terça-feira, 30 de setembro de 2014

O tempo passa e nem tudo fica



Dias atrás, na data do meu último aniversário, eu e meu primo Kleber nos deparamos numa conversa que sempre se repete nessas ocasiões. "O tempo passa..."

Percebemos e frisamos: o tempo passa e a gente cada vez mais acelerado. O tempo passa e a gente reclama de não ter tempo pra mais nada. O tempo passa e nos distanciamos de pessoas queridas, não por querer, ao contrário, simplesmente porque não temos mais tempo. É fácil entender que as estradas que seguimos nos levam a lugares cada vez mais distantes de nossas origens: relacionamentos, casamentos, filhos, trabalhos, etc, nos colocam em caminhos diferentes. Ainda assim, sentimos que poderíamos fazer algo a mais, desacelerando um pouco que seja de nossas árduas jornadas.

Pior mesmo é quando nossos encontros ocorrem forçadamente diante de algum fato onde a morte, que chega sem avisar, tira do nosso meio pessoas que tanto amamos. Eis que a consciência nos cobra sem piedade. E assim choramos, lamentamos e intimamente nos condenamos pelo excesso da correria e da falta de tempo.

O tempo passa (...) e a gente mais uma vez se acostuma com a correria e se vira com a falta dele. E novamente num aniversário próximo estaremos nos cumprimentando e mais uma vez nos cobrando pela nossa incansável correria que tanto tempo nos consome.

Do mais, seguiremos caminhando, ora correndo, ora andando, apreciando o que a vida nos proporcionar...

E que nossos encontros, independente do tempo, seja regado de saudade, de amizade, de alegrias e nostalgias, sempre em família.








segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Doce criança


Doce criança correndo na praça, na calçada
É roubada de sua vida
Emudecida e ferida
Sob ordens sobrevive sufocada

Corre criança de volta ao interior
O portão não se abre por fora
Tens a chave nas mãos e na dor
Cabelos ao vento, o tempo é agora

Canta criança, sem medo e grita
O mundo te espera, o céu te escuta
Desconstrói este muro, está aqui fora a vida
É calor, é amor, é o sonho, é a luta

Criança feliz, ninguém te possui nem te destrói
Ninguém te governa, ninguém te amedronta
A chuva te lava, o amor reconstrói
Teu suor e teu sangue com fé te levantam

Eterna criança, beleza eterna
De olhos tão vivos, tão sincera e serena
Vai ao campo da vida, segue livre o caminho
No interior do teu ser não caminhas sozinha

Há um lugar...  mas que tu saias de ti
Há um vazio mas há vida na travessia
Do outro lado da cerca uma alma em alegria
É o sol, é o amor esperando por ti

"O ser, como ser, sem poder ser como realmente é ou sonha ser. A criança presa ou represada em cada adulto ainda grita, chora e lamenta em seu interior. Interior que carrega a chave e o segredo desse sentimento que também é dor. A liberdade está como o sol a iluminar, basta abrir a porta e as janelas... basta querer."

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

13870 dias ao tempo


As datas cravam na linha do tempo eventos únicos que os olhares puderam registrar. Cada fato, cada ato, independente ou correlacionado assim fica marcado na história que se entrelaça entre as pessoas e seus mundos.

Um certo dia, numa certa manhã, foi assim que o mundo me sorriu em boas vindas. Nada de extraordinário acontecera nas vésperas. Tranquilidade no ar, normalidade na rotina e em sua quebra nos dias que estariam por vir.

Reconheci meus heróis, meus pilares, meus amores, minhas flores... Encantamento que se desabrochava em cada manhã e me colocava a sonhar pelas noites estreladas que acometiam o pensamento do futuro incerto. Heróis que também foram vilões em muitas cenas dessa história. Pilares que sucumbiram de forma a me apresentar o medo. Amores que as tempestades distanciaram, lavaram ou levaram, e por vezes reapareceram em outras águas. Flores perfumadas, maravilhosas, mas que defenderam-se com seus espinhos, e colheram o sangue de meus toques.

Eis o mundo! Tal como ele é: quente e frio, doce e amargo, manso e feroz, presente e ausente... De transeuntes descalibrados e sem ideal, que vivem apenas a diagnosticar e reinventar fórmulas para continuar no topo da cadeia alimentar ou no mínimo em sua escalada... E onde o alimento para tal demência é o sangue escorrido e sofrido no suor de quem não tem voz... nem vez... Foi o que vi, ora apenas assisti, noutras eu interferi, tudo isso durante essa trajetória até aqui.

Mas, a história é maior. Os fatos são incontáveis. Os atos, infinitos. Os entroncamentos das águas e suas bifurcações costuraram terras e céus até o mar em que hoje estou. Muito sonho, muita música, muita poesia... olhos atentos no cenário aberto sob o sol que promove a luz e sob a lua que encanta e romantiza ou espanta e amedronta. 

No balançado do balanço empurrado pelo vento que lembra as mãos de quem deixou saudades e permanece vivo na memória e no coração, no saldo dessa trajetória, ainda em busca da batida perfeita, o segredo sempre estará a espera de ser desvendado. A existência que não seja vã! Entre loucos e espertos, continuo com a sinceridade dos primeiros. E continuarei sendo frente de oposição em prol da verdade libertadora, nem que seja por um exército de meia dúzia de libertados, nem que seja pela Fé no criador tão somente...

Tantas luas, tantos verões, estações por onde passei, mares que velejei, caminhos que percorri, por vezes solitário em meio à presença de todos, banido sem sair do meu corpo, esquecido pelo meu pensamento e querido por um olhar (...) em cada lugar que o tempo me levou. E no tempo de hoje, restabeleço a ordem ao caos ou o vice-versa quando oportuno e necessário for para que a poesia seja vida e sendo viva que o seja desprendida de toda arrogância e norma que os donos do topo impuserem.

Na renovação de cada dia, os votos de agradecimento ao Deus da vida, pela eternidade do tempo de cada momento escrito, desenhado, atuado e poetizado no palco ainda iluminado, se fazem presentes do nascer ao por do sol, da meia luz da sombreada lua ao seu desaparecer. Ao Deus da vida elevo meu coração e agradeço com uma canção em forma de oração, cantando no pensamento expondo em cada olhar que ainda enxergo nesta terra a caminhar... 13880 (*) dias ao tempo... Tempo bom, tempo de saudades, tempo que ainda há de vir e de ser...



(*) 13870 + 10 dias referentes aos anos bissextos durante o período.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Sacrário e a Rosa - parte II



Incrível como as pessoas tem a capacidade de ver a mesma coisa, o mesmo objeto, o mesmo movimento, o mesmo ato, porém cada uma consegue enxergar um algo de diferente, ou talvez, enxergar além do que a cena aparenta ou apresenta.

O recorte da imagem que um dia vi levou-me a enxergar esse algo além. Visualizei uma cena viva sobre a paisagem estática e inerte do silêncio orante que pairava no pequeno espaço de contemplação e oração. Tal fato possibilitou-me uma viagem do pensamento e no tempo.

Certa vez, chegando à igreja num domingo de Missa, dirigi-me, como de costume, diretamente aonde o Santíssimo permanece. Foi então que vi uma flor depositada por sobre o Sacrário de madeira. Tal fato causou-me tamanho vislumbre que fiz questão de escrever para que o registro que meus olhos encontraram e vislumbraram jamais se perdesse da memória. Cravei então nas linhas do tempo "O Sacrário e a Rosa" (http://escritosemtempos.blogspot.com.br/2011/12/o-sacrario-e-rosa.html). 

A forma que a flor estava colocada sobre a madeira do pequeno Templo abriu caminho para uma emocionante contemplação. Fui além da primeira imagem. Ela, a flor, parecia querer abraçar aquele Templo. Parecia um corpo repousando incansavelmente aos pés de um outro corpo. Era uma rosa branca... Maria a mãe de Jesus, abraçando e acolhendo e amparando seu Filho em diversos momentos e ocasiões, desde o nascimento até à sua crucificação e morte...

Experiência e sentimento únicos e exclusivamente meus. Impossíveis de transpô-los ao poema. Pensei que talvez faltara emoção nas palavras. Li e reli várias vezes. Não havia o que acrescentar nem o que retirar. Era o retrato escrito daquilo que eu encontrei e enxerguei. Talvez outras pessoas tenham visto e até enxergado coisa semelhante ao que meus olhos visualizaram mas com certeza tiveram um pensamento ou experiência diferentes da minha. 

Momentos únicos, exclusivos e até mesmo individuais, onde somos o protagonista solitário e sem plateia, acontecem repentinamente em nossa vida corrida. Muito do que encontramos e sentimos não há como recontar, nem como partilhar no mesmo teor. A graça e a felicidade só coube a quem se atentou para receber. 


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A velha senhora e o seu velho cachorro


Todos os dias, entre uma jornada e outra, um período e outro, passo quase sempre pelas mesmas avenidas, ruas e ruelas até o destino que me aguarda. Entre idas e vindas, recorto com olhares atentos as paisagens que a sobrevivente natureza teima tanto em presentear a quem pouco se importa com ela. Contemplo as mesmas paisagens, por vezes os mesmos personagens, cada um com sua pressa e seus afazeres. Tantas vidas que se cruzam. Tantos destinos que seguem, cada um rumo ao seu objetivo. 

Sigo um protocolo no tempo, pra não chamar de uma rotina sã, que de certa forma me guia para um determinado fim. Em meio a tantas regras é permitido ainda apreciar, degustar, aprender e crescer. Basta que haja um minuto de desatenção, desatenção daquilo que nos aprisiona sem mesmo sabermos direito como e porquê. Basta uma boa dose de "vida" no âmbito de cada regra. 

Seguir o protocolo, ou melhor, as regras não é o problema. Eles foram criados, de certa forma, para gerar segurança e facilidades, no mínimo. O maior mal nisso é que as pessoas, com o tempo, ficam tão habituadas em cumprir com suas tarefas que acabam se tornando verdadeiras máquinas. Tão frias e descuidadas de si mesmas, como esperar que se atentem a enxergar o belo nos detalhes que as cercam?

E num desses cruzamentos em fim de tarde, após o expediente de trabalho, quase sempre encontro uma velha senhora passeando com seu velho cachorro. De vestido florido e longo, uma blusinha de lã por cima, meias e sandálias, que por meus olhos e sentimentalismo poderia muito bem dizer que está tipicamente de vovó. 

Segue a senhora num lento caminhar, com uma das mãos apoiando numa bengala e a outra segurando o seu companheiro. Ele, o cão, com uma certa vestimenta, de coleira e bem cuidado, também segue no ritmo de sua dona. Ambos não têm mais a pressa ou a necessidade de se cumprir com as regras que virariam rotina. O protocolo que cumprem nos fins de tarde na verdade não o são. São meros momentos destinados ao deleite, ao desfrute da companhia fiel. 

Por vezes me pergunto se é a senhora que leva o cão ou o cão que conduz a senhora. Não sei. E também não me importa. O que sinto e degusto sem palavras, no silêncio do coração é que há uma mística nesse protocolo. Há uma pureza nos detalhes, nas ações repetidas de todos os dias. Este sentimento, se assim posso dizer dessas sensações que me guiam à reflexão, simplesmente não tem explicação. É preciso apenas se atentar.

Nunca sei quanto tempo dura o passeio da velha senhora juntamente com o seu velho cachorro. O protocolo que sigo, na rotina do tempo, ou o tempo em si, não me permitem sequer acompanhá-los para saber mais, para apreciar mais aquilo que eu ainda não sei fazer com calma. Não sei nada desta personagem que cruza o meu caminho, sem mesmo saber que já se tornou parte do enredo de meus pensamentos e reflexões. Não sei de sua escolaridade ou se ela tem, além do seu fiel cãozinho, filhos, marido, parentes... Enfim, nada sei.  

E assim, como esta dupla que me encanta nos dias que os encontro, existem tantos outros personagens de naturezas diversas, pressas variadas, temperamentos absurdos que atravessam nossos caminhos feito vento. Não vemos de onde vem, nem para onde vai, mas que de certa forma sentimos, ou vemos, ou assistimos, ou sorrimos, ou quem sabe, além do protocolo, aprendamos vivendo...

Por mais um dia, de vida, que vivo e cumpro sagradamente no protocolo diário, estabeleço a relação mística e sacra com a própria vida, dádiva e divina, à qual me impulsiona e me faz atentar a não me tornar refém de uma rotina fria e sem sabor. Com tantos personagens que meus olhos vislumbram, com tantos cenários que eles enxergam e recortam, faço deste desfecho um agradecimento silencioso ao Deus da Vida que com ela me (nos) presenteou (...).