e muitos sonhos, muito desejo de viver, muita vontade de lutar. Que não me falte a coragem para viver e honrar ao sangue que corre nas veias, nas minhas e dos meus. 

"Porque metade de mim é amor
E a outra também"


domingo, 5 de setembro de 2021

Aqui dentro, minhas regras

Pelo menos aqui dentro

do meu coração,

onde ninguém vê,

eu comando meus sonhos

mais ousados

Não tem certo

Nem pecado

Só um sentimento bom

Verdadeiro e apaixonado

Aqui dentro

No meu melhor cantinho

Você é minha

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Recortes e Fotografias: arte e vida



"Hoje em dia é praticamente proibido não ser ambicioso" (Criminal - Reino Unido). Esse é um fato que observo já tem algum tempo. O comportamento das pessoas, da sociedade, grandes empresas, do mundo em si, é assim. Ambição por ganhos e lucros a qualquer custo. O crescimento só é válido se o retorno for de cunho material. Até mesmo as igrejas, em sua maioria, pregam isso através do que chamam de Teologia da Prosperidade. E muita gente cai nessa santa pegadinha. A ambição excessiva e ou obsessiva por alcançar os objetivos pode se tornar um fardo pesado na caminhada quando não há limites nem bom senso. Interessante aquela frase "a arte imita a vida e a vida imita a arte". Nesse caso, a arte imitou a vida. Uma série me trouxe à reflexão.

Dias atrás, assistindo outra série, "Quando chama o coração", com minha mãe, escutei uma frase de uma das personagens, a qual me chamou atenção para uma reflexão posterior. Anotei: "Eu não quero vencer na vida, quero viver". Parece uma simples frase de efeito, e é, porém não tão simples quanto parece. Entendo claramente que se olharmos friamente para a frase parece algo que soa como hipocrisia, pois não existe quem não queira vencer na vida. A diferença é que quem consegue aprofundar nesse pensamento, já se entende como vitorioso e feliz diante de suas conquistas e de sua vida. Claro que os bens materiais são importantes e necessários mas não estão em primeiro lugar. Nesse contexto, a personagem se dava por satisfeita vivendo sua vida em paz com a família numa cidade pacata de interior, enquanto outros a questionavam e tentavam persuadi-la a encarar novos desafios numa cidade grande. Ela já se considerava vencedora de suas escolhas e trajetória e vivendo com sua família era o ápice do sucesso.

Noutra semana me atentei para uma das músicas do Oswaldo Montenegro a qual ele enfatiza com  muita energia principalmente no refrão, que por sinal é o título da música: "Eu quero ser feliz agora". Novamente, arte e vida, vida e arte. A explosão intensa desse refrão funciona mais que um chamado, uma ordem para se viver bem, para ser feliz. Uma ordem para si e um convite para todos. Se atentarmos aos detalhes, se olharmos com clareza à nossa volta, procurando perceber além da engrenagem mecanizada que a sociedade vive, se conseguirmos nos despir das roupagens, máscaras e maquiagens que utilizamos constantemente, acredito que teremos oportunidade de rever a travessia e viver o que nos permite ser vivido. 

Viver e ser feliz, duas das maiores respostas que temos para os nossos próprios questionamentos internos. Ou que tal, melhor ainda: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!" (Gonzaguinha). E é com essa frase, que se tornou um verdadeiro grito de guerra da alegria, que deixo o recado: Nada é tão simples mas o sonho ainda não nos pode ser roubado! Diante disso, uma coisa é certa: Tenho urgência pra viver!

Recortes e Fotografias: fazendo a diferença



"Booom diiaaa!" Cumprimentou-nos a ciclista que pedalava numa das pistas que contornam o Rio Uberabinha. Estávamos fazendo uma caminhada matinal de domingo, eu e minha mãe, e cruzando com pessoas caminhando, correndo ou pedalando o tempo todo. O ambiente cercado de árvores que traz um ar de tranquilidade mistura-se por vezes com um certo mal cheiro que advém do rio. Várias pessoas nos cumprimentaram, mas essa ciclista, uma senhora por sinal, fez questão de nos cumprimentar olhando em nossa direção. Foi uma gentileza regada de vontade de transmitir um pouquinho de alegria. E toda alegria no mínimo tem de ser contagiante. 

Noutro dia, passeando com meu filho Felipe pelo shopping, entramos numa loja de tênis e numa livraria. Engraçado que sempre vamos aos mesmos lugares e o melhor é que temos praticamente os mesmos gostos. Quando eles não coincidem, sabemos exatamente que o que não me agrada, fica perfeitamente lindo nele e vice-versa. O que eu posso relatar desse dia foram duas pessoas, os dois atendentes que fizeram toda a diferença.

Na loja de tênis, o vendedor se aproximou e se colocou à disposição para me auxiliar, caso fosse preciso. Perguntei sobre tênis mais específico para uma caminhada e corrida. Ele perguntou minha preferência, e depois mostrou-me outra marca que eu não conhecia. Desse momento em diante, atento ao meu interesse e foco, ele explicou a diferença entre a marca que eu costumo usar e a que ele me apresentou. Posso dizer que foi uma aula sobre os tênis e a especificidade de cada um para determinados tipos de exercícios. Atentei-me principalmente quanto ao solado e o material inteligente que compõe todo o sistema de amortecimento de impacto que, segundo ele, não deforma o solado. É um material que depois de usado ele retorna ao estado natural. Por fim, não levei nada nesse dia mas quando resolvi, voltei com o mesmo vendedor. 

Já na loja de livros, uma perdição para meu vício, sempre tenho que me conter para não exagerar nas compras. Para mim, em especial, é um paraíso, um verdadeiro parque de diversões. Passaria horas na livraria olhando, conhecendo, experimentando um pouquinho de cada coisa e depois, com pesar, escolher apenas alguns para levar para casa. Nesse dia, em busca de alguns títulos específicos, me deparei com uma banca promocional do tipo "leve 3 e pague 2". Numa piscada eu já estava com 9 títulos à mão. Foi quando solicitei a ajuda de um vendedor. O rapaz, muito atencioso, não apenas me ajudou a escolher os 3 títulos que eu trouxe pra casa mas me levou para conhecer outros autores dentro da área que estava buscando. No final eu perguntei se ele havia feito filosofia. A resposta foi positiva e então adentramos em assuntos diversos sobre educação, filosofia, teologia e realidade. 

A diferença se faz não com belas palavras nem com atitudes para inflar o ego frente a holofotes. A coisa quanto mais simples, mais próxima da alma se achega. O bom dia da ciclista que expressava no seu olhar a vontade de transmitir alegria, a força de vontade do jovem e novato vendedor de tênis que passou um bom tempo explicando sobre as tecnologias de cada um mesmo sabendo que naquele dia eu não iria comprar nada e a transmissão de relevantes informações do vendedor de livros sobre temas variados que desprendeu tempo e boa vontade para me orientar na decisão de escolha foram verdadeiros recortes fotografados pelo click da sensibilidade e que de tão tocante fiz questão de registrar. Não sei se ainda os verei de alguma forma e nos lugares onde cruzamos, mas a experiência que me tocou é algo que é necessário compartilhar e trazer para os meus dias de forma que eu possa aprender mais e mais. São eventos do cotidianos que não precisam de diplomas nem de tecnologia mas de olhos atentos, olhos da alma.