segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Teus rastros

Na cortina que se desata nas manhãs de ausências
Sigo enlouquecido, de motivos desprovido
Desimportando com o imundo real
Improvisando melodias, entre gritos de agonia
Caçando teus sinais e as significâncias reinventando

Nas tardes de meio sol, sem sol, sem eloquência
Caminho pelo solo virgem de pensamentos adormecidos
Acordando das miragens sem o teu sinal
Resfriando o sangue e salvando o coração sem sintonia
Caçando teu cheiro no tempo que segue de ti me levando

No desfecho que acerca as noites de solidão e sem tua essência
Sobrevoo tantos mares, lugares, altares, infinitos
Guerreando contra o destino, traquino e tão mau 
Buscando tua alma, tua alegria
Caçando teus rastros, por ti vou sobrevivendo

Dança comigo

Na última das danças
Sob o êxtase da paixão
Mergulha-se na profundeza 
Da clausura das estrelas
À libertar a lua do firmamento
Ao som profundo do tempo
A noite desacortinada
Libertada da criação
Reserva com exclusividade
Sua cama, sua terra
Aos corações em extinção
Dança comigo!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Asas podadas renascem

Quis o destino lutar contra o tempo
Rasgou o limite do céu e secou o mar
Invadiu à espreita o sagrado do meu sertão
Fechou a cortina da janela de minh'alma
Cortou-me as asas e roubou-me o sonho
Sequestrou de mim, sem cautela, o vento
Para que o meu amor eu não pudesse alcançar
Enterrou minhas próprias lágrimas no ar
E na terra sangrou minha alma
Asfixiou os meus planos
E carregou minhas asas para longe
As asas do meu anjo por quem lateja o coração
Mas para onde quer que elas voem
Voltarão um dia para me buscar
Afinal, anjos não voam só
E o destino já fadado em seu próprio inferno
Não sobreviverá o suficiente para intervir no tempo
Asas podadas renascem e se abraçam para o voo eterno

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O menino contra o mundo

Este menino num é normal
Diziam os parentes da família
Anda muito do sem sal, 
Não brinca, não briga nem reza
Não corre, é mole, é prostrado
Chega de parecer um retardado
O menino apenas fingia
Que nada via nem ouvia
Aos olhos de todos, emudecido
Mas por dentro jamais calado
Os pais levaram pra benzer
Indicação de alguns vizinhos
Dona Antônia senhora vivida
Rezava direito e curava ferida
À moda antiga era o seu jeito
Vento virado
Cortava o quebranto
Cuidava de um tudo
O que se pode ver
E do que não se sabia
Desfechava com sabedoria
Um forte "bendito ao fruto"
Mas o menino prosseguia
Em seu mundo consciente
Estudava com seriedade
Sobrava responsabilidade
E sonhava sempre à frente
Com suas insanas ousadias
A família não se aguentava
Todo mundo o estranhava
Levaram pro médico examinar
Ele é sadio, não tem nada
Disse o doutor das causas loucas
Os pais ao pastor foram procurar
Que arrancou demonhos com reza braba
Aleluia, amém e glória ele repetia
Numa tremenda gritaria
E o menino só se ria
De tanta graça a se sobrar
De toda gente que se o levou
Pra encontrar alguma cura
Somente o padre desconfiou
Que o menino era sonhador
Coração bom, cabeça pura
E se derramava a alma em tamanho amor
Aconselhou então os senhores pais
A visitar um ancião
Que vivia na solidão
Numa tapera ao pé da serra
Homem simples e muito sábio
Não tinha muito vocabulário
Porque gostava de escutar o tempo
Chegando lá naquele chão
Regado de cores em tantas flores
Tinha um cercado sem porteira
E lá embaixo da ribanceira
Passava um rio sereno e doce
O menino não se continha
Sentia a terra, juntava pedrinhas
Parecia um serelepe
Corre daqui, corre de lá
E o velho veio os encontrar
Os pais o explicaram do menino
E o velho calado, olhos fechados
Sentado permanecia
E dormindo parecia
Só depois de tanto assunto
Sua voz rasgou em prosa
E das flores colheu uma rosa
Entregando ao menino
Que sentado ao lado observava
Tão atento não piscava
Não tem nada esse rapazinho
Se o demonho existe 
Não está nele não senhor
Se alguém contraria e persiste
A encontrar razão e causar pavor
Desconhece a vida e o que é o amor
Não adianta reza, nem benzimento 
Esse menino vive seu tempo
De um jeito que vocês sabem não
Deixem ele ser livre pra sonhar
E muitos frutos irá vos dar
Ele tem um bom coração
Os pais se entreolharam
E mais assustados ficaram
Mas o senhor é um profeta?
No que o velho respondeu
Não, sou avô e sou poeta
E minha vida foi na lida
Pouco estudo e muito esforço
De menino até ser moço
Descobri que amava a vida
Tão mais simples que se podia
E assim como vocês agora
Meus pais me levaram pra fora
Pra curar minha absurdez
Até que encontraram por este mundo
Um senhor de olhar profundo
Que bastou uma só vez
Sorriu pra mim num abraço forte
Mostrando que existe um norte
Pra toda gente de boa fé
Esse menino só precisa 
Do seu tempo, seu carinho
Pra jamais sentir sozinho
E logo mais sua alegria
Se eternizará com poesia

Nas rédeas de cada sonho

Meu sonho não tem regra
Não tem cerca, não tem prumo 
Quando durmo dou-lhe trégua
Acordado dou-lhe o rumo
Se dormindo é sem consenso
Faz o que bem quer comigo
Eu nas rédeas do meu tempo
Vivo-o com ou sem perigo

Meu sonho não tem segredo
É traquino e sorrateiro
Vive a paixão sem medo
Foge do destino traiçoeiro
A vida em sonho é eloquente
Desbrava reinos e conquista o amor
Para além dos céus transcende
E materializa o desejo em cor

Meu sonho não espera fatos
Corre insano ladeira acima
Se aventura por entre os matos
Só pra ver os olhos da menina
No sonho não existe o errado
É vida que se arrisca em guerra
É brasa que liberta o pecado
É amor que fecunda a terra