Andando por algumas ruas da cidade ainda é possível encontrar casas com
grades às quais nos permitem olhar para sua frente. Dessas casas uma minoria
ainda possui um canteiro com flores que ornamentam a vista. Dentre as flores,
destaque para as roseiras. As flores em si sempre me trazem boas recordações,
mas as rosas remexem no baú da saudade. Meus avós Joaquim e Iolanda tinham dois
canteiros na frente de sua casa e ali cabia uma variedade incrível de plantas e
flores. Obviamente não faltavam rosas das mais variadas cores. Vez ou outra,
alguém pedia uma rosa e minha avó ia lá cortar com cuidado. Não havia grades,
apenas um muro que de tão pequeno servia de banco nos finais de tarde em que
meu avô e alguns vizinhos sentavam-se para prosear. Era um tempo sem tantas
preocupações.
O passar dos anos fez com que meu avô colocasse grades altas em cima dos muros.
Perdemos o banco no intuito de ganhar um pouco de segurança. Hoje, a fachada da
maioria das residências tem muros altos, com cercas elétricas ou serpentinas.
Quem está dentro não consegue ver o movimento da rua e quem está fora não
consegue apreciar os canteiros que podem existir atrás dos muros. Ficamos todos
presos por dentro e por fora, reféns do medo, da insegurança e da própria
sociedade adoentada. Caminhamos para um isolamento social e as antigas e boas
relações seguem para sua extinção. Nossos filhos e netos talvez nunca possam
desfrutar das brincadeiras que um dia tivemos, na rua, ao ar livre, na chuva e
curtindo o anoitecer com o céu repleto de estrelas.
Numa outra realidade lembro-me de quando entrei para o mundo virtual,
especificamente no facebook. A possibilidade de reatar laços e manter o contato
com pessoas distantes era o máximo. Amigos de infância tinham a possibilidade
de trocar experiências, formar grupos, comunidades com interesses afins e
desenvolver bons diálogos. A possibilidade de fazer criar novas amizades também
era positiva. Tudo concorria para uma boa evolução.
Porém, com o tempo e a evolução das redes sociais, o cenário que até então era
místico, belo e com perspectivas positivas acabou se tornando um campo minado,
permitindo que as pessoas se manifestassem sem suas devidas máscaras e o
resultado é que esses espaços se tornaram palcos de guerrilhas com atenuantes
para a violência e para o ódio, sem mencionar diretamente o preconceito e o
deboche com a dor alheia que o ambiente propicia. O belo, o lúdico, a poesia, a
arte, a vida em si, perderam espaço.
Em suma, o ser humano é a sua própria desgraça. Tem olhos mas não enxerga o que
seus atos e pensamentos podem causar. Espero que a evolução seja realmente
cíclica e que num futuro não distante possamos sentir o cheiro das flores ao
passear tranquilamente pelas calçadas do seu bairro, que possamos também sentir
o cheiro das cartas perfumadas que traziam notícias de alguém tão querido, e
que a tranquilidade nos permita andar de bicicleta à luz do luar. Ou então,
caminharemos para o abismo da apatia solitária, sem amigos reais, presos em
nossa própria solidão e cercados por muros.