terça-feira, 11 de outubro de 2016

Travessias de um Rio


 Na vida que se faz vida
Um Rio que abraça memórias
Sem temer a própria morte
Segue o destino com maestria
Rio que traz e leva a vida
Conduz em seu leito histórias
Deriva em si à própria sorte
Traquino e menino em travessia

No espírito da água da vida
O Rio é a sua própria teologia
Com seus cantos e irrestritas danças
Rompe as margens sua espiritualidade
Espírito de um Rio de vida
Que ao próprio ego silencia
Dissipa, limpa e dá de si em esperança
Travessias de um Rio em liberdade

Ah, se todo mundo tivesse um Rio
Se o espírito do Rio habitasse o mundo
Se a liberdade fosse uma mera travessia
Se a travessia não se perdesse em liberdades
Ah, se toda vida respeitasse o Rio
Se o próprio Rio não tivesse roubada sua vida
Se a espiritualidade fosse mais vivida que falada
Se a fala imposta não lhe usurpasse a espiritualidade

Travessias de um Rio...


(*) Fotos: Rio Paranapanema - por A.D.O.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O jardim da saudade

 
Sobre a mureta do terraço debruçada
Medindo com o tempo as primaveras 
Arqueadas sobre a pequena entrada
Enquanto dançam as rosas em ritmo de velas

O vento carrega pra terra seu pranto
Como se sua alma escapasse de si
E buscasse um elo escondido em cada canto 
Ao som do silêncio que reconhece a dor do fim

Teu olhar vagueia por entre as flores
Buscando conforto na esperança dos dias
Superando os espinhos, tristezas e dores
Remediando a ausência com reza e poesia

Velha senhora que me trouxe o amor
Por suas mãos a direção e o caminho, 
No silêncio do olhar a resposta em flor
Em teu colo o aconchego e o carinho

Reencontro seu sorriso em cada recanto
Onde há flor que brota sem vaidade
Conforto minh'alma com versos e cantos
Quando ouço sua voz no jardim da saudade

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A estrela do sertão

Clamando meus sustenidos menores
Do esquecido sótão de minhas lembranças
Onde o calor e a inquietude ressoam melodias vivas
E a alma se deleita aquecida em sonhos ausentes
A declamar notas de saudades à estrela do meu sertão

No insinuante luar que se lança ao meu deserto em flores
Onde o mar deixara pedras em caminhos de esperança
Lá da varanda da palhoça o meu olhar persegue a tua brisa
Buscando teu cheiro na memória de um futuro presente
Rasgando o tempo que se demora em descompassar meu coração

Sem a estrela, a estrada perde o perfume e o encanto 
Tanto quanto a luz do olhar perde o foco e o brilho
Aquela janela adormece sem vida na penumbra de tua ausência
E o vento arrasta a alma contra o muro da solidão
A me acordar do devaneio febril da latente saudade 

Almejo ainda, andarilhar sem destino e dançando
Contra o tempo que me roubou a cena e os trilhos
Seguindo pelo céu e sintonizando da alma a tua frequência
Cantando às flores, ao mundo, ao sertão do coração
Em notas de improviso, de ternura, a dois, na eternidade

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O capeta anda mal falado no bairro

Meu bairro é o bicho pegando. Tem de tudo e para todos os gostos. Gente boa, bonita, rezadeira, trabalhadeira e que pega no batente antes mesmo da lua se esconder. Mas tem também a galera da muvuca, das noitadas, das quebradas, da vadiagem, da fuleiragem, os que gostam da marvada pinga, os fãs do cigarrinho do barato doido e os que incorporam o demonho. E o episódio de hoje é sobre um desses possuídos.

As igrejas neo-pentecostais, aquelas da teologia da prosperidade, bem como algumas alas católicas, têm investido alto na implantação da cultura do medo. Capetizando a torto e a direito, vão massificando os fieis sob a tutela de suas exageradas leis e consequentemente propagando a condenação ao inferno quando os mesmos não caem em suas pregações alienantes. A expansão dos templos, com denominações criativamente diversas, é simplesmente fenomenal e a busca por um lugar que contemple os anseios pessoais de cada fiel se caracteriza na constante migração de uma igreja para outra. Na verdade é um cliente que de fiel não tem nada.

A partir desse ponto e com tanta informação sobre o capiroto (demonização, capetização, possuimento), os fieis são portadores de um conhecimento típico dos pregadores despreparados que usurpam a boa fé das pessoas de bem. 

Chegando no bairro, novamente me deparo com umas trinta pessoas na esquina ao redor de um rapaz que, no exato momento, estava seguro por um outro homem. Perguntei para um telespectador o que havia acontecido: "Tá possuído! Tá com o demônio no corpo! Mas aqui não tem ninguém com o Espírito Santo, capaz de fazer ele ficar bom!"

O conhecimento popular não me permitiu hesitar nem por um minuto e já perguntei na lata: "Ele usa drogas?" E foi quando a senhora respondeu: "Tinha parado..." Bom, não sub-julgando e nem condenando (...), mas outro dia uma mulher estava endemoniada na avenida principal aqui do bairro. Enquanto o pastor tentava curá-la eu liguei pros Bombeiros. Ela tomou uma injeção ungida de glicose que a fez reencontrar sua paz. Cessaram os gritos, os coices, as vozes esquisitas, os choros, os risos, os palavrões e ficou somente uma espécie de amnésia necessária, típica de quem bebeu todas e tem vergonha de se lembrar dos episódios passados.

Tomei o rumo de casa e passei devagar próximo às pessoas que assistiam o rapaz, que segundo os especialistas populares de plantão, estava possuído e não havia nenhum ungido ali capaz de fazer uma descapetização. Nesse caso, nada melhor do que uma glicose benta para tirar qualquer encosto e livrar o capeta dos falatórios exagerados. 

"Toca", terrinha boa! Sempre tem um bom causo...

Acredito que em Piraju essas coisas não aconteçam.

O colapso dos hipócritas: inocentes, cegos ou coniventes?

Nos últimos anos a intolerância e o discurso de ódio têm crescido abruptamente ultrapassando as telas das redes sociais e partindo para as vias de fato do mundo real. Pregações de violência e morte são pontos altos nas discussões visando como alvo aquele que não comunga de sua ideia. As minorias que o digam quando o preconceito e a discriminação materializam-se nas vozes de líderes políticos e religiosos. Alguns pseudo-cidadãos despolitizados e bipolarizados entendem tais discursos como um hino que os instiga a segregar e exterminar a qualquer custo as tais minorias.

No quesito política as discussões se pautam sempre e somente na podridão que o outro partido carrega. Óbvio que ninguém vai levantar provas contra si mas convenhamos, não há partido sem corrupção e tampouco sem corrupto. Infelizmente! Por outro lado existe muita segregação política em alguns seguimentos da justiça partidarista que têm dois pesos e duas medidas, sempre em função de cada legenda.

Na questão religiosa, algum tempo atrás uma adolescente (do Candomblé) levou uma pedrada na cabeça. A pedra veio de um cristão fundamentalista. O motivo? Não se sabe mas dá para ter uma ideia a partir dos discursos de alguns líderes religiosos. O que será que eles pregam na diversidade de templos cristãos? Não precisa ir muito longe. O pastor Marco Feliciano, por exemplo, também deputado, pregou certa vez que o povo da África era um povo amaldiçoado por ser descendente de Caim e por isso sofria as devidas consequências de miséria. Suas declarações insanas se pautavam na bíblia.

Cristãos de carteirinha (fundamentalistas, sejam eles católicos, evangélicos, protestantes, etc) que esquentam os bancos dos templos e vivem sob a tutela das leis morais da instituição são os que mais disseminam o ódio além das cercas religiosas. Defensores de ideologias partidárias se destroem em palavras enquanto os políticos que ganham (e não é pouco) para fazer o exercício do bem comum manipulam as leis em benefício próprio ou de seus partidos.

Estamos num fronte de batalha, ora social, ora religiosa, ora política. No momento, cada um por si. Não se deve permitir que a inocência, nem a cegueira e muito menos a conivência parcial assolem os nossos pensamentos. Ser conivente com qualquer situação que não vise interesse real para o bem comum e a justiça é atolar-se na lama da hipocrisia...