quinta-feira, 12 de maio de 2022

Crítica: "O último xamã"

O filme "O último xamã" (Netflix) é simplesmente excelente! Na verdade é um documentário muito bem produzido. O protagonista é um jovem, filho de médicos americanos que, em determinado ponto da vida entra numa fase de forte depressão. Em busca de sentido para sua vida, de ressignificação de valores, de luta por sobrevivência contra seus demônios interiores, ele segue em busca de diversas alternativas para prosseguir com sua jornada. Ele mesmo estipula uma norma para si num tempo determinado para que consiga sair desse buraco, desse poço que o consome cada vez mais. Se em 10 meses não houver melhora, ele estaria decidido a tirar sua própria vida. Os relatos são preciosos e verdadeiros. Em vários momentos fiz uma comparação com fatos da minha própria vida. Muitas vezes passamos por verdadeiros desertos (tempo de silêncio e solidão), tempos de travessias (caminhos certos, incertos, obstáculos...), ou em busca de um sentido maior para nossa existência (já leram "Em busca de sentido", de Viktor Franklin?), busca de respostas para muitos fatos e acontecimentos que nos perturbam o pensamento, a memória, coisas entre filhos e pais, talvez. E, é justamente isso que na maior parte dos relatos fica nitidamente explícito. A última parada desse jovem rapaz é uma aldeia onde ele experimenta a "ayhuasca". Ele deixa claro que esse chá em si não faz mágica. Eu considero que o tempo que ele se retirou em seu próprio deserto de silêncio e solidão, em busca de respostas e libertação, em busca de seu eu (ouçam a música "Caçador de mim" de Milton Nascimento), foi o ato mais importante. Vale muito a pena assistir e refletir.

O que te faz sentido? Riqueza, status, dinheiro, poder? Qual o critério para ser feliz? O que é ser inteligente? Qual o padrão da inteligência? Sabedoria ou inteligência? Não ter complexo de inferioridade. Não precisar provar que você é inteligente. Reprogramar-se. Não tenho que me provar nada, não tenho essa ambição de provar que eu sou inteligente ou provar que eu sou bem sucedido.

“O xamã Pepe é alguém que olha o mundo e não vê matéria desprovida de espírito. Ele vê vida em tudo. Ele vê uma inteligência tecer o seu caminho pelo nosso corpo através das pedras, árvores, universo, cosmo inteiro. Uma inteligência que vai muito além de qualquer coisa que o homem seja capaz de entender ou compartilhar. 

Preciso 'voltar para casa' e organizar tudo o que aprendi aqui, para fazer as pazes com os lugares de onde eu vim. Eu não estou aqui para dominar o mundo. Eu não estou aqui para ser alguém grande. Eu estou aqui para ser uma pequena parte de algo muito maior que eu e isso é libertador. Eu encontrei um lugar de paz dentro de mim. Acho que desde que eu aprenda a viver neste centro de paz, eu acredito que todo o resto vai voltar. 

Tive que passar de reagir ao plano dela, de suas mentes. O seu plano para fazer isso não tava funcionando. Mas o que me fazia continuar era o coração deles. 

A ayhuaska não deve ser idolatrada. Não acho que a ayhuaska dê coisa alguma que já não exista dentro de você. E essa foi uma mensagem dada a mim pelos espíritos das plantas. Que a chave está dentro de mim para fazer qualquer coisa que for preciso para ficar bem. Apesar de não ter sido curado sinto que eu tinha voltado com vontade de viver. 

Um dia de cada vez. (James)”

sábado, 9 de abril de 2022

Antessalas

O medo cresce enquanto a hora marcada se aproxima. Imagino que essa seria a nossa sensação se soubéssemos o dia exato de nossa travessia final. O ambiente de espera aparenta não deixar o ponteiro do relógio girar. Não estou só. Ao meu lado está minha irmã. No meu coração, meus filhos, sentimentos, saudades, esperança. E, por mais que seja um simples procedimento, segundo a própria medicina, o medo de não voltar para as pessoas que amo é grande. A vida é boa, apesar dos obstáculos e contratempos. Meu nome é chamado por um senhor, o maqueiro. Sou conduzido para um quarto para me preparar. Banho, roupão de hospital e maca. Um atraso de mais de hora possibilitou-me um cochilo e isso de certa forma me tranquilizou. Minha irmã sempre junto. Novamente sou chamado. Dessa vez era chegada a minha vez. Deitado na maca sou conduzido por corredores até chegar numa antessala. Nesse momento me despeço da minha irmã. Um aperto por estar só. O pensamento sempre conectado pelo amor e pela saudade. O maqueiro abre uma fresta de uma porta de vidro à minha frente e fecha outra porta atrás de mim. Acima dessa porta tem um crucifixo. Sinal de fé, esperança, proteção, algo que não se explica, apenas se sente. Imagino quantas pessoas passaram por essa porta. Quantas puderam retornar para suas vidas. Quantas partiram (...). Ambiente frio e silencioso. Fixo meus olhos no crucifixo. O momento me permite uma reconexão: amor e saudade, vontade de viver, de lutar, reencontrar. Peço, diante desse silêncio, para que tudo ocorra bem. Penso fortemente em meus filhos, no amor (...). Enfermeiras passam por mim. Cruzam de uma porta à outra e me cumprimentam. Todas atenciosas. O local necessita disso, de atenção, de cuidado, de empatia, de força, necessita mais do que excelentes profissionais, mas de pessoas extremamente humanas. Enfim chega a pessoa que vai me conduzir até o centro cirúrgico. A enfermeira pega uma prancheta que está aos meus pés na maca, pergunta meu nome e verifica meus dados. Tudo certo. Ela abre a porta de vidro e enfim sou conduzido para o meu destino, o centro cirúrgico. Luzes fortes, extrema claridade, muitos aparelhos e acessórios, cinco enfermeiras, anestesista, cirurgião e assistente. Cenário perfeito de um filme. A anestesista fala comigo. Novamente verifica meus dados. Ela recebe um aviso de que em breve a minha cirurgia começará. Então, me prepara para a anestesia, a geral. Muita movimentação. O cirurgião brinca para relaxar. Tudo se volta e se resume nesse tempo: fragmentos intensos da vida e da memória. A saudade aperta. O medo de uma partida iminente incomoda. Medo de partir sem despedir (...). Um esforço interno para encontrar um pouco de tranquilidade por fora. Penso em meus avós (...). Não me sinto só. O clima está muito frio e eu recebo um cobertor. "Braços ao longo", foi essa a expressão usada pela enfermeira, conforme o pedido do médico. A anestesista termina o preparo de uma dose que será injetada em minha veia. Uma enfermeira coloca agulha na veia da mão. O líquido injetado dói. A anestesista coloca uma máscara em meu rosto e pede pra eu respirar profundamente. O cheiro é forte, remete a um éter. Começo a ficar sonolento. Reclamo da dor em minha mão. Minha voz fica fraca, minhas pernas adormecem. Um adormecimento estranho vai tomando conta do meu corpo. Sou orientado a focar na respiração e a fechar os olhos. Meu esforço ainda consciente para manter-me acordado é em vão. Não resisto... Não consigo... Não dá... Tudo escurece enquanto perco meus sentidos. Segundo o tempo do relógio, foram quase três horas apagado, sem noção da realidade, da vida, nada. Um sono profundo e silencioso. Acordo com uma voz me chamando. Estou de volta. A vida continua e a luta também. 


Crítica: "Um sonho de liberdade"

O filme é um drama que conta a história do bancário Andy Dufresne acusado e condenado a duas prisões perpétuas pelo assassinato de sua esposa e do amante dela em 1946. Na Penitenciária Estadual de Shawshank, aonde cumpre pena, torna-se amigo do detento Red, que é conhecido por conseguir quase tudo que os presos precisam. 
 
A amizade entre Andy e Red e a esperança são fatores importantes para sua sobrevivência durante os 19 anos que passou na prisão. Nesse tempo de reclusão ele sofre brutalidades e abusos, se adapta, ajuda outros detentos, os carcereiros, os guardas e até mesmo Norton, o diretor do presídio. Por conta de sua inteligência, a experiência como banqueiro, Andy se torna importante para os planos do diretor em lavar dinheiro adquirido de forma ilícita, usando o pseudônimo de Randall Stephens. Em troca, o diretor concedia-lhe alguns benefícios e o poupava do trabalho na lavanderia.
 
Brooks, que tomava conta da biblioteca, era o preso mais velho. Em 1954, após cumprir 50 anos de sua pena ele é libertado, porém não consegue se adaptar à vida fora de Shawshank e comete suicídio. 
 
Em 1965 chega à penitenciária Tommy Williams, preso por roubo. Andy e Red tornam-se amigos dele. Numa conversa Tommy conta a Andy que esteve detido em outra prisão com um cara que se gabava por ter matado um jogador de golfe famoso e sua amante, sendo que quem foi condenado foi o marido da mulher. Andy leva a informação ao diretor que se recusa a ajuda-lo. Furioso, Dufresne o interpela mas o diretor é irredutível e o manda para a solitária por 2 meses. Nesse tempo Norton arma uma cilada e mata o jovem Tommy. A partir desse evento, Andy se prepara para mudar o rumo de sua vida.
 
Alguns dias depois de cumprir 2 meses de estadia na solitária, durante a contagem dos presos pela manhã os guardas notaram que a cela de Andy estava vazia. Norton questiona os carcereiros, os guardas e Red mas ninguém sabia explicar o desaparecimento de Dufresne. Irritado, o diretor arremessa uma pedra num pôster pendurado na parede da cela e então percebe um túnel escavado com o martelo de geólogo conseguido por Red logo nos primeiros meses de Andy na Penitenciária.

Enquanto os guardas realizam sua busca, Andy se faz passar por Randall Stephens e visita vários bancos para retirar o dinheiro lavado, em seguida envia o livro de contas para um jornal local como prova da corrupção em Shawshank. A polícia chega na penitenciária e prende Hadley, o guarda chefe, enquanto Norton comete suicídio antes de ser pego.


Red é libertado depois de ficar quarenta anos preso. Ele luta para se adaptar à vida de homem livre e teme que nunca conseguirá totalmente. Ele lembra de sua promessa feita a Andy e visita Buxton, encontrando uma pequena caixa com dinheiro e uma carta pedindo para que vá até Zihuatanejo. Red viola sua condicional e viaja até Fort Hancock, Texas, para cruzar a fronteira com o México, admitindo que finalmente sente esperança. Nas praias de Zihuatanejo, Andy e Red se reencontram.

O filme é um clássico dos cinemas. Vale a pena assistir mais de uma vez. Como não poderia faltar, anotei algumas frases célebres, reflexivas, poeticamente carregadas de esperança e verdades. 

"Esses muros são estranhos. 
No começo você odeia, 
depois se acostuma. 
E, depois de muito tempo 
você fica dependente. 
Isso é que é institucionalização." 
(Red)

"Lá fora eu era um homem honesto. 
Tive que vir para a prisão 
para virar um bandido." 
(Andy)

"Todo homem tem seu limite." 
(Red)

"Alguns pássaros 
não são feitos para gaiola." 
(Andy)

"Há uma dura realidade 
a ser encarada: 
não há como sobreviver 
do lado de fora." 
(Red)

"A esperança 
é uma coisa boa, 
talvez a melhor de todas. 
E nada que é bom 
pode morrer." 
(Carta para Red)

"Estou tão emocionado que mal consigo ficar sentado e ter um pensamento fixo na mente. Acho que é a emoção que só um homem livre poder sentir. Um homem livre no início de uma longa viagem cuja conclusão é incerta. Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero rever meu amigo e apertar sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto nos meus sonhos. Espero... Tenho esperança." (Red)

"Ocupar-se de viver ou ocupar-se de morrer?" (Red)

quinta-feira, 31 de março de 2022

Saudades e Esperas no Tempo



Meu corpo se prepara todo

A espera, em qualquer momento

Que o desejo sai do sonho

E se torna realidade quando meus olhos se abrem

O tempo incerto se aproxima

A qualquer momento desse tempo de espera

O ponteiro se segura ao meu olhar

E minhas mãos gelam

Meu corpo treme entre aquecimentos, arrepios, frios

Meu estômago parece sofrer de brisas geladas

Meu organismo biológico se descompassa

E treme, e geme... gemidos

Que entoam tonalidades de cores e melodia de sabores

O descompasso se acerta numa dança de abraço

Que acalora meu ser

Acelera e desacelera até encontrar o ponto ideal

Um superaquecimento que se esvai

Num toque, num cheiro, num beijo

A porteira fechada é o sinal de que o mundo é nosso,

Só nosso

Eu e você, numa batalha de calor e amor

Uma luta agarrada de olhares penetrantes

Uma dança de almas entrelaçadas

Melodias desvairadas ao som da nossa voz

Entre a terra e o céu, eu e você

Entre o ar e o mar, você e eu

Uma travessia perfeita

Que não deveria se findar no tempo do aqui e agora

Caminhos de sentimentos num curto espaço de tempo

Que se eterniza na vida e se entranha nos corpos

Estabelecendo a conexão perfeita 

E a certeza de que esse encontro era escrito

Desde toda a existência

Entre a dança do olhar, 

Num calor sobre-humano de peles que se misturam,

As variações do prazer

Que alcançam sua mais pura plenitude

Ressignificando nosso compromisso único

O de amar incondicionalmente

É tudo o que precisamos 

Para superar o tempo de espera de um próximo momento

O tempo da realidade se finda

Enquanto o tempo do amor se concretiza, 

Se multiplica em saudades e esperas


quinta-feira, 3 de março de 2022

Cansaços

Cansaços meus ... 

Cansado de esperar o tempo

Um tempo que corta feito navalha

Que vai sangrando aos poucos

Dia após dia

Você não morre de uma vez

Vai deixando de existir de dentro pra fora

Vai perdendo o brilho, o encanto

A esperança começa a ficar cada vez mais distante

E você se encontra num deserto de silêncio e solidão

Seu riso é caricatura rasurada

Inventada por um minuto de sobrevivência

O pensamento está preso

O corpo se movimenta pela necessidade

Não mais pela vontade

Tudo é demorado

Tudo são lembranças de um recente passado

E migalhas de esperança de um tempo sonhado

Feito areia no tempo

Que o vento carrega pra longe

Uma tempestade de esperas

Sem paisagens

Só miragens

Sem verdades

Só maldades

Sem vaidades

Só...

Contradições de um deserto

Que aplica golpes de visão

Quando se pensa estar perto de uma fonte

A resposta se esconde atrás de outro monte

E a caminhada se torna mais e mais difícil

Tão desgastado eu sigo

Aqui dentro, lá fora, sem abrigo

Só o tempo que me corta feito navalha...