quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Encontros, desencontros e reencontros



A história por trás da música "Amigos, passe o tempo que passar". 

Comecei a escrever essa história em setembro de 2020. Estávamos na pandemia. Reunimos num grupo de whatssap, os participantes do grupo de canto da comunidade de Nossa Senhora Aparecida, na vila Cantizani. Já fazem mais de 30 anos... Reunimos a maior parte dos integrantes da época, gravamos uma música e homenageamos a nossa coordenadora, Ivone.

Para falar da música é preciso contar um pouco dessa história e voltar no tempo. O ano devia ser 1988 ou talvez 89. Uma das coisas mais almejadas na Comunidade de Nossa Senhora Aparecida, ou Comunidade de Cantizani, era participar do Grupo de Canto que, na época era coordenado pela Ivone. A bandeira de cor verde, que representava nossa querida comunidade, era algo que transcendia nossas emoções. Era motivo de orgulho fazer parte dessa comunidade e continua sendo orgulho fazer parte dessa história.

Nesse ano (88/89) no corredor da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, após o término de uma missa de domingo, recebi o convite da Ivone para fazer parte do grupo de canto. Justamente nesse exato momento, o Fábio passava por nós, e num impulso eu pedi pra Ivone deixá-lo participar também. E assim, lá estávamos nós. Esse foi nosso primeiro grupo. Os anos seguintes seriam uma espera para podermos participar dos grupos de adolescentes, uma vez que só podia entrar quem concluísse a Crisma. 

O grupo de canto da Ivone, como era chamado recebeu um nome, "Grupo de Canto Irmãs Cristiane e Iolanda", uma homenagem a essas irmãs que se dedicaram à nossa Comunidade com muita humildade e amor. Foi nesse grupo que crescemos, amadurecemos, vivenciamos crises típicas da idade, enfim vivemos muitas coisas e a mais bela foi a amizade. Passeios, retiros, festivais, bailinhos, Missas, procissões, vivemos o esplendor de nossa adolescência, aproveitando ao máximo os momentos de cada encontro. Amizades que foram o alicerce de nossas vidas. 

Uma das coisas que mais me consumia era o fato de saber que muitos ali daquele grupo iriam trilhar seus caminhos fora de Piraju, fora da comunidade, distante daquele grupo: "Nunca te esquecerei e as nossas brincadeiras". Eu não queria deixar aquele grupo, aquelas amizades. Na minha mente, ninguém deveria sair. "Sentirei saudades se for mesmo embora". Eu sabia dos planos futuros dos meus amigos e amigas. Infelizmente em algum momento todos partiriam para algum canto. 

Aquele grupo de canto e de amigos, era algo motivador, inspirador. A música marcava as relações, os dias, e também o nosso crescimento. Coisas típicas da adolescência, tínhamos uma espécie de superproteção um pelo outro. 

Da Cantizani para o whatssap, assim foi o nosso reencontro, que de fato aconteceu na melhor hora. Foi ótimo reencontrar os amigos, recordar momentos, matar a saudade.

Penso que toda a inspiração da música "Amigo" só foi causada devido a tudo o que vivemos e da forma como vivemos. Se não fossem amizades sólidas da época talvez a música nem existisse e se existisse talvez não faria sentido algum. 

"Passe o tempo que passar
Pinte o clima que pintar
Você sempre vai estar no meu coração
Porque amigo és tu que me amparou quando eu mais precisei
Do meu lado, te encontrei... AMIGO"

(03/09/2020)

terça-feira, 12 de maio de 2020

O valor de todas as coisas

Foto: Por do sol - A.D.O. - 2015

Tenho uma certa mania de olhar para coisas descartadas à margem das ruas, nas calçadas, em qualquer lugar e logo imagino no que aquilo pode se transformar. Acostumado desde sempre a guardar objetos sem valor e até sem serventia, tenho acumulado ao longo dos anos um verdadeiro arsenal de futilidades ora deixadas pela natureza ora descartadas pelo ser humano. É certo que qualquer coisa deixada pela natureza acaba se transformando em parte da própria natureza. Em outras palavras "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", afirmou Lavoisier (1743-1794)

Trago comigo algumas lições que aprendi com meus avôs e faço questão de sempre lembrar aos meus filhos e amigos. Meu avô materno, Joaquim, num certo episódio quando eu tinha uns 16 anos, ao me ver com dificuldades para atravessar uma corda por dentro da fita de uma rede de vôlei, arrumou um galho de árvore, afinou a ponta e fez ali uma espécie de guia. Em menos de 5 minutos a corda estava passada de ponta a ponta. E pensar que antes dessa mãozinha genial do meu avô, eu levei mais de 40 minutos para passar apenas uns 2 metros de corda... 

Já com meu avô paterno, Benedito, por diversas vezes cheguei de surpresa em sua casa e presenciei ele consertando trincas na parede, colocando amarrações de ferro, arrumando encanamento. Verdadeiros homens não letrados mas de uma sabedoria ímpar. Ensinaram-me, muitas vezes sem dizer uma palavra, apenas com o olhar atento e repleto de afeto, saberes que nenhuma escola me proporcionou. Essa é a escola da vida, da minha vida!

Talvez, diante de tanta lição de vida que me foi deixada no silêncio do olhar e na saudade, é que faço questão de cultivar o simples, o improviso, olhando para as coisas deixadas e descartadas e vendo ali uma possibilidade de mudança, de transformação. Posso dizer que não vejo coisas, eu vejo arte!

E por isso, quando posso, dispenso a facilidade de comprar o pronto. Me nego a aceitar que só exista a opção do já pronto, até porque a maioria é descartável. As coisas não são duráveis. Entendo que a lei do mercado seja essa "vender algo que não dure". Objetos como a mesa e as cadeiras que meus avós maternos ganharam de presente de casamento e hoje estão comigo, perfeitos, intactos, não destruídos pelo tempo, dificilmente são comercializados. Quando se encontra algo assim, de qualidade duradoura, o preço é praticamente inacessível.

Novamente, prefiro a opção imaginada e criada, da construção que se torna única para cada objeto. O caixote que virou mesa, o pneu que virou assento, a casca do coqueito que se transformou em abajur, a tábua de passar que virou carrinho de rolemã, e por aí vai. Sem contar os inúmeros improvisos para consertar coisas, usando apenas objetos desse arsenal de futilidades descartáveis. 

Transformar, construir, lapidar, são ações que provocam mudanças não apenas no objeto em si, mas no cenário, no olhar de quem se presta a enxergar a arte no simples e principalmente no pensamento. Precisamos de tão pouco para essa vida mas acabamos lutando ou brigando por conquistas materiais, que por vezes servem apenas para satisfazer o nosso ego de ter. 

Encontrar valor nas pequenas coisas, transformá-las e dar vida, é mais que arte, é poesia. Sou um verdadeiro amante do simples, da vida... Sou apenas um sonhador do tempo... Nas palavras do grande cantor Vander Lee, na música "Alma Nua"

"A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta"




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Carta para a próxima vida


O mundo me cansou... Por muito tempo não o reconheci mais como o meu lugar. Até porque as pessoas que sempre foram minhas referências, partiram cedo demais e deixaram aquele vazio, que por vezes parecem sombras no meio do caminho... 

 Me esforço para reencontrá-los entre as flores, os versos, as melodias... mas tem dias que não são dias, são pedacinhos de um inferno inimaginável que teimo em sobreviver como a uma guerra. Me esforço e me reencontro com seus rostos pairados à minha frente reverberando frases, pensamentos, conselhos... e muita saudade.

Meu violão também sucumbiu ao cansaço de um tempo pálido e frio. Sem acordes sofreu com a ausência da vibração de suas cordas e vez ou outra soava tristemente quando algumas notas lhe eram tocadas... Sua madeira, também já cansada pelo tempo, lamentava o tempo sem DÓ.

Meus versos, se perdiam entre os espaçamentos do tempo. Vez ou outra brotavam faíscas de esperança, em olhares que me refletiam amor, amores... que de tão sem jeito, se tornavam perfeitos. 

Minha voz deixou de gritar... Mãos sem lutas e pés sem caminho levaram o corpo ao desequilíbrio do coração. Meu avesso tornou-se refúgio e somente poucos e loucos recebiam o convite do olhar, a sentar-se comigo no alpendre da alma... território íntimo, simples, selvagem, seleto, intenso e verdadeiro.

O mundo sempre foi o palco mais habitado da vida. Cortinas, holofotes, improvisos, risos e lágrimas... A plateia? Ah, do palco do meu coração só permiti os olhares benditos e amorosos. Descartei e expulsei do meu cenário tudo o que não condizia com o enredo... Matei meus próprios demônios. Enraizou o que sempre foi real, único e, novamente, intenso e verdadeiro.

Certas cenas eternizaram-se pela janela da alma e no lugar dos olhares já partido, plantei flores. Fiz o meu próprio memorial com versos de suor, lágrimas e sangue. Reguei a saudade do que ficou oculto entre os brilhos de cada olhar, bem lá no horizonte, onde a fonte do verbo amar jamais deixou de derramar...

Olho pelo retrovisor e vejo que sim, o mundo me cansou, mas encontrei na poesia do amor, o descanso para os olhos, o coração e a alma.


Isolamento mental


O que já estava ruim ficou pior. Momento crítico que a humanidade vive. Não bastasse todo tipo de atrocidade natural já existente, ainda somos obrigados a aturar aquelas geradas no útero humano, ou em certos casos, no intestino que ocupou o lugar do cérebro. 

Exato! Tem muita gente que só diz e só faz merda! E continuam fazendo porque encontram público fiel que, não apenas é conivente com a situação, ficando em silêncio, mas apoia literalmente ações que vão contra a razão e a natureza humanas. 

Não tem como torcer para isso crescer e dar certo! Merda não cresce e não dá certo, apenas fede! 

Ainda me deparo, no dia a dia, com pessoas que criticam o passado político do país para justificar o apoio a este retardado eleito. Injustificável! 

E, em meio a essa pandemia, enquanto nos protegemos com procedimentos e cuidados, máscaras, álcool gel e isolamento social, percebo com maior clareza que muitos rostos sempre utilizaram máscaras para realizar aquele discurso com requintes de falsa moral na tentativa de justificar seus atos. Falsa moral que está enraizada em canteiros religiosos. 

Hoje, entendo que o maior isolamento que precisamos realizar é o mental. E isso se dá de forma curta, direta e, se necessária, grossa, principalmente. 

Blindar a nossa mente e colaborar com as pessoas que amamos, que estão à nossa volta, para que não entrem no transe dos retardados que dizem amém e acham graça diante das desgraças do idiota no poder e seus asseclas, é um grande passo. 

Não dá pra pra bancar o inocente e fingir que o problema não é meu. Não dá pra se fazer de ignorante e dizer que a culpa não é sua. Não dá, principalmente, pra tolerar quem é conivente. Conivente com retardado, retardado é! E ponto! 

Se você gostou, ótimo! Se não gostou, foda-se!!!

quinta-feira, 7 de maio de 2020

E o que restará de nós?



E o que restará de nós?
Presos por fora de nós mesmos
Preocupados com o aquilo que conquistamos
Seguimos pautando nosso tempo
Em controversas decisões alheias
Aguçando o ego frio da falta de essência

E o que restará de nós?
Mazelas de raças insensíveis
Guardiões da história, da (falta) memória e do mal
Autor e vítima de seus atos e desgraças
Com juízos aguçados na pseudo-moral
Com interesses terceiros e obscuros
A perder-se nas sombras das aparências

O mundo perdeu o juízo
O ser humano perdeu a alma
E a vida deixou de ser plena
E então o amor virou ódio
A paz virou guerra 
E, novamente a vida ficou sem valor
Sob as mãos de quem deveria cuidar
E o que restará de nós, 
sem alma, sem amor, sem vida...?