terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Amizades pelo tempo



Ah, o tempo

Nos permite enxergar e degustar as coisas boas da vida

Com o coração de uma criança e a experiência da maturidade

Amizades que se mantiveram firmes durante os ciclos das estações

Enfrentando as secas e o calor, 

As chuvas, tempestades e o frio,

As flores e seus encantos, 

E os frutos de cada tempo

Parar um instante do dia para escrever um cartão de Natal não tem preço

Tão arcaico quanto um amor de amigos de longa data

Que dispensa grandes textos ou palavras bonitas

São pequenos gestos que trazem grandes sentidos

Mais que palavras no papel, é um presente único

Tesouro que traduz a importância da boa amizade

Na linha do tempo e da vida

Amizade no tempo, sinônimo de cumplicidade,

Carinho, respeito e amor...

Uma verdadeira flor no deserto para os dias atuais

Tão rara, tão bela, tão única...




Convenção nos autos da praça IV: memórias da praça

(*)Foto: Clube Notícia


A praça é a Praça, é o mundo, é o fundo, 

é o circo, é o recanto do justo, 

do sábio e do vagabundo

paraíso e deserto do sem teto

Filosofia da vida, dos dias, das horas 

o tempo não passa, e a vida indo embora

Dias de luta sem glória

a droga é a festa, todo dia, toda hora

Retiro do mundo, 

vazio existente na alma sem fundo

Que aos olhos do povo, a sociedade perfeita 

não tem bem, só o mal, quem ali está é só marginal

Esquece que ali, aquele que habita tem a sua história 

sua guerra sua vida, seus traumas, suas lutas sofridas 

uma família talvez

A praça é o elo perdido, último dos paraísos 

de quem se perdeu nesse plano de vida 

nesse mundo tão sujo

de batalha egoísta

No meio da praça tem a regra, a moral, 

a ética de todo marginal

cada um no seu canto, enxugando seus prantos 

ninguém rouba ninguém, todos se protegem

Tem cachorro e gato que habitam juntinhos 

ambos respeitam até o passarinho 

todos sem comida, sem casa, sem abrigo

Banho de chuva no frio, noites mal dormidas

Corpos bem colados pra se manter aquecidos

Presos por dentro, julgados por fora 

a vida é um tempo que passa e demora

esperança sem vez

Um dia quem sabe, 

um pouco de asa 

vai me levar de volta pra casa


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Crises: de fé ou de instituição? - Parte II


Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss (*) a palavra
crise vem do latim crĭsis, is que remete ao "momento de decisão, de mudança súbita". No grego krísis,eōs significa "ação ou faculdade de distinguir, decisão", por extensão, "momento decisivo, difícil", derivação do verbo grego krínō, "separar, decidir, julgar"; a palavra ganha curso em economia a partir do séc. XIX que remete à "fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão, ou vice-versa".(*)


A crise de fé pode encontrar diversas palavras para representar o momento específico bem como os meios que a ocasionaram. A zona de impacto, ou seja, o que ocorre fora do âmbito religioso é o que mais gera questionamentos no indivíduo. Ao começar a se deparar com situações que transgridem o "mar de rosas" exposto nos púlpitos sagrados, os questionamentos são inevitáveis. Após os questionamentos vêm as dúvidas e com elas o véu que ora impedia a visão começa a cair. O afastamento também pode ser entendido como uma libertação de um sistema que mantém seus fiéis como reféns da instituição religiosa, muitas vezes usando o medo do inferno como método de alienação e aprisionamento.

 

"Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso" (Melanie Klein), ou muitas vezes é tido como alguém não temente a Deus, pecador, impuro, indigno, marginal, que pelo fato de escolher não conviver e obedecer as regras institucionais, é tido como inimigo da igreja e do Deus punidor, que, certamente lhe permitirá algo de ruim como forma de castigo devido às suas escolhas e pensamentos. E quem destila esse tipo de punição são aqueles que se sentem os donos da verdade, das regras, dos templos e ousam falar em nome de Deus. Há quem acredite, tenha medo, e até se submeta, mas de certa forma também existe uma certa evolução no sentido de libertação das amarras do poder que aliena. E quem se liberta não gera lucro institucional. O mito da caverna de Platão também pode ser usado para contribuir ao pensamento.


A crise de fé não poderia ser porque a pessoa já alcançou o suficiente para não se apegar em mais nada? Neste caso o desapego é que lhe causa a crise? Tais como:
- crise de identidade espiritual, religiosa e de fé;
- perde-se o sentido de pertença.

Duas possibilidades de crises de fé - zona de conforto X zona de impacto:
- de baixo: mantendo-se na estrutura religiosa, sentindo a necessidade de permanecer nessa estrutura e então encontrar obstáculos na caminhada que facultem essa crise. Considero esse espaço como a "zona de conforto" em que a pessoa não consegue se identificar fora da estrutura e do sistema em que está inserida. Fora dele sua crise seria maior, do tipo síndrome de abstinência. 
- de cima: alcançando um topo que, já não suporta nem sustenta uma continuidade na estrutura, pois ela já se torna indiferente, existe a necessidade de se libertar. Seria essa a "zona de impacto", ou o momento em que a pessoa consegue alcançar o seu fruto do conhecimento, que lhe produz libertação, novos olhares e entendimentos.


Por fim, "Emoção X Transformação": existe um modismo explorado em diversas instituições religiosas existentes, que cultua midiaticamente encenações milagreiras que mexem com o emocional das pessoas. Ao se tratar de emoção os riscos acompanham todo o processo muito mais de forma negativa. Manter o ser humano preso emocionalmente é crime. Há igrejas que operam verdadeiras lavagens cerebrais onde as pessoas são levadas à doar o que não têm para as pseudo obras de seus dirigentes e pastores. Estes enriquecem e esbanjam suas vaidades e aquisições. A conversão pela emoção, de forma apelativamente psicológica, não é duradoura. Existem recaídas que podem levar o indivíduo abaixo do buraco em que se encontrava antes de sua inserção religiosa. Considero que a conversão é algo a ser trabalhada na realidade, sem apelos fantasiosos, pela práxis, fortalecendo a fé em seu verdadeiro tripé de estudo, oração e ação. 

Um breve histórico da palavra "crise": A palavra crise é, em história da medicina, «segundo antigas concepções, o 7.º, 14.º, 21.º ou 28.º dia que, na evolução de uma doença, constituía o momento decisivo, para a cura ou para a morte»; em medicina, trata-se de «o momento que define a evolução de uma doença para a cura ou para a morte» ou de «dor paroxística, com distúrbio funcional em um órgão». Em economia, é «fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão, ou vice-versa».

[Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss]

(*) https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-da-palavra-crise/28974

 

Evidências da vida, poesia da alma


Entre as evidências da vida e da alma 

a vida ensina o que a alma não vê 

e a alma transmite o que a vida precisa 

mas quando vida e alma sintonizam o mesmo tom

as mesmas cores e os mesmos sabores 

então nem o tempo pode fragmentar 

o sentimento que evade dessa conexão eternizada

 

Poetizar a vida com cores que a alma transcende

e que tingem os recortes entre o início e o sem fim

eternizam momentos feito retratos do tempo

pinturas expressas em sorrisos, encantos

lágrimas, suor, sangue e simplicidade

com cenários de sonho, perseverança e luta

que leva a vitória em cada capítulo 

apenas o que foi pintado em doses de amor

 

Entre os cenários de solidão de cada estação

aumenta-se a esperança do reencontro

entre o que foi sonho semeado 

e o amor cultivado 

presente no broto que nasce

de uma longa espera no tempo

que sobreviveu a tempestades e guerras

perpetradas pelos algozes mascarados

mas que jamais se rendeu 

apenas se fortaleceu, sobreviveu e viveu...




 


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Reflexões sobre a vida, suas histórias, suas memórias e a morte



Já não vejo a morte com medo, nem como inimiga que um dia terei de enfrentar. Quanto mais o tempo de vida passa, mais tenho convicção de que estou cada vez mais perto dela. Não é melancolia, nem poesia mas uma certeza tranquilizadora que só a maturidade estabelecida pelo tempo me permite olhar para este horizonte sem medo e refletir sobre toda e qualquer possibilidade. 

A morte é um fato a se enfrentar, mas também a vivenciar. Não dá para parar a vida em função do medo que ela pode causar. Deixar de viver é morrer em vida. Pior do que a morte do corpo é passar pela vida sem ter vivido, sem ter experimentado sentimentos que só quem ama é capaz de entender. Família, filhos, amizades, o amor, todo tipo de amor. Amor é doação, é cuidado, é destemido, e capaz de enfrentar qualquer possível algoz, até a morte. 

A morte que faz sim parte da vida, como um ato último antes da travessia final, antes do fechar das cortinas. Imagino a solidão do artista quando a cortina se fecha e o plateia se esvazia. O coro de palmas vai ficando cada vez menor, menos intenso até que as luzes se apagam e então é só você, o protagonista e suas memórias. Nada mais. Há quem vá levar adiante suas falas, seus pensamentos, seus gestos e não vai deixar morrer aquele riso. E é isso que te deixará eterno no coração daqueles que você ama em reciprocidade. 

E a última morada para o corpo, hoje eu entendo, o cemitério como um recanto de sonhos adormecidos na eternidade. E, como todo sonho, carrega e guarda seus anseios, seus desejos, suas frustrações, seus medos não resolvidos, e romances muitas vezes não realizados bem como histórias de amor platônico, de amizades verdadeiras e de famílias imperfeitas mas alicerçadas de amor. As vezes, me pego a olhar para cada lápide e tento imaginar o que essa pessoa viveu, no tempo que ela permaneceu aqui neste plano, o que ela sonhou, quais foram suas lutas, por quais motivos sorriu e chorou... 

Eu sei que o tempo de esperas um dia vai ser de reencontros. Reencontro com quem já se foi, reencontro com as histórias, memórias, com o amor que em vida não se viveu, com as diversas personagens que o meu eu protagonista vivenciou e assim, explicar-me sobre cada ato que até então fugia do texto e do contexto, mas que no final de cada capítulo e de cada ciclo aparecia alguma resposta e uma compreensão. 

O tempo caminha para um horizonte infinito de possibilidades. A travessia não se acaba com a morte, hoje sei disso. Quanto mais esse caminho é trilhado, mais próximo eu me sinto dos abraços e afagos de quem precedeu a partida. Se é verdade que quem vai leva um pouquinho de você, tenho certeza de que sentirei-me em casa quando esse reencontro acontecer.